João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas


Começo o blog com um livro que já havia comentado na malograda primeira tentativa de um espaço sobre livros. Não poderia começar de outra maneira, afinal de contas, Grande Sertão: Veredas é o meu livro favorito. Ganhei-o de aniversário, em 2008, do grande amigo Cássio Busetto, que tenho em alta conta e cujas indicações literárias sempre são acatadas. Li durante as férias do fim do ano e hoje digo com tranqüilidade que ler este livro é uma das poucas vantagens de ser brasileiro. É preciso ter as raízes bem fixadas na cultura do país.

Para quem sempre dormia na aula de literatura quando a professora entrava nesse assunto, o livro é um grande relato de um jagunço chamado Riobaldo “Tatarana” a um interlocutor oculto. Ele fala de suas aventuras no “sertão das gerais”, um território vasto que abrange parte dos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás, e de como conheceu e viveu com seu amigo Reinaldo “Diadorim”, um jagunço filho de Joca Ramiro, chefe do bando. Riobaldo, em sua ânsia por poder e sucesso, resolve fazer um pacto com o demônio, mas não sabe se o pacto foi consumado e passa a viver uma tortura psicológica enquanto tem de lidar com as reviravoltas de seu bando e a boiolagem latente que ronda sua amizade com Diadorim. Pronto, eis a sinopse. Se você não sabia do que esse livro falava, vergonha na sua cara, hein?

O problema de falar de um livro desses é que basicamente tudo já foi falado com muito mais categoria e conhecimento. A experiência lingüística é realmente o melhor da obra, e, somado à trama intensa, faz de Grande Sertão: Veredas o melhor livro que eu já li (até o momento, mas acho difícil achar algo melhor).

O leitor já deve ter lido de certos etílicos beatniks coisas como “eu escrevo com a alma, com o coração, com as bolas, com sangue, com porra, com merda” e bla bla blás semelhantes. É tudo mentira. O tal bebum escreve é com palavras e gramática, permeados por talvez algumas gírias e mau gosto. Porém, não seria nenhuma injustiça incorrer na suposição de que se algum autor realmente escreveu com a alma, esse autor foi o Guimarães Rosa. Ao contrário dos outros, Rosa conseguiu romper as correntes da sua escravidão à gramática e à semântica e, dando a volta por cima, tomou os elementos da escrita como seus escravos para conduzir sua literatura por veredas só imaginadas por ele e que nenhuma convenção linguística seria capaz de seguí-la. Não é a toa que o livro dá pano pra manga até os dias de hoje.

PROJETO GRÁFICO

A editora Nova Fronteira, que produziu a versão que eu li (vide imagem), cometeu o pecado de imprimir essa magnânima obra em um papel offset vagabundo. Em outras casas editoriais, o mais imprestável dos escritores é publicado no mínimo em um confortável pólen soft.

E isso não é pecado só com o Guimarães Rosa. As belíssimas ilustrações de nada menos que Poty Lazarotto mereciam ao menos uma capa dura. O número de vítimas aumenta se contarmos a excelente diagramação interna do cabeço (na vertical e alternando os cantos superiores e inferiores). O excelente projeto gráfico tem ainda o poema “Um Chamado João” escrito por Drummond sobre o amigo, com caligrafia do poeta. Tudo isso parcialmente arruinado pelo acabamento.  Não havia necessidade de se economizar tanto, afinal de contas, o livro por si só já é caro e a mesma editora Nova Fronteira possui uma versão “de estudante” que é menor e ainda mais desprovida de charme.

Claro que a versão chique do livro saiu, uma edição comemorativa de 50 anos (em 2006) que custava pelo menos cento e vinte reais e que durou uns três meses por aí (tiragem de dez mil exemplares). Quem viu sabe que era um pitéu, tinha o título bordado com fios soltos, capa dura, marcador de fita, isso sem falar no álbum de imagens e o DVD interativo (embora também tenha sido impressa também no maldito offset).

Pouco tempo depois, lançaram uma edição que era basicamente o mesmo projeto gráfico do meu exemplar mas com a capa que imitava a capa dura da edição de luxo. Também vinha em uma caixinha e acompanhava o álbum de imagens. Mas foi só. Um livro como esse merecia ser visualmente melhor representado, não acham?

Comentário Final: 624 páginas leves mas bem condensadas. Quebra alguns ossos.

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16 Respostas para “João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

  1. Yuri, preciso de alguém como você para me dá uma ajuda. Minha professora da facu, quer que eu pegue uma cena do livro Grande Sertão e reproduza, identificando o que mais me chamou a atenção, em qual tempo foi ocorrido o porque e tal. Poderia me dar uma dica de uma cena???

  2. Yuri, entre em contato comigo!!! por favor!!!
    Está difícil até para eu conseguir o livro, imagina destacar uma cena entre milhões de páginas; e o pior tempo curtíssimo!!!

  3. Yuri, minha professora quer que eu faça uma dramatização sobre esse livro, que quem ver entenda pelo menos qual a ideia que o livro quer passar. é urgente.. me ajuda por favor?

  4. Antes de comentar sua critica, é realmente espantoso o pessoal querendo fugir da leitura e tentando por todos os meios obter trabalhos para apresentar na escola. Minhas condolências Yuri. Mas têm alguma razão – as obras que aqui em Portugal temos que ler, eu acho que durante a escola não li uma sequer! Começa com os lusíadas de Camões (dá uma olhada e vc vai me entender. Ler por obrigação torna imediatamente a obra um saco! Você olha o volume do livro e fica com arrepios! Certo é que, depois de terminar a escola, li “voluntariamente” algumas das obras e compreendo agora o seu valor – não sei como resolver isso, mas leitura forçada não é certamente a solução. Li o Sertão Veredas neste mês de julho que passou e tem dois factos engraçados – o primeiro é que tinha uma amiga brasileira de férias aqui connosco que quando me viu na praia lendo o livro quase me xingou – ela que toda a vida evitou esse calhamaço! o segundo facto foi que, no meio da leitura, de cada vez que Riobaldo ficava se interrogando sobre sua atracção por Diadorim, só conseguia me lebrar do “Broke Back Moutain” mas com jagunço! (olha aí uma ajuda para a galera estudante!). E olha que nem vi o filme, me falaram só do enredo. A culpa dessa leitura foi, como já lhe disse, de Ruy de Carvalho e seu livro Desmedida – e, maravilha das maravilhas, fui hoje, finalmente, comprar o Sertões de Euclides da Cunha, que estava esperando faz semanas – me saiu edição de bolso mas não importa.
    Gostei muito do livro, Veredas, acredito que para um Brasileiro seja até mais emocionante a leitura , por via dos factos históricos e culturais, e até linguisticos (não foi fácil, mas depois do Viva o Povo Brasileiro já consigo entender qualquer coisa!), mas ainda assim, sendo portuga, é um livro muito bom mesmo.
    Entretanto estive vendo sua critica ao Veríssimo e, se já tinha curiosidade, agora fiquei ferrado – vou ter que ler.
    1 grande abraço

    • Oi Fausto, eu sei como é isso, também não li nenhum livro que a escola me mandou ler. Nem por isso apelei para métodos ardilosos como esses, mesmo porque não havia internet na época. Hahaha o Brokeback sempre é uma referência quando lemos Grande Sertão nessas épocas pós século XX, e sim, acho que ser brasileiro é algo fundamental para apreciar o livro melhor. Mas, sendo você português e gostado do livro, já fico mais aliviado em saber que não estamos tão distantes assim. Só que eu achei ele bem mais difícil do que o Viva o Povo Brasileiro, você não?
      Aguardo seu comentário sobre o Tempo e o Vento agora, heheheh
      Abraço!

      • esqueci sua pergunta: “(..) eu achei ele (Serão Veredas) bem mais difícil do que o Viva o Povo Brasileiro, você não? A dificuldade a que me referia era puramente linguistica (Dadinha falando aquele meio crioulo…, o caboclo capiroba…, tem um monte de trechos que tenho que ler em voz alta para ver se apanho o significado!). Mas, é certo que o Sertão Veredas tem um enredo históricamente melhor situado enquanto o Viva o Povo Brasileiro é mais ficcionado: mas olha, uma obra é aquilo que nós retiramos dela (sem leitor não é coisa nenhuma!) e o Ubaldo povoou muito o meu imaginário – não retirando qualquer crédito a Guimarães Rosa, compreenderá que, pelos factos históricos a obra do Ubaldo prende mais um português.
        abraço

  5. Oi Yuri,
    Atrasado, mas lhe envio daqui os parabéns e que conte muitos (e eu por cá para ver…!).
    Citando você “(..)sendo você português e gostado do livro, já fico mais aliviado em saber que não estamos tão distantes assim.” – que distantes o quê, rapaz?! Geograficamente tem só essa poçinha que chamam de Atlântico e culturalmente, se viver uns tempos por aqui, na velha europa, vai ver que não tem diferença mesmo, o pessoal é só um pouco mais fechadão, fica com medo de dar opinião e discutir abertamente para não fazer figura de ignorante – mas ignorantes, lhe garanto, tem em todo o lado!
    Como lhe disse em meu comentário anterior, agora consegui os Sertões do Euclides e primeiro vou terminar esse – só depois vou, primeiro procurar, e depois ler o Veríssimo. Mas lhe prometo um comentário sobre o livro.
    Abraço

    • Oi Fausto! Jurava que tinha respondido esse comentário antes, que cabeça…
      Obrigado pelos parabéns! Acho que pensei que fossemos distantes porque estou morando no sul do Brasil, onde a presença portuguesa não é tão grande como no Rio de Janeiro, de onde eu vim. Costume dessa terra dos polacos, talvez. Mas bem que me dera morar na Europa e reparar nos ignorantões dos quatro cantos hehehe.
      Você, ao que parece, é um cara de leituras pesadas. Grande Sertão, Sertões, Viva o Povo Brasileiro, O Tempo e o Vento… Acho bom, mas imagino que deva saturar de vez em quando. Às vezes pego um livrinho de 200 páginas pelo simples prazer de vencê-lo rápido, mania minha. Aguardo seu comentário da obra então!
      Um abraço e obrigado por ser um leitor!

      • Oi Yuri.
        Isto de “leituras pesadas” é meio ciclico – de quando em vez canso. Mas desta vez, no que toca aos Guimarães Rosa e Euclides da Cunha, é por defeito meu mesmo – se meto na cabeça que quero aprender/conhecer melhor determinada cultura, leio o que for preciso. Mas tem sem dúvida que ver com o facto de ter estado aí pela primeira vez este ano e ter ficado quase envergonhado face ao meu desconhecimento de um pais e cultura que julgava conhecer melhor.
        Sobre o quem lhe dera morar na Europa…, um dia discutiremos o assunto (comenta aí um livro sobre actualidade politica ou social e abrimos um fórum de discussão – discussão brava!!).
        1 abraço

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