Enrique Vila-Matas – História Abreviada da Literatura Portátil (Historia Abreviada de la Literatura Portátil)

historia abreviada de la literatura portátilDe volta ao nosso expediente normal então. Perdemos no The Bobs, acho que todo mundo já estava esperando isso. Como sempre, em meio a chacina de criancinhas, tsunamis, vulcões, vazamentos nucleares e terremotos, o mundo continua dedicando a maior parte de sua atenção à falta de ciclovias. Ora, vou parar de falar isso porque senão vai parecer discurso de mau perdedor. E eu sou mau perdedor e sei que ser mau perdedor ainda não é muito bem aceito na sociedade, então bola pra frente.

O livro de hoje é curtinho. Qualquer um pode lê-lo em uma sentada (o equivalente a três vírgula sete cagadinhas, não sei qual unidade de velocidade de leitura vocês usam aí), o problema maior é desembolsar uma graninha para comprá-lo porque, veja bem, ainda se pensa muito na quantidade de páginas que um livro tem e costuma-se avaliar o preço dele baseado nisso. Gente, o livro novo da Maryan Keyes tem 800 páginas de pura abobrinha, vocês decidem onde investir vosso rico dinheirinho.

Bom, Historia abreviada da literatura portátil é um livrinho publicado originalmente em 1985 e que dá o starte a esse jeito maluco que o autor tem de passar as ideias dele pra gente, usando principalmente a) uma escrita extremamente cerebral b) referências históricas e geográficas das cidades da Europa c) alguns escritores e outros artistas pouco mais desconhecidos do grande público d) apócrifos e muitas, muitas mentirinhas, dessas do estilo pega-troxa. É isso, a literatura do Vila-Matas serve principalmente pra você que acredita em tudo o que lê começar a ficar mais esperto um pouco.

Bom, a história é a seguinte: um narrador, que não é o autor, embora ele dê a entender isso durante o livro inteiro, mas se você ler com cuidadinho você percebe que não é, está escrevendo um ensaio sobre a sociedade secreta shandy, um grupo de artistas mutcho lokos que batizaram sua seita com o nome do personagem Tristram Shandy, do Laurence Sterne, sabe aquele? A sociedade é composta por tipos do tipo do Marcel Duchamp, Aleister Crowley, Robert Walser (robard valzaaaa), entre outros, e todos eles pregam coisas como só fazer arte que não seja importante, só escrever livros pequenos e obras de arte que possam ser miniaturizadas para se carregar numa maleta, à moda da maleta de Duchamp, que cotinha suas obras. E também serem solteiros, estarem perto de pelo menos uma mulher fatal e beber uma bebida chamada Shandy, que, pelo que eu entendi, é cerveja misturada com limonada. Pra quê Activia, né?

Aí que Vila-Matas vai conduzindo a gente por esse universo de mentiradas e o leitor bobão vai caindo em todas, e depois lê a porcaria do livro e sai por aí esbanjando conhecimento. Até que toma um chega pra lá e passa o resto da festa de mau humor, chorando as pitangas de que não teve tanta chance na infância, desperdiçou sabedoria decorando nome de Pokémon e jogando Tazo no recreio, etc. Por isso, é um excelente livro que todo mundo deve ler! É meio estranho que o autor queira divertir a gente com um ensaio, não é? É que nem, sei lá, defender uma tese de doutorado em forma de espetáculo circense. Enfim, por enquanto tá dando certo, espero não enjoar dessa escrita dele, é ainda agradável e, aos meus olhos, pouco pedante se não contarmos a intenção.

Essa edição da Cosacnaify me pegou de surpresa. Achava que vinha um livro do tamanho dos outros do autor, mas veio um que é um quarto dos livros normais, e com menos de 150 páginas ainda por cima. É do tamanho de um livro de bolso, e o boboca aqui nem se ligando que o cara queria fazer uma literatura portátil. Dã. Fora isso, a edição é chique que nem as outras, e a foto da capa é, na minha modesta opinião, uma das melhores da coleção. Rosa e amarelo? Sim, tudo bem, é uma escolha heterodoxa mas, hey, se eles não fizerem, ninguém faz, a não ser talvez uma daquelas gráficas de fundo de quintal que lança uma edição do autor chamada “Mistério na fazenda” com Sandy e Junior na capa, jurando que vai ser o maior sucesso de público e de crítica, entrar pro Guiness e o escambau. Papel pólen e fonte Garamond, a belezura. É isso. Livro curtinho, resenha curtinha, mas acho que deu pra entender como é, né?

Comentário final: Toda pessoa alta é meio maluca porque vivem batendo a cabeça nos lugares. Já repararam nisso?

 

Enrique Vila-Matas – Doutor Pasavento (Doctor Pasavento)

Doctor PasaventoComé que é, negada! Geral se aguentando pro projeto verão? Tem que ficar com o corpo em forma, senão periga de você passar esse ano sem receber dos outros aquela coisa gostosa que parece amor maciço mas é só medo e solidão banhados a amor. Enquanto você se priva aí de um prazer pra tentar ganhar outro nessa lógica maluca que todo mundo acha que entende, chegaí pra se alienar no Livrada! O livro de hoje é um petardo.

Doutor Pasavento. Acabei de acabar de ler esse livro e vim aqui contar pra vocês como é. Viu como eu sou legal? Viu como eu vou te ajudar a colocar na tua bagagem cefálica algo além do nome de todos os Pokemons, das letras dos Beatles, do penteado do Jordan do New Kids on the Block, de piadas (piadas?) do Friends, enfim, algo que preste. (Ih, coloquei as letras dos Beatles no meio, sujou!) Mas, como esse é um blog isento de embasamento, fiz o favor de não ler nenhuma crítica, resenha, comentário, o que seja a respeito desse livro, afinal de contas, o nosso trabalho é abastecer o Google e não chupar dele o nosso conhecimento, como alguém já disse alguém por aí. Então, que fique bem claro que aqui é só a minha humilde opinião, belê?

Pois bem. Doutor Pasavento é um romance/ensaio sobre o ato de desaparecer. O protagonista do livro, sem nome, mas que se parece em muitos aspectos com o próprio Vila-Matas — algo que ele faz de monte nos seus livros — é um escritor consagrado que está farto do reconhecimento que recebe e deseja sumir pra suprir aí umas necessidades inerentes no ser humano que só Freud explica. Bom, Vila-Matas tenta explicar também, e traça paralelos com a vida do escritor suíço Robert Walser, o gênio irreconhecido, o Captain Beefheart da literatura européia, e de como a sua internação no hospício, onde passou os últimos 23 anos de sua vida sem escrever picas ajudou-o no processo de desaparecer. Ao mesmo tempo, analisa um pouco a situação em que se encontra no momento em que toma a decisão: indo para Sevilha para dar uma palestra sobre a “ficção dançando na fronteira com a realidade”, um tema que só pelo título dá vontade de vomitar. Hospedado na rua Vaneau, em Paris, o escritor começa a viajar na maionese pra criar relações entre aparentes coincidências e fica realmente maluco com isso. Daí cria um personagem, um alter-ego para si: o Doutor Pasavento, doutor em psiquiatria que curte se meter em casos de pacientes alheios.

Não contente com a sua dupla vida, acaba criando uma terceira persona, e depois uma quarta, o Doutor Pynchon, que, assim como o escritor americano, gosta de ficar relacionando tudo por acreditar que tudo no universo está conectado. Pynchon é citado também por ser uma pessoa misteriosa: ninguém sabe quem ele é, com quem ele se parece, porque ele não dá entrevistas nem sai de casa. Tipo um Dalton Trevisan bem sucedido, isso aí. Assim, ele escreve no seu moleskine sobre seu desejo de desaparecer e perambula por certos lugares, ou finge que perambula. Conta histórias como se estivesse na Patagônia, mas estando num hotelzinho em Paris, e passa o final do livro num lugar chamado Lokunowo, que eu tenho a ligeira impressão de que não existe de verdade.

A graça do livro está em ver a transformação do personagem para, realmente, outra pessoa completamente diferente do que ele era no começo do livro. Nesse sentido, Doutor Pasavento também é um romance de formação. Ainda que ele não mude seu estilo de escrita conforme muda a personalidade, é notável o trabalho do autor pra transparecer essa realidade, e, junto com ela, tratar de alguns temas conhecidos dos escritores, como a fama e a cacetada de moleques pedantes que ficam na sua aba pra que você leia os originais deles. A literatura quase sempre é a questão central do autor, pelo que eu andei percebendo.

Essa edição da Cosac Naify é um pitéu, é ou não é? Já falei um pouco dela quando resenhei o livro Suicídios Exemplares, do autor, então não tem muito o que falar, a não ser que esse tem um poder letal maior, afinal são 410 páginas na sua cara. Ah, o livro ganhou aí alguns prêmios, como o da Real Academia Espanhola, em 2006 e o Mondello, de Palermo, na Itália, então acho que o cara presta, afinal de contas. Não sei se sabem, mas ele, quando era um Zé ninguém, alugou um apartamento em Paris da escritora Marguerite Duras e, na cara dura, pediu pra elas uns conselhos de “como ser um bom escritor”. E não é que a dona fez uma listona pra ele? Acho que deu certo, afinal. Vamos ver quem me arruma uma lista dessas agora.

Comentário final: 410 páginas pólen soft. Pra tomar aquele verdadeiro chá de sumiço.

Ps: Algo na cara do Vila-Matas me lembra o Jello Biafra…

Enrique Vila-Matas – Suicídios Exemplares (Suicidios ejemplares)

Suicídios exemplaresEis que, no fim do mês passado, bem naquele período de apertar o cinto, quando sobra mês pro salário, a Cosacnaify, editora que adoro e admiro, resolveu fazer uma vileza com todos nós: colocou em sua loja virtual uma promoção de 24 horas com livros caríssimos pela metade do preço. Era Moby Dick saindo a 55 reais, trilogia do Górki a um galo, ensaio do Levi-Strauss saindo mais barato que cd do Calipso. Enfim, bate aquela sensação de que o mundo inteiro está se divertindo e você aí, na pior. Eis que minha mãe surge para livrar-me da dor de ver e não ter e disse “escolhe dois aí de presente de dia do amigo”! Gente, que mãe legal! Sem pestanejar, escolhi dois livros do espanhol Enrique Vila-Matas. Li um deles e agora estou aqui para comentar com vocês, queridos leitores, a genialidade desse rapazote no livro Suicidios Exemplares.

Deus sabe que não gosto de livro de contos. Dos contos sim, gosto muito, e leio com prazer. Mas livros de contos — vai vendo — são cansativos a dar com pau: o desgaste de entrar no clima de uma história para logo sair dela é um ônus do costume de ler romances. Quando eu lia só contos, achava tranquilo. Mas aí é que tá, camaradinhas: não experimentei esse cansaço nos contos do barcelonês. Talvez, por todos eles serem permeados pelo mesmo tema: o suicídio.

A ideia de um suicídio exemplar é doidona, tá ligado. Aliás, suicídio é um conceito com muitas limitações de caracterização: não pode ser ideal, não pode ser exemplar, e por aí vai. Mas o que Vila-Matas fez, de maneira diabólica (e Vila-Matas ao contrário é Satam Alive, né?) foi explorar o tema e quase esgotá-lo em narrativas eletrizantes. Nelas, o suicídio não só o desfecho lógico como também a justificativa para a própria literatura. Já diziam esses sujeitos emos tipo Cioran, que o suicídio é um ato de afirmação. A morte é a verdade do amor e o amor é a verdade da morte, diz o espanhol lá em dado momento. E a afirmação de Vila-Matas na literatura é justamente a do sumiço, é ou não é? De Bartleby e Companhia, que trata do ofício de desistir de escrever, passando por Doutor Pasavento, que aborda o desejo de desaparecer, o suicídio também pode ser essa saída à francesa, quando não é aquele escarcéu de pobre de “aaaaaargh, eu vô pulááááá”. Talvez seja esse o exemplo dos suicídios do livro afinal: não incomodam ninguém, e são sabidos apenas dias depois.

Enrique Vila-MatasEntre os contos, dois são excepcionais: “As noites da íris negra”, um conto que desafia sua capacidade de largar a leitura no meio da história. Fala do mistério que envolve a morte do pai de uma gatinha que o narrador tava a fim de carcar, e falar mais do que isso é um crime ao conto. E “Pedem que eu diga quem eu sou”, onde o autor vira personagem e trava um diálogo sensacional com um pintor metido a sabichão, considerado o último dos realistas por pintar placidamente um povo “verdadeiramente diabólico”. Esses dois contos — trocadilho prego — dão conta de exemplificar o poder da narrativa de Vila-Matas, seja qual for o aspecto principal da narração, o diálogo ou a descrição. Em descrição, aliás, o penúltimo conto, “O colecionador de tempestades” descreve um ambiente tão sombrio quanto engraçado, e fecha o livro com uma ideia: todo suicídio acaba sendo um espetáculo. Digo penúltimo porque o último mesmo é um trecho de uma carta do gordinho Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa antes de seu suicídio, lhe informando da chegada da estricnina. O título, que abre o excerto da carta, “Mas não façamos literatura”, é um capítulo a parte, uma resenha a parte, que nem eu nem você iremos fazer.

Acho que comentar o projeto gráfico da Cosacnaify é dispensável, né? Os livros são todos sensacionais. Essa coleção do Vila-Matas principalmente. Com essas fotos da Corbis e essa preparação da capa, a gente tem a certeza de que fez um negócio da China por comprar o livro pela metade do preço. Aliás, sugiro entrar ali no blog da editora para ver as capas alternativas a esse livro. Acham que ficaria melhor? Eu, particularmente, não acho. Essa foto matou a pau.

Ô velho, esse cara é a cara do Ney Latorraca ou não é?

Comentário final: 205 páginas em papel pólen soft. Pouca coisa, seu fresco! Toma mais!