Alain de Botton – A Arte de Viajar (The Art of Travel)

The art of travelOs livros de não-ficção. Ah, os livros de não-ficção. Você pega um toda vez que está cansado de lirismos do romance ou do conto. Toda vez que se sente alienado do que está passando no mundo lá fora e mesmo dentro de você. Toda vez que você passa por uma poesia pichada em um muro. Toda vez que te chamam de burro em público. Toda vez que ouve uma música do Criolo. Toda vez que vê seus amigos ansiosos com a tradução de um livro gigantesco do David Foster Wallace que ninguém vai ler. Toda vez que vê uma fila de autógrafos gigantesca na Flip para o romance de estreia de um autor da Nova Caledônia publicado no começo da década de 80 e traduzido só agora para o português, que fala de como jovens da contra-cultura resistiram ao governo tirano e cruel do ditador caledônio cujo nome você nunca vai conseguir pronunciar. Os livros de não-ficção são altamente necessários quando a ficção e seus elementos cansativos começam a tomar uma porção maior da sua vida do que você gostaria.

E Alain de Botton é um bom antídoto pra isso, descobri depois que meu grande amigo e interlocutor de leituras boas Cássio Capiroba me recomendou e logo depois me presenteou com este A Arte de Viajar, que devorei em poucos dias. O sujeito tem o seu grande mérito, que é o de ser profundo e acessível ao mesmo tempo, e carregado com uma bagagem verdadeiramente erudita, que passa por escritores merdas de outros séculos a livros realmente importantes de outras áreas perto dos quais você nem chegaria perto a não ser que estivesse realmente muito curioso, ele nos brinda neste belo livrinho ilustrado e dividido em vários capítulos, com ensaios sobre, como diz o título, a arte de viajar.

É assim, por exemplo, que ele usa o clássico de Huysmans, Às Avessas, para falar das nossas expectativas quando escolhemos um destino de viagem. É assim também que faz uma longa explicação sobre o legado de Humboldt (o verdadeiro legado, não o livro do Bellow) para a exploração do turista e os reais motivos pelos quais nos interessamos por um determinado lugar, e principalmente, como utiliza Van Gogh e Ruskin para falar da proximidade da arte com a nossa percepção da realidade, e como isso tudo está relacionado com o que atentamos com o olhar quando viajamos. A impressão é que dá é que o cara tem o conhecimento do mundo na mão e usa a seu bel prazer para ilustrar quaisquer pontos que queira para te provar um ponto de vista. Deve ser dureza ganhar uma discussão em mesa de bar com um sujeito desses. Felizmente, o sujeito veio da Suíça, mora lá Inglaterra e meu único contato com ele são esses livros maravilhosos que ele faz.

Alain de BottonA leitura de A Arte de Viajar é extremamente leve e gostosa, o que é um dom raro para quem se propõe a escrever ensaios sobre temas tão filosóficos quanto abstratos. Afinal, condensar uma experiência individual em valores coletivos como ele faz com a viagem é uma tarefa que exige tanto uma sensibilidade quanto a tentações solipsistas quanto a determinação de se unificar o pensamento de maneira que o leitor possa se identificar de maneira rápida e clara com esses devaneios.

Minha crítica ao livro é uma só e vai direto no conceito dele, por mais paradoxal que isso seja, já que passei o texto até aqui jogando confete no dito-cujo: viajar tem algo de misterioso e belo que, de certa forma, morre se algum espertinho vem e te explica o porquê. É como ouvir os Beatles: por mais que te digam que é legal e importante, não vai fazer sentido pra você até que você faça a sua descoberta pessoal na experiência da audição desses almofadinhas britânicos que depois quiseram pagar de lóki (e não é essa a história de toda banda indie hoje em dia?). Mas, como crítico, não posso meter o pau em um livro por ser esclarecedor DEMAIS, mas, ah, sei lá, cara, me deixa aprender sozinho também. Mesmo assim, se você não for um bicho do mato como eu, você vai ler A Arte de Viajar e fazer da leitura o melhor pra você sem ficar encanando com nada. Porque é isso o que o livro é, no final: completo, esclarecedor, leve e divertido. É detalhista ao dar pinceladas gerais, e é sério sem ser carrancudo. É como um amigo mais inteligente que você que te explica as coisas que você sente e não sabe direito o porquê, e aí você fica achando tudo meio gay mas também fica extremamente agradecido. Esse é Alain de Botton.

Esse livro foi publicado pela Intrínseca, e como eu já disse, ele é altamente ilustrado e dividido em vários capítulos, no começo dos quais é anunciado qual será o lugar do mundo discutido e quem serão os guias, quer dizer, quem serão os intelectuais ou as personalidades nas quais o autor vai se basear naquele capítulo. Isso torna a coisa mais didática ainda, permitindo ao leitor buscar por fora quem quer que seja que ele tenha se interessado durante a leitura. É todo em tons de cinza por dentro, mas não importa. O papel ainda é o bom e velho pólen soft com a grande tipografia Electra (salve, Electra!). Tem cabeço e paginação na parte superior e páginas cinzas para separar os capítulos. Um livro que não tem medo de gastar página para ser bonito. Gosto disso. E quem não gosta?

Comentário final: 253 páginas em papel pólen soft. Dá pra matar numa viagem daqui até Aracaju.

Arte e Letra: Estórias

Arte e letra estoriasDeus sabe que não sou exatamente um leitor de revistas. Prefiro o bom e velho jornal diário, mas isso é uma outra história. O que queria dizer é que não sou exatamente um leitor de revistas, mas existe uma revista que eu coleciono religiosamente e leio sempre e que talvez vocês não conheçam, por isso o post de hoje. A Arte e Letra: Estórias é uma revista literária trimestral (se não me engano) que publica contos de autores brasileiros e estrangeiros, muitas vezes em traduções inéditas no Brasil. Dos nomes conhecidos de fora, já publicou Paul Auster, Coetzee, Saul Bellow, Andres Neuman, Voltaire, Gonçalo Tavares, Jonathan Swift, Fitzgerald, etc, etc. Dos menos conhecidos, temos Karel Capek, Miroslav Hasek, Hjalmar Soderberg, Frank Stockton, Samanta Schweblin, entre outros. E dos nacionais, tanto os famosos, do naipe de Cristóvão Tezza, Marçal Aquino, Joca Reiners Terron e Moacyr Scliar quanto os ilustres anônimos, como eu. Rá, vocês bem que estavam desconfiando que este era um daqueles posts pagos que se fingem de amigões que as blogueiras de maquiagem fazem sob o pêndulo do vil metal, mas eis que a arapuca se fecha e tudo se torna claro como a luz do dia.

Mas não. Esse não é um post pago e não estou aqui pra falar da minha publicação na revista. Mas, é claro, se quiserem ler meu conto, ele foi publicado na edição U. É, também tem isso que eu esqueci de falar: a revista não tem números, tem letras. Claro, uma sacadinha para uma revista que trata justamente de letras, nada podia ser diferente. Ela começou na já esgotada e objeto de colecionador Arte e Letra: Estórias A (que eu tenho!), publicando Stephen King, Tezza, Saramago e Adolfo Bioy Casares e atualmente está na Arte e Letra: Estórias V, que tem César Aira, Marçal Aquino, Melville e o russo Leonid Andrêiev, entre outros. E quando chegar à letra Z, o que deve acontecer no ano que vem, a revista chegará ao seu fim.

Sei disso porque os editores da Arte e Letra: Estórias são os irmãos Tizzot, amigos livreiros donos da Livraria Arte e Letra, a mais charmosa livraria que Curitiba poderia ter. Mas sobre ela não vou falar nada porque, já disse, esse não é um post pago e não quero começar a mexer com a cabeça da galera implantando a dúvida sobre o motivo de tamanha generosidade de um blog mais áspero que papel higiênico de rodoviária. Mas sim, são meus amigos e acho que é tradição na crítica literária brasileira aliviar pro lado dos amigos, não? Mas a coisa nem se trata de aliviar a barra pros outros porque a revista é mesmo irrepreensível, e bom, afinal, pra que eu estou falando disso? Pra compartilhar com os senhores das virtudes que é descobrir a literatura por outro meio que não o mainstream da crítica de jornal, de blog literário (que quase sempre são mancomunados com as editoras, embora esse seja um verbo muito forte pra usar nesse caso) e de expositor de livraria.

arte e letra estorias RFalo isso porque nessas últimas semanas, tanto a Folha de S. Paulo quanto o Estadão, dois dos maiores jornais do Brasil, deram resenhas do livro novo da Bridget Jones, que saiu pela Companhia das Letras, uma editora que eu, particularmente, adoro e confio, mas que vez ou outra dá umas bolas fora desse naipe. Sem entrar no mérito da influência da editora na divulgação dos livros, que esse é um trabalho que precisa ser feito indiscriminadamente, o fato do Estadão, que tem um dos suplementos de cultura mais elitistas do Brasil, se propor a escolher esse livro dentre tantos outros para doar um latifúndio de espaço na tão disputada mídia impressa a um livro cujo nível já dá pra imaginar, no mínimo desperta em mim uma pequena paranoia sobre quais são os fatores externos a um livro que me fazem considerá-lo “boa literatura”. Quer dizer, gosto de pensar que sou um leitor com certo discernimento, um tanto melhor do que isso. Mas alguém, por favor, pense nas criancinhas que crescem sozinhas sem ter com quem conversar sobre livros e buscam suas referências pseudo-intelectuais em resenha de jornal, e o que me aparece? Bridget Jones! Acho que era o meu amigo Lucas que estava me falando de um ensaio que ele leu dia desses que postulava que a cultura literária que temos hoje foi toda estabelecida nos séculos 17 e 18 por donas de casa, que eram as pessoas que liam romance enquanto os homens faziam política e trabalhavam em ensaios cabeça. Enfim, dá pra fazer uma analogia com o agora, mas é melhor não pensar nisso e buscar fatores extra-comerciais, como essa revista, que, pra mim, serve como um bom cardápio do que pedir no futuro. Em tempos de Bridget Jones no jornal, Arte e Letra: Estórias (nem precisam me pagar por esse slogan, hein?).

O que mais? A revista é bem lindona, cada edição é ilustrada com desenhos ou fotos de um autor diferente, que, assim como os autores, pode ser um local talentoso ou um mundial consagrado, tem papel pólen soft de boa gramatura, alguma fonte bonita de serifa discreta e, enfim, tudo bem maneiro. Ia tirar uma foto da minha pilha de revistas aqui, mas esse tipo de miguxice já foge do propósito desse espaço, então paremos por acá.

E pra quem quiser comprar a revista, uma buscada num buscapé da vida dá conta do recado. E fica aqui o site da editora e livraria para quem quiser conhecer mais o trabalho deles. http://arteeletra.com.br/

Saul Bellow – Henderson, o rei da chuva (Henderson, the rain king)

Henderson, o rei da chuvaE aí, meu povo. Olha, antes de mais nada, queria agradecer de coração ao pessoal que divulgou o blog no twitter, no orkut, em seus blogs pessoais, verbalmente, enfim, a galera que se esforçou para dividir com os outros esse gostinho amargo de ler esse blog zoadão. Reforço o pedido: continuem divulgando e aumentando a comunidade de leitores aqui desta bagacinha. Quem sabe um dia a parada cresce mesmo, e aí vocês vão dizer “eu *cof cof* era leitor desse blog há muuuito tempo, meu netinho… na época esse Yuri era um sujeito legal, não era esse esnobe metido a besta que é hoje…”.

Mas, vamos aos trabalhos. Henderson, o rei da chuva! Fala sério, o sujeito que não fica um tiquinho curioso para ler um livro com esse título é um frio desalmado do caraças. A genialidade do escritor canadense radicado nos Estados Unidos filho de judeus russos (depois brasileiro que é tudo mexido) começa no título, e foi pelo título que esse cara me fisgou. Ganhei esse livro de dia dos namorados (que foi? Não me diga que ganhou uma Jabulani!?) da Carlinha e li ele durante esse mês inteiro, só me arrastando na leitura. É amigos, não tenho mais o viço de ler trocentos livros, mas tudo bem.

E aqui vou contar um pouco do livro. Não é spoiler, mas conto algumas coisas do livro, portanto, se quiser passar, te vejo no próximo parágrafo. Pois bem. A história fala de um tal Eugene Henderson, milionário, fanfarrão, sexagenário, veterano de guerra que, após uma vida conturbada quase que unicamente pelo seu temperamento instável, resolve se mandar para o… eu ia dizer coração da áfrica, mas o lugar pra onde ele foi tá mais perto de ser o cu do continente. Ele se mete num buraco esquecido pelo mundo e conhece duas tribos: os Arnewi, amistosos e simpáticos, porém muito coitadinhos, e os Wariri, arredios e excêntricos, porém com um rei extremamente cativante. Os Wariri tem um ritual muito interessante: o rei Dahfu, com dezenas de esposas, deve sempre dar no couro, caso contrário suas donas-encrenca denunciam ele para uma figura chamada bunam, que o leva para a floresta e o estrangula. O ritual de passagem para o próximo rei é que é interessante, e envolve a captura de um leão. Os Wariris são bastante crentes nos poderes do leão, e aí só lendo mesmo pra saber do que eu estou falando, porque estragar as surpresas mais do que eu já estou estragando aqui é muita sacanagem.

Nesse universo esquisitão, Henderson tenta preencher o vazio de sua alma, seu sentimento de inadequação em relação à vida, o seu “grun-tu-molani”, expressão Arnewi do livro dificílima de explicar (vale um mestrado aí, filósofos de plantão), a grosso modo quer dizer “homem quer viver”, o sujeito do eterno vir a ser. Com o rei dos Wariri, Henderson discute essa sua condição em diálogos profundos porém não maçantes. Esse é outro ponto forte do livro: ele é denso sem ser chato. Muito pelo contrário. Com doses certas de ação e suspense, o livro é extremamente emocionante, daqueles que você custa a largar. Sem sacanagem, um dos melhores que eu já li.

Saul BellowEventualmente a gente se depara, na literatura, com personagens tão perfeitos, tão bem construídos, que você custa a acreditar que é tudo inventado. É assim com o tragicômico Henderson, o rei da chuva. Eugene é nível 9 na escala Rodrigo Terra-Cambará de perfeição em caráter de personagem, mas, pensando bem, assim é o livro inteiro. Eu não sei se Saul Bellow viajou mesmo pra esses lugares, ou estudou alguma coisa sobre esses povos, mas a descrição que ele faz das tribos, da áfrica, do comportamento de seus líderes e dos rituais, é algo pra fazer cair o queixo no dedão do pé. Talvez seja isso que fascina a gente na literatura afinal. Se não, é com certeza algo que faz alguém ganhar o prêmio Nobel de literatura, como Saul Bellow ganhou em 1976.

Essa edição da Companhia das Letras tá no padrão da editora, com papel e capa que lhe são peculiares. Mas tenho uma crítica: a revisão do livro não foi das melhores mesmo. Várias palavras erradas, um jogo de palavras que foi traduzido de duas maneiras diferentes (ammargruha e bittahcidade, aparecem as duas formas no livro), e conte só quantas vezes a condecoração militar Purple Heart foi escrita como Purple Haze (será que tinha alguém doidão ouvindo Hendrix por lá?). Mau, muito mau, esse tipo de coisa dá um baque na leitura que a gente nem imagina.

Por fim, eu não sou muito de fazer isso, mas vou transcrever um trechinho de um diálogo do rei Dahfu que me impressionou muito, para dar o gostinho da leitura para vocês. Sem aspas iniciais porque esse texto já vai ficar cheio de aspas naturalmente:

“Dizem”, prosseguiu, “que o mal pode facilmente ser espetacular, que com seu ímpeto e fanfarronice impressiona o espírito mais facilmente do que o bem. Oh, isso a meu ver é um engano. Talvez seja verdade no que se refere ao bem corriqueiro. Muitas e muitas pessoas ótimas. Oh sim. Sua vontade lhes ordena praticar o bem, e elas o praticam. Como isso é comum! Mera aritmética. ‘Deixei de fazer os etceteras que deveria ter feito, e fiz os etceteras que não devia’. Isso não chega a valer uma vida. Oh, como é sórdido manter um registro de custo-benefício. Minha visão é totalmente oposta: o bem não pode significar oposto ou conflito. Quando ele é grande e elevado, é também superior. Oh, Sr. Henderson, é muito mais espetacular. Tem a ver com inspiração, não com conflito, pois ali onde o homem entra em conflito, ele cai, e quem empunha a espada também morre pela espada. Uma vontade estúpida produz um bem muito estúpido, desprovido de interesse. Onde o homem traça uma linha de frente numa guerra, é ali que ele tem tudo para ser encontrado, morto, um atestado de grande força e sacrifício, mas só de sacrifício”. (página 205)

Comentário final: 413 páginas pólen soft. Afunda o esterno do camarada.