Don DeLillo – Homem em Queda (Falling Man)

Falling manAdivinha doutor, quem tá de volta na praça? Don Delillo, camaradagem, aquele escritor norte-americano que não deixa barato pra ninguém e faz de cada livro uma verdadeira obra de arte. Todo mundo que lê esse blog sabe que eu sou suspeito para falar do cara, mas saibam vocês que Homem em Queda, seu penúltimo lançamento (antecessor de Ponto Ômega, sua obra mais cabeçuda, na minha opinião), é, sim, um livraço como de costume, mas não prometo me estender no post de hoje por um motivo muito nobre: meu computador quebrou e tá difícil achar onde escrever. Felizmente fim de ano está chegando e quem sabe neste ano eu não dê presente para ninguém a não ser eu mesmo, afinal de contas, ó, mundo tão desigual.

Pois muito bem: se você olhar a capa de Homem em Queda (não olhou? Olhe agora que eu espero) não é difícil perceber que o livro trata dos ataques às torres gêmeas, naquele fatídico onze de setembro de 2001. Não sei por que todo mundo tem essa curiosidade mórbida de perguntar onde a gente estava durante os atentados, mas se alguém quiser saber, eu estava dormindo numa aula importantíssima de física. Pronto, passemos adiante. Dizia eu que Homem em Queda trata das torres, e tem como protagonista um homem chamado Keith, um sobrevivente do atentado que emerge do caos de poeira e destroços como um… eu ia dizer como uma fênix, mas aí pensei em algo menos gay pra falar e não achei, então vai fênix mesmo. Ele, ao invés de tomar qualquer providência racional, volta pra casa da ex-mulher, que mantém uma relação familiar passivo-conturbada com a mãe e seu padrasto, um sujeito misterioso que viaja o mundo e tem família em algum lugar da Europa, e revive o suicídio do próprio pai, que estourou os miolos com um rifle de caça certo dia. A chegada repentina de Keith transforma a relação do casal e cria um ambiente de reaproximação, o que pode ser muito bem visto como as mudanças inesperadas que condições extremas acarretam para a vida de pessoas simples. O filho do casal, Justin, entretanto, se torna obcecado com a figura de Bin Laden (ou Bill Lawton, como ele o chama por entender errado o nome). Ele fica noiado, patrulhando os céus à procura de novos aviões e obcecado com as características físicas e comportamentais do inimigo número 1 dos Estados Unidos.

Don DeLilloAo mesmo tempo, Keith entra de cabeça em uma existência vazia de encontros amorosos com a dona de uma bolsa que encontra em meio aos destroços e viagens a Las Vegas para jogar poker, numa retomada de um hábito pré-onze de setembro com amigos peculiares que desempenham papéis diversos após o atentado. Sua mulher, Lianne, também começa a presenciar os feitos artísticos de um louco performático chamado de Homem em Queda, que fica pendurado por um pé com um cinto de segurança de pontes, postes e outros locais altos, para depois cair e se esborrachar no chão. Por último, a narrativa contempla ainda a vida de dois dos terroristas responsáveis por sequestrar os aviões. Em resumo, Homem em Queda, oferece uma multiplicidade de narrativas que servem unicamente para tratar o que toda a literatura que se dedicou ao fenômeno tratou: as diferenças, em vidas diferentes, de um mesmo evento, divisor de águas, histérico e dramático.

Particularmente, o excesso de americanismo nesse livro me chateou um pouco, já que eu sempre vi a literatura do DeLillo como algo universal e sem localismos, mas não dá pra culpar o cara já que todo americano, em maior ou menor grau, acha que o onze de setembro é um troço que diz respeito ao mundo inteiro, e não só a ele (e os posteriores atentados na Europa trataram de reforçar esse discurso). Mesmo assim, acho que a grande sacada do romance, em sua estrutura, é a diversidade de significados do atentado. Uma nova chance para os casais, que não têm outra escolha senão sublimar suas dificuldades ante a catástrofe nacional, um novo monstro para as crianças, para moldar suas infâncias, entretendo-as e amedrontando-as, um novo conceito para a arte, que ganha novos assuntos e ares de ativismo em sua vertente performática (a favorita de DeLillo, visto Ponto Ômega e A Artista do Corpo, já resenhado aqui), e uma necessidade quase urgente de retomar a existência tal qual fora antes, num simulacro de normalidade que só pode iludir os que se propõem a ela em momentos de calma e concentração, já que os tempos são mesmo sensíveis (há uma passagem ótima em que Lianne fica irritada porque a vizinha fica ouvindo “música étnica”, não necessariamente árabe). Mas a prosa do autor é invariavelmente sagaz, aguda, e a rapidez dos diálogos torna algumas partes engraçadas. Fico meio bolado com o fato de todos os personagens dele serem extremamente inteligentes e sagazes. Até as crianças! Sempre fico com a impressão de que, se eu estivesse num universo de DeLillo, seria a pessoa mais burra da face da Terra, mas isso é outra coisa e fica entre eu e meu psicanalista. Vocês ficam com esse belo livro da Companhia das Letras com papel pólen soft, fonte Electra e todos os cuidados de sempre, com tradução do grande Paulo Henriques Britto.

Comentário Final: 256 páginas de pura sagacidade narrativa. Toma essa, Bill Lawton!

Arte e Letra: Estórias

Arte e letra estoriasDeus sabe que não sou exatamente um leitor de revistas. Prefiro o bom e velho jornal diário, mas isso é uma outra história. O que queria dizer é que não sou exatamente um leitor de revistas, mas existe uma revista que eu coleciono religiosamente e leio sempre e que talvez vocês não conheçam, por isso o post de hoje. A Arte e Letra: Estórias é uma revista literária trimestral (se não me engano) que publica contos de autores brasileiros e estrangeiros, muitas vezes em traduções inéditas no Brasil. Dos nomes conhecidos de fora, já publicou Paul Auster, Coetzee, Saul Bellow, Andres Neuman, Voltaire, Gonçalo Tavares, Jonathan Swift, Fitzgerald, etc, etc. Dos menos conhecidos, temos Karel Capek, Miroslav Hasek, Hjalmar Soderberg, Frank Stockton, Samanta Schweblin, entre outros. E dos nacionais, tanto os famosos, do naipe de Cristóvão Tezza, Marçal Aquino, Joca Reiners Terron e Moacyr Scliar quanto os ilustres anônimos, como eu. Rá, vocês bem que estavam desconfiando que este era um daqueles posts pagos que se fingem de amigões que as blogueiras de maquiagem fazem sob o pêndulo do vil metal, mas eis que a arapuca se fecha e tudo se torna claro como a luz do dia.

Mas não. Esse não é um post pago e não estou aqui pra falar da minha publicação na revista. Mas, é claro, se quiserem ler meu conto, ele foi publicado na edição U. É, também tem isso que eu esqueci de falar: a revista não tem números, tem letras. Claro, uma sacadinha para uma revista que trata justamente de letras, nada podia ser diferente. Ela começou na já esgotada e objeto de colecionador Arte e Letra: Estórias A (que eu tenho!), publicando Stephen King, Tezza, Saramago e Adolfo Bioy Casares e atualmente está na Arte e Letra: Estórias V, que tem César Aira, Marçal Aquino, Melville e o russo Leonid Andrêiev, entre outros. E quando chegar à letra Z, o que deve acontecer no ano que vem, a revista chegará ao seu fim.

Sei disso porque os editores da Arte e Letra: Estórias são os irmãos Tizzot, amigos livreiros donos da Livraria Arte e Letra, a mais charmosa livraria que Curitiba poderia ter. Mas sobre ela não vou falar nada porque, já disse, esse não é um post pago e não quero começar a mexer com a cabeça da galera implantando a dúvida sobre o motivo de tamanha generosidade de um blog mais áspero que papel higiênico de rodoviária. Mas sim, são meus amigos e acho que é tradição na crítica literária brasileira aliviar pro lado dos amigos, não? Mas a coisa nem se trata de aliviar a barra pros outros porque a revista é mesmo irrepreensível, e bom, afinal, pra que eu estou falando disso? Pra compartilhar com os senhores das virtudes que é descobrir a literatura por outro meio que não o mainstream da crítica de jornal, de blog literário (que quase sempre são mancomunados com as editoras, embora esse seja um verbo muito forte pra usar nesse caso) e de expositor de livraria.

arte e letra estorias RFalo isso porque nessas últimas semanas, tanto a Folha de S. Paulo quanto o Estadão, dois dos maiores jornais do Brasil, deram resenhas do livro novo da Bridget Jones, que saiu pela Companhia das Letras, uma editora que eu, particularmente, adoro e confio, mas que vez ou outra dá umas bolas fora desse naipe. Sem entrar no mérito da influência da editora na divulgação dos livros, que esse é um trabalho que precisa ser feito indiscriminadamente, o fato do Estadão, que tem um dos suplementos de cultura mais elitistas do Brasil, se propor a escolher esse livro dentre tantos outros para doar um latifúndio de espaço na tão disputada mídia impressa a um livro cujo nível já dá pra imaginar, no mínimo desperta em mim uma pequena paranoia sobre quais são os fatores externos a um livro que me fazem considerá-lo “boa literatura”. Quer dizer, gosto de pensar que sou um leitor com certo discernimento, um tanto melhor do que isso. Mas alguém, por favor, pense nas criancinhas que crescem sozinhas sem ter com quem conversar sobre livros e buscam suas referências pseudo-intelectuais em resenha de jornal, e o que me aparece? Bridget Jones! Acho que era o meu amigo Lucas que estava me falando de um ensaio que ele leu dia desses que postulava que a cultura literária que temos hoje foi toda estabelecida nos séculos 17 e 18 por donas de casa, que eram as pessoas que liam romance enquanto os homens faziam política e trabalhavam em ensaios cabeça. Enfim, dá pra fazer uma analogia com o agora, mas é melhor não pensar nisso e buscar fatores extra-comerciais, como essa revista, que, pra mim, serve como um bom cardápio do que pedir no futuro. Em tempos de Bridget Jones no jornal, Arte e Letra: Estórias (nem precisam me pagar por esse slogan, hein?).

O que mais? A revista é bem lindona, cada edição é ilustrada com desenhos ou fotos de um autor diferente, que, assim como os autores, pode ser um local talentoso ou um mundial consagrado, tem papel pólen soft de boa gramatura, alguma fonte bonita de serifa discreta e, enfim, tudo bem maneiro. Ia tirar uma foto da minha pilha de revistas aqui, mas esse tipo de miguxice já foge do propósito desse espaço, então paremos por acá.

E pra quem quiser comprar a revista, uma buscada num buscapé da vida dá conta do recado. E fica aqui o site da editora e livraria para quem quiser conhecer mais o trabalho deles. http://arteeletra.com.br/

Daniel Defoe – Robinson Crusoé

Daniel DeFoeO pessoal da nova crítica que acha que é facílimo falar bem de clássicos porque o tempo fez o trabalho de separar os Dan Browns dos Saramagos parece que não sabe que alguns Best-Sellers de antigamente também chegaram até aqui pela força popular e por eventuais sentidos que a galera resolveu imiscuir na obra de tanto que ela ficou pairando pelas estantes por aí. Poderia citar alguns exemplos aqui, mas temo decepcionar um ou outro eventual pseudo que gosta de se achar porque leu um livro que foi escrito antes dele nascer. Melhor se ater ao exemplo e objeto de análise de hoje, que é este Robinson Crusoé, do Daniel DeFoe, publicado em 1719. DeFoe escreveu esse livro pra ganhar dinheiro, e escrever livros era o jeito de ganhar dinheiro com arte ao alcance do homem comum naquela época, já que ser cineasta era impossível, ser músico requeria uma vida de estudos, ser grafiteiro era crime e ser vlogueiro então, nem se fala. É claro que a parada acabou sendo meio revolucionária pela linguagem despojadona e moderna, mas veja, isso é o que se fala de um livro centenas de anos depois, quando se percebe isso. Na época, vendia porque era bom, e era bom porque dava vontade de ler.

Talvez você conheça a história de Robinson Crusoé do filme com o Pierce Brosnan, mas eu preciso te avisar que essa não é exatamente a história do livro por ter, como sempre, umas invencionices bizarras pra deixar o filme com mais cara de “aventura”. O que é uma palhaçada, porque o livro tem doses de ação suficiente para dispensar aquela cena grotesca da luta entre ele e o Sexta-Feira em cima de uma ponte cheia de espinho ou algo assim. A história original fala de um garoto pacato que tinha muito o desejo de ser uma espécie de mochileiro daquela época. Viajar o mundo, ver umas coisas interessantes e depois voltar para uma vida pacata que pode ser aliviada pelo excesso de vivência. O pai dele bem que fala pra ele não fazer isso, porque o bicho só vai se dar mal nessa vida para a qual ele claramente não foi preparado, mas adolescente já era teimoso naquela época, de modos que ele vai sem medo de ser feliz e enfrenta um zilhão de perrengues. Naufraga umas duas vezes, vira escravo dos piratas berberes, perde uma grana, quase morre, vem parar no Brasil, onde começa um engenho de cana de açúcar e tudo parece ficar bem. Até o dia em que ele inventa de ir ele mesmo buscar uns escravos na África e é claro que o navio naufraga e ele vai parar na tal Ilha do Desespero que, vejam vocês, fica no oceano pacífico. Como alguém que sai pra África vai parar no Oceano Pacífico é ainda um mistério que nem lendo com muita atenção as páginas que tratam da passagem me permitiram decifrar. Na minha interpretação, ele deve ter achado que a América Central insular era vazada e isso permitiu com que ele fosse do  Orinoco à ilhota em questão. Mas eu sou meio tapado também, posso estar errado.

Enfim, quando ele chega lá, sendo o único sobrevivente do navio, começa uma vida nova. Se virando com o que consegue pegar do naufrágio e aprendendo a fazer as coisas na marra, o livro é um relato solitário de sobrivencialismo otimista por uma boa parte, até que ele conhece o selvagem sexta-feira e o livro se torna uma experiência intercultural com um tiquinho de violência mais para o fim.

Daniel DefoeAcho que a primeira coisa que dá pra perceber pela leitura do Crusoé, a respeito do protagonista, é seu otimismo inabalável, diretamente proporcional ao crescimento de sua religiosidade. A cada ano ele fica mais carola e mais conformista, evidenciando que as duas coisas não são fenômenos isolados, então fica a dica. Ao mesmo tempo, ele procura manter a postura de europeu imperialista na ilha, tentando ser senhor de tudo e dominando o ecossistema e os tais “selvagens” que ele eventualmente encontra. Mas isso vai além do universo da ilha e pode ser observado no fato de que, à exceção de Sexta-Feira, nenhum dos outros personagens têm nome. Nem mesmo os europeus. Isso quer dizer que o que não foi criado ou batizado por ele, é meramente secundário para a história, mesmo que sejam amigos e que sejam pessoas boas. Aliás, isso é outro ponto do romance: o otimismo do sujeito é o otimismo do autor, porque tudo quase sempre dá certo e todo mundo é muito bonzinho. Não tem espaço para a maldade no universo de Robinson Crusoé, e mesmo os selvagens o são por um força cultural acima do bem e do mal. É, então, aquele lance do otimismo do Leibniz que ia ser escrachado pelo Voltaire no Cândido estava muito na moda naquela época e, parando pra pensar, o Cândido meio que tira uma onda com a história do Crusoé, com toda aquela coisa dos selvagens e tal.

Por fim, Robinson Crusoé é uma história que dá vontade de ler, e isso às vezes é mais do que um livro precisa para circular por séculos entre nós leitores. As trezentas e poucas páginas do romance passam voando, e ele ainda tem um prefácio muito maneiro e detalhado sobre a obra do cara. Ah, e descobri uma coisa sobre eu mesmo lendo esse livro: eu gosto muito, mas muito mesmo, de edições comentadas. O tradutor é como se fosse um amigo mais inteligente que vai me explicando as coisas e comentando as passagens do livro, como os termos que ele usa no original e o jeito como ele pinta os conquistadores espanhóis como excessivamente sanguinários e cruéis. Ao sr. Tradutor Sérgio Flaskman, gostaria de agradecer pela companhia durante a leitura desse livro.

E aquela coisa, né? A Penguin-Companhia tem o mesmo padrão para todos os livros, mas devo dizer que a cada vez gosto mais desse acervo. No começo tava achando tudo marromenos, meio chato demais, mas agora tem altos livros legais e estou lendo cada vez mais o catálogo dessa editora. Recomendo, porque para a qualidade e o tamanho do livro, até que ele é baratinho. Ah, e gostei dessa capa meio irônica também, de achar no google maps a ilha onde o cara se perdeu e que, na época, não estava no mapa. Sagaz e sacana, gosto assim, seu Penguin.

Comentário Final: 401 páginas de puuura aventura exótica na ilha deserta.

Paulo Scott – Habitante Irreal

paulo scottTinha algumas metas de leitura esse ano, que até estipulei para mim mesmo no Desafio Livrada 2013 (como estão vocês com os seus?), mas se dissesse que consegui cumprir algum deles, estaria mentindo. O que não quer dizer que não tenha conquistado outros objetivos com os livros que me passaram pelas mãos ao longo do ano (e devo dizer que este ano foram poucos, em comparação com anos anteriores. Vida que freia, sabe como é, todo mundo precisa parar e respirar mais). Conheci mais dos russos, descobri autores novos muito bons e, mais do que isso, realmente me empenhei em encontrar autores brasileiros contemporâneos que valem a pena ler (e valer a pena ler já é demais pra grande maioria da produção atual). Paulo Scott, com esse Habitante Irreal, foi uma descoberta surpreendente. Jamais imaginaria tanta profundidade cultural, temática e literária em um romance escrito em 2011. Recado pros mau-amados da área: tem spoiler.

O romance tem como ponto de partida o final da década de 80 e um protagonista chamado Paulo, portoalegrense descontente com os rumos que o PT tomou depois de conquistar a prefeitura na capital do Rio Grande do Sul e com seu trabalho numa firma de advocacia. Ele resolve pedir a desfiliação do partido, as contas no emprego e fica meio perdido na vida até que encontra uma indiazinha de 14 anos na beira da estrada pedindo carona. Ao dar carona pra ela, ele começa a se envolver com a vida de Maína, que é o nome da indiazinha, numa espécie de compensação político-cultural pela opressão colonial e pelo descaso do seu partido com as minorias marginalizadas. Pelo menos foi isso que eu entendi. Só que, obviamente a parada pega mal, porque se esse negócio de “estupro de vulnerável”, como costumam chamar, já é complicadíssimo, com uma índia dimenor, rapaz, a turma dos direitos humanos cai matando. O sujeito vai pra cadeia depois de uma merda com a polícia e passa um tempo em Londres porque, sei lá, passar a pior em Londres não é coisa só de Orwell. Enquanto isso, no Brasil, Maína, que tinha engravidado do Paulo, dá a luz ao Donato, um rapaz índio que acaba sendo adotado por um casal de assistentes sociais, ou algo assim. E a partir daí, começa uma história sobre passado, cultura, política, erros e acertos cujo teor preciso generalizar para esse blurb sob pena de entregar mais do livro do que já entreguei.

por Renato ParadaO pior de tudo é que está justamente nesse desenrolar a maravilha do texto do Scott, de modo que fica bastante complicado fazer uma resenha adequada desse livro só com essa sinopse geral, mas vou deixar assim mesmo. Se você ainda não teve vontade de ler esse livro pelo que eu falei aqui, leia pelo que eu ainda não falei. O jeito como o autor conduz a obra é de uma maturidade literária jamais vista nessa geração de escritores, e lembra gente do naipe de Don DeLillo e Philip Roth. E a temática – isso de discutir a geração que atualmente está no poder no Brasil, e debater as relações delicadas com nossas raízes – é igualmente sem paralelo na nossa atual literatura. Scott sabe separar bem os estilos, e se resolve ser prosador poético em um capítulo, o faz distintamente da prosa geral do livro, que é densa e sem maiores floreios.

E essa também não é uma história bonita, muito pelo contrário. A literatura dele, comumente suja, chega atropelando em tabus e vira para lados que o leitor não necessariamente quer ler, mas é confrontado com um mundo sujo e amoral à força. E as conexões que o livro sugere são ainda mais assustadoras, mas isso é trabalho para o leitor e não para o comentador do livro.

O projeto gráfico da Alfaguara é demais, e essa capa é meio engraçada e meio assustadora, mas, no geral, não foge muito dos outros livros da editora. À exceção de alguns capítulos, que o autor escreve inteiramente no formato de nota de rodapé, pra dar a entender que a história ali não está sendo narrada, mas meramente comentada e preparada paras as próximas páginas. No mais, é um livro sombrio, delicado e raivoso. Gostei

Comentário Final: 260 páginas de papel pólen. Uma porrada na cabeça do PT.

Ernest Hemingway – O Velho e o Mar (The Old Man and the Sea)

the old man and the seaOra, ora, ora, mais um clássico da literatura do século 20 por aqui. Aliás, um clássico curtinho. Clássico curtinho da literatura do século 20. O melhor tipo de clássico para o leitor comum. Rápido, acessível, geralmente barato, e quase, quase, quase sempre, permite qualquer leitura rasa que você queira fazer dependendo da sua disposição. Enfim, eis o arquétipo do livro universal. Taí pra quem quiser ler do jeito como quiser ler. O Velho e o Mar, que foi o último livro do Hemingway publicado em vida, é um desses casos e, graças a sua verve quase jornalística de narrar as coisas da maneira mais econômica possível, permite um sem fim de interpretações filosóficas, sociológicas, biológicas, metafísicas, naturalistas, políticas, gastronômicas, ergonômicas, psicodélicas, escalafobéticas e estrogonóficas sobre a manjada história do velhinho tentando pegar um peixe. E um aviso pros mal comidos de plantão: tem spoiler mesmo, na cara dura, sem dó. Te acostuma aí, boneco. Fica peixe.

Pra quem chegou agora no planeta Terra, a coisa gira em torno do véio Santiago, um cubano pescador que, já completamente desprovido da vitalidade de outrora, tenta sem sucesso tirar seu sustento do mar. Pra quem estranha a nacionalidade do sujeito e a ambientação do romance, fique sabendo que o autor morou um tempo em Cuba, onde ele inventou, segundo a lenda, o mojito. O velho tem como único amigo um garoto, que lhe ajuda nas pescarias e que lhe dá de comer quando tudo mais rareia na geladeira – uma amizade que seria muito útil pra mim, tendo em consideração o constante e deplorável estado da minha geladeira (por enquanto esse amigo continua sedo o motoboy do delivery). Os pais do moleque, mesmo assim, não gostam que ele vá pescar com o Santiago porque ele é azarado, e se tem uma espécie supersticiosa nesse mundo é pescador. Aliás, qualquer pessoa que frequenta muito o mar, de surfista a pirata. É uma coisa natural. Uma hora a parada vira, você fica num mato sem cachorro e pra te acharem naquele mundaréu de água salgada só com muita reza braba e foguetório sinalizador. De modo que o velho sai pra pescar sozinho, na esperança de fazer uma economia aí pros dias que se apertam, uns peixinhos que dê pra vender sem precisar vender muito o peixe, e não é que aparece um PEIXE-ESPADA MONSTRUOSO ASSASSINO VINGATIVO AMIGO DO PCC. E o velho tá lá, mãozinha na fieira, puxando o bicho na maior história de pescador que poderia ter imaginado. O bicho é irascível, e cansa o velho, que passa dias e noites com a linha na mão ponderando sobre a sua fraqueza, sobre a sua habilidade de pescador e sobre a beleza e magnitude do peixe que agora precisa pescar para recuperar sua honra de pescador não-azarado. Isso é 90% do livro. Uma narrativa sintética com monólogos do velho Santiago sobre essas questões aí. A coisa segue nessa toada até que ele consegue finalmente pegar o bicho, e dá um jeito de amarrar ele no bombordo do barquinho, numa proeza que nenhum Pesque e Cia. até hoje mostrou.

Mas aí vem o pulo do gato que só quem leu sabe. A coisa não ia ficar por isso mesmo, é lógico. A tubarãozada, vendo aquele sangue derramado e o cheiro de peixe morto, vem logo pra fazer a janta de ocasião, e aí começa uma luta do velho com os cartilaginosos ardilosos, uma luta que eventualmente ele perde, e chega na costa só com a espinha gigantesca amarrada no barco, provando que sim, ele ainda é o pescador azarado de sempre. Nada dá certo, desgraça total, todo mundo pobre, Fidel preparando pra tomar a ilha e o velho continua sem comida e longe de seu esporte favorito, o beisebol.

o velho e o marFica claro numa leitura possível de O Velho e o Mar a relação de medo, admiração e força do homem com as forças da natureza, aqui melhor do que nunca representado pelo mar e pelo seus peixes maloqueiros. O velho, que já fora campeão de uma histórica contenda de queda-de-braço, se vê agora rezando e lutando com a decadência do próprio corpo para conseguir e defender o sustento que vem difícil e vai fácil. Isso, ao mesmo tempo em que se compara com Joe Dimaggio, o grande jogador de beisebol de sua época, numa desproporcional competição de força física e propósito de vida que, de alguma maneira, sempre foi um parâmetro para os homens. O Velho e o Mar pode ser uma alegoria para muita coisa: para o fato de que a natureza sempre vence, para a ignorância da própria impotência da raça humana, para a concretização das superstições marítimas, para a aurora dos ídolos do esporte ante a ruína do ocidente, para o medo cósmico do homem que precisa da natureza mas gostaria de não precisar. O Velho e o Mar é um desses livros cuja leitura que você faz diz muito mais sobre você do que sobre o próprio livro, em grande parte pela ausência de maiores significados explícitos no texto. Quer ser misterioso e discutido ao longo de décadas? Pode ser o easy way – criando polêmica atrás de polêmica – ou pode ser o Hemingway – jogando o dom da interpretação pra galera. E não está aí a maravilha de um clássico, numa daquelas definições de clássico do Italo Calvino em Por Que Ler os Clássicos? Um clássico, dizia ele, é um livro que nunca termina de ser lido. Ou comentado. Sei lá, não sou desses nerds que ficam vasculhando a biblioteca pra fazer uma frase. Sei que eu deveria ser, mas não sou. Não hoje.

A Bertrand Brasil, do grupo Record, é quem publica a obra do Hemingway no Brasil. Pra comemorar, sei lá, os 60 anos do prêmio Nobel do autor, dado em 1954, eles resolveram dar uma mais do que necessária repaginada na coleção dele. E valeu a pena, porque tá lindíssima. Essa capa, que costumava ser horrorosa, cheia de degradê de cores, letras gigantescas e mal diagramadas, passou a ter um look mais gráfico, a assinatura do autor, cabeço com a paginação, um tamanho maior de página e papel pólen, o que já é 60% das melhorias do projeto. E, claro, manteve as belíssimas ilustrações de Charles Tunnicliffe e Raymond Sheppard que já figuravam na primeiríssima edição do texto em livro, em 1952 – essa é a 80ª edição no Brasil. Curti e aprovei. Vamos esperar as próximas!

Comentário Final: 124 páginas com papel pólen soft. ‘Tá aqui o bicho!’

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Apostas do Nobel:

premio nobelComo vocês devem saber, o prêmio Nobel de literatura sai hoje. Alguns leitores apostaram no Facebook, como é tradição fazermos todo ano por aqui, então vamos deixar as apostas registradas pra depois não falarem que tem marmelada. O vencedor leva o Homem Lento, do Coetzee. E reforço, para quem perdeu de apostar, que curtam a página do Livrada! no Facebook. Sim, tem que ter Facebook pra curtir a página, se não tem perde essas barbadas que aparecem vez ou outra.

Thaisa Meraki: Haruki Murakami

Priscilla Scurupa: Joyce Carol Oates

Pedro Víctor Santos: Philip Roth

Vitor Nascimento: Amos Óz

Guilherme Sobota: Assia Djebar

Rafael Pousa: Alice Munro

Fidel Zandoná Forato: Willian Trevor

Fábio Moon e Gabriel Bá – Daytripper

daytripper_capaAcho que a essa altura todos já conhecem a regra de ouro da resenha de quadrinho no Livrada!, certo? Caso alguém tenha chegado agora, a regra tem um nome que parece prêmio de televisão: major achievement in graphic novels only. Tradução: só os quadrinhos mais bolados do pedaço, e quem não acha e quem não gosta não faz nada, fica peixe aí. Obviamente que Daytripper, dos gêmeos Bá e Moon, não é diferente, e gostaria de comentar este livro aqui em um post mais curto. Não porque o livro não valha mais do que cinco parágrafos, mas é que eu estou é com pressa. Perdão por isso. Ah. Pode ter spoiler. Perdão por isso também.

Daytripper conta a história de Brás de Oliveira Domingos, um jornalista que escreve obituários, vive à sombra de seu pai, um escritor badalado, e colhe os frutinhos miúdos e esparsos de um único livro publicado, só pra não dizer que não se enveredou pelos mesmos caminhos do velho. Em sua profissão, ele precisa resumir a existência de pessoas a meros parágrafos enquanto passa por transformações marcantes. Dá pra inferir daí que a grande questão do livro é: o que, exatamente, define a sua existência? Os livros que você publicou, as amizades que fez, as mulheres que comeu, o dia em que você nasceu, ou nenhuma das afirmativas anteriores? É esse tipo de questão existencial que é discutida no livro.

Cada capítulo é um número, que corresponde à idade em que Brás morre. É, a cada capítulo ele morre e a vida dele, cortada naquele ponto, é definida em dois parágrafos de obituário escritos no último quadro. É dessa forma não-linear que os autores procuram explicar esse ponto de vista e também a efemeridade da vida quando alinhada à imprevisibilidade da morte. É, acho que é isso. Tô escrevendo muito bonito hoje.

gabriel-ba-fabio-moonE é claro, os desenhos são de arrepiar. Não é à toa que esses caras já paparam todos os prêmios de quadrinhos possíveis e imagináveis. O tratamento das cores e as splash pages não só enriquecem a experiência de conhecer a história de Daytripper como arrisco dizer: se não fosse um quadrinho, não teria metade do impacto que tem. Se a coisa fosse tratada como literatura strictu sensu provavelmente sairia algo meio piegas, meio auto-ajuda, meio Martha Medeiros. Aqui, a imagem e o texto se ajudam e criam uma experiência singela na medida. Por isso é que é legal.

O livro foi lançado pela editora Vertigo, que é uma editora especializada mais em quadrinhos de fantasia, e tem duas versões: uma de capa dura e uma de capa mole que custa a metade do preço mas detona mais rápido também. Então, não sei, vai da sua vontade de gastar e do seu ímpeto de colecionador. Sei que de qualquer jeito a edição é lindíssima pelo trabalho dos dois. Ah, e tem prefácio desenhado pelo Craig Thompson, que escreveu Retalhos, o que atesta que os sujeitos são referendados por gente referendada, e quer mais o quê?

Comentário final: 256 páginas em papel couché. Quase um obituário da vítima que levar uma livrada desse aqui na cabeça.

Mo Yan – Mudança (Bian)

bianNo ano passado, este blog fez um bolão do Nobel para ver quem iria acertar o ganhador do prêmio literário máximo daquela vez. Muitos apostaram com o coração e outros tantos com a lógica, mas quem ganhou mesmo foi o Guilherme Sobota, que, muito malandro, foi conferir o nome mais cotado nas casas de aposta antes de emitir seu palpite. Como a coisa já faz mais ou menos um ano e como foi aniversário do nosso leitor ontem, vamos falar do até então único livro do prêmio Nobel Mo Yan traduzido para o Brasil.

Sempre acho que um nome mais ou menos obscuro aqui que é laureado com o Nobel, eu encaro a coisa como uma lança no peito da curadoria editorial das casas especializadas do país. É certo que a corrida começa imediatamente depois do anúncio, e poucos conseguem um contrato mais permanente porque a verdade é que os tempos de “O que é bom para os Estados Unidos (ou, o que é bom para Estocolmo), é bom para o Brasil” do senador Juraci Magalhães já se foram há muito, e a verdade é que, com nossa própria literatura nivelando por baixo, se o cara for sisudão, a coisa nem vinga por aqui. Por exemplo, a Elfriede Jelinek, vocês sabem. É claro que o Nobel não é exatamente um bom termômetro da qualidade literária de um autor, já que o prêmio é sempre dado pelo conjunto da obra e por razões outras que não a própria literatura.

Felizmente, Mo Yan é um autor fácil e divertido de ser lido, e confesso que fui parcial na minha pré-avaliação dele porque ainda estou embasbacado com a literatura do Yu Hua, seu conterrâneo que já passou pelo Livrada! em duas ocasiões: aqui e, principalmente, aqui. Mas Mudança, seu primeiro título cá nesta terra de pecadores, não é um romance, é um livro de relatos, o que deixa o primeiro encontro com a literatura dele um pouco imprevisível, porque não dá pra ter uma medida muito certa do tipo de escrita que o sujeito pratica, ainda mais que ele conta na apresentação que escreveu o livro meio contrariado e meio sem saber o que estava fazendo. A ideia era escrever um texto que resumisse as principais mudanças na China maoista até sua abertura. A megalomania do projeto é pra desanimar qualquer um mesmo, ainda mais se você não é exatamente um estudioso da coisa e só tem uma memória prática dos acontecimentos.

Mas é justamente aí que está a graça do negócio. Mo Yan escreveu um livro pequenininho, de tão pequeno que chega a ser uma afronta à proposta original, e escreveu sobre sua própria vida, de garoto apagado e pobre do interior à vida no exército e suas primeiras publicações. É por meio dele que você aprende que tipo de mudanças econômicas a morte do camarada Mao trouxe para a população mais pobre, que pôde sair dos buracos onde moravam para visitar a onipotente Pequim, ou como os caminhões soviéticos passaram de objetos de consumo para velharias imprestáveis, e como o sonho de ser caminhoneiro entre os pequenos chineses morreu com a abertura para novos negócios. Mo Yan mostra como as pessoas que não tinham nada puderam enriquecer muito rapidamente depois da abertura, e como algumas publicações em revistas já alçaram o autor a um patamar gigantesco. Então a gente entende que o título do livro, “Mudança” é uma só, a mudança da China, mas é contado a partir de mudanças, no plural, que são pequenas e entrevistas nos detalhes das vidas narradas, mas significativas no conjunto para a compreensão da conjuntura política e social do país dos amarelos.

MudançaE tudo isso é contado na maior despretensão, como um senhorzinho que conta as memórias da infância dele sem se preocupar em ser dramático ou prender o interlocutor, mas preocupado, antes de tudo, em fazer o leitor entender a lógica diferente daqueles dias diferentes e as preocupações de uma geração que se dividia entre o dever cívico e os sonhos materialistas, como andar de caminhão (a capa do livro é um desenho técnico de um desses caminhões russos) e visitar a capital.

No fim, Mudança é um livro singelo, mas honestíssimo na fidelização do ponto de vista do autor-narrador e que se sabe incapaz de dar conta de explicar todas as transformações da China no século 20, mas que dá sua contribuição empírica pra extensa bibliografia já publicada e a cada dia mais engrossada por tomos novos. E isso, para nós, leitores leigos que não nos pretendemos sábios entendedores da questão chinesa, nos contenta e nos satisfaz. De quebra, ainda conhecemos um autor Nobel novo, o que, por si, só, já torna a experiência da leitura mais reveladora.

O projeto gráfico da Cosacnaify é lindão como sempre e o livro, em seu tamanho, é quase um pocket. Um 19 x 12cm com fonte Milo Serif em cor roxa, papel pólen bold e um texto preparado e revisado por orientais (se isso não agrega valor ao cuidado da editora, eu não sei o que agregaria). E, claro, a famosa cinta promocional pra avisar o leitor desavisado de que sim, é esse o chinês laureado em 2012. Vida longa à literatura da China!

Comentário Final: 125 páginas de papel pólen bold. Não machuca, mas agrada a quem olhar.

Michel Laub – Diário da Queda

Michel LaubQuem lê esse blog há tempos (e creio que esse número vem aumentando constantemente), sabe que eu sou um eterno amargurado com a nossa literatura brasileira contemporânea e saio errantemente procurando algum livro que me faça mudar de ideia ou que me dê a cetelha de esperança de que preciso pra não ir na do sujeito lá que deu entrevista pro Globo falando que o Rubem Fonseca não faria sucesso nos dias de hoje. A sorte é que volta e meia esbarro com um desses exemplares. O Diário da Queda é um deles. De longe o melhor e mais maduro livro do Michel Laub. Vamos a ele que atrás vem gente. (putz, acho que não era assim o ditado, tenho que parar de tomar tanto chá de fita).

Num resumo bem simplista, o livro é narrado em primeira pessoa em pequenos fragmentos (como em O Gato Diz Adeus) por um judeu, neto de um sobrevivente de Auschwitz, que estuda num colégio só pra judeus, onde ele e seus amiguinhos fazem um bullying pesado com o único gói do pedaço. Porém, como esse é um romance de formação, a coisa não pára por aí e vai até a vida adulta do protagonista, que se transforma em um escritor e sai de Porto Alegre para morar em São Paulo. Como o próprio Michel Laub, que, aliás, também é judeu. Para usar aqui uma palavra apropriada, tai um escritor que deve ter sido judiado até não poder mais com perguntas do tipo “Qual o teor autobiográfico de Diário da Queda?” e “Você tem um avô que é sobrevivente de Auschwitz?”, etc, etc. Sinceramnete, se você não tem o que perguntar para um autor que escreve um livro desses, só lamento, porque aqui há muito mais questões propostas do que a eterna ponderação sobre invenção e memória.

O acontecimento principal em O Diário da Queda é quando o menino Bruno (acho que é esse o nome, que preguiça, o livro tá a dois passos de mim, mas levantar a bunda gorda dessa cadeira pra pegar que é bom, nada) (agora levantei e vi que o nome do menino é João), quer dizer, quando o menino João, o gói da parada e eterna bola da vez da judeuzada cruel resolve fazer uma festa de aniversário de 13 anos, o que corresponderia ao Bar-Mitzvah dos colegas. Incorporando alguns elementos da festa judaica (êta, João antropofágico da gota serena!), os meninos fazem aquele lance de jogar o aniversariante pra cima com um pano gigante esticado por todas as mãos possíveis. Só que na última vez que jogam o menino pra cima, deixam ele se esborrachar no chão de propósito, só pra ver qualé. O João fica seriamente ferido e isso coloca a vida do protagonista em uma direção diferente da de seus colegas. Ele muda então de escola junto com o João e vai para uma escola não-judaica, onde agora quem sofre bullying é ele. Bom, essa é a primeira discussão do livro, então: a inconsciência da crueldade coletiva, o empoderamento da maioria e outras coisas tais que os judeus gostam de jogar nas costas da alemãozada. E principalmente a inversão dos papéis, algo que é comumente descartado pela suposta índole cândida dos judeus.

Mas aí também tem a questão do pai dele, que vive à sombra do avô, sobrevivente de Auschwitz e autor de cadernos completamente insípidos sobre a chegada no Brasil. O pai é bitolado na questão judaica e bota a culpa de tudo o que pode acontecer em Auschwitz e no holocausto. O confronto com o pai e suas ideias é também o confronto com seus amigos e o confronto com Auschwitz. Quer dizer, ignorar o holocausto é, para ele, amenizar a pancada sem ter o direito para isso. Como argumentar contra Auschwitz, afinal? Esse é um dos aprendizados do protagonista enquanto descendente de judeus questionador. E ele vai jogando essas e outras ideias, embora não consiga dar conta de metade delas dada a curta extensão do livro e a escassez de ensaio do narrador.

diário da quedaAliás, tai uma coisa legal do Laub, que são essas ideias discutidas não sob a forma de ideias sendo discutidas, mas sob a forma de fluxo de consciência, memória e seletividade narrativa. É só dessa maneira que a gente consegue perceber um padrão hegeliano nas gerações tratadas no romance (o livro é dividido em capítulos como “Algumas coisas que sei sobre meu avô”, “Algumas coisas que sei sobre meu pai” e “Algumas coisas que sei sobre mim”). Sabe, aquela coisa: tese, antítese e síntese. Um exemplo da relação: O avô nunca escreveu uma palavra sobre Auschwitz, o pai, por outro lado, sobrepesou a coisa e se tornou um obcecado. O filho, então, precisa balancear a vida e sair da sombra e da forma do holocausto para viver seus próprios dramas, filtrar as duas pontas de uma formação literária e concreta sobre o caso e avaliar o que pesa mais na sua vida: o legado do holocausto ou o próprio pai obcecado com o holocausto. Entre outras coisas.

Como vocês podem ver, esse é um livro complexo, maduro e relativamente bem resolvido, dado sua limitação de páginas e a extensa bibliografia, ficcional e não-ficcional, sobre o assunto. Acho que o cara conseguiu o que queria e foi bem sucedido nessa árdua missão do escritor brasileiro de fazer um livro que não seja só mais um livro. E acho que boa parte da minha simpatia foi ganha na linguagem. Sinceramente, ando cansado dessa onda de escritor nacional escrever que nem adolescente em absolutamente todos os livros. Ninguém se trata como adulto, e isso é chatão. O pessoal pode argumentar que geralmente são livros mais voltados para adolescentes, mas eu digo que a psicologia já provou que se você quer ser respeitado pela mocadinha, não fique falando Gugu-dadá pra sempre. E se alguém contra-argumentar dizendo que Gugu-dadá é exatamente isso o que este querido blog balbucia, eu digo que isso só vale para as coisas sérias, não para blogueiros literários absurdamente lindos e maravilhosos como eu.

O projeto gráfico da Companhia das Letras é um dos mais bonitos que já vi para livros nacionais. Fonte Electra, papel pólen de grande gramatura, e a foto de capa, meio prateada, é uma das melhores que já vi por aqui, na minha opinião.

Comentário final: 151 páginas de papel pólen soft. Ia contar uma piada de judeu aqui, mas são tempos perigosos de dedos apontados para todos os lados, então vou deixar quieto.

Anthony Bourdain – Cozinha Confidencial (Kitchen Confidential)

Kitchen ConfidentialAntes de começar o post de hoje, gostaria de pedir a todos que toparam fazer o Desafio Livrada! 2013 que me contassem o progresso para as metas estabelecidas. Meu palpite é que ninguém se lembra, brasileiro não tem memória de compromisso que assume, blá blá blá, em quem você votou pra deputado blá blá blá, vocês já conhecem o papo. Enfim, pode ser por comentário e pode ser também pelo e-mail bloglivrada@gmail.com, combinado?

Bom, o livro de hoje, parece bem óbvio, é uma não ficção. É um livro de memórias do cozinheiro nova iorquino Anthony Bourdain. E fazer resenha de livro de memórias é a coisa mais fácil pra acabar escrevendo um release involuntário (se bem que a maioria do povo que anda comentando livros na grande mídia já anda flertando com esse lance de release requentado). Mas vou tentar dar umas pinceladas gerais antes do comentário para ver se escapamos dessa cilada.

A ideia básica de Cozinha Confidencial é: cozinheiro é tudo porra-louca, a vida na cozinha é pior que a vida de boia-fria no sertão de Pernambuco e manter um restaurante, como diz a Barbie sobre a matemática, é “difííííícil”. É assim que o autor resume suas experiências. Ele começa contando como despertou seu paladar em uma viagem à França em que comeu sopa fria e mariscos crus. Eu sou meio fresco pra maioria das coisas e já teria parado por aí, mas bem, esse não é um livro sobre as minhas aventuras gastronômicas (até porque se fosse, teria umas dez páginas apenas). E a partir daí, desgarrou-se de sua família para ser um jovem cocainômano, maconheiro e alcóolatra numa cidade do litoral, onde arrumou um emprego de lavador de pratos para se manter. E seguem capítulos sobre a sua formação, os restaurantes em que trabalhou, seu envolvimento com a máfia e as grandes lições da cozinha que tirou da própria experiência.

Mas o cara é mais cozinheiro do que escritor. Prova disso é que ele não faz ideia de quem seja o seu leitor ideal, uma coisa que teria resolvido se desse uma lida nuns caras teóricos aí tipo Umberto Eco e Walter Benjamin que, olha, tão fazendo falta pra essa galera beletrista, viu. Ao mesmo tempo em que ele usa um linguajar cheio de jargão, o que dá a entender que o livro é feito para quem manja das putaria, intercala capítulos para totais iniciantes no assunto, do tipo “então você cozinha e quer impressionar as visitas num jantar? Olha aqui a lista de materiais que você precisa comprar”, “eis aqui a divisão dos trabalhos na cozinha” e “veja bem o que acontece por causa da difícil manutenção de um restaurante”. O palpite que extraio disso tudo é que Bourdain escreveu esse livro pra algum tipo de fooder hardcore que leu muito livro sobre o assunto mas não faz ideia de como a coisa se resolve na prática. Mas vai saber, às vezes o cara só queria abranger o maior público possível, e se você já sabe de alguma coisa que ele está falando, é só pular o capítulo.

Cozinha ConfidencialE embora o estilo de escrita dele seja meio cheio de coisas chulas e linguagem informal (parecido com esses malditos blogs literários da internet, hãn, hãn?), as histórias que ele conta são bem legais! E ele não idolatra a comida fazendo você salivar por cada coisa que ele descreve, mas antes de tudo, traz tudo para o plano terreno. É uma pegada bem realista e desglamurizada de tudo, eu acho, e isso é bom porque os cozinheiros mais midiáticos que eu conheço, tipo esse Jamie Oliver e a Nigella Lawson são muito entusiasmados com tudo. Entusiasmados demais, chega a cansar. Bom, não que ele não se empolgue em algumas partes, mas nada imperdoável também. Acho que se o cara não gostasse do que ele faz, não escreveria um livro sobre o assunto, principalmente um em que basicamente se resume a ele queimando o próprio filme com descrições insólitas de seus hábitos desregrados na cozinha.

Aliás, essa é outra coisa boa. Apesar dele ser o autor do livro, e, na sua condição de autor, mandar a real, Bourdain não se coloca como o detentor da verdade nem se pinta como o grande cozinheiro de nossa época. Pelo contrário, o cara fala “eu faço assim, mas se você for aprender com tal pessoa, esqueça tudo o que eu falei, porque ele manda melhor do que eu” com a maior tranquilidade. E acho que essa mínima falta de vaidade que seja é benéfica, principalmente em se tratando de profissionais vaidosos como cozinheiros e chefs de cozinha.

Eu acordei em um belo sábado querendo ler esse livro porque alguma amiga do Murilo certa vez me chamou de Anthony Bourdain dos hambúrgueres, em referência aos textos meio ensaísticos do meu outro blog, o Good Burger, que é basicamente igual a esse, só que mais afetado e sobre hambúrgueres. Li e não me arrependi, e me senti até meio lisonjeado. O projeto gráfico da Companhia das Letras é aquele pacote basicão de livros não tão importantes assim, mas que ainda assim, é uma beleza. Fonte Minion (a fonte usada para editora para a maioria dos livros de não-ficção), papel pólen e uma capa mutcho loka e psicodélica que deve querer passar uma ideia de cozinha e drogas, ou talvez apenas o movimento frenético dos cozinheiros. Essa capa aí da foto é o meu livro, que tive que escanear porque não tinha nenhuma foto em alta dessa capa na internet. Livrada! também é banco de imagens, rapá.

Comentário final: 376 páginas de papel pólen.  Dá pra tacar na cabeça do garçom quando ele traz um misto quente com queijo e presunto quando você pede um sem queijo, sem presunto, com ovo, salada e frio no lugar.