João Ubaldo Ribeiro – Viva o Povo Brasileiro

Viva o Povo BrasileiroNão costumo ficar aqui falando de vários autores nacionais em seguida, mas já vi que tinha falado do Luiz Alfredo Garcia-Roza e do Cristóvão Tezza nos últimos posts e pensei “que se dane, vamos emendar mais um”. Até pouco tempo atrás, achava que a literatura nacional era a melhor do mundo, riquíssima em tudo o que produzia. Até que comecei a ver umas cacas sendo publicadas e caí na dura e triste realidade: o Brasil anda mal das pernas de escritores vivos. Sim, temos um aqui, um acolá, mas compare você a meia dúzia de gatos pingados de hoje e a escrete de quarenta ou cinquenta anos atrás e poderá constatar que a morte fez muito mal à arte literária do nosso país. Vocês podem não concordar comigo, mas sei de uma pessoa que concorda: o senhor Paulo Venturelli, expert no campo dos livros, disse mesmo que o que resta hoje é uma repetição de edições que tratam da estética da cidade: “acendi um cigarro, olhei pra ela nua na cama, aí achei uma garrafa de vodca perto do meu tênis e fui pra cozinha” blé, se você já passou da sua adolescência, esse tipo de coisa não vai fazer sua cabeça.

Enfim, já deu pra perceber que eu to enrolando para falar do livro de hoje, e tenho uma razão muito forte para isso: não lembro de muita coisa do Viva o Povo Brasileiro, embora seja uma obra que passei muito tempo lendo (são 700 páginas, afinal). Acho que isso aconteceu porque o li logo antes de ler A República dos Bugres, que é um livro mais desconhecido, porém muito melhor. Mesmo assim, não queria deixar de falar sobre ele. Primeiro que o João Ubaldo é um dos únicos imortais que realmente merecem ser imortalizados. Segundo que esse livro é mega importante, papo de ser leitura obrigatória para trainees dos mais diversos. Terceiro que é um tijolaço, e tava cansado de falar de livro de 200 páginas. Quarto que é uma ficção histórica, um dos meus gêneros literários favoritos, que peguei gosto por causa da queridíssima professora Marilene Weinhardt, assumidade no assunto. Quinto porque estou procurando resenhar livros mais conhecidos, visto que quando resolvo falar de umas coisas que só eu li, vocês se acabrunham e não comentam (aliás, conto com vocês para complementarem essa resenha). Sexto porque gosto daquele poema homônimo do Patativa do Assaré, até foi usado naquela música “Brasileiro” do The Funk Fuckers. Então chega de razões.

Viva o Povo Brasileiro é, como eu havia dito, uma ficção histórica. Ou não é (Cléber Machado style). Na verdade, há o contexto histórico, mas não há personagens migrantes — pelo que eu consigo me lembrar. (personagem migrante é o personagem que existiu de verdade e tá sendo ficcionalizado ali no livro. Tá pensando o quê, rapá? Livrada! também é cultura!). O livro cobre quase toda a história da formação do Brasil, bote aí uns quatrocentos anos, e, por causa disso, são vários os personagens, episódios e lugares que o livro traz. E tudo isso para mostrar o seguinte: o Povo Brasileiro, essa entidade anônima, porém definível, é um traste.

Logo no começo da história, há a descrição da morte de um tal de Alferes Galvão, um pescador adolescente que era chamado de alferes pelos amigos. A descrição do rapazote, tido como um mártir, quando na verdade era um Zé ruela qualquer já demonstra a ideia principal do livro: a de que os episódios que passam para a história são muito diferentes e muito menos gloriosos do que os fatos que realmente aconteceram. Se não acredita, lê lá a epígrafe: “O segredo da Verdade é a seguinte: não existem fatos, só existem histórias”.

Vou falar só de dois personagens bem legais do livro, e ambos aparecem no comecinho dela: um deles é Cabôco Capiroba, um canibal baiano que só gosta de comer holandês (nome que o amigo Cássio tomou para si e assina tudo que tange a sua persona virtual). Logo depois, um general chamado Perilo Ambrósio (tive que dar uma folheada aqui pra lembrar o nome do gajo, confesso), um covardão que não gosta de entrar pro pau nas guerras, mas faz um teatrão pro general: coloca uma tipóia ensangüentada com o sangue de um escravo e fala que brigou demais, pra mostrar que tem aquilo roxo. O sacana ainda corta a língua do escravo fora, silenciando a tistimunha. E vai dizer, essa não é a história eterna do Brasil? O rico sacaneando o pobre pra ficar bem na foto?

A primeira impressão que tive quando comecei a ler esse livro é que subestimei a escrita de João Ubaldo. Só havia lido dele A Casa dos Budas Ditosos, há muito tempo, quando era um moleque ainda, e não achei muito difícil. Mas esse livro não. É erudito e rebuscado no úrtimo. Na maioria das vezes esse tipo de coisa afasta o caboclo do livro, mas nesse caso, pelo menos pra mim, provou o valor da escrita desse baiano (aliás, acho que o povo da Bahia precisa se orgulhar muito de ter o João Ubaldo e o Milton Santos, porque nos últimos anos é só Parangolé e o diabo a quatro). E claro, tá cheio de escritor mané por aí, mas nenhum deles vai escrever uma ficção histórica. Escrever um livro do gênero é botar o pau na mesa mesmo. Assinar atestado de fodão. Estudar para fazer uma coisa que qualquer um pode fazer só imaginando é coisa de gente boa da melhor qualidade, por isso, deem valor. Aliás, o cara cujo nome é passível de constar horizontalmente na lombada de um livro tá com tudo e não tá prosa.

Sobre o projeto gráfico: Na época em que ganhei esse livro do meu pai (querido pai, sempre incentivando a leitura da prole), existiam pelo menos três ou quatro edições diferentes do livro, incluindo a versão de estudante e a edição novíssima da editora Alfaguara. Mas eu queria mesmo essa edição, da Nova Fronteira, por causa do projeto gráfico mesmo. Não tem jeito, e-book nenhum substitui uma parada bonita e bem feita como um livro desses. Uma capa bonita, colorida, papel cartão vermelho pra revestir a parte de dentro da capa, com encadernação artesanal, papel pólen soft, fonte minion e uma diagramação bem confortável, com cabeço bonito e tudo mais. Se bem que cabeço é uma coisa cada vez mais rara. Vai ver decidiram que é brega, ou se tornou uma coisa dispensável agora que as pessoas tratam melhor o livro e não arrebentam ele até começarem a soltar páginas por aí. Aliás, a Nova Fronteira é uma das únicas editoras que ainda usam cabeço em seus livros. Sei lá por que.

E essa foi a resenha de hoje, rapeize. Tão afim de ver o meu lado A da crítica? Vão visitar a revista Paradoxo. Nessa semana tem um artigo sobre o livro Ironweed, do William Kennedy.

Comentário final: 700 páginas grandes pólen soft. O livro que extinguiu os dinossauros.

Erico Verissimo – O Continente (O tempo e o vento parte 1)

Já começo avisando: não vou ajudar ninguém com trabalho de colégio, valeu? Toda vez que resolvo escrever sobre um clássico da literatura nacional, atraio que nem imã (“fucking magnets, how do they work?”) uma cambada de estudante desesperado por resumos e detalhes sobre a obra. Galerinha: vamos largar o Playstation, vamos desligar o World of Warcraft, vamos parar de ver filme de mulher pelada, vamos parar de ficar olhando para o teto por algumas horas e vamos dar mais valor para a ínfima parte da cultura nacional que de fato, tem algum valor.

O tempo e vento, meus amigos, o tempo e o vento! El tiempo y el viento, the temptation and the ventation, le tempé et le venté, der tempschlaschtung und die ventaschtwaft, pra gastar aqui toda minha eloquência em línguas estrangeiras. Essa maravilhosa saga familiar escrita por Erico Verissimo (aprendam: o nome do cara não tem acento em parte alguma). Para quem chegou agora no assunto da boa literatura, a obra é dividida em três partes: O Continente, O Retrato e O Arquipélago, e conta a história da família Terra-Cambará, a família mais pé fria pra política da história da humanidade. Incrível! A única vez que eles apoiaram os situacionistas, logo quem? Getúlio Vargas! Mas bom, não sou de dar spoilers, então leia quem não leu ainda.

O Continente, muito provavelmente, vai ser o livro mais emocionante que você vai ler em toda sua vidinha. De emoção mesmo, da parada pegar você de jeito e você não largar mais do livro. Nem Harry Potter faz isso, cumpadi. O livro traça uma narrativa não-linear a partir daquela revolução federalista de 1893, pendenga da gauchada dividida entre os pica-paus e os maragatos (adivinha de que lado a família estava?). São várias histórias, das quais se destacaram a de Ana Terra, mocinha pioneira que se f*** (meu pai falou pra eu parar de falar palavrão aqui) mais que a Dawn no Bem Vindo à Casa de Bonecas, do Todd Solondz, e a do Capitão Rodrigo, uma versão gauchesca de um careca: só quer saber de farra, mulher e porrada (oi! oi! oi!). Fizeram-me ler o livro “Um Certo Capitão Rodrigo” na escola, e foi uma das poucas leituras boas que a escola me mandou fazer, mas dentro do contexto fica muito melhor.

Engraçado que essas duas histórias mais famosas são todas do primeiro volume d’O Continente. Mas isso não quer dizer que o segundo volume seja menos legal. Como esquecer da Luzia, a Teiniaguá, mocinha encantadora que dá aquele legítimo chá de buça no rapazote Bolívar, só para depois colocar as mangas de fora? E o Dr. Carl Winter, médico gringo que, por alguma razão, se parece muito com o Visconde de Sabugosa na minha cabeça? Enfim, são muitos personagens e muitas histórias pra tentar resumir numa sinopse porca como a minha. Digamos apenas que, enquanto o primeiro livro é mais cru e violento, como toda boa fase de pioneirismo que se preze, o segundo volume é mais brando e começa a entrar no tema das pinimbas familiares que interessam.

Uma coisa bacana de se perceber n’O tempo e o vento é que cada parte da saga foca um aspecto muito específico da história. O forte do continente é a narrativa. Erico mostrou nesse livro (dividido em dois pra ficar mais fácil pra você carregar) que sabe contar uma história, sabe dar emoção pras paradas que ele escreve, sabe ser pintudo quando o assunto é construir acontecimentos; em O Retrato, como o próprio nome já sugere (embora o retrato do título seja mais concreto), o peso da história é na descrição do personagem, ou seja, do Rodrigo Terra-Cambará. Invocando a entidade do nosso querido presidente, nunca na história desse país um personagem foi tão bem construído como Rodrigo. Nem mesmo aquele sujeito sonhado nas Ruínas Circulares do Borges poderia ser mais bem feito. A complexidade do sujeito é realmente de cair o queixo, e quem leu tá ligado; por fim, em O Arquipélago, Verissimo bota o pau na mesa pra falar da política de seu tempo, provando que o cabra tem envergadura pra detalhar as ideias e o momento que viveu. Aí, ó, descobri um padrão. Primeiro livro, narração; segundo livro, descrição; terceiro livro, dissertação. Os três gêneros que a tia maroca tenta ensinar pra você nas aulinhas de redação. E você se perguntando por que diabos esse livro cai no vestibular.

Pra completar aqui o comentário, vamos falar desse projeto gráfico da Companhia das Letras. Deus sabe (sério, ele sabe tudo) que eu não gosto de livro de capa mole sem orelha, mas essa coleção do Erico Verissimo é a única exceção. Livros sensacionais. Capa dividida entre uma cor para cada obra (e são mais de quarenta que o gaúcho escreveu) e uma foto que, se eu for acrescentar um adjetivo pra elas, meu pai vai ficar chateado. E a foto da capa não é a única que é maravilhosa. No verso da quarta capa, uma foto diferente do autor para cada obra, uma mais bonita que a outra. Todas as fotos do projeto são de autoria do premiadíssimo Leonid Streliaev, que inclusive fez o livro “Erico por Leonid – fotos que ninguém viu”. Ele tem um site bacana com o trabalho dele que eu recomendo que vocês conheçam, clicando aqui. Bah, tchê, e não para por aí. Uma boa notícia para os maus leitores do meu Brasil: tem figura nesse livro também! Êêêê! E que figuras: ilustrações do traço livre de Paulo Von Poser, sempre em consonância com a foto da capa e a história do livro. A editora, carinhosa como sempre, fez a gentileza de colocar a árvore genealógica de toda a família (é nego pra caceta!) e uma cronologia que associa fatos históricos com acontecimentos narrados n’O tempo e o vento e também na vida de Erico Verissimo, além da crônica biográfica do próprio (não escrita por ele), que conta um pouco dos bastidores da produção do livro. Que mais? Ah sim, também tem um mapinha muito simpático do estado do Rio Grande, com a suposta localização de Santa Fé, a cidade fictícia onde se desenrola a trama. E para os cabeçudos da academia, surpresa: Prefácio de nada mais nada menos que Regina Zilberman, a Sra. Sabe-tudo do Verissimo, a Sra. Ficção histórica, a Maria Callas dos estudiosos do gênero (não somos dignos! Não somos dignos!). No mais, fonte Janson e papel pólen soft. Enfim, cambada: tá completíssimo, só falta esse livro aprender a fazer café. E não, ninguém me pagou pra eu babar esse ovo pra edição (mas estamos abertos pra negócio, aê, aê!).

Um dia volto para falar das outras partes da saga, mas na sequencia não, senão fica chato.

Comentário final: 413 + 430 páginas pólen soft. Já que são dois, faz um telefone sem fio que ninguém nunca mais mexe contigo.

João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

Começo o blog com um livro que já havia comentado na malograda primeira tentativa de um espaço sobre livros. Não poderia começar de outra maneira, afinal de contas, Grande Sertão: Veredas é o meu livro favorito. Ganhei-o de aniversário, em 2008, do grande amigo Cássio Busetto, que tenho em alta conta e cujas indicações literárias sempre são acatadas. Li durante as férias do fim do ano e hoje digo com tranqüilidade que ler este livro é uma das poucas vantagens de ser brasileiro. É preciso ter as raízes bem fixadas na cultura do país.

Para quem sempre dormia na aula de literatura quando a professora entrava nesse assunto, o livro é um grande relato de um jagunço chamado Riobaldo “Tatarana” a um interlocutor oculto. Ele fala de suas aventuras no “sertão das gerais”, um território vasto que abrange parte dos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás, e de como conheceu e viveu com seu amigo Reinaldo “Diadorim”, um jagunço filho de Joca Ramiro, chefe do bando. Riobaldo, em sua ânsia por poder e sucesso, resolve fazer um pacto com o demônio, mas não sabe se o pacto foi consumado e passa a viver uma tortura psicológica enquanto tem de lidar com as reviravoltas de seu bando e a boiolagem latente que ronda sua amizade com Diadorim. Pronto, eis a sinopse. Se você não sabia do que esse livro falava, vergonha na sua cara, hein?

O problema de falar de um livro desses é que basicamente tudo já foi falado com muito mais categoria e conhecimento. A experiência lingüística é realmente o melhor da obra, e, somado à trama intensa, faz de Grande Sertão: Veredas o melhor livro que eu já li (até o momento, mas acho difícil achar algo melhor).

O leitor já deve ter lido de certos etílicos beatniks coisas como “eu escrevo com a alma, com o coração, com as bolas, com sangue, com porra, com merda” e bla bla blás semelhantes. É tudo mentira. O tal bebum escreve é com palavras e gramática, permeados por talvez algumas gírias e mau gosto. Porém, não seria nenhuma injustiça incorrer na suposição de que se algum autor realmente escreveu com a alma, esse autor foi o Guimarães Rosa. Ao contrário dos outros, Rosa conseguiu romper as correntes da sua escravidão à gramática e à semântica e, dando a volta por cima, tomou os elementos da escrita como seus escravos para conduzir sua literatura por veredas só imaginadas por ele e que nenhuma convenção linguística seria capaz de seguí-la. Não é a toa que o livro dá pano pra manga até os dias de hoje.

PROJETO GRÁFICO

A editora Nova Fronteira, que produziu a versão que eu li (vide imagem), cometeu o pecado de imprimir essa magnânima obra em um papel offset vagabundo. Em outras casas editoriais, o mais imprestável dos escritores é publicado no mínimo em um confortável pólen soft.

E isso não é pecado só com o Guimarães Rosa. As belíssimas ilustrações de nada menos que Poty Lazarotto mereciam ao menos uma capa dura. O número de vítimas aumenta se contarmos a excelente diagramação interna do cabeço (na vertical e alternando os cantos superiores e inferiores). O excelente projeto gráfico tem ainda o poema “Um Chamado João” escrito por Drummond sobre o amigo, com caligrafia do poeta. Tudo isso parcialmente arruinado pelo acabamento.  Não havia necessidade de se economizar tanto, afinal de contas, o livro por si só já é caro e a mesma editora Nova Fronteira possui uma versão “de estudante” que é menor e ainda mais desprovida de charme.

Claro que a versão chique do livro saiu, uma edição comemorativa de 50 anos (em 2006) que custava pelo menos cento e vinte reais e que durou uns três meses por aí (tiragem de dez mil exemplares). Quem viu sabe que era um pitéu, tinha o título bordado com fios soltos, capa dura, marcador de fita, isso sem falar no álbum de imagens e o DVD interativo (embora também tenha sido impressa também no maldito offset).

Pouco tempo depois, lançaram uma edição que era basicamente o mesmo projeto gráfico do meu exemplar mas com a capa que imitava a capa dura da edição de luxo. Também vinha em uma caixinha e acompanhava o álbum de imagens. Mas foi só. Um livro como esse merecia ser visualmente melhor representado, não acham?

Comentário Final: 624 páginas leves mas bem condensadas. Quebra alguns ossos.