Anthony Burgess – Laranja Mecânica (A Clockwork Orange)


A Clockwork OrangeEis que, hoje pela manhã, estava eu conversando com alguns colegas que fazem também fazem aula de alemão, justamente sobre o filme Laranja Mecânica, que um deles assistira a pouco. Eis que nosso leitor e interlocutor Lucas acrescenta à conversa sua impressão de que o livro não era tão bom. Ora, licença para discordar, Laranja Mecânica em papel pode não ter lá os superlativos aplicados por Stanley Kubrick (muito menos aquela cena de assassinato com um long dong gigantesco), mas Anthony Burgess fez um livro de primeiríssima. E vou dizer o porquê.

Caso você nunca tenha tentado se passar por descolado, nunca tenha tentado ser diferente, nunca prestou atenção nas recomendações que dão pra você todo dia, nunca leu livro de adolescente ou nunca assistiu a um filme que foi feito antes de você nascer, Laranja Mecânica é a história de uma gangue inglesa em uma sociedade futurista e distópica. Os membros da gangue são jovens delinquentes que gastam o fim de suas adolescências roubando, saqueando e estuprando. A história tem uma reviravolta quando o líder da gangue, Alex, que vinha enfrentando problemas de autoridade perante seus comparsas, ganha um sal dos gambé e passa aí um tempo ausente, vivendo com a bunda encostada na parede.

Eis que ele integra um programa de redução penal que consiste numa lavagem cerebral (acho que chamava “Método Ali Kamel”, mas agora não tenho certeza) no qual ele é obrigado a ficar vendo várias apresentações de Power Point com fotos de bebês rezando e filhotes de golden retriever, e ouvindo os maiores sucessos de seu ídolo-mor: Cid Guerreiro. Enquanto as imagens passam e “Ilariê” e “Tindolelê” tocam no talo, algo acontece na cabecinha do sujeito. (tá, esse parágrafo é zoado inteiro, mas, pelamordedeus, se você não conhece a história, larga o Pokemon por um tempo)

Alex então é reintegrado à sociedade, mais frouxo que manga de bruxo. Incapaz de esmagar uma mosquinha, de dar uma sapecada nas cachorra, e de roubar um cone de estrada sequer (aliás, roubar cone é uma das únicas modalidades de roubo socialmente aceitas, pensem nisso), o sujeito vira paçoca na mão dos que já queriam ver sua caveira há algum tempo. Gente, isso aqui tem mais spoiler do que tunning de Zé ruela.

Bom, Burgess escreveu essa história após sua esposa ser estuprada por uma gangue de jovens, em atitudes muito parecidas com a do livro. Impossível não tomar isso como trauma, ainda mais para a pobrezinha. Acho que nessa época estuprador ainda não tomava soco toda hora, ajoelhava e beijava os pés e depois sangrava até morrer na rua dez, como diriam os Racionais. Incrível mesmo, entretanto, é a maneira como o escritor tentou espurgar esse demônio de sua vida e da vida da esposa: criando um protagonista ladrão e estuprador que cativa o público e que rende fantasias nada originais em qualquer baile de máscaras moderno. Sério, vocês já foram a alguma festa a fantasia em que não tinha ninguém vestido de “Laranja Mecânica”?  Alex come sim o pão que o capiroto amassou, mas tem sua redenção e sua sacudida de poeira e volta por cima, algo que qualquer vítima mais ressentida que romantizasse seu trauma desconsideraria sem pestanejar, mesmo porque há um consenso que prega que livro bom é livro triste (não sei daonde, mas não vamos discutir isso agora, ok?).

Anthony BurgessO autor também criou uma série de neologismos, que são usados como gíria pelos membros da gangue: o famigerado vocabulário Nadsat, surgido a partir de palavras essencialmente russas. É engraçadão quando você começa a aprender russo e acha que está falando essencialmente gírias do Laranja Mecânica. Recomendo, maltchicks e dievotchkas. O glossário com as palavras fica no final do livro, e são dezenas. Ora, o cabôco que cria mais de cinquenta palavras para um livro já está no nível linguístico de um Mia Couto, de um Guimarães Rosa, de um Baudolino (opa, esse não). Palmas, que ele merece.

Quanto à comparação do enredo do filme e do livro, devo dizer que o livro é muito mais, digamos, “adulto” do que o filme, por ir além e retratar alguns anos à frente de onde a história cinematográfica de Alex termina, e por ter muito menos elementos de humor, o que, (que Deus me perdoe por isso que vou dizer agora) Kubrick não deveria ter explorado, por suavizar demais uma história tão pesada. Ainda assim, o filme tem os seus méritos, por explicitar leituras muito mais escondidinhas entre as linhas de Burgess e por criar um visual marcante que há de permanecer no inconsciente coletivo até o dia em que UM BURACO NEGRO MATAR TODO MUNDO!!! (ando muito impressionado com isso).

O livro foi lançado pela editora Aleph, que é um pouco desconhecida, mas muito caprichosa. Ao que parece, eles são especializados em Ficção Científica (gênero do livro) e lançam livros lindos do Isaac Asimov que valem a pena serem lidos e comprados. O projeto gráfico deste Laranja Mecânica é bem chique. Fonte Century 731 BT – Roman em papel pólen soft, com uma capa esquisitona e um cabeço chique que simula uma tipografia de máquina de escrever que tá boa pra ir pro lixo. A tradução é de um sujeito homem chamado Fábio Fernandes, que assina o prefácio e uma nota sobre a tradução brasileira, ambas muito elucidativas e bem-vindas para o entendimento da linguagem usada por Burgess (conforme adentramos na leitura, as gírias nadsat começam a passarem batidas por nossos olhos). Enfim, vale a pena a leitura e espero que este comentário tenha deixado os senhores mais dispostos a encará-la.

Comentário final: 199 páginas em pólen soft. Um tolchok de literatura na sua cara!

 

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13 Respostas para “Anthony Burgess – Laranja Mecânica (A Clockwork Orange)

  1. Mantenho minha afirmação de que o livro não é tão bom assim. Ao menos não tanto para que as pessoas façam elogios estranhos sobre o quão revelador ele é. Acredito que acima de tudo não há revelação nenhuma. É como ver filme brasileiro sobre violência; você sabe que aquilo existe, você sabe que é bem daquele jeito e você já tinha pensado nisso um zilhão de vezes, mas mesmo assim se força a ficar chocado. O laranja mecânica tem trechos violentos, mas não explora direito a razão dessa violência. Não dá pra saber se é a economia, que tem lá seus indicativos no livro, ou se é a desestrutura do mundo moderno. Do mesmo jeito o tratamento que o Alex faz. Não fica claro o que está sendo tratado. Parece que o autor tinha algo para falar, mas não saiu tudo.
    Já sobre os neologismos, não acredito que ele tenha inovado barbaridades. Até mesmo porque não demonstra ter uma acuidade com a língua muito grande. Tem Flaubert por aí que mesmo sem neologismo tinha mais cuidado com a língua e a linguagem. Enfim, vou ser execrado com essas bobagens ditas.
    Abraço.

    • Oi Lucas,
      Acho ainda o Laranja Mecânica chocante sim. Veja, o autor, como eu disse, estava expurgando um trauma, vê lá se ele ia ficar racionalizando em cima do próprio trauma, né? Ele só explicitou a barbárie, tanto de um lado quanto do outro, a barbárie do estado e seus métodos de punição a là Jigsaw. É isso o que está sendo tratado no livro: um trauma. Fora isso, a razão e o contexto são altamente dispensáveis nessa história, assim como em várias outras. Veja só o conto O Cobrador, do Rubem Fonseca, por exemplo, é um clássico! 😀
      Quanto a ele não ter muito traquejo com a língua: dá um desconto, o cara é anglófono e, tirando Joyce, ninguém mete o pé nesse terreno com seus the book is on the tables. Nesse sentido, ele foi mais longe do que muitos conterrâneos, não acha?
      Abraço!

  2. Eu demorei pra ver o filme, mesmo depois que comprei o dvd numa promoção das Lojas Americanas. Achei interessante, mas esperava um nível de violência que refletisse o que as pessoas falam do filme (pelo menos esse meu amigo que viu antes, contava cada cena com uma euforia surpreendente).

    Interessante é saber que o halterofilista é quem veste a roupa de Darth Vader.

    Sobre o livro, não li também, e com a lista grande do jeito que está não pretendo num futuro próximo =)

    • E aí Bruno,
      A violência do filme é mais de outro tipo, daquelas de opressão, acho que é por isso que choca muito.
      Deus me livre de ver um halterofilista vestido de Darth Vader, cara!
      abraço!

    • E aí, Tchello, finalmente o sr. por aqui!
      Acho que era método Ludovico sim, um nome alemão bem ultrapassado, como um brasileiro hoje em dia chamado Rui. 🙂
      Abraço!

  3. Eu gostei do livro e do filme que, concordo, é um dos meus preferidos do falecido broder Stan Kub. E a sua citação na resposta dos comentários ao Rubem Fonseca também foi bastante oportuna, visto que nem sempre a literatura ou a contação de histórias de forma geral, deve explicar de onde as coisas vieram, ou o por que de elas se apresentarem de uma ou outra maneira. Simplesmente porque não devem haver muitas regras para a confecção de criações literárias, a não ser quanto ao respeito à idéia de idioma e compreensibilidade…gaahuahuahuauha… E quanto ao broder que disse da coisa de “eu esperava mais violência”, bem, é isso que acontece com tudo que esperamos demais, ou algo assim, né? Tendemos a não ver tanta coisa, já que já tínhamos idéia do que se passaria, eu acho…hehehe…no mais, massa a resenha, cara!
    E tem também aquela

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