Ismail Kadaré – O Jantar Errado (Darka e gabuar)

darka e gabuarToda vez que eu faço um post sobre o Ismail Kadaré aqui nessa espelunca eu perco cinco fãs no Brasil e ganho vinte na Albânia. Até hoje tem gente de lá que entra aqui todo dia procurando pelos livros desse simpático sujeito triste que tem a responsabilidade moral de colocar seu diminuto país no mapa e na rota da literatura. O Jantar Errado é seu mais recente romance mas, veja bem, é de 2009. Contudo, não quero ninguém reclamando do delay de quatro anos. Primeiro, porque esse delay é bem menor que o delay do cinema da minha vila, que acredito estar exibindo Titanic por esses dias. Segundo, porque se o Brasil não tivesse Bernardo Joffily, vocês estariam chupando o dedo ou se contentando com traduções indiretas do francês. E tradução indireta é que nem usar duas camisinhas, vocês sabem. O nosso grande Joffily, que até onde sei, também é editor do portal Vermelho.org (a esquerda bem informada, diziam eles), talvez seja nosso único tradutor direto do albanês, mas a sorte dele é que a demanda também não é muita, porque a gente só conhece um escritor da Albânia. Então tá tudo certo.

Pois bem. De todos os livros que eu já li do Ismail Kadaré, O Jantar Errado foi o que eu menos gostei. E vejam que eu tenho a envergadura moral mesmo para espinafrar um auto que eu gosto e conheço muito. Quer dizer, para ser justo, li seis livros dele: Abril Despedaçado, Dossiê H, O Acidente, Uma Questão de Loucura e Vida, Jogo e Morte de Lul Mazrek. Então estou assim, no limiar entre conhecer pouco e conhecer muito da obra de um autor. Gosto de pensar que estou no caminho certo. Ok, então, se a gente pegar três desses livros – Dossiê H, o Acidente e O Jantar Errado – e colocá-los nessa ordem, cronológica (Abril Despedaçado é de antes desses, Uma Questão de Loucura não conta porque é autobiográfico e Lul Mazrek pode ser um ponto fora da curva, vai), dá pra perceber que o autor foi “evoluindo” numa linha de distanciamento do núcleo da narrativa em favor de um sobrevoo geral sobre toda a ambientação do romance. Esse livro é o ponto máximo desse movimento. A história começa falando de dois médicos, o Guramento Grande e o Guramento Pequeno. Os dois tem o mesmo sobrenome, e por causa disso os dois são alvo de comparação para qualquer coisa. Primeiro erro já tá aí. Que introduçãozinha sem vergonha, hein? Conheço gente que faz oficina de escrita criativa que bola coisa melhor do que isso. Bom, mas aí o Guramento Grande ganha mais destaque na história quando o exército nazista (ah tá, o livro se passa na segunda guerra, alright?) invade Girokastra, que é onde se passa o livro e também onde Kadaré nasceu (ele até cita uns parentes dele como figurantes no livro), e o general malvadão vai pra casa do Guramento pra um jantar, porque ele estudou na Alemanha e eles se conheceram lá. O exército prende uma porrada de gente logo de cara como represália por um levante de resistência contra os nazis na entrada da cidade e ele programa a execução de todos eles como forma de retaliação. E aí o Guramento pede pro general malvadão liberar os presos, e ele realmente libera. Só que ninguém sabe a custo de quê, e tampouco o que aconteceu nesse jantar misterioso.

Ismail Kadaré 4Pronto, a partir daí a história entra numa pira meio David Lynch de não explicar direito o que tá acontecendo e ainda conseguir a proeza de te deixar com cagaço da história. Porque aí tem chantagem, gente que não é gente, gente que já morreu e não sabe, enfim, toda a sorte de reviravoltas digna de um Revenge (vocês assistem a esse programa? Recomendo pra quem gosta de ver barraco e climão) que não necessariamente deixam o livro mais interessante de se ler. Isso porque existe algo na literatura do Kadaré que a torna extremamente dispersiva. Não ruim, apenas… dispersiva. Ela requer uma imersão maior na leitura, e ele cobra isso de você com passagens aparentemente insignificantes que se tornam maiores depois.

E agora vocês me perguntariam, “tá, Yuri, mas o que isso tem a ver com o lance do sobrevoo geral sobre o ambiente do romance?”. E eu respondo. Tem a ver que praticamente a primeira metade do livro é narrada de longe. O narrador onisciente passa pela vila fazendo um recorte dos melhores boatos que a população faz sobre a invasão, o jantar, os nazistas e tudo mais, e se constrói isso: um clima geral de vozes anônimas e aparentemente coletivas. Só que você, leitor esperto que lê o Livrada!, sabe que o recorte do narrador já é parcial por si só, e esse clima já está comprometido desde o começo, até porque não aparecem personagens com cara para confirmar esses boatos depois. O resultado, na minha modesta opinião, é porco, e, de novo, saberia encontrar gente em oficina de escrita criativa que bolaria um jeito melhor de retratar o clima da cidade.

Já pelo meio do livro você já flagra como ele vai acabar, se você é desses para quem o mistério é parte principal da experiência de ler um livro. E acho que pro Kadaré é mesmo parte principal, porque o cara discute muito pouca coisa além do romance. E isso é outra coisa que eu não gosto. Acho que ele já foi muito mais preocupado em mostrar as contradições e as idiossincrasias do povo e do país, e agora ele resolveu fazer um fast-pace mixuruca. Fast-pace mesmo, li em um ou dois dias. E o final em si, bem, não é lá essas coisas. É só mais um final triste de um livro do Kadaré que certamente não será sua obra mais lembrada.

Ainda assim, o livro, enquanto objeto, continua uma obra muito bonita graças a não-tão-caprichada-edição-da-Companhia-das-letras-que-ainda-assim-é-mais caprichada-que-qualquer-livro-que-você-acha-por-aí. Papel de boa gramatura, fonte Electra, a minha favorita e uma capa que ainda que não seja inteiramente do meu agrado, orna com a recente mudança no planejamento gráfico dos livros do autor e exatamente por isso me agrada.

Comentário final: 164 páginas de puuuuuuura boataria.

Lev Tolstói – A Sonata a Kreutzer (Крейцерова соната)

Крейцерова сонатаTolstói, galera! Esse russo maluco não deixa pedra sobre pedra quando resolve falar sobre as coisas que incomodam seu coraçãozinho. Mais especialmente, sobre suas ideias sobre casamento. O doido já havia escrito Anna Kariênina quando publicou esse tresloucado e surpreendentemente convicente A Sonata a Kreutzer que não, não é um livro sobre a pungente obra de Beethoven, outro malucão a seu modo, e igualmente brilhante. E só pra avisar os desavisados, esse aqui tem spoiler, e se você acha que isso é um impeditivo pra você, sai do meu blog e vai ler policial do Jô Soares, seu mané.

Falemos um pouco de Tolstói. Vejamos… Tolstói era como um Lobão russo, guardadas as devidas proporções. Ele era muito popular já em sua época, e tudo o que ele falava valia ouro, mas aí ele começou a pirar na batatinha e lá pelo fim da vida dele, só tinha ideia maluca que ninguém levava a sério, embora nunca deixassem de tê-lo na mais alta conta. Não, acho que ele não era bem um Lobão russo, ninguém nunca levou o Lobão muito a sério e ele nunca foi muito popular… Digamos, um Mario Vargas Llosa russo. Pronto, agora preciso ficar importando analogia do Peru… francamente. Esse, meus senhores, é o país que vai receber uma Copa do Mundo. Vão vendo.

Enfim, aqui nesse livro Tolstói expôs sua real ideia sobre o matrimônio. Diz ele, basicamente, que não há como manter um casamento por tanto tempo. É uma ideia arcaica, inventada por gente que não queria saber de dividir riquezas em tempos extremamente monótonos. A única forma de ser casado pro resto da vida é ou ser infiel, ou ser abstêmio ou matar a esposa. Ele coloca essa ideia por meio da história de Pozdnyshev, um sujeito intrometido que entreouve uma conversa e começa um monólogo que basicamente é o livro inteiro. Ele conta então como escapou da condenação pelo assassinato da própria esposa.

Ele conta como tudo começou muito bem entre eles até começarem as briguinhas de casal. Uma parada insignificante e o outro já está gritando, e cada palavra dita é mal-interpretada, pervertida em seu significado e jogada contra quem a proferiu – algo que todo mundo que já namorou uma pessoa maluca pode entender –, aquela paz de espírito que nunca chega e, se chega, dura só um pouquinho e vai embora, etc. Vida dura.

Liev TolstoiNo meio disso tudo, surge um violinista. O sujeito é suave e ligeiro, e chega de conversinha pedindo umas coisas para nosso protagonista, mas trava nas quatro quando vê a esposa. Aí surge um pretexto de tocarem juntos, já que ela toca piano também, e o resto dá pra imaginar. O Pozdnyshev até aproxima os dois só pra ver a reação da mulher, que dubiamente rechaça o violinista, não se sabe se por cinismo ou verdadeiramente. Mas ela vai se aproximando dele, com aquela cara de “mas não é minha culpa!”, e o marido vai se roendo de ódio. Até que inventam de se apresentarem juntos, e agora o cara descobre que o potencial Ricardão agora está visitando sua esposa quando ele não está em casa. A peça escolhida é justamente a Sonata a Kreutzer. Agora, sobre isso, é importante dizer duas coisas. A- Tolstói era um cara que levava a música muito a sério, do tipo que chorava todas as vezes que escutava uma música triste, e se irritava quando não entendia que tipo de sentimento a música em questão queria lhe transmitir. B- Tolstói odiava Beethoven, como odiava qualquer compositor clássico, mas talvez um pouco mais. Ele achava que a verdadeira música vinha do povo – os funks e arrochas eslavos, por assim dizer – e que esse povo metido a besta que faz música clássica quer mesmo é ficar mostrando virtuosismo e ganhar dinheiro com uma arte belíssima e pura. Junte A + B e você consegue imaginar o furacão de sentimentos para o qual um personagem tolstoiano é arremessado ao ouvir a Sonata a Kreutzer, um petardo das sonatas para piano e violino, quem já ouviu sabe. O primeiro movimento, em especial, tem uma grandiloquência que não combina com nenhum evento menor como o proposto pelo romance. Já não lembro qual era, acho que era o equivalente ao nosso churrascão de domingo. Imagine tocar Beethoven no churrascão de domingo, uma situação em que até um Caetano Veloso já soa demais. Isso tudo deu para o personagem a ideia de que a potência da música dizia respeito não ao evento, mas à relação velada desses dois. Pronto, agora os momentos finais eu deixo para o leitor se deleitar, porque eu mando spoiler na testa dos recalcados, mas também não fico entregando as paradas desnecessariamente. Viu como eu sou bonzinho.

Muito engraçado a forma como os críticos do livro – o tradutor, o grande Boris Schaiderman (somos todos gratos pelo seu trabalho, ó grande Boris) e o maluquete que fez a orelha – se empenham para falar que as ideias de Tolstoi sobre o casamento são todas furadas e que não dá pra levar a sério uma porcaria dessas. Mas a verdade é que Tolstói é muito convicente em sua argumentação, e suas ideias, longe de serem tresloucadas, são frutos de uma conexão íntima do homem moderno com seu passado evolutivo. O homem que se questiona onde o motor da história falhou e deu origem a esse projeto utópico de civilização, com sentimentos e valores maiores do que a própria humanidade em si, falha e abjeta como só ela. Coisas como o amor, a devoção matrimonial, todo esse pacote de cultura deísta que a prática já mostrou ser furada completa para 99% das pessoas, e agora o sujeito precisa conviver com isso, pois questionar esses valores, como Tolstói fez, é perigosíssimo, um atentado capaz de ruir a sociedade por dentro. Afinal, quase todo mundo sabe que ela se escora apenas em seus próprios dogmas. Aliás, dogma é uma parada que foi inventada para sustentar paradas insustentáveis, não acham? Se acharem, por favor, façam uma imagem com a minha foto e essa frase circularem no Facebook. “Dogma é uma parada que foi inventada para sustentar paradas insustentáveis” – Livrada! Conto com vocês.

Mas eu acho que a razão pela qual o livro é tão rechaçado é sua suposta misoginia. Tolstói esculacha a mulherada nesse livro com frases do tipo: “As mulheres procedem exatamente como os judeus, que se vingam por seu poderio financeiro da opressão que lhes é infligida”. BOOM! Ou: “”Assim como aquelas (as prostitutas) aplicam todos os seus recursos para atrair os homens, fazem estas também. Nenhuma diferença. Numa distinção rigorosa, deve-se apenas dizer que as prostitutas a curto prazo são geralmente desprezadas, e as mulheres a prazo longo, respeitadasBOOM BOOM BOOM BOOM. E nessa toada ele aproveita para, paradoxalmente, meter o pau no sexo, o verdadeiro motivo da ruína de nossa civilização, segundo ele. Claro, ninguém em sã consciência falaria mal do sexo ou das mulheres, mas é aí que está. Tolstói está se referindo ao sexo e às mulheres tal qual são apresentadas na sociedade. A primeira, um ser tratado como inferior que busca ardis para dar sentido a uma existência passiva; o segundo, como a extensão do domínio da luta, já dizia nosso querido Michel Houellebecq. Sim, diz Tolstói, do jeito que estão, as coisas estão podres, e ele não necessariamente propõe nada melhor do que a abstinência sexual, mas faz sua denúncia com categoria.

Enfim, cabe aí a crítica do grande Tolstói a nossos valores defasados. E temos mais uma história de ciúmes, traição, vingança e purgação, para se somar a tantas outras obras dessa flor de obsessão da literatura russa. Tudo isso vem embalado nesse projetinho maravilhoso da Editora 34, essa linda que gosta mesmo é de clássicos de qualidade e capricha na edição, quer você goste do livro ou não. Papel pólen, fonte Sabon, xilogravura de Emil Nolde (alemães também fazem xilogravura, qualé?), e tradutores competentíssimos que têm a maior paciência do mundo pra te explicar tudo o que você não entende sobre a Rússia e seus russos. Como não gostar?

Comentário final: 113 páginas de papel pólen soft. Dogma é uma parada que foi inventada para sustentar paradas insustentáveis.

Nikolai Gogól – Tarás Bulba (Тара́с Бу́льба)

Тара́с Бу́льбаTalvez a personagem mais rasa de toda a história do Breaking Bad, a Marie, cunhada do Walter White é, ainda assim, mais profunda que boa parte dos protagonistas de seriados que a gente vê por aí – e olha que ela é uma secundária bem secundária. Seu bordão favorito diz: “Na dúvida… roxo”, referindo-se a sua cor favorita, uma tentativa desesperada da personagem de acrescentar mistério e complexidade a uma personalidade tão calcada na inveja e na ostentação.

A frase da Marie pode ser adaptada aqui para meus propósitos: “Na dúvida…russos”. Ora, eis aí você, entediado com a mesmice da estética urbana da literatura brasileira contemporânea. Russos. Você aí que reclama que a emergente literatura americana não fala ao seu coração. Russos. Você que reclama que o mérito literário é ofuscado pela especulação editorial. Russos. Você que não gosta de ler uma boa história que seja apenas uma boa história, desprovida de maiores significados. Russos.

A literatura russa, meus camaradinhas, é o elixir da vida literária, uma fonte quase inesgotável de bom paladar. Os russos são praticamente os Globetrotters da fina arte de colocar uma palavra na frente da outra até virar obra-prima. E Nikolai Gogól, que na verdade era ucraniano, mas como naquela época era tudo a mesma coisa, é fagocitado pelo dream team da literatura europeia do século 19. E essa pequena novelinha, intitulada Tarás Bulba, ilustra bem a potência da escrita desse cara. Vamos a ela.

Publicada em 1835, na época em que a Ucrânica morava na casinha de cachorro no quintal da Polônia, Tarás Bulba é um clássico folclórico-épico-powerviolence, uma dessas histórias bem fundamentadas no espírito cossaco, que é uma espécie de gaúcho mais macho e mais bêbado. E, aliás, essa é a coisa boa da literatura russa: todos os livros falam sobre a Rússia. Na dúvida sobre algum simbolismo de obra russa? Pode ter 90% de certeza de que o elemento que você está tentando decifrar simboliza a pátria-mãe de maneira geral.

Tarás Bulba é o nome do velhinho protagonista. Ele tem dois filhos, Óstap e Andrií, que regressam ao lar depois de terminar seus estudos. Ora, o Bulba é um cara das antigas, da época em que escola era coisa de grã-fino, e com medo dos filhos emboiolarem, resolve pegar os dois e se alistar junto com eles nas tropas zaporogas, que eram uns cabras machos que em tempos outros lutavam e matavam, mas que então só bebiam. Ele chega acelerado. “Vamo matá uns cabras aí!”, ele teria dito, mas seus superiores só suspiraram e disseram. “Mas a gente assinou contrato de paz com meio mundo, não tem com quem brigar”. Então eles vagueiam e vagueiam até descobrir uma pinimba mínima com os judeus poloneses que estariam extorquindo seus irmãos de pátria, e partem pra lá com toda fúria cristã junto com uns tártaros que por acaso estavam ali de bobeira. Só que aí o Andrií conhece uma polaca ajeitada e bandeia pro lado de lá no meio de um cerco. Pronto, está armado o grande livro de guerra que vocês vão ler se tiverem algum juízo.

Микола ГогольBom, a primeira coisa a se considerar é que Tarás Bulba foi um dos primeiros livros a enaltecer gente de baixo, gente do povão, gente que a Regina Casé entrevista pro Fantástico. Com isso, veio também o uso de expressões populares e uma certa aura de anjo tosco para dar digamos… cor local pra essa galera. Muito xingamento, bebedeira, porradaria e um ritual de coroação de general muito do escroto, com lama na cabeça e tals. Isso tudo faz com que os cossacos sejam uma galera muito cool, e muito valentona, tipo um Leões da Fabulosa eslava.

Agora, de uma maneira geral, é possível fazer uma leitura elitista da obra também. Dá pra ver, só pela cara, que o Gogól não é exatamente um cara que veio das streets, né? Bom, daí que a história toda tem, em seu desenvolvimento, um simbolismo global, razão pela qual, inclusive, Tarás Bulba faz parte de uma série de novelas chamada Mírgorod (algo como Cidade do Mundo, e fiquei orgulhoso porque consegui traduzir essa expressão sozinho). Cabe que a mãe dos moleques fica chorando em silêncio vendo os filhos letrados saindo pra guerra por causa do pai velho. É como se toda a terra russa, numa ânsia para se ocidentalizar e, antes de tudo, vestir a coleção outono-inverno da civilização, se atrasasse toda por conta da vibe ogra e ongonorante dos cossacos, uma verdadeira pedra no sapato da civilidade, ainda que amplamente adorados por suas histórias fantásticas de façanhas incríveis, capaz de arrastar até mesmo as novas gerações letradas e comportadas para os olhos franceses. Isso se traduz inclusive durante a primeira metade da história, quando os cossacos não acham com quem brigar e muitos pisam na bola feio com as tropas por conta das bebedeiras. Ou seja, nem pra porrada mais essa galera serve. Mas aí, da metade pro final, entra a celebração ucraniana, doa a quem doer, apesar dos pesares, grandes heróis e muito honrados sim senhor, mas ao mesmo tempo os diminui pelos vacilos constantes. Ou seja, não é nem a figura do herói nem a do completo anti-herói que temos aqui, mas o começo da decadência cossaca explorada em toda sua complexidade humana. Gogól é assim, um cara dividido entre o mundo ao qual pertence e que necessariamente é antagônico ao mundo da ogrisse, e o mundo da celebração folclórica. É tipo você gostar de Lampião pela seu banditismo por uma questão de classe, mas ficar puto quando uma moça é estuprada na sua cidade. Shame on you, aliás.

Esse livro faz parte da Coleção Leste, da editora 34, e tem tradução direta de Nivaldo dos Santos, que está para Paulo Bezerra, Rubens Figueiredo e Boris Schneiderman como Van Damme está para Stallone, Schwarzenegger e Chuck Norris. É um cara bom demais, mas subestimado ante seus pares, acredito. O sujeito trabalhou numa rádio em Moscou, galera, isso é muito tr00 pra tradutores. Pensem nisso. O livro conta com um pequeno posfácio dele, que contextualiza a obra na história, é impresso em papel pólen, fonte Sabon e uma belíssima ilustração de ninguém menos que Delacroix. Gente refinada é outra coisa.

PS: Daqui a uma semana tiro férias e o blog vai ficar parado por um mês e meio. Pode ser que esse seja o último post antes do recesso, porque tô na semana dos preparativos pra viagem. Mas se der tempo, faço outro pra próxima segunda.

Comentário final: 170 páginas em papel pólen. Cacete na cossacada!

valter hugo mãe – o apocalipse dos trabalhadores

valter hugo mãeNão vou mentir. Quando conheci a literatura de valter hugo mãe (novamente sem maiúsculas), fiquei abismado. Ali estava alguém que debulhava como poucos a tal prosa poética que muitos queriam conseguir, naquele então novo a máquina de fazer espanhóis. Para quem não lembra, a resenha está aqui. Logo depois veio o Filho de Mil Homens, dessa vez com maiúsculas, e, novamente, uma cacetada literária em quem tava de bobeira esperando a nova revelação literária vinda do Rio Grande do Sul (já foram praquele lugar? Como alguém bem disse, você levanta uma pedra e saem vinte contistas. Eu hein?). Por isso, não quis nem saber e peguei a nova edição da Cosac Naify de o apocalipse dos trabalhadores, que mais tarde descobri ser um livro anterior à máquina. Esse pequeno detalhe muda em muita coisa minha avaliação do livro, mas vejamos uma e depois a outra, com uma sinopse antes.

O romance do portuga tem dois núcleos, como compete à maioria de seus livros. O primeiro é o de Maria das Graças (vou colocar os maiúsculos aqui porque toda vez o Word quer me corrigir e é um saco ter que ficar voltando os espaços, tira a fluidez do texto. Valtão, se estiver me lendo, desculpa aí), uma doméstica que tem pesadelos recorrentes de que morre e precisa se justificar diante de São Pedro pra poder entrar no céu. Na ilusão dela, quem a mata é o Sr. Francisco, seu patrão, aquele tipo de homem que dá uns catos na empregada de vez em quando, sabe como é, uma coisa muito década de 80/90 aqui no Brasil, mas uma prática possivelmente ainda em voga em Portugal, já que o tempo do romance é posterior a entrada do país na zona do Euro. De qualquer forma, a relação entre a Maria e o Francisco é conflituosa, pois ela nutre uma relação de amor e ódio com o homem, por considerá-lo culto, mas por outro lado, por ser um velho asqueroso, ainda que fascinante, e por explorá-la como qualquer patrão pré-PEC das domésticas. O outro núcleo é conectado a esse pela confidente da Maria, a Quitéria, uma moçoila que também é doméstica e se envolve com o Andriy, um imigrante ucraniano novinho. A história dele é bem mais interessante do que a da doméstica. O sujeito tem um pai louco com mania de perseguição, e a mãe dele é uma senhorinha resignada, que tenta aplacar a loucura do marido e se conformar de ter o filho longe – ei, não é muito diferente da esposa do Tarás Bulba, hein? Será que houve uma inspiração Gogolística aí? Enfim, daí que ele chega com uma mão na frente e outra atrás a Bragança e vai aprender a fazer pizza, e se envolve com a Quitéria, que tem por ele ternura e admiração. Ah, e ela e a Maria fazem freela de carpideira, que é tipo palhaço de festa, só que pra enterro, e triste ao invés de feliz.

valter hugo mãeBom, esse é o núcleo da trama, e pra frente disso é spoiler e eu tô meio de saco cheio de ter que ficar avisando que tal coisa tem spoiler ou não e direcionar o que o leitor pode ler e o que não pode. Taí um texto que served pra todo mundo menos pra acadêmico que gosta de ficar dissecando palavra por palavra das coisas. Aqui vou fazer agora algo mais leve e solto, e relatar minhas impressões do livro e nada mais por hoje, porque análise a essa hora da noite é algo que foge à minha alçada. Bom, aqui temos os temas que o mãe usa pra maioria de seus romances: solidão, amor, morte e gente feia (na verdade, esse último é subjetivo, mas eu sempre imagino todos os personagens do vhm mais feios que a necessidade). E são temas que ele explorou bem melhor em seus últimos dois romances, o que me leva a inadiável verdade: não gostei desse livro. Nem de longe vemos aqui o lirismo e a acurácia poética que o autor mostrou ter em trabalhos futuros, e muito menos histórias instigantes. Temos é uma literatura morna e sem muitas jogadas além de adjetivações estranhas e comparações despropositadas. É claro que se entende que a questão toda gira em torno de pessoas que buscam uma vida melhor, seja o imigrante, seja o trabalhador explorado, e o sonho com a morte da Maria tem a ver com essa mudança de vida pra melhor. Mas o livro não se resolve tão bem quanto eu gostaria, e oferece poucas coisas surpreendentes, coisas surpreendentes com as quais nos acostumamos com facilidade lendo o valter hugo. Enfim, é um livro ruim se comparado com os outros, mas um livro bom se comparado com a média nacional. Acho que tudo seria melhor se ele colocasse mais umas viagens no meio, mas isso é só minha opinião. Enfim, a culpa é dele que elevou demais minhas expectativas com sua obra. Continue assim, champs.

Coisa boa é a edição da Cosacnaify que, como sempre, capricha na arte, embora seja bem verdade que ninguém até hoje conseguiu fazer frente à arte do glorioso Lourenço Mutarelli na edição brasileira da máquina de fazer espanhóis. Em todo caso, a colagem parece apropriada para dar o colorido triste que o romance sugere. Senti falta de uma orelha explicando o livro, gosto de ter uma pequena sinopse antes de começar a leitura. É, sou desses. Mas tudo bem.

Comentário final: 192 páginas em papel pólen. Porrada no trabalhador que se esforça com ardor, quando reclama é infrator, um dia de fome, um dia de dor. Suando pra ganhar mixaria, trabalha duro todo dia, trabalha como um condenado por um salário minguado, metralha o trabalhador sem hesitar um instante. “todo preto é safado, confundi com assaltante”. Metralha o trabalhador quando sai da favela, e seu corpo estatela num rápido instante sem dor.

Voltaire – Cândido, ou o Otimismo (Candide ou l’Optimisme)

Candide ou l'optmisme

Galerinha, sinto informar a todos que este será o último post do Livrada! Não tem mais como, essa porcaria não dá dinheiro e tô cansado de ficar falando de livros aqui quando ganho muito mais visibilidade falando de hambúrguer aqui.

Geral voltando da páscoa, ou voltando do Lollapallooza, ou os dois, e eu aqui, firme e forte na luta, samurai da stronda e samurai do kama-sutra. Não, tamo aqui no Livrada! mesmo tentando jogar uma nova luz em um clássico iluminista: Cândido, ou o Otimismo, livrinho que o sacana-mor, Voltaire, fez para sacanear o Gottfried Wilhelm von Leibniz e sua corrente otimista.

Ao contrário do que interpretou o Bloodhound Gang, Cândido não é um livro sobre viver sua vida a toda velocidade. Vamos expor as aventuras de Cândido para mostrar que 1- é um livro sacana e 2- é um livro sacana que está ao alcance de todos. E depois disso, vamos explicar porquê esse é um livro legal. Esse é o Livrada!, a cada dia que passa mais didático. Suspeito que assim vou terminar minha carreira de comentarista de livros dando aulas-show em cursinhos pré-vestibulares sobre os livros que caem nas provas.

Bom, pra quem não tá ligado no movimento, o Leibniz era algo tipo A Banda Mais Bonita da Cidade em termos filosóficos. Ele defendia, em linhas gerais, a ideia que o mundo era o melhor lugar possível para se estar, e que as desgraças que assolam a humanidade não passam de sombras em um quadro muito bonito. Traduzindo em Caetanês, “tudo é perigoso, mas tudo é lindo e maravilhoso”. Agora veja que ele pensava isso lá no século XVIII, quando o mundo era umas dez mil vezes pior do que é hoje. Naquela época tinha peste, tuberculose mortal, poliomielite, guerra pra caramba, pena de morte decretada pela igreja, infecção ficava preta e cheia de pereba, era uma desgraceira só. Sem falar que não tinha fliperama, rock n roll, internets, desodorante, pasta de dente, procom, etc. Enfim, só podia pensar um negócio desses quem tava bem tranquilinho no seu castelinho alemão escondido do mundo, porque, veja: na filosofia como nós a conhecemos, os geniozinhos gastam metade de suas vidas debatendo as teorias dos outros pra ver quem tá mais certo. Mas esse cara consegue ter sua ideia refutada por um simples passeio no mundo livre! Era, na visão de Voltaire, um zé Mané completo, como não. Por isso ele fez esse livro.

VoltaireCândido, o personagem que dá nome à novela, é um rapazote dos mais ingênuos que vive enclausurado em um castelinho na Westfália, território alemão, sob a tutela do barão de Thunder-ten-Tronckh, um nome que não quer dizer nada além de mostrar como a língua alemã parece feia pro Voltaire. Lá também há dois personagens centrais dessa história: o filósofo Pangloss, que é um adepto do Otimismo, e a senhorita Cunegunda, a quem Cândido ama perdidamente, e por causa de quem é expulso do castelo quando é flagrado fazendo coisinhas (uma passagem que não esconde uma certa alegoria cristã com o livro do Gênesis). A partir daí, a vida é um desbarrancadeiro que só. Já assistiram a Bem-Vindo à Casa de Bonecas, do Todd Solondz? A ideia é mais ou menos a mesma. O sujeito toma na rabeta 24 horas por dia, sete dias por semana, e mesmo assim tenta manter tudo sob a perspectiva otimista. Isso porque a cada coisa ruim que acontece, outra mais ou menos boa, ou menos ruim, acontece em consequência, fazendo Cândido acreditar que tudo está dando certo mesmo dando tudo visivelmente errado.

Esta é a essência da novela de Voltaire. Mas não pense o senhor e a senhora que ele ia gastar um livro inteiro batendo num só filósofo. O sujeito aproveitou pra atirar pra tudo quanto é lado e zoou alemães, ingleses, franceses, holandeses, católicos, intelectuais, clássicos da literatura, música clássica, donzelas, índios, espanhóis, enfim, saiu distribuindo tapa pra quem aparecesse. E nada de sutilezas, como vocês podem ver pelos nomes alemães já citados. É tudo escrachadão pra ninguém ter dúvidas da real intenção dele. E, claro, por ser escrachadão, é fácil de entender e fácil de rir com ele. Sério, é um livro engraçado, no melhor estilo das sátiras clássicas, e acho que prova bem o seu ponto, embora, como já havia dito no começo do texto, provar que o Leibniz tava errado não era algo lá tão difícil e ele aproveitou esse passeio no parque pra isso.

A nova edição da Penguin-Companhia é bem completinha com um ensaio de abertura, pósfácio e tudo mais, embora não tenha sacado muito qualé da capa. Mas tudo bem, o resto é formatação normal dos livros da Penguin e tudo está certo. Espero que gostem desse.

Comentário Final: 184 páginas. Só machuca ego sensível de filósofo alemão meio burro. Aliás, burro não. O cara é bem inteligente, na verdade. Só acho que talvez o lance dele seja mais a matemática…

Ps: Tu acreditou mesmo que era o último post do Livrada!? Primeiro de abril, mané!

Elvira Vigna – Nada a Dizer

nada a dizerVou ser bem sincero aqui e dizer que há tempos nada me anima muito na literatura brasileira. Acho que o pessoal se perde muito nas próprias veleidades estilísticas e o resultado é uma punhetação literária, a versão escrita de um disco do Yngwie Malmsteem. E levante a mão aqui quem é que curte o Malmsteem de verdade? Ou isso ou a minha visão do que é boa literatura anda muito limitada, mas o fato é que a comparação com os portugueses sempre é inevitável, e isso dá uma medida do quanto estamos ficando pra trás nesse lance de escrever bons livros. É claro, vez ou outra aparece um cara bom que me diverte, mas nada que me cause a catarse de ler um livrasso. Isso até conhecer a obra da carioca Elvira Vigna. E agora para os babaquinhas da objetividade, um alerta: tem spoiler, e se você acha que isso estraga o prazer de uma boa leitura, lo siento.

De Vigna, só li, por enquanto, Nada a Dizer, mas é claro que pretendo ler mais coisas assim que a grana e o espaço de casa permitir. Vou contar aqui do que o livro se trata e comentá-lo um pouco para ver se minha opinião é partilhada por vocês. Bom, e o que é Nada a Dizer? Felizmente esse é um livro que dá para resumir quando precisar responder a pergunta imbecil “do que fala esse livro?”. Nada a Dizer é um romance que conta a história da traição do ponto de vista da mulher traída. Simples assim, mas não vá ficar achando que isso tá de bom tamanho pra um resumo, fulano. A história é narrada por uma tradutora, de idade já avançada, e esposa do canalhão Paulo, que tem um caso com N. Ahh, adoro personagens cujo nome são reduzidos a uma única e misteriosa letra. É um lance tão Stendhal, tão Marques de Sade, tão francês de rabo preso com a aristocracia local que esse simples nome me remete ao que há de melhor na literatura francófona. A genialidade do livro, entretanto, começa justamente escondendo não N., mas a própria narradora. O início mostra Paulo, que mora em São Paulo, viajando ao Rio de Janeiro para encontrar um amigo e essa sua amante. Apenas no final do capítulo temos consciência de que o narrador que tudo sabe não o sabe porque é narrador, mas porque é a esposa dele, que como toda esposa traída, extorquiu a história do infeliz até a última gota.

A partir daí, a coadjuvante-narradora remonta os passos do sujeito desde que ele começou o caso, analisando o que ela sabia e onde ela estava no tempo e no espaço em cada uma das situações. Porque é óbvio que a mulher precisa escrever um livro com tudo o que ela sabe, e o que é pior: dá mesmo para escrever um livro com tudo o que ela sabe. E tudo gira em torno da questão: se ele me trai, o que eu significo para ele? Não dá pra medir a genialidade da Elvira sua sensibilidade feminina nesse ponto. Todo mundo que já conheceu uma mulher que curte pirar errado nas ideias sabe que é exatamente esse o comportamento. A fulana não quer admitir de frente que levou chapéu de vaca pra casa e procura questões tangentes de aparência equânime à principal pra poder se sentir individual em sua dor, para não se rebaixar a um sentimento tão universal e humilhante quanto aquele. É preciso raciocinar sobre o ocorrido, é preciso ser fria e calculista quando tudo o que se quer é botar vidro moído no feijão. E nessa análise da situação toda o leitor acaba descobrindo mais sobre a personalidade de quem conta: uma mulher aparentemente segura, mas completamente insegura, que cresceu à sombra de personalidades mais fortes, dessas que têm a vida toda planejada pela frente e se frustra enormemente quando as coisas não saem como o planejado, etc, etc, já deu pra pegar o tipo.

elvira vignaE, enquanto conta, ela faz um mea-culpa para qualquer interlocutor impiedoso que ouse interferir com um insensível “mas tu era cega mermo, hein, filha?”. Ela admite sua cegueira, seu estado de negação, e dentro desse estado de negação reside seu medo, suas expectativas, seu descompasso com a realidade. Ah, que beleza que é esse livro! Desses que você devora em pouquíssimas horas se tiver um sábado preguiçoso pela frente.

Mas, ao mesmo tempo, a narradora é extremamente humana com o marido traidor. O sujeito também é típico. Daqueles que prefere evitar o problema a discutir em casa, que gosta de negar mesmo com as calças na mão, que nunca admite o próprio erro a não ser quando o erro já tá documentado em cartório. E ela o ama, e por isso se compadece de seu espírito imaturo, ou pelo menos engana a si mesmo ao se apiedar, e o trata como uma criança, como costuma se fazer nessa hora aquelas que precisam passar por cima da carne seca a qualquer custo. E é, pois, esse jogo de moral, o grande barato do livro. Encontrar otimismo na cagada alheia, não se deixar abalar, tentar ser melhor do que tudo isso, quem nunca?

A capa do livro, embora seja bem bonita, me enganou muito bem com esses dois jovenzinhos sentados num sofá compartilhando um climão. Não é, afinal, uma história de amor imaturo,  é uma imaturidade em uma história já amadurecida. Além do que a tipografia usada na capa é compartilhada com a Rachel Cusk, uma escritora americana que, ao que parece, não tem nem um décimo do quilate da Elvira Vigna. Então isso conta contra o projeto gráfico, somado também à mistura abominável de amarelo, salmão e marrom-cocô-de-vegetariano. No mais, por dentro tá tudo certo: papel pólen de alta gramatura, fonte Electra, e o de praxe. Recomendo fortemente pra quem está desacreditado com os autores brasileiros e para quem uma boa dose de realismo é necessária na literatura tupiniquim.

Comentário final:  168 páginas em papel pólen. Machuca o âmago do seu ser.

J. M. Coetzee – Desonra (Disgrace)

Disgrace coetzeeEis que meu camarada Karkão se encantou com a literatura pungente e obstinada do grande John Maxwell Coetzee e me pediu para que eu comentasse aqui este livro que está entre suas obras mais populares, senão a mais popular de todas. Li Desgraça há algum tempo, mas em termos relativos, porque leio muito, posso dizer que li há muuuuito tempo, então pode ser que a grande maioria das impressões que este livro me trouxe de início tenha se perdido ao longo desses anos e suas centenas outras leituras. Mesmo assim vou tentar resumir a história para vocês e meus conterrâneos vão achar o post de hoje bem útil já que rumores andam pairando pela cidade atestando que o grande prêmio Nobel sul-africano pode desembarcar por essas paragens no próximo mês. Vamos aguardar uma confirmação.

Antes de mais nada, uma breve sinopse para começarmos a discutir, mas desde já adianto que não vi o filme homônimo com John Malkovich, então não me culpe por quaisquer más-impressões que a história cinematografada pode ter produzido sobre seu juízo crítico. O que sei é o que li: a saga do professor universitário David Lurie, um daqueles caras lógicos, frios, pragmáticos e brancos que moram na África do Sul (ohhhh, tão diferente do próprio autor, como será que ele consegue?), que é mensalista do puteiro e tem planos megalomaníacos de escrever uma ópera sobre Lord Byron – que é, aliás, o que todos esses misantropos modernos gostariam de ser —, até que um belo dia se mete com uma aluninha chave-de-cadeia e é acusado de abuso. De qualquer forma o sujeito sobe nas tamancas, dá um piti infectado e é afastado da escola. É aí que resolve reatar laços familiares com a única filha que tem – o que, em se tratando de Coetzee, deve ser algo fruto da paternogênese, porque ô velhinho esquisito esse –, uma hã… Maria João que mora numa fazenda do interiorzão da África do Sul. Tudo vai indo bem até que um dia a fazenda é roubada e a filha do cara é estuprada brutalmente por três negões. E o pior, ela engravida de um deles e sabe muito bem quem são. O nosso protagonista fica então desnorteado e tenta entender esse mundo que é geograficamente tão próximo de si e ao mesmo tempo tão distante culturalmente.

Bom, pra começar, Desonra não traz nada de diferente do que o resto da literatura do Coetzee propõe, mas resume muito bem a ideia da obra como um todo. Justamente essa não-pertencença (se essa palavra não existia, passa a vigorar a partir da presente data) do homem branco que se propõe intelectualizado nessa louca louca África dividida. Porque mesmo que o apartheid já tenha acabado, todo mundo sabe que na prática não é assim.  E ou você está do lado de lá, ou está do lado de cá. Mas estando do lado de cá, há sempre a opção de ser um acéfalo e se omitir da questão racial, algo que não é uma escolha para quem se diz ser pensante. Ao mesmo tempo, entender a relação de proximidade entre estuprador e estuprado no interior da África é mais complicado do que Édipo furando os zóio, então não há muito o que fazer senão se deparar com a própria incapacidade de viver o mundo real. Resumindo, o bôer intelectual sul africano é um sujeito sem classe: malquisto dos dois lados, recolhe-se em sua concha de autossuficiência.

John Maxwell CoetzeeMas rá! Não é só isso. Além da não-pertencença classicista, há a não-pertencença etária. Veja bem, David Lurie está numa fase meio velho lobo que, na prática, o torna velho para tudo o que lhe afronta. Está velho demais para se envolver com as aluninhas, velho demais pra ser mensalista do puteiro, velho demais para tentar cuidar de uma filha que já se cuida sozinha no coração da selvageria, velho demais para ambicionar escrever algum dia relativamente distante uma obra megalomaníaca – que diabos, é velho demais para conceber qualquer coisa megalomaníaca – e se vê irrelutantemente velho, ainda que se sinta novo para tudo isso. E sua tentativa de consertar as coisas são mais desastrosas que a queima de fogos no réveillon lá da minha praia. Resumindo, o deslocamento das coisas só não é mais cru e excruciante que o próprio deslocamento da realidade. E esse, imagino, deva ser o sentimento de todo acadêmico branco africano. Não é à toa que a solidão permeia boa parte de sua obra, e sua inadequação com o trato social é característica marcante não só de seus personagens, como também do próprio autor, algo que pode ser visitado na trilogia autobiográfica Cenas da Vida Na Província, todas já resenhadas pelo livrada. Parte 1 aqui, parte 2 aqui e parte 3 aqui.

Resumindo, a desonra do livro pode muito bem se referir àquela que em David Lurie se encontra depois de ter feito tanta merda na vida e ter acabado testemunha de um assalto seguido de estupro da própria filha, que no fundo nem liga pra isso, mas não deixa de ser a desonra de ter conquistado, colonizado e permanecido ali, imiscível e avesso à vida selvagem. A desonra de ser impotente diante de um mundo que seleciona os melhores pela força e pela honra, a desonra de ser velho vencido e a desonra de ser um merdão a vida toda. Eis, meus senhores, a essência, da obra de Coetzee.

Só uma ressalva, já que sempre terminamos o papo comentando o projeto gráfico. A capa do exemplar que eu tenho, excepcionalmente hoje, não é a capa do começo dessa postagem. Tenho a primeira capa do Coetzee pós-nobel, aquela com belíssimas obras abstratas de Fábio Miguez, mas esse exemplar acabou ficando raro. Não mais raro do que a capa que segue o modelo de Diário de um Ano Ruim. Essa sim é pra lascar o couro do colecionador, o que, graças a Deus, gosto de pensar que não sou. Papel pólen e fonte Electra padrão de todos os bons livros da Companhia das Letras definem a experiência de uma das melhores leituras que fiz na minha recente vida de leitor. Karkão, espero que tenha lhe satisfeito, essa foi pra ti.

Ps: já é o quinto livro do Coetzee que trato aqui. Já já começam a faltar fotos diferentes dele.

Comentário final: 248 páginas papel pólen. Porrada neles, governador!

José Luís Peixoto – Livro

José Luís PeixotoEi-nos, mais uma vez, a passar vergonha ante a onipotente literatura portuguesa. Camões, Eça de Queiroz, Almeida Garrett, Fernando Pessoa, Saramago, say no more. Mesmo que esses caras estejam fora de circulação há algum tempo, e que a grande maioria da nova safra de escritores lusos seja tecnicamente nascida na África, ainda há alguns que mandam bem o bastante para acharmos que o fenômeno é perene, mesmo que eventualmente comece a ir mal das pernas. Mais ou menos a relação do resto do mundo com a Seleção Brasileira de Futebol (SBF) (espero que seja essa a sigla), ou seja, só a gente aqui sabe a quantas anda esse futebol mixuruca.

De qualquer forma, temos cá conosco hoje o senhor José Luís Peixoto e seu livro meta-intitulado “Livro”. Ora, isso é sintomático de um povo que já se cansou de inovar na linguagem e agora resolveu subverter os títulos também. Mas rá, tem um porquê o livro se chamar Livro. Mas se eu explicar com todas as letras vou estragar o prazer da sua leitura, afinal de contas, o sujeito que resume seu título a uma palavra quer muito que você descubra porque aquela palavra é mais importante do que todas as outras dentro do livro.

Pois muito bem, vamos à história: Ilídio (não confudir com a musa Lídio Matheus) é um garoto abandonado pela mãe com uma mala e um livro. Rá, aí já se começa a desvendar o mistério, afinal de contas, há uma simbologia que um livro e uma mala compartilham, e isso tem a ver com todo o resto, faça as contas de cabeça para saber que tô cansado de ficar dando tudo mastigado pra um povo preguiçoso que chega aqui pelo Google querendo cópia de trabalho de escola pronto pra mandar pra professora (se não acredita nisso, dá uma olhada na primeira resenha desse blog, Grande Sertão Veredas). Bom, de qualquer jeito, o protagonista garoto é criado pelo pedreiro Josué, que felizmente é um pedreiro português e não um pedreiro de Feira de Santana, a Meca da pedofilia (brincadeira, amigos baianos, só fiquei traumatizado com o noticiário insistente). Abandonado pela mãe, criado pelo pedreiro, o sujeito desenvolve uma relação platônica com uma moçoila chamada Adelaide. Entendo que Adelaide parece ser um nome comum em Portugal, em especial durante um certo período do século 20, mas toda vez que algum portuga me fala em Adelaide eu lembro não apenas de “Adelaide, Minha Anã Paraguaia”, música da finada e esquecível banda Inimigos do Rei, cujo narrador/poeta se diz jogador de basquete português,  mas também do Bruno Aleixo na escola acusando a “Adelaide, aquela matulona”, de maneira que fica difícil pra mim transformar a história numa coisa mais séria, fora de uma comédia pastelão. De qualquer jeito, Adelaide é a Lenora de Ilídio, e os dois começam um flerte quando rola uma migração massiva pra França e a “Delaide” vai junto, e o Ilídio vai atrás porque, enfim, senão não tem romance.

José Luís PeixotoTaí o cerne da questão, e a boa primeira metade do livro também, porque até então é só descrição, aclimatação e uma boa encheçãozinha de lingüiça porque ninguém é de ferro. E como é de minha política pessoal não contar nada para o leitor além da metade do romance sem colocar um adesivão de Spoiler Alert em cima da postagem, vamos ater-nos ao que temos, sim? Bom, em primeiro lugar, temos aí a viagem do livro e a viagem física retratada no livro, a viagem dentro da sua viagem (yo, dawg…), e a mala e o livro perpassam o romance dando a impressão da perenidade das coisas: os bens imateriais e seus falsos misticismos, vai saber…

Sobre o estilo, porém, tenho que fazer uma ressalva. O Peixoto escreve muitíssimo bem. Você passa pelas linhas e, embora ache tudo estranho como um brasileiro que não reconhece o próprio idioma bem usado, concorda que está tudo em seu devido lugar e que não há muita gordura no texto além do que a estrutura prevê. A estrutura, porém, é um problema, porque você passa as boas 80 primeiras páginas meio que se inteirando das coisas e isso deixa a leitura meio nauseabunda. Agora, obviamente isso não é um defeito a ser atribuído ao escritor, mas a mim mesmo, leitor deficiente criado na base de Mauricio de Sousa. Fato é que a coisa se pareceu arrastada e truncada para mim, mas tenho certeza que qualquer tuga da gema pega isso e lê com mais facilidade do que legenda de filme de besteirol americano. E aí que eu terminei e fiquei sem saber o que há na maravilhosa literatura de José Luís Peixoto que ganha o mundo enquanto você fica aí em casa só no Facebook, seu virjão. E aí me senti mal e um pouco envergonhado, mas mesmo assim vim fazer aqui meu mea culpa para vocês porque se existe uma qualidade que faz um bom crítico é a cara de pau, e cá estou eu com a cara de pau de escrever um post nesse respeitado e mundialmente famoso recanto beletrista da web para dizer: Não entendi, mas pelo menos sou homem o bastante pra não ir requentar críticas alheias sobre o livro. De modos que se alguém tiver lido o livro e quiser compartilhar seus insights, sinta-se livre para fazê-lo na caixa de comentários.

A capa que a editora Companhia das Letras fez pra esse livro, tenho certeza, garantiu cerca de 40% das vendagens, e o resto veio de sua visita ao circo da putrefação cadavérica da massa cefálica que é a Festa Literária Internacional de Paraty. A gramatura e a fonte Sabon em tamanho grande aumenta a lombada e deixa tudo mais atraente porque onde já se viu português escrevendo livro fininho? Deem-nos mais Equadores, mais Livros do Desassossego, mais Evangelhos Segundo Jesus Cristo, mais Lusíadas que seja, ora bolas! Queremos machucar os outros com Livradas! vindas de além-mar e não temos medo de aumentar o tamanho da fonte para isso. E eu sinceramente espero que essa estirpe de escritor tatuado e cheio de piercings abra uma brecha para que nós, profissionais do ramo tatuados e cheios de piercings, ganhemos algum respeito apesar de nossa aparência assustadora. Por isso coloquei essa foto de gatênho do cara aí.

Enfim, galera, vou ficar por aqui porque não estou sendo muito útil. Façam suas apostas e suas interpretações sobre o livro Livro no Livrada!

Comentário Final: 283 páginas em papel pólen de alta gramatura. Uma porrada no homem do saco de mil filhos!

Orhan Pamuk – Meu Nome é Vermelho (Benim Adım Kırmızı)

Benim Adım KırmızıHoje é aniversário da minha gatinha, mas antes da festa, o Livrada! precisa continuar. A Carlinha tem alguns escritores favoritos, pelos quais eu partilho o gosto na maioria das vezes. Mas o Pamuk, acredito, talvez seja seu escritor favorito de língua estrangeira, e depois de ler três livros dele e de muita insistência, ela finalmente me convenceu a pegar uma obra deste turco que é prêmio Nobel de literatura de 2006.

Meu Nome é Vermelho passou na frente de Neve, que era minha segunda opção, pela proximidade do tema comigo. Ora, muita gente aqui não me conhece pessoalmente, mas a verdade é que eu gosto muito de desenhar e venho de uma família de desenhistas, pintores, projetistas e outros profissionais que trabalham de lápis e prancheta figurativamente sobre um plano neutro. E o lance desse romance está justamente no desenho, então resolvi verificar o que esse gajo turco sabe desses lances.

Pois muito bem, muito bem bem bem. Meu Nome é Vermelho é um livro sobre desenho, mas é uma daquelas histórias específicas rodeadas por universalismos. Temos mistérios, crimes, amor, drama, morte, vilões, mocinhas, heróis, lendas, fábulas, e, é claro, temos a questão do desenho. O argumento principal gira em torno de um polêmico livro que o sultão não-sei-das-quantas ordena secretamente a seus melhores desenhistas para dar de presente para a comitiva veneziana que pretende visitar Istambul nos próximos anos. Agora, o desenho segundo o Islã era uma coisa considerada artisticamente tosca pelos então novos padrões renascentistas que estavam ficando na moda, cheios de sombra, perspectiva e detalhes mínimos, tipo pelanca de pescoço e sobrancelha mal aparada. Isso era então uma afronta às leis de Deus para os turcos, como qualquer arte figurativa, por colocar o homem no centro das atenções e elevar o artista à condição de criador, como o próprio Deus. Ora essa, onde já se viu. Eu sei, eu sei, vocês estão pensando: “Obviamente esses sujeitos não pensariam assim se conhecessem a obra do inominável Romero Britto”, não é verdade? Na verdade também não, porque a arte islâmica tampouco contempla o estilo de um artista e a assinatura como elementos desejáveis. O lance é todo mundo fazer o mesmo tipo de bonequinho e o mesmo tipo de paisagem sempre. Resumindo: a arte islâmica era a arte do ClipArt, e vocês podem ficar o resto do dia discutindo se isso é arte ou artesanato, mas nós temos uma sinopse para desenvolver antes de falar do livro (sempre que tiverem dúvidas sobre o estilo de desenho a que me refiro, podem conferir essa capa, que tem ilustrações que evidenciam bem a questão). Bom, nessa encomenda perigosa, quatro homens, discípulos de Mestre Osman trabalham secretamente: Borboleta, Oliva, Cegonha e Elegante. É, pensei a mesma coisa: parece um elenco da Malhação turca. É quando Elegante é brutalmente assassinado por um dos outros três, e precisamos desvendar esse mistério. Ao mesmo tempo, volta à cidade o Negro, um homem que trabalhou fazendo biscate pelo mundo e pensando na doce Shekure, que tinha apenas 12 anos quando ele a deixou em Istambul. Pedofilia? Talvez, mas não vamos julgar. Shekure agora é uma moça casada e muito provavelmente viúva, já que seu marido foi pra guerra e nunca mais voltou, e seu cunhado Hassan, irmão do marido desaparecido, vive dando em cima da moçoila, mãe solteira de dois e abrigada na casa do pai, o chamado Tio (é pai mas é tio, sacou? Nem eu), que comanda o projeto. O Negro então começa a investigar o assassinato e ver se ainda dá pra recuperar o amor perdido.

pamukBasicamente, essa é a história, permeada, é claro, por muitas aulas de pintura e desenho, contos exemplares sobre estilo e assinatura e sobre a passagem do tempo para o artista, que fica invariavelmente cego no final da vida. Agora, o discurso do livro é muito interessante. Nada menos do que 21 narradores contam esse causo para você, entre eles o cadáver do Elegante, Negro, Shekure, o Tio, Mestre Osman e o resto dos artistas da Malhação Turca, além de outros personagens que são narrados nas tabernas e nas cafeterias onde os sátiros se reúnem, o que dá uma palpabilidade ao zeitgeist do romance. O recurso de múltiplos narradores, entretanto, serve a um propósito muito maior: evidenciar o poder do livro e a posição do leitor.

Isso porque um dos narradores é o Assassino, que se apresenta assim, como assassino, embora narre outros capítulos sob sua verdadeira identidade, guardada em segredo. Aí você vê que nenhum diretor em sã consciência pensaria em adaptar esse livro para o cinema, porque só o livro permite que um assassino se comunique diretamente com o leitor sob uma proteção impenetrável que é a falta de voz literária. Sim, porque todos eles falam com a mesma voz de escritor (algo muito fácil quando o autor é um só, Pamuk), uma camuflagem perfeita. E, ao mesmo tempo, todos narram para você, leitor, evidenciando algo que é sugerido pelas histórias dos sátiros: não há história sem leitor e muito menos há poder narrativo no discurso sem ele também. Isso, é claro, corrobora com a submissão do artista com o objeto da obra e seu futuro apreciador segundo a fé islâmica, então tudo se trata de uma adaptação estilística ao pensamento.

A trama de assassinato, mais a briga de Negro por Shekure, defendendo-a do possessivo Hassan, e as ordens irrefutáveis do sultão, tudo isso dá sequência não só à tradição da literatura ocidental como também da oriental. A Turquia, como vocês devem saber, é um país meio esquizofrênico nesse lance de ocidente e oriente, e coube ao Pamuk escolher temas interseccionais aos dois polos horizontais do mundo para fazer algo em favor da Turquia: um país que fala a todos os outros sem tomar para si tons exóticos e canastrões, como vemos tanto por aí. Tudo parece natural porque tudo, de fato, o é.

Acho que existem muitas outras coisas para falar sobre esse livro, mas resolvi me deter nesse ponto em particular para mostrar como é possível ser inventivo e usar a narrativa e o suporte do livro ao seu favor. Muito se fala em reinvenções linguísticas, saltos narrativos e etc e tal, mas pouca gente pensa em reformular a estrutura do romance em si. O Pamuk ganhou muitos pontos comigo nessa, e pretendo lê-lo de novo por causa disso. Espero que vocês também o façam.

Ps: Feliz aniversário, Carlinha!

Comentário final: 534 páginas em papel pólen soft. Fratura na cabeça do Elegante Efêndi.

Philip Roth – Patrimônio (Patrimony)

patrimonyFala sério, vou deixar todo mundo mal acostumado com tantos livros resenhados no mesmo mês, não é? Sei que é assim, mas regozijai-vos, irmãos, pois este colunista agora retomou o gosto pelas leituras desenfreadas e pelos comentários rápidos e rasteiros, “como quem lê a bordo de um bonde desgovernado”, como me descreveu certa vez o jornalista Pedro Rocha, de Fortaleza (um abraço, Pedro Rocha e Fortaleza!). Sendo assim, mais uma semana, mais um livro nesse blog que está a alguns passos de se tornar uma espécie de Wikipedia parcial da alta-literatura. Sim, porque diferentemente de quase todos os outros blogs literários do Brasil, aqui você não vai encontrar best-sellers (perdão pelo 50 Tons de Cinza), fast-pace, coisas que você encontra esquecidas em bolsões de aviões velhos da Gol. Aqui o bagulho é doido, jão, só figura aqui quem é bom de verdade ou, pelo menos, tarimbado no certame. Por isso as livrarias não gostam de mim, mas quem gosta de livro bão gosta do Livrada!, e é por isso que você deveria anunciar nesse espaço. Sério, me deem dinheiro, já tá na hora de eu começar a ficar rico com isso aqui.

E hoje, veja só, mais um Philip Roth. Confesso que não sei quantos livros do sujeito já figuraram por aqui, mas vou chutar que esse seja o terceiro ou quarto. Bom, Philip Roth tem aquela coisa, é uma espécie de Marcelo Camelo da literatura: as pessoas que gostam defendem com unhas e dentes, mas pouca gente sabe dizer com precisão o que há na literatura deste priáprico judeu neurótico que tanto os agrada. Eu tenho, entretanto, um palpite que serve bem a boa parte de seus fãs, crentes do tão desacreditado hype: Roth é um dos sujeitos de respeito da literatura mais fáceis de ser lido, principalmente se você pegar seus livros mais recentes, que ainda por cima são curtos. Não há a densidade de um Don DeLillo, não há a complexidade da trama de um Pynchon, não há o rebuscamento linguístico de um Cormac McCarthy, não há sequer a tradição literária resgatada de um Ian McEwan. É tudo leve, rápido e curto. É claro, há toda a formação de uma literatura formadora da imagem de um país a partir de um microcosmos, há a justaposição de invenção e memória, há a educação sentimental do macho pau mole, mas isso são coisas circunspectas a academia, que nada diz ao leitor comum, interessado somente em ler algo de qualidade e com algum conteúdo, coisas que abundam na literatura do nosso velhote. Temos que dar o crédito pela escolha precisa de palavras na voz inconfundível de sua extensa e qualitativamente constante obra. Todo mundo que pega um livro do Roth para ler já sabe o que esperar, não há nenhuma imprevisibilidade, e as pessoas bem gostam disso que eu sei.

Pegue este livro, Patrimônio, por exemplo. Apenas lendo a sinopse da orelha, em que descobrimos se tratar de uma história real sobre os últimos dias de seu velho pai, diagnosticado com um tremendo tumor no cérebro, já sabemos que 1- vai ser triste, com alguns momentos de alívio cômico 2- vai ter todo tipo de referência a judeus, comunidades judaicas, objetos judaicos e outras porcarias judaicas 3- vai ter longos momentos de solilóquio alucinado, com uma vida interior mais paranoica e arredia do que o necessário 4- vai ter discretas porém incisivas menções ao ufanista sentimento de ser americano, ser judeu-americano, ‘Merica, enfim. O resto fica por conta de cada história.

Philip RothPois bem, veja o que é o drama de seu pai, Herman Roth. Não, não é o tumor no cérebro, é ser filho de um canalha que começa a escrever um livro a partir do momento que descobre que você está com câncer. Porque é exatamente isso o que ele confessa no final (ops, spoilers!). Percebe-se que o sujeito começa a passar mais tempo com o pai para ter material para o livro – premiadíssimo, aliás, pelo Círculo de críticos americanos. Há uma cena emblemática no livro, de onde é tirada o título. O pai passa por um período longo de prisão de ventre após um procedimento médico, e sem querer caga o banheiro inteiro quando ele e o filho recebem visitas. Tem merda fora do vaso, na parede, na toalha, nas escovas de dente, a coisa não fica muito distante de uma cena escatológica do Trainspotting. O Philip Roth aparece lá, ajuda o pai a se limpar e a limpar o banheiro, e o pai envergonhadíssimo pede para que o filho não conte para ninguém o que aconteceu. “Não vou contar”, escreve o sujeito em um livro que vendeu milhares de cópias após a morte do velho. Filhão nota dez, esse, hein? Não sei se vocês sabem, mas muitos escritores têm filhos, e é frequente escrever livros sobre esses filhos, mas você vai ter dificuldade em achar um em que o escritor narra as vezes em que o filho cagou nas calças, mijou na cama ou fez qualquer coisa muito embaraçosa, e não é porque eles estão fugindo da verdade enquanto Roth está indo de encontro a uma crueza objetiva do cotidiano, mas porque existem diversas maneiras de prestar homenagem a pessoas em um livro, e manter segredo de acontecimentos em que é pedido sigilo é uma delas. Philip Roth oportunista e canalha? Nãããooo, diriam seus asseclas. Trata-se da realidade que serve de matéria-prima para um dos maiores ficcionistas vivos. Não é, nem de longe, um romance autodepreciativo, isso é óbvio, até porque o drama está na figura do pai. E repare no subtítulo: “Patrimony – A true story”. “True story”? Sério mesmo? Então tudo o que o senhor resolveu botar nesse livro é a mais pura e simples “truth”? Bom saber, senhor ficcionista premiado. Bom para o senhor.

Gosto muitíssimo do Philip Roth. Ora, e qual homem não gosta? E gostei de Patrimônio, porque mostra que a literatura justifica a filhadaputice no olhar desse cara. Mas, sinceramente, acho que ele ainda se dá melhor com as aventuras do velho priáprico xarope, seja ele qual for. E, senhor Herman Roth, sinto muito que seus últimos e sofridos dias tenham servido para colocar mais um desnecessário tijolinho na belíssima e longeva carreira do seu filho, mas como foi o senhor que o educou, por outro lado, o problema é seu.

Comentário Final: 190 páginas. Livroterapia no cérebro!