Rosa Montero – Histórias de Mulheres (Historias de Mujeres)

Historias de MujeresMais um domingo, minha gente, mais um post. Esse deve ser o post menos lido da história. Primeiro porque é sobre uma escritora que surpreendentemente não é lida por tanta gente (temos que mudar isso!), segundo porque é domingo que antecede um feriadão enforcado (para o patronato benevolente) e meio mundo está agora fazendo um headbang propício no festival SWU, um festival da galerinha modernete que é a favor das ecobags, que ostenta seus produtinhos da Apple, que curte um flashmob e uma xiboquinha, e vai pra Itu de excursão queimando diesel lá da casa do chapéu pra chegar e pedalar em uma roda-gigante movida a bicicleta ergométrica. Eu acho que esse festival poderia ter sido a coisa mais sensacional dos últimos tempos, mas, como todo festival, tem seus defeitos. No caso, os defeitos são o estacionamento de 100 reais e a presença da banda Los Hermanos. Como diz a minha chefe, “é pra fuder o cu do palhaço”. Mesmo assim, continuemos na nobre missão de resenhar dois livros por semana por aqui.

Como disse ali no nariz-de-cera (de cera ou de praxe?), Rosa Montero — pasmem vocês! — não é tão lida quanto deveria. As buscas pela dona no mister Google também não são lá essas coisas (falando em Google, eu e Michel, o anarco-primitivista descendente direto dos macacos do novo mundo que trabalha comigo, estamos bolando o Jögler, o Google alternativo do Leste Europeu, vai ser maneiro). Gente, vamos ler mais Rosa Montero, a autora é uma das melhores coisas que vieram da Espanha nos últimos tempos no quesito literatura. Claro que essa é só a minha opinião, mas é que acho que, mais do que uma boa narradora, Rosa é uma escritora com bagagem (ruim de ficar falando essas coisas de escritoras mulheres é que neguinho já pensa logo em sacanagem), estudada mesmo, não só uma versadora de mão cheia. E o livro de hoje é justamente uma prova disso. Falemos dele então.

Histórias de Mulheres são, basicamente, ensaios, ou pequenas biografias de mulheres. Figuras importantes na história selecionadas pela autora, de cujas vidas são destacados pequenos e importantes trechos para tentar traçar um perfil não totalmente justo, mas pontual para seus CQDs. As histórias contadas por elas são incríveis: umas donas bem cruéis, outras bem sofridas, algumas dotadas de uma submissão dolorosa a seus maridos fascistas, outras, castradas pela época em que viveram. Discorramos.

Não há muito de específico que me lembre agora do livro, lido no começo do ano passado, se não me engano. Puxa, deveria ter começado esse blog bem antes, os livros estariam mais frescos na cachola. Mas enfim, lembro-me agora da história das irmãs Brontë, entre as quais a mais famosa era a Emily Brontë, que escreveu o Morro dos Ventos Uivantes, livrinho que tá debaixo do braço de toda fã de Crepúsculo que se preze. As três irmãs morreram muito cedo e assinavam com nomes de homem para poder fazer seu público leitor em uma época machista. Também lembro da Simone de Bouvoir, uma mulher mais nojenta que aquela gordinha do The Gossip, porque era nojenta na alma. Tem também a Hildegart Rodríguez, uma mulher criada para ser um símbolo de revolução sexual, assassinada pela própria mãe, Aurora, antes dos 20 anos. Tem também Zenobia Camprubí, esposa do prêmio Nobel (estamos falando muito dos Nobéis ultimamente nesse blog: Kawabata, Vargas Llosa, García Márquez, etc) Juan Ramón Jiménez, que passou a vida à mercê do marido, escrotasso e esquisito com todo mundo. Aliás, tem uma história muito boa do Jiménez da qual não me lembro muito agora, pois não está no livro, que envolve uma visita indesejada, para a qual Zenobia precisou fazer sala enquanto ele se escondia no quarto fingindo não estar. Até que resolveu fugir usando uma espécie de biombo, caminhando por trás dele, como se ninguém visse um biombo andante cruzando a sala. Quem sabe o Cássio consiga lembrar da história direito.

Rosa MonteroEnfim, são histórias variadas sobre mulheres variadas. Tem Frida Khalo (já chegou para algum amigo que apareceu com uma nova namorada de buço considerável e comentou: “e aí, tá comendo a Frida Khalo?”? Se ainda não fizeram isso, não façam. Estraga as amizades, vão por mim), tem Agatha Christie, a mocinha que era modelo pras esculturas do Rodin, enfim, um leque aí de opções que não são exatamente o calendário de 1997 da Playboy, mas que impressionam pelas histórias de vida, para o bem ou para o mal.

O prefácio também vale muito: um panorama geral da situação da mulher ao longo da história, em diferentes civilizações, faz uma boa entrada para o assunto do livro. E o posfácio trata de falar da predileção dos ingleses pelas biografias, gênero pouco lido na Espanha. A autora cita também sua empatia (ou antipatia) pelas figuras retratadas, enfim, faz aquele “finalmentes” bacana. Geralmente os leitores tendem a pular o posfácio e o prefácio (você é desses?), mas vale a pena se não é uma jogação de confete de algum especialista em literatura. Ah, já falei que a narrativa do livro também é muito tranquila a ponto de agradar até as donas de casa do clube do livro? Então, mérito da Rosa Montero. Rosa pra presidente do clubinho, já!

Essa edição da Editora Agir é muito boa, apesar da capa, que não gosto muito. Um sofá em forma de lábios não é algo que eu considere muito legal, sequer pouco legal, e francamente, odeio essas paradas de “Da mesma autora de ‘A Louca da Casa’”. Tudo bem que é uma chamada comercial, mas acho que isso deveria vir em cintas ou de outra forma que você pudesse jogar fora depois, acho extremamente constrangedor. É muito querer rebaixar o sujeito a um trabalho. Ou você queria que a novíssima vigésima coletânea do Chico Buarque viesse com a tarja: “Incluindo os hits ‘Roda Viva’, ‘Construção’ e ‘Geni e o Zepelin’” ou com o aviso “Do mesmo compositor de ‘Noites de Gala, Samba na Rua’, tema do personagem de Marcos Pasquim na novela Cubanacan”? Não, né? Pois é, o mesmo rola aqui. Ah, e colocar citação de resenha da Revista Cláudia não é exatamente um bom marketing, ok? Principalmente com os dizeres “As mulheres elegeram Rosa Montero a autora do momento. Ela é tão envolvente e sincera na escrita que faz qualquer um se sentir seu amigo íntimo”. Vontade de soltar um palavrão ao ler isso, mas vou me segurar. Sei que o leitor experimentado que ler uma porcaria dessas num livro corre como se não houvesse o amanhã. Mas, acreditem, embora as leitoras de Cláudia leiam Rosa Montero (duvido muito disso, aliás), a escritora é excelente. No mais, papel pólen fundamental e fonte Minion. Um cabeço é necessário em qualquer livro de contos ou ensaios, ponto pra eles. E por hoje é isso.

Ah, ainda dá tempo de mandar a foto da sua estante para bloglivrada@gmail.com Manda aí, vai ser maneiro!

Comentário final: 223 páginas pólen soft. Se bater em mulher, Maria da Penha no seu rabo, mané!

 

Yasunari Kawabata – O Lago (Mizuumi みづうみ)

MizuumiCantemos felizes a canção do dia, hoje é quarta feira, dia de alegria! Crianças, hoje é um dia muito especial! Trata-se do casamento do amigo Cássio “Cabôco” Capiroba com a amiga Denise! Parabéns aos noivos! Por isso hoje eu vou escrever essa resenha rapidinho, porque estou saindo para dar uma palestra na faculdade e depois vamos comemorar na churrascaria e comer até perder a dignidade! O meu tipo ideal de programa: ver os amigos, abater algumas almas no curral, comer até o toba fazer bico e celebrar a vida, que pode ser muito boa, basta querer… ir até uma lotérica e fazer aquele joguinho campeão.

Passado o nariz-de-cera de praxe, vamos ao que interessa: literatura japonesa! Sabem, a literatura japonesa é muito parecida com a comida japonesa: é pequenininha, não sacia muito, é tudo meio-morto-meio-vivo, tem que ser muito delicado pra apreciar e é tida como coisa de gente fresca e/ou muito esquisita. Mas vamos mudar isso tudo! Vamos fazer as pessoas lerem mais esses “japas matadores de baleia”, como gosta de lembrar meu camarada Michel “Le Chackal” Melo (ele falaria agora “você é um camarada!”). A literatura japonesa pode ser muito rica se nós abrirmos nossos olhos para ela (“abrir os olhos”, hã? Hã?). Falo em abrir os olhos porque é preciso ver a literatura com os zóio certo. Explico um pouco sobre isso antes de tratarmos do livro em questão.

Como qualquer cultura distante da nossa, podemos encarar a coisa de duas formas: sob um véu de misticismo, achando aquilo tudo uma onda mutcho loka, uma viagem a outro planeta (e sério, os japoneses são o povo mais próximo do povo marciano que vocês vão ver, então contentem-se), e por isso, apreciar cada detalhe que nos distancia daquele universo. Ou, ao contrário, enxergar um autor japonês como enxergaríamos um autor ocidentalizado, como um mexicano desbotado. Isso! O japonês é um mexicano desbotado! Podem começar a circular essa frase pela internet dizendo que foi o Luis Fernando Verissimo que escreveu. O que queria dizer é que podemos tirar todo exotismo presente e encararmos aquilo como mais um livro. E, acho eu, a melhor das opções é a segunda, pois é só assim que você consegue se aprofundar na história sem ficar todo bobão olhando pros lados e tirando foto de tudo igual ao estereótipo do turista de camisa florida e bermuda branca. E claro, deixar-se maravilhar pelo universo totalmente diferente que está sendo apresentado a você, mas nunca deixar que isso barre você às portas da percepção do romance. Explicado então, continuemos.

O Lago é um romance do Kawabata publicado originalmente em 1954, no ano daquela Copa em que a gente tomou sacode nas quartas da Hungria. DA HUNGRIA! Pela madrugada, e depois reclamam do Dunga… Bom, a história fala de um ex-professor, o senhor Ginpei, que é, na melhor definição, um stalker. Ele acha que encontrar as gatinhas na rua é muito triste porque o encontro está já fadado a ser efêmero pela sua casualidade, então resolve colar no calcanhar das moças e sair bancando o sombra. A partir daí, Kawabata vai contando as histórias dessas moças seguidas, mostrando que o narrador onisciente é o stalker mais bem sucedido que existe. O desdobramento das histórias, na relação direta com o professor Ginpei, é de doer o coraçãozinho. Só lendo pra ver.

Yasunari KawabataGosto nesse livro excepcionalmente do comecinho, quando ele vai a uma casa de banho e uma moça começa a lhe esfregar as orelhas, os pés, dá banho nele e o escambau. É uma parada relaxante só de ler. Acho que é isso que Kawabata queria com aquela corrente neo-sensorialista que ele defendeu no Japão, a tal da shinkankakuha. Ele realmente consegue te levar numa montanha russa de sentimentos, o mais próximo que nós, a macharada, vamos chegar da TPM.

Diz lá na orelha que Ginpei é muito diferente dos outros personagens do Kawabata por ser destruído e doentio, mas eu acho que, muito pelo contrário, ele é o típico personagem do autor. Primeiro, qual personagem do Kawabata não é doente da cabeça? Garanto que, se analisar bem analisado, o sujeito bate pino mesmo. Segundo, o Ginpei é maluco-beleza, gente. Inofensivo e sensível à presença feminina, como Eguchi, como o sujeito sem nome da Dançarina de Izu, enfim, Kawabatiano (hahaha mentira que eu falei isso, esquece).

O projetinho da Estação Liberdade é realmente gracioso. A coleção do Kawabata inteira é. Apesar do papel pólen soft e da fonte Gatineau, que não combina em nada com a folha, os livros tem um acabamento bom, capas a partir de imagens de Midori Hatanaka, feitas em folhas de ouro, ideograma com o título original na capa e na página 7, e uma tradução que erroneamente pensei que fosse grossa conosco ocidentais, ao me ver sem saber o que era um furoshiki. Mas foi só isso e, de resto, notas de rodapé esclarecedoras fazem a leitura muito mais familiar para quem tem olho redondo.

PS1: Japoneses do meu Brasil. Tudo bem que brinquei e fiz algumas piadas com vossa honorável etnia mas, por favor, sem mandar eu lavar o meu pescoço, isso aqui é só uma brincadeira e, se vocês olharem bem, não falta sacanagem pra ninguém por aqui. Gosto muito de vocês, viu?

PS2: Tô vendendo meu PS2, vem com memory card e uns 30 jogos. Tratar aqui.

PS3: Não quero comprar até que tenham inventado o Blu-Ray pirata.

PS4: Ainda dá tempo de enviar a foto da sua estante de livros para o bloglivrada@gmail.com Manda lá, cabra da peste!

PS5: Assinem o RSS! Ou sigam-me no twitter: @bloglivrada. Gracias.

Comentário final: 163 páginas offset. É como jogar betes com hashi, não vale a pena.

Mario Vargas Llosa – Tia Julia e o Escrivinhador (La tía Julia y el escribidor)

La tía Julia y el escribidorBom domingo, moçada! Aí, manerassas as fotos de estantes que eu estou recebendo, mandem mais, vamos fazer um post irado sobre isso. O e-mail, já sabem, é bloglivrada@gmail.com. E sem o nariz de cera habitual, vamos ao que interessa. Não, não é a festa da democracia, mas, se querem saber, meu voto vai para o Plínio de Arruda, porque ele tem cara de presidente e um belo patrimônio acumulado ao longo de seus longos 70 anos, segundo li em uma matéria da Folha de S. Paulo. Minha única preocupação é que ele é velho demais, e desconfio de quem quer fazer um futuro melhor para o Brasil sabendo que ele próprio não vai estar nesse futuro. No mais, o resto da corja de canalhas, vocês votem em quem quiser trabalhar no seu estado que, independente de qual seja, tenho certeza de que está um lixo.

O livro de hoje é um livrasso que ganhei inesperadamente de minha mãe durante um almoço em Paraty. Gosto de ganhar livros que parecem bons, mas que por alguma razão não estavam nos meus planos de futuro próximo. É justamente o caso. Esses livros da Alfaguara têm uma página que é geralmente maior do que a dos livros que eu costumo ler, então minha percepção de tempo acerca da leitura fica meio desorientada, e sempre acho que levo muito mais tempo para lê-los. Bom, graças a uma reclamação no Procom que eu fui fazer, em 2008, a leitura desse livro foi super rápida. Horas sentado naquele banco poderiam me fazer acreditar que a lentidão dos órgãos públicos brasileiros está formando um país de leitores, mas a maioria das pessoas prefere sentar ali e olhar para o teto. Não me espantam que fiquem irritadas assim, não sei como conseguem. Mas falemos disso outro dia.

Já disse aqui, na minha resenha sobre o Pantaleão e as Visitadoras, que o Mario Vargas Llosa é um escritor de mão cheia por dominar tão bem vários estilos diferentes entre si. Se no outro livro foi com o gênero epistolar que ele chutou alguns traseiros, neste agora ele consegue misturar romance autobiográfico com contos — algo que nunca havia visto em minha curta experiência como leitor.

A história é a seguinte: Varguitas, um garotão de dezoito anos, que trabalha numa rádio e quer se tornar escritor, começa a namorar a própria tia. Pera lá: não é da família, é tipo uma cunhada da tia, se bem me lembro, mas na família, o que não é do núcleo de pai e mãe, nem avô e avó, ou primo, é tia. Tá, essa frase foi muito ao estilo Cleber Machado, vou tentar não me repetir. Ao mesmo tempo, conhece o lendário Pedro Camacho, um escritor boliviano de rádio novelas que é sensação em todo país. Então a história se divide entre seu romance com a Tia Julia (com quem Vargas Llosa realmente se casou, e depois se separou para casar com a prima. Que cara mais freak) e contos que seriam as novelas escritas por Pedro Camacho. Falemos mais dele.

Pedro Camacho é o personagem que o autor criou para personificar o escritor ideal. Ele vive para escrever: durante todo o tempo em que está acordado, está escrevendo, criando, bolando histórias. Embora, em termos de produtividade, seja esse o ideal do escritor — principalmente do aspirante a escritor Varguitas, que tem em Camacho um ídolo — a história mostra que a realidade é bem mais amarga. Baixinho, feio, antipático e cheio de preconceito com as pessoas, Camacho tem uma existência muito triste, e o excesso de trabalho o leva a confundir os personagens de suas novelas, tornando os contos cada vez mais misturados, como naquelas brincadeiras de criança de misturar os três porquinhos com João e Maria e assim por diante.

Mario Vargas LlosaAinda assim, os contos de Vargas Llosa assinados por Pedro Camacho são espetaculares. Lembro-me especialmente de um, sobre um sujeito que foi fazer terapia porque sentia-se culpado de ter atropelado uma criança, e a psicóloga sugere a ele uma terapia baseada na raiva por crianças, em que ele devia ser mal e chutar-lhe as costelas se fosse possível. Impagável, realmente, e me lembrou uma certa música da gloriosa banda Merda, com o título justo de “Eu odeio crianças” (acho que cada vez que eu faço alguma referência ao universo do hardcore, perco uma penca de leitores que passam a me considerar mais burro).

O romance de Varguitas com Tia Julia também é recheado de humor, com todas as neuroses de uma típica tia, encanada e solteira, acerca de sua relação secreta (a família não pode saber). Tem também o seu companheiro radiofônico, Pascual, que é o típico coadjuvante que rouba a cena. Tinha algo a respeito dele que eu achava o máximo mas, folheando o livro aqui, não consegui achar e me lembrar direito. Algo a ver com o fato dele só anunciar tragédias no rádio,mesmo que tenham acontecido no outro lado do mundo e há tempos. Perdão, minha memória já não anda lá essas coisas, e mesmo que tenha lido o livro há apenas dois anos, já me esqueço destes detalhes.

Foi nesse livro que me deparei pela primeira vez com os contos do Vargas Llosa, e, depois pude confirmar lendo Os Chefes, é preciso tirar o chapéu pra esse cara. Sério, algum livro dele é preciso ler. Vargas Llosa é como os Beatles: não dá pra dizer que não gosta, porque ele tem várias facetas (ao menos é isso que dizem pra mim, que não ligo muito pra banda).

Já comecei a comentar essa edição da Alfaguara lá em cima, mas vamos ao restante dela. Bom, o último livro da editora que li antes de ler esse havia sido Nosso GG em Havana, uma história curtinha e muito irada do Pedro Juan Gutierrez, com tipografia garrafal. Estranhei a miudeza desse livro, o que, aliado ao tamanho e ao número de páginas, me pareceu um livro gigantesco. Só mesmo o Procom ou o Detran para fazer-nos vencer calhamaços como Ulysses como se fosse gibi do Chico Bento. Sério, desaconselho adentrar em uma repartição pública sem estar munido de documento com foto, xerox de tudo e literatura pesada e das boas. E lanchinho também. Mas é um livro maravilhosamente bem acabado e tem uma das melhores capas dos livros do Vargas Llosa já lançados pela editora. Nostálgica pá dedéu com esse radinho vintage aí, “Philco Transitone”. Onde será que a gente arruma um desses? Apesar do calhamaço, pegaram umas páginas de gramatura boa, que dá vontade de ler e faz muita diferença para mim. Por último, uma dica pra editora: tava na hora de reeditar A Festa do Bode, hein?

Comentário final: 359 páginas gigantes em pólen de gramatura alta. Uma pedrada na sua fuça!

Gabriel García Márquez – Memória de minhas putas tristes (Memoria de mis putas tristes)

Memoria de Mis Putas TristesIh, que isso? Geral desanimado? Faço um post sobre o Coetzee e isso aqui fica jogado às moscas? Vamos reagir aí, galera, a vida é boa, ou pode ser boa, só depende de você e de seis números de 1 a 60, certos na hora certa.

Hoje vamos cá falar nesse post mais curto, sobre um livro curto do Gabriel García Márquez, último lançado por ele se não me engano. Tudo bem que ele ficou doentinho por esses dias, mas prêmio Nobel do saco roxo escreve livro até quando tá com cara de tartaruga velha, como o finado Saramago (que Deus o tenha). Não gostaria que esse fosse o último livro que ele tenha escrito porque, venhamos e convenhamos, esse livro aqui é meio frustrante. Mas já falemos dele. Antes, um pouco mais sobre o autor.

Pra mim, o leitor de García Márquez é uma completa incógnita. Você consegue até imaginar um estereótipo para um leitor de Crepúsculo, para um leitor de Bukowski, para um leitor de Philip Roth, para um leitor de Almeida Garret, para um leitor de bula, para um leitor de frase de pára-choque de caminhão. Agora, pára e pensa: quem é o leitor de García Márquez? E uma nuvem surge na sua mente. Não dá pra saber. Principalmente quando o assunto é sua tríade máxima: Cem Anos de Solidão (o mais famoso), O Amor nos Tempos do Cólera (o mais bonitinho, que virou filme) e este livro de hoje (o último que saiu, vende até em balaião de livros do Extra). Cabeludões e barbudos das ciências humanas leem, dondocas do Jambalaya Ocean Drive, da Barra da Tijuca leem, adolescentes espinhentos de 15 anos leem — até a minha vó, aquela que gosta de Quando Nietzsche Chorou, lê. Ou seja, temos aí um emaranhado de estereótipos de leitores que não nos permite saber quem é o público alvo do autor. Isso é um problema grande para as editoras, que ficam sem saber como promover o livro. Esse livro, em especial, é tão popular, que foi o primeiro título que pude constatar uma versão pirata. O amigo Cássio tem um exemplar pirateado, coisa mais engraçada do mundo. Nunca imaginei que isso existisse.

Enfim, Memória de Minhas Putas Tristes (é uma memória só, mas é tanto plural no título que não conheço uma só pessoa que não o chame de “memórias de minhas putas tristes”) está para A Casa das Belas Adormecidas, do Kawabata, assim como Sete Homens e um Destino, do Sturges está para Os Sete Samurais, do Kurosawa, ou como Risco Máximo, do Van Damme, está para Caçador de Kickboxer, do Lorenzo Lamas. É chupado sim, amigo, chupadão. Ao menos, é uma “referência” (é, na literatura chama ‘referência’, porque todo mundo é bem educado e tem um Nobel em casa) explicitada na epígrafe do livro, embora seja uma epígrafe tirada da primeira ou segunda página. Mas a orelha, extremamente esdrúxula por sinal (perdão ao autor), trata de entregar as outras ‘referências’ que ele pegou pra fazer o livro: Lolita, do Nabokov e Morte em Veneza, do Thomas Mann (não li, confesso), além de Bela Adormecida, do Perrault. Tudo isso para contar a história de um velhinho jornalista que se apaixona por uma candidata a puta menininha, de 14 anos que — pasmem vocês! — descobrimos que também está apaixonada pelo velho nonagenário. Aí eles ficam umas cem páginas num joguinho de gato e rato e dá-o-doce-tira-o-doce (o doce é isso aí mesmo que vocês pensaram) até que eles se entendem nas últimas cinco páginas, eu acho. Sem querer desmerecer o grande autor, mas que ficou xoxo, ficou. Acho muito difícil achar um leitor costumaz de seus livros que tenham se encantado com esse. A exceção se abre quando, claro, o leitor em questão não leu nenhum desses livros que foi referência para ele. Mas hey, é só a minha opinião, sintam-se livres para discordar.

Gabriel García MárquezO projeto gráfico da editora Record para esse livro é, no mínimo, misterioso: ao passo que foi mantida a lombada de seus outros títulos, bem como a tipologia dos dizeres da capa, aquelas pinturinhas que vinham emolduradas por um livro de uma cor só deram lugar a uma triste foto de um velhinho indo embora para um fundo branco e indefinido, algo do tipo “García Márquez tá indo em direção à luz, gente, vamos dar tchau” (se ele morrer amanhã eu vou me sentir culpado por ter feito esse comentário). Mas, ao menos, é uma evolução do projeto gráfico dos outros livros dele, que tem uma diagramação de página horrível: blocos e blocos de texto em letras negritadas em papel offset muito, mas muito, branco. Dá vontade de passar a borracha nas letras pra ver se ficam com mais contraste com o fundo. Nesse livro não: fonte Minion corpo doze (doze! Que milagre), papel pólen e um cabeço na parte superior que não fede nem cheira, apesar da paginação ser em cima também. Ah, e tem um ponto positivo muito importante: a tradução é do Eric Nepomuceno, fodão.

Ah, e o convite ainda está de pé: mandem fotos de suas estantes de livros comentadas para bloglivrada@gmail.com Aguardo! E lembrem-se: o planeta é de vocês.

Comentário final: 127 páginas pólen soft. Nhé…

J.M. Coetzee – Homem Lento (Slow Man)

Homem LentoBom dia, todo mundo! Enquanto este post está sendo lançado no oceano da internet, Fernando Alonso está em Cingapura, largando na frente de todo mundo e cantando “cuidad de las ideas  donde pasas por la noche y encerrado en el silencio de los bosques”. Correndo como o vento e ouvindo Vicente Amigo NO TALO. Mas deixa esses caras pra lá, bora falar de literatura que esporte não é droga. Chega de esporte, portanto.

Tava aqui só me enrolando para falar de Homem Lento. Não escondo que esse livro tá entre os melhores da minha vida. Diria que tá no Top 5, mas desde que eu vi Alta Fidelidade não faço esse tipo de listagem. Filme pentelho do caraças. Divaguei. Dizia eu que esse livro é essencial constar aqui, porque até agora todos os livros do Coetzee de que tratei foram da trilogia Cenas da Vida na Província que, convenhamos, não é a melhor leitura para se iniciar no autor. Homem Lento, por outro lado, é o livro perfeito para tal finalidade. Posso dizer por experiência própria. Li esse livro na volta do feriado de Finados do ano passado, em um voo chatão desses com escalas em Congonhas (se bem que no último que eu peguei, encontrei o Serguei em Congonhas, foi maneiro). Li metade dele entre Rio e Curitiba, e isso pra mim é um sinal claro de que o livro é bom mesmo. E digo o porquê.

Homem Lento é a história de Paul Rayment, um sexagenário que, um dia, enquanto dava uma volta de bicileta ouvindo música de pai NO TALO, tipo Whitesnake (mentira, ele não tava ouvindo nada), é atropelado por um carro. Bom, velho quando cai no salão do baile da terceira idade já é uma desgraça — no mínimo quebra a bacia — agora imagine ser atropelado por um carro. Os médicos se veem obrigados a amputar uma de suas pernas (direita, esquerda, direita, esquerda, direita, direita, direita… alô poesia concretista!), e ele passa a receber os cuidados de uma pobre enfermeira croata chamada Marijana (lê direito, seu maconheiro!), que vive um casamento conturbado e tem um filho rebelde adolescente pra piorar a equação. E, claro, um velho solteiro, traumatizado, sendo cuidado por uma enfermeira (alôôô, enfermeira!), não poderia dar em outra: o idoso cai de amores pela quarentona esquisita que cheira a cigarro e ovo frito. Isso do cheiro dela eu inventei, na minha cabeça ela parece a Toni Colette, só que mais velha e destruída. Então, coitada da moça afinal, pobre, imigrante, enfermeira, alvo da cobiça de um marido traste e um velho perneta, em quem ela dá banho de esponja quando não está perdendo os cabelos com o filho.

Gosto desse livro primeiramente pela escrita fluída.  Não adianta nada o cara ser um jeito e fazer das palavras bolinhas de gude, jogadas no nosso caminho pra gente ir tropeçando e escorregando a cada linha. E esse livro passou por rigorosos testes de qualidade: minha vó leu e gostou. Aliás, foi ela quem me deu o livro, presente de aniversário, ela tava esperando eu ir para o Rio no feriado e resolveu começar a ler para saber se era legal e leu o livro de cabo a rabo. Isso me fez pensar duas coisas. Primeiro que não é prudente pedir livros do Pedro Juan Gutierrez para minha vó, vai que ela começa a ler. Segundo que, se ela, que curte clááássicos como Quando Nietzsche Chorou, Caçador de Pipas e A Menina que Roubava Livros, leu e gostou, o livro é gostoso de ler mesmo. Outras pessoas leram e podem confirmar o que eu digo. Mas — e aí temos o grande tchananã do Coetzee — só porque ele é de fácil leitura, não quer dizer que ele seja raso. Pelo contrário. Tive a nítida sensação de que o sul africano é preciso nas suas frases, e as ideias que ele insere no subtexto, ou mesmo no texto descarado, são cirurgicamente expostas: pensamentos simples, limpos, claros como água e no timing certo. Não é que nem eu, que coloco um parêntese a cada linha que escrevo (e olha que esse parêntese que abri agora é o primeiro do parágrafo. Tô melhorando, aê! Mas agora você vai dar uma de oráculo do Matrix e se perguntar se eu teria aberto esse se não tivesse mencionado meu vício por parênteses).

John Maxwell CoetzeeO que eu admiro nesse livro, e que faz ele ser um dos meus favoritos é sua pluralidade de sentidos. Homem Lento pode ser uma história sobre um velho que perde uma perna e fica independente se você quiser. Também pode ser um livro sobre a velhice, no melhor estilo Philip-Roth-depois-que-o-Viagra-acabou, e sobre a dependência dessa idade e o apego a certas coisas, a vitimização natural da terceira idade, etecetera. Ainda pode ser uma história sobre o frágil mundo intelectual e seu choque — carregado de sedução — com a (podemos chamar assim) “vida simples”, das pessoas que prescindem de arte, livros outras coisas de gente fresca. E, claro, para quem é um fanzasso de Coetzee, pode ser uma história fantástica de um personagem criado por ele que recebe a visita de outro personagem, de outro livro: Elizabeth Costello, alter-ego do autor. Eu acho que, depois desse livro, tinham que dar um outro Nobel pra esse maluco, por ele ter ficado milionário e deixar o cruzeiro na Grécia de lado para escrever essa obra maravilhosa. Recomendo esse livro mais que ator da Globo recomenda que você vote conscientemente nessas eleições.

Já falei do projeto gráfico da coleção do Coetzee quando resenhei o Juventude, mas, só para refrescar a memória: capa baseada na pintura do Fábio Miguez (Google já se você ainda não sabe quem ele é), fonte Electra, papel pólen e tudo mais. Sem me aprofundar nisso hoje, procurem os outros posts do autor se quiser saber do belíssimo trabalho do João Baptista da Costa Aguiar, valeu?

A propósito: acho que o pessoal curtiu o último post, sobre hábitos de leitura, afinal, foram muitos comentários e muitas visitas. Pretendo fazer outro desses em breve, mas para isso, gostaria da colaboração de vocês: enviem fotos das estantes dos senhores e senhoras, e falem-me dela, se existe alguma organização de seu critério, e qualquer outra informação que gostariam de comentar. Para mandar, é fácil: escrevam para bloglivrada@gmail.com Tranquilis?

Ps: Acho que ninguém sabe, mas escrevo os posts em um documento de Word que fica numa pastinha especial para o blog, onde arquivo fotos de capas e autores. Pois não é que cheguei à página 100 do documento? Bom, tudo bem, poderia estar desperdiçando minha juventude com outras coisas socialmente menos aceitas, como esculturas de palito de sorvete ou torneios de RPG.

Comentário final: 277 páginas pólen soft. Cada porrada é um flash!

Henry Miller – Trópico de Câncer (Tropic of Cancer)

Tropico de CancerAlô criançada, o palhaço Pennywise chegou para te oferecer um balão e perguntar se você quer flutuar aqui embaixo! Divertiram-se muito essa semana? Espero que sim, porque o domingo já chegou e hoje é o começo da sua depressão semanal que só vai acabar quinta a noite. Então bora esquecer dos problemas e dar umas risadas forçadas e amareladas aqui no Livrada!

Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, eu podia estar jogando tags chamativas para este blog como RESENHAS DOS LIVROS DO VESTIBULAR ou TUDO PARA PASSAR NO CONCURSO PÚBLICO, mas não, estou aqui, honestamente, falando de um livro para o qual eu nem ligo mais. Trata-se do Trópico de Câncer, do Henry Miller. Na verdade, na verdade, eu queria falar da Trilogia da Crucificação Rosada, uma obra de muito mais valor na carreira do autor, mas a maioria das pessoas não tem culhão ou vida suficiente para ler aqueles Sexus, Plexus e Nexus. Então escolhi esse, um livro bem mais acessível, tanto na linguagem quanto no preço, para comentar um problema gravíssimo: o que acontece quando o escritor fica famoso pela obra errada?

Richard Dawkins, biólogo, o único queniano do mundo que não deve saber correr, fez vários livros interessantíssimos sobre genética e evolução, mas ficou famoso por um tratado qualquer sobre ateísmo que não convenceu ninguém. Assim como em Dawkins, a obra mais conhecida de Henry Miller é Trópico de Câncer, uma história meio xarope sobre quando ele vai para a França para viver o sonho de qualquer curitiboca: ser um escritor de putaria que mora na França, um cara que venceu na vida, ascendeu socialmente e só frequenta as altas paneladas da galera descolada dos arrondisments très chiques. Cronologicamente, o livro é uma continuação da Trilogia da Crucificação Rosada, mas foi escrito pelo menos uns vinte e poucos antes, em 1934, quando ele era um quarentão na plena idade do lobo.

Bom, quem leu a Trilogia sabe que ela gira toda em torno do autor tentando realizar o seu sonho de ser escritor, e quem é experimentado em relatos autobiográficos sabe que a parada só é divertida enquanto o autor-protagonista tá passando perrengue. Por essas e outras o Plexus, segundo livro da trilogia, é o meu favorito dele. E por essas e outras também que Trópico de Câncer é um livro xarope. Quem lê, pensa: “filho da mãe, livin’ the dream aí nas ôropa e eu aqui me ferrando comendo joelho na padoca pela manhã”.

Henry MillerPior do que isso: Miller não se deixou mostrar o excelente prosador que é em Trópico de Câncer. Quem já leu Plexus ou Sexus e leu os discursos que ele proferia com orgulho para os amigos (o gajo curtia um exibicionismo desse tipo) tá ligado que o cara é gênio na arte da oratória e do discurso, e sabe conduzir uma história até esses momentos. Tem grande força narrativa também. Bom tudo isso foi deixado de lado no Trópico. Temos lá uma prosa morninha, com uma ou outra putaria para fazer brilhar os olhinhos da galera descolada que só lê Bukowski. Aliás, Henry Miller, ao contrário do que muitos pensam, não é um escritor beat. Só influenciou a galera e entra junto da estante dos fanáticos por uma escrita rasa. Neguinho fica lendo esses velhos safados aí, depois pega um Henry Miller pra ler e acha que o cara é o melhor escritor do mundo. E lê justamente o Trópico. Vai entender…

Uma última coisa que eu queria dizer sobre Henry Miller antes de passarmos ao projeto desta edição: meu deus, esse cara viveu bastante pra um boêmio. Morreu com 88 anos feito cobra de museu, conservadão no álcool. Se o cara nasce em 1891 e morre em 1980, pára e pensa o que esse vato não viu na vida.

Aí! A resenha pode estar inconstante, estranhona e dar a impressão de que foi feita nas coxas (lá lá lá lá lá), mas a parte em que analisamos o projeto gráfico é sempre a mesma: último parágrafo e vamos lá. Essa edição da José Olympio editora é bem charmosa, apesar do papel offset pentelho. Quer dizer, essa capa aí, amigo, não é qualquer um que arrisca não, e foi feita pela Vera Bernardes, veterana e quase pioneira no simplismo das capas de livro. Se bem que eu tenho birra de quando o nome do autor é maior que o título, dá esse calafrio de best-seller que eu passo longe. Brrrrrrrrr. Foi feito durante o aniversário de 74 anos da editora, fundada em 1931, só pra constar. Tem uma fonte que eu não sei precisar qual é, mas não é muito bonita, e um cabeço bem cafona, com título e autor em caixa alta, e paginação na parte de cima — uma escolha que pode agradar várias pessoas, mas não a mim porque eu sou chatão. Ele tem um papel cartonado de gramatura mais alta pra proteger o miolo, e serve pra você anotar telefone do disk-gás e etecetera (mentira gente, não façam isso com o livro de vocês). Foi traduzido por Beatriz Horta, que já traduziu livrassos como A cura de Schopenhauer e O diário de Bridget Jones. Sacanagens à parte, a tradução é boa. Mas não salva o livro.

Comentário final: 290 páginas em offset, bem molinhas. Não é vetada nem na lei da palmada.

Eliane Brum – O Olho da Rua

O Olho da RuaAntes de começar, um pedido: assinem a bagaça do RSS (é só clicar e colocar o e-mail ali. Não tenham medo, luddistas inveterados) e sigam o @bloglivrada no twitter para saber sempre dos novos posts, joia? Assim, podemos dar seguimento com tranquilidade à empreitada de falar de literatura para os embrutecidos, os avessos ao academiscismo e ao péla-saquismo. Sem mais, vamos ao que eu queria dizer.

Meu deus, já é quarta-feira! O tempo está acelerando, estão sentindo isso? Parece que foi ontem à noite que eu tava curtindo filminhos do Sam Peckinpah na televisão e, entretanto, cá estou eu, mais uma vez, para falar do livro de hoje, que é um livrorreportagem. Eu sei, eu sei, lá vêm vocês, sedentos por literatura ficcional virem falar que tem muito livrorreportagem nesse blog. Como dizem que o homem que é advogado de si próprio é um imbecil, eu advogo em minha defesa que primeiro: nem tem tanto livrorreportagem assim, só cinco até o momento. E, segundo: eu, apesar de ser jornalista, gosto muito pouco, quase nada dos livros do gênero, então dêem um crédito pra esses que estão aqui, pois são os que eu julgo que realmente valem a pena ler.

Pois here we go. O Olho da Rua, da super-jornalista (uma raça superior e praticamente extinta) Eliane Brum serve para mim tanto como remédio, quando indico para colegas de profissão desiludidos com o meio; e como coquetel molotov, quando jogo na cabeça do safado que diz que jornalismo é uma porcaria e que jornalista não presta. Não to brincando quando eu digo que o Olho da Rua é um livro fundamental na formação do ser humano. Essa talentosa e bela moça (isso é até meio ruim, estraga aquela minha tioria de que escritor bão é feio — não que todo escritor feio seja bom), com a benevolente mão da Revista Época, rodou o Brasil em busca de reportagens longas e sensíveis, com making ofs detalhados e igualmente comoventes. Com essas histórias, a gente aprende a ver o mundo com olhos, digamos, um pouco mais abertos. Por isso, comunidade nipônica, leia Eliane Brum!

A parte do making of é realmente legal pra você ver que o trabalho jornalístico da autora não só dá um trabalhão como também é permeado de vários perrengues. Papos de ir para a Amazônia e ficar com febrão, vomitar os buchos e se privar de todas as vaidades de que as mulheres geralmente não abrem mão. É, cumpadi, não é pra qualquer um essa profissão-perigo (agora que falei em profissão-perigo percebi que a Rede Globo substituiu o Profissão-Perigo pelo Profissão Repórter. Nada contra, mas eu acho ainda acho mais legal ver o cara fabricar uma pistola com uma caneta de molinha). E, fala sério, tirando esses programas como o supracitado Profissão Repórter, em que jornalistas disputam atenção com matérias, que veículo tem essa moral de botar o repórter soltinho por uma quinzena, ou um mês, pra fazer a matéria que ele quiser? São poucos, e dentro desses poucos, os repórteres privilegiados são mais escassos ainda. Então, bora dar valor, nénão?

Eliane BrumQuanto à literatura produzida em O Olho da Rua: ora, a galera que tem nojinho do jornalismo literário tem que se decidir logo, se preferem que o repórter seja um cara frio e retrate a pior das tragédias como bula de remédio ou que ele romantize uma notícia correndo o risco de passar a impressão de estar fazendo cirquinhos com a miséria da condição humana. Eu, particularmente, acho esse viés literário importantíssimo, não só pra mexer com o coraçãozinho do leitor — que hoje em dia não se abala por qualquer coisa — quanto para partilhar com a fonte as agruras. Caso clássico é a reportagem “O Homem Estatística”. Não, não é o Geraldo Alckmin falando que São Paulo tem hoje dezessete mil quatrocentos e trinta e DOIS policiais nas ruas, dos quais 43,3% já tomou um tiro. É a história de Hustene, um homem desempregado que luta não só para arrumar um emprego digno de sua formação parcial quanto luta com a perda de seu padrão de vida. Quem lê o blog da Eliane Brum às segundas lá no site da Época tá ligado que a moça acompanha até hoje a vida do sujeito, ou seja, não é jornalismo piranhudo, one-night-stand, amigo, é jornalismo de família, pra casar mesmo. E Hustene sabe que está bem representado nas páginas escritas pela moça. Então é ponto, não é? Ponto!

Esse livro foi lançado pela Editora Globo, que manda na Época, é claro. E parece que foi feito sob medida para a proposta desse humilde blog: é um livro louco de pesado, para as 422 páginas que carrega. Isso por causa do glorioso papel stamax, que dá um peso, não deixa marcas pelo corpo e mostra quem é que manda. Fontes Fairfield e Helvetica, o que é ótimo por não usar aquela Trebouchet que eles usam no Globo On-line, tá valendo. Tem um visualzão de revista mesmo, até por causa do papel, com fotos PB (embora o livro seja colorido) e um rodapé verde na parte do making of. Uma capa legal e um formato generoso, pra ler se esparramando. Resumindo, não costumo indicar livros aqui, mais comento-os e deixo as conclusões para os senhores, mas abro uma exceção e recomendo vivamentchy: leiam O Olho da Rua, valeu, rapeize?

Comentário final: 422 pesadas páginas em Stamax fosco 90g. Bateu, derruba.

Ismail Kadaré – O Acidente (Aksidenti)

O AcidenteFala aí, meu povo, tudo certo? Viram só, o último livro teve comentário ilustre do próprio autor. Um abraço pro Xico Sá aê! E não, eu não fui lá mostrar o meu blog imbecil pra ele, não sei como o cara achou. Mas enfim, achei legal e vamos tentar fazer mais autores visitarem a espelunca. O livro de hoje é do Ismail Kadaré, e ele tá vivo. E pô, se o cabra fala albanês, português pra ele deve ser pito! Quem tem a moral de ir lá esfregar essa resenha naquela cara de Augustinho-da-Grande-Família-depois-do-desterro dele? Quem tem? Tô desafiando!

Antes de começar a falar do livro, uma pergunta para vocês: estou pensando em colocar aqui no espaço outros textos relacionados a hábitos de leitura e aspectos físicos do livro, o que acham? Digam lá nos comentários.

Pois muito bem. O Acidente é o último livro do albanês Ismail Kadaré. Sim, ele, o amargurado, o tio sério que não gosta de piada, o sujeito massacrado pela cultura do país, o cara que queima muitos ATPs para dar uma risada, o paladino blasé. Nesse livro, a história não podia ser mais down: um acidente de carro que mata um casal, logo na primeira página, intriga investigadores e detetives com muito tempo livre que resolvem reconstituir o passado dos dois porque se descobre que o rapazinho tem ligação com o governo. Pelo menos foi isso que eu entendi, rá rá rá.

E aí o levantamento do passado dessa relação dos dois revela uma paixão doentia, com mulheres virando prostitutas, lésbicas, casaca, olhinhos por boçais, etc. A história dessa tensão sexual entre o cabra, Bessfort Y. e a mulher, Rovena St., é tensão de verdade, não é aquela coisa afrescalhada do Vermelho e o Negro. E, claro, é triste pra caramba, a bichinha tá num mato sem cachorro e parece que nem percebe. E o bonitão lá, na rédea curta com a moça, fazendo ela de gato e sapato feito aqueles safados que seqüestram garotinhas na Austrália por não sei quantos anos. Nada bom para a bunda da Rita Cadillac, ou, como ela chama, o moral.

Penso que, como tudo na escrita de Ismail Kadaré é política, essa relação entre Bessfort Y. e Rovena St. pode representar a tensão entre sérvios e albaneses, já que cada um do casal é ligado a um dos países. Mas, já fazendo a minha mea culpa, não vou entrar nesse mérito por saber quase nada do assunto. A gente aqui fala besteira, mas fala com propriedade, valeu?

Ismail KadaréAgora, vejam só vocês como são engraçadas as coisas: o release do livro, e a orelha, usa o termo “acontecimento banal” para descrever o acidente de carro que mata o casal protagonista, querendo dizer que o caso não mereceria normalmente a atenção que ganhou por parte dos investigadores do governo. E isso acontece porque o autor inicia o livro com o mesmo termo, para assegurar o leitor de que o tal “acidente” do título não é esse do carro. Mas faça aí uma busca rápida no Google e veja quantas críticas e resenhas a esse livro também se referem ao acidente como “acontecimento banal”. Desde quando acidente de carro que joga as pessoas contra o pára-brisa, os corpos saem voando e se arrebentam no barranco é “acontecimento banal”? Pô, será que esse povo não viu À Prova de Morte, do Tarantino? Será que todo mundo agora é crash test dummy pra achar acidente de trânsito corriqueiro? Coé, críticos do meu Brasil, vamos parar de repetir o que vocês leem no release igual coro de música do Afrika Bambaataa e vamos admitir que esse acidente foi coisa feia sim!

Eu não sei se eu tava com muito sono quando li esse livro, mas o fato é que achei a leitura dele bem lenta e arrastada, dada a complicações pela troca constante de estilo que o autor usa na narrativa. Uma parada meio saramaguiana que rola por umas páginas faz o peão rodar bonito e ficar mais perdido do que filho da p*** em dia dos pais. Nem por isso o livro é ruim, só demora a pegar no tranco (ou quem demora sou eu, não sei). Da metade em diante ele fica excepcionalmente bom, e o final é uma porrada na sua cara. Aposto que por um desfecho como esse vocês não esperavam. Pensem só como alguém pode inventar e surpreender numa história onde você sabe que os protagonistas já estão mortos?

Esse projeto da Companhia das Letras ficou bem bonito, mas me dá uma tristeza no coração quando os caras fazem uma coleção bem bonitinha do autor e aí resolvem mudar o padrão. Gostei das cores, principalmente: cinza e azul petróleo (azul petróleo é como eu chamo qualquer azul que eu não sei que azul é). A tradução ficou por conta, como sempre, do grande Bernardo Joffily, que traduziu a bagaça direto do albanês. Direto do albanês, gente! Acendam uma vela pra esse homem hoje à noite, que ele merece. A capa é de um cabra chamado Fabio Uehara, e, sei lá, eu gostei bastante, tá mais espontâneo que as capas da coleção do Kadaré, então ponto pra ele. Mas bem que poderiam mudar as capas então, né? No mais, papel pólen e fonte Electra, padrão da editora para caras tristes como esse. E o título original, Aksidenti, fez você aprender pelo menos uma palavra em albanês, aê garoto!

Ps: Por que diabos a letra ficou tão grande hoje?

Comentário final: 232 páginas em papel pólen. Pimba na gorduchinha (na gordinha mesmo, não na bola de futebol).

Stanislaw Ponte Preta – Febeapá

FebeapáQuarta-feira, molecada! Mal a semana começou e já estamos chegando no meio dela, rumo ao glorioso feriado! Bem, nem tudo são flores: para os meus amigos militares, não é feriado, o sete de setembro, é uma data tão festiva, mais uma piada nessa terra tão querida (Blind Pigs entrando aqui no texto). Então, pra vocês é 1, 2, 1, 2, esquerda, direita, esquerda, direita, paga flexão, come gororoba, lambe o coturno, apanha o sabonete! Só não sinto pena porque vocês estão mais ricos do que eu.

Stanilslaw Ponte Preta: taí um autor que eu nunca quero que vocês conheçam, porque senão, esse blog vai ficar jogado às moscas. Ninguém nunca combinou tão bem inteligência, erudição, linguajar maroto e escrita fluida quanto Sérgio Porto, identidade secreta do Ponte Preta. E esse livro — é mentira, mesmo correndo o risco de ser abandonado, quero que vocês conheçam — é Stanislaw Ponte Preta em sua melhor forma.

Febeapá, para quem não sabe, é o Festival de Besteiras que Assola o país, um compêndio das asneiras que rolam na nossa sociedade e na nossa política, em especial na época da ditadura, período que Sérgio Porto cobriu intensamente. Se bem que, não é preciso ser muito esperto pra saber que besteira na política não é um privilégio da milicada. A única coisa que mudou é não temos mais quem faça esse trabalho sujo de Stanislaw, que morreu junto com seu alter-ego, precocemente, aos quarenta anos, de tanto trabalhar, eu imagino. O livro em questão compila os três volumes de Febeapá que saíram aí no mercado editorial da época, junto com umas crônicas ótimas e engraçadas, para quem quer dar umas risadas.

E é impressionante o quanto se conseguiu reunir em tão pouco tempo. A frase que abre o primeiro volume é a mais pura verdade: ou o Brasil acaba com a besteira ou a besteira acaba com o Brasil. Coisas absurdas como impedir que a Alemanha Oriental tocasse o hino do país durante um jogo de futebol, por ser um ato subversivo, ou uma batida policial no teatro para prender o tal do Sófocles, que escreveu essa peça suja cheia de sacanagem, ou ainda a tentativa de se instituir o “Dia do Pobre”, para homenagear essa grande parcela da população, ou um vereador de Mafra (SC), que queria pedir em plenário que se fabricassem fósforos de duas cabeças para economizar o pauzinho. Enfim, poderia ficar aqui contando várias histórias para atiçar o gosto de vocês, é e isso mesmo que vou fazer agora: prefeitos no Rio Grande do Sul que inauguram bebedouros públicos para cavalos e dão o primeiro gole com as mãos em concha, dizendo “Tá inaugurado, tchê!”; pessoas que mandam cartas para Belém, no Pará, e, os analfas do Correio que não entendem a letra, mandam para Berlim; um campeonato de futebol patrocinado pela Brahma, onde os locutores da Tv, ao saberem que tinha lá um jogador do Galo chamado Grapete (concorrente da Brahma), resolveram só chamar o sujeito de “Guaraná”. Já tão querendo correr para comprar esse livro? Ótimo, continuemos.

Sérgio PortoAs crônicas do livro, parte do compêndio do Febeapá, também são valiosíssimas. Nela, vemos a qualidade da veia humorística do autor, que criou uma família de personagens fictícios inesquecíveis, dos quais o mais presente é o primo Altamirando, o malandro maconheiro da família. Ele arruma negócios escusos, campeonatos de futebol com a bandidagem, com escalações hilárias que vieram muito antes do pessoal do Rockgol. E vários outros personagens esporádicos, todos com o seu valor, fazem o leitor vencer o calhamaço de páginas como se fosse uma volta no parque (jargão militar dos filmes de ação, adoro isso: “volta no parque”. Esse pessoal que acha fácil dar volta no parque deveria visitar ali o Jardim Botânico em um sábado de sol).

Quando Sérgio Porto morreu, morreu com ele parte desse humor montado na erudição, e as pessoas passaram a achar que a comédia é uma coisa feita de gente burra para gente retardada. E aí ferrou-se tudo, amigo, saiu neguinho por aí fazendo comédia romântica, sátira de filme de terror, seriados sobre amigos que dividem apartamentos, neguinho gravando vídeo no Youtube dizendo que odeia isso e odeia aquilo, etc. Temos, felizmente, alguns receptáculos desse legado, o mais bem sucedido no momento é o Xico Sá (em breve, resenha sobre ele). Acho uma pena, mas acredito nesses heróis que sobraram e que vão levar o movimento adiante.

A editora Agir é uma santa mesmo, relançando a obra completa do autor em livros maravilhosos, de papel pólen soft, fonte Bakersville, formato grande, cabeço vertical charmosão, e ilustrações do glorioso Jaguar, e são várias ilustrações, tipo, uma cacetada delas. Ponto, ponto, ponto! Esse livro ainda tem o prefácio de Millôr Fernandes e o posfácio da acadêmica Berenice Cavalcante, mostrando que há lugar para todos os leitores em Febeapá, e na literatura de Sérgio Porto de uma maneira geral.

Uma última curiosidade sobre o autor: ele foi o autor do Samba do Crioulo Doido, clássico do samba nacional, e inclusive recebeu, na ocasião, uma ligação do ex-presidente JK (tô abreviando porque acho complicadão escrever o nome dele), para agradecer a menção no começo do samba — a única parte coesa da música. O cara é demais ou não é?

“Mas Yuri, e o Lado A?” Ah, sim, claro, o Lado A, é lá na revista Paradoxo. Nessa semana, um livro da Natalia Ginzburg, da lindíssima coleção Mulheres Modernistas, da Cosac Naify. Corram lá!

Comentário final: 398 páginas pólen soft. Deixa você com orelha de lutador de jiu-jitsu.

Ashley Kahn – Kind of Blue: a história da obra prima de Miles Davis (Kind of Blue: The Making of the Miles Davis Masterpiece)

Kind of BlueBom dia, todo mundo. Domingo glorioso esse, minha gente. Ganhei um irmãozinho na sexta feira, ele chama Theo e é cheio de personalidade. Vamos deixar esse post em homenagem a ele, e a internet há de preservá-lo para quando o garotão souber ler, saber o que o irmão com idade de tio escreveu quando ele era ainda um pequeno pacote de gente. Sem mais babações, vamos aos trabalhos.

Escolhi o livro de hoje oportunamente para pedir uma ajuda de vocês: rapazotes e raparigas (no bom sentido), vocês tem algum disco bom de jazz para me indicar que eu ainda não tenha escutado? Algo levinho, instrumental, matematicamente bem feito? Gosto muito do Bill Evans, mas já estou meio de saco cheio de ouvir todos os discos dele. Então sugiram aí, mas excluam as obviedades tipo Giant Steps, a Love Supreme, Sugar, Double Rainbow, Amsterdam After Dark, Ascenseur pour L’Echafaud, Kind of Blue, etc.

Falando em Kind of Blue, nosso livro de hoje é, aliás, um livraço sobre música. Geralmente passo longe desse gênero de livro, porque a quantidade de música que a mídia joga na nossa cabeça é tanta, que gosto de fazer da literatura um hobby silencioso, sem Meteoros da Paixão e Garotas Radicais. Biografia de guitarrista? Passei. Trajetória do grunge? Tô fora. O rock dos anos 80 em imagens? Vai catar coquinho. Autobiografia da Lady Gaga? Livrada na sua fuça! Chega de tanta música. Vamos desligar o ipod e ler um livro sobre outras coisas, né?

Mas hoje não. Hoje, escolhi o maravilhoso livro do Ashley Kahn (não me lembro direito das aulinhas de ingês da Tia Regina, mas Ashley não é nome de menina?), Kind of Blue: a história da obra-prima de Miles Davis, pelos seguintes motivos: 1- esse disco é uma das poucas unanimidades desse mundo entre as pessoas que entendem alguma patavina de música. 2- esse livro mistura reportagem e ensaio, ponto pra ele, minha gente. 3- Como já dizia o Capitão Nascimento, quem manda aqui sou eu. Então, vamos a ele.

Kind of Blue: a história blábláblá, ô título grande da gota!, é uma pérola para os amantes de um bom vinho e um bom jazz que leem Kant no banheiro e cantam as gatinhas na balada falando “oi, você vem sempre aqui nesse antro pequeno-burguês?”. Mentira, é um livro bom pra todo mundo, mas nos últimos anos o Jazz ficou estigmatizado como gênero de música que as pessoas mais fingem que gostam do que propriamente ouvem, ou seja, som de poser chatão que quer pagar de inteligente ouvindo um gênero que nasceu com a bugrada afro-descendente socialmente marginalizada dos Estados Unidos. Então, falar de Jazz ficou uma coisa perigosa, você pode acabar sendo tomado por um desses homens-bouquet (como bem definiu Xico-Sá em seu maravilhoso livro Chabadabadá).

E é assim, crianças, que vocês enrolam um texto por cinco parágrafos. Aprenderam? Agora é sério gente, o livro é um apanhado breve do jazz na época de Miles Davis, e o que foi importante na sua carreira, e no modo como se fazia e consumia o gênero musical na época para a criação de Kind of Blue, o álbum com as cinco musiquinhas mais espertas que você conhece. A partir daí, o autor conta os bastidores da gravação e da formação e analisa textualmente cada faixa do disco, umas das melhores descrições de músicas que eu já vi.

Ashley KahnO primeiro ponto alto do livro é esse apanhado histórico da época de Miles. O disco foi lançado em 1959, dois anos depois do cláááássico Time Out, do Dave Brubeck e seus miquinhos amestrados, e até hoje se discute qual dos dois foi mais impactante e influente na época. Se bem que é uma discussão meio vazia, tipo saber se foi o Greedo ou o Han Solo quem deu o primeiro tiro naquele boteco de Guerra nas Estrelas. Mesmo assim, o que se sabe é que o Jazz nunca mais foi o mesmo depois dessa época de ouro, e Kind of Blue representou bem isso. Se você não sabe, sente só a escrete que gravou: Miles no trompete, Cannonball Adderley no sax alto, vovô John Coltrane no sax de macho, Wynton Kelly no piano, o master of puppets Bill Evans no piano e na competência, Paul fuckin’ Chambers no baixolão e Jimmy Cobb na bateria. Convenhamos que, com essa galera, não podíamos esperar outro resultado. Claro que isso aconteceu por certas características da personalidade de Miles e outras confluências dos astros. Esse excesso de estrelas juntas, no geral, e principalmente no Brasil, e mais especificamente, no futebol do Brasil, só dá cagada. Fossem todos nascidos no país tropical e sairiam do estúdio com algo parecido com o “vou te pegar (tchá tchá) essa é a galera do avião”.

O segundo ponto importante é essa descrição das músicas que Kahn faz tão bem. Não só serve para fazer aí um transporte de suporte de linguagens, uma sinestesia cabulosa, quanto também para mostrar para os leigos em notação musical e bichos cabeludos semelhantes o quão bem pensadas são essas faixas que gente tapada diz que “é feito na hora”. A genialidade, senhores, pura e descrita em palavras.

Por fim, e é sempre importante dizer, vale o registro. Um disco dessa magnitude não poderia passar sem pelo menos, uma dúzia de livros. Ora, vamos combinar que não faltaram nessa vida livros sobre os Beatles, Jimmy Hendrix e outros sujeitos badalados de um tempo que não volta mais, então por que seria diferente com Miles Davis? Não seria, né? E a literatura sobre jazz é mais vasta do que supomos, o problema é que não chega muita coisa traduzida por aqui. Então, valorizemos e devoremos os livros bons de repórteres competentes que aparecem por aqui.

E o que falar desse projeto da editora Barracuda? É simplesmente sensacional, minha gente. Sim, tem papel offset, sim, a página é meio poluída, sim, é tudo cheio de letras, mas é um livro muito bonito! Essa capa sensacional, as fotos da época no miolo (e são muitas), o cabeço elegantinho, as legendas nas colunas de respiro, é um belo formato para um livro de música. Ah, e o prefácio quem escreve é o Jimmy Cobb, o baterista e o único integrante ainda vivo dessa galera (viram que maneiro é não usar drogas, crianças? Vocês acabam escrevendo um prefácio sobre seus amigos mortos mais famosos que vocês!), que, vá lá, não diz muita coisa, mas, mete aí de novo, vale o registro. E até a próxima!

Comentário final: 254 páginas offset. Em homenagem ao irmãozinho, não vamos bater em ninguém com esse livro hoje!