Cormac McCarthy – Todos os Belos Cavalos (All The Pretty Horses)

All the pretty horsesTodo mundo que me lê aqui sabe que eu começo falando dos livros pra depois falar da edição. Mas vou inverter a pirâmide hoje (tá ligado em pirâmide invertida? É gíria de jornalista pra prexeca, só quem é malandro sabe) e começar falando da edição. Todos os Belos Cavalos foi lançado pela editora Planeta DeAgostini, que fez a coleção Grandes Escritores da Atualidade, uma dessas coleções de banca de jornal que você compra quinzenalmente pra dar a chance do jornaleiro de ter carne na ceia de natal dele. De modos que esse livro, caso você goste do que eu vou escrever aqui hoje, vai ser meio difícil de ser encontrado, porque a Companhia das Letras, que é quem o publica, deixou esgotar a edição e nem sequer se dignou a fazer uma reimpressão desse que é top 3 das minhas leituras desse ano.

Enfim, a coleção foi lançada em 2003/2004 e era vendida a R$16,90 cada exemplar. Só que os caras fizeram uma coleçãozinha matadora, com títulos como Reparação, Abril Despedaçado, Voragem, Pastoral Americana, Ruído Branco, Todos os Nomes, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Os Versos Satânicos, Santa Evita, Quando Éramos Jovens, Os Cadernos de Dom Rigoberto, Se Um Viajante de Uma Noite de Inverno, Os Mímicos, Coelho Corre.. ah, é demais, cara. Quando descobri isso fiquei meia hora batendo a cabeça na parede me perguntando onde diabos eu estava com a cabeça em 2003 que passei por várias bancas de jornal e não comprei nada disso. Enfim, passou e esse livro foi resgatado pela digníssima num sebo via Estante Virtual, anteriormente propriedade de um certo Ariel R. Pinheiro, que, vou dizer, deu mole ao vender essa joia provavelmente pelo valor de um maço de cigarros. A coleção é caprichada, com capa dura, uma foto boa pacas na capa e de resto, a mesmíssima tradução da editora original, que provavelmente fez com capricho. Recomendo, e agora que vocês já estão ávidos pela coleção, vamos ao livro em si.

Todos os Belos Cavalos é o primeiro volume de uma trilogia chamada “The Border Trilogy”, ou a Trilogia da Fronteira. São romances ambientados na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Seguem a esse o A Travessia (também esgotadão na editora, nem adianta chorar) e Cidades da Planície (talvez esse ainda tenha alguma coisa), os quais certamente estão entre as minhas próximas leituras, todos devidamente providenciados. Por hora, posso falar do primeiro. O livro conta a história de um sujeito chamado John Grady Cole, que veio de uma família de fazendeiros do Texas e cujo sonho maior é… tchanam! Ser fazendeiro. Mas justo quando chega a vez dele de assumir, o avô morre e o resto da família acha por bem vender a droga da fazenda que nunca deu dinheiro mesmo. Ele luta com isso o quanto pode, mas quando vê que não tá dando pé pra ele, resolve pegar um cavalo junto com o primo, de sobrenome Rawlins, e partir pro México, sem nenhum plano muito mais elaborado na cabeça. E aí ele chega numa fazenda mexicana, resolve domar os potros selvagens, se apaixona pela filha do hacendado e se mete em altas confusões, ao estilo faroeste cabôco do McCarthy. Seus personagens são todos sábios taciturnos, ninguém fica desfiando muitas teorias e ninguém vacila  com os sentimentos na frente de ninguém. Onde os fracos não tem vez.

The Border TrilogyA sacada é que tudo isso se passa no ano de 1949, se fiz as contas direito, ou seja, algum tempo depois da época das grandes diligências e da época em que as pessoas faziam viagens de cavalo. A guerra já tinha acabado, “Guerra Fria” era um conceito moderno, como “sustentabilidade” é pra gente hoje, o bebop tocando nas vanguardas e tudo mais, e o cara viajando a cavalo. É justamente essa a graça dos romances desse senhor. Sabe quando você vê essas propagandas patéticas do governo incentivando as pessoas a lerem dizendo “quando você lê, você se transporta para outro mundo”. Bom, isso é balela pra 90% dos livros que eu leio, mas não para os livros do Cormac McCarthy. A parada sempre vai numa vibe meio Red Dead Redemption, meio Sergio Leone, meio propaganda de cigarro (galera que é mais novinha que lê esse blog nem deve saber do que eu tô falando). Bate uma sensação de liberdade, um isolamento do tempo, um despreendimento dos problemas mundanos em favor de questões existenciais.

Porque essa é outra beleza da literatura de McCarthy. A ideia de que mesmo entre pessoas de vida mais simples, ainda há a inquietação cósmica, a vontade de entender o ininteligível, o desassossego da alma e o debate metafísico. Talvez até com mais propriedade, ante o contato maior com a vida do que nós, citadinos bunda-moles. E talvez por isso também o livro faça referência, em seu título, apenas aos cavalos, esses seres que são tratados com todo o carinho e veneração por seus donos. Os personagens de Todos os Belos Cavalos conhecem histórias de cavalos famosos, leem sobre cavalos, discutem sobre cavalos, comparam cavalos, matam e morrem por cavalos. E os cavalos continuam bichos, não são repletos de humanidade como em um certo filme do Spielberg que deveria inaugurar o Oscar de Melhor Cavalo, mas também nem por isso são desprovidos de profundidade ou vida. Entendem os homens, criam laços com eles, mas não se furtam a arroubos de susto e surpresa ante suas atitudes. Ainda são apenas cavalos, mas paradoxalmente são muito mais do que isso.

O que é estranho (e não deixa de ser uma qualidade) é o apelo comercial desse livro, que poderia muito bem virar um drama de faroeste moderno nas mãos de um charlatão de Hollywood. Acho que isso é uma técnica de sobrevivência dos escritores nos Estados Unidos. Nunca fazer um livro puramente contemplativo ou sisudo demais. Sempre tem que dar uma brecha pra, caso surja o desejo, adaptar a coisa pro cinema. Deve ser bem difícil conviver com esse povo ignorantão que mora nessa terra esquecida por Deus por causa disso, mas por outro, a coisa trabalha como um darwinismo literário: quem se sobressai, vira sucesso de crítica e público, e isso nunca vai ser algo ruim em tempos de Quentin Tarantino.

Por fim, Todos os Belos Cavalos pode ser o livro que vai te distrair durante um final de semana ou uma leitura que vai te marcar pela beleza, singeleza e profundidade. Assim como num finado programa da Globo, você decide.

Comentário final: 272 páginas do mundo de Marlboro. Oh yeah!

Milan Kundera – A Brincadeira (Zert)

zertEstavam com saudades? Puxa vida, hein, não dá pra ficar nem mais uma semana fora que esse povo me cobra! Brincadeira, seus queridos, vocês são até muito compreensivos, dado o fato de que não escrevi na semana passada porque fiquei jogando Skyrim. Bom, eu pago minhas contas e, por outro lado, não tem ninguém pagando pra eu fazer esse trabalho periódico de leitura e resenha, leitura e resenha, leitura e resenha, de maneira que não nutro maiores ilusões de que não posso desapontar os fãs. Mas a verdade também é que dei uma desacelerada boa no ritmo das minhas leituras esse ano, e já está ficando difícil ler um por semana para resenhar por aqui, especialmente porque preciso e quero ler uns calhamaços que sejam dignos de nota e… ah, mas vocês não vieram aqui pra ficar lendo minhas lamúrias de leitor preguiçoso e gamer proativo, então vamos ao livro de hoje.

Zert! Zert, ou A Brincadeira, esse que é o primeiro romance do tcheco Milan Kundera. Aquele da Insustentável Leveza do Ser e de A Ignorância, já resenhado por aqui. Vou dizer uma coisa sobre o Milan Kundera desde já, e que serve tanto para quem o leu quanto para quem nunca o leu: Milan Kundera é um excelente narrador e contador de histórias, mas quando ele quer mostrar que é inteligente ou quer pagar de putanheiro, sai de baixo. Ô bichinho chato. Sinceramente, não entendo porque ele faz isso, ele e um cara legal e não precisa ficar se exibindo desse jeito – mesmo porque acho que ninguém vai ler o cara por causa de sua falsa erudição. Por outro lado, talvez esteja aí o segredo do sucesso que o rapazote de 91 anos faz com a juventude. Ora, quem nunca leu A Insustentável Leveza do Ser com seus 15, 17 anos e se achou muito esperto por ler aqueles ensaios sobre a alma feminina e a união soviética? O problema é que o sujeito para de fazer a sua cabeça quando você faz a curva dos vinte e tantos (se não houve nenhum obstáculo no seu crescimento sadio), e foi por isso também que peguei esse livro para ler. Queria ver o que havia na literatura desse cara que me abalasse.

E a resposta é: pouca coisa. Mas a parte que me toca, que é a da diversão de se ler um livro gostoso, acessível e minimamente inteligente, compensa. Antes de falar do livro conteúdo, porém, um adendo sobre o livro forma: Essa capa que vocês estão vendo aí é de uma edição da Companhia das Letras que já pode ser considerada mais ou menos rara. Especificamente, essa imagem é a minha edição escaneada, porque eu mesmo não achei uma imagem boa para publicar aqui no Sr. Google imagens. Acontece que a editora tinha feito uma coleção caprichadinha com xilogravuras e outros rabiscos do Segall na capa, mas como só adolescente lê o Kundera e adolescente, no geral, é um bicho muito duro, praticamente todo o acervo do autor foi transferido para o selo de bolso. Não sou muito dado aos fetiches de colecionador, mas depois que eu compro três livros formatados na mesma edição, eu quero ter os outros da mesma forma. De maneira que, se alguém tiver Risíveis Amores ou A Identidade nessa edição, por favor entre em contato para fazermos negócio. Pois bem.

A brincadeiraO livro tem vários personagens principais, mas podemos restringi-los a três: Ludvik, um rapazote entusiasta do partido comunista que um dia, só de brincadeira, manda uma frase trotkista via cartão postal pra uma namoradinha e cai em desgraça eterna por causa disso; Helena, uma moçoila que recebe o pior dos castigos psicológicos vindo do mundo masculinizado e canastrão da literatura do Kundera; e Jaroslav, o último dos folcloristas morávios, que tenta com todas as forças resgatar as tradições ainda que nem todo mundo esteja na mesma pira. Nossa, esse resumo saiu muito mais conciso do que eu tinha imaginado. E resume bem até!

A coisa acontece mais ou menos assim: Ludvik é escrachado nas reuniões de crítica e autocrítica do partido, uma parada muito comum na época que servia pra todo mundo vigiar todo mundo e manter a humildade ao mesmo tempo. O principal carrasco de sua queda é um cara chamado Pavel Zamanek, que vem a ser o marido de Helena. Ludvik vai trabalhar numa mina de carvão junto com outros traidores do movimento e se envolve com uma menininha chamada Lucie, que o atormenta a vida toda por regular a mixaria pro rapaz sedento de sangue nozóio. Depois de muito tempo, quando Ludvik deixa a mina e se torna um carinha amargo, ele resolve tramar a vingança de sua vida, que é: tchanam: comer a mulher do seu carrasco. Sério, cara, é esse seu plano? Daí você entende porque os adolescentes gostam dele, olha que parada mais Malhação! Que revoltinha do pipoqueiro, hein, amigo. Só vivendo num mundinho de muita putaria sexista isso é considerado uma vingança. Mas tudo bem, prosseguimos. Jaroslav, enquanto isso, é um cara considerado por todos por resgatar a cultura Moravia, que é uma cultura da região de Ostrava da República Checa, onde o livro se passa. Ele faz umas procissões, toca música folclórica e nos enche o saco com mais de um capítulo explicando (com partituras até) porque a música morávia de raiz é complicada e única nesse mundo de meu Deus. Isso é legal se você é musicólogo, tá lendo Kundera e opa! Aparece uma referência rasa sobre um tipo de música a que você nunca deu muita atenção. Mas tirando isso, sério, pra quê? Pra mostrar que você manja das putarias? Você deve ser muito divertido em festas, hein, cara? Só que aí, em sua última brincadeira (outra brincadeira), ele vê que é tão sozinho quanto o rei sozinho do seu pequeno ato dramático.

E que podemos mais dizer sobre esse livro? Bom, ele é, primeiro, uma cutucada no comunismo, uma tara que qualquer leste-europeu tem vez ou outra nessa vida. A coisa do partido que se leva a sério demais e que se empenha mais em castigar seus adeptos do que discutir as ideias que podem levar a coisa pra frente, a linha tênue que o regime guarda com um tipo mundano de religiosidade, essas coisas, você sabe. Isso não é novo, só que ele também fez. Depois, é um livro em que o Kundera desfia – não com tanta maestria como na Insustentável Leveza do Ser – o seu medo de ser corno. A traição está em seus livros como a maior de todas as desgraças, e ele fala um pouco mais sobre ela aqui justapondo-a com outro de seus medos: o de parecer um liso que não come ninguém. Por isso, ele mostra, encarnando no personagem do Ludvik (sempre tem um personagem que é ele mesmo), que manja do que a mulherada quer, e sempre que pode solta algo do tipo “então, teve uma vez que comi uma mina assim, teve outra vez que veio uma cocota e aí… pãnz”, etc. Sinceramente, amigo, já passei da idade de achar isso uma parada legal. E, por último, é uma história bem contada sobre vidas na Chéquia, e isso é o que vale pra mim. Vocês podem gostar do que vocês quiserem no livro, mas pra mim, é só um livro bom que se esforça pra ser um livro ótimo e que não consegue e fica elas por elas. Finito.

Comentário final: 352 páginas em papel pólen. Machuca osso, cartilagem, ideologia política e faz uma boa sequela para o século vindouro.

 

Michel Laub – O Gato Diz Adeus

o-gato-diz-adeus-capaAh, os livros curtos! O paliativo dos críticos procrastinadores com metas a cumprir, sempre à mão e, graças à má vontade desse país pra ler as coisas, cada vez mais fácil de encontrar. Eis que estou aqui, enrolando-me com um livro há mais de um mês — algo imperdoável, sei bem eu, mas às vezes a vida é mais do que livros e pede atenção a outros assuntos, mas só às vezes — e chego ao fim de semana sem ter absolutamente o que resenhar. Minhas leituras do passado já estão num canto um tanto inacessível do meu cérebro, e temo comprometer o julgamento com algo que não esteja fresco em pelo menos dois meses. Mas aí vem esse O Gato diz Adeus, quarto romance do gaúcho Michel Laub, com suas 79 páginas, encarando-me num domingo à noite como quem diz “sério mesmo que você é preguiçoso a esse ponto?”. E eu provo pra esse safado que eu não sou, ora bolas. Aqui dentro bate um coração que anseia por mais atitude, e não posso continuar negando meu coração por muito mais tempo, porque uma hora ele cobra seu preço. Então cá estou com essa obra que talvez seja a mais curta já tratada nesse blog cujo nome evoca os grandes e volumosos clássicos capazes de injuriar uma fera ferida no corpo, na alma e no coração. E atenção, corja: tem spoiler.

O Gato Diz Adeus é um desses livros que você acha que entende até que descobre que não entende, se frustra, tenta voltar umas páginas, tenta nadar corrente acima ante o turbilhão de jogos metalinguísticos que o autor joga na sua cara, mas quando você vê, já está imerso em camadas e camadas de texto, tempos pretéritos mais-que-perfeitos, perfeitos, imperfeitos, complicados e perfeitinhos. A história é basicamente uma, que anda até o ponto em que você começa a lê-la, e depois anda de novo até o ponto em que o que você achava que era literatura despropositada é meta-literatura, escrita por um dos personagens. Pois bem, são três personagens, e cada um deles narra um pouquinho do livro. Um parágrafo ou mais, digamos: Sérgio, um escritor com mania de dominação e um pezinho no swing (não aquele swing que tem música, o swing de casa de swing), Márcia, a mulher coitadinha desse sujeito pintado em pinceladas grossas e esparsas como um ser asqueroso ao extremo, e Roberto, um professor universitário que se torna amante de Márcia depois que Sérgio arma o palco pra oferecer a mulher pra ele. E daí tem um gato, que Márcia oferece pro Sérgio numa tentativa de se reaproximar da vida dele uma vez que as coisas meio que acabam. Meio que acabam, esse período conturbado sem fronteiras definidas.

A história vai rodando assim, tipo um jogral: uma hora fala um, outra hora fala outro, e volta e meia alguém dá a entender que o que um disse foi ouvido ou lido pelos outros dois personagens, que comentam a mesma passagem, por assim dizer. No final do livro, Laub diz que o livro “deve algo”, em estrutura, temática e etc, à Caixa Preta, do Amós Oz, que também é um livro sobre separação e que também tem um personagem que é um escritor e é um escroto e que também tem taras sexuais variadas. Além desse, o Enquanto Agonizo, do Faulkner, e A Chave, do Tanizaki, esses dois sobre os quais nada sei porque não li e não cheguei perto ainda (difícil pra caramba achar A Chave, todos os bons escritores comentam esse livro, mas cadê na loja?). Mas enfim, só pra vocês saberem isso aí, porque achei honesto da parte do cara listar sua… hã… bibliografia inspiracional, e porque vai que vocês leram mais do que eu nisso aí e têm outras coisas a acrescentar, né? A Caixa Preta também é contada de forma epistolar e alternada. Ou esse seria o Meu Michel? Ou o Caro Michele, da Natalia Ginzburg? Gente, é muita coisa na cabeça do cidadão, me desculpem.

Michel Laub por Renato ParadaO mais legal do livro é uma personagem que aparece lá pelas bandas da segunda parte, intitulada “Um Grão, Uma Gota d’Água”, que é uma leitora do romance que o Sérgio escreveu, expondo sua história de devassidão e dominação. A mulher, uma estudante de letras na universidade onde o personagem dá aula, já vai esquentando os motores da crítica do livro, vai comentando as passagens e levanta os pontos altos do livro. E você pode pensar que o Laub talvez seja um desses caras realmente preocupados em fazer o leitor entender as minúcias da história, todas elas pensadas, talvez seja só uma brincadeira com esse fato, e talvez seja ainda a criação de um leitor ideal que dá suas pinceladas sobre a própria obra, mas aí a personagem vai aos poucos se sobrepondo à trama e se imbuindo de significado. Não vou dizer mais, mas sei que achei a parada bem inventiva, para o bem ou para o mal.

E no final, aquela pergunta que precisa ser respondida para as pessoas que vem aqui: Esse livro é sobre o quê? Bom, eu diria que é sobre isso: um cara devasso e cruel e o jogo que ele monta pros outros, e como cada um reage a tudo isso. É uma história de submissão, dominação, ciúmes, sentimentos complexos ligados ao voyeurismo e à troca de casais, tudo numa polifonia que, é preciso dizer, peca por não criar vozes próprias, diferentes umas das outras. Mas fora isso, é o que já comentei aqui, e quem gosta de corrida de fundo pode muito bem pegar esse livro num dia preguiçoso. E não precisa se incomodar em achar um marcador de páginas.

Essa capa modernética e neonzótica da Companhia das Letras me faz supor que o objetivo deles com o Laub é fazer uma parada completamente diferente da outra em cada um dos livros dele. Mas por dentro é aquele padrão: Electra em pólen bold pra ver se o livro para de pé com uma gramatura boa. Gosto de capas gráficas, elas dão uma certa aura de grandiosidade e de edição definitiva do livro, sem falar que parece que o cara não conseguiu traduzir em imagens a história, o que é sempre um ponto positivo pro autor.

Comentário final: 79 páginas em pólen bold. Faz machucadinho não, tio.

Ismail Kadaré – O Jantar Errado (Darka e gabuar)

darka e gabuarToda vez que eu faço um post sobre o Ismail Kadaré aqui nessa espelunca eu perco cinco fãs no Brasil e ganho vinte na Albânia. Até hoje tem gente de lá que entra aqui todo dia procurando pelos livros desse simpático sujeito triste que tem a responsabilidade moral de colocar seu diminuto país no mapa e na rota da literatura. O Jantar Errado é seu mais recente romance mas, veja bem, é de 2009. Contudo, não quero ninguém reclamando do delay de quatro anos. Primeiro, porque esse delay é bem menor que o delay do cinema da minha vila, que acredito estar exibindo Titanic por esses dias. Segundo, porque se o Brasil não tivesse Bernardo Joffily, vocês estariam chupando o dedo ou se contentando com traduções indiretas do francês. E tradução indireta é que nem usar duas camisinhas, vocês sabem. O nosso grande Joffily, que até onde sei, também é editor do portal Vermelho.org (a esquerda bem informada, diziam eles), talvez seja nosso único tradutor direto do albanês, mas a sorte dele é que a demanda também não é muita, porque a gente só conhece um escritor da Albânia. Então tá tudo certo.

Pois bem. De todos os livros que eu já li do Ismail Kadaré, O Jantar Errado foi o que eu menos gostei. E vejam que eu tenho a envergadura moral mesmo para espinafrar um auto que eu gosto e conheço muito. Quer dizer, para ser justo, li seis livros dele: Abril Despedaçado, Dossiê H, O Acidente, Uma Questão de Loucura e Vida, Jogo e Morte de Lul Mazrek. Então estou assim, no limiar entre conhecer pouco e conhecer muito da obra de um autor. Gosto de pensar que estou no caminho certo. Ok, então, se a gente pegar três desses livros – Dossiê H, o Acidente e O Jantar Errado – e colocá-los nessa ordem, cronológica (Abril Despedaçado é de antes desses, Uma Questão de Loucura não conta porque é autobiográfico e Lul Mazrek pode ser um ponto fora da curva, vai), dá pra perceber que o autor foi “evoluindo” numa linha de distanciamento do núcleo da narrativa em favor de um sobrevoo geral sobre toda a ambientação do romance. Esse livro é o ponto máximo desse movimento. A história começa falando de dois médicos, o Guramento Grande e o Guramento Pequeno. Os dois tem o mesmo sobrenome, e por causa disso os dois são alvo de comparação para qualquer coisa. Primeiro erro já tá aí. Que introduçãozinha sem vergonha, hein? Conheço gente que faz oficina de escrita criativa que bola coisa melhor do que isso. Bom, mas aí o Guramento Grande ganha mais destaque na história quando o exército nazista (ah tá, o livro se passa na segunda guerra, alright?) invade Girokastra, que é onde se passa o livro e também onde Kadaré nasceu (ele até cita uns parentes dele como figurantes no livro), e o general malvadão vai pra casa do Guramento pra um jantar, porque ele estudou na Alemanha e eles se conheceram lá. O exército prende uma porrada de gente logo de cara como represália por um levante de resistência contra os nazis na entrada da cidade e ele programa a execução de todos eles como forma de retaliação. E aí o Guramento pede pro general malvadão liberar os presos, e ele realmente libera. Só que ninguém sabe a custo de quê, e tampouco o que aconteceu nesse jantar misterioso.

Ismail Kadaré 4Pronto, a partir daí a história entra numa pira meio David Lynch de não explicar direito o que tá acontecendo e ainda conseguir a proeza de te deixar com cagaço da história. Porque aí tem chantagem, gente que não é gente, gente que já morreu e não sabe, enfim, toda a sorte de reviravoltas digna de um Revenge (vocês assistem a esse programa? Recomendo pra quem gosta de ver barraco e climão) que não necessariamente deixam o livro mais interessante de se ler. Isso porque existe algo na literatura do Kadaré que a torna extremamente dispersiva. Não ruim, apenas… dispersiva. Ela requer uma imersão maior na leitura, e ele cobra isso de você com passagens aparentemente insignificantes que se tornam maiores depois.

E agora vocês me perguntariam, “tá, Yuri, mas o que isso tem a ver com o lance do sobrevoo geral sobre o ambiente do romance?”. E eu respondo. Tem a ver que praticamente a primeira metade do livro é narrada de longe. O narrador onisciente passa pela vila fazendo um recorte dos melhores boatos que a população faz sobre a invasão, o jantar, os nazistas e tudo mais, e se constrói isso: um clima geral de vozes anônimas e aparentemente coletivas. Só que você, leitor esperto que lê o Livrada!, sabe que o recorte do narrador já é parcial por si só, e esse clima já está comprometido desde o começo, até porque não aparecem personagens com cara para confirmar esses boatos depois. O resultado, na minha modesta opinião, é porco, e, de novo, saberia encontrar gente em oficina de escrita criativa que bolaria um jeito melhor de retratar o clima da cidade.

Já pelo meio do livro você já flagra como ele vai acabar, se você é desses para quem o mistério é parte principal da experiência de ler um livro. E acho que pro Kadaré é mesmo parte principal, porque o cara discute muito pouca coisa além do romance. E isso é outra coisa que eu não gosto. Acho que ele já foi muito mais preocupado em mostrar as contradições e as idiossincrasias do povo e do país, e agora ele resolveu fazer um fast-pace mixuruca. Fast-pace mesmo, li em um ou dois dias. E o final em si, bem, não é lá essas coisas. É só mais um final triste de um livro do Kadaré que certamente não será sua obra mais lembrada.

Ainda assim, o livro, enquanto objeto, continua uma obra muito bonita graças a não-tão-caprichada-edição-da-Companhia-das-letras-que-ainda-assim-é-mais caprichada-que-qualquer-livro-que-você-acha-por-aí. Papel de boa gramatura, fonte Electra, a minha favorita e uma capa que ainda que não seja inteiramente do meu agrado, orna com a recente mudança no planejamento gráfico dos livros do autor e exatamente por isso me agrada.

Comentário final: 164 páginas de puuuuuuura boataria.

Lev Tolstói – A Sonata a Kreutzer (Крейцерова соната)

Крейцерова сонатаTolstói, galera! Esse russo maluco não deixa pedra sobre pedra quando resolve falar sobre as coisas que incomodam seu coraçãozinho. Mais especialmente, sobre suas ideias sobre casamento. O doido já havia escrito Anna Kariênina quando publicou esse tresloucado e surpreendentemente convicente A Sonata a Kreutzer que não, não é um livro sobre a pungente obra de Beethoven, outro malucão a seu modo, e igualmente brilhante. E só pra avisar os desavisados, esse aqui tem spoiler, e se você acha que isso é um impeditivo pra você, sai do meu blog e vai ler policial do Jô Soares, seu mané.

Falemos um pouco de Tolstói. Vejamos… Tolstói era como um Lobão russo, guardadas as devidas proporções. Ele era muito popular já em sua época, e tudo o que ele falava valia ouro, mas aí ele começou a pirar na batatinha e lá pelo fim da vida dele, só tinha ideia maluca que ninguém levava a sério, embora nunca deixassem de tê-lo na mais alta conta. Não, acho que ele não era bem um Lobão russo, ninguém nunca levou o Lobão muito a sério e ele nunca foi muito popular… Digamos, um Mario Vargas Llosa russo. Pronto, agora preciso ficar importando analogia do Peru… francamente. Esse, meus senhores, é o país que vai receber uma Copa do Mundo. Vão vendo.

Enfim, aqui nesse livro Tolstói expôs sua real ideia sobre o matrimônio. Diz ele, basicamente, que não há como manter um casamento por tanto tempo. É uma ideia arcaica, inventada por gente que não queria saber de dividir riquezas em tempos extremamente monótonos. A única forma de ser casado pro resto da vida é ou ser infiel, ou ser abstêmio ou matar a esposa. Ele coloca essa ideia por meio da história de Pozdnyshev, um sujeito intrometido que entreouve uma conversa e começa um monólogo que basicamente é o livro inteiro. Ele conta então como escapou da condenação pelo assassinato da própria esposa.

Ele conta como tudo começou muito bem entre eles até começarem as briguinhas de casal. Uma parada insignificante e o outro já está gritando, e cada palavra dita é mal-interpretada, pervertida em seu significado e jogada contra quem a proferiu – algo que todo mundo que já namorou uma pessoa maluca pode entender –, aquela paz de espírito que nunca chega e, se chega, dura só um pouquinho e vai embora, etc. Vida dura.

Liev TolstoiNo meio disso tudo, surge um violinista. O sujeito é suave e ligeiro, e chega de conversinha pedindo umas coisas para nosso protagonista, mas trava nas quatro quando vê a esposa. Aí surge um pretexto de tocarem juntos, já que ela toca piano também, e o resto dá pra imaginar. O Pozdnyshev até aproxima os dois só pra ver a reação da mulher, que dubiamente rechaça o violinista, não se sabe se por cinismo ou verdadeiramente. Mas ela vai se aproximando dele, com aquela cara de “mas não é minha culpa!”, e o marido vai se roendo de ódio. Até que inventam de se apresentarem juntos, e agora o cara descobre que o potencial Ricardão agora está visitando sua esposa quando ele não está em casa. A peça escolhida é justamente a Sonata a Kreutzer. Agora, sobre isso, é importante dizer duas coisas. A- Tolstói era um cara que levava a música muito a sério, do tipo que chorava todas as vezes que escutava uma música triste, e se irritava quando não entendia que tipo de sentimento a música em questão queria lhe transmitir. B- Tolstói odiava Beethoven, como odiava qualquer compositor clássico, mas talvez um pouco mais. Ele achava que a verdadeira música vinha do povo – os funks e arrochas eslavos, por assim dizer – e que esse povo metido a besta que faz música clássica quer mesmo é ficar mostrando virtuosismo e ganhar dinheiro com uma arte belíssima e pura. Junte A + B e você consegue imaginar o furacão de sentimentos para o qual um personagem tolstoiano é arremessado ao ouvir a Sonata a Kreutzer, um petardo das sonatas para piano e violino, quem já ouviu sabe. O primeiro movimento, em especial, tem uma grandiloquência que não combina com nenhum evento menor como o proposto pelo romance. Já não lembro qual era, acho que era o equivalente ao nosso churrascão de domingo. Imagine tocar Beethoven no churrascão de domingo, uma situação em que até um Caetano Veloso já soa demais. Isso tudo deu para o personagem a ideia de que a potência da música dizia respeito não ao evento, mas à relação velada desses dois. Pronto, agora os momentos finais eu deixo para o leitor se deleitar, porque eu mando spoiler na testa dos recalcados, mas também não fico entregando as paradas desnecessariamente. Viu como eu sou bonzinho.

Muito engraçado a forma como os críticos do livro – o tradutor, o grande Boris Schaiderman (somos todos gratos pelo seu trabalho, ó grande Boris) e o maluquete que fez a orelha – se empenham para falar que as ideias de Tolstoi sobre o casamento são todas furadas e que não dá pra levar a sério uma porcaria dessas. Mas a verdade é que Tolstói é muito convicente em sua argumentação, e suas ideias, longe de serem tresloucadas, são frutos de uma conexão íntima do homem moderno com seu passado evolutivo. O homem que se questiona onde o motor da história falhou e deu origem a esse projeto utópico de civilização, com sentimentos e valores maiores do que a própria humanidade em si, falha e abjeta como só ela. Coisas como o amor, a devoção matrimonial, todo esse pacote de cultura deísta que a prática já mostrou ser furada completa para 99% das pessoas, e agora o sujeito precisa conviver com isso, pois questionar esses valores, como Tolstói fez, é perigosíssimo, um atentado capaz de ruir a sociedade por dentro. Afinal, quase todo mundo sabe que ela se escora apenas em seus próprios dogmas. Aliás, dogma é uma parada que foi inventada para sustentar paradas insustentáveis, não acham? Se acharem, por favor, façam uma imagem com a minha foto e essa frase circularem no Facebook. “Dogma é uma parada que foi inventada para sustentar paradas insustentáveis” – Livrada! Conto com vocês.

Mas eu acho que a razão pela qual o livro é tão rechaçado é sua suposta misoginia. Tolstói esculacha a mulherada nesse livro com frases do tipo: “As mulheres procedem exatamente como os judeus, que se vingam por seu poderio financeiro da opressão que lhes é infligida”. BOOM! Ou: “”Assim como aquelas (as prostitutas) aplicam todos os seus recursos para atrair os homens, fazem estas também. Nenhuma diferença. Numa distinção rigorosa, deve-se apenas dizer que as prostitutas a curto prazo são geralmente desprezadas, e as mulheres a prazo longo, respeitadasBOOM BOOM BOOM BOOM. E nessa toada ele aproveita para, paradoxalmente, meter o pau no sexo, o verdadeiro motivo da ruína de nossa civilização, segundo ele. Claro, ninguém em sã consciência falaria mal do sexo ou das mulheres, mas é aí que está. Tolstói está se referindo ao sexo e às mulheres tal qual são apresentadas na sociedade. A primeira, um ser tratado como inferior que busca ardis para dar sentido a uma existência passiva; o segundo, como a extensão do domínio da luta, já dizia nosso querido Michel Houellebecq. Sim, diz Tolstói, do jeito que estão, as coisas estão podres, e ele não necessariamente propõe nada melhor do que a abstinência sexual, mas faz sua denúncia com categoria.

Enfim, cabe aí a crítica do grande Tolstói a nossos valores defasados. E temos mais uma história de ciúmes, traição, vingança e purgação, para se somar a tantas outras obras dessa flor de obsessão da literatura russa. Tudo isso vem embalado nesse projetinho maravilhoso da Editora 34, essa linda que gosta mesmo é de clássicos de qualidade e capricha na edição, quer você goste do livro ou não. Papel pólen, fonte Sabon, xilogravura de Emil Nolde (alemães também fazem xilogravura, qualé?), e tradutores competentíssimos que têm a maior paciência do mundo pra te explicar tudo o que você não entende sobre a Rússia e seus russos. Como não gostar?

Comentário final: 113 páginas de papel pólen soft. Dogma é uma parada que foi inventada para sustentar paradas insustentáveis.

Nikolai Gogól – Tarás Bulba (Тара́с Бу́льба)

Тара́с Бу́льбаTalvez a personagem mais rasa de toda a história do Breaking Bad, a Marie, cunhada do Walter White é, ainda assim, mais profunda que boa parte dos protagonistas de seriados que a gente vê por aí – e olha que ela é uma secundária bem secundária. Seu bordão favorito diz: “Na dúvida… roxo”, referindo-se a sua cor favorita, uma tentativa desesperada da personagem de acrescentar mistério e complexidade a uma personalidade tão calcada na inveja e na ostentação.

A frase da Marie pode ser adaptada aqui para meus propósitos: “Na dúvida…russos”. Ora, eis aí você, entediado com a mesmice da estética urbana da literatura brasileira contemporânea. Russos. Você aí que reclama que a emergente literatura americana não fala ao seu coração. Russos. Você que reclama que o mérito literário é ofuscado pela especulação editorial. Russos. Você que não gosta de ler uma boa história que seja apenas uma boa história, desprovida de maiores significados. Russos.

A literatura russa, meus camaradinhas, é o elixir da vida literária, uma fonte quase inesgotável de bom paladar. Os russos são praticamente os Globetrotters da fina arte de colocar uma palavra na frente da outra até virar obra-prima. E Nikolai Gogól, que na verdade era ucraniano, mas como naquela época era tudo a mesma coisa, é fagocitado pelo dream team da literatura europeia do século 19. E essa pequena novelinha, intitulada Tarás Bulba, ilustra bem a potência da escrita desse cara. Vamos a ela.

Publicada em 1835, na época em que a Ucrânica morava na casinha de cachorro no quintal da Polônia, Tarás Bulba é um clássico folclórico-épico-powerviolence, uma dessas histórias bem fundamentadas no espírito cossaco, que é uma espécie de gaúcho mais macho e mais bêbado. E, aliás, essa é a coisa boa da literatura russa: todos os livros falam sobre a Rússia. Na dúvida sobre algum simbolismo de obra russa? Pode ter 90% de certeza de que o elemento que você está tentando decifrar simboliza a pátria-mãe de maneira geral.

Tarás Bulba é o nome do velhinho protagonista. Ele tem dois filhos, Óstap e Andrií, que regressam ao lar depois de terminar seus estudos. Ora, o Bulba é um cara das antigas, da época em que escola era coisa de grã-fino, e com medo dos filhos emboiolarem, resolve pegar os dois e se alistar junto com eles nas tropas zaporogas, que eram uns cabras machos que em tempos outros lutavam e matavam, mas que então só bebiam. Ele chega acelerado. “Vamo matá uns cabras aí!”, ele teria dito, mas seus superiores só suspiraram e disseram. “Mas a gente assinou contrato de paz com meio mundo, não tem com quem brigar”. Então eles vagueiam e vagueiam até descobrir uma pinimba mínima com os judeus poloneses que estariam extorquindo seus irmãos de pátria, e partem pra lá com toda fúria cristã junto com uns tártaros que por acaso estavam ali de bobeira. Só que aí o Andrií conhece uma polaca ajeitada e bandeia pro lado de lá no meio de um cerco. Pronto, está armado o grande livro de guerra que vocês vão ler se tiverem algum juízo.

Микола ГогольBom, a primeira coisa a se considerar é que Tarás Bulba foi um dos primeiros livros a enaltecer gente de baixo, gente do povão, gente que a Regina Casé entrevista pro Fantástico. Com isso, veio também o uso de expressões populares e uma certa aura de anjo tosco para dar digamos… cor local pra essa galera. Muito xingamento, bebedeira, porradaria e um ritual de coroação de general muito do escroto, com lama na cabeça e tals. Isso tudo faz com que os cossacos sejam uma galera muito cool, e muito valentona, tipo um Leões da Fabulosa eslava.

Agora, de uma maneira geral, é possível fazer uma leitura elitista da obra também. Dá pra ver, só pela cara, que o Gogól não é exatamente um cara que veio das streets, né? Bom, daí que a história toda tem, em seu desenvolvimento, um simbolismo global, razão pela qual, inclusive, Tarás Bulba faz parte de uma série de novelas chamada Mírgorod (algo como Cidade do Mundo, e fiquei orgulhoso porque consegui traduzir essa expressão sozinho). Cabe que a mãe dos moleques fica chorando em silêncio vendo os filhos letrados saindo pra guerra por causa do pai velho. É como se toda a terra russa, numa ânsia para se ocidentalizar e, antes de tudo, vestir a coleção outono-inverno da civilização, se atrasasse toda por conta da vibe ogra e ongonorante dos cossacos, uma verdadeira pedra no sapato da civilidade, ainda que amplamente adorados por suas histórias fantásticas de façanhas incríveis, capaz de arrastar até mesmo as novas gerações letradas e comportadas para os olhos franceses. Isso se traduz inclusive durante a primeira metade da história, quando os cossacos não acham com quem brigar e muitos pisam na bola feio com as tropas por conta das bebedeiras. Ou seja, nem pra porrada mais essa galera serve. Mas aí, da metade pro final, entra a celebração ucraniana, doa a quem doer, apesar dos pesares, grandes heróis e muito honrados sim senhor, mas ao mesmo tempo os diminui pelos vacilos constantes. Ou seja, não é nem a figura do herói nem a do completo anti-herói que temos aqui, mas o começo da decadência cossaca explorada em toda sua complexidade humana. Gogól é assim, um cara dividido entre o mundo ao qual pertence e que necessariamente é antagônico ao mundo da ogrisse, e o mundo da celebração folclórica. É tipo você gostar de Lampião pela seu banditismo por uma questão de classe, mas ficar puto quando uma moça é estuprada na sua cidade. Shame on you, aliás.

Esse livro faz parte da Coleção Leste, da editora 34, e tem tradução direta de Nivaldo dos Santos, que está para Paulo Bezerra, Rubens Figueiredo e Boris Schneiderman como Van Damme está para Stallone, Schwarzenegger e Chuck Norris. É um cara bom demais, mas subestimado ante seus pares, acredito. O sujeito trabalhou numa rádio em Moscou, galera, isso é muito tr00 pra tradutores. Pensem nisso. O livro conta com um pequeno posfácio dele, que contextualiza a obra na história, é impresso em papel pólen, fonte Sabon e uma belíssima ilustração de ninguém menos que Delacroix. Gente refinada é outra coisa.

PS: Daqui a uma semana tiro férias e o blog vai ficar parado por um mês e meio. Pode ser que esse seja o último post antes do recesso, porque tô na semana dos preparativos pra viagem. Mas se der tempo, faço outro pra próxima segunda.

Comentário final: 170 páginas em papel pólen. Cacete na cossacada!

valter hugo mãe – o apocalipse dos trabalhadores

valter hugo mãeNão vou mentir. Quando conheci a literatura de valter hugo mãe (novamente sem maiúsculas), fiquei abismado. Ali estava alguém que debulhava como poucos a tal prosa poética que muitos queriam conseguir, naquele então novo a máquina de fazer espanhóis. Para quem não lembra, a resenha está aqui. Logo depois veio o Filho de Mil Homens, dessa vez com maiúsculas, e, novamente, uma cacetada literária em quem tava de bobeira esperando a nova revelação literária vinda do Rio Grande do Sul (já foram praquele lugar? Como alguém bem disse, você levanta uma pedra e saem vinte contistas. Eu hein?). Por isso, não quis nem saber e peguei a nova edição da Cosac Naify de o apocalipse dos trabalhadores, que mais tarde descobri ser um livro anterior à máquina. Esse pequeno detalhe muda em muita coisa minha avaliação do livro, mas vejamos uma e depois a outra, com uma sinopse antes.

O romance do portuga tem dois núcleos, como compete à maioria de seus livros. O primeiro é o de Maria das Graças (vou colocar os maiúsculos aqui porque toda vez o Word quer me corrigir e é um saco ter que ficar voltando os espaços, tira a fluidez do texto. Valtão, se estiver me lendo, desculpa aí), uma doméstica que tem pesadelos recorrentes de que morre e precisa se justificar diante de São Pedro pra poder entrar no céu. Na ilusão dela, quem a mata é o Sr. Francisco, seu patrão, aquele tipo de homem que dá uns catos na empregada de vez em quando, sabe como é, uma coisa muito década de 80/90 aqui no Brasil, mas uma prática possivelmente ainda em voga em Portugal, já que o tempo do romance é posterior a entrada do país na zona do Euro. De qualquer forma, a relação entre a Maria e o Francisco é conflituosa, pois ela nutre uma relação de amor e ódio com o homem, por considerá-lo culto, mas por outro lado, por ser um velho asqueroso, ainda que fascinante, e por explorá-la como qualquer patrão pré-PEC das domésticas. O outro núcleo é conectado a esse pela confidente da Maria, a Quitéria, uma moçoila que também é doméstica e se envolve com o Andriy, um imigrante ucraniano novinho. A história dele é bem mais interessante do que a da doméstica. O sujeito tem um pai louco com mania de perseguição, e a mãe dele é uma senhorinha resignada, que tenta aplacar a loucura do marido e se conformar de ter o filho longe – ei, não é muito diferente da esposa do Tarás Bulba, hein? Será que houve uma inspiração Gogolística aí? Enfim, daí que ele chega com uma mão na frente e outra atrás a Bragança e vai aprender a fazer pizza, e se envolve com a Quitéria, que tem por ele ternura e admiração. Ah, e ela e a Maria fazem freela de carpideira, que é tipo palhaço de festa, só que pra enterro, e triste ao invés de feliz.

valter hugo mãeBom, esse é o núcleo da trama, e pra frente disso é spoiler e eu tô meio de saco cheio de ter que ficar avisando que tal coisa tem spoiler ou não e direcionar o que o leitor pode ler e o que não pode. Taí um texto que served pra todo mundo menos pra acadêmico que gosta de ficar dissecando palavra por palavra das coisas. Aqui vou fazer agora algo mais leve e solto, e relatar minhas impressões do livro e nada mais por hoje, porque análise a essa hora da noite é algo que foge à minha alçada. Bom, aqui temos os temas que o mãe usa pra maioria de seus romances: solidão, amor, morte e gente feia (na verdade, esse último é subjetivo, mas eu sempre imagino todos os personagens do vhm mais feios que a necessidade). E são temas que ele explorou bem melhor em seus últimos dois romances, o que me leva a inadiável verdade: não gostei desse livro. Nem de longe vemos aqui o lirismo e a acurácia poética que o autor mostrou ter em trabalhos futuros, e muito menos histórias instigantes. Temos é uma literatura morna e sem muitas jogadas além de adjetivações estranhas e comparações despropositadas. É claro que se entende que a questão toda gira em torno de pessoas que buscam uma vida melhor, seja o imigrante, seja o trabalhador explorado, e o sonho com a morte da Maria tem a ver com essa mudança de vida pra melhor. Mas o livro não se resolve tão bem quanto eu gostaria, e oferece poucas coisas surpreendentes, coisas surpreendentes com as quais nos acostumamos com facilidade lendo o valter hugo. Enfim, é um livro ruim se comparado com os outros, mas um livro bom se comparado com a média nacional. Acho que tudo seria melhor se ele colocasse mais umas viagens no meio, mas isso é só minha opinião. Enfim, a culpa é dele que elevou demais minhas expectativas com sua obra. Continue assim, champs.

Coisa boa é a edição da Cosacnaify que, como sempre, capricha na arte, embora seja bem verdade que ninguém até hoje conseguiu fazer frente à arte do glorioso Lourenço Mutarelli na edição brasileira da máquina de fazer espanhóis. Em todo caso, a colagem parece apropriada para dar o colorido triste que o romance sugere. Senti falta de uma orelha explicando o livro, gosto de ter uma pequena sinopse antes de começar a leitura. É, sou desses. Mas tudo bem.

Comentário final: 192 páginas em papel pólen. Porrada no trabalhador que se esforça com ardor, quando reclama é infrator, um dia de fome, um dia de dor. Suando pra ganhar mixaria, trabalha duro todo dia, trabalha como um condenado por um salário minguado, metralha o trabalhador sem hesitar um instante. “todo preto é safado, confundi com assaltante”. Metralha o trabalhador quando sai da favela, e seu corpo estatela num rápido instante sem dor.

Voltaire – Cândido, ou o Otimismo (Candide ou l’Optimisme)

Candide ou l'optmisme

Galerinha, sinto informar a todos que este será o último post do Livrada! Não tem mais como, essa porcaria não dá dinheiro e tô cansado de ficar falando de livros aqui quando ganho muito mais visibilidade falando de hambúrguer aqui.

Geral voltando da páscoa, ou voltando do Lollapallooza, ou os dois, e eu aqui, firme e forte na luta, samurai da stronda e samurai do kama-sutra. Não, tamo aqui no Livrada! mesmo tentando jogar uma nova luz em um clássico iluminista: Cândido, ou o Otimismo, livrinho que o sacana-mor, Voltaire, fez para sacanear o Gottfried Wilhelm von Leibniz e sua corrente otimista.

Ao contrário do que interpretou o Bloodhound Gang, Cândido não é um livro sobre viver sua vida a toda velocidade. Vamos expor as aventuras de Cândido para mostrar que 1- é um livro sacana e 2- é um livro sacana que está ao alcance de todos. E depois disso, vamos explicar porquê esse é um livro legal. Esse é o Livrada!, a cada dia que passa mais didático. Suspeito que assim vou terminar minha carreira de comentarista de livros dando aulas-show em cursinhos pré-vestibulares sobre os livros que caem nas provas.

Bom, pra quem não tá ligado no movimento, o Leibniz era algo tipo A Banda Mais Bonita da Cidade em termos filosóficos. Ele defendia, em linhas gerais, a ideia que o mundo era o melhor lugar possível para se estar, e que as desgraças que assolam a humanidade não passam de sombras em um quadro muito bonito. Traduzindo em Caetanês, “tudo é perigoso, mas tudo é lindo e maravilhoso”. Agora veja que ele pensava isso lá no século XVIII, quando o mundo era umas dez mil vezes pior do que é hoje. Naquela época tinha peste, tuberculose mortal, poliomielite, guerra pra caramba, pena de morte decretada pela igreja, infecção ficava preta e cheia de pereba, era uma desgraceira só. Sem falar que não tinha fliperama, rock n roll, internets, desodorante, pasta de dente, procom, etc. Enfim, só podia pensar um negócio desses quem tava bem tranquilinho no seu castelinho alemão escondido do mundo, porque, veja: na filosofia como nós a conhecemos, os geniozinhos gastam metade de suas vidas debatendo as teorias dos outros pra ver quem tá mais certo. Mas esse cara consegue ter sua ideia refutada por um simples passeio no mundo livre! Era, na visão de Voltaire, um zé Mané completo, como não. Por isso ele fez esse livro.

VoltaireCândido, o personagem que dá nome à novela, é um rapazote dos mais ingênuos que vive enclausurado em um castelinho na Westfália, território alemão, sob a tutela do barão de Thunder-ten-Tronckh, um nome que não quer dizer nada além de mostrar como a língua alemã parece feia pro Voltaire. Lá também há dois personagens centrais dessa história: o filósofo Pangloss, que é um adepto do Otimismo, e a senhorita Cunegunda, a quem Cândido ama perdidamente, e por causa de quem é expulso do castelo quando é flagrado fazendo coisinhas (uma passagem que não esconde uma certa alegoria cristã com o livro do Gênesis). A partir daí, a vida é um desbarrancadeiro que só. Já assistiram a Bem-Vindo à Casa de Bonecas, do Todd Solondz? A ideia é mais ou menos a mesma. O sujeito toma na rabeta 24 horas por dia, sete dias por semana, e mesmo assim tenta manter tudo sob a perspectiva otimista. Isso porque a cada coisa ruim que acontece, outra mais ou menos boa, ou menos ruim, acontece em consequência, fazendo Cândido acreditar que tudo está dando certo mesmo dando tudo visivelmente errado.

Esta é a essência da novela de Voltaire. Mas não pense o senhor e a senhora que ele ia gastar um livro inteiro batendo num só filósofo. O sujeito aproveitou pra atirar pra tudo quanto é lado e zoou alemães, ingleses, franceses, holandeses, católicos, intelectuais, clássicos da literatura, música clássica, donzelas, índios, espanhóis, enfim, saiu distribuindo tapa pra quem aparecesse. E nada de sutilezas, como vocês podem ver pelos nomes alemães já citados. É tudo escrachadão pra ninguém ter dúvidas da real intenção dele. E, claro, por ser escrachadão, é fácil de entender e fácil de rir com ele. Sério, é um livro engraçado, no melhor estilo das sátiras clássicas, e acho que prova bem o seu ponto, embora, como já havia dito no começo do texto, provar que o Leibniz tava errado não era algo lá tão difícil e ele aproveitou esse passeio no parque pra isso.

A nova edição da Penguin-Companhia é bem completinha com um ensaio de abertura, pósfácio e tudo mais, embora não tenha sacado muito qualé da capa. Mas tudo bem, o resto é formatação normal dos livros da Penguin e tudo está certo. Espero que gostem desse.

Comentário Final: 184 páginas. Só machuca ego sensível de filósofo alemão meio burro. Aliás, burro não. O cara é bem inteligente, na verdade. Só acho que talvez o lance dele seja mais a matemática…

Ps: Tu acreditou mesmo que era o último post do Livrada!? Primeiro de abril, mané!

Elvira Vigna – Nada a Dizer

nada a dizerVou ser bem sincero aqui e dizer que há tempos nada me anima muito na literatura brasileira. Acho que o pessoal se perde muito nas próprias veleidades estilísticas e o resultado é uma punhetação literária, a versão escrita de um disco do Yngwie Malmsteem. E levante a mão aqui quem é que curte o Malmsteem de verdade? Ou isso ou a minha visão do que é boa literatura anda muito limitada, mas o fato é que a comparação com os portugueses sempre é inevitável, e isso dá uma medida do quanto estamos ficando pra trás nesse lance de escrever bons livros. É claro, vez ou outra aparece um cara bom que me diverte, mas nada que me cause a catarse de ler um livrasso. Isso até conhecer a obra da carioca Elvira Vigna. E agora para os babaquinhas da objetividade, um alerta: tem spoiler, e se você acha que isso estraga o prazer de uma boa leitura, lo siento.

De Vigna, só li, por enquanto, Nada a Dizer, mas é claro que pretendo ler mais coisas assim que a grana e o espaço de casa permitir. Vou contar aqui do que o livro se trata e comentá-lo um pouco para ver se minha opinião é partilhada por vocês. Bom, e o que é Nada a Dizer? Felizmente esse é um livro que dá para resumir quando precisar responder a pergunta imbecil “do que fala esse livro?”. Nada a Dizer é um romance que conta a história da traição do ponto de vista da mulher traída. Simples assim, mas não vá ficar achando que isso tá de bom tamanho pra um resumo, fulano. A história é narrada por uma tradutora, de idade já avançada, e esposa do canalhão Paulo, que tem um caso com N. Ahh, adoro personagens cujo nome são reduzidos a uma única e misteriosa letra. É um lance tão Stendhal, tão Marques de Sade, tão francês de rabo preso com a aristocracia local que esse simples nome me remete ao que há de melhor na literatura francófona. A genialidade do livro, entretanto, começa justamente escondendo não N., mas a própria narradora. O início mostra Paulo, que mora em São Paulo, viajando ao Rio de Janeiro para encontrar um amigo e essa sua amante. Apenas no final do capítulo temos consciência de que o narrador que tudo sabe não o sabe porque é narrador, mas porque é a esposa dele, que como toda esposa traída, extorquiu a história do infeliz até a última gota.

A partir daí, a coadjuvante-narradora remonta os passos do sujeito desde que ele começou o caso, analisando o que ela sabia e onde ela estava no tempo e no espaço em cada uma das situações. Porque é óbvio que a mulher precisa escrever um livro com tudo o que ela sabe, e o que é pior: dá mesmo para escrever um livro com tudo o que ela sabe. E tudo gira em torno da questão: se ele me trai, o que eu significo para ele? Não dá pra medir a genialidade da Elvira sua sensibilidade feminina nesse ponto. Todo mundo que já conheceu uma mulher que curte pirar errado nas ideias sabe que é exatamente esse o comportamento. A fulana não quer admitir de frente que levou chapéu de vaca pra casa e procura questões tangentes de aparência equânime à principal pra poder se sentir individual em sua dor, para não se rebaixar a um sentimento tão universal e humilhante quanto aquele. É preciso raciocinar sobre o ocorrido, é preciso ser fria e calculista quando tudo o que se quer é botar vidro moído no feijão. E nessa análise da situação toda o leitor acaba descobrindo mais sobre a personalidade de quem conta: uma mulher aparentemente segura, mas completamente insegura, que cresceu à sombra de personalidades mais fortes, dessas que têm a vida toda planejada pela frente e se frustra enormemente quando as coisas não saem como o planejado, etc, etc, já deu pra pegar o tipo.

elvira vignaE, enquanto conta, ela faz um mea-culpa para qualquer interlocutor impiedoso que ouse interferir com um insensível “mas tu era cega mermo, hein, filha?”. Ela admite sua cegueira, seu estado de negação, e dentro desse estado de negação reside seu medo, suas expectativas, seu descompasso com a realidade. Ah, que beleza que é esse livro! Desses que você devora em pouquíssimas horas se tiver um sábado preguiçoso pela frente.

Mas, ao mesmo tempo, a narradora é extremamente humana com o marido traidor. O sujeito também é típico. Daqueles que prefere evitar o problema a discutir em casa, que gosta de negar mesmo com as calças na mão, que nunca admite o próprio erro a não ser quando o erro já tá documentado em cartório. E ela o ama, e por isso se compadece de seu espírito imaturo, ou pelo menos engana a si mesmo ao se apiedar, e o trata como uma criança, como costuma se fazer nessa hora aquelas que precisam passar por cima da carne seca a qualquer custo. E é, pois, esse jogo de moral, o grande barato do livro. Encontrar otimismo na cagada alheia, não se deixar abalar, tentar ser melhor do que tudo isso, quem nunca?

A capa do livro, embora seja bem bonita, me enganou muito bem com esses dois jovenzinhos sentados num sofá compartilhando um climão. Não é, afinal, uma história de amor imaturo,  é uma imaturidade em uma história já amadurecida. Além do que a tipografia usada na capa é compartilhada com a Rachel Cusk, uma escritora americana que, ao que parece, não tem nem um décimo do quilate da Elvira Vigna. Então isso conta contra o projeto gráfico, somado também à mistura abominável de amarelo, salmão e marrom-cocô-de-vegetariano. No mais, por dentro tá tudo certo: papel pólen de alta gramatura, fonte Electra, e o de praxe. Recomendo fortemente pra quem está desacreditado com os autores brasileiros e para quem uma boa dose de realismo é necessária na literatura tupiniquim.

Comentário final:  168 páginas em papel pólen. Machuca o âmago do seu ser.

J. M. Coetzee – Desonra (Disgrace)

Disgrace coetzeeEis que meu camarada Karkão se encantou com a literatura pungente e obstinada do grande John Maxwell Coetzee e me pediu para que eu comentasse aqui este livro que está entre suas obras mais populares, senão a mais popular de todas. Li Desgraça há algum tempo, mas em termos relativos, porque leio muito, posso dizer que li há muuuuito tempo, então pode ser que a grande maioria das impressões que este livro me trouxe de início tenha se perdido ao longo desses anos e suas centenas outras leituras. Mesmo assim vou tentar resumir a história para vocês e meus conterrâneos vão achar o post de hoje bem útil já que rumores andam pairando pela cidade atestando que o grande prêmio Nobel sul-africano pode desembarcar por essas paragens no próximo mês. Vamos aguardar uma confirmação.

Antes de mais nada, uma breve sinopse para começarmos a discutir, mas desde já adianto que não vi o filme homônimo com John Malkovich, então não me culpe por quaisquer más-impressões que a história cinematografada pode ter produzido sobre seu juízo crítico. O que sei é o que li: a saga do professor universitário David Lurie, um daqueles caras lógicos, frios, pragmáticos e brancos que moram na África do Sul (ohhhh, tão diferente do próprio autor, como será que ele consegue?), que é mensalista do puteiro e tem planos megalomaníacos de escrever uma ópera sobre Lord Byron – que é, aliás, o que todos esses misantropos modernos gostariam de ser —, até que um belo dia se mete com uma aluninha chave-de-cadeia e é acusado de abuso. De qualquer forma o sujeito sobe nas tamancas, dá um piti infectado e é afastado da escola. É aí que resolve reatar laços familiares com a única filha que tem – o que, em se tratando de Coetzee, deve ser algo fruto da paternogênese, porque ô velhinho esquisito esse –, uma hã… Maria João que mora numa fazenda do interiorzão da África do Sul. Tudo vai indo bem até que um dia a fazenda é roubada e a filha do cara é estuprada brutalmente por três negões. E o pior, ela engravida de um deles e sabe muito bem quem são. O nosso protagonista fica então desnorteado e tenta entender esse mundo que é geograficamente tão próximo de si e ao mesmo tempo tão distante culturalmente.

Bom, pra começar, Desonra não traz nada de diferente do que o resto da literatura do Coetzee propõe, mas resume muito bem a ideia da obra como um todo. Justamente essa não-pertencença (se essa palavra não existia, passa a vigorar a partir da presente data) do homem branco que se propõe intelectualizado nessa louca louca África dividida. Porque mesmo que o apartheid já tenha acabado, todo mundo sabe que na prática não é assim.  E ou você está do lado de lá, ou está do lado de cá. Mas estando do lado de cá, há sempre a opção de ser um acéfalo e se omitir da questão racial, algo que não é uma escolha para quem se diz ser pensante. Ao mesmo tempo, entender a relação de proximidade entre estuprador e estuprado no interior da África é mais complicado do que Édipo furando os zóio, então não há muito o que fazer senão se deparar com a própria incapacidade de viver o mundo real. Resumindo, o bôer intelectual sul africano é um sujeito sem classe: malquisto dos dois lados, recolhe-se em sua concha de autossuficiência.

John Maxwell CoetzeeMas rá! Não é só isso. Além da não-pertencença classicista, há a não-pertencença etária. Veja bem, David Lurie está numa fase meio velho lobo que, na prática, o torna velho para tudo o que lhe afronta. Está velho demais para se envolver com as aluninhas, velho demais pra ser mensalista do puteiro, velho demais para tentar cuidar de uma filha que já se cuida sozinha no coração da selvageria, velho demais para ambicionar escrever algum dia relativamente distante uma obra megalomaníaca – que diabos, é velho demais para conceber qualquer coisa megalomaníaca – e se vê irrelutantemente velho, ainda que se sinta novo para tudo isso. E sua tentativa de consertar as coisas são mais desastrosas que a queima de fogos no réveillon lá da minha praia. Resumindo, o deslocamento das coisas só não é mais cru e excruciante que o próprio deslocamento da realidade. E esse, imagino, deva ser o sentimento de todo acadêmico branco africano. Não é à toa que a solidão permeia boa parte de sua obra, e sua inadequação com o trato social é característica marcante não só de seus personagens, como também do próprio autor, algo que pode ser visitado na trilogia autobiográfica Cenas da Vida Na Província, todas já resenhadas pelo livrada. Parte 1 aqui, parte 2 aqui e parte 3 aqui.

Resumindo, a desonra do livro pode muito bem se referir àquela que em David Lurie se encontra depois de ter feito tanta merda na vida e ter acabado testemunha de um assalto seguido de estupro da própria filha, que no fundo nem liga pra isso, mas não deixa de ser a desonra de ter conquistado, colonizado e permanecido ali, imiscível e avesso à vida selvagem. A desonra de ser impotente diante de um mundo que seleciona os melhores pela força e pela honra, a desonra de ser velho vencido e a desonra de ser um merdão a vida toda. Eis, meus senhores, a essência, da obra de Coetzee.

Só uma ressalva, já que sempre terminamos o papo comentando o projeto gráfico. A capa do exemplar que eu tenho, excepcionalmente hoje, não é a capa do começo dessa postagem. Tenho a primeira capa do Coetzee pós-nobel, aquela com belíssimas obras abstratas de Fábio Miguez, mas esse exemplar acabou ficando raro. Não mais raro do que a capa que segue o modelo de Diário de um Ano Ruim. Essa sim é pra lascar o couro do colecionador, o que, graças a Deus, gosto de pensar que não sou. Papel pólen e fonte Electra padrão de todos os bons livros da Companhia das Letras definem a experiência de uma das melhores leituras que fiz na minha recente vida de leitor. Karkão, espero que tenha lhe satisfeito, essa foi pra ti.

Ps: já é o quinto livro do Coetzee que trato aqui. Já já começam a faltar fotos diferentes dele.

Comentário final: 248 páginas papel pólen. Porrada neles, governador!