Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Les particules élémentaires)

Les particules élémentairesEsse ano o querido Michel Houellebecq vem para a Flip. Como brasileiro é um povo festivo com gringo mas ao mesmo tempo não manjam muito das celebridades que vem aqui, resolvi fazer esse serviço de utilidade pública e apresentá-los a vocês, queridos leitores e a vocês, queridos jornalistas que deixam tudo pra última hora. Ó, tô falando disso uns quatro meses antes da festa, dá tempo de se informar e ainda sobra pra ler um ou outro livro dele, se é isso mesmo que você tem que fazer. Pros preguiçosos, pega o resumão e comentário aqui e sai por aí esbanjando o conhecimento que você não tem.

Partículas Elementares é um dos primeiros livros (o segundo, acho eu) do grande escritor francês radicado na Irlanda Michel Houellebecq. Fala de dois meio irmãos: um chama Michel (atenção, jornalistas: os personagens dele geralmente chamam Michel) e o outro chama Bruno. Bruno é o típico moleque que foi gordinho quando criança, cresceu e virou gatão e, pra se vingar da humanidade, come geral pra tentar machucar o coração de alguém (tá, essa última parte eu presumi, mas deve ser). Michel é o típico moleque que foi bostão quando criança, cresceu e continuou bostão, sendo virgem aos não sei quantos anos. Ele trabalha com pesquisa em biologia e está fazendo alguma coisa relacionada a partículas elementares, algo que vai dar um boost na sua carreira e na medicina de uma maneira geral, mas agora não lembro exatamente o quê porque faz um tempasso que li esse livro, uns bons três anos. E o Bruno é professor, querendo comer as aluninhas (hum, igual a um certo professor que tive uma vez numa certa escola de jornalismo), mas frustrado porque a gatinha em que ele está de olho dá pra um negão avantajado — o pesadelo de todo cara branco que não se sente competitivo. Enfim, os dois meio-irmãos, filhos de uma biscatinha da década de 60, se encontram no funeral da mãe, e aí se conhecem e resolvem passar tempo juntos. Vão para um retiro, uma espécie de hotel/SPA numa praia paradisíaca, onde lá Bruno conhece uma gatinha e Michel descobre o paradeiro de sua amada de outros carnavais, Annabele não sei das quantas. Bom, como todo livro do Michel Houellebecq, tudo vai bem, tudo vai bem, até que vai mal. E com esse cara você sabe que, quando eu digo que vai mal, é porque vai mal MESMO.

Bom, nesse livro aqui não temos nada de muito diferente do que o autor veio a explorar melhor em seus livros subseqüentes, com a diferença que este foi o primeiro livro que virou filme, acho eu. O filme é uma produção alemã com atores alemães dos quais nada conheço, e o roteiro pesou muito mais nas partes cômicas, que são sim, pontos fortes do livro. O livro é mais triste, mas acho que o é por ser um livro, afinal, ler não é exatamente uma parada super engraçada que você fica com a barriga doendo de tanto ler. O livro em si é bem escrito mas tem um ritmo mais arrastado que o normal em um Houellebecq legítimo (and I ain’t no Houellebecq girl, I ain’t no Houellebecq girl, já dizia Gwen Stefani), e, como acontece n’A Possibilidade de Uma Ilha, tem um epílogo completamente desnecessário. Tem gente que não sabe a hora de parar de escrever e… opa, é comigo? Ok, ok, parei.

Essa edição da Editora Sulina, lá do Rio Grande Tchê, não é exatamente a edição que eu tenho. Essa capa do livro é a capa do filme também, e a capa do meu livro é um ventre de mulher com a mão na coisa e a coisa na mão. Logo eles perceberam que, por mais que a imagem seja bonita, é o tipo de coisa que impede que a pessoa tímida de criar coragem e levar isso no caixa da livraria, principalmente se a caixa for uma mulher, e principalmente se ela parecer meiguinha. A tradução é do Juremir Machado, um cara porreta, catilogente e sabido (já falamos aqui), mas meio inusitado pra escrever as orelhas. Ele descreve um felatio como “uma mulher de boca ousada”.  Ew, Juremir, deve tá ouvindo muito Lupcínio Rodrigues, fala a verdade! No mais, papel offset desgracido e fonte garamondo do coração dos manos do terminal de ônibus. A numeração dos capítulos tem uns arabescos que ficaram quase invisíveis, e a quarta capa lista uns elogios aqui e ali, além de um “traduzido em 21 línguas” que, pra mim, não quer dizer nada. O livro dos recordes é traduzido em quarenta mil línguas e eu continuo não lendo, afinal.

Comentário final: I ain’t no Houellebecq Girl!

 

Ismail Kadaré – Vida, jogo e morte de Lul Mazrek (Eta, Loja dhe vdekja e Lul Mazrekut)

ETA, LOJA DHE VDEKJA E LUL MAZREKUTQuase que a Copel deixa esse blog sem mais um post, mas não é a falta de luz que vai apagar o Livrada! Aê! Bom, como vocês viram no post anterior, a votação para o The Bobs está rolando e o Livrada! já está perdendo feio para blogs mais ambientalmente conscientes (e nós aqui, consumindo coisas feitas de árvores derrubadas, sem levar em consideração o esforço de heroínas como Dorothy Stang). Vamos continuar votando para fazer coro, alright? Não vamos ganhar, mas vamos nos divertir. Sim, o Livrada é o América do Rio, é o União da Ilha, é o L.A. Clippers, é o candidato à presidência do Psol, é a delegação olímpica da República Centro Africana, é o sujeito que sai vestido de Bob Esponja na São Silvestre. Vamos nessa.

Antes de mais nada, gostaria de fazer um comunicado importante. Pelos próximos dias, estarei trampando num trampo sinistro que exigirá muito do meu tempo, então não garanto postagens regulares, embora desde já prometa fazer o possível. A boa notícia de tudo isso é que eu vou ter dinheiro e não vou mais precisar mentir pros meus amigos, dizendo que estou indo almoçar com outros amigos quando na verdade estou indo para um lugar afastado comer um sanduíche que eu trouxe de casa. Resumindo: vou ter dinheiro, aê, que alegria! (sim, amigos, agora vocês já sabem). Adiante.

Ismail Kadaré de novo? Sim, de novo. Se você ainda não percebeu, o cara é um habitué do Livrada! por méritos conquistados na meritocracia que é este blog. Autor bom entra, autor ruim sai, e autor consagrado, quando necessário, recebe um leve esculacho pra ficar ligado. E quem gostou lê, quem não gostou, não faz nada. Fica peixe. Bom, o livro de hoje não é muito recente. Acho que tem lá uns bons dez anos. Mas é um dos melhores dele que eu já li, e terminei de lê-lo essa semana, então a memória está fresquinha (assim espero) para comentá-lo.

Vida, jogo e morte de Lul Mazrek é mais um livro sobre a Albânia comunista do ditador Enver Hohxa (dia desses eu e Chico fizemos uma lista de nomes legais de estadistas — não confundir com lista de nomes de estadistas legais — e Enver Hoxha ainda é meu preferido, junto com Kamehameha I, do Havaí). Nela, um jovem ator como Lul Mazrek, ao ser reprovado no vestibular de artes, se vê obrigado a servir o exército (quem pensou na história do Hitler — outro nome legal de estadista e NÃO de um estadista legal — tá certo, embora ele não tenha nada a ver com a história), mais especificamente em Saranda, uma espécie de Costão do Santinho Albanês, por onde os fugitivos do governo resolvem escapulir, direto pra Grécia, pela antiga cidade de Butrint, um lugar que, como tudo o que já foi cidade grega, é formada de parede velha e caída e mais coisas completamente destruídas. Pois bem, Lul Mazrek precisa estar ali pra meter bala em quem tentar fugir. O que também não tá certo, o governo não entra num consenso se mostra pra população os cadáveres abatidos ou ocultam, e fica nesse problema de logística de achar, transportar e exibir cadáver. Como diz a Avril Lavigne: complicated.

Ao mesmo tempo, temos essa deusa albanesa (uma incoerência, porque se você procurar ‘albanesas gatas’ no Google, ele vai perguntar se você não quis dizer ‘japonesas gatas’), chamada Violtsa Morina, contratada pelo governo para identificar, seduzir e caguetar os fujões, segundo tese do governo que fugitivo fica todo sensível antes da fuga e acaba por dar com a língua nos dentes. E o que acontece, rapaz? É claro, os dois se apaixonam. Aí rola todo aquele lance de amor proibido, não é o trabalho dela, o exército não deixa o cara sair pra namorar, os fujões vão fugir se ela baixar a guarda, quem está tomando conta do lojinha, etc.

Bom, esse livro serviu para o Kadaré explorar todo o tipo de história espelhada possível. Não vou contar mais pra não estragar a diversão de quem vai ler (sim, o Livrada! é legal, tem fita VHS roxa com selo da UBV e marca d’água), mas, se você reparar, são vários os paralelos que se pode traçar entre as vidas de Lul e Violtsa depois que se encontram, além da comparação explícita entre Violtsa e Andrômaca que, pra quem não sabe, além de ser uma personagem da mitologia, também é um capítulo muito serelepe do Kama Sutra. Sim, já que o papo é Grécia, sexo e exército, por que não falar de Andrômaca?

Mais uma vez, o autor mostra uma Albânia feita não se sabe para quem, com regras que agradam muito pouca gente, e pessoas que vivem seus dramas pessoais de pertencerem a um lugar que inibe todo o potencial delas. Foi assim no Abril Despedaçado, foi assim no Dossiê H, enfim, o cara fala disso mesmo, get over it. E, claro, é um livro com doses moderadas de literatura erótica e doses nada moderadas de realidade dura, tipo letra do Ndee Naldinho. Vale a pena? Vale a pena.

O projetinho da Companhia das Letras para o autor é bacana, vai dizer. Já falei sobre ele antes: fonte Electra, papel pólen e tradução do único, do inigualável, do insubstituível (insubstituível mesmo, gente,ou tem alguém aqui que fala albanês?) Bernardo Joffily. A capa não sei daonde é, que o livro tá longe, mas imagino que seja do CORBIS. Se não for, depois eu corrijo com o rabo entre as pernas.

Por último, preciso abrir meu coração: conversando com a colega Patricia, da minha turma de alemão, ela me solta essa: “o meu cunhado também gosta de literatura, e ele não é gay!”. Tá vendo, macharada iletrada? Mais uma virtude desejável vai parar na fama ilibada dos homossexuais. Já disse, vamos fazer os livros serem legais de novo. Reforço meu pedido, mulheres: se o gatinho te levar na casa dele, com vinho chileno e hortinha de manjericão na sacada, mas não tiver livros em casa, não transe! Simples assim.

PS1: Esqueci de dizer, mas agora o Livrada! tem uma página no Facebook. Entrem lá e fiquem por dentro das atualizações: http://www.facebook.com/pages/Livrada/209104299099609

PS2: Tô vendendo um PS2, tratar aqui.

PS3: Esqueci de dizer, mas estamos na mídia!

Comentário final: Se alguém me enviar pelo correio um exemplar novinho de “O Livro Verde”, do Kadafi, eu resenho, prometo!

 

Kyoichi Katayama – Um grito de amor do centro do mundo (Sekai No Chusshin De Ai Wo Sakedu 世界の中心で、愛をさけぶ)

SEKAI NO CHUSSHIN DE AI WO SAKEDUIh, são dez horas da noite, eu saí de casa pra ver a luta na televisão e esqueci de escrever pro blog de novo. Peraí, de novo não, da outra ocasião eu não escrevi porque a vida tá difícil mesmo, e eu espero que vocês me perdoem e me entendam. Bom, felizmente dessa vez o meu camarada Lucas Lazzaretti emprestou-me o seu laptop para que eu digite essas rápidas linhas enquanto tento encontrar um acento e outro nesse teclado maluco. Por isso hoje vou ser breve, cumpri tabela e fazer algo que eu não faço há muito tempo, que é meter o malho num livro.

Por isso, vamos lá. De cabeça falo hoje de Um grito de amor do centro do mundo, do Kyoichi Katayama, um livrim meia boca demais que eu quis ler pra saber que cara tinha um best-seller japonês. Achei que, por ser do Japão, esse povo tão sofrido que hoje estamos homenageando aqui, pudesse ser um best-seller melhor que os dos outros países. Como é o caso do Michel Houellebecq na França por exemplo (e não vamos falar de Marc Levy aqui, pelo amor dos meus bagos). Houellebecq vendeu meio milhão de cópias com seu penúltimo livro, A Possibilidade de uma Ilha, que um dia eu resenho. Isso se meus números estão atualizados. Bom, o Katayama vendeu nada mais nada menos do que 3,5 milhões de cópias no Japão. Isso num país que é uma tripinha menor que o Chile. Quero ver um livro vender isso aqui no Brasil. Nem Laurentino Gomes, amigo. Bom, daí que imaginei que o livro talvez fosse um desses petardos que teria a sorte de ser mais vendável do que rosa branca de iemanjá no ano novo. Mas, amigos, me enganei. Mea culpa, mea maxima culpa.

Um grito de amor no centro do mundo conta a história de Sakuratô e Aki, um menino e uma menina, repectivamente, que se apaixonam na escola ainda, mas tempos depois ela descobre que está com leucemia e morre (não se preocupe, não contei nenhum spoiler). Putz, me digam: quantos Chick Flicks vocês já viram com um roteiro como esse, com algumas váriáveis, como idade e qual dos dois tem câncer? O cara já começou mal, ou seja, explorando um tema mais batido que músculo antes de ir pra panela. Mas bom, quem ainda não está cansado de ler sobre isso, e quer achar um ticket fácil pra avenida do choro, o livro pode ser uma boa. Só que, se a história não é muito original, a forma não é muito inovadora também. Uma escrita beeeem mela cueca, cheia dos sentimentalismos baratos e formas muito usadas. Coisas como “a vida é triste, como as folhas das árvores caindo num outono frio” etc. Já falei que existem frases que me fazem levantar da cadeira e querer gritar “gol!”. Pois esse tipo de coisa me dá vontade de levantar e xingar a mãe do juiz.

Tá, exagerei um pouco, mas faz parte da crítica ser impiedoso com o livro pra depois dar uma levantada na moral do livro. Isso quando o crítico não é cruel, como eu não sou. Quando o cabra é cruel, ele faz o contrário: levanta um pouquinho a bola e depois enterra todo mundo. Bom, o livro não é desagradável de ler, a verdade é essa. E é curtinho, não atrapalha o cronograma de ninguém e pode ser uma boa leitura pra você levar pra praia e ler embaixo de um belo guarda-sol. São 155 páginas, afinal, não machuca ninguém. E vá lá, quem sabe você se emociona. Ah sim, o título do livro faz uma menção ao livro do Harlan Elisson “Crying out love in the center of the world”. O Murakami também faz menção no título do livro dele que eu resenhei, né? Que cambada de japa referente!

Esse projeto gráfico da editora Alfaguara é o bicho ou não é? Alguns me disseram que a japonesinha da capa matou o resto da foto que tem um fundo bacana, mas eu gosto da capa. A tradução foi feita diretamente do japonês por alguém que não vou saber citar de cabeça porque o livro está longe, e o papel tem uma gramatura grande pra parecer que tem mais livro do que na realidade tem. Bom, o projeto deles muda muito pouco. Ainda assim, valeu a intenção da editora de trazer um best-seller que não seja americano ou o nosso inominável Paulo Coelho. É um best-seller? É. Mas pode ser cult? Pode também. Tô parecendo o Kleber Machado? Um pouco. Vamos parar por aí? Sim.

Comentário final: Escrevi o último parágrafo já em casa. Que droga essa luta do Shogun…

V.S. Naipaul – Uma casa para o sr. Biswas (A House for Mr. Biswas)

A house for mr. biswasNão sei quanto a vocês, mas eu estou levando a sério o desafio literário livrada 2011. Já li o primeiro livro do meu autor escolhido. De fato, acabei de lê-lo agora e já resolvi escrever enquanto a coisa tá fresca na cabeça. Sem mais, vamos a ele.

Vidiadhar Surajprasad Naipaul, esse índio velho com cara de figurante de filme do Giuliano Gema, minha gente, é o autor que eu escolhi para conhecer esse ano. Nasceu de uma família indiana na década de 30 em Trinidad, aquela ilhazinha simpática que fica em cima da Venezuela, do ladinho de Tobago, e, após uma vida estudando entre os ingleses, ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2001, aos quase 70 anos. Povo de Estocolmo, vamos começar a reconhecer o mérito literário das pessoas mais cedo um pouquinho, vamos? O que o idoso vai fazer com o milhão de platas que ele vai colocar no bolso com o prêmio? Gastar tudo com remédio nas farmácias Minerva? Dá o vil metal na mão de um escritor mais garotão, pra ele gastar com Jet-skis, shows particulares do Yo-Yo-Ma, raves em Santorini, enfim, dá dinheiro pro cara viver a vida, né?

Enfim, voltando ao assunto, Naipaul escreveu, em 1961 esse mega romance de formação com traços de pós-colonialismo (é sério gente, existe uma corrente literária com esse nome, não iria enganá-los de graça) chamado Uma casa para o Sr. Biswas (na ficha técnica da Companhia das Letras, colocaram que o título original era “A house to Mr. Biswas, mas não é to, é for, mancada básica do inglês básico). O livro, parte drama, parte comédia, fala da história de Mohun Biswas, o sr. Biswas da história, um cara que cresceu numa família minimamente grande, como costumam ser as famílias hindus a julgar pela família do Apu, que é o único hindu que eu conheço, e ele é só um desenho animado, e, acho que por isso, sonha em ter um cantinho só pra ele. Tido como maldito por um pândita, um sacerdote que vem traçar a personalidade dele, cresce recebendo uma sutil hostilidade de sua família, e casa com uma mocinha chamada Shama, da terrível família dos Tulsi, uma família de comerciantes maior que o Polyphonic Spree inteirinho, cheio de gente autoritária e sem paciência pra nada. Mohun então começa a trabalhar de jornalista e a escrever pequenos contos enquanto tenta conquistar sua própria casa, sendo enganado por tudo e por todos a todo momento.

Contar mais do que isso é spoiler, então vamos às análises. Primeiro, considero que Naipaul escreveu esse livro com uma grande paixão, pois a história de Biswas está muito associada à história de seu pai e, por conseguinte, à sua infância em Trinidad. Assim como Biswas, Naipaul queria ser escritor, e também assim como Biswas, seu pai fora jornalista sem ter muitas leituras, e considerava os escritores os seres mais nobres do mundo. Acho que toda obra escrita com muita paixão por um determinado universo deve pelo menos ser considerada a ser lida com carinho, e ponto final.

Falando um pouco sobre o Sr. Biswas. A trajetória que o protagonista desenvolve ao longo de sua vida pode ser compreensível se levada em consideração o meio em que cresceu. Hostilizado por seus pais, pois o pândita havia dito que seu espirro causava azar, Mohun começou a se rebelar contra tudo aos poucos. O drama de não ser bem quisto e ainda assim ter de conviver com pessoas hostis — família, ainda por cima — é motivo bom pra querer chutar o pau da barraca, a meu ver. Depois, na adolescência, quando é forçado a casar com Shama, e a morar com uma família gigantesca, é mais um motivo para revolta. Uma vida que vai sendo arrastada para as situações, por assim dizer. Toca fundo no nosso senso de liberdade, a mulherada fica doida quando vê uma mulher de burca, é ou não é? O Biswas tem algo nele de bom, de nobre, mas isso não é despertado pelas frustrações perante a vida que lhe corroem com a força e a dor de uma lâmina profunda de agonia (achou bonito? É do Funk Fuckers!). Aí entramos em outra questão importante do livro: a rotina e as responsabilidades que oprimem a criatividade e a vontade do pobre proletário. Mohun não pode escrever e não pode exercitar todo seu fascínio pela cultura e pela literatura porque tem que cuidar do telhado que tá caindo, dos quatro filhos pra criar, da esposa que só reclama, etc. Então, ô-ô-ô-ô mai bróder,  é o rodo cotidiano.

Vidiadhar Surajprasad NaipaulUma última coisa que queria falar sobre o livro é uma passagem que me marcou muito. Vou tentar não contar muito do contexto para não estragar a leitura de quem, porventura se aventurar nesse livro. Bom, acontece que, em dado momento, Biswas consegue comprar uma casa, mas diante de um cenário completamente hostil. E aí ele se depara com uma realidade cruel do estado capitalista: quem tem posse tem medo. Ele começa a se sentir acuado em seu próprio terreno (opa! Mesma música do Funk Fuckers de novo) e experimentar um medo terrível de tudo e de todos, chegando a ter receio de sair lá fora. Aí está um traço do tal pós-colonialismo. O medo de quem tem posse num país completamente desestabilizado, sem seu poder executivo em pleno funcionamento, em épocas de guerra (segunda guerra), depois de colonizadores terem abandonado o país à sorte de suas divergências culturais e étnicas, do tipo “pulei fora, se virem vocês”, é terrível. A todo momento, no livro, vemos leis sendo mal-interpretadas, distorcidas, manipuladas para o interesse de alguém (não que isso não aconteça por aqui, mas no livro a coisa é muito mais visceral), algo muito típico do Estado sem Estado. Isso, aliado ao comportamento dos Tulsi e do próprio Biswas, enfim, os trejeitos da sociedade, me fazem perceber que a cultura de Trinidad e Tobago não é muito diferente da brasileira. Esse romance poderia ter sido “rodado” aqui na nossa terra, afinal. Todo mundo sendo enganado e vivendo na maior pobreza. Serião, fiquei com nojo de algumas paradas da história, como o “sorvete feito em casa”, que é guardado num freezer velho que fica soltando pedacinhos de ferrugem em cima do sorvete. Yuck!

Essa coleção do Naipaul da Companhia das Letras é bem bonita, vai dizer. Esse livro em questão é sinistro, porque são 522 páginas em letra miudinha, pra caber mais. Então é um livro que eu suei pra ler. Dica para vocês, crianças: evitem começar a ler um autor por seu maior livro, mesmo que seja um clássico. A exceção de Crime e Castigo, é claro, e também pro caso de você resolver ler Pamuk — o cara não faz muito livro pequeno, então não tem jeito. Bom, mas eu fui, demorou mas tô aqui falando dele pra vocês. Tradução do Paulo Henriques Britto, papel pólen e fonte Garamond. Tem prefácio do autor e na quarta capa, citações elogiosas de balangudos da literatura como Paul Theroux e Anthony Burgess. Ah, o livro também ganhou o prêmio Grinzane Cavour, da região de mesmo nome da Itália. Um prêmio importante, mas desconhecido, que já premiou e homenageou muita gente boa (inclusive o Cesare Pavese, Carlinha!). Tá demais, né?

E a propósito, como vão as leituras do desafio de vocês? Já leram algum autor a que se propuseram? Não quero controlar, só estou curioso mesmo. Se quiserem, escrevam aí embaixo!

Comentário final: 522 páginas pólen soft. Arranca o braço do James Franco em 127 horas.

 

Pedro Juan Gutiérrez – Nosso GG em Havana (Nuestro GG en la Habana)

Finalmente acabou o carnaval. Quer dizer, acaba hoje. A voz do cara que dá as notas para as escolas de samba na apuração de hoje tem mais ou menos o efeito da musiquinha do fantástico: bate aquela tristeza e você pensa que o fim de semana já está acabando e que amanhã começa a semana. Ou, nesse caso, que o ano útil está começando. É claro que isso não vale pra mim. Amanhã cedo estou na labuta de novo, tá pensando o quê? Aqui não tem corpo mole não.

Enfim, enquanto vocês dão seus últimos mergulhos na praia, tomam suas últimas caipirinhas na hora do almoço, fazem o último xixi na rua (assim espero!), pegam a última doença venérea do ano, vamos falar de literatura, ê! O livro de hoje é mais um livro excelente do nosso querido Pedro Juan Gutiérrez que eu recomendo para vocês. Um livro curtinho e divertido, que tem um pouco de tudo: ficção histórica, comédia, trama policial, perseguições de carro, espionagem e a vida de um grandessíssimo escritor: Graham Greene, o GG do título.

A história começa a partir de um fato real: a visita de Graham Greene à Havana, na década de 50. Isso era na época em que Fidel ainda não tinha metido um xeque-mate no Fulgêncio, e Cuba ainda vivia naquelas de todo mundo sendo vigiado, a suspeita do FBI agindo e tudo o mais que o submundo de Havana comportava, e ainda comporta até os dias de hoje, como Gutiérrez faz questão de nos mostrar. Bom, Greene, enquanto está em Cuba, descobre que seu nome está ligado a uma história de assassinato e espionagem, e que alguém está usando seu nome indevidamente, portanto. Aí se mete com o bàs-fond cubano, com putas e putos, ladrões, tarados, etc. Personagens que Pedro Juan já está acostumado a retratar — alguns deles, não me lembro quais agora, já foram retratados em outros livros dele.

Eis o que eu queria dizer sobre esse livro: Nosso GG em Havana é um livro muito diferente da obra de Pedro Juan. Parece que nesse ele resolveu escrever com a cabeça de cima e colocou uma porção de elementos da literatura policial, numa trama coerentemente sóbria. Claro, tem um pouco das safadezas de sempre, mas muito mais contidas, essas. Pesou no livro o raciocínio racional, o mercado do seu id. E Pedro Juan, com isso, provou ser um grande escritor do Cristal, conforme definição mutcho loka que o Italo Calvino fez uma vez, que não cabe explicar aqui agora.

O livro também é uma leve homenagem a Graham Greene, escritor que o autor adora. O título inclusive, vem de um livro de Greene, “Nosso homem em Havana”, também uma estória de espionagem, polícia e ladrão, etecetera. Não que Greene faça alguma vista na literatura de Gutiérrez. Nem sinal dele nas influências. Ainda assim, bom, uma homenagem. Você pode gostar do cabra e não tentar ser como ele, é ou não é? Mais do que isso, porém, é a homenagem à Cuba pré-Fidel. A Cuba moleque, a Cuba arte, a Cuba marota. É claro que eu, do alto da minha falta de verba, nunca fui para Cuba, ainda mais pra Cuba de Fulgêncio, mas tenho a nítida sensação de captar a aura do lugar lendo esse livro. E não é essa intenção de busca pela verdade disfarçada de busca pela verdade uma das coisas mais legais da literatura. É. Quem tá falando sou eu, então é.

Esse projeto da editora Alfaguara é classe bagarai. Esse estilo de capa cheia dos elementos foi o escolhido pras capas do Pedro Juan (a trilogia suja tem a capa poluída desse jeito), e vamos dizer que, pra esse livro, a coisa encaixa direitinho. Mérito de Tita Nigrí. Por dentro, quem já abriu um livro da Alfaguara, abriu todos. A fonte é um pouquinho maior nesse, pra preencher melhor as 125 páginas do romance. A tradução é dos já citados aqui Paulina Watch e Ari Roitman, e o livro tem citações de John Cheever e do próprio Greene. Vale aqui a citação do último, tirada da fala de um personagem de O Americano Tranquilo, seu livro mais badalado: “Pensar é um luxo. Você acha que o camponês se senta para pensar em Deus e na Democracia quando volta de noite para seu casebre de barro?”. Tá, claro que o exemplo é completamente forçado, e só pensa quem foi educado pra pensar, não importando as condições de existência. Aliás, que bela porcaria essa citação, não me convenceu de absolutamente nada. Sai fora, Greene, seu mané. Vem conhecer o profeta Gentileza e outros zés do mundo, vem. Ah, estressei-me agora, então eu vou.

Comentário final: Estação primeira de Mangueira… DEZ!!!

Moacyr Scliar – A mulher que escreveu a bíblia

Como vocês puderam ver, não publiquei niente na quarta-feira, e por uma boa razão: atolado de coisas para fazer. Que lhes interesse, escrevi uma matéria gigaaaante para a Gazeta sobre George Orwell, o mágico do romance panfletário, o rei da metáfora animal, o Gerson King Combo da…bom, já deu pra entender. Que não lhes interesse, eu e minha gloriosa banda Sua bunda fizemos um triunfante show no Blues Velvet bar na quarta-feira e a multidão foi à loucura. Sendo assim, de qualquer forma, parafraseando o título de um outro livro, os dias estavam completamente lotados. E, para citar Marcelo D2, “tá ruim pra você, também tá ruim pra mim, tá ruim pra todo mundo, o jogo é assim”. Alright, chega de citações. Vamos à homenagem.

Moacyr Scliar se foi, minha gente, provando que esse papo de imortal é, na verdade, fruto da imaginação de velhos loucos que têm amigos como Paulo Coelho e Ivo Pitanguy, místicos da alma e da carne. Ainda assim, Scliar era um dos poucos nomes que prestavam dentre os almofadinhas da ABL. Cito mais alguns: João Ubaldo, Ana Maria Machado, Nejar, Lygia Telles e sua chapa Nélida Piñon, Ledo Ivo (“b-ab-aaaaaaaaaca”, dizia ele na entrevista ao Globo News, hilário) e, em menor grau, Cony, o Van Damme entre Schwarzeneggers. Agora, esses os corvos: nem bem o Scliar esfriou e já elegeram um cara pra ficar na cadeira dele, o Marco Lucchesi. Um poeta! Um poeta! Pois eu discordo! Acho que a cadeira do Moacyr Scliar devia ser dada a um escritor frenético como ele. Um cara que lance cinco livros por ano, no mínimo! Brincadeiras à parte, eu quero um dia fazer parte da ABL pra ganhar 15 mil por mês + vida eterna + gato NET + duas mariolas por dia + roupa de Power ranger. E quem não quer? Esse país tem que tirar os escritores da miséria, minha gente. Tira o Paulo Coelho de lá, ele já é rico por seus próprios méritos! Coloque um cara bom, mas marginalizado tipo, sei lá, Marçal Aquino.

Bom, pra homenagear o Scliar, esse grande escritor gaúcho, resolvi resenhar o único livro que já li dele em toda minha vida. E ainda assim fiquei com o pé atrás, porque li emprestado da minha mãe e li em apenas um dia. E isso foi há uns dois anos. Ou seja, tô sem o livro, minha memória já não é mais a mesma, mas enfim, todo jornalista se mete a falar sobre o que não sabe pelo menos uma vez na vida. Se você é jornalista e só fala sobre o que sabe, ou você é chefe, ou você é frila, ou você é desempregado.

A mulher que escreveu a bíblia é um desses livros em que você lê numa sentada, sem nenhuma conotação homossexual aí (aliás, amigos homossexuais, tenho um filme homossexual aqui em casa que estou disposto a passar adiante, quem tiver interesse, contacte. E chega de usar a palavra homossexual que isso é coisa de boiola). É curto, tem punch, tem humor, tem sacanagem, tem contexto histórico, só faltava mesmo ter alienígenas, porrada e perseguição de carro para ser o livro perfeito. A história fala de uma mulher que, fazendo regressão, descobre que, em uma vida passada, foi a única esposa do Rei Salomão que sabia ler e escrever. O que justificava, porque ela era feia pra diabo. Salomão era como um desses pitboys que pegam vinte loiras peitudas pra depois pegar uma gordinha fã de Harry Potter que faz engenharia no CEFET e dizer que também valoriza a beleza interior. Enfim, tendo essa vantagem sobre as loiras peitudas, tem sua existência escalada pela máfia chinesa, quer dizer, pelo Salomão, pra coordenar um bando de escribas mais enrolados que sexo de cobra que estão escrevendo a história da humanidade, desde que o mundo é mundo. E assim ela começa, escrevendo o antigo testamento, enquanto narra sua história de mulher feia e mal-amada.

É bom dizer que essa história de mulher escrevendo a bíblia é uma tese do Harold Bloom, ó, Harold Bloom, velhus decreptus da crítica literária, aquele que tudo sabe e tudo lê, e que a ninguém come. Ele, no livro The Book of J., jogou uma ideia de que a primeira versão da bíblia teria sido escrita por uma mulher. Mas isso é óbvio pô. Olha só as coisas que tem lá: cobra falante, gente feita de costela, o assassino é o Coronel Caim, na biblioteca, com uma pedra mixuruca, enfim, fruto de uma imaginação muito fértil. O mesmo tipo de imaginação que se põe a conjecturar seus whereabouts quando você chega em casa meia noite e cinco ao invés de meia noite. Enfim, desse verde aí que o Bloom jogou, Scliar fez um livrinho mais hilariante do que gás hilariante (que não é tão hilariante assim, ao contrário do que o nome pode supor), e leve, muito leve. Ler a mulher que escreveu a bíblia é o equivalente a alugar um filme do Simon Pegg na locadora porque você já tá de saco cheio de ver Bergmans e Tarkovskys. Vale a pena também pelas sacadinhas que ele mete no meio, tendo em vista o contexto histórico da parada. Uma pena que não me lembro de nenhum agora pra exemplificar. Jornalismo verdade é isso. Eu não minto pra vocês e vocês não mentem pra mim.

Sobre o projeto gráfico, nada tenho a dizer. Já disse, tô sem o livro na mão aqui. Mas a capa reproduz um desenho típico da época, em que ninguém sabia desenhar. Eu seria uma espécie de Michelangelo nessa época. E com meu físico, seria mister universo. Nasci na época errada mesmo… Bom, não foi tanto uma resenha hoje, mais para não deixar a morte do Scliar passar em branco. Descanse em paz, nobre escritor.

Ah sim, esse livro ganhou o prêmio Jabuti em 2000, na época em que o Jabuti premiava bons escritores, e não ficava fazendo média com ninguém.

Comentário final: Você já comeu uma carne assada com uma cenoura no meio? Estranho, muito estranho…

 

Don DeLillo – Ruído Branco (White Noise)

White NoiseSabe, pode não parecer, mas eu presto atenção no que vocês comentam aqui no blog. Trato de responder a todos os comentários (às vezes me atraso, mas entendam que fazer crítica literária de graça, duas vezes por semana, no seu tempo livre não é, exatamente, jogar caxeta com a sua avó, por isso me mandem dinheiro) e procuro responder na altura de relevância e interesse. Por isso, o post de hoje foi feito em homenagem a um leitor aqui do Livrada! que comentou apenas em um livro. O Sr. Augusto Lessa passou por aqui no pior post que eu fiz, que foi sobre a Marca Humana, do Philip Roth (nem vou botar o link porque é indigno, quem quiser que leia depois, mas não recomendo), na época em que eu escrevia um post por dia. Ai ai, o viço da juventude… Enfim, nos comentários ele pediu para que eu resenhasse o livro Ruído Branco, do Don DeLillo, que é um autor que até então eu nunca tinha lido, mas cujo estilo e gênero casavam com a linha editorial deste blog (viu, Baére, não adianta pedir pra eu ficar resenhando livro de programação de computador), então resolvi ir atrás, certo que o leitor estava de que eu, baseado no que tinha visto resenhado por aqui, iria gostar do livro.

Pois bem, ganhei o livro de natal da querida Tia Alba, excelente veterinária e contadora de piadas, e li em, basicamente, dois dias, graças a uma viagem de desnecessárias cinco horas para Floripa. E bem, vamos dizer que o Sr. Lessa estava com a razão, porque eu não só gostei do livro como o coloco fácil no top 10 da literatura contemporânea até então, embora eu odeie essa para de top não sei das quantas. Lembro daquele filme Alta Fidelidade e tenho vontade passar uma lixadeira na cara do animal que escreveu esse lixo. Enfim, quis dizer que é um dos melhores que eu já li nesse estilo de literatura anglófona contemporânea pós-moderna da Silva Sauro. Falemos dele então, já que já enrolei por dois longos parágrafos.

Ruído Branco é um livro que foi escrito em 1984, época em que eu não existia, mas imagino que deva ser uma excelente época para ser criança. Fui criança na outra metade da década, por isso imagino isso da primeira metade. Bom, o livro fala de um professor chamado Jack Gladney, e já imagino o bigode escroto, o blazer marrom cocô e os óculos de grau da Ray-ban, que inventou uma matéria na faculdade chamada Hitlerologia. Ele tem uma esposa, que já é a sua segunda ou terceira esposa, chamada Babette, que dá aulas de modos à mesa ou algo do tipo, pra velhinhos. Pausa. Nessas aí você já vê a genialidade do autor. Que ocupação foi achar pra esses vatos! Bom, tentando contextualizar mais, Jack tem uma penca de filhos, tudo pingado de seus outros casamentos, e tem um amigo acadêmico chamado Murray que, aqui, funciona como uma espécie de deus ex machina, discutindo suas teorias com o protagonista enquanto, com elas, amarra as questões principais do livro. Quer dizer, o sujeito tem uma ideia mega oportunista e faz um sucesso com isso, tem uma família mais quebrada do que decaimento alfa de Ununóctio e tem como principal amigo um colega de trabalho. É visionário ou não é? É século XXI ou não é?

A primeira parte de Ruído Branco é totalmente surreal, e você acha que não dá pra ficar mais doidchão, mas fica. Começa simples: vai ter um simpósio sobre nazismo ou algo que o valha e Jack é o grande nome para o evento, já que foi o cara que inventou a hitlerologia. Só que ele não sabe falar alemão e isso, por mais que não impeça o estudo da matéria, pode ser visto com maus olhos por seus pares almofadinhas. Então corre atrás de um professor particular. É, portanto, uma tiração de onda com os malditos academiscistas que chegam na sala pra te dar uma aula de filosofia e começam a escrever  ὑποκείμενον no quadro-negro (não vou citar nomes, você sabe quem é, manezão). Boa sátira, ponto pro DeLillo.

Eis que um vagão de trem vira a uma distância considerável da cidadezinha onde Jack mora, e libera um gás tóxico que exige que a cidade seja evacuada. Nisso, vai geral naquela loucura, sem saber direito do que estão fugindo, e o filho do meio de Jack, cujo nome já me esqueci, é quem consegue reunir as informações sobre o evento, e passar para as pessoas, virando um verdadeiro herói entre os bitolados. Essa parte mostra duas coisas: a primeira, o poder da informação e, principalmente, da falta dela, sobre as massas, e a segunda, mais importante, a confrontação de Jack com a sua mortalidade. Não falei isso, mas o bicho tem muito medo da morte, embora não conte pra ninguém. E aí ele é exposto à fumaça tóxica, e fica sem saber se isso vai afetar sua saúde, se ele vai morrer, etecetera.

Tira foto agora não, pô! Tô lendo Recruta Zero.

Sobre a terceira parte do livro não vou contar nada, porque é a mais legal e já entreguei spoiler demais. Mas tudo isso pra dizer o seguinte: DeLillo foi genial nesse livro, e enquanto abordava as questões que pretendia com a vida dos Gladneys, discute elas mais livremente com as teses de Murray. As discussões entre os professores na universidade são partes memoráveis do livro, e até anotei uma, de alguém que não lembro: “queremos catástrofes, precisamos delas. Dependemos delas, desde que não aconteçam no lugar onde estamos. É aí que entra a Califórnia. Avalanches de lama, incêndios florestais, erosão na costa, terremotos, assassinatos em massa. Esses consegue curtir esses desastres sem problemas porque no fundo a gente acha que a Califórnia merece isso tudo. Os californianos inventaram o conceito de estilo de vida. Só isso já justifica”. GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL! Já falei disso antes, mas às vezes sinto vontade de levantar e gritar como se grita um gol ante algumas passagens geniais que não poderiam estar em melhor lugar e situação. O pensamento aqui pode ser óbvio, mas é tão bem casado com o contexto que torna tudo genial. Outra: “É aquilo que perdoamos no leito de morte, não a falta de amor nem a ganância: perdoamos nos outros a sua capacidade de se distanciar de nós, tramar silenciosamente contra nós, de certo modo matar-nos”. Foi, foi, foi, foi ele! Carimba, Godói! (tadinho do Godói, galera). Vale lembrar que o livro ganhou o American Book Award de melhor romance, em 1985, como diz na capa. Enfim, se eu ainda não deixei vocês com vontade de ler DeLillo, sou um incompetente mesmo.

E esse projeto gráfico da Companhia das Letras? Gente, esse livro é velho. A editora lançou ele em 1987, e edição que eu tenho é de 2003. Ou seja, ficou sete anos mofando em alguma loja — mofando não!, amadurecendo e encorpando — até que a Tia Alba me desse esse presentão. Bom, a capa é totalmente anos 80, com o título escrito em bolinhas à lá Lichtenstein (o picareta, não o país que nem parece país) e diversas outras partículas brancas (no caso da minha edição, cinzas já pelo desgaste) em alto-relevo. A fonte é Garamond em corpo minúsculo, o que dá um desânimo, mas a gente encara se for coisa boa. Papél pólen é de praxe. A tradução é do Paulo Henriques Britto e eu li esse livro num período que tava lendo uma tradução do Britto atrás da outra. Gente, o cara é frenético! Bom, se o virem na rua, tratem de o abraçar bastante, que ele merece. Sr. Lessa, taí então, segui sua recomendação. Obrigado.

Ps: Gente, a vida tá difícil. Não sei se vai ter post na quarta. Se não tiver, me perdoem, ok?

Comentário final: 319 páginas em papel pólen. Pa-panamericano!

 

 

Rubem Fonseca – O seminarista

“Gente, foi o Rubem Fonseca que escreveu o Seminarista? Esse gajo é velho, hein?” Não é nada disso, ó pá, manezão, esse seminarista não é o mesmo seminarista do Bernardo Guimarães, o manolo que escreveu Escrava Isaura. O seminarista em questão é o último livro do nosso querido Rubem Fonseca. Poderia dizer que é o mais novo livro dele, mas a verdade é que nem é tão novo assim: foi lançado em 2009.

Bom, alguma consideração sobre o livro antes de adentrarmos em sua história. O Seminarista foi o primeiro livro inédito do autor publicado pela editora Agir. Ele, que até então era publicado pela Companhia das Letras, migrou pra editora nova depois de um rolão envolvendo a publicação de uma autora meio estreante no ramo literário. Mas bom, isso são fofocas de bastidores que aqui não me cabe contar pra não sucitar a violência. Sou um cara da paz e já tô até imaginando as editoras trocando tiro no meio da rua, tal qual Counter Strike naquela fase do Rio de Janeiro. Deixemos isso pra lá. Fato é que Rubão agora é do time da Agir, que está republicando seus livros aos poucos, em edições muito graciosas que comentarei no final.

Vamos ao livro de hoje. O Seminarista conta aquela velha estória do matador profissional que decide largar o osso, e não vê que isso tá errado. Quer dizer, o cara mata um monte de gente durante a vida inteira dele e aí decide parar de matar? Não é justo que uma pessoa tão maldosa assim tenha esse direito, por isso o tenente Aldo Raine faz questão de tatuar uma suástica na testa dos nazistas safados. Enfim, como em qualquer outra estória dessas, aparece uma mocinha inocente e umas pessoas interessadas em assassinar o assassino. Mas José (esse é o nome dele) é um cara sensível: gosta de rock clássico, poesia, literatura, plantinhas, enfim, é uma flor que nasceu do lobo, sem falar que foi seminarista quando mais moço (daí o nome do livro, né, esperto?). Mas, por alguma razão que Rubão não conta pra gente, decidiu fazer o mal e colocar as pessoas pra comer capim pela raiz. “Por quê, tio?” Não interessa pra você, palhaço. Morre, diabo! É inconsistente, incoerente, inconstante, inconstitucionalíssimamente? É. Mas, fazer o que, o cara é consagrado.

Bom, daí que José fica nessas de ser atormentado, tentando cuidar de sua gatinha, encontrando uns camaradas dos tempos de seminário e matando para não ser morto. Resumindo, uma estória pra lá de original. Gente, o cara teve que pensar muito pra escrever esse livro, hein? Qual vai ser o próximo? Uma mulher que toma um pé na bunda e decide se mudar pra algum país romântico da Europa, onde conhece um europeu forte e musculoso? Bah, fala sério, Rubão, meu rapaz, desde que você achou aquela carteira recheada de dólar você não é mais o mesmo.

Melhor é falar do projeto gráfico do livro, porque esse sim é bonito. Margem bem grande, fonte Minion Pro, papel pólen e capas com a mesma disposição de título e nome do autor, e ainda a assinatura dele dentro do quadradinho com o nome da obra. As lombadas são todas brancas e a minha edição ainda veio com um exemplar do conto “A Arte de Andar pelas Ruas do Rio de Janeiro”, bem melhor do que o livro, um conto das antigas e recheados de fotografias iradas sobre a cidade. O livro também tem site, acesse clicando aqui, e veja que no site eles também vendem o livro em versão e-book, para Kindle. Agora, R$19,90 num e-book? Editoras do meu Brasil, não façam as cagadas que a indústria fonográfica fez com o CD. Depois neguinho começa a piratear os livros e vocês não vão gostar. Bora baixar esse preço, né?

Comentário final: Pretty bitch for fun, for fun, for fun.

 

Thomas Pynchon – Vício inerente (Inherent Vice)

Inherent viceHoje é um dia triste. Acabou o horário de verão aqui no sul. Meus leitores nordestinos não imaginam o quanto esse período me faz feliz. Anoitecer mais cedo era muito legal quando eu era adolescente das trevas, tipo leitor de crepúsculo, mas agora que sou uma pessoa normal gosto de sair do trabalho e ser dia. Ainda mais nessa cidade em que você vê o sol quase três vezes por ano. Por isso, Bernarda Alba pede que a gente faça um luto até o advento do próximo horário de verão. Falta muito pra outubro?

Aqui no Livrada! é o único lugar onde você encontra esse tipo de nariz-de-cera moleque, esse nariz-de-cera arte, nariz-de-cera maroto, clássico em seu propósito de enrolar e te convidar pro texto (not). Enfim, livro de hoje. Thomas Pynchon, quem é ele? Um dos maiores escritores dos Estados Unidos. Ô paiszinho ingrato esse pra ter uma atividade intelectual. Deve ser que nem ser mestre churrasqueiro no meio da verdurada vegan: um bando de chato que não tá nem aí pro seu talento (brincadeira, galera vegan, aprecio vossas bandeiras. Mesmo porque a carne do mundo tá acabando e farinha pouca, meu pirão primeiro, ou, no caso, meu filé primeiro). Bom, voltando ao Pynchon, grande escritor estadunidense cuja identidade a maioria das pessoas no mundo desconhece. Vamos combinar: onde Dalton Trevisan falhou, Pynchon triunfa eterno nessa brasila. Ninguém sabe como é o cara, ele não dá entrevista, não aparece em público e as fotos que a gente tem dele são da época em que o Niemeyer tava projetando as curvas da Sophia Loren. E eis que ele lança um livro mutcho loko ano passado. Falemos dele entonces.

Vício Inerente é um livro um pouco diferente dos livros do autor, pelo menos quanto ao enredo. O que é uma coisa muito perigosa, porque quem me garante que foi ele mesmo quem escreveu isso, e não se trata de um fanfiction bem sucedido? Complicado, galera. Tenha em mente que a constância na obra é importantíssima quando não você não tá disposto a dar a cara a tapa. Enfim, o livro é, a grosso modo, um policialzão bem montado e, por isso mesmo, confuso as hell. Fala de um detetive chamado Doc Sportello, que não é bem um detetive — muito mais um drogadão que trabalha de detetive quando algum louco dá um trabalho pra ele. Era o auge do movimento hippie, começo da década de 70, e naquela época ser drogadão era muito mais do que fumar uma erva com seus amiguinhos, ouvir Manu Chao, brincar com malabaris, fazer Bob Marley de durepoxi, tomar um Santo Daime “só pra ver qual é a da parada” e fazer mochilão pela América do Sul: era um VERDADEIRO estilo de vida. Não faltavam drogas e misturebas sinistras pra derrubar qualquer elefante junkie que aparecesse. Bom, Sportello estava à toa na vida vendo a banda passar quando chega uma mocinha ex-peguete dele, dizendo que o atual, um Piccolo Tigre do ramo imobiliário desapareceu misteriosamente. E, mergulhando na investigação, o detetive — que, vamos admitir, faz um bom trabalho pra um drogadão — descobre ligação entre bandas de surf music e um saxofonista dado como morto, sociedades arianas de motociclistas e uma parada chamada Canino Dourado, que, basicamente, é tudo nesse livro: um iate, uma máfia de dentistas, uma barra de ouro que vale mais do que dinheiro em formato de dente, o dedo da sua mãe Total Flex, enfim, uma maçaroca de informações que vão sendo jogadas na sua cara como uma tortada violenta do Passa ou Repassa.

Todas essas informações exigem que você leia o livro atentamente, porque, caso contrário, você vai se sentir um desses drogadões do livro: viajando na maionese enquanto descobertas importantes estão sendo feitas. A grande sacada desse livro são os personagens secundários: o policial Pé Grande, um tira durão, para usar seguidamente duas terminologias de Tela Quente, e desculpe pela rima. Pé Grande não gosta de hippies e faz aquela linha de parceiro-meio-inimigo do protagonista. Também tem o Sauncho, o advogado de Sportello que, fazendo jus ao seu nome (de Sancho Pança, muito provavelmente) é o fiel escudeiro do protagonista. E o que é um advogado senão um escudeiro? Um crápula, um infeliz, um pulha, um biltre, um safado, um sem-vergonha, um yuppie nojentinho aspirador de pó do caraças? Sim, tudo isso, mas principalmente um escudeiro.

Agora, vamos lá, meu puxão de orelha na crítica literária desse Brasil varonil: a orelha do livro diz que Pynchon, com esse livro, “destila seu conhecimento divertidamente enciclopédico acerca de tudo”. Essa ideia de que o autor é um sabe-tudo foi amplamente alardeada pelos veículos, porque o Pynchon sabe falar de penteados afro e a importância do saxofone na evolução do surf music. Não é por nada não, mas não tem nada de extraordinário no conhecimento do autor nesse livro. Primeiro porque hoje em dia qualquer Zé Mané tem acesso à Wikipedia, segundo porque eu sei falar de literatura, jogos de videogame desde seus primórdios, armas de fogo dos mais variados calibres, a história da charge e do punk rock e astronomia, e ninguém fica por aí dizendo que eu tenho conhecimento enciclopédico. Eu só sei das coisas que estudei por fora, e tenho 24 anos. Imagina o leque de conhecimento que um cara velhaco como o Pynchon deve ter. Isso é normal minha gente, nessa época de internet principalmente, e Isaac Asimov estava certo. Normal, se você não for uma besta alienada que não gosta de aprender sobre nada nesse mundo. Então, emetevê da crítica, vergonha na cara e vamos botar a nossa própria cabeça pra funcionar, alright?

E vamos ao projeto da tão amada Companhia das Letras. Pra começar, a tradução foi feita pelo Caetano Galindo, professor de letras aqui da UFPR. Galera, o curso de letras da Federeca é uma das poucas coisas de qualidade que o governo federal pode te oferecer. Fiz diversas matérias ali e foram todas memoráveis. E o Galindo é reconhecidamente um cara admirado por lá, então pimba, é só acerto. Daí tem essa capa. Vamos combinar que a imagem não é das mais chamativas, mas, mesmo assim, não podia ser melhor. Pra mim, ela descreve muito bem a vibe do livro. Acontece né, nem sempre livros legais rendem imagens bonitas, mas as capas são o que são e o são por alguma razão (eu tô rimando mais que o Gabriel Pensador hoje). No mais, fonte Electra, papel pólen soft e mais um livrasso pra você destruir alguns ossos com ele. Ah, vou tentar usar o comentário final agora como um cata-corno Google, vejamos a eficiência.

Comentário Final: Emagreci 20kg tomando Caralluma. É verdade!

 

Neil Gaiman e Dave McKean – A comédia trágica ou a tragédia cômica de Mr. Punch (The tragical comedy or comical tragedy of Mr. Punch: a romance)

The Tragical Comedy or Comical Tragedy of Mr. PunchFala moçada, como vocês estão hoje? Legal que as pessoas estão aderindo ao desafio, em breve vou postar a lista. E você, já decidiu o autor que vai ler esse ano? Decide aí e manda pra gente, choque.

“Ih, alá o Yuri, vim aqui querendo ler resenha de livro e encontrei resenha de quadrinho, que manezão!”, alguém diria. E eu respondo com um pedala Robinho e digo que a linha editorial do Livrada! não prevê quadrinhos, a menos que eles sejam muito bons e/ou originais ao extremo. E é o caso dessa graphic novel, que, já disse, é “banda desenhada” ou “história em quadrinho” no cultês. Então vamos aproveitar que hoje é domingo e você não tem nenhuma responsabilidade nos próximos minutos e abramos a cabeça um pouco para outros gêneros literários.

A comédia trágica ou a tragédia cômica de Mr. Punch, de Neil Gaiman e Dave McKean é um daqueles livros que você vê e pensa “meu Deus, olhaí uma dupla de zé ruela pagando de gênio atormentado”. Bom, amigo, fazer o quê se é assim que os caras se expressam. Dave McKean, o barbudinho que parece um torcedor do Fluminense, é o cara responsável pelos desenhos e fotografias doentias que você encontra dentro desse livro, e Neil Gaiman, o que parece da família do Stephen Rea, é o cara que escreve a história das coisas doentias do tricolor supracitado. Gaiman conta uma história de fundo autobiográfico, de quando foi passar um verão (verão na Inglaterra, vocês sabem, é só força de expressão) na casa dos avós, que moram no litoral. Lá ele conhece o teatrinho de Mr. Punch, um popular show de fantoches que rola por lá desde a idade média, que é basicamente o seguinte: Mr. Punch é um homem casado com uma mulher chamada Judy, e eles tem um bebê também. Só que ele é meio detestável (e existe algum fantoche que não seja?), então todo mundo meio que odeia ele. Aí ele mata a esposa, o bebê, e todo mundo que vem pra matar ele acaba morrendo também, inclusive o capiroto em pessoa. Bom, é isso. Um show de fantoche com um monte de personagem morrendo, e que mostra que a pessoa, mesmo sendo desprezível, pode ser muito sagaz pra sobreviver na base da malandragem.

Acontece que, como qualquer criança cercada de gente velha e coisas da época do guaraná de rolha, o pequeno Neil fica muito impressionado e tudo parece muito estranho, assustador e fascinante ao mesmo tempo. Ora, você, quando era criança, nunca se pegou assustado pela pele, que mais parecia bola de basquete ou, com sorte, frango cru? Então você sabe do que eu tô falando. E aí ele conhece diversas figuraças que participam da vida cultural mixa do litoral, que sim, é sempre mixa (e se você acha trio elétrico legal, sai do meu blog. Ooopa, brincadeira!), entre elas um velho chamado Swatchell, responsável por realizar o show de Punch e Judy. Swatchell é um cara meio obscuro, com um passado desconhecido, meio criminoso, meio assassino, quem sabe? Fato é que esses tipos são colírios para as crianças. Ou você nunca ficou fascinado quando descobriu que seu tio matou um cara? Nessas, o fedelho inglês fica impressionadíssimo com o show de Punch e Judy (a julgar pelas fotos, é um nightmare fuel aditivado pra encher o seu tanque) e aquilo fica cozinhando na sua cabeça impúbere por todo o resto das férias, e idealiza Mr. Punch como uma espécie de obsessor que suga a vida dos que o colocam na mão.

Basicamente o que o autor faz aqui é mexer com aquele velho fascínio que as pessoas sentem por bonecos mega expressivos. Será que tem vida, será que não tem vida, será que é assassino, será que é bonzinho, etc. Algo já visto em todas as escalas de terror, de Goosebumps a Chucky-me-dá-um-abraço, e em alguns outros filmes, como aquele Dummy, com o Adrian Brody, que eu vi no ônibus indo pro Rio uma vez. Vem cá, quem não odeia filme de ônibus aqui? Da última vez que voltei de São Paulo, passou Dr. Dolittle 4 e Homens de Preto 2. Olha, que raiva eu passei com aquele som alto, querendo concentrar na minha leitura. Mas onde é que eu estava? Ah sim, falando do fascínio por bonecos. O medo que a gente tem de boneco é basicamente o mesmo medo que Deus sente da gente, se é verdade o que os católicos dizem sobre imagem e semelhança. Ver uma coisa que parece outra coisa que você já conhece é meio assustador, mas os hipsters adoram: uma caneca que tem o formato de lente Canon, um relógio em formato de caneca, um prato em forma de relógio, um disco em forma de prato, uma bolsa em forma de disco, um boné em forma de bolsa, enfim, malditos hipsters, vão gastar seus dinheiros com coisas úteis pra variar.

Além do fascínio por bonecos, o trabalho que deixa o livro realmente interessante é de Dave McKean, do clube “tantas” vezes campeão. Com um domínio extremo de imagem e fotografia, ele compõe os quadros do quadrinho mesclando os formatos, usando panos, plantas e outros objetos que saltam da imagem, como um quadrinho 3D. Bom, não exatamente 3D, mas, digamos 2½D. Os desenhos são pintados, ao que me parece, com uma brocha em cima de madeira compensada, e as linhas do que seria nanquim são feitas no computador. É um trabalho muito interessante mesmo, embora todo mundo tenha mais ou menos a mesma cara. Ah sim, ele também conseguiu arrumar o Mr. Punch mais assustador da história, de olhos arregalados e dentinho no meio, Nosferatu-Chico-Bento-style. Palmas pra ele então.

O projeto gráfico desse livro, lançado pela editora Conrad, que eu considero uma das melhores editoras de quadrinho do Brasil, é primorosa. Capa dura, papel couché de excelente qualidade e um lettering (as letras usadas nos quadrinhos) feito, me parece, a partir da caligrafia de um dos autores. Fibou muito bom. Acho que eles deram um formato ao livro que permite que a gente aprecie os detalhes de cada quadro, cada fotografia, melhor, e a capa, que não foge à original, também tá irada. Enfim, projeto gráfico de quadrinho tem muita coisa pra analisar, melhor parar por aqui pra não me estender muito. Ah, não tem paginação (é moda isso agora? Os últimos quadrinhos que eu li não tiveram também), então não sei quantas páginas o livro tem porque não vou ficar igual bocó contando as páginas da bagaça.

Comentário final: Já dançou com uma velhinha de churrascaria rodízio sob a luz do luar?