Michel Laub – Diário da Queda

Michel LaubQuem lê esse blog há tempos (e creio que esse número vem aumentando constantemente), sabe que eu sou um eterno amargurado com a nossa literatura brasileira contemporânea e saio errantemente procurando algum livro que me faça mudar de ideia ou que me dê a cetelha de esperança de que preciso pra não ir na do sujeito lá que deu entrevista pro Globo falando que o Rubem Fonseca não faria sucesso nos dias de hoje. A sorte é que volta e meia esbarro com um desses exemplares. O Diário da Queda é um deles. De longe o melhor e mais maduro livro do Michel Laub. Vamos a ele que atrás vem gente. (putz, acho que não era assim o ditado, tenho que parar de tomar tanto chá de fita).

Num resumo bem simplista, o livro é narrado em primeira pessoa em pequenos fragmentos (como em O Gato Diz Adeus) por um judeu, neto de um sobrevivente de Auschwitz, que estuda num colégio só pra judeus, onde ele e seus amiguinhos fazem um bullying pesado com o único gói do pedaço. Porém, como esse é um romance de formação, a coisa não pára por aí e vai até a vida adulta do protagonista, que se transforma em um escritor e sai de Porto Alegre para morar em São Paulo. Como o próprio Michel Laub, que, aliás, também é judeu. Para usar aqui uma palavra apropriada, tai um escritor que deve ter sido judiado até não poder mais com perguntas do tipo “Qual o teor autobiográfico de Diário da Queda?” e “Você tem um avô que é sobrevivente de Auschwitz?”, etc, etc. Sinceramnete, se você não tem o que perguntar para um autor que escreve um livro desses, só lamento, porque aqui há muito mais questões propostas do que a eterna ponderação sobre invenção e memória.

O acontecimento principal em O Diário da Queda é quando o menino Bruno (acho que é esse o nome, que preguiça, o livro tá a dois passos de mim, mas levantar a bunda gorda dessa cadeira pra pegar que é bom, nada) (agora levantei e vi que o nome do menino é João), quer dizer, quando o menino João, o gói da parada e eterna bola da vez da judeuzada cruel resolve fazer uma festa de aniversário de 13 anos, o que corresponderia ao Bar-Mitzvah dos colegas. Incorporando alguns elementos da festa judaica (êta, João antropofágico da gota serena!), os meninos fazem aquele lance de jogar o aniversariante pra cima com um pano gigante esticado por todas as mãos possíveis. Só que na última vez que jogam o menino pra cima, deixam ele se esborrachar no chão de propósito, só pra ver qualé. O João fica seriamente ferido e isso coloca a vida do protagonista em uma direção diferente da de seus colegas. Ele muda então de escola junto com o João e vai para uma escola não-judaica, onde agora quem sofre bullying é ele. Bom, essa é a primeira discussão do livro, então: a inconsciência da crueldade coletiva, o empoderamento da maioria e outras coisas tais que os judeus gostam de jogar nas costas da alemãozada. E principalmente a inversão dos papéis, algo que é comumente descartado pela suposta índole cândida dos judeus.

Mas aí também tem a questão do pai dele, que vive à sombra do avô, sobrevivente de Auschwitz e autor de cadernos completamente insípidos sobre a chegada no Brasil. O pai é bitolado na questão judaica e bota a culpa de tudo o que pode acontecer em Auschwitz e no holocausto. O confronto com o pai e suas ideias é também o confronto com seus amigos e o confronto com Auschwitz. Quer dizer, ignorar o holocausto é, para ele, amenizar a pancada sem ter o direito para isso. Como argumentar contra Auschwitz, afinal? Esse é um dos aprendizados do protagonista enquanto descendente de judeus questionador. E ele vai jogando essas e outras ideias, embora não consiga dar conta de metade delas dada a curta extensão do livro e a escassez de ensaio do narrador.

diário da quedaAliás, tai uma coisa legal do Laub, que são essas ideias discutidas não sob a forma de ideias sendo discutidas, mas sob a forma de fluxo de consciência, memória e seletividade narrativa. É só dessa maneira que a gente consegue perceber um padrão hegeliano nas gerações tratadas no romance (o livro é dividido em capítulos como “Algumas coisas que sei sobre meu avô”, “Algumas coisas que sei sobre meu pai” e “Algumas coisas que sei sobre mim”). Sabe, aquela coisa: tese, antítese e síntese. Um exemplo da relação: O avô nunca escreveu uma palavra sobre Auschwitz, o pai, por outro lado, sobrepesou a coisa e se tornou um obcecado. O filho, então, precisa balancear a vida e sair da sombra e da forma do holocausto para viver seus próprios dramas, filtrar as duas pontas de uma formação literária e concreta sobre o caso e avaliar o que pesa mais na sua vida: o legado do holocausto ou o próprio pai obcecado com o holocausto. Entre outras coisas.

Como vocês podem ver, esse é um livro complexo, maduro e relativamente bem resolvido, dado sua limitação de páginas e a extensa bibliografia, ficcional e não-ficcional, sobre o assunto. Acho que o cara conseguiu o que queria e foi bem sucedido nessa árdua missão do escritor brasileiro de fazer um livro que não seja só mais um livro. E acho que boa parte da minha simpatia foi ganha na linguagem. Sinceramente, ando cansado dessa onda de escritor nacional escrever que nem adolescente em absolutamente todos os livros. Ninguém se trata como adulto, e isso é chatão. O pessoal pode argumentar que geralmente são livros mais voltados para adolescentes, mas eu digo que a psicologia já provou que se você quer ser respeitado pela mocadinha, não fique falando Gugu-dadá pra sempre. E se alguém contra-argumentar dizendo que Gugu-dadá é exatamente isso o que este querido blog balbucia, eu digo que isso só vale para as coisas sérias, não para blogueiros literários absurdamente lindos e maravilhosos como eu.

O projeto gráfico da Companhia das Letras é um dos mais bonitos que já vi para livros nacionais. Fonte Electra, papel pólen de grande gramatura, e a foto de capa, meio prateada, é uma das melhores que já vi por aqui, na minha opinião.

Comentário final: 151 páginas de papel pólen soft. Ia contar uma piada de judeu aqui, mas são tempos perigosos de dedos apontados para todos os lados, então vou deixar quieto.

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Caco Barcellos – Rota 66

Olelê, Olalá, não para de chegar livrorreportagem nesse blog. Fazer o quê se eu li muito dessas coisas, né, gente? Mas ó, fica por aí que o livrorreportagem (alguém já se acostumou com essa nova ortografia?) de hoje é mó bacaninha.

Rota 66 – A história da polícia que mata. O nome parece meio óbvio pra mim. Pelo que eu saiba, toda polícia mata, e isso eu sei desde pequetitinho. Acho que o subtítulo poderia ser algo como “A história da polícia que mata gente que não tinha nada a ver com a história”, já que o livro é introduzido com o assassinato de jovens de classe média que nunca foram metidos com crime. Se bem que depois aparecem casos de policiais matando ladrões de galinha e outros criminosos da terceira divisão do mundo do crime, mas a ideia de Caco Barcellos com esse subtítulo era retratar a polícia que mata de lambuja, sem haver necessariamente o confronto armado com os meliantes. É, deixemos a definição assim.

Rota 66 é um livrorreportagem um pouco diferente, pelo menos na sua primeira metade, porque trata muito mais dos bastidores da investigação da matéria do que dos fatos propriamente ditos. E, na moral, que investigação! Nem o maluquinho do 60 Minutes faz uma parada dessas. É papo de ficar documentando quilos e mais quilos de papelada engavetada coberta com cocô de mariposa, rastrear o número de série de uma arma, desde sua primeira compra até seu último dono, fazer mancha criminal, estatística das mortes pelas mãos da polícia, etc. Fora as entrevistas, pesquisas e a redação de praxe. E tudo isso sozinho, cumpádi, com a ajudinha do estagiário no máximo. Assim, na cara de alemão e na coragem, Caco Barcellos mete o bedelho onde não é chamado para contar as histórias dessas vítimas e suas famílias, e narra tudo como se fosse um filme de ação, uma espécie de Máquina Mortífera sem a parte do humor que lhe é peculiar.

Acho que, na época em que o livro foi publicado, a ideia de que a Rota matasse gente inocente era tão inacreditável quanto dizer que o trailer do filme do Jabor está sendo aplaudido nos cinemas. A Rota sempre teve muito prestígio em São Paulo por ser a “polícia que resolve as coisas”. Mais ou menos o destaque e a idoneidade que foram conferidos ao Bope depois do Tropa de Elite. A comparação é clara porque o Bope é quase uma Rota do Rio de Janeiro. Aliás, aqui em Curitiba existe a Rondas Ostensivas de Natureza Especial, a Rone. Se bem me lembro, quando eu era criança, eu cortava o cabelo com um barbeiro gay que morreu de Aids e que também se chamava Rone, ou Roni, ou Ronan, sei lá. Fato é que toda vez que eu leio Rone no carro da polícia eu lembro daquele magro barbeiro boiolinha que morreu de Aids. Espero que não apanhe da Rone por essas lembranças.

Tergiversei. Dizia eu que a Rota tinha muito respaldo na sociedade paulistana na época do lançamento do livro. E, é de se imaginar, Rota 66 foi um baque na popularidade da tropa por uma descrição tão brutal de seus policiais. Claro que isso não vai ser choque nenhum caso você seja do tipo de pessoa que fala “bandido tem tudo que morrer mesmo!”. Isso, aliás, é outro aspecto da cultura da classe média que Barcellos tentou abalar com esse livro. A sociedade ainda não entende o conceito do criminoso casual, que tem um empreguinho, mas tunga lá uma coisa ou outra pra complementar renda. Acha que bandido nasceu bandido, faz bandidagem 24 horas por dia e secretamente balança a cabeça quando a empregada chega chorando dizendo que o filho tá na cadeia. Infelizmente, essa consciência humanitária com bandido foi longe demais, e hoje em dia o que não falta é galerinha descolada com (parafraseando o Tropa 2) peninha do vagabundo, atestando que sabe mais do que todo mundo sobre a realidade social em que vivem os pobres que apelam para a violência, e bota o dedo na cara pra dizer que a gente não sabe nada porque nasceu loiro. Tá certo, não vou entrar no mérito da discussão, mas aí, povo, bora deixar de ser prepotente, belê?

Essa edição da editora Record seguiu a linha do outro livro do Barcellos, o Abusado, que também já foi resenhado aqui. Só que é menorzinho e sem imagens. Maldido papel offset, fonte Stone Serif, que é uma das poucas fontes confortáveis de se ler em papel branco desse jeito; Capa maneríssima com uma foto sépia e saturada de um sujeito mauzão da Rota de braço cruzado com relógio de ponteiro (sempre achei que militar e polícia só usava relógio G-Shock), e título, subtítulo e nome do autor em destaque na caixinha de cores preta, branca e laranja. O corte e o encadernamento do papel é bem legal, fica um tijolinho compacto e que passa voando, você nem vê. Eu mesmo li esse livro em dois dias. Foi massa.

Comentário final: 350 páginas em papel offset 90g/m². Porrada neles, governador!

 

Xico Sá – Chabadabadá

ChabadabadaOi pessoal! Ih, hoje não é quarta-feira, é quinta, e ontem não teve resenha. É que ontem foi feriado aqui em Curitiba (dia da padroeira da cidade, que eu não sei quem é. Prova fortíssima de que a fama do santo não se faz pelo feriado) e eu estava ainda no meu recesso prolongado de aniversário, e meu maior presente foi ficar uma semana sem esse mal necessário que é a internet. Foi bacana, mas agora também pago o preço: tô caindo de sono — acordei às quatro da matina hoje — mas fiel a vocês, meia dúzia de gatos pingados que ainda se importam de passar aqui vez ou outra. Então vamos lá, bem rapidão pra eu me meter no pijama logo.

Xico Sá, minha gente! Olha, se tem um sujeito que objetivamente SABE escrever nesse Brasilzão é esse rapaz, esse moço, pobre moço, nascido no Crato e radicado em São Paulo, cidade que, para mim, nada mais é do que o cenário do filme O Invasor: podridão sem fim. Mas isso pode ser só uma primeira impressão equivocada, parte da minha adolescência zanzando pela galeria do rock.

Mas tergiversei, divaguei, digredi (inventei um verbo legalzão!), soliloqueei (outro!), e não cheguei ainda no que interessa. Dizia eu que Xico Sá é um cabra que sabe escrever. Combinando erudição e populachos mil (e dos melhores), o escritor faz uma verve única para suas crônicas, que falam basicamente dos universos masculino e feminino (alô Pepeu!) e as disputas, lutas e nuances inerentes às classes. Um tema tão batido e, ao mesmo tempo, tão novo nas mãos desse cara. Ponto pra ele.

Xico SaChabadabadá é, portanto, uma reunião dessas crônicas que Xico escreve para os mil veículos com os quais colabora. Uma espécie de continuação de seu livro Modos de Macho & Modinhas de Fêmea, também lançado pela Record. Nesse livro, porém, surge a atualização do tema: a entrada (ui!) em nossa sociedade dele, o temido metrossexual, o sujeito que usa tiara, creminhos, roupas da Lacoste, ouve The Strokes e finaliza o fliperama de dança (opa, confundi as preferências sexuais, mas a ideia é essa: o hômi afrescalhado porém não completamente baitola). Também entram na ordem do dia as fêmeas predadoras, mulheres que exigem, escolhem, liberam-se sexualmente, levantando uma bandeira que nenhum sovaco cabeludo ou falta de sutiã poderia representar.

É até intrigante pensar como o autor divide seu tempo entre o Microsoft Word (ou outra ferramenta para dar vazão à sua verborragia, num bom sentido), as leituras dos clássicos, que são muitos — o leitor menos experimentado se perde entre as citações e referências — e a boemia, de onde, ao que parece, tira a maior parte de seus motes. Deve ser um dessa raça que o Millôr descreveu no prefácio do livro do Stanislaw, que saem do bar às 3h, estão na praia às 7h, e na máquina de escrever às 10h. Só isso explica, acho eu.

Essa edição da editora Record me surpreendeu positivamente. Que escritor não queria ter um livro com esse projeto gráfico? Pra começar, formato quadradão de almanaque que ganha o coração dos abestados e o respeito dos letrados, que vão ter algo diferente para fazer vista na estante. Depois, ilustrações — e muitas! — do mestre Benício, o cara das pin-ups. Se fosse só um livro do Benício já valia a compra, mas os caras juntaram isso às crônicas saborosas do cearense, e o livro ficou um pitéu. Papel pólen, fonte Filosofia (conhecia essa fonte? Acho que nem eu) e paginação só do lado ímpar, o que, embora seja um charme para formato de almanaque, é um pouco irritante para meus tocs, já que eu só leio a paginação do lado par. Mesmo assim, sensacional, capa coloridassa com direito a alto-relevo brilhante em papel fosco.  Bacaninha, né?

Ah, olha só, essa semana, o lado A traz uma entrevista com o autor. Vejamos se funciona esse negócio de completar o lado A com o lado B e vice-versa, né? Passa lá e fala tu.

Comentário final: 181 páginas em papel pólen soft quadrado. Porrada na sua cara!