Rodolfo Walsh – Operação Massacre (Operación Masacre)


Operación Massacre“Não, Yuri, por favor, mais um livro-reportagem não! Eu prefiro cortar meu saco fora do que ter que ler outra resenha sobre esses jornalistas sebosos que se acham donos da verdade!” Calma lá meu povo, eu não coloco vocês em roubada, já disse, e ó, digo mais: se vocês tiverem que ler um livro reportagem que seja, unzinho na sua vida, pra depois passar 50 anos lendo Bruna Surfistinha e Diário de uma ex-BBB (“já fui lésbica sim e não tenho medo de falar o que penso!”), leia Operação Massacre de Rodolfo Walsh. Quero explicar hoje, tim-tim por tim-tim, porque eu considero esse um dos melhores livros do gênero já escritos.

Tudo bem que não sou nenhum expert em literatura jornalística, mas já li algumas dúzias desse tipo de livro e nenhum bateu tão forte no fundo do coração como esse (Agora que falei em bater no coração, lembrei daquela música: “A saudade é um prego, o coração é um martelo”. Uma das metáforas mais sinistras da música brasileira, sem sacanagem. Zeca Baleiro, Paulinho Moska e Cia., aprendam com esses caras). Primeiro porque a história é grandiosa em todos os âmbitos. Não é algo microscópico como o assassinato de A Sangue Frio, embora pareça, e não é algo que seja, por outro lado, grandiloqüente, que tenta dialogar com todas as esferas em que está metida a coisa, como, sei lá, Hiroshima (que é bom também). É uma história coesa com seu tempo e com seu espaço, momento e lugar, tudo nela tá complicado e perfeitinho. Depois que é um livro super bem escrito, um trabalho jornalístico nota dez e estilístico nota mil. Tem muito romancista hoje em dia que não tem uma voz tão forte como a de Walsh. Tenho a impressão, depois dessa, que vou saber reconhecer qualquer texto que ele tenha escrito. E por último, vale o livro pela experiência forte que mudou a vida do autor. E, como diz Eliane Brum (que não vamos chamar de a mãe do jornalismo cojonudo brasileiro porque ela não é velha, vamos dizer que seja aquela prima independente que desde cedo se mostrou muito safa do jornalismo cojonudo brasileiro), se a história não transforma o jornalista, é porque tem algo de errado. E mudou, amigo, mudou. Vou dizer o porquê.

Operação Massacre fala de uma história que se passa na Argentina da década de 50, época em que Chuck Berry estourava com Johnny Be Good. Coitado do Chuck Berry. Tem gente que acha ruim que o Lobão só tenha feito sucesso por causa daquela musiquinha chata pra diabo que eu já nem lembro o nome e não faço questão de que me lembrem, e desconsideram que o Chuck Berry está a CINQUENTA anos tocando a mesma música no show (sim, eu sei que ele tem outras, Mané, mas pra ouvir Route 66 ninguém paga ingresso). Imagine como deve ser a vida desse cara! Sabe quando você ouve “dança da manivelaaaaaaaaa” e fica com a música na cabeça durante uma tarde inteira? Então, amigo, Chuck Berry está com Johnny Be Good grudada no cérebro há cinquenta anos. Ele acorda com essa música na cabeça e dorme com ela na cabeça, e ninguém garanta que ele não sonhe com ela também. Que terror, meu deus, que terror!

Divaguei porque me compadeci do pobre velho Chuck Berry. Mas dizia eu que, na Argentina dos anos 50, quando a junta militar tomou o poder e o peronismo começava a ser formar como um movimento sólido (e clandestino, o nome Perón foi proibido de ser falado), os militares tavam naquela caça às bruxas que é típica deles, e é típica também do cara mau amado que não faz ideia do que as pessoas estão falando dele e começa a ficar paranóico (façam as analogias necessárias e tirem suas conclusões). Eis que, numa noite de 56, minutos antes de baixar a lei marcial que autorizava fuzilar os terráqueos que fossem presos pelos milicos, a puliçada baixou numa casinha onde uma galera estava reunida pra chogar uma caxeta (Wilmutt), ouvir uma luta de boxe no rádio, etc. Como todos bons agentes da lei, nego chegou lá não querendo saber de nada, não tinha desculpinha, não tinha nervosinho, não tinha fortinho, não tinha necas. Chegaram descendo o cacete e mandaram o teje preso pra geral. Todos foram levados pra uma estrada longínqua, onde desceram do caminhão, fizeram fileiras e amorteceram inúmeras rajadas de balas dos gambé. Entretanto, a parada foi tão mal feita que metade escapou com vida pra contar a história (não lembro do número exato agora, mas acho que tinham doze e sobraram cinco, seis ou sete).

Aí que entra Rodolfo Walsh. O cara tava na dele, escrevendo seus livrinhos policiais (se Dan Brown é o McDonald’s da literatura, romance policial é o Subway: mais saudável, mas ainda assim é fast-food. Ah, e livro do André Vianco é o Bobs), e a oportunidade de escrever essa história cai na mão dele. Ele busca os sobreviventes, entrevista cada um 486 vezes, cruza as informações, monta uma cronologia, ataca a rinite revirando papel velho, passa noites em claro, almoça miojo todo dia, e no final obtém um puta dossiê. Sei que quando a gente fala de dossiê aqui no Brasil, nego logo pensa que é um monte de documento forjado que serve pra tentar derrubar o inimigo político, mas esse dossiê não, esse é dossiê de verdade. Com ele, escreve esse belo livro, com muita perspicácia na narrativa (tem passagens que me deixaram com dor no peito por dias) e, desnecessário dizer e com o perdão da palavra, joga merda no ventilador dos milicos, água no chope do governo, pimenta no cu da Argentina. A parada ia feder pra todo mundo, ele vira o autor da acusação contra o regime. Sim, o autor mete a colher, o bedelho, mete tudo no meio, toma o lado da briga dos caras e entra com um processo. E vocês aí achando que jornalista ainda quer ser imparcial. Tolinhos.

Pois bem, quando a parada tá quase ganha, o tribunal passa a batata pro tribunal militar e lá tá tudo entre amigos, o juiz alivia a barra dos manolos e fica elas por elas. Rodolfo Walsh sobe nas tamancas com essa palhaçada toda, escreve uma carta, fulo da vida, endereçado ao governo, entrega lá na porta, e um dia depois toma chá de sumiço. Suspeita-se que tenham largado o prego nele em alguma esquina, fato é que o serviço foi rápido.

Essa edição da Companhia das letras contém, além do livro, a carta de Rodolfo Walsh que lhe custou a vida, explicações sobre a versão cinematográfica do livro, prólogo para a primeira edição, introdução, apêndice obrigatório, epílogo provisório, outro epílogo, enfim, uma cacetada de textos curtinhos que até são importantes para entender a obra, mas a maioria não tem lá muito valor literário. De qualquer jeito, tá tudo ali, pro leitor conferir que não é caô, um trabalho aí que se deve ao Matinas Suzuki, organizador da coleção Jornalismo Literário. O livro segue o padrão da coleção. Papel pólen, fonte minion, três fotos que dizem muito pouco, quase nada, sobre a história (também, né? Três fotos pra um livro inteiro é sacanagem!). Tradução do Hugo Mader e o resto é ler pra crer. Consegui falar da importância do livro. Espero que sim, porque ele é importante pra mim. E se não consegui, melhor, vou dar uma de indie e guardar meus gostos só pra eu mesmo, e reclamar se virar best-seller. Pô, esse Coetzee tá um vendido, todo mundo tá lendo. Nem gosto mais desse cara *ar de blasé*.

Comentário final: Pior do que tocar a mesma música por cinquenta anos é ter essa música arranjada pelo Cidade Negra num acústico. Obrigado, Chuck Berry, por não estourar os miolos depois dessa, você é um bravo.

 

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10 Respostas para “Rodolfo Walsh – Operação Massacre (Operación Masacre)

  1. Não, Yuri, por favor, mais um livro-reportagem não! Eu prefiro cortar meu saco fora do que ter que ler outra resenha sobre esses jornalistas sebosos que se acham donos da verdade!
    Aliás, escreveu bastante sobre o menino…

      • Eu vou passar 50 anos da minha vida lendo livros ruins? Isso é uma espécie de praga, né! Do tipo, “já que você é tão pentelho vou rogar uma maldição do livro ruim”. Me perdoe, Yuri. Jornalistas são sábios, idôneos e vão salvar o mundo.

  2. A graaaaaaande maioria de jornalistas é besta é burra. Mas, graças a Deus, existem uns que nos dão orgulho.

    Tá bom, Yu, vou ler este livro em breve, tá? Digo, se o Desafio do Livrada permitir, né, já que eu escolhi o Pamuk.

    • Aí, agora sim, todo mundo falando bem dos jornalista! Rock mininu, no cacete do delegado!
      Leia sim, querida, você vai gostar!
      Beijo

  3. Sempre tive vontade de ler essa coleção da Cia mas sempre vou adiando. Mas já ouvi falar muito bem do Rodolfo Walsh, quando me empolgar a ler vou começar por esse.

    Abraço!

    • Cara, eu mesmo queria ler mais títulos dessa coleção. Li só esse, o Stasilândia e o Hiroshima e gostei muito de todos. Vou atrás dos outros em breve.
      Abraço!

  4. Pingback: Links da semana « Blog da Companhia das Letras

  5. Parabéns pela nomeação no The BOB’s. No ano passado, nosso blog foi agraciado com o prêmio de Melhor Blog em Espanhol, ea verdade, a cerimônia de premiação é um evento que será sempre uma memória feliz em nossas vidas.
    Parabéns pelo seu bom trabalho e boa sorte!
    Saudações

    • Olá, Asun e Ricardo
      Muito obrigado por passarem aqui. Sei que não vou ganhar nada com esse blog, mas fico feliz de ter participado. E fico feliz também por receber a visita de vencedores do prêmio. Felicidades!

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