Lourenço Mutarelli – Nada Me Faltará

(voz da locução) Com a chegada do Natal, muitos se preparam para comprar presentes com antecipação. Mas a maioria das pessoas, como bons brasileiros, deixaram tudo para a última hora. (microfone na cara da gordinha) Deixou para a última hora por quê? (gordinha dá uma risada amarela) ahahaha ahh, sabe como é… brasileiro, né? Tudo pra última hora hahahah (volta pra locução enquanto as imagens mostram o interior de algum magazine Luiza) Mesmo assim, para quem tem paciência de pesquisar, existem muitas promoções para quem quer encher a árvore de natal de presentes (microfone na cara do senhor careca com cara de quem apanha da mulher) tá levando o que hoje? (senhor coça a nuca meio sem graça) tô levando uma máquina de lavar pra minha mulher, uma geladeira pra minha filha e uma televisão pro meu filho. (volta pra voz de locução e agora as imagens mostram um tio meio bostão mexendo nuns papéis na escrivaninha) mas este economista alerta: comprar tudo parcelado pode dar uma dor de cabeça daquelas para o consumidor depois do ano novo (microfone na cara do tio bostão) não pode pesar no orçamento depois. O ideal é que se separe até 15% do salário dos próximos meses para pagar as parcelas, não mais do que isso (corta direto pra gordinha número dois, porque quem faz merda é sempre gordo) que que você comprou? (gordinha rindo à toa) ih, já comprei uma geladeira, um liquidifador, laptop, celular, lava-louça, amber vision, frigidiet, masterline, camisinha, camisola e kamikaze (repórter pergunta com um leve tom de riso) e pra pagar tudo isso depois? (gordinha aos poucos parando de rir e botando a mão na consciência, mas fingindo que está levando na esportiva) ahhh, depois a gente vê, o importante é aproveitar o natal.

Essa brevíssima introdução, além de alertar meus queridos leitores sobre os perigos do consumismo e enrolar o suficiente, serve também para mostrar que jornalista não tem imaginação durante todo o mês de dezembro. Por exatamente essa razão, resolvi aproveitar uma entrevista que fiz com o escritor Lourenço Mutarelli no ano passado que, não sei por que cargas d’água, não coloquei aqui antes. Rá, aqui a sinceridade prevalece, se você gosta de falsidade e hipocrisia, vá ler outra coisa. Sei lá, a Caras. Segue o texto na íntegra:

Não se pode mais dizer que o escritor e desenhista Lourenço Mutarelli seja um novato na área da literatura propriamente dita. DesdeO Cheiro do Ralo [2002], seu romance de estreia, o autor vem desenvolvendo um estilo singular de escrita e já desponta como um dos mais autênticos escritores nacionais. Os livros de Mutarelli são marcados por uma forma sintética e um conteúdo doentio, conferindo ao conjunto da obra quase uma obsessão pela unidade temática.

Agora, com seu novo livro, Nada me Faltará, Mutarelli refina ainda mais sua escrita para compor uma história inteiramente contada por diálogos, sobre o drama de Paulo, que, após sumir do mapa por um ano junto com sua mulher e filha, reaparece sozinho, suscitando dúvidas e desconfianças quanto ao paradeiro de sua família. Em entrevista exclusiva, o autor falou da forma de sua escrita e de elementos comuns que permeiam sua obra e se fazem mais notáveis neste livro.

A principal característica desse livro é sua forma minimalista. Porém, analisando suas outras obras é fácil perceber que um livro composto apenas de diálogos seria o próximo passo lógico no processo de enxugamento de texto que o você vinha realizando. A concepção dessa forma foi natural para você?

Foi muito simples na verdade, eu estava pensando justamente nos quadrinhos, uma história contada só com diálogos. Foi um ponto de referência pra mim. O mais difícil foi achar uma forma de resolver a história só em diálogos, porque eu queria suprimir o máximo de informações. Eu queria um diálogo muito cotidiano, que não fosse muito rebuscado ou poético, porque os dois primeiros livros têm um estilo sintético, mas têm também uma poesia que eu queria evitar nesse.

"Aí o dono do bar falou: eu nunca vi um papagaio gostar tanto de x-burger"

Os finais de seus livros estão cada vez mais afastados de um desfecho confortável à nossa curiosidade, pois o você suspende o leitor em vários pontos e resolve apenas alguns. Isso acontece por uma preferência pessoal ou por uma dificuldade técnica sua em fechar histórias?
Eu não quero continuar fazendo isso, porque eu gosto de experimentar. O cheiro do ralo, por exemplo, tem o final fechado, mas o Natimorto [romance de 2004] deixa em aberto. Me perguntavam o que acontecia e eu não sabia responder, porque acho que as pessoas têm que fazer o final que elas quiserem. O final tá lá, codificado e de acordo com a interpretação de cada um. O final está em suspenso de alguma forma porque o personagem não morreu e matar meus personagens era a única maneira de contar uma história até o fim. Eu estou trabalhando numa história ilustrada agora que começa pelo fim, mas tem um episódio que fica sempre no ar. Então cabe a cada um perceber se é verdade ou não e também se faz sentido ou não, porque um dos personagens acredita naquilo e usa essa mentira [caso não tenha acontecido] para causar alguma coisa nas pessoas para quem ele conta.
Mas como gosto muito de experimentar, eu quero, quando acabar esse, fazer um livro cujo final seja mais fechado e mais tradicional.

Assim como em A arte de se produzir efeito sem causa e Miguel e os Demônios, o protagonista de Nada me faltará também volta a morar na casa dos pais [no caso, com a mãe]. Qual é a importância dessa mudança de casa [como também acontece em O natimorto] em sua literatura? O aumento do atrito entre as relações dos habitantes da casa demonstra que morar junto é uma impossibilidade? 
Eu acho que tem muitas questões que aparecem no nosso trabalho sem que a gente perceba. Eu quis fazer uma trilogia em que o filho adulto volta a morar a com o pai. Isso acontece noMiguel e os demônios,  em A arte de produzir efeito sem causa e no livro de nova York que eu pretendo reescrever. Após isso, eu quis fazer um livro em que o personagem volta a morar com a mãe, é uma relação pra mim bastante diferente. Sobre o atrito, eu penso que o maior pesadelo para mim seria ter que voltar para o primeiro lar. Então eu usei essa atitude como uma forma de tornar o personagem já derrotado. No caso do Miguel, o filho está muito mais como uma companhia para o pai do que um peso. Mas há aquele filho que nunca consegue formar sua própria família e sempre tem que voltar à sua condição de filho.

O protagonista do livro passa por um processo de hipnose. De onde vem o seu fascínio por ciências ocultas ou arcaicas?

Eu acho fascinante! Geralmente eu não acredito, mas exerce um poder ilusório de acreditar na possibilidade, e aí eu gosto de pensar nisso. Quando a pessoa está sofrendo uma ruptura interna e ela começa a projetar isso no sobrenatural — em alguma visão mística ou religiosa — fica difícil saber até que ponto isso é possível ou apenas um delírio do personagem. Eu gosto desse jogo.

Você costuma fazer referências à suas próprias leituras em seus livros [emNada me faltará, a obra chave é um livro de Foucault e em Arte de Produzir Efeito sem Causa, o mistério é circundado pela obra de William Burroughs]. Você espera que seu leitor ideal busque nesses livros um complemento à sua obra, como uma pista de caça ao tesouro?
Eu sou um leitor autodidata. E muito do que eu li e que eu montei a minha biblioteca foi em cima de notas de rodapé ou referências que ramificam para obras sem fim. Nos dois casos específicos, eu acho que a obra citada é quase um link para entender o mistério. Eu acho que há muito que a obra pode complementar a visão do trabalho.

O personagem mundinho, que aparece em A arte de produzir efeito sem causa, é citado em dado momento do livro. É o mesmo personagem? Se sim, por que fez esse resgate?
Foi intencional esse resgate e ele deve aparecer de novo. É um personagem fictício que virou uma referência a muitas pessoas com quem eu conheci, com quem eu estudei no ginásio. Demais você ter percebido, ele vai aparecer de novo!

O perfil psicológico de seus protagonistas é sempre um enigma. A maioria é tão apática que os personagens secundários são mais claros para o leitor do que o próprio personagem central. Como você pensa a construção psicológica desse personagem tão veladamente?
Eu brincava até de diagnosticar os transtornos patológicos dos meus personagens. A partir de pensar e traçar esse perfil, eu acho importante deixar uma proximidade e ao mesmo tempo uma estranheza, como acontece com uma pessoa que te surpreende. Eu acho que 90% dos meus personagens está a ponto de viver uma transformação, e a história se passa um pouco antes dessa montanha russa descer. Em Nada me Faltará, esse personagem aparece e ele já passou por uma transformação. Nesse caso eu não podia entregar nada antes desse acontecimento porque a grande questão é isso: o que aconteceu e se, de fato aconteceu. Então ele aparece já voltando dessa passagem.

F. Scott Fitzgerald – O Grande Gatsby (The Great Gatsby)

Great GatsbyOra, ora, ora, se não é os cara do Livrada! invadindo a cidade. Junte sua mãe, seu cachorro e sua sogra, chame todo mundo que o coro vai cumê agora que estamos com um clááássico na literatura em nossas mãos, pronto para ser destrinchado por esse crítico de meia-pataca que vos fala. O Grande Gatsby, um livrinho do rapazote da era do jazz, o senhor F. Scott Fitzgerald.

Antes de mais nada, gostaria de levantar um questionamento: por que diabos alguns autores abreviam o primeiro nome? Ok, um J.M.G. Le Clézio até vai, é muito nome pra decorar, e um Vidiadhar Surajprasad Naipaul pode enrolar muita língua na hora da pronúncia, mas que mal há em um “Francis” em F. Scott Fitzgerald? Se o cara assinasse como Francis Scott ia ser até mais fácil pra uma galera, e Francis Fitzgerald até poderia ser sonoro. Só ver a baiana que o Salman Rushdie rodou quando a galera da Wikipédia escreveu um artigo sobre ele com seu primeiro nome, Ahmed. Vai entender…

Bom, O Grande Gatsby é mesmo um grande livro (metaforicamente. Fisicamente, é pequenininho), mas me parece que é um daqueles clássicos casos em que se você não sabe o que esperar da leitura, ela não ganha a proporção que merece. E é aí que entra a figura maravilhosa do crítico maravilhoso que no caso sou eu, chuchu. Vamos combinar então: vou te falar porque esse livro é um livraço e você vai acabar gostando muito mais dele quando ler. E se já leu, sei lá, posso te acrescentar algo. Assim espero.

A história do romance, que se passa nos anos 20, é narrada por Nick Carraway, um aristocrata decadente com um nome já apagado pela obviedade da escolha. Ele mora em East Egg, um lugar que existe de verdade só que com outro nome. Não vou entrar em detalhes porque mando malzão na geografia, mas o fato é que em West Egg, o bairro burguês vizinho, mora o misterioso ricasso Jay Gatsby, um jovem que mora sozinho numa mansão pimp-style e dá várias festinhas pra high-society. O estilo de vida de Gatsby intriga Carraway, que visita sua prima Daisy e seu cunhado Tom Buchanam, nomes que eu só citei aqui porque serão importantes para o enredo, mas não necessariamente para esse pequeno resumo.

Nick então começa a ficar amigo de Gatsby e descobre toda sua verdadeira história, uma história que passa por doses muito saudáveis de amoralidade e insinceridade. Enfim, uma história bem humana. E é então que a vida de Gatsby começa a mudar: ele pára de dar festas e procura, como diria aquele personagem machadiano, amarrar as duas pontas da vida de uma forma que eu não vou explanar, porque é demais.

Vamos ao que interessa: O Grande Gatsby é um livraço porque dá um panorama bem interessante de algo que até então era pouco explorado: a intimidade da alta-sociedade, seus trejeitos e maneirismos. Fitzgerald sabia do que estava falando, era um membro ativo dessa sociedade, e mostrou para o resto do mundo como realmente viviam os ricaços por trás da fachada de risadas aristocráticas e banquetes pantagruélicos. E o mais legal de tudo é que é uma visão um tanto desoladora e nada grandiosa sobre a vida. Nada daquilo de “homem rico pobre de espírito”, é um sentimento de vazio da vida que é inerente a todo mundo, mas que nós, pobretões que vamos de coletivo pro trabalho, imaginamos que é preenchido com dinheiro. Isso sem falar que é uma tragédia grega no sentido mais clássico, no melhor estilo Antígona ou O Magnata, aquele filme escrito pelo Chorão (e você achou que a referência ao Charlie Brown Jr. no começo do texto era por acaso. Nada é por acaso nesse texto, irmãozinho), então não se preocupe porque você não vai encontrar um daqueles livros perdidos nas próprias ideias, sem gancho pra uma história boa, tipo A Náusea. Manja A Náusea? Se você também ficou nauseado com aquela chatice, vem comigo ler o Gatsby.

O maior problema dessa resenha é que não há muito o que falar do livro sem estragar algumas surpresas, dar uns spoilers pra galera. Se me chamassem para falar sobre esse livro pra uma turba que já o houvesse lido, a história seria outra. Espero que me entendam, no fundo, no fundo, estou sendo mega legal com vocês, não-leitores de Gatsby, e sendo mei escroto com vocês, leitores. Em um sentido amplo, estou valorizando a ignorância, sim. Mas isso é uma coisa boa. Instigar é a melhor maneira de fazer uma pessoa fazer o que você quer que ela faça.

Essa edição da Penguin Companhia é muito bonita, tem tradução nova da Vanessa Barbara, que é ótima e colocou várias notas de rodapé pra te situar na época e no lugar do romance. O livro tem formatinho pequeno, não machuca ninguém, e vem com uma apreciação crítica muito bacana do Tony Tanner, que apesar do nome, não é atração de nenhum cassino de Las Vegas. Aliás, com a apreciação dele, vocês vão poder dar mais valor à obra, mas só pode lê-la depois de ler o livro, senão meu trabalho aqui em esconder o jogo terá sido em vão. Contamos com os senhores.

A propósito: CURTAM A PÁGINA DO LIVRADA NO FACEBOOK! Já passamos de cem! Uhul! Bora pra próxima centena.

Comentário final: 250 páginas em papel pólen. Mata uma aranha no cantinho, e só.

Rosa Montero – A Filha do Canibal (La Hija del Caníbal)

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Sempre falo isso no final de cada post, vamos tentar falar por primeiro pra ver se vocês prestam atenção, seus cabeças de vento! Rá, brincadeira, aqui ninguém é cabeça de vento, os leitores do Livrada! são sempre os mais espertos e os mais cheirosos.

Como vocês estão, gente? Susse no musse, de boa na lagoa, suave na nave, de leve na neve, tranquilo no quilo, de bobeira na ladeira, seguro no muro, beleza na mesa, jóia na jibóia, manso como um ganso? Espero que sim, porque aqui tá tudo aquele pandemônio nosso de cada dia. Mesmo assim, é sagrado: domingo sim, domingo não, cá estou eu para encher o seu cérebro de besteira ao mesmo tempo que exerço uma boa influência na sua formação. Tipo quando o Tim Maia começou a ler o Universo em Desencanto, ou quando o Jaime Palilo fugiu de casa e aquele mendigo ensinou ele a tocar gaita.

O livro de hoje é de uma autora que, se vocês são freqüentadores assíduos desse blog (vou fazer uns bottons, quem compra?), não é uma completa desconhecida: é a espanhola Rosa Montero, da qual já resenhei A História do Rei Transparente e História de Mulheres. Bom, ao contrário dos recém-supracitados, A Filha do Canibal é um romance mais limpo, no sentido de que não é histórico, não tem ensaio, não tem nada além de um puro e simples romance com uma dose considerável de suspense. Mentira, tem um pouquinhozinho dessas coisas que eu falei que não tinha, mas a julgar pelo exagero dessas doses na obra da Rosa, é quase como se não tivesse.

A história começa a partir de um mote totalmente banal, mas que abre marge pra toda sorte de maluquice que você desejar colocar num romance a partir disso: Lúcia Montero, uma mulher casada de meia idade, está pronta para viajar com o maridão no réveillon quando o fulano pede pra ir no banheiro. E pronto: o cara some dentro da casinha. A partir daí, a moça fica desesperada pra tentar descobrir o que aconteceu com o rapaz e acaba se envolvendo com uma gangue de malucos, a saber: Fortuna, um ex-toureiro e anarquista que preenche boa parte desse livro com suas historietas da guerra civil, e Adrián, um garotão pelo qual as cocotas se perdem e que parece meio burro.

Paralelo à investigação sobre o desaparecimento do maridão, Lúcia relembra sua vida, incluindo o fato que não lhe escapa que dá nome ao livro: seu pai comeu carne humana quando foi um dos únicos sobreviventes de uma expedição aí que já não lembro pra onde. Francamente, não sei qual é o problema. Eu sou uma daquelas pessoas que não tem remorso de comer boizinho, porquinho, galinha, churrasco de gatinho, enfim, se for gostoso, tô comendo. E isso incluiria, hipoteticamente, carne humana também. Mas enfim, pesquisei sobre isso, a parada é ilegal e não vou ficar falando disso porque logo vem um zé Mané querer me enquadrar no artigo 287.

De qualquer jeito, o barato do livro é ver como a relação que Lúcia achava que ela tinha com o marido já havia mudado muito e que o sujeito já era praticamente um estranho pra ela. E aí vai umas ideias muito erradas de como a gente não conhece as pessoas mesmo e patati patatá, perdi o fio da meada e parei por aqui. Eu posso, eu que mando nessa porra. Posso até fazer um emoticon no meio do texto. 😀

Liga não que o post de hoje é curtinho mesmo. É que lembro muito pouco desses livros que eu li, mas lembro que são bons o bastante para não serem esquecidos, e por isso faço questão de divulgá-los aqui para vocês. Entendam que, apesar de ser de ruim memória, é de bom coração. Fazê-los conhecer os livros queridos da minha estante é o mínimo que posso fazer por tantas coisas boas que eles me trouxeram.

Agora vamos falar desse projeto gráfico aí. Ó, a imagem que eu escolhi da capa tem um sentido muito legal. Não escolhi essa imagem só porque foi a única que eu achei na internet com um tamanho decente e com o padrão de cores pouco distorcido. Foi também por causa dessa cinta maravilhosa que a editora colocou. “Da autora de A Louca da Casa”! Sensacional, colocaram o título a partir de um dos maiores sucessos da autora que por acaso também é um dos livros mais difíceis dela. Isso é que eu chamo de valorizar a inteligência do leitor. Ponto pra editora. E o papel é pólen e a fonte é Minion! Mais dois pontos! Ê! Mas agora o livro perde todos os outros pontos. Primeiro por causa dessa capa horrorosa, uma espécie de Matisse-de-Ressaca numas cores suspeitas. E principalmente, e aqui vão desculpar a minha arbitrariedade, por causa da editora Ediouro. Veja, não é que eu odeie a Ediouro, mas esse nome e essa logo do bonequinho com um livro aberto provoca todo tipo de relação pavloviana na minha mente, porque os livros que eu precisava ler obrigado para a escola eram todos, ou em sua grande maioria, da Ediouro. E hoje quando eu pego um livro da Ediouro para ler por prazer, eu já penso que vai ter uma prova sobre o enredo. Brrrr, que calafrios me dá isso. Editoras: considerem fazer um selo propositalmente desagradável para os pimpolhos, para que eles não cresçam odiando vossa casa editorial. Enfim, só uma ideia. E com essa me despeço!

Comentário final: 333 páginas. Aprendi a tocar minha primeira música dos Beatles ontem. Isso porque não sou lá fã dos Beatles. Mas curti.

Eliane Brum – Uma Duas

Se eu fosse o Pedro Bial, chegaria nesse blog gritando ROMANCE! agora (tá, clique aqui para entender minhas piadas). Isso porque, apesar da autora em questão ser uma jornalista conhecida por suas matérias jornalísticas e seus livros jornalísticos, o livro em questão é nada mais nada menos que a estreia de Eliane Brum no campo minado da ficção. Sem mais delogas, vamos a ele. E hoje vou fazer uma resenha séria.

Uma Duas é um livro que me lembrou em muito o romance A Pianista, da Elfriede Jelinek (que foi transformado no filme A Professora de Piano, pelas mãos de nada menos que meu diretor favorito: Michael Haneke, o Tony Montana do cinema!), por tratar de uma relação doentia. E quando eu digo doentia, não quero dizer no nível Napoleon Dynamite, não quero dizer no nível King Pin – Esses Loucos Reis do Boliche, e também não quero dizer no nível irmão-que-transa-com-a-irmã-no-guerra-dos-tronos. Peraí, mas agora chegou perto! Trata da história de uma filha e uma mãe que, coitadinhas, se pudessem se matavam como um hamster mata o outro dentro de uma mesma gaiola. A mãe é pouco mais que uma cadela passivo-agressiva: despirocada desde antes de ser abandonada pelo maridão, mantém a cria na rédea curta com aquele lance de culpa de mãe judia, embora a religião aqui não seja determinada. O que é uma burrice, porque todo mundo sabe que jogar as ameaças na mão de Deus é considerado normal aos olhos do juizado, mas experimente falar que quem vai dar o castigo é você pra ver se não te enquadram no abuso infantil…

De qualquer forma, a mãe é uma daquelas que gosta de pegar, de dormir junto, de fazer carinho… êpa! Claro que a filha já não cresce certinha das ideias. Incapaz de lidar com pessoas normais, afasta todo mundo dela e inclusive larga seu emprego. Agora, o mais perturbador da história é que a protagonista guarda terríveis semelhanças com a vida da Eliane Brum: também é jornalista, também largou o lance que ela tinha na Época, etc. etc.

E aí a cagada tá feita, mano! Alternando entre a voz da mãe, a voz da filha, e a voz de uma narradora “imparcial”, Eliane te leva pra dar um rolé no inferno com ela e com a patota que ela criou. É curioso a gente pensar que uma repórter como ela, que lida com tanta desgraça nas histórias que conta, queira tratar de um outro tipo de desgraceira que é a desgraceira psicológica… Bem, como diz o Bispo, eu sou um artista, esse é meu lixo. Vamo que vamo.

Algumas considerações, mas antes, uma ressalva: para um livro de estreia, Uma Duas é um livraço! Mas vocês me conhecem, o papai aqui é chato. Eu sou o equivalente àquele feioso do Ídolos que usa boné e óculos e desconta as frustrações da vida no trabalho dos outros. O que eu queria dizer na verdade é que a autora carrega pra dentro da ficção alguns vícios da escrita jornalística, e acho que o principal é direcionar o olhar do leitor para o horror de uma maneira muito explícita, ainda que não pareça quando as orações são maquiadas com o pankake do eufemismo. Claro, isso serve na reportagem: você precisa sacudir o sujeito que coloca o monóculo para ler sua matéria. Mas na literatura, eu acho mais interessante o que não é dito e o que é sutil. Algumas passagens podem ser carregadas de efeitos lingüísticos que alimentam a alma barroca mas fazem pouco pela alma de quem lê. E nessas apanhou também o Sr. Saramago.

Há também a questão da voz. Não fosse a fonte do livro, que muda três vezes para alternar entre as três vozes, ficaria difícil diferenciar uma da outra. Talvez isso sirva ao propósito de que mãe e filha são mais parecidas do que se supõe, mas a julgar pelo zelo da edição em separa na tipografia, diria que não. O atenuante da situação é que a(s) voz(es) que ela cria são bem interessantes, e dizem muito sobre a intenção da autora e conduz o leitor para dentro da miséria mental dos personagens sem necessariamente entender tudo, mas também sem deixar aquela vaga impressão de que ninguém – nem a escritora – sabia o que estava fazendo. Não se enganem, meus filhos: a relação conflituosa e doentia entre mãe e filha pode ser corriqueira na literatura e no cinema, mas o que temos aqui foi criado a partir do zero, algo bem original, principalmente para os padrões da nossa literatura nacional.

O projeto gráfico da editora Leya é uma beleza, mas uma beleza do tipo Hillary Swank: dada a divergências. Tipografia laranja e aquele papel leve de jornal com que imprimem os livros americanos… vá lá. Eu gostei, e vocês?

Desculpem por essa péssima resenha de hoje. Não ando inspirado nem motivado. Quem sabe melhora.

valter hugo mãe – a máquina de fazer espanhóis

E aí? Quem foi na Flip? Ó, eu sou de lá e posso dizer: Paraty para quando rola essa festa. E Paraty só para quando tem Flip, Festa do Divino, Festa da Pinga, Festival de Blues, do ano novo ao Carnaval, Corpus Christi, na festa da Nossa Senhora dos Remédios – padroeira da cidade – em feriado nacional porque ninguém é de ferro, em gravação de filme ou de novela que rola pelo menos uma vez por ano, em show grande, que rola uma vez por semestre e durante as férias de verão européias. Só. Então a gente pode ver por aí que o festival é mesmo grande. Agora, a última vez que fui na Flip foi em 2004, e já tava meio circense a parada. A presença mais marcante é a das madamas, que só se aventuravam por outros festivais. Imagine vocês uma matrona barrense, racista, laqueada, pelancuda, de colar de pérolas, lendo um autor como Michel Houellebecq? Tudo bem que ele é uma versão masculina desse tipo de madama, mas mesmo assim, catzo, na minha época elas só liam A Profecia Celestina, Dan Brown se não fossem muito católicas, Fernando Morais e, arriscando, um Gabriel García Marquez ou outro, de leve.

Enfim, pra quem foi nesse ano, viu que uma das atrações era um cara chamado valter hugo mãe (“tudo em minúsculas, assim mesmo”, como os jornais colocaram em parênteses em 500 matérias desse ano). Pra quem tava lá meio que a passeio, era um sujeito careca que era sempre visto do lado da Pola Oloixarac, vulgo “a gostosa da festa”. A presença da Pola e seu livro fétido é prova de que a Flip tá num ôba-ôba que só vendo, mas enfim, falemos do mãe (do valter hugo mãe, não tô fazendo agora a minha tradicional imitação do Wilmutt).

valter hugo mãe é um angolaaaaaaaaaaaaano (que saudade desse quadro do Zorra Total) radicado em Portugal que, como todo bom escritor português, quer dar uma estuprada na língua materna. Um incesto gramatical, se preferir. Na boa, essa apropriação do português que fazem Saramago, Lobo Antunes, ele e o resto da patota tá levando a literatura além da nossa bundamolice nacional. Ficamos aqui com nossos bukowskis-wanna-bes e ficamos pra trás bonito nessa disputinha entre nações irmãs, mas tudo bem. Bola pra frente que no futebol a gente é melh… no basquete a gente ainda é melhor. O abuso desse autor em específico com o português, além de só escrever em minúsculas, passa também por criar uma oralidade diferente da que a gente (ou os portugueses tão acostumados). É que nem ler Guimarães Rosa, saca? Você sabe que ninguém fala assim na vida real, mas pareceria muito plausível se alguém falasse. Criar uma linguagem oral verossímil é tarefa das mais árduas, você que assiste cinema nacional e vai ao teatro sabe disso. Então ele sabe criar algo novo a partir do zero, e é isso que ele faz nesta máquina de fazer espanhóis.

O livro conta a história do seu silva (olha só, não faz nem um mês que li o livro e já esqueci o primeiro nome dele… esse alemão me deixa louco! ui!), um velhinho de 84 anos que, após perder a sua esposa, vai para um asilo de velhinhos, a última casa, as últimas amizades e inimizades, as últimas últimas. Lá ele debate sobre o rancor dos portugueses de terem se emancipado da Espanha (o quê? Não sabia disso? 20 anos de cadeia!!), e terem ficado pra trás no avanço econômico e tudo mais. Fala também uma visão pessimista demais sobre a velhice, que nenhuma propaganda de previdência deveria ver, além de conhecer o famoso Esteves sem metafísica, aquele do poema do Álvaro de Campos, o primo gaiato do Fernando Pessoa que escreveu aquele poema Tabacaria, que diz “e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante,onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações. Eu sei, eu sei, é um movimento que o Saramago já tinha feito no Ano da Morte de Ricardo Reis, criar vida a partir de um poema ou um poeta de Pessoa, mas, gente, olha que legal, é o Esteves sem metafísica! Que outra oportunidade você teria de vê-lo fora daquela tabacaria? Não é a mesma coisa de filmarem um Eduardo e Mônica, um Faroeste Caboclo ou As Meninas, ou criarem um desenho animado só pro Cleveland do Family Guy, é um spin off completamente diferente. O Esteves aqui é coadjuvante de novo! É mais ou menos o que o Kevin Smith faz com seu próprio personagem em quase todo filme dele, e ninguém deu a devida atenção. Prestenção, cambada, coerência nesta joça! Ah sim, também tem uma fantasia a respeito de uns corvos e uma tal máquina de fazer espanhóis, mas isso aí cabe você descobrir senão eu estrago a surpresa (1- viu como é que você disfarça o fato de ter esquecido detalhes de um livro? 2- adoro fazer esses parágrafos com quase dois mil caracteres!).

O autor diz no pós-fácil que escreveu essa história como a história da terceira idade de seu pai, que morreu de câncer na segunda. Pela história que ele criou, vou dizer que o fulano não devia gostar muito do velho, ou gostava mas só é bom de contar história triste. Diz também, não no posfácio, em outro lugar, que não mandou o livro de presente pro Saramago – eles eram amigos, jogavam War juntos, coisa e tal – com medo do velho achar a velhice uma droga. Sei lá, o personagem do livro tem 84, o Saramago tinha 87, acho que o máximo que ia rolar seria ele falar “ih, já passei por essa fase, rapaz.” Mas tudo bem, fato é que Saramago leu mesmo assim o livro antes de abotoar o paletó. Bom pra ele, porque é um livro imperdível mesmo. Faça igual o Saramago e leia nem que seja a última coisa que você faça na vida.

O valter hugo é um desses autores que tem de tudo pra ir plantando a sementinha do Nobel no Farmville dele. Fala de política ibérica (coisa que até então nunca tinha visto), revoluciona na linguagem, tem uma voz inconfundível e só falta mesmo começar a adotar uns africaninhos. Fiquem de olho no gajo, acompanhem o que ele escreve e acessem o EGO para saber o que ele tem feito, que um dia ele vai estar lá em Estocolmo em frente aos babacas suecos (repito: que nome de banda isso daria!) representando nosotros lusófonos. Peguei essa foto aí dele pra vocês verem como ele é simpático e como ele revoluciona até na hora de tirar foto de escritor. Mão no queixo é coisa do passado. Guarda-chuva aberto no brejo com buquê de flores is the new melancia na cabeça. Aliás, além de ser escritor, o sujeito também é vocalista de uma banda chamada Governo, que consegue a façanha de ser uma banda pior do que a minha! Aê!!! Além disso é artista plástico e DJ, mas não sei se é DJ DJ ou DJ que só ataca de DJ, então não vou falar nada sobre isso.

E esse projetão da Cosac, hein? Mermão, só a capa vale o preço do livro! Só a capa! Lourenço Mutarelli assina a arte e a orelha. Aliás, foi mal, Mutarelli, gosto muito do senhor, mas essa orelha ficou mais burocrática e monocórdica do que a Ilze Scamparini narrando o carnaval de Salvador. Enfim, o projeto gráfico do livro puxa tudo para a esquerda, do título dos capítulos, que começam nas páginas pares (que inusitado!), ao alinhamento dos parágrafos e a paginação, que não alterna lados como em qualquer livro normal. Até a orelha é escrita do lado de dentro, pra ficar o mais à esquerda possível. Papel pólen e fontes Nassau e Conduit (que é mais bonita do que qualquer conduíte).

Galera, o Livrada! precisa do seu apoio. Não vou abrir um 0800 estilo criança esperança, mas considerem anunciar aqui a preços módicos.

Comentário final: 250 páginas mais ou menos com a PURA LAVA DO VESÚVIO, tipo as bolinhas de queijo mussarela crocantes lá do Cospe Grosso!

Herta Müller – Tudo o que Tenho Levo Comigo (Atemschaukel)

AtemschaukelBem amigos da rrrrrrrrrrrede bobo, estamos aqui hoje na gélida, sombria e bucólica Curitiba para mais uma crítica de ponta. O livro de hoje? Nada mais nada menos do que Tudo que Tenho Levo Comigo, da prêmio Nobel de literatura mais esquisita dos últimos cinco anos: Herta Müller!

Não é frustrante? A gente fica esperando o ano inteiro para saber quem vai ganhar o Nobel e sai uma sujeita lá da terra do conde Drácula que a gente nunca viu mais gorda e, como o homem é a medida das coisas e como as coisas em volta do homem são a medida de todos os homens, só nos resta tentar imaginar a injustiça que cometeram com os autores que a gente conhece em preterir uma (para nós) ilustre desconhecida a um João Ubaldo, a um Mia Couto, a um Vargas Llosa (vingado no ano seguinte, rá!). E mais, digo mais! É frustrante em saber que o nosso mercado de editoração brasileiro não conseguiu vislumbrar um excelente escritor na frente daqueles putos de Estocolmo, os babacas suecos (daria um bom nome de banda, mas alguém preferiu “garotas suecas”. Por quê? É, beats me too). Na época em que a Herta Müller ganhou o galardão, só tinha um livro dela publicado aqui no Brasil, pela editora Globo que, por tradição, não costuma publicar vanguardas. Daí você acorda de manhã, ouve na rádio que o Nobel foi pra Herta Müller, faz a sua cara de “What the fuck?”, procura algum livro dela publicado em português e, tchanam!, lá na livraria empoeirada do chinês tem um exemplar empoeirado perdido ali entre os Júlio Verne, os Steinbeck, os Somerset Maugham, os Blake e tudo aquilo que os jovens hoje não leem mais, que alguém jogou ali por acreditar ser um autor muito, muito velho. Afinal, foi publicado pela editora Globo.

Mas pera lá que essa história tem um final feliz. Publicaram outro livro da Herta no Brasil. Agora são dois! Aê! Isquindolelê, é carnaval! É carnaval duas vezes (2x)! E é deste livro que vamos falar hoje.

Tudo o que Tenho Levo Comigo dá uma boa ideia de porquê Herta Müller ganhou um Nobel. A história é a seguinte: um garoto meio mocinha que mora na Romênia (terra da autora), mas de minoria alemã (ao contrário dela, que é romena mas mora na Alemanha), é colocado num trem pra servir nos campos de trabalho que os russos instituíram para os alemães pagarem as dívidas de guerra. Mandaram o governo da Romênia despachar qualquer chucrute pra esse gulag hardcore. E lá foi o nosso herói, Leo Auberg que até então estava começando a descobrir os pecados da carne com uns romenos, considerados ralé ante os arianos.

Pois bem, o livro é, então, a narração de Auberg nesses campos, desde que foi, até quando voltou. “Grandes bosta, cara, já li um porrilhão de livros assim”, vocês, meus leitores espertos que se dignam a aparecer aqui todo domingo para se decepcionar com mais uma crítica abalizada, diriam com ares de um arqui-inimigo de filme do Woody Allen. Pera lá então que eu não terminei. O grande barato de Tudo o que Eu Tenho Levo Comigo é a construção da forma com que o diário é narrado. Sem lenço nem documento congelando o rabo na Rússia, Auberg se apega às palavras, e apropria-se delas para enfeitar o seu mundo cinza de clipe do Radiohead. E aí, como diz o Tim Maia, vale tudo. Vale construção cíclica, vale gagueira mental, vale prosopopéia, vale concretização de abstrato, vale usar maiúscula pra tudo no melhor estilo germânico, vale transformar a dor em personagem, a fome em personagem, tua mãe com as pregas soltas em personagem, enfim, é uma verdadeira babilônia lingüística esse livro, meus irmãozinhos.

É bem engraçado, na verdade, de ver como a autora junta essa prosa fluida, desavergonhada e adjetivada, típica dos latinos (já que ela, como Romênia, é latina), a uma narrativa que parece rígida, que chega a ser redundante para ser clara e, de alguns aspectos, limitadas pela gramática típica dos saxônicos. É realmente um estilo bem único, pelo menos pra mim, que nunca vi nada parecido. E para ela, as palavras valem não só pelo significado, mas pela sonoridade. É assim por exemplo, que ela inventa uma palavra, como Hasoweh, uma contração inventada de Hase (coelhinho) e Weh (dor). Hasoweh é TUDO nesse livro: é o som do trem, é o gás que aquece a galera, é a fome, é a dor do trabalho no campo, enfim, é onomatopeia, é substantivo, é adjetivo, é um amiguinho do protagonista. É esse o verdadeiro poder da palavra, não acredite no seu Pastor!

E, claro, uma obra portentosa dessas não chegar a nossas estantes sem o trabalho dedicado de um tradutor. No caso, de uma tradutora, a escritora Carola Saavedra. Isso aqui, meus amigos, é o Hyeronimus Bosch da tradução. Que trabalho! Aposto que a moça se desgastou mais do que o baterista do Dragonforce pra parir essa tradução, porque, olha, não é fácil. Até hoje só babei nessa e na tradução do Nicolau Sevcenko de Alice no País das Maravilhas. Eu reconheço trabalho difícil quando eu vejo um, e vi o empenho da Saavedra em achar palavras, caminhos, atalhos, escadinha de casa na árvore pra escapar das ciladas lingüísticas que em que a Herta Müller joga seus tradutores. Deviam fazer um Jogos Mortais em que ela era o Jigsaw e os tradutores é que tem que desvendar um jeito de sair daquela frase. Mwhuahuahua!

Essa edição da Companhia das Letras é bonitinha mas nada demais. Papel Pólen, fonte Electra, essa foto mei-azul-mei-arroxeada que é pra dar a impressão de que você tá pegando uma gripe enquanto olha pra esse trem e o selinho de Prêmio Nobel, a bandeira 2 das editoras. Agora, que o conteúdo é bom, ah isso é!

Comentário final: 298 páginas. Hasoweh!

Lourenço Mutarelli – A Arte de Produzir Efeito Sem Causa

Tô me sentindo uma daquelas gatinhas de Hollywood que se envolvem com drogas e tempos depois saem da rehab com um aspecto cadavérico, peito caído e muita entrevista pra dar na Oprah. Tô melhorando, galera. Olha só, minha última postagem foi há duas semanas e já respondi todos os comentários pendentes de antes. Tô me regenerando, Risoflora! Não vou dar mais bobeira dentro de um caritó, agora é só pimba na gorduchinha e vamo que vamo que o som não pode parar.

Vamos combinar que uma postagem a cada quinze dias tá valendo, ok?

O livro de hoje vem para reafirmar uma tecla que venho batendo há algum tempo: Lourenço Mutarelli é uma das vozes mais originais e instigantes da literatura brasileira em muito tempo. Mas ô escritorzinho subestimado, meu Deus. Abram os olhos pra esse cara de uma vez por todas que ele merece ser lido não só pela galera nerds que acompanhava os Transubstanciação e Dobro de Cinco da vida. Ele é bom como romancista também, e não tem nada a ver com o que ele fez antes. O bicho é bom e subestimado, é Captain Beefheart da literatura nacional.

A Arte de Produzir Efeito Sem Causa é, se não me engano, o primeiro livro dele lançado pela Companhia das Letras. Acho que quando o cidadão vai pra essa editora, os olhos se voltam mais pra ele, mas peguem o Cheiro do Ralo pra ler e comprovem o que eu digo. Fico feliz que Mutarelli não seja mais tão pop quanto era há uns dois anos atrás, quando escrevia peça de teatro pra Mariana Ximenes e o escambau, daqui a pouco ele tava indo no programa da Hebe dar selinho naquela múmia e pegar a herpes de Amenófis IV. Escritor tem que ser low-profile mesmo, senão essa vida hypada (vem de hype, Juvenal) vira a cabeça do cara. A Globo é uma máquina de fazer Paulos Coelhos. Aí, valter hugo mãe, aproveita o tema e faz mais um livro. (sobre o valter hugo mãe: que nominho, vamos combinar. Não basta o cara chamar valter, o sobrenome dele ainda é mãe!).

Bom, tergiversei como manda o figurino, agora vamos ao que interessa. Esse livro é um dos grandes livros do Mutarelli. Conta a história de Junior, um cara que trabalhava numa revendedora de auto-peças e se divorcia da mulher, que deu em cima  do amiguinho do filho, e resolve ir morar com o pai dele. Lá conhece uma mocinha que eu já esqueci o nome e que tô tão sonolento pra procurar no Google que nem tô arriscando fechar essa janela do Word pra não começar a babar com o queixo no peito nem to dando ponto final olha só to embalando legal essa frase uuu to doidão de sono. Brrr, me dei uns tapas e acordei, voltando ao assunto. Lá ele conhece uma mocinha por quem sente uma leve pontada no zíper da calça, mas é só isso que vou falar sobre o assunto.

O que interessa para a história é esse movimento de voltar a morar com o pai, a simbologia para a derrota da vida sobre o homem, como o próprio Mutarelli me disse em uma simpática entrevista que fiz com ele por telefone. Derrotadão e cansado de apanhar da vida, devendo as cuecas pros outros, Junior começa a receber correspondências estranhas pelo correio, que ele crê que sejam peças de um quebra-cabeça que cabe a ele montar (essa frase me lembrou dessa música, sempre uma boa pedida). Já dizia alguém – Chico Xavier, talvez – que a mente vazia é a Yoguland do diabo. O sujeito começa a pirar nas encomendas e, mais noiado do que o Capitão Ahab visitando o Sea World, afunda no suposto quebra-cabeça enquanto tenta segurar as pontas de sua vida, que já tá mais capenga do que pé-de-meia de grego.

Se tem uma coisa que Mutarelli entende nessa vida de meu Deus é de loucura. O cara é PhD em doidice pela Universidade Pinel Senor Abravanel, ocupante da cadeira número 22 da Academia Brasileira de Loucura (ABL, essa mesma), cujo patrono é Giordano Bruno. Em A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, o autor mostra direitinho o processo de endoidamento da pessoa, e é assustador, é quase como ver um parente-problema (problema na família, quem não tem?) com quem você tem que lidar porque você não tem escolha e porque qualquer família tem uma cota pra maluco (geralmente de dois terços).

Essa edição da Companhia das Letras valorizou o enredo, e não é todo dia que o projeto gráfico de um livro ajuda na experiência imersiva do leitor. Com desenhos (doodles) feitos pelo próprio Mutarelli, o livro tem um formato assim meio de Moleskine falsificado e tem um miolo cheio de rabiscos atribuídos a Junior. Mas entre os escritos também há intervenções do projeto gráfico, que complementa a história com letras escritas à mão (simulando, né, animal, não colocaram ninguém pra trabalhar no ano novo escrevendo letrinhas em 3 mil livros) e outros rabiscos e desenhos que têm como objetivo entender o raciocínio de Junior no mistério. Aliás, não espere muita solução nos livros do autor, é melhor prestar atenção nesses elementos que eu to falando. Tenho essa ideia de que saber o que olhar antes mesmo de começar a ler o livro é importante pra você não sair odiando o autor pelas razões erradas. Fonte janson e papel pólen velho de guerra irmão camarada. Quer mais o quê? Enfeita sua estante e o seu cérebro.

Comentário final: Semana passada não postei sabe por quê? Estava na junket do Transformers 3, que estreia na semana que vem. Rá, vi o filme antes de todo mundo, e o Michael Bay sentou bem na minha frente. Acho que passei uma gripe pra ele, espirrei bem na nuca do infeliz.

Franz Kafka – O Veredicto/Na Colônia Penal (Das Urteil/In der Strafkolonie)

Das Urteil/ In der StrafkolonieÉ gente, eu avisei. A coisa tá corridona. Vamos fazer assim? Deixemos as resenhas apenas para os domingos, alright?

E pra quem não viu, temos um patrocinador. O Sr. Victor Almeida está divulgando seu novo livro, que saiu na forma de e-book para kindle também. Cliquem ali no banner de seu Juntos no Paraíso para saber mais e comprá-lo, pra ele ver que é boa ideia anunciar aqui.

Olha só, um ano se passou e nem me toquei que não tinha falado ainda de Franz Kafka (não confundir com Franz Café, aquele Coffee Shop que fica aberto 24 horas ali na Praça da Espanha que só dá um povo bem esquisito que nasceu em Arapongas, mora no Cotolengo, usa cachecol em fevereiro e acha que é britânico). Já li essa coleçãozinha inteira dele, à exceção de O Processo, livro que não engulo nem misturado na sopinha. Restava falar de um de seus inúmeros livros de contos, incluindo o belíssimo Um Médico Rural, ou então falar do óbvio A Metamorfose, cuja resenha você pode ler em qualquer outro blog miguxesco por aí (aqui, ora pois, tratamos de literatura não-óbvia), ou então os inomináveis Carta ao Pai ou O Castelo (que raiva que eu tenho desse livro O Castelo, depois dele nunca mais li livro póstumo nenhum, só O Mestre e a Margarida por razões óbvias). Pensei então que poderia falar de O Veredicto e o insuperável Na Colônia Penal, dois contos/livrinhos surpreendentes e dignos de tudo o que se fala de bom do Kafka. Porque convenhamos, o sujeito escreveu muita porcaria também. Sério, tem um conto naquele A Contemplação, que foi o primeiro livro de contos dele, que quase me deu vontade de tacar o livro na testa do desinfeliz que deixou eu comprá-lo.

Pois muito bem. O Veredicto (Veredicto não tem mais esse c mudo, ou tem? Taí algo que faz a gente se sentir velho. “No meu tempo, netinho… cof…cof… Veredito se escrevia com c antes do t… agora passa esse balão de oxigênio aí… cof…”) é um livro curtinho cuja história, de longe, pode não impressionar muito. Um carinha que tem um amigo que mora longe, e com quem tenta se comunicar por cartas (os estadunidenses chamam isso de “pen-pal”, ô palavrinha feia da gota!) embora não tenha resposta dele há muito tempo, fica preocupado se comunica ou não que está noivo de uma gatinha. Ele está tomando conta de seu velho pai, assumindo os negócios da família, aquela coisa de homenzinho que acha que virou homenzinho. Até que o pai sobe nas tamancas, fala umas verdades, revela umas revelações e condena o filho à morte por afogamento, ao que ele responde com uma saída abrupta de casa para se afogar pulando de uma ponte. É isso aí, contei Spoiler e nem avisei que ia spoilar a bagaça toda. Deal with it. Como diz o Boça, eu também sei ser maloqueiro e quando eu quero zoar, sai de baixo, meo!

Nesse livro é legal a gente observar, em primeiro lugar, a relação do filho com o autoritarismo do pai. Falei que é legal observar isso porque qualquer crítico Mané vai te fazer enxergar esse fator e ai de você se desconsiderar o paralelo entre o pai de O Veredicto e o pai de Kafka. Assim são os críticos. Sabe quando você pede uma porção de batata frita pra todo mundo e sempre tem um babaca que joga ketchup na batata inteirinha, desconsiderando o gosto dos demais por ketchup? Pois esse é o crítico. É o cara que obriga você a degustar as coisas do jeito dele, e que se dane sua própria experiência. Quer dizer, não é todo o crítico que é assim. Só o são os críticos do cânone, os críticos do óbvio, os críticos do “ó-meu-deus-eu-sou-tão-esperto-que-se-eu-fosse-mulher-eu-me-traçava”. Aqui eu estou fazendo esse papel ingrato porque tem um povo que tá entrando aqui e falando que as minhas leituras são muito superficiais, então taí uma leitura que você pode ler no posfácio do livro e que, mesmo assim, todo mundo alardeia. Satisfeito?

Pode ver nesse livro também o absurdo do mote de Kafka, que vem de um certo estoicismo ao qual ninguém se acostumou direito depois da febre da Profecia Celestina. Veja só o que é o pai mandar o filho se afogar e ele ir, contra a vontade, morrer afogado? É uma forma de passivo-agressividade fora de controle (o que é ótimo porque eu acho que o gene da passivo-agressividade tem que ser extinto), uma rebeldia adolescente que a gente vê muito hoje em dia. Já viram a cena: o moleque, de preto dos pés à cabeça, com uma camiseta do Good Charlotte, muita maquiagem no olho, dizendo “eu queria nunca ter nascido!”, os pais fazem aquele drama de “és base, é protetooooooooooooor” e o moleque sai de casa batendo porta pra fumar Carlton Red na porta do Shopping Center com os amiguinhos de cabelo ensebado dele. É mais ou menos isso, só que no começo do século, e com morte de verdade, não apenas a morte da rebeldia verdadeira.

Falemos agora de Na Colônia Penal, o conto/livro mais sinistro já inventado por uma mente humana meio doente. Lembro que na época do Orkut tinha uma comunidade chamada “Kafka, fica de boa…” e realmente, ele precisava mesmo dar uma relaxada. Acho que o carinhômetro dele estava sempre em baixa. Deve ser por causa dessa cara feia que ele tem. Inclusive peguei essa foto aqui pro post de hoje porque tinha um porteiro no meu antigo prédio que era a cara do Kafka.

Divaguei, desculpem. Comecemos de novo. Na Colônia Penal é doente, já disse isso, né? Então, a história é isso aí, um cara vem de outro país para visitar uma colônia penal no país da história, e eles estão para executar um coitado com um método muito do sinistro. Consiste numa geringonça que deixa o infeliz penduradão e vai matando ele aos poucos enquanto várias faquinhas vão escrevendo uma frase de pára-choque de caminhão nas costas dele, uma lição de moral ou algo assim, até que ele morre esvaído na própria papa de sangue. É mais ou menos como aqueles “shows” em que os hã… malucos ficam pendurados por ganchos nas costas achando tudo o máximo. Acho que essa modalidade tem nome, mas tô com preguiça de procurar no Google e vou chamá-la de falta de enxada e meio lote pra carpir.

A crueldade da execução choca o estrangeiro (espero não estar confundindo com um conto do Italo Calvino) e pro executor, tá tudo numa naice. E aqui lá vamos nós jogar ketchup na sua batatinha de novo. A ideia do sofrimento sem uma sensação de que ele logo terá fim é uma constante nos livros do Kafka que falam do assunto. Você bem sabe que quando você se prepara para fazer algo sofrido, parte do sofrimento é amenizado pela sensação de fim iminente. Como por exemplo fazer uma tatuagem, tirar sangue, tratamento de canal, exame de próstata, andar de Cabral/Portão, etc. Agora, e se o sofrimento não tiver um fim visível na linha do horizonte? E não só isso, pensem também na engenhosidade de uma máquina projetada para te fazer sofrer. Eu sei que vendem máquinas assim pela televisão no Shoptime, que dá pra dobrar e guardar embaixo da cama, mas essa é projetada para o mal extremo, a morte e uma lição de moral ainda por cima. É doente ou não é, meu povo?

Chega que a resenha tá longa. A saudade é um prego, o coração é um martelo, por isso me estendi. Esse projeto gráfico da Companhia das Letras é sensacional. Livros branquinhos que já vem encardidos da livraria porque ninguém compra tanto Kafka quanto deveria, posfácios mais que elogiosos do tradutor Modesto Carone, o homem-Kafka (equivalente ao Elidio Lopes para o vinho), fonte Garamond e imagens da capa de Amilcar de Castro (embora tenha quase certeza de que um dos desenhos é uma fraude feita por outra pessoa, mas teria que verificar e já tá tarde pra isso). É uma beleza. Faltou mesmo pra minha coleção O Processo, edição esgotada há muito tempo, só acho de bolso. Uma vez vi um cara com esse livro num ônibus e pensei seriamente iniciar ali minha carreira de assaltante. E aí, quem topa fazer uma campanha para me doar essa edição d’O Processo pra eu completar a coleçãozinha?

Comentário final: Kafka, fica de boua, meo…

Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Les particules élémentaires)

Les particules élémentairesEsse ano o querido Michel Houellebecq vem para a Flip. Como brasileiro é um povo festivo com gringo mas ao mesmo tempo não manjam muito das celebridades que vem aqui, resolvi fazer esse serviço de utilidade pública e apresentá-los a vocês, queridos leitores e a vocês, queridos jornalistas que deixam tudo pra última hora. Ó, tô falando disso uns quatro meses antes da festa, dá tempo de se informar e ainda sobra pra ler um ou outro livro dele, se é isso mesmo que você tem que fazer. Pros preguiçosos, pega o resumão e comentário aqui e sai por aí esbanjando o conhecimento que você não tem.

Partículas Elementares é um dos primeiros livros (o segundo, acho eu) do grande escritor francês radicado na Irlanda Michel Houellebecq. Fala de dois meio irmãos: um chama Michel (atenção, jornalistas: os personagens dele geralmente chamam Michel) e o outro chama Bruno. Bruno é o típico moleque que foi gordinho quando criança, cresceu e virou gatão e, pra se vingar da humanidade, come geral pra tentar machucar o coração de alguém (tá, essa última parte eu presumi, mas deve ser). Michel é o típico moleque que foi bostão quando criança, cresceu e continuou bostão, sendo virgem aos não sei quantos anos. Ele trabalha com pesquisa em biologia e está fazendo alguma coisa relacionada a partículas elementares, algo que vai dar um boost na sua carreira e na medicina de uma maneira geral, mas agora não lembro exatamente o quê porque faz um tempasso que li esse livro, uns bons três anos. E o Bruno é professor, querendo comer as aluninhas (hum, igual a um certo professor que tive uma vez numa certa escola de jornalismo), mas frustrado porque a gatinha em que ele está de olho dá pra um negão avantajado — o pesadelo de todo cara branco que não se sente competitivo. Enfim, os dois meio-irmãos, filhos de uma biscatinha da década de 60, se encontram no funeral da mãe, e aí se conhecem e resolvem passar tempo juntos. Vão para um retiro, uma espécie de hotel/SPA numa praia paradisíaca, onde lá Bruno conhece uma gatinha e Michel descobre o paradeiro de sua amada de outros carnavais, Annabele não sei das quantas. Bom, como todo livro do Michel Houellebecq, tudo vai bem, tudo vai bem, até que vai mal. E com esse cara você sabe que, quando eu digo que vai mal, é porque vai mal MESMO.

Bom, nesse livro aqui não temos nada de muito diferente do que o autor veio a explorar melhor em seus livros subseqüentes, com a diferença que este foi o primeiro livro que virou filme, acho eu. O filme é uma produção alemã com atores alemães dos quais nada conheço, e o roteiro pesou muito mais nas partes cômicas, que são sim, pontos fortes do livro. O livro é mais triste, mas acho que o é por ser um livro, afinal, ler não é exatamente uma parada super engraçada que você fica com a barriga doendo de tanto ler. O livro em si é bem escrito mas tem um ritmo mais arrastado que o normal em um Houellebecq legítimo (and I ain’t no Houellebecq girl, I ain’t no Houellebecq girl, já dizia Gwen Stefani), e, como acontece n’A Possibilidade de Uma Ilha, tem um epílogo completamente desnecessário. Tem gente que não sabe a hora de parar de escrever e… opa, é comigo? Ok, ok, parei.

Essa edição da Editora Sulina, lá do Rio Grande Tchê, não é exatamente a edição que eu tenho. Essa capa do livro é a capa do filme também, e a capa do meu livro é um ventre de mulher com a mão na coisa e a coisa na mão. Logo eles perceberam que, por mais que a imagem seja bonita, é o tipo de coisa que impede que a pessoa tímida de criar coragem e levar isso no caixa da livraria, principalmente se a caixa for uma mulher, e principalmente se ela parecer meiguinha. A tradução é do Juremir Machado, um cara porreta, catilogente e sabido (já falamos aqui), mas meio inusitado pra escrever as orelhas. Ele descreve um felatio como “uma mulher de boca ousada”.  Ew, Juremir, deve tá ouvindo muito Lupcínio Rodrigues, fala a verdade! No mais, papel offset desgracido e fonte garamondo do coração dos manos do terminal de ônibus. A numeração dos capítulos tem uns arabescos que ficaram quase invisíveis, e a quarta capa lista uns elogios aqui e ali, além de um “traduzido em 21 línguas” que, pra mim, não quer dizer nada. O livro dos recordes é traduzido em quarenta mil línguas e eu continuo não lendo, afinal.

Comentário final: I ain’t no Houellebecq Girl!

 

Ismail Kadaré – Vida, jogo e morte de Lul Mazrek (Eta, Loja dhe vdekja e Lul Mazrekut)

ETA, LOJA DHE VDEKJA E LUL MAZREKUTQuase que a Copel deixa esse blog sem mais um post, mas não é a falta de luz que vai apagar o Livrada! Aê! Bom, como vocês viram no post anterior, a votação para o The Bobs está rolando e o Livrada! já está perdendo feio para blogs mais ambientalmente conscientes (e nós aqui, consumindo coisas feitas de árvores derrubadas, sem levar em consideração o esforço de heroínas como Dorothy Stang). Vamos continuar votando para fazer coro, alright? Não vamos ganhar, mas vamos nos divertir. Sim, o Livrada é o América do Rio, é o União da Ilha, é o L.A. Clippers, é o candidato à presidência do Psol, é a delegação olímpica da República Centro Africana, é o sujeito que sai vestido de Bob Esponja na São Silvestre. Vamos nessa.

Antes de mais nada, gostaria de fazer um comunicado importante. Pelos próximos dias, estarei trampando num trampo sinistro que exigirá muito do meu tempo, então não garanto postagens regulares, embora desde já prometa fazer o possível. A boa notícia de tudo isso é que eu vou ter dinheiro e não vou mais precisar mentir pros meus amigos, dizendo que estou indo almoçar com outros amigos quando na verdade estou indo para um lugar afastado comer um sanduíche que eu trouxe de casa. Resumindo: vou ter dinheiro, aê, que alegria! (sim, amigos, agora vocês já sabem). Adiante.

Ismail Kadaré de novo? Sim, de novo. Se você ainda não percebeu, o cara é um habitué do Livrada! por méritos conquistados na meritocracia que é este blog. Autor bom entra, autor ruim sai, e autor consagrado, quando necessário, recebe um leve esculacho pra ficar ligado. E quem gostou lê, quem não gostou, não faz nada. Fica peixe. Bom, o livro de hoje não é muito recente. Acho que tem lá uns bons dez anos. Mas é um dos melhores dele que eu já li, e terminei de lê-lo essa semana, então a memória está fresquinha (assim espero) para comentá-lo.

Vida, jogo e morte de Lul Mazrek é mais um livro sobre a Albânia comunista do ditador Enver Hohxa (dia desses eu e Chico fizemos uma lista de nomes legais de estadistas — não confundir com lista de nomes de estadistas legais — e Enver Hoxha ainda é meu preferido, junto com Kamehameha I, do Havaí). Nela, um jovem ator como Lul Mazrek, ao ser reprovado no vestibular de artes, se vê obrigado a servir o exército (quem pensou na história do Hitler — outro nome legal de estadista e NÃO de um estadista legal — tá certo, embora ele não tenha nada a ver com a história), mais especificamente em Saranda, uma espécie de Costão do Santinho Albanês, por onde os fugitivos do governo resolvem escapulir, direto pra Grécia, pela antiga cidade de Butrint, um lugar que, como tudo o que já foi cidade grega, é formada de parede velha e caída e mais coisas completamente destruídas. Pois bem, Lul Mazrek precisa estar ali pra meter bala em quem tentar fugir. O que também não tá certo, o governo não entra num consenso se mostra pra população os cadáveres abatidos ou ocultam, e fica nesse problema de logística de achar, transportar e exibir cadáver. Como diz a Avril Lavigne: complicated.

Ao mesmo tempo, temos essa deusa albanesa (uma incoerência, porque se você procurar ‘albanesas gatas’ no Google, ele vai perguntar se você não quis dizer ‘japonesas gatas’), chamada Violtsa Morina, contratada pelo governo para identificar, seduzir e caguetar os fujões, segundo tese do governo que fugitivo fica todo sensível antes da fuga e acaba por dar com a língua nos dentes. E o que acontece, rapaz? É claro, os dois se apaixonam. Aí rola todo aquele lance de amor proibido, não é o trabalho dela, o exército não deixa o cara sair pra namorar, os fujões vão fugir se ela baixar a guarda, quem está tomando conta do lojinha, etc.

Bom, esse livro serviu para o Kadaré explorar todo o tipo de história espelhada possível. Não vou contar mais pra não estragar a diversão de quem vai ler (sim, o Livrada! é legal, tem fita VHS roxa com selo da UBV e marca d’água), mas, se você reparar, são vários os paralelos que se pode traçar entre as vidas de Lul e Violtsa depois que se encontram, além da comparação explícita entre Violtsa e Andrômaca que, pra quem não sabe, além de ser uma personagem da mitologia, também é um capítulo muito serelepe do Kama Sutra. Sim, já que o papo é Grécia, sexo e exército, por que não falar de Andrômaca?

Mais uma vez, o autor mostra uma Albânia feita não se sabe para quem, com regras que agradam muito pouca gente, e pessoas que vivem seus dramas pessoais de pertencerem a um lugar que inibe todo o potencial delas. Foi assim no Abril Despedaçado, foi assim no Dossiê H, enfim, o cara fala disso mesmo, get over it. E, claro, é um livro com doses moderadas de literatura erótica e doses nada moderadas de realidade dura, tipo letra do Ndee Naldinho. Vale a pena? Vale a pena.

O projetinho da Companhia das Letras para o autor é bacana, vai dizer. Já falei sobre ele antes: fonte Electra, papel pólen e tradução do único, do inigualável, do insubstituível (insubstituível mesmo, gente,ou tem alguém aqui que fala albanês?) Bernardo Joffily. A capa não sei daonde é, que o livro tá longe, mas imagino que seja do CORBIS. Se não for, depois eu corrijo com o rabo entre as pernas.

Por último, preciso abrir meu coração: conversando com a colega Patricia, da minha turma de alemão, ela me solta essa: “o meu cunhado também gosta de literatura, e ele não é gay!”. Tá vendo, macharada iletrada? Mais uma virtude desejável vai parar na fama ilibada dos homossexuais. Já disse, vamos fazer os livros serem legais de novo. Reforço meu pedido, mulheres: se o gatinho te levar na casa dele, com vinho chileno e hortinha de manjericão na sacada, mas não tiver livros em casa, não transe! Simples assim.

PS1: Esqueci de dizer, mas agora o Livrada! tem uma página no Facebook. Entrem lá e fiquem por dentro das atualizações: http://www.facebook.com/pages/Livrada/209104299099609

PS2: Tô vendendo um PS2, tratar aqui.

PS3: Esqueci de dizer, mas estamos na mídia!

Comentário final: Se alguém me enviar pelo correio um exemplar novinho de “O Livro Verde”, do Kadafi, eu resenho, prometo!