Cristóvão Tezza – Juliano Pavollini

Juliano PavolliniFala meu povo.  Hoje é quarta feira, mas para quem emendou o feriadão, é segunda. Ê, que beleza: todo mundo com cara de bunda no escritório, cheio de sono e com o mundo pra organizar. Deixa disso e vem se alienar aqui no Livrada!, porque o livro de hoje é bacaninha.

Eis que, semana passada, lá estava eu na insípida bienal do livro de Curitiba. Todo mundo sabe que Bienal já é uma coisa chata, aqui em Curitiba então, nem se fala. Estande da Cosac Naify, da Companhia das Letras? Que nada, era só Editora do Fim do Mundo, Grupo Editorial Onde O Judas Perdeu as Botas, Editora das Faculdades Odair José, etc.

Cena de lá: Um cara me aborda e me pergunta: “Oi, você já fala inglês e espanhol?”, “Já”, “Really?” (o cara começou a falar inglês comigo pra me testar). Eu, com uma cara de poucos amigos, respondi ainda: “Really”. O sujeito insiste: “How much?”, mas eu corto: “Enough”. Ele se rende “Ok, então, obrigado!” e me deixa ir embora como se não tivesse tentado me estuprar moralmente.

Outra cena: Outro cara me aborda: “Está gostando da Bienal?” “Acabei de chegar.” “O que você faz da vida?” “Sou jornalista” “Ah, jornalista precisa ler bastante, certo?” “Acho que sim, Captão Óbvio” “E o que você diria se eu lhe dissesse que é possível ler um livro de duzentas páginas em vinte minutos com total compreensão?” “Hum… eu acho que prefiro do meu jeito”. Depois reclamam que a Bienal é um fracasso, olha o naipe dos párias que eles deixam montar acampamento!

Enfim, tava eu lá para prestigiar a mesa do José Castello e do Cristóvão Tezza, e descobri que havia uma nova edição revista, pela editora Record, de Juliano Pavollini. Resolvi comprar sem pensar muito, o que é uma raridade. Levei lá para aquele autógrafo maroto, bati aquele papo rápido de elevador (gente, o Tezza conhece o J.M. Coetzee, jantou na casa dele e o escambau!) e cheguei em casa para começar a ler o livro, que terminei no domingo. Vim aqui então, contar para vocês sobre ele.

Juliano Pavollini é um romance de formação, aquele tipo de romance que mostra a transformação do personagem. O Juliano em questão é um menino lá do interior do Paraná que, após a morte do pai, foge para Curitiba e é hospedado num bordel ali do Centro Histórico da cidade. Ali ele começa a desenvolver o começo de sua vida adulta e, não se sabe até o seu final, a história é narrada para uma psicóloga de um presídio. Sim, Juliano já começa como habitante do país das calças bege. Mas aí vamos vendo como sua vida vai descambando no bàs-fond curitibano, mesmo ele sendo um rapazinho literato e tímido. Um bandidinho beletrista de 17 anos me cativa, me identifico muito com Juliano na época em que me mudei pra cá. Não que eu fosse bandido, só era meio ogro para certas coisas, que agora não vem ao caso. Enfim, nessas histórias de adolescência, Catcher in the Rye style, todo mundo acaba puxando a sardinha um pouco pro seu lado. Culpa da Sincronicidade Artificial, Manipulação de Linguagem, Kundalini e as Fronteiras da Realidade (sério, se você tiver disposição, depois leia tudo, e tente não ficar maluco. O link para essa teoria da conspiração está aqui.) É uma fórmula muito boa se você quer fazer sucesso, mas não é tão fácil quanto parece, tem que ser bambambã.

Ah sim, a história tem um certo paralelo com a vida do autor, no sentido de que ele veio de Lages para Curitiba após a morte do seu pai, quando ele ainda era pequeno. Mas isso é muito querer achar pêlo em ovo e não é algo que gente decente mencione. Depois do Código Da Vinci, todo mundo ficou mais paranóico.

TezzaTenho uma pequena crítica ao livro, mas é só porque eu sou chatão: embora a gente não saiba com quantos anos Juliano Pavollini narra sua história, é meio incrível que um detento tenha essa prosa-arte, essa prosa-resultado, essa prosa-marota do Tezza. É o grande paradoxo do escritor, afinal: fazer com que seus personagens não tenham uma voz consonante com a sua própria. Complicado, cabrón, complicado de fato, e quando o cabra é safo nessas de letras, como é o caso do Tezza, o problema fica mais evidente. Ainda assim, é algo que só se nota quem quiser, e quem não quer, que se divirta.

Juliano Pavollini é um dos melhores livros do autor que eu já li, junto com os clássicos Trapo e o Filho Eterno e os meus favoritos, como Uma Noite em Curitiba e o Fantasma da Infância que, aliás, guarda em si uma suposta continuação da saga de Juliano. A editora Record caprichou nessa coleção, mas, como já mencionei-a quando falei do Fantasma da Infância, encerremos por aqui.

Vamos mandar fotos da estante ou não vamos? Colé, pega essa câmera fotográfica, tira uma foto dos seus livrinhos e manda pra cá! bloglivrada@gmail.com

Comentário final: 240 páginas em pólen soft. Pimba nas pistoleiras!

 

Mario Vargas Llosa – Tia Julia e o Escrivinhador (La tía Julia y el escribidor)

La tía Julia y el escribidorBom domingo, moçada! Aí, manerassas as fotos de estantes que eu estou recebendo, mandem mais, vamos fazer um post irado sobre isso. O e-mail, já sabem, é bloglivrada@gmail.com. E sem o nariz de cera habitual, vamos ao que interessa. Não, não é a festa da democracia, mas, se querem saber, meu voto vai para o Plínio de Arruda, porque ele tem cara de presidente e um belo patrimônio acumulado ao longo de seus longos 70 anos, segundo li em uma matéria da Folha de S. Paulo. Minha única preocupação é que ele é velho demais, e desconfio de quem quer fazer um futuro melhor para o Brasil sabendo que ele próprio não vai estar nesse futuro. No mais, o resto da corja de canalhas, vocês votem em quem quiser trabalhar no seu estado que, independente de qual seja, tenho certeza de que está um lixo.

O livro de hoje é um livrasso que ganhei inesperadamente de minha mãe durante um almoço em Paraty. Gosto de ganhar livros que parecem bons, mas que por alguma razão não estavam nos meus planos de futuro próximo. É justamente o caso. Esses livros da Alfaguara têm uma página que é geralmente maior do que a dos livros que eu costumo ler, então minha percepção de tempo acerca da leitura fica meio desorientada, e sempre acho que levo muito mais tempo para lê-los. Bom, graças a uma reclamação no Procom que eu fui fazer, em 2008, a leitura desse livro foi super rápida. Horas sentado naquele banco poderiam me fazer acreditar que a lentidão dos órgãos públicos brasileiros está formando um país de leitores, mas a maioria das pessoas prefere sentar ali e olhar para o teto. Não me espantam que fiquem irritadas assim, não sei como conseguem. Mas falemos disso outro dia.

Já disse aqui, na minha resenha sobre o Pantaleão e as Visitadoras, que o Mario Vargas Llosa é um escritor de mão cheia por dominar tão bem vários estilos diferentes entre si. Se no outro livro foi com o gênero epistolar que ele chutou alguns traseiros, neste agora ele consegue misturar romance autobiográfico com contos — algo que nunca havia visto em minha curta experiência como leitor.

A história é a seguinte: Varguitas, um garotão de dezoito anos, que trabalha numa rádio e quer se tornar escritor, começa a namorar a própria tia. Pera lá: não é da família, é tipo uma cunhada da tia, se bem me lembro, mas na família, o que não é do núcleo de pai e mãe, nem avô e avó, ou primo, é tia. Tá, essa frase foi muito ao estilo Cleber Machado, vou tentar não me repetir. Ao mesmo tempo, conhece o lendário Pedro Camacho, um escritor boliviano de rádio novelas que é sensação em todo país. Então a história se divide entre seu romance com a Tia Julia (com quem Vargas Llosa realmente se casou, e depois se separou para casar com a prima. Que cara mais freak) e contos que seriam as novelas escritas por Pedro Camacho. Falemos mais dele.

Pedro Camacho é o personagem que o autor criou para personificar o escritor ideal. Ele vive para escrever: durante todo o tempo em que está acordado, está escrevendo, criando, bolando histórias. Embora, em termos de produtividade, seja esse o ideal do escritor — principalmente do aspirante a escritor Varguitas, que tem em Camacho um ídolo — a história mostra que a realidade é bem mais amarga. Baixinho, feio, antipático e cheio de preconceito com as pessoas, Camacho tem uma existência muito triste, e o excesso de trabalho o leva a confundir os personagens de suas novelas, tornando os contos cada vez mais misturados, como naquelas brincadeiras de criança de misturar os três porquinhos com João e Maria e assim por diante.

Mario Vargas LlosaAinda assim, os contos de Vargas Llosa assinados por Pedro Camacho são espetaculares. Lembro-me especialmente de um, sobre um sujeito que foi fazer terapia porque sentia-se culpado de ter atropelado uma criança, e a psicóloga sugere a ele uma terapia baseada na raiva por crianças, em que ele devia ser mal e chutar-lhe as costelas se fosse possível. Impagável, realmente, e me lembrou uma certa música da gloriosa banda Merda, com o título justo de “Eu odeio crianças” (acho que cada vez que eu faço alguma referência ao universo do hardcore, perco uma penca de leitores que passam a me considerar mais burro).

O romance de Varguitas com Tia Julia também é recheado de humor, com todas as neuroses de uma típica tia, encanada e solteira, acerca de sua relação secreta (a família não pode saber). Tem também o seu companheiro radiofônico, Pascual, que é o típico coadjuvante que rouba a cena. Tinha algo a respeito dele que eu achava o máximo mas, folheando o livro aqui, não consegui achar e me lembrar direito. Algo a ver com o fato dele só anunciar tragédias no rádio,mesmo que tenham acontecido no outro lado do mundo e há tempos. Perdão, minha memória já não anda lá essas coisas, e mesmo que tenha lido o livro há apenas dois anos, já me esqueço destes detalhes.

Foi nesse livro que me deparei pela primeira vez com os contos do Vargas Llosa, e, depois pude confirmar lendo Os Chefes, é preciso tirar o chapéu pra esse cara. Sério, algum livro dele é preciso ler. Vargas Llosa é como os Beatles: não dá pra dizer que não gosta, porque ele tem várias facetas (ao menos é isso que dizem pra mim, que não ligo muito pra banda).

Já comecei a comentar essa edição da Alfaguara lá em cima, mas vamos ao restante dela. Bom, o último livro da editora que li antes de ler esse havia sido Nosso GG em Havana, uma história curtinha e muito irada do Pedro Juan Gutierrez, com tipografia garrafal. Estranhei a miudeza desse livro, o que, aliado ao tamanho e ao número de páginas, me pareceu um livro gigantesco. Só mesmo o Procom ou o Detran para fazer-nos vencer calhamaços como Ulysses como se fosse gibi do Chico Bento. Sério, desaconselho adentrar em uma repartição pública sem estar munido de documento com foto, xerox de tudo e literatura pesada e das boas. E lanchinho também. Mas é um livro maravilhosamente bem acabado e tem uma das melhores capas dos livros do Vargas Llosa já lançados pela editora. Nostálgica pá dedéu com esse radinho vintage aí, “Philco Transitone”. Onde será que a gente arruma um desses? Apesar do calhamaço, pegaram umas páginas de gramatura boa, que dá vontade de ler e faz muita diferença para mim. Por último, uma dica pra editora: tava na hora de reeditar A Festa do Bode, hein?

Comentário final: 359 páginas gigantes em pólen de gramatura alta. Uma pedrada na sua fuça!

Henry Miller – Trópico de Câncer (Tropic of Cancer)

Tropico de CancerAlô criançada, o palhaço Pennywise chegou para te oferecer um balão e perguntar se você quer flutuar aqui embaixo! Divertiram-se muito essa semana? Espero que sim, porque o domingo já chegou e hoje é o começo da sua depressão semanal que só vai acabar quinta a noite. Então bora esquecer dos problemas e dar umas risadas forçadas e amareladas aqui no Livrada!

Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, eu podia estar jogando tags chamativas para este blog como RESENHAS DOS LIVROS DO VESTIBULAR ou TUDO PARA PASSAR NO CONCURSO PÚBLICO, mas não, estou aqui, honestamente, falando de um livro para o qual eu nem ligo mais. Trata-se do Trópico de Câncer, do Henry Miller. Na verdade, na verdade, eu queria falar da Trilogia da Crucificação Rosada, uma obra de muito mais valor na carreira do autor, mas a maioria das pessoas não tem culhão ou vida suficiente para ler aqueles Sexus, Plexus e Nexus. Então escolhi esse, um livro bem mais acessível, tanto na linguagem quanto no preço, para comentar um problema gravíssimo: o que acontece quando o escritor fica famoso pela obra errada?

Richard Dawkins, biólogo, o único queniano do mundo que não deve saber correr, fez vários livros interessantíssimos sobre genética e evolução, mas ficou famoso por um tratado qualquer sobre ateísmo que não convenceu ninguém. Assim como em Dawkins, a obra mais conhecida de Henry Miller é Trópico de Câncer, uma história meio xarope sobre quando ele vai para a França para viver o sonho de qualquer curitiboca: ser um escritor de putaria que mora na França, um cara que venceu na vida, ascendeu socialmente e só frequenta as altas paneladas da galera descolada dos arrondisments très chiques. Cronologicamente, o livro é uma continuação da Trilogia da Crucificação Rosada, mas foi escrito pelo menos uns vinte e poucos antes, em 1934, quando ele era um quarentão na plena idade do lobo.

Bom, quem leu a Trilogia sabe que ela gira toda em torno do autor tentando realizar o seu sonho de ser escritor, e quem é experimentado em relatos autobiográficos sabe que a parada só é divertida enquanto o autor-protagonista tá passando perrengue. Por essas e outras o Plexus, segundo livro da trilogia, é o meu favorito dele. E por essas e outras também que Trópico de Câncer é um livro xarope. Quem lê, pensa: “filho da mãe, livin’ the dream aí nas ôropa e eu aqui me ferrando comendo joelho na padoca pela manhã”.

Henry MillerPior do que isso: Miller não se deixou mostrar o excelente prosador que é em Trópico de Câncer. Quem já leu Plexus ou Sexus e leu os discursos que ele proferia com orgulho para os amigos (o gajo curtia um exibicionismo desse tipo) tá ligado que o cara é gênio na arte da oratória e do discurso, e sabe conduzir uma história até esses momentos. Tem grande força narrativa também. Bom tudo isso foi deixado de lado no Trópico. Temos lá uma prosa morninha, com uma ou outra putaria para fazer brilhar os olhinhos da galera descolada que só lê Bukowski. Aliás, Henry Miller, ao contrário do que muitos pensam, não é um escritor beat. Só influenciou a galera e entra junto da estante dos fanáticos por uma escrita rasa. Neguinho fica lendo esses velhos safados aí, depois pega um Henry Miller pra ler e acha que o cara é o melhor escritor do mundo. E lê justamente o Trópico. Vai entender…

Uma última coisa que eu queria dizer sobre Henry Miller antes de passarmos ao projeto desta edição: meu deus, esse cara viveu bastante pra um boêmio. Morreu com 88 anos feito cobra de museu, conservadão no álcool. Se o cara nasce em 1891 e morre em 1980, pára e pensa o que esse vato não viu na vida.

Aí! A resenha pode estar inconstante, estranhona e dar a impressão de que foi feita nas coxas (lá lá lá lá lá), mas a parte em que analisamos o projeto gráfico é sempre a mesma: último parágrafo e vamos lá. Essa edição da José Olympio editora é bem charmosa, apesar do papel offset pentelho. Quer dizer, essa capa aí, amigo, não é qualquer um que arrisca não, e foi feita pela Vera Bernardes, veterana e quase pioneira no simplismo das capas de livro. Se bem que eu tenho birra de quando o nome do autor é maior que o título, dá esse calafrio de best-seller que eu passo longe. Brrrrrrrrr. Foi feito durante o aniversário de 74 anos da editora, fundada em 1931, só pra constar. Tem uma fonte que eu não sei precisar qual é, mas não é muito bonita, e um cabeço bem cafona, com título e autor em caixa alta, e paginação na parte de cima — uma escolha que pode agradar várias pessoas, mas não a mim porque eu sou chatão. Ele tem um papel cartonado de gramatura mais alta pra proteger o miolo, e serve pra você anotar telefone do disk-gás e etecetera (mentira gente, não façam isso com o livro de vocês). Foi traduzido por Beatriz Horta, que já traduziu livrassos como A cura de Schopenhauer e O diário de Bridget Jones. Sacanagens à parte, a tradução é boa. Mas não salva o livro.

Comentário final: 290 páginas em offset, bem molinhas. Não é vetada nem na lei da palmada.

Chinua Achebe – O mundo se despedaça (Things fall apart)

O mundo se despedaçaE aí galera, como vocês estão? Eu tô um bagaço, preciso começar a ganhar dinheiro com esse negócio de crítica, senão to ferrado. Ficar fazendo isso no contratempo é ruinzão. Mas hey, vocês não vieram aqui para me ouvir reclamar da vida, né? Então vamos ao que interessa.

Um dos mais requisitados “termos de motor de busca”, ou seja, as palavrinhas que trazem os leitores ao meu blog (e que de vez em quando me surpreendem com coisas bizarras que eu, volta e meia, jogo lá no twitter para divertí-los também por lá) é “literatura da Nigéria”. Isso acontece porque, logo quando eu estava começando o blog, resenhei um livro da autora Chimamanda Ngozi Adichie chamado Meio Sol Amarelo (aliás, o nome da moça e o título do livro são bem requisitados também). Senti que não tava com essa bola toda pra falar de literatura nigeriana e resolvi ir atrás de mais um livro. Mas não dou passo em falso. Li lá na Gazeta do Povo uma resenha ixperta do camarada Irinêo Netto sobre o livro O mundo se despedaça, do bambambã da literatura nigeriana, Chinua Achebe e pensei que esse seria um bom livro para se inteirar mais sobre o assunto.

Já ouviu falar de Chinua Achebe? Bom, se você foi um bom fã de Sepultura, deve ter percebido que o clipe de Roots Bloody Roots (a melhor fase do Max, é ou não é?) começa com uma citação do autor. Êta metaleirada culta da gota! Curiosamente, a maioria dos clipes da música disponíveis no Youtube limaram esse começo, mas o papai aqui achou um para vocês verem que eu não to de brincadeira. E sério, gente, vocês podem não curtirem muito metal, mas se vocês não gostam do Roots do Sepultura, é bom dar uma conferida no seu senso de humor porque esse disco é o ouro. E não me venha com esse papo de que o Arise ou o Chaos A.D. são outros quinhentos porque não tem música nenhuma com o Carlinhos Brown, podicrê?

Bom, O mundo se despedaça é uma viagem bacana e consideravelmente profunda for a white guy ao universo Ibo. Os guerreiros ibos, suas mulheres ibas, seus filhos ibinhos, todos moravam na Ibolândia, região da Nigéria que, no final da década de 60, virou a república de Biafra, que, como Ícaro, voou, voou, subiu, subiu e se espatifou bonito no chão pelas mãos das tropas da Onu, dos hauçás maloqueiros e de todo o resto do mundo que não tava a fim de ver pobre feliz. Como bom ibo que é, Achebe conhece a fundo as tradições do povo e pôde, a partir desse conhecimento, sangrar a história de Okonkwo, uma espécie de Eric, o Vermelho da Ibolândia, guerreiro temido e respeitado que é gente que faz. As tradições do povo são muitas para eu ficar aqui contando pra vocês, só adianto que é uma galera tarada num inhame e num vinho de palma (eca!).

Chinua AchebeBom, o livro demora para entrar no assunto principal (igual a esse blog, hã? Hã?), que é a seguinte: Okonkwo mata, sem querer querendo, um membro do seu clã e é obrigado a viver no exílio por sete anos, tempo que sai de Umófia, sua aldeia, cheia de boi de bota, para ir para Mbanta, terra de nego ponderado igual paulista. O problema de contar mais do que isso é que é contar quase o fim do livro. O que dá pra falar, porque isso a orelha já fez o favor de contar mesmo, é que o garotão deveria engolir o orgulho e baixar a bola, mas o cabra quando é ignorantão e cabeça dura, não tem jeito, pisa na bola quando pode. E isso é, mais ou menos, uma metáfora do porquê a civilização rachou no meio igual melancia na roça quando tá boa. Vocês vão entender o que eu estou dizendo se lerem o livro.

A história é muito boa, mas convenhamos: o sujeito se explica demais.  Bom, tudo bem, nesse sentido ele até que foi esperto: usou uma historinha de fantoche para entreter a gente enquanto ele ensina sobre seu povo. Engraçado que, nesse livro, do qual eu esperava história, ganhei explicação e no outro, da Chimamanda Adichie, esperava explicação e só ganhei história. Vamos deixar de reclamar então, que acho que o problema é comigo.

E que belo projeto gráfico esse da Companhia das Letras. Simples, mas bem bonito. Não é do feitio da editora fazer livros muito estampados e com letras muito grandes, mas até que a variação ficou boa. Tem essa foto assustadora da capa, de um negro se vestindo de branco, tipo aquele filme O Cantor de Jazz no Mundo Bizarro (sério, quando eu falo mundo bizarro, eu quero dizer o mundo bizarro do super-homem. Por que ninguém saca essa referência e acha que eu tô falando daquela coluna do G1?). Acho que seria algo como “O cantor de (insira aqui o seu gênero musical caucasiano de preferência)”. A foto é do rapazote G.I. Jones, um bonequinho do Comandos em Ação que viu uns três filmes do Woody Allen e resolveu se dedicar à fotografia, expondo seu acervo no Museu de Arqueologia & Antropologia da Universidade de Cambridge (puta nome pomposo esse “Cambridge”, só de pronunciá-lo você já se sente mais fresco). Fonte Electra é sempre bem vinda e papel pólen soft é fundamental. A tradução foi feita pela Vera Queiroz da Costa e Silva e a introdução pelo Alberto da Costa e Silva, ou seja, ninguém mete a colher. Tem uma epígrafe linda, linda, linda do Yeats, donde vem o título da obra. Aliás, repararam que “things” foi traduzido como “mundo”, né? Tradutores de poesia do meu Brasil, saquem suas defesas do bolso. Mentira, assunto encerrado.

Bom, é isso por hoje, minha gente. Tão afim de ler o lado A da crítica? Já sabe, é lá na Revista Paradoxo. Essa semana, um livro do Italo Calvino pra galeraê!

Ah, vai, vou terminar com a epígrafe do livro, que realmente vale a pena. Lá vai:

“O falcão, a voar num giro que se amplia,

Não pode mais ouvir o falcoeiro;

O mundo se despedaça; nada mais o sustenta;

A simples anarquia se desata no mundo”

Vê que com a tradução, aparece “mundo” duas vezes. Fazer o quê, né?

Comentário final: 236 páginas pólen soft. Pof pof pof!

José Hamilton Ribeiro – O gosto da guerra

Três meses, garotada! Bom, na verdade, tecnicamente, é amanhã, mas resolvi antecipar a comemoração pra valorizar o post de quarta-feira, sempre tão importante na vida do trabalhador. De qualquer jeito, ê! O Livrada!, este espaço esdrúxulo, faz três meses. Olha, Deus sabe que eu batalhei por isso aqui. Divulguei como eu pude, mostrei ele pra gente importante e influente (que nem deu bola, inclusive), fiz blog, fiz e-mail, fiz twitter… e não dá nem pra dizer que não deixo de não me divertir (esse é o famoso empaca-texto, te encontro daqui a duas horas na próxima frase). Maneiríssimo ver gente que se interessa pelo que é escrito aqui, e que até gosta desse tipo de abordagem a esse assunto tão repelente que é a literatura. Também, tem gente que gosta até de sexo com palhaços, ia ficar boladão se ninguém curtisse o blog. O último mês fechou com mais que o dobro de visitas do primeiro mês (aquela sabatina de posts diários, lembram?) e, ao todo, foram quarenta posts, o que significa 40 livros. QUARENTA LIVROS, eu disse. Tem gente que nem lê quarenta livros na vida, quanto mais comentá-los. E não são quarenta livros compostos por Sabrina, Júlia, Coleção Vagalume (com todo respeito), quadrinhos em forma de livro (algum respeito), e best-sellers escrotos tipo A Profecia Celestina e Marley e Eu (nenhum respeito). São livros bons, amigo, pelo menos na minha concepção. Tá, em alguns eu posso ter metido o malho eventualmente, mas ainda assim, esses ficam literariamente degraus e mais degraus acima de qualquer Crepúsculo e Augustos Curyies da vida. Portanto, palmas para todos nós! Clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap. Chega, minha mão já tá ardendo.

E que bom livro eu escolhi para esta celebração de terceiro mês de existência! O gosto da guerra, de nada menos que José Hamilton Ribeiro, o Jack Bauer brasileiro (sim, espertão, até rima!). Escolhi esse cara por três motivos. Primeiro: valorizar a literatura nacional (ui, anauê!). Segundo: tem que engrossar o rol de livros-reportagem desta bagaça. Terceiro: essa semana é minha banca final de conclusão de curso. Sim, caros amigos, se tudo der certo estarei formado e com um diploma na mão (que não serve pra nada, aêêê!). Acho que todo jornalista olha, ou deveria olhar, para o Zé Hamilton com admiração incontida e gritinhos de tiete. Afinal de contas, o cara é incrível . Pergunta pro Thaíde, ele sabe, o Zé Hamilton é Ên-Crê-vél (odeio ter que ficar explicando piada, mas, como sei que vocês são inteligentes, morram de vergonha alheia clicando aqui). Bom, eu escrevi um livrorreportagem também, e claro que, nem de longe é bom igual ao Gosto da guerra, nem tão corajoso, nem tão ousado, nem tão caralhudo, mas gosto de pensar que contribuí para o formato da grande reportagem, cada vez mais abominada pelo patrão do jornal: o dinheiro.

A história desse livro é a seguinte: Na década de 60, o Zé trabalhava na revista Realidade, uma revista do tal new-journalism. A Realidade não fazia economia, malandro. Quer ficar um mês escrevendo uma matéria, fica. Quer cobrir a guerra do Vietnã, simbora. E foi isso que ele fez. Embarcou naquelas latas velhas que chamavam de avião na época do paz e amor e se mandou para aquele país agradável cheio de chinês moreninho com cara de sapo. Lá, com o medo que é peculiar a quem está em território hostil, conheceu um japa mutcho loko que já estava a dois anos cobrindo a guerra pelo único motivo de não ter achado ainda “a” foto da contenda. E o japa safado achou a porra da foto no dia em que Zé Hamilton pisou numa mina terrestre que levou sua perna embora (a foto é a capa do livro). O Gosto da guerra é a história dessa cobertura com esse desfecho trágico. Ponto pra galera que adora dizer que jornalista só se fode.

O relato inteiro — não só o diário de guerra dele, as ponderações sobre o episódio ou o depoimentos sobre o regresso do repórter ao país trinta anos depois (não, não foi pra procurar a perna dele, seu sacana!) — reforça a ideia que ele solta lá pelas tantas do livro: a de que guerra é uma merda, mas sem cobertura jornalística é muito pior. Claro que hoje em dia vocês já viram todo o tipo de barbaridade e, caso eu relatasse aqui as coisas que o Zé descreve no livro vocês não se surpreenderiam tanto, mas isso é porque tá todo mundo amortecido pelo excesso de violência. É um livro que merece ser lido para não esquecer do que o ser humano é capaz quando está com medo, com raiva ou cheio de rancor. Vale a pena mesmo.            Isso, sem contar, é claro, na envergadura moral do cara que escreve um diário da própria enfermidade. Se isso não valesse o prêmio Esso de jornalismo, não sei o que valeria.

Esse livro foi relançado pela editora Objetiva, e não tem lá muitas pompas nessa edição. Papel offset maldito, fonte desconhecida (tipo Verdana) e a fotaça do japa safado que tira proveito da desgraça alheia. Mas, mesmo assim, temos que dar créditos e loas à editora por ter relançado esse livro. Caralho, como era difícil de achá-lo. Eu mesmo consegui o meu na cagada, há muito tempo atrás. Graças à Objetiva, vocês não vão passar tanto perrengue assim se quiserem descolar um exemplar. E, na moral: descola um, nem que seja pra botar na estante. Um dia seus filhos pegam lá e vão te agradecer. A gente tem que fazer os livros serem legais de novo. Lembrem-se sempre, meninas: se o cara leva vocês pra casa dele e ele não tem livro em casa, não solta a tarraqueta.

Reforço o pedido: assinem o RSS ou sigam o blog no twitter. Assim, fico mais tranquilo sabendo que vocês vão ler algum post fora de data. Aliás, amanhã devo postar alguma coisa só pra não deixar a data passar em branco.

Comentário final: 129 páginas em offset. Pinga sangue, mas dificilmente vai produzir algum hematoma.

J.M. Coetzee – Verão (Summertime)

Que semana! O Saramago morreu, e ao mesmo tempo, a copa do mundo está rolando. Foda isso, tem que parar de morrer gente legal em copa do mundo. Vez passada foi o Bussunda (cuja biografia saiu agora) e dessa vez, foi o portuga. Fiquei com peninha dele, é claro, mas vou confessar que fiquei com pena mesmo foi do João Marques Lopes, o biógrafo mais azarado do universo que lança uma biografia de gente viva uns seis meses antes do biografado morrer. Ô zica! Por essa o senhor não esperava, hein? Aliás, deveria esperar. Que pressa é essa de lançar biografia de velhinhos com um pé na cova, afinal? Faz igual o Fernando Morais. Aposto que já já ele lança uma biografia do ACM.

E aí a gente fica naquela: puxamos a sardinha pra copa do mundo e falamos de algum livro relacionado ao assuntou ou damos destaque ao Saramago, se aproveitando da necessidade das pessoas em tomar conhecimento de novos defuntos. Já viu? Pronto, de um dia pro outro, todo mundo é especialista em Saramago. Sandy, Luciano Huck, Ana Maria Braga, ninguém fala em outra coisa, como se passasse a vida inteira lendo o gajo ao invés de serem os bucetões que a gente sabe que são. Bom, pra ir na contramão desse pessoal, numa vibe mais publicitária, que sabe aproveitar bem o momento (é, publicitário, se você passou incólume à Copa do Mundo e não fez um anúncio colocando futebol no meio ou zoando argentino, tem algo de errado com você), vamos meter aqui o sul africano all-mighty Coetzee, que, afinal, é um dos dois escritores do país que ganharam o prêmio Nobel (a outra é a Nadime Gordimer). E, pra aproveitar mais o momento, de seu novíssimo livro: Verão.

Ia falar de Verão aqui muito antes, mas fui deixando, deixando, e ele foi perdendo o charme da novidade pras pessoas. Agora é só um livro lançado a dois meses atrás: tempo demais para ser considerado novidade e tempo de menos pra ser considerado objeto de lembrança e estudos. Mas aí, na moral? Foda-se, tô afim de falar desse livro hoje.

Verão é a terceira parte da trilogia Cenas da Vida na Província, que retrata alguns períodos da vida do autor. Vou contar que, embora o livro seja fodasso, esperava outra coisa, sei lá, algo no estilo dos outros dois mas falando da vida de escritor badalado, etc. Bom, quem sabe ele não lança ainda, né? O caso é que em Verão ele resolveu arregaçar a bagaça de vez. Sente só: no livro, que cronologicamente se passa a uns dois ou três anos atrás, Coetzee está morto e um biógrafo coleta entrevistas de pessoas próximas a ele para uma biografia póstuma (aprende aí, João Marques Lopes). Os entrevistados são: um colega de faculdade e quatro mulheres com quem rolou uma tensãozinha sexual (entre elas uma brasileira), ou algo mais até. Não dá pra chamar de namoradas, ainda assim. E o que elas fazem? Simplesmente destroem a imagem do escritor, colocam ele como um tipo esquisito, magrelo, feio, ruim de jogo e ruim de cama. Por um momento, até dá pra esquecer que foi o próprio Coetzee, que está vivinho, quem escreveu aquelas duras críticas a si próprio.

A grande sacada da série Cenas da Vida na Província é esse lance dele referir a si próprio na terceira pessoa. Além de agradar a crítica pelo recurso estilístico pouco comum, guarda aí uma grande vantagem para o escritor: a possibilidade de meter o malho em si. Ora, faça aí você uma experiência. Tente se autoesculachar num texto em primeira pessoa e num em terceira pessoa, como se fosse outra pessoa e não você. Mais fácil do segundo jeito, né? Quero ver quem é que vai ser macho o bastante pra se autodepreciar em primeira pessoa. Ah, e não vale ser judeu!

Verão é um livro que é difícil largar de lado, de tão cativante. Tá certo que eu sou suspeito pra falar do autor, mas, excepcionalmente este está demais, demais. Apesar de ser um livro de língua inglesa, é extremamente prazeroso lê-lo, não como é prazeroso ler outros livros do mesmo idioma, com o consumo desenfreado de informação e o deleite da escrita sem floreios, que, acredite, às vezes é necessário. Ler Verão é legal porque te dá a nítida sensação de conhecer Coetzee como a um primo seu, ou mesmo um amigo de longa data. Parece mesmo que ele não deixou passar nada sobre suas ideias e seu estilo de vida durante o período em que viveu na África. E aí a gente vê o que é um sujeito com vergonha de sua origem, e a vontade que ele tem de viver em um lugar como o Brasil, onde o racismo não chega a níveis absurdos como lá, a ponto de uma pessoa branca não poder dar bom dia pra uma negra. É, amigo, e você achando que jogador de futebol chamando o outro de macaco é pesado. Aliás, ninguém prendeu o cara que colocou o apelido no Grafite? Ou deram esse apelido porque ele sempre gostou mais de lapiseira do que de lápis?

Esse projeto da Companhia das Letras pra esse livro é o que há. Embora tenha ficado um pouco triste por eles não resolverem manter o padrão da arte em todos os livros, já não tinha mais esperança de que voltassem a fazê-lo depois do Diário de um ano ruim. De qualquer jeito, essa capa é bem, mas bem melhor do que a do supracitado último livro lançado. A foto não deixa perceber muito, mas essa fita vermelha realmente é uma cinta que colocaram sobre a capa do livro, que não possui nome do autor nem nada. Minha única ressalva é essa lateral branca, porque já tenho muito livro dessa cor aí nas bandas. De qualquer jeito, é demais. Tradução do mestre José Rubens Siqueira (sério, nunca vi esse cara na vida, mas o sujeito é bom, dá pra perceber claramente pelo inglês que eu domino), papel pólen soft, fonte Electra e tudo nos conformes pra mais um livro desse monstro da literatura.

Tenho ainda muitas considerações a fazer sobre esse livro, mas como post grande ninguém lê, vamos parando por aqui antes que alguém desista e vá ver vídeo de gatinho no Youtube.

Sobre a promoção: Ainda está de pé. O comentário de número 500 leva o Plataforma do Michel Houellebecq.

Um Ps: A partir dessa semana, vou começar a postar também nas quartas-feiras. Enquanto a de Domingo é a postagem lado A, na quarta eu faço uma postagem lado B, espaço que também posso abrir para críticos de plantão, ok?

Comentário final: 275 páginas em pólen soft. JAAAABULLAAAAAAAANI!!!

J.M. Coetzee – Infância (Boyhood – Scenes from Provincial life)

Aê, mais um livro que eu terminei (viram como eu não leio tanto assim?). Tava pilhadão pra ler a primeira parte de Cenas da vida na província, a trilogia do all-mighty Coetzee, já que até então o único livro que tinha sido lançado aqui era o Juventude (devidamente já resenhado nesta bagaça). Claro que agora vou emendar num c-c-c-c-COMBO e ler Verão, a última parte da trilogia que, assim como Infância, foi presente de aniversário de namoro que a amada Carlinha me deu (azar o seu se você ganha camisa, amigo).

Mas uma coisa de cada vez. Vamos tratar aqui primeiro desse tal de Infância. Galera, devo dizer que fiquei decepcionado com a manobra editorial da Companhia das Letras (editora que eu gosto muito e ninguém tá escondendo isso, olha lá o tamanhão da tag dela ali embaixo) pra lançar Verão. Obviamente que se a última parte da trilogia fosse lançada sem que a primeira já estivesse publicada, o livro perderia o sentido e mesmo não venderia muito. Então o que fizeram? Lançaram Infância só em formato de bolso (que isso gente, o cara é prêmio Nobel!) junto com Verão. E, enquanto o fodão José Rubens Siqueira estava traduzindo a boa nova, o senhor Luiz Roberto Mendes Gonçalves traduziu essa obra de uma maneira, vamos dizer… bom, ele devia estar com pressa, afinal. Ok, erros foram cometidos. Por exemplo, fez sentido em língua portuguesa a religião católica ser diferente da religião cristã, pois enquanto aquela é a forma como a conhecemos, esta chamamos por aqui de puritanos, ou presbiterianos, ou mesmo protestantes. E custava colocar um glossário de africâner no final do livro já que se optou por não inserir notas de roda pé traduzindo-as todas? Vamos lá ficar lembrando toda hora o que são palavras como “asseblief”? Desculpaí se a gente não é fluente na língua, valeu? O livro tem apenas UMA, eu disse UMA nota de rodapé, para explicar o que é Karoo. Acho que isso prova pelo menos que um livro de bolso tem uma importância menor para as editoras.

O aparente descaso com essa edição certamente tira o peso da obra que — não podemos esquecer — foi a única parte dessa trilogia durante cinco anos: de 1997 a 2002, quando Juventude foi lançada.   E o livro, aliás, é sensacional, quero todo mundo lendo ele, hein? Impressionante como Coetzee é sincero consigo mesmo, quase cruel e masoquista mesmo, ao descrever seus primeiros anos vivendo em Worcester. Ele, então com idade próxima dos oito anos, se esforça para ser o primeiro da turma e sente muitos medos, principalmente de ser humilhado. A criançada na África do Sul é toda dividia por causa dos africâners. A família dele mesmo é africâner (Coetzee afinal, não soa como um nome inglês, né?), mas eles renegam: falam inglês dentro de casa e o jovem John Maxwell se borra de medo de ser colocado junto aos outros africâneres. Tem de lidar com sua mãe africâner, que ele venera e odeia ao mesmo tempo, e seu pai, um sujeito relaxado e submisso que não sabe gastar dinheiro.

Esse livro é tão sincero que é uma das poucas autobiografias que dá pra você saber da verdade sobre a vida e a formação do caráter do autor. Por exemplo, Infância só comprova o que eu já tinha dito: que Coetzee tem uma relação muito forte com a linguagem. Pensa em cada letra separadamente e no peso que cada uma dá à palavra. E isso com dez ou doze anos. Também podemos observar o quanto ele era esquisitão, como dizem que é hoje, taciturno, sério e excêntrico. Não se relaciona com as pessoas direito e tem muito a considerar sobre tudo. Há de se admirar esse tipo de coisa, o cara é corajoso pra escrever.

Por último, devo acrescentar que esse é um livro triste pra cacete como são todos os outros livros dele. Não espere ver uma infância muito feliz. Aliás, será que esse cara já foi feliz em algum momento da vida dele? Bom, acho que um milhão de dólares na conta por conta do prêmio Nobel devem ajudar a colocar um sorrisinho em qualquer rosto. Como dizem os curitibanos, “fica de boua” aí, Coetzee!

Comentário final: 150 páginas formato de bolso. Faz nem cosquinha.

Um Grande PS: Hoje o Livrada! completa um mês! Aêêêêê. Há de se reconhecer que foi um mês intenso, com 27 posts, 138 comentários (dos quais quase a metade é minha, porque eu respondo os comentários, tudo bem), e, até o momento que eu to olhando aqui, 1.394 visitas (e isso, pra um blog de literatura, é coisa pra caralho, eu acho). Posso dizer com um orgulhinho que cumpri uma proposta relativamente inovadora (um blog de literatura que fosse diário e com uma linguagem informal), e fiquei muito feliz com a aceitação dele. Mas, com um pequeno pesar no coração, devo dizer que, a partir de segunda feira, não teremos mais posts diários. E isso porque, além de ter outras obrigações (entre elas me formar), passarei a escrever sobre literatura de uma forma mais séria em um outro veículo. Mas , como diria Fernando Collor, não me deixem só! O Livrada! pretende continuar até onde der. E se não der não deu e, citando aquela outra dupla de hip hop, se virar, virou (“aí maluco eu to na minha e se virar virou”). Muito obrigado, gente!

Edward Bunker – Educação de um bandido (Education of a felon)

Uau, essa semana o Livrada! está extremamente light com os livros escolhidos. Muitos policiais, leituras fáceis, quadrinhos, literatura jovem, tudo muito bom, tudo muito bem. Semana que vem vou ter que fazer um intensivo de literatura de culhão pra ver se balanceio. Mas, enquanto ainda é sexta feira e o mês ainda não acabou, vamos falar de uma das obras mais cativantes que já li dentro do gênero de autobiografias: Educação de um bandido, de Edward Bunker. Sim, o próprio, o Mr. Blue de Cães de Aluguel. Seu papel mais famoso no cinema, quem diria, foram cinco minutos em uma abertura. Talvez por se tratar de Quentin Tarantino, ou talvez por ser um filme com poucos atores, mas o fato é que, fora Resevoir Dogs, Bunker já incorporou atores inúteis em várias outras películas.

Mas, para quem não sabe, Edward Bunker passou dezoito anos de sua vida encarcerado, e não só isso: entrou para o Guiness (não entrou? Pois deveria ter entrado) como o prisioneiro mais jovem a ser enviado a San Quentin, a prisão de segurança máxima mais famosa dos Estados Unidos — tinha dezessete anos. Uma juventude rebelde, um vício em heroína que foi uma verdadeira praga na sua vida, muitas surras de colegas de cela: esses são os elementos de sua narrativa. Quando saiu de lá e começou a se dedicar ao cinema — graças a ajuda de uma certa família influente — lançou-se também como escritor de romances, embora já obtivesse algum prestígio com os livros que escrevera no xilindró. Interessante notar como seus livros não são tão emocionantes como sua autobiografia — O romance O Menino (Little boy blue) é extremamente parecido com a infância de Bunker, sendo Educação de bandido algo similar a um compêndio das aventuras narradas como ficção por ele.

Vai saber se tudo o que ele diz em Educação de um bandido é verdade ou não. Melhor acreditar que sim. Dois indícios, porém, advogam a favor de sua honestidade: o primeiro é que ele de fato ficou preso um tempão, isso não há como negar. E para ficar preso por muito tempo nos Estados Unidos, você sabe, é preciso fazer merdinhas. O segundo indício é que ele tinha a cara toda retalhada quando saiu da prisão, ponto positivo para as histórias em que ele conta que apanha pra caralho só pra depois levantar e tentar dar o troco. Isso é algo meio incrível em suas histórias, a capacidade que o bicho tem pra aguentar porrada.

Outros pontos interessantes valem ser ressaltados em seu livro. Por exemplo: a fatalidade com que trata a vida bandida. Para Bunker, que foi bandido de verdade e ganhou a vida principalmente roubando jóias e falsificando cheques e cartões de crédito, a vida do crime é praticamente um caminho sem volta. Tirando a sorte que ele deu (e seu amigo, o ator Dany Trejo, que conheceu em Folsom), o sujeito que rouba e mata está fadado a morrer fazendo isso. Principalmente porque, segundo ponto, os bandidos sempre dão um jeito de chamar os outros bandidos de volta para a vida do crime. Também é interessante notar sua dificuldade para deixar o vício da heroína, uma droga que, de tão famosa por sua exposição em clássicos do cinema como Trainspotting, tem hoje alguns poucos adeptos. E por último, observar o gosto de Bunker pelos livros, ainda na prisão. Ler cinco livros por semana é uma proeza que já consegui durante uns dois meses na minha vida e que hoje em dia só é possível mesmo com uma vida de presidiário.

O livro foi editado aqui pela editora Barracuda, uma editora um tanto modesta (tem um catálogo de apenas três páginas em seu site), mas com alguns títulos supimpas que vale a pena conferir. A coleção de Bunker está quase completa (faltando talvez seu último livro Stark), e é sensacional em suas capas. Só faço minhas queixas em relação à falta de orelhas de seus livros, que, se não cuidar, detonam muito fácil. Educação de um bandido é o único livro de Bunker com orelhas, mas veja isso: em compensação, condensaram sua história em uma fonte minúscula! Quase precisa-se de lupa para ler. E poxa, publicar livro em fonte Helvetica até dá se você não tem um tostão no bolso, mas é dose! Bom, podia ser pior, podiam publicar em Times… O livro não tem muita margem e é um blocão de letrinhas miúdas, mas tem um cabeço charmoso junto à paginação. A foto da capa também é sensacional, a única que destoa do resto da coleção. E o melhor: mugshots de Bunker ao começo e ao final do livro (primeiro bem jovem e depois, velho detonado). Ainda assim, palmas para a editora Barracuda que publicou esse livro bacanérrimo. E palmas para mim que cheguei ao fim do mês com vinte posts diários (começou dia 8 e, como cristão, respeitamos os domingos). Que venha maio!

Comentário final: 381 páginas de papel pólen soft 80g/m². O que nós não daríamos por um pouco mais de gramatura, hein?

Art Spiegelman – Maus

Eu duvido que tenha algum literato conservador que visite esse blog (pelo menos periodicamente) e vá se ofender agora por tratarmos de uma graphic novel (que é uma forma fresca de chamar gibi. Como chamar roceiro de camponês e morro de colina) ao invés de um livro propriamente dito, feito de nada mais que palavras e prepotência. Em defesa da obra, é preciso dizer que Maus não é uma graphic novel qualquer. É um dos poucos (não é o único, né?) quadrinhos que venceu o exaltado — pelas pessoas, o prêmio em si é tranqüilo —prêmio Pulitzer, dado a escritores que ficam felizes e jornalistas que tendem a morrer logo depois por explosão do ego. E o pior, ganhou um Pulitzer especial (que aqui pode ter os dois sentidos de “especial”), pois não sabiam se o premiavam como ficção ou biografia. O que é uma dúvida muito da imbecil, pois tá na cara que Maus é pura biografia.

O quadrinista Art Spiegelman desfiou por páginas e mais páginas a história de seu pai judeu nos campos de concentração durante a segunda guerra mundial. Ele faz isso narrando também suas visitas ao pai, de nome Vladek, para entrevistá-lo. No livro, os personagens tem feições animalescas para apontar cada nacionalidade: judeus são ratos, alemães são gatos, poloneses são porcos, estadunidense são cães, et cætera. Essa característica marcante do livro se baseou nas propagandas nazistas que tratavam os judeus como ratos. Maus foi publicado inicialmente em 1986, aos pouquinhos,  numa revista mutcho loka que o Art Spiegelman editava, e depois foi lançada em dois volumes, apenas para depois ser compilada e chegar às nossas mãos brasileiras (porra, como eu odeio quem fala “tupiniquim”). A edição da Cia. Das Letras — selo da Companhia das Letras destinado ao público infanto-juvenil — foi lançada em 2005, apenas, ou seja, demoraram exatos dezenove anos até que uma edição nacional do livro surgisse. E tudo bem, já que Breakdowns apareceu só em 2009, não vamos reclamar, dezenove anos não está muito atrasado. Ah, o Pulitzer em questão foi ganho em 1992.

Bom, tirando os nazistas, os poloneses (que não curtiram muito serem palmeirenses no livro), meio mundo que não gosta de judeu e aqueles malucos que acreditam que o holocausto nunca existiu, quero ver alguém ler esse livro e não gostar, não se emocionar. Maus é sensacional! E acho que o mais legal do livro é o clima kafkiano com que Vladek e sua esposa Anja são conduzidos de maneira tranquila rumo ao surrealismo de Auschwitz. É como assistir ao Nó na Garganta, do Neil Jordan: de repente só tem absurdo na história e você não consegue definir onde foi que as coisas começaram a ficar daquele jeito. Por meio de Anja, mãe de Spiegelman, e de seu suicídio o autor consegue dar ao público o impacto do holocausto ao longo das gerações das famílias judias. O livro também contém (em uma versão ridiculamente reduzida) a história Prisioneiro do Planeta Inferno, sobre a ocasião do suicídio de Anja. Essa graphic novel foi publicada primeiro em uma revistinha qualquer, mas ficou famosa em seu livrão Breakdowns, e é visualmente muito bonita por tentar transpor para os quadrinhos algumas formas e ângulos do expressionismo alemão. Por isso garanto que vale mais a pena conhecê-la em seu tamanho original. De qualquer jeito, Maus é um livro que é preciso ter em casa, então por favor, trate de providenciar.

E claro, o livro tem seu lado engraçado. No caso, a persona caricata de Vladek, o típico judeu pão duro e preconceituoso, que briga no supermercado para devolver meio pacote de sucrilhos já aberto, e acusa sua namorada de estar com ele pelo dinheiro. Com isso acho que Spiegelman provou que não se meteu nessa para fugir da realidade. E não é isso que todo mundo espera?

Comentário final: 296 pesadas páginas de offset. Como diz a música, bate feio maionese.

J.M. Coetzee – Juventude (Youth: Scenes from Provincial Life II)

O livro de hoje é especialíssimo, não só porque foi escrito por John Maxwell Coetzee, prêmio nobel de literatura em 2003 (e é meu escritor favorito no momento), como também porque o livro em questão é parte da trilogia cujas primeira e terceira partes estão sendo lançadas agora no fim de abril pela Companhia das Letras. Senhoras e senhores, eu lhes apresento: Juventude!

Juventude é o que chamamos de “romance de formação”: Uma ficção autobiográfica que mostra o desabrochar (ui!) do escritor, seja para a vida literária, seja para um caráter de sua personalidade que reconhecemos em sua obra. A trilogia em questão chama-se Cenas da Vida na Província, e é formada pelas obras Infância, Juventude e, no fim de abril, Verão. A primeira parte já havia sido publicada no Brasil sem muita expressão pela editora Best Seller. Como não li nenhum dos outros dois, ater-me-ei ao que vim.

Juventude narra — ora veja! — a juventude do sul africano John Maxwell Coetzee, do fim de suas faculdades na Cidade do Cabo (em Letras e Matemática), à sua fuga/migração (a coisa estava mal para os africâneres naquela época) para Londres, onde passou a trabalhar para a IBM. Isso em 1962, época em que quase ninguém havia visto um computador na vida. O livro, narrado em terceira pessoa sobre ele próprio, é melancólico e exprime uma sensação desagradável, como os seus demais livros. Me marcou por motivos pessoais a passagem em que ele diz que assinala um S nos dias do calendário em que passa em mais absoluto silêncio, sem conversar com ninguém, simplesmente porque não conhece viva alma em Londres e DDI naquela época era um luxo.

Curioso perceber nesse livro, já que foi o único autobiográfico que li sobre ele, como o autor não esconde sua incapacidade para lidar com as pessoas e como se sentia inferior aos colegas de faculdade que dominavam as leituras clássicas na palma da mão (parece que isso mudou e que Coetzee é agora um cara arrogante, embora continue inapto para relações interpessoais).

Li poucos romances de formação (em 2007 encarei a Trilogia da Crucificação Rosada, do Henry Miller), mas Juventude, por mais curtinho que seja, é tocante. Saber que esse sujeito grandioso que é J.M. Coetzee labutou igual nós, reles mortais, numa cidade fria e esquisita que nem Londres numa rotina massacrante, para depois se tornar o rockstar (ele é o mais próximo que eu tenho de um ídolo) que é hoje é realmente animador. Dá-nos a possibilidade de viajar na maionese e aspirar a um pouco mais.

O ruim desse livro, como no livro do Tezza, é achá-lo. Se tiverem sorte, a livraria do Chaim deve ter um ou dois exemplares sobrando dele. Fora isso, internet. A coleção dos livros do Coetzee depois que ele ganhou o Nobel é simplesmente foda. Fonte Electra (um viva pra essa fonte e um Chicabon pra quem me descolá-la) é sempre bem vinda. Telas do sensacional Fábio Miguez (Google já, seu ignorante!) estampam as capas dos oito livros lançados por essa coleção. Por alguma razão que me foge, a Companhia das Letras está reformulando as capas de seus livros. Diário de um Ano Ruim foi lançado com uma capa meio esquisita e até Desonra ganhou uma nova edição com uma capa parecida. Verão vai ter ainda um outro estilo, diferente de todos os outros. É bonito, mas preferiria ter algo mais harmônico na minha estante. É coisa de maluco, eu sei.

Ah, o Irinêo Netto, editor da Gazeta do Povo, escreveu uma excelente resenha de Verão. Recomendo. Leia aqui.

Comentário Final: 184 páginas pólen soft. Sortudo vai ser quem apanhar com esse livro!