Ernst Jünger – Nos Penhascos de Mármore (Auf den Marmorklippen)

Auf den MarmorklippenTem livros que são tão sinistros que poucas pessoas conhecem, menos pessoas ainda o leem e menos ainda tem a audácia de comentar. Como a gente é enxerido e cara de pau, jackpot! Assim é Nos Penhascos de Mármore – um título bem gay pra se dar a um livro, segundo um amigo gay que eu tenho, principalmente na tradução anterior, Sobre as Falésias de Mármore – do Ernst Jünger. O melhor adjetivo pra descrever o Jünger é: alemão. O cara é muito alemão, galera. E como Nos Penhascos de Mármore é uma obra alegórico-simbólica, é preciso entender certos aspectos do autor e de sua época para entender porque ele escreveu o que escreveu. Vamos falar desse alemão então.

Jünger foi capitão durante a Primeira Guerra Mundial e foi condecorado duas vezes com a cruz de ferro e outra vez com uma medalha ao mérito que, olha, não é pra qualquer um. De modo que é um sujeito rigoroso e militarista. Inclusive ele defendeu o caráter ontológico da guerra em alguns ensaios que escreveu. A guerra, pra ele, está dentro de nós, é uma parada de que o bicho hômi simplesmente precisa como alavanca da civilização. Ele é, basicamente aquele seu bisavô maluco que acha que a gente tem que entrar em guerra com alguém e que seria muito bem amigo do Tarás Bulba. Mas também é um sujeito muito sensível, e tem uma formação naturalista, de modo que observa muito a natureza e gosta de catalogar tudo que encontra, tendo viajado ao Brasil em 1936 e se encantado com o Pará e com o Instituto Butatã em São Paulo. Conforme o regime nazista ia ganhando forma e força, Jünger foi se irritando com os excessos e as atrocidades da SA e da SS, de modo que escreveu Nos Penhascos de Mármore como uma alegoria contra forças totalitárias em geral, mas certamente motivado pelo nazismo. O Goebbles ficou putíssimo com a publicação e queria sair na porrada, mas o Hitler como gostava dele enquanto militar, deixou a publicação passar sem represálias, embora o livro tenha ficado sem comentário crítico por razões óbvias.

Mas bom, de que fala, afinal, Nos Penhascos de Mármore? Bom, o livro, que se passa em um universo fictício, é narrado por um narrador sem nome, que se recorda de uma época em que passou em um retiro em Marina Grande, um lugar que na alegoria é o lugar-tudo-de-bom do universo. Ele e o irmão Otho, que é o irmão dele, ficam lá de bouas num eremitério bebendo e rindo e tudo mais, até que a ordem de sua vida começa a ser arruinada quando uns arruaceiros caçadores do bando de um tal monteiro-mor – uma alusão às forças nazistas e seus líderes, respectivamente – que transitam pela região começam a causar. E por causar eu digo matar uns pobres coitados. É bom que se diga que o universo do livro está separado em principalmente três regiões: Marina Grande, que é o lugar massa, que fica pra cá dos penhascos de mármore. Depois, a Campanha, que é tipo um lugar intermediário, patriarcal e de pastoreio, e a Mauritânia (que não é a Mauritânia de verdade), onde o bicho pega mesmo, onde mora o monteiro-mor, tirano da história, inimigo da civilização. É contra ele que o narrador e irmão Otho acabam lutando, numa alegoria do embate entre civilização e barbárie, mesmo esta camuflada de ordem e progresso. Mais do que isso são detalhes, acho eu, e detalhes estão na leitura.

Ai como eu to bandida

Ai como eu to bandida

A narrativa de Nos Penhascos de Mármore é relativamente curta – 176 páginas de história, mais a brilhante apresentação de ninguém menos que Antonio Candido (e se o Antonio Candido apresenta uma parada, você pode se segurar no corrimão que o chão vai tremer, o tempo vai fechar, os lisos vão correr e as cocotas rebolar) e o posfácio igualmente informativo do tradutor Tercio Redondo, que olha, se esmerou, viu. Mas a história mesmo é ainda mais curta do que isso, porque boa parte do livro é descrição das coisas, dos lugares e das pessoas. Com esse lance de naturalismo e atenção à natureza – hobby partilhado pelo narrador e seu irmão Otho (que segundo o tradutor, são alusões diretas ao próprio autor e seu irmão), Jünger se mostra um esteta de primeira e um parnasiano alemão como poucos. O Candido fala na apresentação que pra ele, naquele momento, a escrita em si era a expressão máxima da beleza artística e que pra fazer valer a literatura, o estilo tinha que ser milimétrico, com escolhas exatas de palavras e tudo mais. De modo Nos Penhascos de Mármore é antes de tudo a construção estética da escrita e a descrição detalhada do universo criado pelo autor, o que pode deixar a coisa bem chata lá pela página cem, mas se você não tá acostumado com um pouco de lirismo na sua vida, corra desse livro porque você não vai conseguir passar da página dez. No mais, a história em si é até bonita pela aparente placidez do personagem, que é levado à guerra por um instinto de sobrevivência e luta muito bem, mas antes de tudo por um sentido inerente de nobreza, que é um troço meio nazista se você parar pra pensar, mas que tudo bem, porque o cara é bom de briga e briga, teoricamente, do lado do bem. Tipo aqueles filmes de ação em que mexem com o cara errado e os bandidos se dão muito mal por causa disso e você gosta muito do protagonista. É, tipo isso.

Esse livro faz parte da Coleção Prosa do Mundo da Cosac e eu comprei ele numa dessas promoções de 50% de desconto da editora no ano passado, porque só assim na minha atual situação econômica. Ele tem uma capa paperback por cima da capa dura cinza e sem graça só com as iniciais do moço na frente em azul. Além dos nomes que agregam valor à obra (e aqui vamos parabenizar de novo o Redondo pelo trabalho excelente e provavelmente exaustivo), o livro tem papel chamois fine, que é o pólen soft ainda mais glamoroso e fonte Bembo, da qual nunca vi nem comi eu só leio e ouço falar.

Comentário final: 197 páginas em papel chamois fine e capa dura. Arrebenta os totalitarismos pra lá do penhasco de mármore!

Barbara Demick – Nada a Invejar (Nothing to Envy)

Nothing to EnvyVamos falar de Coreia do Norte, já que o assunto é a Coreia do Norte por esses tempos. Os proto-chineses estavam ameaçando bombardear os Estados Unidos caso a Sony Pictures lançasse o filme A Entrevista, uma comédia bobalhóide (olha eu inventando palavras) do Seth Rogen e do James Franco em que eles vão até o supracitado país para matar seu líder extremo, o rechonchudo Kim Jon-Un, neto do presidente eterno do país Kim Il-Sum. Hackers invadiram o sistema da Sony, todo mundo amarelou no projeto, as pessoas começaram a dar nota máxima pro filme no Imdb em solidariedade, a Sony voltou atrás, lançou A Entrevista e o filme agora concorre a várias categorias no Framboesa de Ouro, que premia as piores porcarias que a sétima arte produz no ano. Viva, quase começaram uma guerra por causa de um filme intragável. Mesmo assim, pelas minhas contas e se não me engano, essa é a terceira ou quarta ameaça de guerra que a Coreia do Norte faz e não cumpre, o que já dá praqueles malucos suicidas que adoram guerra e que fazem tantas coisas legais pra gente comprar tomarem como deixa e realizarem a tão sonhada investida.

Fato é que os Estados Unidos não brincam com a Coreia do Norte pelo mesmo motivo que você não olha debaixo da cama a noite: não se sabe o que tem lá. O país é um dos regimes mais fechados do mundo e os turistas só podem visitar a capital Pyongyang e em visitas guiadas, sem falar com ninguém (uma amiga minha foi e eles foram levados pra visitar, entre outras coisas, uma fábrica de fraldas e um boliche). Por causa disso, a jornalista Barbara Demick, que era correspondente em Seul do Los Angeles Times em 2001, começou a querer investigar como eram as vidas dos habitantes da Coreia Caída. Daí nasceu o livro Nada a Invejar: Vidas Comuns na Coreia do Norte, que é, tecnicamente, um livrorreportagem como vários outros que figuram na coleção de Jornalismo Literário da Companhia das Letras (Stasilândia, por exemplo, tem uma estrutura muito parecida). Não entendi direito porque esse livro não ganhou o selo, assim como outros livros de estrutura jornalística publicados pela editora. Concluí que não ganha o selo aqueles livros que eles acham mais ou menos, mas ainda assim bons para publicar. Se essa é a posição deles mesmo, vou discordar, porque achei Nada a Invejar um livro muito maneiro, principalmente quanto ao tema.

É claro que a Barbara não teria como entrar lá e falar com os coreanos, então falou com os desertores do regime que moravam na Coreia do Sul, e as histórias retratadas no livro são tão distintas entre si quanto ricas. A grande parte delas são de mulheres, que tiveram condições mais ou menos favoráveis dentro do país e que sucumbiram, de alguma forma, ao rígido sistema de disciplina e louvor ao partido criado. É assim que conhecemos, por exemplo, a história de Mi-ran, cujo pai havia lutado na guerra contra a Coreia do Sul do outro lado, razão pela qual entrou na lista negra do partido e nunca conseguiria qualquer coisa. Ou a Sra. Song, devota fervorosa do Partido dos Trabalhadores (o de lá, não o daqui) que começa a comer o pão que o diabo amassou quando o generoso líder morre e sua já incompetente gestão de pseudo-comunismo pseudo-maoísta dá com os burros n’água totalmente. A fome, a disputa por um lugar ao sol, a falta de energia elétrica e outras penúrias são uma constante em todas as histórias.

Barbara DemickAlguns méritos do livro, além das histórias. Como a Coreia do Norte é a mesma coisa que nada enquanto país para a cultura do ocidente, a autora consegue pincelar, em meio aos relatos, parte da história do país e um pouco de sua cultura. Como a Coreia foi dividia, como ela era organizada e tudo mais. Ponto pra Barbara. Depois, há o desafio de explicar para mentes que cresceram no mundo livre como se cria o fanatismo por uma causa política e as monstruosidades que vemos na TV, tipo o povo se jogando no chão e chorando por conta da morte do Kim Jong-Il. Os aparatos de controle ideológico do Estado coreano são monstruosamente eficazes, criando nenéns sob a imagem do líder supremo e instalando estátuas em qualquer fim de mundo (e na Coreia, o que mais tem é fim de mundo). É sempre muito difícil entender como as pessoas podem estar passando todos os perrengues no mundo e ainda assim apaixonadas pelo governo e dispostas a morrer por ele (até de fome… quando a comida rareou, o governo iniciou um programa para incentivar as pessoas a fazerem só duas refeições por dia), mas a narrativa das histórias contém elementos em comum que permitem entender um pouco melhor essa maluquice. Ponto pra autora também.

Por outro lado, o livro tem alguns vários problemas. Pra começar, a autora se repete muito, talvez numa tentativa de estressar o real significado do que está sendo narrado, talvez numa demonstração de espanto legítimo, mas é que a gente não pode esquecer de tirar as gordurinhas do texto, né, moça? Além disso, em alguns trechos ela também se contradiz. Em uma hora, ela explica que a política na Coreia organiza as pessoas em uma espécie de sistema de castas no qual não é possível subir, apenas descer, e num momento seguinte conta a história de uma pessoa que consegue ganhar a simpatia do partido, entre outras pequenas coisinhas. A maioria delas é fruto de um claro desprezo por regimes como o coreano, sendo a autora norte-americana, é relativamente compreensível, mas come on! (Aliás, ela também explica como os coreanos aprendem a odiar a Coreia do Sul e os Estados Unidos desde pequenos e como os americanos, coitadinhos, tentam ajudar e são injustiçados). Coisas assim tiram um pouco o tesão pela leitura, mas comprometem pouco o resultado final (mas comprometem).

Em papel pólen e fonte Minion (que é a fonte que a editora usa pros seus livros-reportagens, rá!), Nada a Invejar tem poucas fotos, e muito pequenas. Senti falta das ilustrações até porque as imagens sanam muito mais instantaneamente a curiosidade pelo país do que os relatos, e servem de bons complementos também. Enfim, tem, mas faltou. Papel pólen e a capa do grande monumento de Kim Il-Sum em Pyongyang só nos pezinhos ficou bom na capa, e o título do livro em coreano na lombada também tira uma onda. Ah! O título, aliás, vem de uma das placas motivacionais espalhadas pelas cidades e campos, que diz “Nada temos a Invejar no Mundo”, que é o equivalente ideológico àquele couro que você bota do lado dos olhos do cavalo pra ele não se distrair olhando pro lado e andar direitinho conforme você manda. Iradinho.

Comentário final: 412 páginas em papel pólen. Porrada na cara do gordinho norte-coreano!

Vídeo: Um Lugar Perigoso, de Luiz Alfredo Garcia-Roza

Vlog do Livrada! de volta no fim do ano para comentar o livro novo do grande Luiz Alfredo Garcia-Roza e, de quebra, falar um pouco sobre literatura policial e seus novos rumos por aqui. Aproveitem que é só hoje! Mentira, vai ficar aí pra sempre, pode aparecer quando quiser, mas não se esqueça de se inscrever no canal!

vlog

 

É uma imagem, queridão. Cê ainda não aprendeu?

Fiodor Dostoievski – Noites Brancas (Belye nochi – Белые ночи)

Белые ночиDostoiévski é o Karl Marx da ficção. Todo mundo adora comentar, mas ler que é bom, pouca gente de fato leu. Mas não tem problema, o importante é botar na boca do povo esse autor importante para a literatura mundial, e vamos comentar aqui hoje um livro nadavê dele, e vamos logo que eu tô com pressa.

Noites Brancas é um dos primeiros romances do Dostoiévski, na fase de boa dele. Pra quem não sabe, o Dostô foi preso e exilado na Sibéria durante um tempo, de onde ele voltou com sangue nozóio e disposto a escrever as coisas mais famosas dele que conhecemos: Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov e Memórias do Subsolo, o livro menos de boa da carreira do hômi. Pra quem não sabe, o título remete a uma bizarrice astronômica que acontece no norte do planeta em que o sol não se põe durante alguns dias no verão. Isso, segundo os estudiosos do autor, criam uma atmosfera fantasmagórica para a São Petersburgo, a então capital do império russo e maior cidade da nação russa. É por ali que flana o nosso protagonista, um homem delicado, sem muito traquejo para a vida em sociedade e amarguradamente romântico, naquele medley de suspiros e soluços de que eram compostas as prosas românticas do período anterior. Ele anda pela cidade conversando com os prédios e construções (a menção do que algum espertinho escreveu que a cidade se revela ela mesma um personagem. Eu adoro quando falam isso, esses clichês da literatura de orelha), quando encontra uma mocinha chorando junto a uma ponte.

É aí que o rapazote que nunca falou com nenhuma mulher de uma maneira decente resolve puxar papo e saber por quem a moçoila pranteava. Assim sabemos um pouco da história de cada um dos dois personagens da novela. E sabemos que Nastenka morava numa casa com a avó maléfica que não a deixava sair de perto dela, e que, numa dessas de sublocar um dos quartos, apareceu um bonitão que roubou o coração da moça, e que partiu prometendo voltar dali a um ano com um anel de noivado e coisas do tipo, só que passado o tempo previsto, Nastenka constatou que o homem de fato voltou mas não a procurou, deixando-a em profunda amargura da alma.

Noites BrancasE enquanto ela narra seus infortúnios, o nosso protagonista, que já era bobão antes de aparecer mulher na história, fica mais bobão ainda. Com uma eloquência digna de um poeta romântico e uma capacidade para a aporrinhação digna de uma testemunha de jeová começa uma ladainha imensa de paixão e devoção à nova amiga. Até que… ah, isso eu não vou contar, senão estrago a diversão pra vocês que não gostam de spoiler. O que precisam saber é que a parada dá ruim pra todo mundo e mesmo assim um ar de otimismo se mantém no ar, o que é algo para se considerar em se tratando de Dostoievski.

O estilo do livro é verborrágico, lúgubre e apaixonado, um resgate muito provável da predileção dos românticos do século 18, e é nesse clichê e nessa sátira que Dostoiévski faz a sua reconstrução novelística. Resgatando valores que ele provavelmente achava que estavam em infeliz decadência naquela época, o que reforça a minha teoria de que Dostoievski ficaria malucão igual o Tolstói se não tivesse passado por essa coisa do exílio (ele foi preso por supostamente conspirar contra o czar, mas isso é outra história).

O que é importante para vocês saberem sobre Noites Brancas é: 1- é uma novela curta e pungente sobre o amor platônico. 2- não tem nada a ver com as coisas mais famosas que o Dostoievski escreveu. 3- É Dostoievski de começo de carreira, Dostoievski de mesa, Dostoievski de entrada, Dostoievski do grupo de acesso, então vale a leitura apenas se você já tiver passado por uma ou duas obras mais significativas do homem, para ver como o sujeito amargou geral depois de enxugar gelo por um tempo. Por isso vale a leitura. E, por último, ainda é uma historinha legal.

Noites Brancas faz parte da Coleção Leste, da Editora 34. Já falei que a Leste é a minha coleção favorita de todas as publicações brasileiras? Autores fodões, tradutores idem, posfácios interessantes e tudo padronizadinho para acalmar meus ímpetos virginianos de organização. Esse título tem tradução e posfácio do Nivaldo dos Santos e umas xilogravuras mutcholokas no meio do Lívio Abramo. Vale a pena!

Comentário final: 96 páginas em papel pólen. Enxuga três cubos de gelo na Sibéria.

Lucas Varela – Paolo Pinocchio

Lucas VarelaOra, estava faltando uma graphic novel para comentar aqui pelo Desafio Livrada! 2014 (aliás, como estão indo nessa empreitada desafiadora que é o desafio deste ano?) Ia comentar o livro do Marcatti, mas eis que me caiu nas mãos, graças ao povo da Itiban Comic Shop (jabá de graça pros bróder) esse livro que compila as histórias insanas do Paolo Pinocchio e sua saga dantesca rumo ao inferno e pensei “por que não? Assim eu escrevo sobre uma hq que eu realmente gosto (não que eu não goste do Marcatti, muito pelo contrário), e as crianças que leem o blog ainda ficam conhecendo mais um cabra responsa”.

Pois bem. Conheci a obra do argentino Lucas Varela por meio da revista Fierro, uma revista argentina de quadrinhos que publica tanto os portenhos quanto os autores brasileiros, e ganhou duas compilações máster pela editora Zarabatana, a mesma que publicou esse livro, sob a catalogação de “coleção Fierro #4”. A história é uma só, mas pode ser lida separadamente, como foi publicada nas Fierro: Paolo Pinocchio é uma versão do mal do Pinocchio, o boneco de madeira da história de Carlo Collodi. Ele mente pra Chapeuzinho Vermelho, abusa sexualmente de João e Maria, arranca dinheiro do Patinho Feio prometendo pílulas mágicas para aumentar a auto-estima, droga a Bela Adormecida e por aí vai, até que é sentenciado à morte e vai para o inferno, de onde tenta sair. Basicamente as histórias giram em torno disso: Paolo tentando fugir do inferno, o que não faria tanto sentido para um boneco do mal não fosse o prólogo, em que o autor retrata Dante e Virgílio como um menino e um cachorro visitando o averno, a entrada do inferno, numa clara referência ao notadamente mais legal livro da Divina Comédia. Ali, buscam um significado para o que é a dor e o sofrimento, e colhem o depoimento de vítimas e de verdugos.

Fábio Zimbres, eu, Lucas Varela (com o microfone) e Vitor Caffagi no lançamento da Fierro 2, na Itiban.

Fábio Zimbres, eu, Lucas Varela (com o microfone) e Vitor Caffagi no lançamento da Fierro 2, na Itiban.

A graça de Paolo Pinocchio reside no fato do personagem ser espírito de porco demais, até mesmo para o inferno e para o sofrimento interno. Mesmo sendo condenado à morte diversas vezes, por promover orgias em um convento ou traçar a filha de um juiz, por exemplo, ele dá um jeito de ludibriar os ludibriadores e salvar sua pele. As histórias são abarrotadas de humor negro e altamente doentio, o que, é claro, ganha minha simpatia logo de cara. Mas talvez haja mais do que meras sátiras de contos da carochinha e referências a Dante Alighieri em Paolo. A ideia de graphic novel adulta passa também por isso: não só expor uma temática adulta, mas também brincar com ela, leva-la para o lado infantil e de volta para o universo de gente grande com a mesma leveza que por muitas vezes, em nossos mais profundos arroubos de loucura, fazemos. A loucura de Pinocchio é a loucura do homem moderno, que grita de inconformidade por viver em um mundo que reprime as vontades do corpo ao mesmo tempo em que pune a falta de virtuosismo universal, conceito que, convenhamos, há muito não condiz com a realidade do século 21. Pronto, esse parágrafo só escrevi pra mostrar que qualquer zé mané consegue bancar o profundo em resenha literária. O gibi é maneirinho e vocês deveriam ler.

O projeto é da Zarabatana Books, que fez o livro lindão, com papel de gramatura grossa e inteiro colorido, com umas splash pages de respeito e tudo mais o que o cara merece. E ainda tem arte na parte de dentro da capa e da contra-capa!

Comentário final: 96 páginas coloridas de puro sarcasmo!

Paolo Pinocchio atende às seguintes categorias do Desafio Livrada 2014:

10 – Uma Graphic Novel

Alain de Botton – A Arte de Viajar (The Art of Travel)

The art of travelOs livros de não-ficção. Ah, os livros de não-ficção. Você pega um toda vez que está cansado de lirismos do romance ou do conto. Toda vez que se sente alienado do que está passando no mundo lá fora e mesmo dentro de você. Toda vez que você passa por uma poesia pichada em um muro. Toda vez que te chamam de burro em público. Toda vez que ouve uma música do Criolo. Toda vez que vê seus amigos ansiosos com a tradução de um livro gigantesco do David Foster Wallace que ninguém vai ler. Toda vez que vê uma fila de autógrafos gigantesca na Flip para o romance de estreia de um autor da Nova Caledônia publicado no começo da década de 80 e traduzido só agora para o português, que fala de como jovens da contra-cultura resistiram ao governo tirano e cruel do ditador caledônio cujo nome você nunca vai conseguir pronunciar. Os livros de não-ficção são altamente necessários quando a ficção e seus elementos cansativos começam a tomar uma porção maior da sua vida do que você gostaria.

E Alain de Botton é um bom antídoto pra isso, descobri depois que meu grande amigo e interlocutor de leituras boas Cássio Capiroba me recomendou e logo depois me presenteou com este A Arte de Viajar, que devorei em poucos dias. O sujeito tem o seu grande mérito, que é o de ser profundo e acessível ao mesmo tempo, e carregado com uma bagagem verdadeiramente erudita, que passa por escritores merdas de outros séculos a livros realmente importantes de outras áreas perto dos quais você nem chegaria perto a não ser que estivesse realmente muito curioso, ele nos brinda neste belo livrinho ilustrado e dividido em vários capítulos, com ensaios sobre, como diz o título, a arte de viajar.

É assim, por exemplo, que ele usa o clássico de Huysmans, Às Avessas, para falar das nossas expectativas quando escolhemos um destino de viagem. É assim também que faz uma longa explicação sobre o legado de Humboldt (o verdadeiro legado, não o livro do Bellow) para a exploração do turista e os reais motivos pelos quais nos interessamos por um determinado lugar, e principalmente, como utiliza Van Gogh e Ruskin para falar da proximidade da arte com a nossa percepção da realidade, e como isso tudo está relacionado com o que atentamos com o olhar quando viajamos. A impressão é que dá é que o cara tem o conhecimento do mundo na mão e usa a seu bel prazer para ilustrar quaisquer pontos que queira para te provar um ponto de vista. Deve ser dureza ganhar uma discussão em mesa de bar com um sujeito desses. Felizmente, o sujeito veio da Suíça, mora lá Inglaterra e meu único contato com ele são esses livros maravilhosos que ele faz.

Alain de BottonA leitura de A Arte de Viajar é extremamente leve e gostosa, o que é um dom raro para quem se propõe a escrever ensaios sobre temas tão filosóficos quanto abstratos. Afinal, condensar uma experiência individual em valores coletivos como ele faz com a viagem é uma tarefa que exige tanto uma sensibilidade quanto a tentações solipsistas quanto a determinação de se unificar o pensamento de maneira que o leitor possa se identificar de maneira rápida e clara com esses devaneios.

Minha crítica ao livro é uma só e vai direto no conceito dele, por mais paradoxal que isso seja, já que passei o texto até aqui jogando confete no dito-cujo: viajar tem algo de misterioso e belo que, de certa forma, morre se algum espertinho vem e te explica o porquê. É como ouvir os Beatles: por mais que te digam que é legal e importante, não vai fazer sentido pra você até que você faça a sua descoberta pessoal na experiência da audição desses almofadinhas britânicos que depois quiseram pagar de lóki (e não é essa a história de toda banda indie hoje em dia?). Mas, como crítico, não posso meter o pau em um livro por ser esclarecedor DEMAIS, mas, ah, sei lá, cara, me deixa aprender sozinho também. Mesmo assim, se você não for um bicho do mato como eu, você vai ler A Arte de Viajar e fazer da leitura o melhor pra você sem ficar encanando com nada. Porque é isso o que o livro é, no final: completo, esclarecedor, leve e divertido. É detalhista ao dar pinceladas gerais, e é sério sem ser carrancudo. É como um amigo mais inteligente que você que te explica as coisas que você sente e não sabe direito o porquê, e aí você fica achando tudo meio gay mas também fica extremamente agradecido. Esse é Alain de Botton.

Esse livro foi publicado pela Intrínseca, e como eu já disse, ele é altamente ilustrado e dividido em vários capítulos, no começo dos quais é anunciado qual será o lugar do mundo discutido e quem serão os guias, quer dizer, quem serão os intelectuais ou as personalidades nas quais o autor vai se basear naquele capítulo. Isso torna a coisa mais didática ainda, permitindo ao leitor buscar por fora quem quer que seja que ele tenha se interessado durante a leitura. É todo em tons de cinza por dentro, mas não importa. O papel ainda é o bom e velho pólen soft com a grande tipografia Electra (salve, Electra!). Tem cabeço e paginação na parte superior e páginas cinzas para separar os capítulos. Um livro que não tem medo de gastar página para ser bonito. Gosto disso. E quem não gosta?

Comentário final: 253 páginas em papel pólen soft. Dá pra matar numa viagem daqui até Aracaju.

Sándor Márai – As Brasas (A Gyertyák Csonkig Égnek)

sandor maraiLivrada! Diário de bordo: no arquivo de word gigantesco do Livrada!, estamos na página 270, o que é coisa pra dedéu. Impressionante como essa coisa chega longe por insistência do burro velho aqui e ainda não ganho dinheiro nenhum com esse troço. Vou começar a fazer chantagem emocional com vocês: o dia que acabar com essa joça, vocês vão chorar, hein? Mas vocês não vieram aqui para ouvir as minhas lamúrias financeiras, vieram aqui pra se regozijar com a boa e velha crítica literária rasa e gratuita que fazemos hebdomadariamente nesse espaço há quase meia década.

Peguei As Brasas pra ler porque literatura húngara é uma pedra no meu sapato. Não consigo gostar muito dos autores húngaros que me aventurei a ler até hoje (aliás, por que, afinal de contas, chamamos o país dos húngaros de Hungria mas o país dos búlgaros de Bulgária?), mas por indicação de um amigo, peguei pra ler e ainda por cima mato um item do Desafio Livrada! 2014, por que não?

Pois bem, meu primeiro comentário sobre esse livro, e talvez ele seja inédito na história da crítica literária mundial, é a sua proximidade com o livro do Hermann Broch, Pasenow ou o Romantismo, parte 1 da trilogia d’Os Sonâmbulos. A relação é mesmo muito estreita, veja: ambas as histórias tratam de militares que perdem o referencial de dever e de valores com a queda do império Austro-Húngaro. Enquanto o livro de Broch fala de um militar austríaco, Márai fala de um velho general húngaro que aguarda a visita de um amigo de infância que, assim como ele e como o melhor amigo de Pasenow, também fora militar, mas largara a farda para viajar o mundo e ser uma pessoa normal. Ainda por cima há um triângulo amoroso a ser estabelecido e uma discussão sobre fatos, invenção e memória, valores e sentimentos, tudo aquilo que Broch se dignou a discutir em Pasenow. A semelhança entre os dois livros é tremenda, mas a condução deste é diferente, por óbvio.

Sandor MaraiNa história de Márai, o general, que nascera de uma família abastada, confronta o amigo de infância que não vê há 41 anos, depois de um incidente durante uma caçada que o deixara perplexamente com a pulga atrás da orelha. Parece que o amigo teria levantado a arma e feito mira no general para matá-lo, mas ele não tem certeza. Ainda precisa medir e avaliar qual foi a relação que teve com a mulher dele, morta oito anos depois da partida do amigo, e, como diz o Machadão, amarrar as duas pontas da vida. Ver como o amigo passou de amigo a ameaça, onde a confiança se perdeu, quais motivos, etc. De modo que As Brasas é, quase que inteiro, um diálogo. Aliás, um monólogo, praticamente. O que pode deixar o ritmo do livro um pouco lento pra você que tá acostumado com os Dan Brown da vida, mas seja menos preguicinha e encare um monólogo de 170 páginas que não tenha muitas frases de efeito como o De Profundis, vai.

O grande mérito de um livro de monólogo fica mesmo então, em dois elementos: 1- a construção dos personagens, da mais tenra infância a uma velhice amarga, os dois amigos são profundos em suas personalidades e as opiniões que cada um traça são claros frutos da criação que cada um teve. 2- a narrativa do autor, que é mesmo impressionante e muito bem feita. Sei lá, devia ter algo naquela água austro-húngara. E no fim, a crítica a respeito do conteúdo dá muito pra aproveitar do que escrevi sobre o Hermann Broch, e como sou um blogueiro relapso, vou deixar o link aqui de novo, rá.

Companhia das letras padrão, tem o Charles DeGaulle na capa e tudo mais. Não tô afim de falar do projeto gráfico hoje, quem manda sou eu e só de falar que eu era preguiçoso fiquei realmente com preguiça :P.

Comentário final: 182 páginas de papel pólen soft. Quando vocês chegarem no final, vão entender porque o livro chama As Brasas.

As Brasas cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

14- Um livro que algum amigo te enche o saco pra ler

Vídeo: Milan Kundera – A Festa da Insignificância (La Fête de L’insignifiance)

Você ainda gosta de ver vlogs? Espero que sim, porque o nosso está apenas começando e ó, tá ficando legal. Nesse, comentamos o best-seller tcheco Milan Kundera e colocamos alguns pontos simples de entender em um livro meio complicado de sacar. Mas, como dizem pra todo mundo que já fez uma cagada nessa vida, o que vale é a intenção.

Já falei pra se inscrever no canal? Vou falar de novo, porque precisa. Me ajudem a ficar rico, gente.

Já falei que isso é só uma imagem? Você tá tentando apertar o play até agora e achando que o que tá abrindo na outra aba é pop-up desgraçado. E tá errado.

livrada

Ryszard Kapuściński – O Xá dos Xás (Szachinszach)

jornalismo literarioE ainda dizem que o polonês é uma língua difícil. Xá dos Xás = Szachinszach. Xáxinxáx = Xá dos Xás. É só deixar a intuição fazer a sua parte e começar a ler Bruno Schulz, e entender o que você quiser entender, é claro. Mas bem, os senhores e as senhoras não vieram aqui para ter lições de polonês comigo, que no máximo improviso um versinho ou outro de ogórek ogórek ogórek zielony ma garniturek e não tô aqui para destilar mais do que isso dos meus conhecimentos filolololológicos. Estou aqui para falar desse livrorreportagem do grande mestre da arte Ryszard Kapuściński, esse polaco que deveria ter morrido antes do tempo umas 70 vezes e não morreu. Kapuściński cobriu guerras e escreveu sobre déspotas memoráveis, e ajudou a entender o lado feio e sujo do meio do século 20, lado esse que as pessoas até hoje não sabem pelo simples fato de não ligarem a mínima para o que acontece nesses países. Assim foi com o Irã e sua dinastia Pahlevi.

O livro, obviamente trata disso. Se você não sabe – e tudo bem, ninguém aqui está julgando o fato de você ter feito supletivo – xá é o título dado ao monarca no irã, e é esse o título porque quer dizer “rei”, em persa. Xeque-mate, o rei está morto, você já deve ter escutado isso em algum lugar ou lido em algum almanaque de cultura inútil. Pois bem, o Irã tem uma longa história de xás que massacraram o povo apenas para depois serem mortos ou exilados. É uma história cíclica, e a dos Xás Pahlevi tem muito a ver com o que está acontecendo hoje com o Estado Islâmico – de novo, se você não sabe o que é Estado Islâmico, a gente não julga, MAS…

O primeiro xá é o Reza Pahlevi, um homem de formação militar que ascendeu ao poder e que mais ou menos conseguiu manter tudo em ordem, se é que pode se chamar aquilo de ordem. O Irã não é essa potência cheia de petróleo e gente perigosa que é hoje, antigamente era só mato, deserto e pobre. Nem carroça tinha. Mas o filho, o xá Mohammed Reza Pahlevi, diferentemente do pai, não lidou tão bem com as coisas. Ele era, segundo o autor, um cara inseguro, que precisava ser bajulado, vaidoso e arrogante, e quando seu primeiro-ministro Mohammed Mossadegh resolveu nacionalizar o petróleo iraniano (e o império britânico sofreu uma queda porque até então eram eles quem mais ou menos mandavam por ali), a promessa de um país bilionário botou o Xá pra trabalhar. Assim, ele começou a querer industrializar o Irã, sem perceber que as coisas mais básicas ainda faltavam. E o povo ficou mais irado, e com o povo irado, o movimento nas mesquitas se intensifica, e eis que surge a voz incansável, serena e monocórdica do aiatolá Khomeini, que inspira a articulação do movimento contra o xá. Mas aí já tô contando demais sobre a história e pouco do livro.

Ryszard_KapuscinskiFalemos do livro. Não é à toa que Kapuściński foi o que foi. A escrita dele é um misto de crônica, relato jornalístico, remontagem histórica, ensaio e leves tons de escrita ficcional, tudo misturado num blend gostoso típico desses gênios da raça que surgiram naquele século (Norman Mailers da vida). De modo que ler O Xá dos Xás é algo que você tem que fazer nem que seja pra falar “mas que desgraçado esse sujeito que escreve tão bem e rodou o mundo e viu de perto a história acontecendo… que desgraçado mesmo”. E, claro, aprender um pouco sobre a história do Irã, como já disse, é entender também um pouco do que ocorre no Oriente Médio. Os governantes colocados no poder pelos interesses do ocidente, o descontentamento do povo com a falta de perspectiva e o levante capitaneado pela ideologia formada dentro das mesquistas torna a história cíclica como os espertinhos sempre falaram que era. De modo que O Xá dos Xás é uma aula de boa escrita, de história, de geopolítica e de como viajar pelo mundo (aprendam, seus fanboys da Disney).

O livro faz parte da coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras e é fiel ao padrão de quatro fotos e um textão, uma capa gráfica e um posfácio pra exaltar o autor e o livro em questão. O problema é que achei que nesse caso em específico, o livro carecia de mais fotos. Quem não queria relembrar a beldade de dona Soraya, mulher do Xá, e de ver o levante dos povos, e mesmo as fotografias de que o autor fala na segunda parte do livro – a maior delas, que centraliza o tríptico. Intitulada “Daguerreótipos”, ele conta a história através de fotografias antigas de que dispõe. Por que não podemos ver essas fotos também? Not cool, bro. Not cool.

Comentário final: 197 páginas em papel pólen. Xuxuxu Xaxaxau.

Vídeo: Cristóvão Tezza – O Professor

 

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Querem me calar, mas olha eu aqui de novo com um vídeo sobre esse escritor supimpa que nós temos e tanto já comentamos neste humilde espaço! Tem maçã, tem xiboquinha, tem Akira, tem moletom da Santa Cruz e tem muita alegria e descontração nesse vídeo sobre o último livro do Cristóvão Tezza: O Professor. Vai dar mole ou vai assistir e se inscrever no canal de uma vez? Tá bombando, gente, vem!
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Clica na imagem, filé. Tá difícil? Clica aqui então.

 

 O Professor cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

3- Um livro do seu autor favorito

11- Um livro publicado pela primeira vez neste ano

 

Comentário final: 240 páginas de puro calibre!