Caco Barcellos – Rota 66

Olelê, Olalá, não para de chegar livrorreportagem nesse blog. Fazer o quê se eu li muito dessas coisas, né, gente? Mas ó, fica por aí que o livrorreportagem (alguém já se acostumou com essa nova ortografia?) de hoje é mó bacaninha.

Rota 66 – A história da polícia que mata. O nome parece meio óbvio pra mim. Pelo que eu saiba, toda polícia mata, e isso eu sei desde pequetitinho. Acho que o subtítulo poderia ser algo como “A história da polícia que mata gente que não tinha nada a ver com a história”, já que o livro é introduzido com o assassinato de jovens de classe média que nunca foram metidos com crime. Se bem que depois aparecem casos de policiais matando ladrões de galinha e outros criminosos da terceira divisão do mundo do crime, mas a ideia de Caco Barcellos com esse subtítulo era retratar a polícia que mata de lambuja, sem haver necessariamente o confronto armado com os meliantes. É, deixemos a definição assim.

Rota 66 é um livrorreportagem um pouco diferente, pelo menos na sua primeira metade, porque trata muito mais dos bastidores da investigação da matéria do que dos fatos propriamente ditos. E, na moral, que investigação! Nem o maluquinho do 60 Minutes faz uma parada dessas. É papo de ficar documentando quilos e mais quilos de papelada engavetada coberta com cocô de mariposa, rastrear o número de série de uma arma, desde sua primeira compra até seu último dono, fazer mancha criminal, estatística das mortes pelas mãos da polícia, etc. Fora as entrevistas, pesquisas e a redação de praxe. E tudo isso sozinho, cumpádi, com a ajudinha do estagiário no máximo. Assim, na cara de alemão e na coragem, Caco Barcellos mete o bedelho onde não é chamado para contar as histórias dessas vítimas e suas famílias, e narra tudo como se fosse um filme de ação, uma espécie de Máquina Mortífera sem a parte do humor que lhe é peculiar.

Acho que, na época em que o livro foi publicado, a ideia de que a Rota matasse gente inocente era tão inacreditável quanto dizer que o trailer do filme do Jabor está sendo aplaudido nos cinemas. A Rota sempre teve muito prestígio em São Paulo por ser a “polícia que resolve as coisas”. Mais ou menos o destaque e a idoneidade que foram conferidos ao Bope depois do Tropa de Elite. A comparação é clara porque o Bope é quase uma Rota do Rio de Janeiro. Aliás, aqui em Curitiba existe a Rondas Ostensivas de Natureza Especial, a Rone. Se bem me lembro, quando eu era criança, eu cortava o cabelo com um barbeiro gay que morreu de Aids e que também se chamava Rone, ou Roni, ou Ronan, sei lá. Fato é que toda vez que eu leio Rone no carro da polícia eu lembro daquele magro barbeiro boiolinha que morreu de Aids. Espero que não apanhe da Rone por essas lembranças.

Tergiversei. Dizia eu que a Rota tinha muito respaldo na sociedade paulistana na época do lançamento do livro. E, é de se imaginar, Rota 66 foi um baque na popularidade da tropa por uma descrição tão brutal de seus policiais. Claro que isso não vai ser choque nenhum caso você seja do tipo de pessoa que fala “bandido tem tudo que morrer mesmo!”. Isso, aliás, é outro aspecto da cultura da classe média que Barcellos tentou abalar com esse livro. A sociedade ainda não entende o conceito do criminoso casual, que tem um empreguinho, mas tunga lá uma coisa ou outra pra complementar renda. Acha que bandido nasceu bandido, faz bandidagem 24 horas por dia e secretamente balança a cabeça quando a empregada chega chorando dizendo que o filho tá na cadeia. Infelizmente, essa consciência humanitária com bandido foi longe demais, e hoje em dia o que não falta é galerinha descolada com (parafraseando o Tropa 2) peninha do vagabundo, atestando que sabe mais do que todo mundo sobre a realidade social em que vivem os pobres que apelam para a violência, e bota o dedo na cara pra dizer que a gente não sabe nada porque nasceu loiro. Tá certo, não vou entrar no mérito da discussão, mas aí, povo, bora deixar de ser prepotente, belê?

Essa edição da editora Record seguiu a linha do outro livro do Barcellos, o Abusado, que também já foi resenhado aqui. Só que é menorzinho e sem imagens. Maldido papel offset, fonte Stone Serif, que é uma das poucas fontes confortáveis de se ler em papel branco desse jeito; Capa maneríssima com uma foto sépia e saturada de um sujeito mauzão da Rota de braço cruzado com relógio de ponteiro (sempre achei que militar e polícia só usava relógio G-Shock), e título, subtítulo e nome do autor em destaque na caixinha de cores preta, branca e laranja. O corte e o encadernamento do papel é bem legal, fica um tijolinho compacto e que passa voando, você nem vê. Eu mesmo li esse livro em dois dias. Foi massa.

Comentário final: 350 páginas em papel offset 90g/m². Porrada neles, governador!

 

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Caco Barcellos – Abusado

Uh, dobradinha não só de literatura nacional como também de literatura sobre o Rio de Janeiro. Legal, vamos propor uma sessão de porradaria: de um lado, o Rio de Janeiro exaltado de Ruy Castro; do outro, o Rio de Janeiro todo errado de Caco Barcellos em sua pièce de résistance (é sim, porra, muito melhor que Rota 66) Abusado – O dono do morro Dona Marta (hoje em dia, o dono do morro é o Eduardo Paes). E, antes que todo mundo fique falando que a visão deste é realista enquanto a daquele outro é idealista, vamos lembrar que o jornalista gatão Caco Barcellos (as meninas da faculdade dizem que o nome do meio dele é aimeudeusdocéu) é gaúcho, e se você me mostrar um gaúcho que gosta do Rio de Janeiro eu te mostro um sujeito que canta Surfin’ Bird com o ânus. Tá, eu eventualmente acabo mostrando a cena do Surfin’ Bird (não, o sujeito não sou eu, tem naquele filme do John Waters).

Falando sério agora, ninguém discute a veracidade e o compromisso de Barcellos em fazer um retrato fiel de um dos Marcinhos VP, o do morro Dona Marta, o traficante que fez história ao depor na CPI do narcotráfico em 2000, sendo um bandido com uma certa consciência social (não vou ficar dizendo que ele é uma versão brasileira de Robin Hood ou John Dillinger que isso é coisa de jacu). Barcellos colou mesmo com o sujeito e expôs em seu livro todos os pormenores da vida do crime no Rio de Janeiro, os tribunais do crime e a hierarquia do tráfico. Isso tudo além, é claro, de mostrar a faceta (FA-CE-TA!) humana de Marcinho, o patrocínio que recebeu de João Moreira Salles, os envolvimentos amorosos com uma aristocrata e muitas, muitas histórias sensacionais melhores que roteiro de filme brasileiro de miséria brasileira. E, sem querer endeusar o bandido, mas o Marcinho VP realmente era uma figura pelo que o livro conta. Particularmente na entrevista que deu para a Veja na ocasião da CPI, quando o repórter perguntou se ele já matou alguém e se ele conseguiu dormir depois, ele respondeu: “Já matei, no confronto. Viu o filme Mad Max? É a mesma sensação. Depois, em algum momento, você tem de dormir.” AHAHAHAHAHAH dorme com essa agora, revista Veja!

É lógico que não deve ter sido nada fácil fazer essa reportagem gigantesca se metendo em uma roubada (hã? Hã?) atrás da outra, inclusive saindo do Brasil junto com o bandido, mas Caco Barcellos nem por um segundo mencionou seu grande handicap: sua fama e complexão caucasiana em companhia contrastante — em um país de contrastes, é verdade — de um negão de olho puxado alto pra cacete. Deve ter sido foda passar despercebido desse jeito, acho eu. E o medinho?

Não sou muito leitor de biblioteca, mesmo porque na Biblioteca Pública do Paraná os bons livros são disputados a tapa. Mas, eis que um dia estava lá vagabundeando, tomando uma coça atrás da outra no xadrez por menininhos de 8 anos, quando passei na sessão de Sociologia e tava essa belezinha de tijolo ali no expositor dos mais requisitados. Aí peguei emprestado, fiz um malabarismo digno de um Danny Ocean com a carteirinha da biblioteca do amigo Murilo Domingos pra conseguir ficar por mais um mês com ele, e acabei terminando a leitura, ora veja, no Rio de Janeiro, numa oficina mecânica enquanto meu pai balanceava os pneus do carro (ou algo assim). E nesse dia, lembro-me de ter lido pelo menos umas duzentas e cinquenta páginas do livro (eita balanceamento demorado da porra!). A leitura é eletrizante, não dá pra largar o livro nem pra espirrar a alergia de papel de biblioteca que eu tenho. Eu não costumo dizer aqui que recomendo o livro ou não, falo apenas que gostei e que é uma opinião minha. Mas para o Abusado vou abrir uma exceção e recomendá-lo fortemente (e espero que com isso esse blog ultrapasse o site de catálogo de prostituta que aparece em primeiro lugar no Google quando se digita “abusado”)

Essa edição da editora Record é fodassa, embora tenha o MALDITO papel offset. Só não gosto muito quando uma editora lança dois livros do mesmo autor em formatos e tamanhos diferentes. Acharia melhor se o Rota 66 fosse igualmente grandão, porém fininho de espessura. Já que é pra fazer coleção, faz uma coleção que orna, né? Não é TOC, não é boiolagem, é só um conselho, ok? De qualquer jeito, como eu ia dizendo, a edição ficou legal, uma foto de capa muito foda, aquele miolinho colorido com as fotos, sempre fundamental e uma capa um pouco mais rígida do que a habitual, embora não possa ser considerada capa dura. Deixem para ler em casa. Ficar carregando essa porra dá torcicolo.

Comentário final: 560 páginas em formato grande e papel offset. Se tacar num prédio, é terrorismo!