Liev Tolstói – Anna Kariênina (Анна Каренина)

Анна КаренинаFoi mal aí, meus queridos. Mais um fim de semana sem que vocês tivessem o privilégio de ler uma resenha tão bem abalizada aqui no Livrada! Hohohoho a vida segue e tenho certeza de que vocês me entendem e que, no final, não faz diferença pra ninguém. Quem ficar muito decepcionado com a falta de posts por aqui pode dar um clique ali em cima no “post aleatório” e dar umas risadas de piadas aleatórias de livros aleatórios. Ô vida aleatória da gota!

Enfim, pra não deixar a peteca cair, vamos dissecar aqui mais um clássico canônico imortal intocável vaquinha indiana da literatura. Anna Kariênina, meus caros. Todo mundo que gosta de um bom projeto gráfico, como eu, já apalpou a nossa amiga Anna, mas pouca gente a encara. Sim, meus amigos, Anna Kariênina é a Valesca Popozuda da literatura: todo mundo zoa, grita “gostosa”, mas chamar na chincha ninguém quer. E os motivos são muito claros. Assim como a Valesca, a Anna também é volumosa, e o conteúdo pode não valer muito o investimento. Mas vamos por partes.

Anna Kariênina foi um livro escrito por Liev Tolstói, o homem do saco que ficava pedindo um agasalho da campanha do agasalho ali perto da estação de trem em meados de mil oitocentos e setenta e poucos. Nessa época AINDA não existia luz elétrica (o lance tava começando a pegar entre os moderninhos, mas macho que era macho ficava só no candelabro), pasta de dente, perfume pra sovaco, depilação e a moda do momento era a tal nova massagem shiatsu, então imagine você que época cretina pra se viver. Não tinha essa de “ai, esse cara tem o pescoço muito comprido”, “ai, essa menina é meio gordinha”, e outras frescuragens que a vida moderna forneceu à geração Y. Filhote, lambia os beiços quem achava uma alma gêmea com todos os dentes na boca, morô?

A história se passa, portanto, nessa época. E fala de uma coisa que qualquer novela das seis joga em algum núcleo: de como quem é rico é infeliz se não encontra por aí uma boa bimbada. Anna Kariênina é uma moça linda, chiquérrima, luxuosa, mora numa mansão, torra o cartão de crédito do marido no shopping cazamiga, faz festinha de aniversário pro cachorrinho, matricula o filhote na aula de judô, enfim, é uma dessas peruas que a gente vê todo dia na rua dentro de um Honda Fit com a traseira amassada. Mas, ao contrário do que tudo indica, falta algo na vida de Anna, e não é um numerólogo, haja visto que seu nome tem dois enes. Por isso, algo estranho acontece em seu coração quando ela, na estação são bento, av. são João, conhece o Conde Vrónski, um oficial que na minha cabeça simplesmente é a cara do professor Girafales: altão, cheio dos trejeitos, se achando o gostoso e muito, mas muito, carente de strondar com as potranca. E aí começa o lance todo de amor extra-conjugal da protagonista.

Pronto, já sabem de quase toda a história, menos o final porque eu não vou contar. Não sou estraga-prazeres que nem o Milan Kundera que contou o final do livro n’ A Insustentável Leveza do Ser. E aí nesse chororô de mulher casada e cansada de ser casada, vão-se boas 900 páginas. Isso porquê Tolstói queria, muito mais do que contar a história de uma moçoila meio biscatinha, fazer um panorama e uma crítica abalizada da alta roda de sua época. E isso é legal pra gente ver que, enquanto os economistas e publicitários se desdobram em pesquisas de mercado para avaliar o perfil da nova classe média, não há nada de novo no front da aristocracia. Aliás, é assim com quase todo livro escrito antes do século XX. É por isso, inclusive, que o homem do saco abre o romance com as célebres frases: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. Vê-se logo que o cara queria discutir as aparências, afinal, que famílias felizes iguais são essas senão absolutamente todas? Ora, Tolstói nunca viu um comercial de margarina na vida, não nutria ilusões sobre a vida dentro da caixa mágica. Estava falando mesmo era de todas as famílias infelizes que se esforçavam para ser feliz da mesma maneira.

Agora, honestamente, se me perguntarem se o livro vale a pena ser lido, eu respondo: “tá frio hoje, né? E o nosso Mengão?”, porque, na moral, depende do que cada um quer pra sua vida. Se quer estudar os russos, que valem muito a pena ser estudado, então leia. Se quer ler uma história bem escrita, então leia. Se quer ostentar uma lombada pra ver consegue bater saco com as pussy por aí, então leia. Agora, se quer ler uma história interessante, vou dizer que a vida é curta, que a gente tem que parar e cheirar as flores de vez em quando, que não dá pra abraçar o mundo, etc. Ler quem quer, meu irmão, mas não admito, e vou defender isso até o fim, que alguém lhes diga que existe a tal da “leitura obrigatória”. Obrigatório é comer, respirar, ter direitos humanos e chances de competir nesse mundo canis canem edit. Ler é pra quem quer, quem gosta, e, ao contrário do que eu falo pra CERTAS PESSOAS, você é livre pra ler o que quiser, e pra não ler o que não quiser.

Mesmo assim, há de se ressltar as qualidades da obra. Primeiro, é um livro que, mesmo parecendo que se está narrando de longe, olhando o quadro inteiro (eu fico abismado de ver esses autores que conseguem orquestrar uma cena com um zilhão de personagens), consegue uma leitura psicológica muito grande dos personagens, e não é com descrição do que eles estão sentindo. Tolstói constrói passados para eles, e narra trechos de suas vidas que permitem concluir coisas sobre os sujeitos, e justificar futuros atos deles. E mete uns trechos de dar arrepio no meio do tipo “como se as lágrimas fossem um lubrificante indispensável para o bom funcionamento da máquina das relações entre elas…”. Queria ver um cara criar uma parada dessas em algum “se vira nos 30” do Faustão.

A onisciência do narrador também é pra f**** o c* do palhaço. Fazendo omissões intencionais, ele dá a medida exata do que quer que a gente conheça. Olha só essa passagem, de quando uma das dondoquinhas quer pagar de pedante: “E perder a Nilsson? – horrorizada, perguntou Betsy, que jamais conseguiria distinguir Nilsson de uma corista qualquer”. Olha a crueldade do homem do saco! Ele não disse nem “jamais conseguiu distinguir”, disse “jamais conseguiria”. Duvidou da capacidade de discernimento da personagem, chamou o pai de empada a mãe de coxinha, pegou os dois e fez uma orgia em cima da constituição! Tolstói era mesmo o Dr. House da literatura: fodão e escroto.

Veja essa última passagem, que resume bem os dois aspectos que mencionei. Sobre o incômodo que Vrónski sentia na presença do filho de Anna: “O menino, com o seu olhar ingênuo para a vida, era a bússola que lhes mostrava o grau do seu desvio daquilo que eles sabiam, mas não queriam saber”. Tomou, papudo? Tolstói usa o filho da mulher pra fazer ela perceber o quanto tão passando dos limites. Bah, tchê, palmas pro bagual.

Sentiram que essa resenha foi um pouco mais detalhada, né? Tem uma razão: primeiro que eu queria fazer um texto mais longo pra compensar o da semana passada, assim vocês podem lê-lo aos poucos durante a semana. Segundo porque as primeiras partes desse livro eu li fazendo alguns fichamentos sobre a obra (e olha que eu li antes desse blog), e isso me ajudou agora. É por isso.

E esse projeto gráfico da Cosacnaify hein? É especial ou não é? Eu ganhei esse livro da minha mãe no natal de 2009, e deve ter sido um dos últimos exemplares desse vendido. Além da capa dura, tem uma caixa de papelão onde você guarda o tijolaço. Depois a Cosac fez outra capa, em sépia, e dispensou a caixa que, enfim, é mais bonita que a capa. De qualquer jeito, essa capa dura, marcador de fita… tem escritor que venderia a alma pro tinhoso pra ter um projeto gráfico desses. E, se é verdade que o Paulo Coelho fez mesmo o tal pacto, a alma dele não deve valer muita coisa, pois o único livro dele de capa dura é aquele O Vencedor Está Só. Tolstói não era fraco, e o livro é um de seus maiores sucessos. Tanto que virou três filmes. Não uma trilogia, mas três adaptações. Ou uma adaptação e dois remakes. Aliás, me deu uma dor no coração de saber que vão fazer um remake hollywoodiano de Os Sete Samurais, e dessa vez não é faroeste. Tem gente que não vale o chiclete que masca mesmo. Enfim, já me estendi demais, até a próxima.

Antes disso, uma promoção relâmpago: Nosso anunciante, Victor Almeida, quer fazer um sorteio de seu maravilho livro Juntos no Paraíso (que em breve comento). Então, o comentário de número 1300 leva. Alea jacta est (não confunda pato a tucupi com entupir o cu do pato em latim. Sô eterno nesse latim).

Ps: Desculpa na demora em responder os comentários, mas vou responder todos do post anterior, ok?

Comentário final: um porrilhão de páginas pra rachar dente, crânio, cara, boca, dignidade, espírito, almaaaaaaa!

Lev Tolstói – A Morte de Ivan Ilitch (smiert Ivana Ilhitchá Смерть Ивана Ильича)

smiert ivana ilhitcháFeliz ano novo pra todo mundo aê. Gostaria de estar um pouco mais feliz nesse começo de ano, mas janeiro é uma desgraça que só para os meus queridos conterrâneos. Em ano ímpar, tragédia no interior; em ano par, tragédia em Angra. Sacanagem não, essa época é uma tristeza que só. Mas aí, meu trabalho aqui é falar de livros e tentar dar um pouco mais de leveza pra vida, afinal, dar umas risadas também é importante. E hoje, pra recomeçar os trabalhos no Livrada!, vamos falar do livro mais triste já escrito na história da humanidade. E vamos dar risada com ele.

Trata-se de A Morte de Ivan Ilitch, do Tolstói. Escrevi o primeiro nome no título, como está no livro, mas pode chamá-lo de León, Liev, Leôncio, Laurício, Lugano ou Lombardi, afinal, tradução do russo não é uma ciência exata. Tolstói, pra quem não sabe, é o camarada que escreveu aquele calhamaço gigantesco chamado Guerra e Paz que, não, não é uma minissérie da Rede Globo. Se liga, mané. Também escreveu o Anna Kariênina, uma espécie de novela das seis de quando não tinha televisão ainda, mas tem as mesmas roupas de época, a mesma mulherada fofoqueira e traíra, e também demora mais ou menos dois meses pra você saber o desfecho. Mas isso aí é outro papo, outro tipo de livro, outra vibe, outra pegada. Deixemos esses para os intelectualóides que precisam cumprir tabela. Vamos falar de um livro que é realmente legal, um livro batráqui, um livro rélpis, um livro estrogonoficamente sensível.

A morte de Ivan Ilitch é considerado pela crítica um dos livros mais perfeitos já escritos e, embora eu não goste de ir na onda da maioria, tenho que dar o braço a torcer e concordar. E muito da sua perfeição, eu diria, vem do fato dele ser pequenininho. Um livro peso-pena, mas que tem um cruzado de direita que vai garantir um Natal gordo pro seu dentista. Vejamos a história, então.

O livro começa com a notícia do funeral do Ivan Ilitch entre seus amigos, e todos eles já começam a calcular o que isso significa para suas vidas pessoais e profissionais. Isso é a maior arapuca do autor que, como o Coiote do Papa-Léguas, tá colocando um pouco de alpiste debaixo de uma bigorna pra você curtir. Você pensa então “rá, que cara sarcástico, banalizando a morte do cara, aposto que ele era um banana de quem nem os amigos gostavam muito”. Aí que tá o golpe, maluco. Aí que você vê que, como já dizia o Mia Couto, a verdade é como o ninho de cobra, que a gente reconhece não pelos ovos, mas pela mordida. A narrativa deixa o velório e retrocede num rewind frenético até o começo da vida de Ivan Ilitch. E conta como ele nasceu, cresceu e se formou, casou e teve filhos. E vê que ele teve uma vida prosaica, normal e monótona, casou com a mulher por interesse, e tudo mais, e pensa: “Alá, sabia que era um banana, ninguém vai sentir falta desse cara”. Nesse ponto o Tolstói tá cortando a corda da bigorna que vai cair em você que tá comendo o alpiste da apatia.

Um belo dia, o mané Ivan resolve subir uma escada pra, sei lá, pendurar uma cortina, sofre uma queda e se machuca um pouco. Começa a sentir umas dores, freqüenta uns médicos, e ninguém consegue dizer o que ele tem. Convenhamos que ser médico naquela época era moleza, vai. Não tinha que passar no vestibular, não tinha que fazer residência e tinha cinquenta vezes menos matéria pra estudar, porque, se você é que nem meu avô que acha que médico não sabe de nada, imagina só no século XIX quando realmente não tinha quase nada pra estudar. Chegava-se lá, receitava uma infusão, um emplastro, uma injeção, e se o paciente morresse, você ainda assim tava prestigiado e voltava pra casa com porcos e galinhas. Pois bem, o sujeito vai ficando mais podre que compostagem e aí ele se dá conta de que vai morrer. Ele fica tão abalado, mas tão abalado que, olha, parabéns se você não ficou com dó dele. A tristeza contamina todo mundo da família, e isso só piora, porque ele vê que ele é o causador de toda infelicidade da esposa e dos filhos. Eles resolvem deixar ele de molho no quarto e escondê-lo das visitas, pra terminar de arregaçar tudo com solidão e isolamento social. Ele não consegue pensar em outra coisa a não ser na morte: como tudo é tão triste agora que ele sabe que vai morrer, como ele gostaria de viver mais e não pode, enfim, toda a tristeza do ser humano que já não se vê mais como vivente. Passa o resto dos seus dias com a companhia do filho e de um criado que são um pouco mais sinceros do que ele, até que ele finalmente morre, como o início do livro já havia dito. E, fechando a última página, se você não estiver se debulhando em lágrimas, vai ao menos pensar que foi no mínimo injusto com ele desde o início ao não sentir sua morte como ele próprio sentiu. E o Coiote Tolstói fez mais uma vítima.

Parabéns pra você que não sentir um aperto no peito lendo esse livro, é um forte sem coração, no mínimo. Claro que eu devo ter tirado metade da graça do livro com essa explanação tosca e cheia de spoilers, mas hey, esse não é o papel da crítica? Ah, não? Ih, fiz cagada então, desculpaí. Bora falar do projeto gráfico do livro então. A morte de Ivan Ilitch faz parte da Coleção Leste da editora 34, coordenada pelo Nelson Ascher, que é o cara e ninguém precisa ficar dizendo isso. A tradução é do Boris Schnaidermann, que já fez uma ou outra tradução em parceria com o Ascher, se não me engano, e a imagem da capa é do Evandro Carlos Jardim, um desses desenhos que os caras falam “até meu filho faz isso”. Dependendo da quantidade de músculos do pai, não vamos tirar a razão dele, né? Que mais? Tem posfácio do tradutor e apêndice do Paulo Ronái, um intelectual já defunto que manjava muito desses bichos de literatura clássica. No mais, papel pólen Bold e fonte Sabon. Tamos conversados? De volta ao blog então, vamo que vamo.

Ah, vou colocar uma enquete ali do lado, se conseguir. Respondam, vai ser maneiro!

Comentário final: 92 páginas em papel pólen bold. Mais fácil machucar alguém dando esse livro pra ela ler do que dando uma porrada na cabeça com ele.

 

Valêncio Xavier – O mez da grippe e outros livros

Galerinha, novidades! O Livrada! tem o seu primeiro parceiro: a editora Prumo (como podem ver pela seção de parceiros na barra ao lado). Então aguardem livros da editora e sorteios de títulos, okapa?

Outro aviso: o próximo post será sobre as estantes, então, quem não mandou, mande logo a foto da sua, vai ser maneiro! (estamos sucintos hoje, hein?)

Então vamos ao que interessa: o mês de dezembro me lembra muito do Valêncio Xavier, por uma razão que só faz sentido pra mim: em 2007 meu pai me deu de presente de natal uma farrinha na Fnac, onde comprei seis livros: Ficções, do Borges, o Ninho da Serpente, do Pedro Juan Gutiérrez, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do Mia Couto, o Continente vol.2, do Erico Verissimo, O evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago, e este, o Mez da Grippe, um dos melhores e mais bonitos livros da minha estante. Claro que todos eles já haviam sido lidos ao final de janeiro, mas o fato é que foi um dia muito irado pra mim, que me senti fazendo as compras de mês na livraria. Tudo isso pra explicar por que escolhi esse livro hoje. Opa, voltamos à encheção de linguiça que nos é peculiar

Valêncio Xavier, pois bem. Ao mesmo tempo em que a mídia fica aí dando tapinha nas costas dele, dizendo que ele é o cara, ele sempre foi muito pouco comentado e muito pouco lido. O cara tem uma panelinha de leitores mais fechada do que a galera do Ignácio de Loyola Brandão. E digo pra vocês: é preciso ler mais Valêncio Xavier. Muito mais. Estou falando desse livro óbvio dele, mas pretendo falar de outros, afinal, quando deu a notícia da morte dele no jornal, todo mundo esqueceu o Desmembranças da menina de rua morta nua e do Minha mãe morrendo e o menino mentido. Então, vamos fazer aqui um favor à humanidade e tornar os livros do Valêncio prestigiados outra vez. Larga aí o Crepúsculo e se liga nessa história.

O Mez da Grippe e outros livros já chama atenção no título. Não só tem uma grafia escrotassa de mil novecentos e guaraná de rolha, como o “e outros livros” faz parecer que espremeram tomos aí nessas poucas páginas que o livro apresenta. Acontece que o autor escreve seus livros com um mínimo de texto e sempre com o recurso das imagens e do projeto gráfico montado exclusivamente para suas histórias (e por isso ele interessa tanto aqui para o Livrada!).

Por partes então, e falarei aqui dos principais. O livro que dá nome ao livro (hã?), O Mez da Grippe, é a história da gripe espanhola em Curitiba. Pra quem dormiu na aula de história, a gripe espanhola foi o surto de Influenza A H1N1 (sim, aquela que ganhou o prêmio Revelação de 2009 no Doença Awards) que, em 1918 chegou no Brasil e matou gente a dar com pau. Você imagine só que se essa gripe matou gente pra dedéu no ano passado, com todos esses avanços da medicina, bebedouro de Tamiflu, polícia paranóica no aeroporto, todo mundo andando com máscara e até comércio fechando, imagine só naquela segunda década do século XX, quando remédio não servia pra muita coisa e ainda assim todo mundo era hipocondríaco. Ora, vai dizer que seu vô não tinha umas histórias de tomar uma injeção na farmácia pra ter pique para ir pro trabalho? É, amigo, a gripe botou a dona morte pra fazer hora extra por dois anos. E Valêncio deu uma noção geral do que foi a parada, usando para isso depoimentos colhidos na época de velhas polacas curitibanas, recortes de jornal, fotografias e etc. Tudo isso com muito bom humor. É de cair o queixo a forma como as autoridades fecharam o olho pra doença, tentando não alarmar a população. A situação fica patética, então, e dá até pra imaginar a cara de bunda que o governo faz quando a parada sai de controle. Chegou a faltar caixão no mercado, e as pessoas até esperavam pra enterrar alguém, porque vai que mais gente morria, pra aproveitar o cortejo. Sinistrão, maluco.

Daí tem os outros livros dele. Maciste no inferno, por exemplo, é um filmão thrash do cinema mudo, que ele narra com imagens do filme, partituras da trilha sonora e uma locução doidona. O minotauro é um livro que se passa num hotel que é um verdadeiro labirinto, e a cada hora o personagem está diante de uma porta, cujo número aparece no cabeçalho. E, por último, gostaria de falar do conto O mistério dos sinais da passagem DELe pela cidade de Curitiba que, em resumo, fala de um terreno baldio na Rua XV onde, segundo o autor, Deus passou para dar um barro, leu e limpou a bunda com a Tribuna (o jornal que pinga sangue da cidade). Imagine o que é isso na cabeça de um moleque influenciável como eu e tirem suas próprias conclusões. O cara é bom ou não é?

Que esse livro é lindasso eu já disse. A Companhia das Letras, que geralmente tem um capricho com as obras que lança, foi extremamente cuidadosa com esse, que ganhou o Jabuti de 1999 na categoria melhor produção editorial. E não é pra menos. Repleto de fotos, recortes e diagramações a cada hora diferentes uma da outra, o livro tem um formato quase quadradão, generoso, com capa em papel cartão e mais papel cartão bordô-mamãe-tô-dando dentro. O papel é o legítimo pólen soft, mas as fontes variam muito. Tem até letra japonesa no livro, cara. Além disso, uma linda encadernação artesanal que vemos poucas vezes, e que dá um tchã especial pra obra. E chega de babar na minha edição, arruma a sua aí.

Comentário final: 324 páginas em papel pólen soft. Pimba na gripe suína!

João Ubaldo Ribeiro – Viva o Povo Brasileiro

Viva o Povo BrasileiroNão costumo ficar aqui falando de vários autores nacionais em seguida, mas já vi que tinha falado do Luiz Alfredo Garcia-Roza e do Cristóvão Tezza nos últimos posts e pensei “que se dane, vamos emendar mais um”. Até pouco tempo atrás, achava que a literatura nacional era a melhor do mundo, riquíssima em tudo o que produzia. Até que comecei a ver umas cacas sendo publicadas e caí na dura e triste realidade: o Brasil anda mal das pernas de escritores vivos. Sim, temos um aqui, um acolá, mas compare você a meia dúzia de gatos pingados de hoje e a escrete de quarenta ou cinquenta anos atrás e poderá constatar que a morte fez muito mal à arte literária do nosso país. Vocês podem não concordar comigo, mas sei de uma pessoa que concorda: o senhor Paulo Venturelli, expert no campo dos livros, disse mesmo que o que resta hoje é uma repetição de edições que tratam da estética da cidade: “acendi um cigarro, olhei pra ela nua na cama, aí achei uma garrafa de vodca perto do meu tênis e fui pra cozinha” blé, se você já passou da sua adolescência, esse tipo de coisa não vai fazer sua cabeça.

Enfim, já deu pra perceber que eu to enrolando para falar do livro de hoje, e tenho uma razão muito forte para isso: não lembro de muita coisa do Viva o Povo Brasileiro, embora seja uma obra que passei muito tempo lendo (são 700 páginas, afinal). Acho que isso aconteceu porque o li logo antes de ler A República dos Bugres, que é um livro mais desconhecido, porém muito melhor. Mesmo assim, não queria deixar de falar sobre ele. Primeiro que o João Ubaldo é um dos únicos imortais que realmente merecem ser imortalizados. Segundo que esse livro é mega importante, papo de ser leitura obrigatória para trainees dos mais diversos. Terceiro que é um tijolaço, e tava cansado de falar de livro de 200 páginas. Quarto que é uma ficção histórica, um dos meus gêneros literários favoritos, que peguei gosto por causa da queridíssima professora Marilene Weinhardt, assumidade no assunto. Quinto porque estou procurando resenhar livros mais conhecidos, visto que quando resolvo falar de umas coisas que só eu li, vocês se acabrunham e não comentam (aliás, conto com vocês para complementarem essa resenha). Sexto porque gosto daquele poema homônimo do Patativa do Assaré, até foi usado naquela música “Brasileiro” do The Funk Fuckers. Então chega de razões.

Viva o Povo Brasileiro é, como eu havia dito, uma ficção histórica. Ou não é (Cléber Machado style). Na verdade, há o contexto histórico, mas não há personagens migrantes — pelo que eu consigo me lembrar. (personagem migrante é o personagem que existiu de verdade e tá sendo ficcionalizado ali no livro. Tá pensando o quê, rapá? Livrada! também é cultura!). O livro cobre quase toda a história da formação do Brasil, bote aí uns quatrocentos anos, e, por causa disso, são vários os personagens, episódios e lugares que o livro traz. E tudo isso para mostrar o seguinte: o Povo Brasileiro, essa entidade anônima, porém definível, é um traste.

Logo no começo da história, há a descrição da morte de um tal de Alferes Galvão, um pescador adolescente que era chamado de alferes pelos amigos. A descrição do rapazote, tido como um mártir, quando na verdade era um Zé ruela qualquer já demonstra a ideia principal do livro: a de que os episódios que passam para a história são muito diferentes e muito menos gloriosos do que os fatos que realmente aconteceram. Se não acredita, lê lá a epígrafe: “O segredo da Verdade é a seguinte: não existem fatos, só existem histórias”.

Vou falar só de dois personagens bem legais do livro, e ambos aparecem no comecinho dela: um deles é Cabôco Capiroba, um canibal baiano que só gosta de comer holandês (nome que o amigo Cássio tomou para si e assina tudo que tange a sua persona virtual). Logo depois, um general chamado Perilo Ambrósio (tive que dar uma folheada aqui pra lembrar o nome do gajo, confesso), um covardão que não gosta de entrar pro pau nas guerras, mas faz um teatrão pro general: coloca uma tipóia ensangüentada com o sangue de um escravo e fala que brigou demais, pra mostrar que tem aquilo roxo. O sacana ainda corta a língua do escravo fora, silenciando a tistimunha. E vai dizer, essa não é a história eterna do Brasil? O rico sacaneando o pobre pra ficar bem na foto?

A primeira impressão que tive quando comecei a ler esse livro é que subestimei a escrita de João Ubaldo. Só havia lido dele A Casa dos Budas Ditosos, há muito tempo, quando era um moleque ainda, e não achei muito difícil. Mas esse livro não. É erudito e rebuscado no úrtimo. Na maioria das vezes esse tipo de coisa afasta o caboclo do livro, mas nesse caso, pelo menos pra mim, provou o valor da escrita desse baiano (aliás, acho que o povo da Bahia precisa se orgulhar muito de ter o João Ubaldo e o Milton Santos, porque nos últimos anos é só Parangolé e o diabo a quatro). E claro, tá cheio de escritor mané por aí, mas nenhum deles vai escrever uma ficção histórica. Escrever um livro do gênero é botar o pau na mesa mesmo. Assinar atestado de fodão. Estudar para fazer uma coisa que qualquer um pode fazer só imaginando é coisa de gente boa da melhor qualidade, por isso, deem valor. Aliás, o cara cujo nome é passível de constar horizontalmente na lombada de um livro tá com tudo e não tá prosa.

Sobre o projeto gráfico: Na época em que ganhei esse livro do meu pai (querido pai, sempre incentivando a leitura da prole), existiam pelo menos três ou quatro edições diferentes do livro, incluindo a versão de estudante e a edição novíssima da editora Alfaguara. Mas eu queria mesmo essa edição, da Nova Fronteira, por causa do projeto gráfico mesmo. Não tem jeito, e-book nenhum substitui uma parada bonita e bem feita como um livro desses. Uma capa bonita, colorida, papel cartão vermelho pra revestir a parte de dentro da capa, com encadernação artesanal, papel pólen soft, fonte minion e uma diagramação bem confortável, com cabeço bonito e tudo mais. Se bem que cabeço é uma coisa cada vez mais rara. Vai ver decidiram que é brega, ou se tornou uma coisa dispensável agora que as pessoas tratam melhor o livro e não arrebentam ele até começarem a soltar páginas por aí. Aliás, a Nova Fronteira é uma das únicas editoras que ainda usam cabeço em seus livros. Sei lá por que.

E essa foi a resenha de hoje, rapeize. Tão afim de ver o meu lado A da crítica? Vão visitar a revista Paradoxo. Nessa semana tem um artigo sobre o livro Ironweed, do William Kennedy.

Comentário final: 700 páginas grandes pólen soft. O livro que extinguiu os dinossauros.

Philip Roth – O Complexo de Portnoy (Portnoy’s Complex)

O Complexo de Portnoy

O Complexo de Portnoy

Último fim de semana do mês, amigos. Também conhecido como “fim de semana seminarista” pelo voto involuntário de pobreza que a gente faz pra esperar o advento do salário, que morreu por nossos pecados consumistas e retornará mais uma vez para salvar nossa barriga da miséria, amém. E aí, vamos encarar um programa financeiramente isento neste domingo e ler a resenha do Livrada! É ou não é? Aproveitem que, por enquanto, vocês não pagam nada para ler minhas nada brilhantes resenhas.

E sinta só o drama do ardil: graças às estatísticas do wordpress, pude constatar que o autor mais pesquisado no Google que traz leitores para cá é o nosso querido vovô Philip Roth (tem alguma coisa nele que realmente lembra meu avô, não sei o quê). Então pensei, “que diabos (esse negócio de pensar “que diabos” é um trauma da opressão cultural norte-americana que nem vinte anos de análise curam), vou resenhar mais um livro dele”(dá um tapa na própria coxa). Se bem que, ao que parece, estou fazendo um grande desserviço, porque nunca consigo fazer as pessoas se interessarem pelos livros dele. Vejamos se a gente consegue reverter isso, escolhi um livro beeeem legal dessa vez.

O Complexo de Portnoy é um livro velhão, maluco. Foi publicado em 67 pela primeira vez, e ganhou muitas edições até essa versão lindona que eu tenho em mãos. Foi o segundo livro dele que eu li, e que boa impressão me deu sobre o autor! Em primeiro lugar, por ser um livro muito bem escrito, como são as obras do cara. Em segundo lugar, por ser um livro de comédia, algo muito, mas muito raro hoje em dia (e a raridade se dá, é claro, ao equilíbrio entre humor e boa literatura. Não estamos falando aqui de livros apenas engraçados). Escrever comédia é um troço muito difícil, porque a piada tem que ser lida, interpretada, imaginada na sua cabeça e aí, só depois, se for boa, você dá uma risada. Por isso o humor, além de sutil, tem que ser muito bem trabalhado, senão vai ser só uma parada vergonhosa de ler.

Mas bem, do que trata o Complexo? Alexander Portnoy, o protagonista do livro, é um sujeito balzaco tomado de complexos formados em sua infância, que conta suas histórias para um analista. Pelo menos pra mim, a cultura judia é uma parada muito distante que só começou a ganhar forma no meu imaginário a partir desse tipo de literatura, e dos filmes do Woody Allen e dos Irmãos Coen. Não sei como funciona direito, portanto, mas o Alexander do livro é atormentado pelo famoso estereótipo da mãe judia: grudenta e opressora até o último, e atormenta a todos — ele, sua irmã e seu pai, que é um vendedor de seguros falidão. Claro que não é privilégio apenas dos judeus ter uma “mãe judia”, mas a religião exige uma porção de privações e regras que, como diria aquela música do Patife Band, deixa qualquer um malucooooooooo. E entre as um zilhão de coisas que ele não pode fazer, começa a desenvolver uma tara e um vício por masturbação como válvula de escape. Com toda a rebordosa que lhe bate após todas as vezes que ele bate (caham), ele começa a entrar em umas neuras de remorso e paranóia com a justiça divina, o que seria muito triste não fosse tão engraçado pra gente, que tá lendo.

Philip Roth

Philip Roth

De uma maneira que eu não sei precisar direito, o tragicômico do livro vai se tornando cada vez mais trágico rumo ao seu final. Possivelmente por causa das consequências desastrosas de alguns episódios e os desdobramentos de outros na vida adulta de Portnoy, e isso meio que mata o ritmo nas últimas páginas, o que não quer dizer que fique desinteressante. Mas a nata da obra mesmo tá na primeira metade dela. E quem leu tá ligado.

Essa tradução do Paulo Henrique Britto é bem legal por conservar os termos que a judeuzada usa e anexar um glossário no final. Algumas palavras a gente sempre ouve nos filmes e nem se dá conta que é termo dos judeus, tipo “schmuck”, usado pra xingar alguém, que literalmente quer dizer “pênis”, entre outros. A reimpressão da Companhia das Letras deu uma capa que é uma das mais bonitas da coleção dele (junto com a de Indignação), e o projeto gráfico do interior é muito parecido — senão idêntico — com os livros do Coetzee: fonte Electra, papel pólen, e a diagramação interna que lhe é peculiar. Obviamente que um livro como esse, sobre um moleque judeu punheteiro, causa muito mais frenesi na década de 60, quando foi lançado, do que hoje em dia. Mas é legal ver que, mesmo após 40 anos, ele segue firme e forte como um dos clássicos da literatura (tá na tag!)

Putz, agora que me dei conta que usei as expressões “masturbação” e “punheteiro” nessa resenha. Eu tava querendo satisfazer melhor os leitores que são trazidos pelo Google e acabei de arrebanhar uma multidão de cornos anônimos depravados. Fazer o quê?

Comentário final: 261 páginas pólen soft. Pimba na cabeça do corno anônimo depravado que chegou aqui pelos termos errados!

Erico Verissimo – O Continente (O tempo e o vento parte 1)

Já começo avisando: não vou ajudar ninguém com trabalho de colégio, valeu? Toda vez que resolvo escrever sobre um clássico da literatura nacional, atraio que nem imã (“fucking magnets, how do they work?”) uma cambada de estudante desesperado por resumos e detalhes sobre a obra. Galerinha: vamos largar o Playstation, vamos desligar o World of Warcraft, vamos parar de ver filme de mulher pelada, vamos parar de ficar olhando para o teto por algumas horas e vamos dar mais valor para a ínfima parte da cultura nacional que de fato, tem algum valor.

O tempo e vento, meus amigos, o tempo e o vento! El tiempo y el viento, the temptation and the ventation, le tempé et le venté, der tempschlaschtung und die ventaschtwaft, pra gastar aqui toda minha eloquência em línguas estrangeiras. Essa maravilhosa saga familiar escrita por Erico Verissimo (aprendam: o nome do cara não tem acento em parte alguma). Para quem chegou agora no assunto da boa literatura, a obra é dividida em três partes: O Continente, O Retrato e O Arquipélago, e conta a história da família Terra-Cambará, a família mais pé fria pra política da história da humanidade. Incrível! A única vez que eles apoiaram os situacionistas, logo quem? Getúlio Vargas! Mas bom, não sou de dar spoilers, então leia quem não leu ainda.

O Continente, muito provavelmente, vai ser o livro mais emocionante que você vai ler em toda sua vidinha. De emoção mesmo, da parada pegar você de jeito e você não largar mais do livro. Nem Harry Potter faz isso, cumpadi. O livro traça uma narrativa não-linear a partir daquela revolução federalista de 1893, pendenga da gauchada dividida entre os pica-paus e os maragatos (adivinha de que lado a família estava?). São várias histórias, das quais se destacaram a de Ana Terra, mocinha pioneira que se f*** (meu pai falou pra eu parar de falar palavrão aqui) mais que a Dawn no Bem Vindo à Casa de Bonecas, do Todd Solondz, e a do Capitão Rodrigo, uma versão gauchesca de um careca: só quer saber de farra, mulher e porrada (oi! oi! oi!). Fizeram-me ler o livro “Um Certo Capitão Rodrigo” na escola, e foi uma das poucas leituras boas que a escola me mandou fazer, mas dentro do contexto fica muito melhor.

Engraçado que essas duas histórias mais famosas são todas do primeiro volume d’O Continente. Mas isso não quer dizer que o segundo volume seja menos legal. Como esquecer da Luzia, a Teiniaguá, mocinha encantadora que dá aquele legítimo chá de buça no rapazote Bolívar, só para depois colocar as mangas de fora? E o Dr. Carl Winter, médico gringo que, por alguma razão, se parece muito com o Visconde de Sabugosa na minha cabeça? Enfim, são muitos personagens e muitas histórias pra tentar resumir numa sinopse porca como a minha. Digamos apenas que, enquanto o primeiro livro é mais cru e violento, como toda boa fase de pioneirismo que se preze, o segundo volume é mais brando e começa a entrar no tema das pinimbas familiares que interessam.

Uma coisa bacana de se perceber n’O tempo e o vento é que cada parte da saga foca um aspecto muito específico da história. O forte do continente é a narrativa. Erico mostrou nesse livro (dividido em dois pra ficar mais fácil pra você carregar) que sabe contar uma história, sabe dar emoção pras paradas que ele escreve, sabe ser pintudo quando o assunto é construir acontecimentos; em O Retrato, como o próprio nome já sugere (embora o retrato do título seja mais concreto), o peso da história é na descrição do personagem, ou seja, do Rodrigo Terra-Cambará. Invocando a entidade do nosso querido presidente, nunca na história desse país um personagem foi tão bem construído como Rodrigo. Nem mesmo aquele sujeito sonhado nas Ruínas Circulares do Borges poderia ser mais bem feito. A complexidade do sujeito é realmente de cair o queixo, e quem leu tá ligado; por fim, em O Arquipélago, Verissimo bota o pau na mesa pra falar da política de seu tempo, provando que o cabra tem envergadura pra detalhar as ideias e o momento que viveu. Aí, ó, descobri um padrão. Primeiro livro, narração; segundo livro, descrição; terceiro livro, dissertação. Os três gêneros que a tia maroca tenta ensinar pra você nas aulinhas de redação. E você se perguntando por que diabos esse livro cai no vestibular.

Pra completar aqui o comentário, vamos falar desse projeto gráfico da Companhia das Letras. Deus sabe (sério, ele sabe tudo) que eu não gosto de livro de capa mole sem orelha, mas essa coleção do Erico Verissimo é a única exceção. Livros sensacionais. Capa dividida entre uma cor para cada obra (e são mais de quarenta que o gaúcho escreveu) e uma foto que, se eu for acrescentar um adjetivo pra elas, meu pai vai ficar chateado. E a foto da capa não é a única que é maravilhosa. No verso da quarta capa, uma foto diferente do autor para cada obra, uma mais bonita que a outra. Todas as fotos do projeto são de autoria do premiadíssimo Leonid Streliaev, que inclusive fez o livro “Erico por Leonid – fotos que ninguém viu”. Ele tem um site bacana com o trabalho dele que eu recomendo que vocês conheçam, clicando aqui. Bah, tchê, e não para por aí. Uma boa notícia para os maus leitores do meu Brasil: tem figura nesse livro também! Êêêê! E que figuras: ilustrações do traço livre de Paulo Von Poser, sempre em consonância com a foto da capa e a história do livro. A editora, carinhosa como sempre, fez a gentileza de colocar a árvore genealógica de toda a família (é nego pra caceta!) e uma cronologia que associa fatos históricos com acontecimentos narrados n’O tempo e o vento e também na vida de Erico Verissimo, além da crônica biográfica do próprio (não escrita por ele), que conta um pouco dos bastidores da produção do livro. Que mais? Ah sim, também tem um mapinha muito simpático do estado do Rio Grande, com a suposta localização de Santa Fé, a cidade fictícia onde se desenrola a trama. E para os cabeçudos da academia, surpresa: Prefácio de nada mais nada menos que Regina Zilberman, a Sra. Sabe-tudo do Verissimo, a Sra. Ficção histórica, a Maria Callas dos estudiosos do gênero (não somos dignos! Não somos dignos!). No mais, fonte Janson e papel pólen soft. Enfim, cambada: tá completíssimo, só falta esse livro aprender a fazer café. E não, ninguém me pagou pra eu babar esse ovo pra edição (mas estamos abertos pra negócio, aê, aê!).

Um dia volto para falar das outras partes da saga, mas na sequencia não, senão fica chato.

Comentário final: 413 + 430 páginas pólen soft. Já que são dois, faz um telefone sem fio que ninguém nunca mais mexe contigo.

Albert Camus – O estrangeiro (L’étranger)

Já vi que os leitores deste blog reagem de maneiras diferentes quando um clássico da literatura (tá na tag, sempre digo) é massacrado. Quando meti o malho n’O vermelho e o negro, ninguém fez furor. Talvez concordem, talvez não tenham dado tanta importância ao livro assim. Em compensação, quando falei mal do Som e a Fúria, do Faulkner, recebi o meu primeiro feedback negativo a respeito da proposta do blog. E isso foi só na semana passada. Pois bem, resolvi comentar hoje mais um do time dos canonizados que eu, particularmente, não gostei (e vou dizer o porquê, não se preocupem). E que tarefa difícil essa, principalmente com o Estrangeiro, do Camus, a obra mais pop do sujeito. Provavelmente não vai haver viva alma que concorde comigo. Mas nem por isso vamos ficar nessa espiral de silêncio, não é?

Pois bem, meus queridos: O Estrangeiro, a Xuxa da literatura canonizada: Todo mundo idolatra e, ao mesmo tempo, lá no fundo, a gente sabe que já passou da hora da aposentadoria. Olha, não me faltou gente pra me recomendar esse livro. E gente boa mesmo, que entende da coisa, que não lê qualquer merda. Resolvi testar meu francês e ler no original. Pensei: “Não é possível, tem alguma coisa errada com esse livro”, e aí resolvi relê-lo em português pra saber que diabos tinha de excepcional nessa obrinha que mal para em pé na estante. Ah, tenho ao todo cinco edições desse livro em casa, inclusive uma estranhíssima com um desenho de um cara que parece muito o Ringo Starr na capa (usei posteriormente essa edição como alvo, num sábado à tarde em que eu e meu camarada Pedro Pimentel saímos para dar uns tiros).

Refrescando a memória: O Estrangeiro é um romance de tese, o que, por si só, já é uma ideia tonta. Escrever um romance pra tentar provar alguma coisa já mostra que você tá numa vibe muito errada.  Mersault (esse nome deve ser o equivalente a Glêdson Rodrigues na Argélia) é um argeliano blasé que não se impressiona com nada. Um dia, o sol tá incomodando ele e aí ele resolve matar um árabe que tava na praia. Ele é condenado a morte, por ser considerado um cara frio e calculista (tipo um BBB), porque não chorou quando a mãe dele morreu. E aí ele morre. Fim da história. Narrei essa sinopse com essa emoção toda porque é justamente desse jeito que o livro é escrito. O Estrangeiro é a prova de que um excelente enredo pode ser arruinado pela falta de estilo (mesmo que proposital). E estilo, meus amigos, é uma coisa que Camus não viu nem quando visitou a fábrica da Fiat. Na ânsia de tentar passar um clima de poucas emoções na vida do cara (que narra em primeira pessoa), o autor quase mata a gente de sono. Se liga no primeiro parágrafo, que é bem famosinho, por sinal:

“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.’ Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”

Tudo bem que o objetivo do autor era mostrar um cara que não demonstra maiores sentimentos pela mãe ou pela vida, mas isso significava não ter sentimento pela escrita? Pouco provável, afinal, fosse assim e ele estaria escrevendo para quê, se não tem ninguém obrigando? “Eu fui na casa da minha amiga. Eu comi bolo. Eu bebi guaraná. Ela comeu também.” Na moral, minhas redações de segunda série eram mais ou menos assim. A tia da aula de redação insiste pra gente articular as frases, usar vírgulas, adversativas e o escambau, e esse cara me faz um livro que mais parece uma lista de supermercado que vende palavras (cinema nacional, pati patapá). Isso é revolta escolar reprimida?

E a tese? Meursault não foi condenado por matar o árabe, por colocar a culpa no sol ou por ter um nome feio de dar dó, mas sim por não ter chorado no enterro da mãe, provando através de tais circunstâncias que o luto é preciso, o blasé não tá com nada e, por conseguinte, todo francês metido a besta merece a morte. Com efeito, não fosse o sujeito preso e morto ao final, seria preciso que me escrevessem na história pra encher ele de sopapo de tanta raiva que dá o jeito como ele fala as coisas. Meursault fica lá paradão na dele analisando e julgando todo mundo e se achando o gostoso por não ser afetado por nada que o rodeia. Do tipo: “Aí a moça veio. Ela me beijou. Eu senti mais ou menos. Ela começou a chupar meu pinto. Eu meio que gostei. Ela tava com uma cara estranha.” Por aí vai. Pra não dizer que o livro é inteiramente ruim, ele começa a ficar bom nas últimas duas páginas quando, à beira da morte, Mersault resolve acordar pra vida e ficar revoltado. Nas últimas duas, veja bem. Ou seja: o livro só não é mais chato porque não é maior.

Meu palpite do porquê as pessoas gostarem tanto do Estrangeiro são: a) o livro tem um estilo tão simplório que qualquer animal consegue ler sem maiores dificuldades e acrescentar à estante um livro que não seja Harry Potter, Bukowski, ou a biografia da Bruna Surfistinha. b) O The Cure fez uma música — horrível como o livro, por sinal — sobre a história de Mersault, e neguinho não consegue assimilar cultura nenhuma a não ser que um popstar diga que é bom (Frida Kahlo está aí graças à Madonna, afinal de contas). c) Jean-Paul Sartre falou que o livro é bom e o mundo inteiro fez “béééééééé”, porque se você discorda do Sartre, coitado de você. d) Camus é um prêmio Nobel, e, como tal, tem aquela aura de vaca sagrada em seu entorno. E tudo bem, os outros livros dele podem ser muito diferentes deste, e ele pode escrever bem, afinal de contas. Mas nesse aí ele cagou no pau. Todo bom escritor tem a sua mancha: Saramago tem o Ensaio Sobre a Lucidez, Kafka tem O Castelo, Ítalo Calvino tem o Dia de um Escrutinador, etc. Não é nenhum crime.

A edição da Folio é tão tosca que é melhor comentar a edição da Record. Bom, a Record fez um projeto gráfico xoxo igual ao livro: fonte De Vinnes (sério, nunca usem essa fonte em um livro. É a mesma coisa que escrever a Bíblia em Comic Sans), papel offset e uma foto que ocupa um quarto da capa. E não adianta a Fnac fazer um Box com três livros dele que essa capa não vai ficar mais bonita enquanto você não tiver torado umas quatro serranas.

PS: Desculpem aí, meus amigos fãs de Camus. Vocês não são obrigados a concordar comigo. Pensando melhor agora, vocês são os mesmos que me disseram que Los Hermanos é legal, que disseram pra eu assistir Grey’s Anatomy e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Aí, qual é a de vocês?

Comentário final: 126 páginas de papel offset. Não serve pra nada, a não ser pra servir de alvo no estande de tiro improvisado no terreno baldio.