Natalia Ginzburg – Caro Michele

Alô você! Parabéns, conseguiu chegar vivo até o começo de dezembro, e até o meio da semana (sabia que quarta-feira em alemão é Mittwoch, sendo mitt = meio e woche = semana? Livrada! também é cultura, malandro!).

E olha só, não costumo falar isso aqui, mas eu tenho uma banda de roque que se chama Sua bunda. Pois bem, Sua bunda vai se apresentar nesse fim de semana no Hermes bar (se tiver interesse em ir, só mandar e-mail) e vai ser legal. Tocamos um funk metal satírico e entretemos a audiência com muito humor e pauleira. Plim-plim, cabô o comercial.

O livro de hoje tem o mesmo título em italiano e em português, por isso não precisei dos parênteses com o título original. Trata-se de um livrinho bacaninha demais de uma escritora italiana chamada Natalia Ginzburg. A moça defendeu causas nobres em vida, deu uma de antifa no rabo dos que cismaram em dar as caras na Itália depois que o Ducce foi pro pau. E, entre uma antifada e outra, escreveu este belo livro, singelo por fora, mas intenso, triste, revoltante, arrebatador, surpreendente e emocionante por dentro. (Aprendi com as resenhas de filmes que saem nas capas a classificar as coisas com os adjetivos ‘arrebatador’, ‘surpreendente’ e ‘emocionante’.) Falemos dele então.

Caro Michele é um livro totalmente (ou quase totalmente) contado por meio de cartas, endereçadas ao tal do Michele. Bom, nem sempre, a maioria das cartas são para outras pessoas, mas todas elas, ou quase todas, falam do Michele, que é um jovenzinho estudante meio porralouquinha que tá perdido na vida, morando fora de casa e preocupando a mãezinha dele, que se vê às voltas com a vida que o filho deixou para trás: amigos do filho, problemas do filho, ex-namoradas do filho, etc. O Michele mesmo não dá muito sinal de vida. Aparece com uma namorada meio doida, meio hippie, e depois arruma outra, mais velha, que quer se mudar com ele pra não sei onde. De vez em quando lembra da mãe, que está velha, cansada, acabada e sozinha, reclamando de tudo e de todos, embora demonstre grande paciência. Alinhaz, esse é um dos pontos altos do livro: os personagens são muito bem construídos, mas, manja, tipo, muito, tá ligado, bróder? Pra dedéu, morô?

Então, há a questão das camas de texto. Se você pegar o Caro Michele pra ler de boua numa tarde, vai achar uma historinha bonitinha, meio triste, mas bem tranquila. Agora, se começar a esmiuçar o livro, sacar as idiossincrasias dos personagens, entender o que há por trás de cada hesitação, cada informação ocultada, cada sorriso amarelo, vai ver que o que há é uma família destruída que se mantém pelas aparências. E quando eu digo “família destruída”, não estou querendo que vocês façam analogia a um núcleo rico qualquer de novela das oito. Digo destruída individualmente: cada um é derrotado à sua maneira, e cada um esconde sua derrota por um motivo diferente. E aí o livro que já era bom fica excelente. Vai por mim.

Por fim, acho esquisito o narrador desse livro, que dá um estarte na parada e some depois de umas duas páginas. Não sei se a autora poderia ter se esforçado um pouco mais para fazer um livro sem narrador nenhum, só com as cartas mesmo, mas o fato é que o pouco que ele aparece dá a entender que se trata de uma muleta literária, no qual Ginzburg se apóia quando sente que não vai dar conta de tratar bem a história em algum aspecto. Mas essa é só a minha impressão.

Esse livro é parte da coleção “Mulheres Modernistas” da Cosac Naify, uma belíssima coleção aliás. Gosto da cor da capa, porque gosto muito de qualquer tom de verde escuro, e de estampa xadrez também. O livro conta com fotos legais da autora, sugestão de leitura, pósfácio de Vilma Arêas (Vilmaaaaaaaaaaaaaaaa) e tudo mais o que você tem direito. Papél pólen, fonte Nofret (alguém conhece essa fonte?), capa dura e página preta em papel cartão pra dar uma reforçada na belíssima encadernação artesanal. E, tá, a Natalia Ginzburg tem mó cara de caminhoneira, ou uma dessas velhinhas amargas, mas é uma das mais gatinhas das mulheres modernistas dessa coleção. Cada baranga que você não acredita, meu deus! Tipo, terceira mensagem secreta de nossa senhora de Fátima mesmo. Visão do inferno!

Ah, esqueci de dizer: escolhi esse livro hoje porque ele foi adaptado para o cinema pelo Mario Monicelli, o simpático vovozinho que saltou no vazio essa semana. A benção!

Comentário final: 192 páginas pólen soft 80 g/m² e capa dura. Toasty! (referência obscura essa, não?)

 

Italo Calvino – O Barão nas Árvores (Il Barone Rampante)

Il Barone RampanteE aí, meus amigos, como vão vocês? Sei que hoje é domingo, mas, nesses dias, todos os dias estão sendo domingo pra mim. Estou aqui desfrutando de sombra e água fresca numa praia paradisíaca mas não esqueci de vir aqui. Vê se pode. Bom, hoje também é o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, um dos esportes mais chatos que já inventaram na história da humanidade. Por isso queria mandar um oi muito especial para quem se descambou pra Sumpaulo, pagou quatrocentos reais pra ficar surdo e ficar virando a cabeça de um lado pro outro, enfim, saiu da zona de conforto totalmente justificável e vantajosa da poltrona de sua casa pra ver garotos ricos gastando gasolina em plena guerra do petróleo.

No último post, sobre o Dia da Coruja, nosso amigo Lucas comentou (aliás, os comentários estão rareando. Seria hora de uma nova promoção?) que não conhecemos os escritores italianos como deveríamos. Por isso resolvi falar aqui do Italo Calvino (de novo! e, por favor, vamos tratar de esquecer que ele nasceu em Cuba, ok?), porque se não somos lá muito íntimo dessa turma que curte um rondelli e uma mina gordinha, podemos bater no peito e dizer com orgulho que O Barão nas Árvores é figurinha carimbada na estante da galera. Isso porque tá pra nascer quem não goste desse livro emocionante, maravilhoso, estrogonoficamente sensível e inoxidável, segundo volume da trilogia Os Nossos Antepassados, que ainda contam com O Cavaleiro Inexistente (já resenhado aqui) e O Visconde Partido ao Meio (quem sabe um dia). Fala sério, vocês aí que não curtem unanimidades, não é por nada não, mas esse aqui é o novo Pequeno Príncipe, e eu sonho com os dias em que as belíssimas candidatas a miss universo citarão essa obra ao invés da outra, do Saint-Exupéry.

Pra quem não sabe, vou contar um pouco da historinha. Mas depois, vergonha na cara e dinheiro na mão, vá gastar um pouco do dinheiro que você despenderia com goró e compre um novo clássico. Bom, o barão nas árvores a que o título se refere é o protagonista do livro. E você achando que era uma referência abstrata a algo que não existe, do tipo “A Bruxa de Blair 2 – O Livro das Sombras”, no qual você descobre todo desapontado após duas horas, que não tem bruxa nem livro nenhum no filme. Trata-se do barão Cosme Chuvasco de Rondó, que, em um belo dia, resolve dar um piti infectado na mesa do jantar e renegar a grana do papai, o barão de Rondó. Daí, resolve subir numa árvore e passar o resto de sua vida empoleirado, acho que para não botar os pés nas terras do pai e nas terras de mais ninguém, mas vai saber. E resolve viver uma vida contributiva, inventando coisas que melhorem o seu conforto nas copas, coletando e compilando conhecimento e filosofia. Arruma até mesmo uma esposa e um cachorrinho, que se chama Ótimo Máximo e que, dentro da minha concepção, é um nome bem aceitável para um canídeo.

Acho que o Calvino quis mostrar com esse livro é como a vida pode ser vivida do jeito que se desejar, e que, independente da vida que levamos hoje e do ambiente em que nascemos, é sempre possível dar um salto para a originalidade e para a auto-realização, mesmo que isso signifique ser confundido com um muriqui de vez em quando. A história é narrada a partir do caçula do barão, que tem um olhar muito apaixonado e, ao mesmo tempo, distante e amargurado por não poder estar próximo do irmãozão. Isso aí foi a maior malandragem do autor, porque aí é facinho se emocionar junto com a narrativa.

O Barão nas Árvores mescla direitinho as duas facetas do autor: a fantástica, fantasiosa e emocionante, que é muito legal, e a realista, que é chatona (sério, não gosto dos livros da primeira fase dele). E, curiosamente, o lado fantástico arrastou suas razões para o livro. São totalmente imaginativas, porém plausíveis, as maneiras que ele inventa para fazer com que seu protagonista viva em cima das árvores. Engenhoso sim, mirabolante não. Pensem nisso.

De todos os livros da coleção do Italo Calvino lançado pela Companhia das Letras, esse é um dos mais bonitos, na minha humilde opinião. Embora seja “azul incomodante número 3”, tom do qual a Carlinha não gosta, mas ficou muito bonito, mais do que o “azul incomodante número 5” do Assunto Encerrado, coletânea de ensaios dele lançada ano passado. No resto, é igualzinho a todos os outros livros da coleção, com tradução do Nilson Moulin. Aliás, fiz uma constatação: já li todos (ou quase todos) os livros do Calvino traduzidos pelo Moulin. Todos os outros que eu ainda não li estão traduzidos por outras pessoas. Uma dessas coincidências.

Ah sim: O Cordel do Fogo Encantado fez uma música em homenagem a esse livro, prova que ele vai é o novo Pequeno Príncipe, falei?

Comentário final: 256 páginas em papel pólen. Perfeito pra derrubar muriqui dos galhos da sua amendoeira. (brincadeira, hein, Ibama?)

 

William Kennedy – Ironweed

Hoje eu to sem saco pra enrolar vocês por três parágrafos. A verdade é que toda vez que eu vou falar desse livro meu senso de humor se escoa pelo ralo como resto de miojo que fica na panela. Vamos direto ao ponto, então.

Ironweed é um livro que compõe o tal “Ciclo de Albany”, do escritor estadunidense William Kennedy. O “Ciclo” é uma série de sete livros até o momento (atualmente o escritor está finalizando o oitavo) sobre a cidade de Albany (e você achando que fosse sobre aquele sabonete com cheiro esquisito), capital do estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Já viu estado em que a capital é menor do que outra cidade de seu interior? Pois é, só Santa Catarina e Nova Iorque mesmo. As histórias dos livros têm Albany como pano de fundo para diversas histórias, mas eu não sei dizer quais são porque até agora a Cosacnaify só lançou dois títulos: O grande jogo de Billy Phelan e Ironweed. No primeiro, um rapaz meio viciado na jogatina que se recusa a ser X-9 mas ninguém acredita e começam a lhe fechar as portas.

Já em Ironweed, o protagonista é Francis Phelan, pai de Billy. Francis é um ex-jogador de beisebol que já não era lá essas coisas. Alcoólatra, pobre, devendo as calças pra venda e corno manso que só ele, volta à cidadela onde cresceu e fez fama pra confrontar seus fantasmas. E quando digo “fantasmas” não estou falando em sentido metafórico. Ele realmente fala com os mortos da lembrança dele, pessoas que tiveram seu fim de alguma forma relacionado à sua experiência. Isso aí de falar com fantasminha irritou muita gente que eu sei, mas falemos disso depois.

Francis tem uma mulher chamada Helen Archer, uma ex-cantora que, agora decadente, vive de favor dos outros. E também um amigo chamado Rudy, que além de ser pobre e dever as calças pra vendinha, tem câncer e vai morrer. É, amigo, como diz o Marcelo D2, “tá ruim pra todo mundo, o jogo é assim”. Os três vivem fazendo uns bicos na época da Grande Depressão (não, não é o show do Los Hermanos, é a consequência da crise da bolsa de 1929), matando um leão por dia em uma época em que o Ibama não pegava no nosso pé por isso. Então, passando pela humilhação, pela a bebedeira, pelo desbarrancadeiro, pela grana curta e pelos ectoplasmas inconvenientes, Ironweed é o clássico romance de bebum que Charles Bukowski explorou ad nausea, e por isso tem tudo para fazer o maior sucesso entre aquela raça de pessoa com o prazo da adolescência vencida que se passa nos bailinhos e curte óculos de sol maior que a própria cara.

Encanei com uma coisa nesse livro, que foi a linguagem. Mesclando vários estilos, o livro foi comparado ao Retrato do Artista Quando Jovem, do Joyce, mas eu, na humilda, acho que é inconsistência de quem não se planejou nesse sentido. Vamos combinar que se você é foi um cara com metade da sagração bovina de um Joyce o seu direito de pirar o cabeção nas suas escrivinhaduras não está exatamente legitimado. Mas calma, todas as oscilações de estilo ao longo do livro não são capaz de provocar a mesma fúria que causa um único parágrafo do Lobo Antunes, aquele xarope.

Ah sim, Ironweed foi adaptado para o cinema por Hector Babenco, aquele diretor que parece famoso, mas que na verdade nunca fez nada que você tenha visto, a não ser Carandiru. O filme tem estrelas do naipe de Jack Nicholson no papel de Francis, Meryl Streep no papel de Helen e Tom Waits no papel de Rudy. É praticamente um NBA de atores no mesmo filme. Eu comecei a ver, mas não terminei porque comecei a babar na gola da camisa. Ô filmim chato do caraça. Sempre dizem que o livro é melhor do que o filme, e até dá pra entrar numa discussão sobre o assunto em alguns casos, mas nesse não. Comparado com o filme do Babenco, o livro Ironweed é um porrilhão de vezes melhor. Quem viu, tá ligado.

Preciso mesmo falar do projeto gráfico? É da Cosacnaify, gente, não tem o que discutir. Tem até um alto-relevo na capa, foto sensacional, fonte ótima, papel ótimo, tudo nos trinques. Os livros do “Ciclo de Albany” seguem o mesmo projeto, e, putz, vou parar de falar pra não ficar babando ovo.

E aí vocês me perguntam: “Mas Yuri, e aquela crítica séria, engravatada, sóbria, que não enrola a gente e — essa sim — parece inteligente?” Meus caros, já sabem, é lá na revista Paradoxo. Nessa semana, o livro de Haruki Murakami que pôs todo mundo pra correr. Passa lá!

Comentário final: 272 páginas em capa dura. Quebra os óculos de sol maiores que a cara e revela o que tem por baixo deles: horror! Horror!

Italo Calvino – Se um viajante numa noite de inverno (Se una notte d’inverno un viaggiatore)

Se una notte d'inverno un viaggiatoreDia 15 de outubro seria o aniversário de Italo Calvino, o rapazote das ideias mei malucas faria 87 anos hoje. Pelo menos eu acho que é isso, ele nasceu em 1923, não sei fazer as contas direito. Se soubesse, afinal, estaria enchendo o rabo de grana na engenharia. Então achei que seria uma boa homenageá-lo falando aqui do primeiro livro que eu li dele.

Se um viajante numa noite de inverno é um livro publicado em 1979, mas quando ele saiu nem me liguei muito porque a minha vida era um saco. Somente anos depois, em 2007, resolvi lê-lo, por indicação da Manu Salazar, que insistia que eu iria gostar da literatura do autor. Aí um dia ganhei ele do meu pai. Dois autores que nunca tinha lido: Italo Calvino e James Joyce, peguei um exemplar de cada autor e pedi para que meu pai, que não é nada chegado em livros, escolhesse. Ele escolheu o do Calvino, ainda bem, imagino eu.

Li o livro quando estava mudando de casa. Nunca vou me esquecer de um dia em que estava lendo ele no meu apartamento novo, que ainda estava em reformas. Uma tarde de frio e uma chuva desgraçada, eu deitado em uma esteira improvisada de papelão sobre o chão repleto de pó de cimento. À noite tinha ópera ainda, estava começando o namoro e a Carlinha, que estava deslumbrante, teve como acompanhante o sujeito mais mal vestido de todo Teatro Guaíra. Assisti ao Rigoletto tossindo pó de obra e fedendo como um cavalo suado. Anotem aí: coisas a não se fazer nos primeiros encontros.

Bom, Se um viajante… é um livro metalinguístico, pra dizer o mínimo. Trata de um sujeito que vai na livraria comprar justamente o Se um viajante numa noite de inverno, do Calvino, e começa a ler, achando super legal, até que descobre que seu exemplar veio com um defeito da gráfica: após a página 32 o livro volta ao começo, um erro na montagem das brochuras. Se vocês não sabem, cada gominho de páginas de um livro com esse tipo de encadernação tem 32 páginas, então o exemplar do protagonista estava repleto dos mesmos gomos. Então ele volta à livraria para trocar. E eis que o vendedor dá uma olhada no livro e afirma que aquela história não é do Italo Calvino, e sim de um outro autor, romeno se não me engano. Como o sujeito já estava totalmente envolvido no enredo, solicita um exemplar do livro desse segundo autor. Quando começa a lê-lo, tchanam! É outra história. Assim, entremeado de fragmentos de livros que sim, parecem todos excelentes, o protagonista se esforça para conseguir ler pelo menos um livro inteiro, enquanto, de quebra, tenta faturar uma mocinha. Sério, tem como não gostar de um mote desses?

Extremamente complexo, Se um viajante em uma noite de inverno, além de explorar diversos gêneros de literatura (todos demonstrados em um organograma no apêndice, em resposta a um crítico italiano), comenta, en passant, as nuances que envolvem a leitura e que estão intrinsecamente conectadas à escrita. O fato de 32 páginas serem suficientes para envolver alguém em uma leitura, por exemplo. Convenhamos que, hoje em dia, livro que não esteja engrenado até a página 30 tá no sal. Neguinho coloca de lado e vai jogar videogame mesmo, sem dó nem piedade. Até a época em que Calvino escreveu esse livro, porém, não era raro o livro engatar lá pelo terceiro ou quarto capítulo. Talvez seja uma alma de contista que se encerre nos romancistas de hoje em dia, quem sabe?

Ah sim, deixei o melhor pro final: a narrativa do livro não é em primeira ou terceira pessoa. É — se é que isso existe — em segunda pessoa! Isso mesmo, o narrador fala diretamente com o protagonista, que é você mesmo, que lê o livro. Isso sim é entretenimento, hein? Se liga no começo:

“Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo à sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros ‘Não, não quero ver televisão!’. Se não ouvirem, levante a voz: ‘Estou lendo! Não quero ser perturbado!’. Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: ‘Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!’. Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz.”

Fala sério, maneríssimo, né não? Acho que esse começo fala do livro por si só.

Bom, o projeto gráfico da Companhia das Letras é lindíssimo, mas causou confusão pro meu pai “Que são esses retângulos aqui na capa? Que tem a ver isso com o livro?”, ele perguntou. A coleção do Calvino é uma das poucas da editora com fonte Garamond, mas vale a pena, dá um toque de finesse pro alfarrábio. A tradução é de ninguém menos que Nilson Moulin, que traduziu do italiano também o A Cada um o Seu, do Leonardo Sciascia, que eu já comentei neste blog. Sem o Nilson, tava todo mundo ferrado, minha gente, deus abençoe os bons tradutores. No mais, papel pólen e uma capa verde musgo, talvez a minha cor favorita (deu pra perceber nesse blog ou não?).

Comentário final: 275 páginas em pólen soft. Pimba em quem tá com a televisão ligada!

 

Yasunari Kawabata – O Lago (Mizuumi みづうみ)

MizuumiCantemos felizes a canção do dia, hoje é quarta feira, dia de alegria! Crianças, hoje é um dia muito especial! Trata-se do casamento do amigo Cássio “Cabôco” Capiroba com a amiga Denise! Parabéns aos noivos! Por isso hoje eu vou escrever essa resenha rapidinho, porque estou saindo para dar uma palestra na faculdade e depois vamos comemorar na churrascaria e comer até perder a dignidade! O meu tipo ideal de programa: ver os amigos, abater algumas almas no curral, comer até o toba fazer bico e celebrar a vida, que pode ser muito boa, basta querer… ir até uma lotérica e fazer aquele joguinho campeão.

Passado o nariz-de-cera de praxe, vamos ao que interessa: literatura japonesa! Sabem, a literatura japonesa é muito parecida com a comida japonesa: é pequenininha, não sacia muito, é tudo meio-morto-meio-vivo, tem que ser muito delicado pra apreciar e é tida como coisa de gente fresca e/ou muito esquisita. Mas vamos mudar isso tudo! Vamos fazer as pessoas lerem mais esses “japas matadores de baleia”, como gosta de lembrar meu camarada Michel “Le Chackal” Melo (ele falaria agora “você é um camarada!”). A literatura japonesa pode ser muito rica se nós abrirmos nossos olhos para ela (“abrir os olhos”, hã? Hã?). Falo em abrir os olhos porque é preciso ver a literatura com os zóio certo. Explico um pouco sobre isso antes de tratarmos do livro em questão.

Como qualquer cultura distante da nossa, podemos encarar a coisa de duas formas: sob um véu de misticismo, achando aquilo tudo uma onda mutcho loka, uma viagem a outro planeta (e sério, os japoneses são o povo mais próximo do povo marciano que vocês vão ver, então contentem-se), e por isso, apreciar cada detalhe que nos distancia daquele universo. Ou, ao contrário, enxergar um autor japonês como enxergaríamos um autor ocidentalizado, como um mexicano desbotado. Isso! O japonês é um mexicano desbotado! Podem começar a circular essa frase pela internet dizendo que foi o Luis Fernando Verissimo que escreveu. O que queria dizer é que podemos tirar todo exotismo presente e encararmos aquilo como mais um livro. E, acho eu, a melhor das opções é a segunda, pois é só assim que você consegue se aprofundar na história sem ficar todo bobão olhando pros lados e tirando foto de tudo igual ao estereótipo do turista de camisa florida e bermuda branca. E claro, deixar-se maravilhar pelo universo totalmente diferente que está sendo apresentado a você, mas nunca deixar que isso barre você às portas da percepção do romance. Explicado então, continuemos.

O Lago é um romance do Kawabata publicado originalmente em 1954, no ano daquela Copa em que a gente tomou sacode nas quartas da Hungria. DA HUNGRIA! Pela madrugada, e depois reclamam do Dunga… Bom, a história fala de um ex-professor, o senhor Ginpei, que é, na melhor definição, um stalker. Ele acha que encontrar as gatinhas na rua é muito triste porque o encontro está já fadado a ser efêmero pela sua casualidade, então resolve colar no calcanhar das moças e sair bancando o sombra. A partir daí, Kawabata vai contando as histórias dessas moças seguidas, mostrando que o narrador onisciente é o stalker mais bem sucedido que existe. O desdobramento das histórias, na relação direta com o professor Ginpei, é de doer o coraçãozinho. Só lendo pra ver.

Yasunari KawabataGosto nesse livro excepcionalmente do comecinho, quando ele vai a uma casa de banho e uma moça começa a lhe esfregar as orelhas, os pés, dá banho nele e o escambau. É uma parada relaxante só de ler. Acho que é isso que Kawabata queria com aquela corrente neo-sensorialista que ele defendeu no Japão, a tal da shinkankakuha. Ele realmente consegue te levar numa montanha russa de sentimentos, o mais próximo que nós, a macharada, vamos chegar da TPM.

Diz lá na orelha que Ginpei é muito diferente dos outros personagens do Kawabata por ser destruído e doentio, mas eu acho que, muito pelo contrário, ele é o típico personagem do autor. Primeiro, qual personagem do Kawabata não é doente da cabeça? Garanto que, se analisar bem analisado, o sujeito bate pino mesmo. Segundo, o Ginpei é maluco-beleza, gente. Inofensivo e sensível à presença feminina, como Eguchi, como o sujeito sem nome da Dançarina de Izu, enfim, Kawabatiano (hahaha mentira que eu falei isso, esquece).

O projetinho da Estação Liberdade é realmente gracioso. A coleção do Kawabata inteira é. Apesar do papel pólen soft e da fonte Gatineau, que não combina em nada com a folha, os livros tem um acabamento bom, capas a partir de imagens de Midori Hatanaka, feitas em folhas de ouro, ideograma com o título original na capa e na página 7, e uma tradução que erroneamente pensei que fosse grossa conosco ocidentais, ao me ver sem saber o que era um furoshiki. Mas foi só isso e, de resto, notas de rodapé esclarecedoras fazem a leitura muito mais familiar para quem tem olho redondo.

PS1: Japoneses do meu Brasil. Tudo bem que brinquei e fiz algumas piadas com vossa honorável etnia mas, por favor, sem mandar eu lavar o meu pescoço, isso aqui é só uma brincadeira e, se vocês olharem bem, não falta sacanagem pra ninguém por aqui. Gosto muito de vocês, viu?

PS2: Tô vendendo meu PS2, vem com memory card e uns 30 jogos. Tratar aqui.

PS3: Não quero comprar até que tenham inventado o Blu-Ray pirata.

PS4: Ainda dá tempo de enviar a foto da sua estante de livros para o bloglivrada@gmail.com Manda lá, cabra da peste!

PS5: Assinem o RSS! Ou sigam-me no twitter: @bloglivrada. Gracias.

Comentário final: 163 páginas offset. É como jogar betes com hashi, não vale a pena.

Gabriel García Márquez – Memória de minhas putas tristes (Memoria de mis putas tristes)

Memoria de Mis Putas TristesIh, que isso? Geral desanimado? Faço um post sobre o Coetzee e isso aqui fica jogado às moscas? Vamos reagir aí, galera, a vida é boa, ou pode ser boa, só depende de você e de seis números de 1 a 60, certos na hora certa.

Hoje vamos cá falar nesse post mais curto, sobre um livro curto do Gabriel García Márquez, último lançado por ele se não me engano. Tudo bem que ele ficou doentinho por esses dias, mas prêmio Nobel do saco roxo escreve livro até quando tá com cara de tartaruga velha, como o finado Saramago (que Deus o tenha). Não gostaria que esse fosse o último livro que ele tenha escrito porque, venhamos e convenhamos, esse livro aqui é meio frustrante. Mas já falemos dele. Antes, um pouco mais sobre o autor.

Pra mim, o leitor de García Márquez é uma completa incógnita. Você consegue até imaginar um estereótipo para um leitor de Crepúsculo, para um leitor de Bukowski, para um leitor de Philip Roth, para um leitor de Almeida Garret, para um leitor de bula, para um leitor de frase de pára-choque de caminhão. Agora, pára e pensa: quem é o leitor de García Márquez? E uma nuvem surge na sua mente. Não dá pra saber. Principalmente quando o assunto é sua tríade máxima: Cem Anos de Solidão (o mais famoso), O Amor nos Tempos do Cólera (o mais bonitinho, que virou filme) e este livro de hoje (o último que saiu, vende até em balaião de livros do Extra). Cabeludões e barbudos das ciências humanas leem, dondocas do Jambalaya Ocean Drive, da Barra da Tijuca leem, adolescentes espinhentos de 15 anos leem — até a minha vó, aquela que gosta de Quando Nietzsche Chorou, lê. Ou seja, temos aí um emaranhado de estereótipos de leitores que não nos permite saber quem é o público alvo do autor. Isso é um problema grande para as editoras, que ficam sem saber como promover o livro. Esse livro, em especial, é tão popular, que foi o primeiro título que pude constatar uma versão pirata. O amigo Cássio tem um exemplar pirateado, coisa mais engraçada do mundo. Nunca imaginei que isso existisse.

Enfim, Memória de Minhas Putas Tristes (é uma memória só, mas é tanto plural no título que não conheço uma só pessoa que não o chame de “memórias de minhas putas tristes”) está para A Casa das Belas Adormecidas, do Kawabata, assim como Sete Homens e um Destino, do Sturges está para Os Sete Samurais, do Kurosawa, ou como Risco Máximo, do Van Damme, está para Caçador de Kickboxer, do Lorenzo Lamas. É chupado sim, amigo, chupadão. Ao menos, é uma “referência” (é, na literatura chama ‘referência’, porque todo mundo é bem educado e tem um Nobel em casa) explicitada na epígrafe do livro, embora seja uma epígrafe tirada da primeira ou segunda página. Mas a orelha, extremamente esdrúxula por sinal (perdão ao autor), trata de entregar as outras ‘referências’ que ele pegou pra fazer o livro: Lolita, do Nabokov e Morte em Veneza, do Thomas Mann (não li, confesso), além de Bela Adormecida, do Perrault. Tudo isso para contar a história de um velhinho jornalista que se apaixona por uma candidata a puta menininha, de 14 anos que — pasmem vocês! — descobrimos que também está apaixonada pelo velho nonagenário. Aí eles ficam umas cem páginas num joguinho de gato e rato e dá-o-doce-tira-o-doce (o doce é isso aí mesmo que vocês pensaram) até que eles se entendem nas últimas cinco páginas, eu acho. Sem querer desmerecer o grande autor, mas que ficou xoxo, ficou. Acho muito difícil achar um leitor costumaz de seus livros que tenham se encantado com esse. A exceção se abre quando, claro, o leitor em questão não leu nenhum desses livros que foi referência para ele. Mas hey, é só a minha opinião, sintam-se livres para discordar.

Gabriel García MárquezO projeto gráfico da editora Record para esse livro é, no mínimo, misterioso: ao passo que foi mantida a lombada de seus outros títulos, bem como a tipologia dos dizeres da capa, aquelas pinturinhas que vinham emolduradas por um livro de uma cor só deram lugar a uma triste foto de um velhinho indo embora para um fundo branco e indefinido, algo do tipo “García Márquez tá indo em direção à luz, gente, vamos dar tchau” (se ele morrer amanhã eu vou me sentir culpado por ter feito esse comentário). Mas, ao menos, é uma evolução do projeto gráfico dos outros livros dele, que tem uma diagramação de página horrível: blocos e blocos de texto em letras negritadas em papel offset muito, mas muito, branco. Dá vontade de passar a borracha nas letras pra ver se ficam com mais contraste com o fundo. Nesse livro não: fonte Minion corpo doze (doze! Que milagre), papel pólen e um cabeço na parte superior que não fede nem cheira, apesar da paginação ser em cima também. Ah, e tem um ponto positivo muito importante: a tradução é do Eric Nepomuceno, fodão.

Ah, e o convite ainda está de pé: mandem fotos de suas estantes de livros comentadas para bloglivrada@gmail.com Aguardo! E lembrem-se: o planeta é de vocês.

Comentário final: 127 páginas pólen soft. Nhé…

J.M. Coetzee – Homem Lento (Slow Man)

Homem LentoBom dia, todo mundo! Enquanto este post está sendo lançado no oceano da internet, Fernando Alonso está em Cingapura, largando na frente de todo mundo e cantando “cuidad de las ideas  donde pasas por la noche y encerrado en el silencio de los bosques”. Correndo como o vento e ouvindo Vicente Amigo NO TALO. Mas deixa esses caras pra lá, bora falar de literatura que esporte não é droga. Chega de esporte, portanto.

Tava aqui só me enrolando para falar de Homem Lento. Não escondo que esse livro tá entre os melhores da minha vida. Diria que tá no Top 5, mas desde que eu vi Alta Fidelidade não faço esse tipo de listagem. Filme pentelho do caraças. Divaguei. Dizia eu que esse livro é essencial constar aqui, porque até agora todos os livros do Coetzee de que tratei foram da trilogia Cenas da Vida na Província que, convenhamos, não é a melhor leitura para se iniciar no autor. Homem Lento, por outro lado, é o livro perfeito para tal finalidade. Posso dizer por experiência própria. Li esse livro na volta do feriado de Finados do ano passado, em um voo chatão desses com escalas em Congonhas (se bem que no último que eu peguei, encontrei o Serguei em Congonhas, foi maneiro). Li metade dele entre Rio e Curitiba, e isso pra mim é um sinal claro de que o livro é bom mesmo. E digo o porquê.

Homem Lento é a história de Paul Rayment, um sexagenário que, um dia, enquanto dava uma volta de bicileta ouvindo música de pai NO TALO, tipo Whitesnake (mentira, ele não tava ouvindo nada), é atropelado por um carro. Bom, velho quando cai no salão do baile da terceira idade já é uma desgraça — no mínimo quebra a bacia — agora imagine ser atropelado por um carro. Os médicos se veem obrigados a amputar uma de suas pernas (direita, esquerda, direita, esquerda, direita, direita, direita… alô poesia concretista!), e ele passa a receber os cuidados de uma pobre enfermeira croata chamada Marijana (lê direito, seu maconheiro!), que vive um casamento conturbado e tem um filho rebelde adolescente pra piorar a equação. E, claro, um velho solteiro, traumatizado, sendo cuidado por uma enfermeira (alôôô, enfermeira!), não poderia dar em outra: o idoso cai de amores pela quarentona esquisita que cheira a cigarro e ovo frito. Isso do cheiro dela eu inventei, na minha cabeça ela parece a Toni Colette, só que mais velha e destruída. Então, coitada da moça afinal, pobre, imigrante, enfermeira, alvo da cobiça de um marido traste e um velho perneta, em quem ela dá banho de esponja quando não está perdendo os cabelos com o filho.

Gosto desse livro primeiramente pela escrita fluída.  Não adianta nada o cara ser um jeito e fazer das palavras bolinhas de gude, jogadas no nosso caminho pra gente ir tropeçando e escorregando a cada linha. E esse livro passou por rigorosos testes de qualidade: minha vó leu e gostou. Aliás, foi ela quem me deu o livro, presente de aniversário, ela tava esperando eu ir para o Rio no feriado e resolveu começar a ler para saber se era legal e leu o livro de cabo a rabo. Isso me fez pensar duas coisas. Primeiro que não é prudente pedir livros do Pedro Juan Gutierrez para minha vó, vai que ela começa a ler. Segundo que, se ela, que curte clááássicos como Quando Nietzsche Chorou, Caçador de Pipas e A Menina que Roubava Livros, leu e gostou, o livro é gostoso de ler mesmo. Outras pessoas leram e podem confirmar o que eu digo. Mas — e aí temos o grande tchananã do Coetzee — só porque ele é de fácil leitura, não quer dizer que ele seja raso. Pelo contrário. Tive a nítida sensação de que o sul africano é preciso nas suas frases, e as ideias que ele insere no subtexto, ou mesmo no texto descarado, são cirurgicamente expostas: pensamentos simples, limpos, claros como água e no timing certo. Não é que nem eu, que coloco um parêntese a cada linha que escrevo (e olha que esse parêntese que abri agora é o primeiro do parágrafo. Tô melhorando, aê! Mas agora você vai dar uma de oráculo do Matrix e se perguntar se eu teria aberto esse se não tivesse mencionado meu vício por parênteses).

John Maxwell CoetzeeO que eu admiro nesse livro, e que faz ele ser um dos meus favoritos é sua pluralidade de sentidos. Homem Lento pode ser uma história sobre um velho que perde uma perna e fica independente se você quiser. Também pode ser um livro sobre a velhice, no melhor estilo Philip-Roth-depois-que-o-Viagra-acabou, e sobre a dependência dessa idade e o apego a certas coisas, a vitimização natural da terceira idade, etecetera. Ainda pode ser uma história sobre o frágil mundo intelectual e seu choque — carregado de sedução — com a (podemos chamar assim) “vida simples”, das pessoas que prescindem de arte, livros outras coisas de gente fresca. E, claro, para quem é um fanzasso de Coetzee, pode ser uma história fantástica de um personagem criado por ele que recebe a visita de outro personagem, de outro livro: Elizabeth Costello, alter-ego do autor. Eu acho que, depois desse livro, tinham que dar um outro Nobel pra esse maluco, por ele ter ficado milionário e deixar o cruzeiro na Grécia de lado para escrever essa obra maravilhosa. Recomendo esse livro mais que ator da Globo recomenda que você vote conscientemente nessas eleições.

Já falei do projeto gráfico da coleção do Coetzee quando resenhei o Juventude, mas, só para refrescar a memória: capa baseada na pintura do Fábio Miguez (Google já se você ainda não sabe quem ele é), fonte Electra, papel pólen e tudo mais. Sem me aprofundar nisso hoje, procurem os outros posts do autor se quiser saber do belíssimo trabalho do João Baptista da Costa Aguiar, valeu?

A propósito: acho que o pessoal curtiu o último post, sobre hábitos de leitura, afinal, foram muitos comentários e muitas visitas. Pretendo fazer outro desses em breve, mas para isso, gostaria da colaboração de vocês: enviem fotos das estantes dos senhores e senhoras, e falem-me dela, se existe alguma organização de seu critério, e qualquer outra informação que gostariam de comentar. Para mandar, é fácil: escrevam para bloglivrada@gmail.com Tranquilis?

Ps: Acho que ninguém sabe, mas escrevo os posts em um documento de Word que fica numa pastinha especial para o blog, onde arquivo fotos de capas e autores. Pois não é que cheguei à página 100 do documento? Bom, tudo bem, poderia estar desperdiçando minha juventude com outras coisas socialmente menos aceitas, como esculturas de palito de sorvete ou torneios de RPG.

Comentário final: 277 páginas pólen soft. Cada porrada é um flash!

Ismail Kadaré – O Acidente (Aksidenti)

O AcidenteFala aí, meu povo, tudo certo? Viram só, o último livro teve comentário ilustre do próprio autor. Um abraço pro Xico Sá aê! E não, eu não fui lá mostrar o meu blog imbecil pra ele, não sei como o cara achou. Mas enfim, achei legal e vamos tentar fazer mais autores visitarem a espelunca. O livro de hoje é do Ismail Kadaré, e ele tá vivo. E pô, se o cabra fala albanês, português pra ele deve ser pito! Quem tem a moral de ir lá esfregar essa resenha naquela cara de Augustinho-da-Grande-Família-depois-do-desterro dele? Quem tem? Tô desafiando!

Antes de começar a falar do livro, uma pergunta para vocês: estou pensando em colocar aqui no espaço outros textos relacionados a hábitos de leitura e aspectos físicos do livro, o que acham? Digam lá nos comentários.

Pois muito bem. O Acidente é o último livro do albanês Ismail Kadaré. Sim, ele, o amargurado, o tio sério que não gosta de piada, o sujeito massacrado pela cultura do país, o cara que queima muitos ATPs para dar uma risada, o paladino blasé. Nesse livro, a história não podia ser mais down: um acidente de carro que mata um casal, logo na primeira página, intriga investigadores e detetives com muito tempo livre que resolvem reconstituir o passado dos dois porque se descobre que o rapazinho tem ligação com o governo. Pelo menos foi isso que eu entendi, rá rá rá.

E aí o levantamento do passado dessa relação dos dois revela uma paixão doentia, com mulheres virando prostitutas, lésbicas, casaca, olhinhos por boçais, etc. A história dessa tensão sexual entre o cabra, Bessfort Y. e a mulher, Rovena St., é tensão de verdade, não é aquela coisa afrescalhada do Vermelho e o Negro. E, claro, é triste pra caramba, a bichinha tá num mato sem cachorro e parece que nem percebe. E o bonitão lá, na rédea curta com a moça, fazendo ela de gato e sapato feito aqueles safados que seqüestram garotinhas na Austrália por não sei quantos anos. Nada bom para a bunda da Rita Cadillac, ou, como ela chama, o moral.

Penso que, como tudo na escrita de Ismail Kadaré é política, essa relação entre Bessfort Y. e Rovena St. pode representar a tensão entre sérvios e albaneses, já que cada um do casal é ligado a um dos países. Mas, já fazendo a minha mea culpa, não vou entrar nesse mérito por saber quase nada do assunto. A gente aqui fala besteira, mas fala com propriedade, valeu?

Ismail KadaréAgora, vejam só vocês como são engraçadas as coisas: o release do livro, e a orelha, usa o termo “acontecimento banal” para descrever o acidente de carro que mata o casal protagonista, querendo dizer que o caso não mereceria normalmente a atenção que ganhou por parte dos investigadores do governo. E isso acontece porque o autor inicia o livro com o mesmo termo, para assegurar o leitor de que o tal “acidente” do título não é esse do carro. Mas faça aí uma busca rápida no Google e veja quantas críticas e resenhas a esse livro também se referem ao acidente como “acontecimento banal”. Desde quando acidente de carro que joga as pessoas contra o pára-brisa, os corpos saem voando e se arrebentam no barranco é “acontecimento banal”? Pô, será que esse povo não viu À Prova de Morte, do Tarantino? Será que todo mundo agora é crash test dummy pra achar acidente de trânsito corriqueiro? Coé, críticos do meu Brasil, vamos parar de repetir o que vocês leem no release igual coro de música do Afrika Bambaataa e vamos admitir que esse acidente foi coisa feia sim!

Eu não sei se eu tava com muito sono quando li esse livro, mas o fato é que achei a leitura dele bem lenta e arrastada, dada a complicações pela troca constante de estilo que o autor usa na narrativa. Uma parada meio saramaguiana que rola por umas páginas faz o peão rodar bonito e ficar mais perdido do que filho da p*** em dia dos pais. Nem por isso o livro é ruim, só demora a pegar no tranco (ou quem demora sou eu, não sei). Da metade em diante ele fica excepcionalmente bom, e o final é uma porrada na sua cara. Aposto que por um desfecho como esse vocês não esperavam. Pensem só como alguém pode inventar e surpreender numa história onde você sabe que os protagonistas já estão mortos?

Esse projeto da Companhia das Letras ficou bem bonito, mas me dá uma tristeza no coração quando os caras fazem uma coleção bem bonitinha do autor e aí resolvem mudar o padrão. Gostei das cores, principalmente: cinza e azul petróleo (azul petróleo é como eu chamo qualquer azul que eu não sei que azul é). A tradução ficou por conta, como sempre, do grande Bernardo Joffily, que traduziu a bagaça direto do albanês. Direto do albanês, gente! Acendam uma vela pra esse homem hoje à noite, que ele merece. A capa é de um cabra chamado Fabio Uehara, e, sei lá, eu gostei bastante, tá mais espontâneo que as capas da coleção do Kadaré, então ponto pra ele. Mas bem que poderiam mudar as capas então, né? No mais, papel pólen e fonte Electra, padrão da editora para caras tristes como esse. E o título original, Aksidenti, fez você aprender pelo menos uma palavra em albanês, aê garoto!

Ps: Por que diabos a letra ficou tão grande hoje?

Comentário final: 232 páginas em papel pólen. Pimba na gorduchinha (na gordinha mesmo, não na bola de futebol).

Chinua Achebe – O mundo se despedaça (Things fall apart)

O mundo se despedaçaE aí galera, como vocês estão? Eu tô um bagaço, preciso começar a ganhar dinheiro com esse negócio de crítica, senão to ferrado. Ficar fazendo isso no contratempo é ruinzão. Mas hey, vocês não vieram aqui para me ouvir reclamar da vida, né? Então vamos ao que interessa.

Um dos mais requisitados “termos de motor de busca”, ou seja, as palavrinhas que trazem os leitores ao meu blog (e que de vez em quando me surpreendem com coisas bizarras que eu, volta e meia, jogo lá no twitter para divertí-los também por lá) é “literatura da Nigéria”. Isso acontece porque, logo quando eu estava começando o blog, resenhei um livro da autora Chimamanda Ngozi Adichie chamado Meio Sol Amarelo (aliás, o nome da moça e o título do livro são bem requisitados também). Senti que não tava com essa bola toda pra falar de literatura nigeriana e resolvi ir atrás de mais um livro. Mas não dou passo em falso. Li lá na Gazeta do Povo uma resenha ixperta do camarada Irinêo Netto sobre o livro O mundo se despedaça, do bambambã da literatura nigeriana, Chinua Achebe e pensei que esse seria um bom livro para se inteirar mais sobre o assunto.

Já ouviu falar de Chinua Achebe? Bom, se você foi um bom fã de Sepultura, deve ter percebido que o clipe de Roots Bloody Roots (a melhor fase do Max, é ou não é?) começa com uma citação do autor. Êta metaleirada culta da gota! Curiosamente, a maioria dos clipes da música disponíveis no Youtube limaram esse começo, mas o papai aqui achou um para vocês verem que eu não to de brincadeira. E sério, gente, vocês podem não curtirem muito metal, mas se vocês não gostam do Roots do Sepultura, é bom dar uma conferida no seu senso de humor porque esse disco é o ouro. E não me venha com esse papo de que o Arise ou o Chaos A.D. são outros quinhentos porque não tem música nenhuma com o Carlinhos Brown, podicrê?

Bom, O mundo se despedaça é uma viagem bacana e consideravelmente profunda for a white guy ao universo Ibo. Os guerreiros ibos, suas mulheres ibas, seus filhos ibinhos, todos moravam na Ibolândia, região da Nigéria que, no final da década de 60, virou a república de Biafra, que, como Ícaro, voou, voou, subiu, subiu e se espatifou bonito no chão pelas mãos das tropas da Onu, dos hauçás maloqueiros e de todo o resto do mundo que não tava a fim de ver pobre feliz. Como bom ibo que é, Achebe conhece a fundo as tradições do povo e pôde, a partir desse conhecimento, sangrar a história de Okonkwo, uma espécie de Eric, o Vermelho da Ibolândia, guerreiro temido e respeitado que é gente que faz. As tradições do povo são muitas para eu ficar aqui contando pra vocês, só adianto que é uma galera tarada num inhame e num vinho de palma (eca!).

Chinua AchebeBom, o livro demora para entrar no assunto principal (igual a esse blog, hã? Hã?), que é a seguinte: Okonkwo mata, sem querer querendo, um membro do seu clã e é obrigado a viver no exílio por sete anos, tempo que sai de Umófia, sua aldeia, cheia de boi de bota, para ir para Mbanta, terra de nego ponderado igual paulista. O problema de contar mais do que isso é que é contar quase o fim do livro. O que dá pra falar, porque isso a orelha já fez o favor de contar mesmo, é que o garotão deveria engolir o orgulho e baixar a bola, mas o cabra quando é ignorantão e cabeça dura, não tem jeito, pisa na bola quando pode. E isso é, mais ou menos, uma metáfora do porquê a civilização rachou no meio igual melancia na roça quando tá boa. Vocês vão entender o que eu estou dizendo se lerem o livro.

A história é muito boa, mas convenhamos: o sujeito se explica demais.  Bom, tudo bem, nesse sentido ele até que foi esperto: usou uma historinha de fantoche para entreter a gente enquanto ele ensina sobre seu povo. Engraçado que, nesse livro, do qual eu esperava história, ganhei explicação e no outro, da Chimamanda Adichie, esperava explicação e só ganhei história. Vamos deixar de reclamar então, que acho que o problema é comigo.

E que belo projeto gráfico esse da Companhia das Letras. Simples, mas bem bonito. Não é do feitio da editora fazer livros muito estampados e com letras muito grandes, mas até que a variação ficou boa. Tem essa foto assustadora da capa, de um negro se vestindo de branco, tipo aquele filme O Cantor de Jazz no Mundo Bizarro (sério, quando eu falo mundo bizarro, eu quero dizer o mundo bizarro do super-homem. Por que ninguém saca essa referência e acha que eu tô falando daquela coluna do G1?). Acho que seria algo como “O cantor de (insira aqui o seu gênero musical caucasiano de preferência)”. A foto é do rapazote G.I. Jones, um bonequinho do Comandos em Ação que viu uns três filmes do Woody Allen e resolveu se dedicar à fotografia, expondo seu acervo no Museu de Arqueologia & Antropologia da Universidade de Cambridge (puta nome pomposo esse “Cambridge”, só de pronunciá-lo você já se sente mais fresco). Fonte Electra é sempre bem vinda e papel pólen soft é fundamental. A tradução foi feita pela Vera Queiroz da Costa e Silva e a introdução pelo Alberto da Costa e Silva, ou seja, ninguém mete a colher. Tem uma epígrafe linda, linda, linda do Yeats, donde vem o título da obra. Aliás, repararam que “things” foi traduzido como “mundo”, né? Tradutores de poesia do meu Brasil, saquem suas defesas do bolso. Mentira, assunto encerrado.

Bom, é isso por hoje, minha gente. Tão afim de ler o lado A da crítica? Já sabe, é lá na Revista Paradoxo. Essa semana, um livro do Italo Calvino pra galeraê!

Ah, vai, vou terminar com a epígrafe do livro, que realmente vale a pena. Lá vai:

“O falcão, a voar num giro que se amplia,

Não pode mais ouvir o falcoeiro;

O mundo se despedaça; nada mais o sustenta;

A simples anarquia se desata no mundo”

Vê que com a tradução, aparece “mundo” duas vezes. Fazer o quê, né?

Comentário final: 236 páginas pólen soft. Pof pof pof!

Irvine Welsh – Pornô (Porno)

PornôE aí, meus queridos, como vocês estão? Desesperados com a qualidade dos candidatos a irmão metralha desse ano? Colocando o nariz de palhaço a cada inauguração de ponte? Com jingles estúpidos grudados no fundo do cérebro? Estupefatos com pleiteadores do naipe de Tati Quebra Barraco e Tiririca? É, estamos agüentando firme. No primeiro prêmio da Mega Sena que eu ganhar, pulo fora. Não vou nem esperar ganhar a bolada duas vezes.

Sim, é verdade, tivemos um ganhador da promoção ontem, o sortudo Raphael Pousa, leitor do blog há um diazinho, ganhou o livro do Houellebecq no primeiro comentário. Prometi, vou cumprir. Vou mandar o livro para o rapaz, e pedir desde já, muito gentilmente que o Sr. Raphael Pousa pague um micão com o livro no melhor estilo “pessoa ajudada pelo Luciano Huck”. Sei lá, quando receber, tire uma foto com o livro e mande para gente! Sou mais legal que o Huck, nem to pedindo pra você tirar uma foto vestido de Bonequicha, nem dançando a a dança do carangueijinho ou coisa parecida, ó só que maneiro que eu sou.

Sem mais delongas, vamos ao livro de hoje, outro tijolão, porque eu estou cansado desses livros de 200 páginas. Mas esse é diferente, esse é um tijolão light, um tijolão raso, um tijolão chuchu beleza pra você que gosta de pagar de sapeca com um livrão debaixo do braço mas não curte tanto ter que pensar nos lances da trama. Assim é Pornô, de Irvine Welsh, uma continuação super desconhecida do seu clássico transposto para o cinema, Trainspotting. Sabe? Aquele filme cheio de inglês com cara de menino criado pela avó tomando mais droga que aquela banda chata que cantava “Ôôo Carlaaaa”. E por que, vocês perguntariam, por que você está escrevendo sobre o segundo livro da saga dos drogadinhos? Bom, acontece que meu exemplar de Trainspotting está até hoje na casa do querido professor Yeso Ribeiro, que, quero crer, é um leitor desse blog, e vai ligar para marcar aquele refrigerante que está me devendo desde não sei quando, né não Yesão?

Para quem lembra de Trainspotting, a trama de Pornô fica fácil de entender (e se você não viu o filme, planeja ver e é um cinéfilo chato que não gosta que te contem um filme que você já deveria ter visto há pelo menos vinte anos, pare de ler agora): Sick Boy, que foi interpretado no cinema pelo ex-namorado da Angelina Jolie, o Hacker fodão do filme Hackers – Piratas de Computador, resolve dar início à sua nova empreitada: iniciar uma empresa pornô, e logo com uma adaptação de sacanagem do clássico chinfrim “Sete Noivas Para Sete Irmãos” (quando eu vejo esses filmes eu tenho que dar graças a Deus por existirem Slys, Van Dammes e Steven Seagals). Para isso, conhece um sujeito acabadão chamado Juice Terry, e uma menina chamada Nikki, uma estudante modernete que resolve atuar no filme, com uns papos de “ih, vocês são caretas, ser atriz pornô não tem nada demais, gente”. É, povo moderno, se arrependimento matasse, dupla sertaneja nenhuma ia poder fazer música sobre arrependimento sob acusação de fazer apologia ao genocídio. Sick Boy também conta com a ajuda de Renton, o garoto interpretado por Ewan McGregor que roubou o dinheiro de todo mundo no fim do filme e se mandou. Renton tem uma boate em Amsterdã, a Meca dos maconheiros, e tá de bem com a vida, aproveitando a grana que ele roubou. Só que, nesse meio tempo, Begbie, que no filme era Robert Carlyle (por que diabos esse cara não faz mais filmes? Ele é bom pra caramba!) sai da prisão e quer vingança por ter sido roubado, e aí é confusão pra todo lado!

Irvine WelshBom, mas isso você poderia ter lido na orelha do livro, se tivesse a sorte de achar um exemplar nos dias de hoje. Pornô, o livro, é legal por ser uma narrativa eletrizante, dessas que não te desgrudam do livro, o grande talento dos fast-paste afinal. Aliás, será que esse cara é fast-paste ou não é? Fico na dúvida… A produção XXX que rola na trama tem altos obstáculos engraçados e é divertido ler um monte de gente (perdoem o palavreado) se fudendo para literalmente, se fuder. Quem leu Trainspotting tá ligado que Welsh usa vários narradores no livro — um dos grandes talentos do autor — e neste livro não é diferente. Acho muito incrível como ele consegue dar voz a tantos de seus personagens, e vozes únicas e diferentes, o cara realmente não tá pagando de ventríloquo. Por outro lado, não gosto dessa tradução que traduz gírias escritas mais próximas da oralidade, tipo “fiadaputa”. Acho que isso meio que estraga o livro.

O projeto gráfico de Pornô, para a época em que foi lançado (ali por 2005), não é ruim, apesar de ter o maldito papel offset. Esse lance de capa fosca e brilhante não era tendência ainda, e a capa é bem convidativa com essa mulher inflável engraçada na capa. Ponto para a Rocco. Entretanto, tudo pode levar a crer que o livro é cheio de sacanagem, e não é bem assim. Pode decepcionar muitos dos chabrolas, assim como eu decepciono cada um que chega aqui procurando por termos que vou deixar para falar no twitter. Não quero atrair mais perverts do que já estou fazendo por resenhar um livro com um título desses. Ah, uma curiosidade: esse livro é publicado no Reino Unido pela Jonathan Cape, o que mostra que o cara tem um respaldo sinistro por lá, ao contrário de certos Georges Orwells aí…

Momento nada a ver do dia: galera, eu sei que não tem nada a ver com a proposta do site, mas, além da literatura, tenho muito gosto pela biologia, embora não estude como gostaria. Bem, olha só que legal esse site interativo de taxonomia do Museu de Ciência Natural de Barcelona!

Comentário final: 565 páginas em papel pólen soft. Marretada no dedão do pé pra você!