Herman Melville – Bartleby, o Escrivão (Bartleby, The Scrivener)

Oi Yuri, como você está? Eu estou bem, gentileza sua perguntar. Como foi a banca da monografia? Ótima, amigo, nota dez pra refrescar a cabeça depois de ano e meio de trabalho. E agora, bola pra frente e taca carvão nessa máquina massacrante de literatura que é o Livrada!

Meus amigos, em verdade vos digo: às vezes é um pouco trabalhoso conseguir ter alguma parte da cultura coletiva instalada na sua cachola. Claro que muita gente já ouviu falar de Moby Dick, mas você sabe de verdade quem já leu? Pouquíssimas pessoas. A mesma coisa com Dom Quixote. Se você quiser bater no peito e falar que leu a obra-prima do Cervantes, vá lá, mas prepare-se para centenas de páginas para serem vencidas, caso contrário, a única coisa que você vai saber sobre o engenhoso fidalgo é que ele, durante umas duas páginas, fala de uns tais moinhos de vento. E aí se prepara para os pescotapas e os amigos te zuando de leitor de orelha e afins. Agora, existem livros menores e mais fáceis de serem lidos, entendidos e utilizados em suas conversas de boteco. Pra isso, o papai aqui dá a dica: Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville.

Mais por desencargo de consciência — acredito que a maioria dos meus leitores já deve ter lido esse livro — a história fala de um advogado de Wall Street que contrata um copista pra ajudar nas tarefas, que só aumentam. O sujeitinho é estranho, não conversa, não come e não lê nada. Mas enfim, era o começo daquela falta de interesse na vida alheia que assola a modernidade desde que instituíram a bisbilhotice como coisa típica de gente da roça. Então ele vai deixando passar. Até que um dia, Bartleby se recusa a fazer a tarefa que lhe é conferida. E a partir daí, não faz absolutamente mais nada, sempre respondendo com o seu inigualável bordão: “Acho melhor não”. Tá, não contei absolutamente nada de novo pra vocês, né?

Primeira consideração sobre esse livro: Claro que o personagem de Bartleby é cativante (menos naquela montagem teatral que fizeram da peça. Sem querer ser machista, mas acho que igualdade de sexos não serve na hora de interpretar papéis masculinos), uma análise mais fria (e simplista) da história pode mostrar que o Bartleby é só um obstáculo, uma parede em um beco sem saída na qual o narrador advogado bate constantemente, a cada tentativa de gesto de boa vontade por parte dele. O advogado, esse sim, é o mérito do conto de Melville. Na narração em primeira pessoa, a primeira frase do segundo parágrafo justifica o livro inteiro: a ideia sustentada por ele de que a vida mais confortável é a melhor. E o que é mais confortável do que ignorar a existência de um problema, como ele faz? A construção desse personagem é que é o barato do livro, e vocês hão de concordar que muitos de nós não agiríamos diferente do narrador, em prol da civilidade que neguinho brada aos quatro ventos.

Segunda consideração: Melville antecipou em uns 80 anos o tipo de suicídio social que a gente vê hoje, a vagabundagem por opção. Claro que ninguém nunca ficou sabendo por que Bartleby deixou de viver, e nem era a intenção explicar isso. Sabe, né? Mesma coisa da prevaricação da Capitu, o buraco que o autor deixa pra fazer a obra perdurar em debates bestas de professorinhas de literatura que organizam tribunais na sala, dividindo em acusação e defesa da cigana os mancebos, que, a essa altura, só estão querendo saber mesmo é de ir pra casa fazer negócios escusos. De qualquer jeito, essa vagabundagem por opção, essa decisão por não fazer mais nada é algo que instiga tanto todo mundo como se ninguém nunca tivesse preferido não fazer alguma coisa. De Enrique Villa-Matas, que usou o nome do copista para fazer um livro sobre os escritores que deixaram de escrever (aliás, alguém aí já leu Villa Matas? Qual livro deles recomendam?), a Homer Simpson, que já dizia que se algo é muito difícil então não vale a pena ser feito, todas as vontades passam pelo filtro de nosso juízo, que analisa cada situação e vê se a gente não vai dar com os burros n’água. Viram isso que eu escrevi? Um péssimo jeito de terminar um parágrafo. Anotem e aprendam como não fazer.

E chega de papo, vamos falar desse projeto gráfico da Cosacnaify. Já me dei conta que a editora está mesmo no ramo da arte, e juntar a arte de fazer um livro com a arte da literatura. Essa edição maravilhosa vem toda costurada artesanalmente, e, para começar a ler o livro, você precisa descosturar a capa e abrir (de preferência com um estilete ou um abridor de correspondências; eu usei minha inseparável balisong) cada par de páginas. Para isso, eles fornecem um marcador transparente, que não é exatamente a ferramenta ideal, mas é bonito e serve como um marcador mesmo, para a VIDA. Só fiquei um pouco triste porque a capa é de couro verde, e, devido às condições insalubres do meu apartamento, ela acabou mofando e desbotando em algumas partes. Mas tudo bem. Ah, comprei esse livro por R$1,50 porque a Saraiva tava fazendo uma promoção com ele a R$16,50, valor do qual abati quinze reais com meu cartão fidelidade (cartão fidelidade, aliás, é um conceito muito agressivo. Pensar que alguém é fiel a uma loja é rebaixar a dignidade humana a uma subserviência comerciária. Desprezível *ptuu* cospe no chão). Tudo isso para você ser ainda mais ativo ao ler o livro e, ao contrário de Bartleby, achar melhor sim, abrir cada página do livro pra saber o que acontece. O livro vem embalado no plástico que traz o bordão de Bartebly estampado, uma provocação pra você ler o livro. Aliás, “Acho melhor não” é a tradução que melhor cai aos ouvidos, da expressão original “I rather not”. Traduzir ao pé da letra — o “prefiro não” da peça já mencionada e da edição publicada da L&PM realmente não desce redondo. Assim como utilizar a palavra “Escrivão”, ao invés de “Escrituário” das outras edições também ficou melhor, na minha singela opinião. Ah, esqueci de dizer que o posfácio é assinado pelo Modesto Carone, o homem-Kafka, que, obviamente, não deixa de citar o escritor tcheco. Fico imaginando se, ao invés do Caetano, o pessoal do Segundo Caderno entrevistasse o Carone. “E aí, Sr. Carone, o que o senhor acha dos discos lançados apenas na internet?”, “Ah, veja bem, Kafka…” (Brincadeira, hein, Modesto).

Comentário final: 46 páginas offset. Se for bater em alguém com Melville, ainda é melhor usar o Moby Dick.

3 meses – Promoção

Aí, rapeize! Hoje sim esse site faz três meses, e, pra não deixar passar batido, vou falar da promoção, em um post separado que é pra vocês lerem, divulgarem, enfim. Sabe quando a bruxa má do oeste eventualmente precisa da ajuda dos macacos alados? Então, é agora, meus preciosos. Voem! Voem!

Seguinte: o comentário de número 500, aqui no blog, vai ganhar um exemplar do livro “Plataforma”, do francês Michel Houellebecq. Não, amizade, não é um livro do qual eu estou tentando me livrar. Fosse assim eu dava cabo no Antonio Lobo Antunes, portuga chato da porra. Esse livro é foda mesmo, e quem lê-lo não vai se arrepender. Então, como diz Mr. Catra: VEM QUI VEM QUI, PORRA! Participe.

Livrada! – Há 3 meses fazendo você sentir um pouco menos de nojo de pegar um livro pra ler.

José Hamilton Ribeiro – O gosto da guerra

Três meses, garotada! Bom, na verdade, tecnicamente, é amanhã, mas resolvi antecipar a comemoração pra valorizar o post de quarta-feira, sempre tão importante na vida do trabalhador. De qualquer jeito, ê! O Livrada!, este espaço esdrúxulo, faz três meses. Olha, Deus sabe que eu batalhei por isso aqui. Divulguei como eu pude, mostrei ele pra gente importante e influente (que nem deu bola, inclusive), fiz blog, fiz e-mail, fiz twitter… e não dá nem pra dizer que não deixo de não me divertir (esse é o famoso empaca-texto, te encontro daqui a duas horas na próxima frase). Maneiríssimo ver gente que se interessa pelo que é escrito aqui, e que até gosta desse tipo de abordagem a esse assunto tão repelente que é a literatura. Também, tem gente que gosta até de sexo com palhaços, ia ficar boladão se ninguém curtisse o blog. O último mês fechou com mais que o dobro de visitas do primeiro mês (aquela sabatina de posts diários, lembram?) e, ao todo, foram quarenta posts, o que significa 40 livros. QUARENTA LIVROS, eu disse. Tem gente que nem lê quarenta livros na vida, quanto mais comentá-los. E não são quarenta livros compostos por Sabrina, Júlia, Coleção Vagalume (com todo respeito), quadrinhos em forma de livro (algum respeito), e best-sellers escrotos tipo A Profecia Celestina e Marley e Eu (nenhum respeito). São livros bons, amigo, pelo menos na minha concepção. Tá, em alguns eu posso ter metido o malho eventualmente, mas ainda assim, esses ficam literariamente degraus e mais degraus acima de qualquer Crepúsculo e Augustos Curyies da vida. Portanto, palmas para todos nós! Clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap. Chega, minha mão já tá ardendo.

E que bom livro eu escolhi para esta celebração de terceiro mês de existência! O gosto da guerra, de nada menos que José Hamilton Ribeiro, o Jack Bauer brasileiro (sim, espertão, até rima!). Escolhi esse cara por três motivos. Primeiro: valorizar a literatura nacional (ui, anauê!). Segundo: tem que engrossar o rol de livros-reportagem desta bagaça. Terceiro: essa semana é minha banca final de conclusão de curso. Sim, caros amigos, se tudo der certo estarei formado e com um diploma na mão (que não serve pra nada, aêêê!). Acho que todo jornalista olha, ou deveria olhar, para o Zé Hamilton com admiração incontida e gritinhos de tiete. Afinal de contas, o cara é incrível . Pergunta pro Thaíde, ele sabe, o Zé Hamilton é Ên-Crê-vél (odeio ter que ficar explicando piada, mas, como sei que vocês são inteligentes, morram de vergonha alheia clicando aqui). Bom, eu escrevi um livrorreportagem também, e claro que, nem de longe é bom igual ao Gosto da guerra, nem tão corajoso, nem tão ousado, nem tão caralhudo, mas gosto de pensar que contribuí para o formato da grande reportagem, cada vez mais abominada pelo patrão do jornal: o dinheiro.

A história desse livro é a seguinte: Na década de 60, o Zé trabalhava na revista Realidade, uma revista do tal new-journalism. A Realidade não fazia economia, malandro. Quer ficar um mês escrevendo uma matéria, fica. Quer cobrir a guerra do Vietnã, simbora. E foi isso que ele fez. Embarcou naquelas latas velhas que chamavam de avião na época do paz e amor e se mandou para aquele país agradável cheio de chinês moreninho com cara de sapo. Lá, com o medo que é peculiar a quem está em território hostil, conheceu um japa mutcho loko que já estava a dois anos cobrindo a guerra pelo único motivo de não ter achado ainda “a” foto da contenda. E o japa safado achou a porra da foto no dia em que Zé Hamilton pisou numa mina terrestre que levou sua perna embora (a foto é a capa do livro). O Gosto da guerra é a história dessa cobertura com esse desfecho trágico. Ponto pra galera que adora dizer que jornalista só se fode.

O relato inteiro — não só o diário de guerra dele, as ponderações sobre o episódio ou o depoimentos sobre o regresso do repórter ao país trinta anos depois (não, não foi pra procurar a perna dele, seu sacana!) — reforça a ideia que ele solta lá pelas tantas do livro: a de que guerra é uma merda, mas sem cobertura jornalística é muito pior. Claro que hoje em dia vocês já viram todo o tipo de barbaridade e, caso eu relatasse aqui as coisas que o Zé descreve no livro vocês não se surpreenderiam tanto, mas isso é porque tá todo mundo amortecido pelo excesso de violência. É um livro que merece ser lido para não esquecer do que o ser humano é capaz quando está com medo, com raiva ou cheio de rancor. Vale a pena mesmo.            Isso, sem contar, é claro, na envergadura moral do cara que escreve um diário da própria enfermidade. Se isso não valesse o prêmio Esso de jornalismo, não sei o que valeria.

Esse livro foi relançado pela editora Objetiva, e não tem lá muitas pompas nessa edição. Papel offset maldito, fonte desconhecida (tipo Verdana) e a fotaça do japa safado que tira proveito da desgraça alheia. Mas, mesmo assim, temos que dar créditos e loas à editora por ter relançado esse livro. Caralho, como era difícil de achá-lo. Eu mesmo consegui o meu na cagada, há muito tempo atrás. Graças à Objetiva, vocês não vão passar tanto perrengue assim se quiserem descolar um exemplar. E, na moral: descola um, nem que seja pra botar na estante. Um dia seus filhos pegam lá e vão te agradecer. A gente tem que fazer os livros serem legais de novo. Lembrem-se sempre, meninas: se o cara leva vocês pra casa dele e ele não tem livro em casa, não solta a tarraqueta.

Reforço o pedido: assinem o RSS ou sigam o blog no twitter. Assim, fico mais tranquilo sabendo que vocês vão ler algum post fora de data. Aliás, amanhã devo postar alguma coisa só pra não deixar a data passar em branco.

Comentário final: 129 páginas em offset. Pinga sangue, mas dificilmente vai produzir algum hematoma.

Milan Kundera – A Ignorância (L’Ignorance)

E aí, meus queridos, como vocês estão? Já superaram a derrota do Brasil na Copa do Mundo ou não? Já estão conseguindo tomar suco de laranja, calçar um tamanquinho sem chorar, ir pra marcha da maconha sem pensar naquele país baixo (de baixeza) que já está vivendo no futuro faz tempo? Quem precisa da Holanda, não é mesmo? E, se serve de consolo, pensem que vocês, caros leitores, foram privilegiados com um alfabeto de 26 letras diferentes, enquanto o alfabeto de lá é igual o seu álbum da copa: cheio de figurinha repetida. Só tem A E E E E J J J J L K K K K V V V O N N N T e acabou. Agora enxugue essas lágrimas e torça para o próximo técnico montar uma seleção com mais moleques e menos caveiras, meu capitão.

Em homenagem ao herói dessa copa, Felipe Melo (que, junto dos vilões das outras copas, como Ronaldo em 98 e Roberto Carlos em 2006, há de se reunir com os da sua laia no Corinthians), o livro de hoje tem um nome sugestivo: A Ignorância, do velho tcheco metido a rapazote Milan Kundera. Sim, o cara é da República Tcheca, aquele país que até hoje só conseguiu exportar escritores orelhudos e atrizes pornôs. Mas também, amigo, com aquele visu alucinante de Praga, quem iria querer trabalhar?

Milan Kundera, para quem precisa ter a memória refrescada, é o autor de A Insustentável Leveza do Ser, um dos livros favoritos das patricinhas metidas a inteligentes. Juro que não me entra na cabeça como garotinhas cujo filme favorito é Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças podem entender o que Kundera escreve. Tudo bem que ele é considerado um escritor lúdico (na linguagem acadêmica, literatura lúdica quer dizer “bobeirinhas”, e não venham me corrigir nessa), mas ele tem alguns pontos — pelo menos cinco em cada livro — onde ele se debruça em pensamentos profundos e cuja referência cultural exige muito do leitor. Talvez a garotada leia pelas frases e pensamentos de efeito, afinal, e não pela história toda, mais ou menos como acontece com o Oscar Wilde.

A Ignorância é o último romance publicado pelo autor. Um livrinho muito mixuruca perto da obra dele, com pouquíssimas páginas, então dá pra encarar sem medo, ok? Fala de dois sujeitos, um homem e uma moça, que, depois de um tempão no exílio, cada um no seu canto, se reencontram por acaso no país natal. Eles tinham começado uma relação amorosa quando eram jovenzinhos, mas, tentando reatar, descobrem que as lembranças de cada um daquela época são meio diferentes, e aí se desenrola umas paradas sinistronas que só lendo pra saber, afinal, não sou escroto a esse ponto.

Acho que, mais do que tratar a questão da relevância da memória na nossa vida, o livro dá uma pincelada boa no que é o exílio, baseado mesmo na sua experiência. Ele, que vive na França hoje, considerado cidadão francês (não viu que o título original do livro tá fazendo biquinho pra você?), é um cara desses sem pátria, ou, pelo menos, sem o conceito de pátria que nós, pessoas normais que crescemos sem essas mordomias de “tchau, vou morar na França agora” temos. Tudo bem o cara começar a falar outra língua, mas deixar de escrever na língua mãe é assinar atestado de clandestinooooo (bateu saudade de ouvir Manu Chao, malandro?). É inclusive um mal do escritor tcheco, não escrever em tcheco pra sempre. Acho que é uma dessas coisas que acontece quando você mora num país do tamanho de um ovo e o resto do mundo não entende seus acentos circunflexos de cabeça pra baixo, nem o que eles estão fazendo em cima de letras inocentes como o S. Tem que facilitar o caminho da sua literatura pro mundo, bicho. Pensa nisso.

E, como bons exilados, querem fazer bonito ante os conterrâneos que permaneceram na terrinha. Grande sacada essa que tem no livro. Acredita-se tanto na experiência de vivência que nêgo que viaja começa a se achar muito mais esperto do que quem fica. Quem já viu aquele filmeco da Lisbela e o Prisioneiro há de lembrar do cearense que foi pro Rio e voltou todo metido, falando chiado. Memorável é a cena, em A Ignorância, que a fulana chega lá pros amigos tchecos e fala “e aí, vamos beber um vinho?”. Justo pra quem senão o maior bebedor de cerveja da face da terra! Vai ser jeca assim no inferno!

Vou dizer: um pecado que a Companhia das Letras não publique os outros livros do Kundera no formato normal. É mó ruim ficar lendo livro pocket, e comprá-los é mais ingrato ainda. Parece que você tem uma biblioteca de anão em casa. Salvo o preço, não vejo vantagem no formato, nem pelo tamanho. Só é uma coisa mais rentável pra editora. Mas essa coleção do autor é muito linda, com umas litografias de nada mais nada menos que Lasar Segall (se você não conhece a peça, saia deste blog agora, vá pesquisar esse nome no Google e depois volte aqui pra pedir desculpas por ter precisado interromper a leitura). Tudo montado pelo genial João Batista da Costa Aguiar, que prepara algumas de minhas capas favoritas da editora. No mais, glorioso papel pólen soft e fonte Sabon, uma fonte que, verdade seja dita, é um pouco antiquada para os dias de hoje. Tá valendo mesmo assim.

NEWSFLASH! Galera, agora o Livrada! tem um twitter! Sigam @bloglivrada e acompanhem as novidades, já que vocês cismam em não assinar o RSS (tem exceções). Vou procurar adicionar informações importantes ou não sempre que possível, ok?

Comentário final: 156 páginas em pólen soft. Machuca o viadinho que usa Gillete Mach 3 para um barbear macio e delicado pra você, mocinha delicada.

Stendhal – O vermelho e o negro (Le Rouge et le noir)

É hoje que eu arrumo um inimigo nesta joça! Preparem-se, crianças, hoje acordei com o pé esquerdo, preciso ir lá na Reitoria entregar minha monografia e tô me sentindo muito Shiva, por isso quero destruir alguma coisa. E vou destruir logo esse clássico da literatura (tá na tag!) que é o vermelho e o negro, do nosso amigo Get up, Stendhal (sempre achei que o Bob Marley cantava isso!).

Fala sério, hein? Se isso não fizer o gordinho se revirar no túmulo, eu não sei o que pode fazê-lo — bom, talvez uma descarga elétrica. Mas coloque-se no lugar de Henri-Marie Beyle, o homem por trás do pseudônimo: você escreve um livro que é comentado mais de duzentos anos depois de sua morte, considerado um clássico da literatura (TAG!), e aí vem um moleque metido a besta falar que seu livro é um lixo. Nããããooooooooo!!!! Sim, meu cumpádi, é agora que o cão vai comer uma mariola.

Breve resumo pra vocês, ó preguiçosos: sujeitinho desprezível do interior chamado Julien Sorel, pobrezinho, não nasceu em berço de ouro, e tem um pôster do Napoleão no quarto dele (assim como eu tenho um pôster do Néstor Kirchner no meu). O sonho do rapazote era ser um Napoleão, mas existem dois agravantes: o primeiro é que ele, como vamos descobrindo conforme a leitura, não tem a envergadura moral para tal; o segundo é que ninguém daquela época queria saber mais de Napoleão, nem fantasiado de Lady Gaga dançando Rebolation. Todo mundo escaldado com a derrocada do baixinho que andavam por aí enterrando anão sem motivo. Mas o bicho é teimoso: e aí se mete a ser seminarista, e no meio da sua trajetória, rolam umas tensõezinhas sexuais com mulheres insatisfeitas à beira de um ataque de nervos (afinal de contas, ninguém toma banho na França e, naquela época, catupiry significava outra coisa).

Bom, mas, afinal, por que eu não gostei desse livro? Vários motivos, meu amigo, e quem leu sabe. Primeiro, e talvez o mais importante: esse livro é um livro covarde (ouviram aí um “bump” no caixão do Stendhal?). Veja bem, Stendhal escreveu o vermelho e o negro (olha, a quantidade de neguinho imbecil que perguntou “é sobre o Flamengo?”… Não fode a minha vida, Ruy Castro) em uma época em que a burguesia Francesa estava por cima, mas não estava, necessariamente, com tudo. Tremendo de medinho do que as forças acima de sua cabeça poderiam fazer com a sua cabeça de cima, escreveu sem a cabeça de baixo e fez uma história, no mínimo, xoxa. Pode ver que, para cada ideia minimamente polêmica que ele coloca no livro, são duas páginas tentando se desculpar. Isso quando não acontece dele simplesmente omitir a discussão polêmica que está rolando entre os personagens, pro seu desespero, que a essa altura do campeonato, quer ver sair um tiroteio de qualquer página.

Aliás, dessas desculpinhas pelas polêmicas saiu a grande sacada do livro, considerada por alguns teóricos, como Walter Benjamin naquele seu textículo esquerdo “O Narrador”. É, o lance do espelho: que o livro é como a carroça que passa com um espelho, refletindo toda a paisagem. Se, eventualmente, refletir algum lamaçal, tem culpa eu? O espelho só reflete, né não? Só que, na moral, Stendhal, não mete essa. NÃO METE ESSA! Se o cara quer causar, quer matar a cobra e mostrar o pau, quer chutar o balde, então faz, mas depois não vem com desculpas do tipo “eu estava bêbado”, “eu precisava extravasar” e “o espelho só reflete o lamaçal”. Pra cima de moi, xará?

Outra coisa irritante sobre o livro: é tudo falso, como aquela música do Skylab. O vermelho e o negro poderia muito bem ser uma novela de época das 6. Os amores arrebatadores, a vontade de ganhar o mundo, a gana de impressionar, a tensão sexual velada entre a madame e o empregadinho, tudo isso é só reflexo daquela época, nada que pudesse ser sustentado se a sociedade descrita não fosse tão empata-foda. Mulheres leitoras deste blog, imaginem que vocês moram num fim de mundo (pior que, sei lá, Pato Branco), cidadezinha de mil habitantes, esposa do único homem pra quem você deu, um cara importante, junto do qual você precisa passar o ano inteiro fazendo pose e vivendo em um mundinho de aparências. Eis que surge um jovenzinho borbulhando hormônios, doido pra ser alguém na vida sem nunca ter conhecido mulher. Acabou, amigo, taí a ruína do teu estilo de vida. Agora, acreditar que isso aí que os dois vão sentir vai ser amor, ou mesmo uma paixão dessas de embaçar vidro… Again, não mete essa, Stendhal!

Por fim, o livro é extremamente longo pra historieta que conta. Não longo o bastante pra os pederastas beletristas colocarem debaixo do braço como o Caminho de Swan ou o Moby Dick, apenas longo o bastante pra você perceber que poderia estar fazendo outras coisas e que você pode viver sem ler esse livro, que ninguém vai te recriminar por isso. Não, a patrulha intelectual não desconta três pontos na sua habilitação de inteligência se você não ler Stendhal, relaxe.

Agora, se tem uma coisa que esse livro tem de bom é o projeto gráfico. Cosac e  Naify, seus turcos maravilhosos, quero pagar um sorvete pra vocês qualquer dia! Fala sério, não bastasse a capa dura coberta pela capa de papel, a fonte Bembo (alguém já ouviu falar dessa fonte?), o papel chamois fine dumas de 80g/m² (qualquer editora mais mão de vaca colocaria no máximo 50g/m² em um livro de mais de quinhentas páginas), tem essa imagem maravilhosa, que dá vontade de fazer um pôster desse quadro e ficar olhando o dia inteiro. “Napoleão após a abdicação”, de Paul Delaroche, é o nome da peça. Olha a cara desse Napoleão, galera! Quem me dera ter pintado um quadro desse? Aposto que essa seria a cara que ele faria depois de ler O vermelho e o negro. Ah, e falando em pintura, o prefácio é da Tarsila do Amaral, o que mostra que essa tendência de colocar artista pra dar pitaco nas coisas não é de hoje. No mais, é ter coragem e disposição. Mais coragem do que um irmão Coragem e mais disposição do que para dançar o creu.

Mais uma vez, o título original, Rouge, em letra maiúscula.  Será que é alguma coisa? Será que Stendhal curtia um Ragatanga?

Ah, a promoção ainda está rolando. O comentário de número 500 ganha o Plataforma do Michel Houellebecq.

Comentário final: 572 páginas chamois fine com capa dura. “Mas que mulher indigesta, merece um vermelho e o negro na testa”

Leo Frobenius e Douglas C. Fox – A Gênese Africana (African Genesis – Folk Tales and Myths of Africa)

Em época de Copa do Mundo, nada existe e nada funciona de verdade, certo? Errado, campeão. Continuamos com a obstinada missão de comentar e trazer ao conhecimento do público livros da boa literatura, sem necessariamente recair em maneirismos críticos.

Vou ser sincero: Escolhi aleatoriamente um livro na minha estante. Calhou de ser esse. Tem culpa eu se a Copa do Mundo está rolando na África e nós aqui estamos falando de cultura africana? Tenho nada a ver com isso não, hein? Esse blog é isento de dinheiro, bom senso e não mama nas tendências desse mundo fashionista, moro? O livro em questão é A gênese africana – Contos, mitos e lendas da África, escrito por Leo Frobenius (já falo dele) e organizado por Douglas C. Fox (não vou falar nada dele, nunca ouvi falar nesse gajo). O livro busca, como diz o título, realizar um apanhado de lendas e mitos formadores da cultura africana em seu primórdio, ou seja, ver o que esse povo pensava quando não estavam preocupados pensando em comida (ô, maldade!).

Leo Frobenius — agora sim, vamos lá — é uma figuraça, como vocês podem ver nessa foto biíta dele. Antropólogo e etnólogo alemão (por isso, além de encaixar em literatura africana, também vai ganhar a tag de literatura alemã, para estrear a categoria), percorreu, no começo do século XX, as grandes savanas e desertos africanos em expedições dignas de um Indiana Jones comedor de chucrute para resgatar a origem das tradições de alguns dos principais povos de lá, em especial os cabilas, povo que morava onde hoje é a Argélia. Mas além disso, cavucou alguns mitos soniqueses, fulas, mandeses, nupes e hauçás (sim, hauçás, aquele povo zangado da Nigéria). Ah, e rodesianos do sul também, onde hoje é o Zimbábue. Sabe aquele povo que fala estalando os dentes? Pois é. Baseado nisso, fez um dos maiores compêndios sobre mitos africanos já reunidos, que depois deu origem a uma infinidade de livros charlatães que se propuseram a fazer o mesmo com outras civilizações, dignando-se a reescrever as lendas com algumas variações. Duvida que exista gente tão pilantra nesse mundo? Teste rápido para os folcloristas: já ouviram aquela lenda do crânio falante, que faz o guerreiro iludido trazer o rei para vê-lo e, diante da mudeza súbita da caveira, resolve matá-lo? Pois é, amigo, é uma lenda nupe, sim senhor, e você passou a vida achando que era angolana, ibo, até mesmo dos escravos brasileiros que vieram de Angola. Inclusive virou uma novelinha daquele “Casos e Causos” da Revista RPC. Pra quem não sabe o que é Revista RPC, considere-se afortunado.

O grosso do livro, realmente, é o material cabila coletado por Frobenius. Muito legal ver que a ideia que eles tem do gênesis, além de ser muito diferente da Bíblia (mantendo-se alguns aspectos como o do primeiro pai e primeira mãe), não fazem o menor sentido. Anacronicamente, é muita falta de noção desse povo, hein? Mas também, amigo, queria o quê? Poesia homérica nascendo ali no meio do pessoal que vive correndo de leão? Salmo 23 escrito por um negão entre uma matada de mosquito e outra? Você sabe que não rola. Ainda assim, vale a leitura se você conseguir sacar como essa tigrada pensava no começo da raça humana. Vou dizer: não é muito diferente de um sonho ou uma bad trip. E os mitos e fábulas deles são engraçadíssimos porque, além de não fazer o menor sentido, como já disse, também não tem aquela preocupação de moral da história que fez tão famosa a literatura xinfrim européia (européia ainda tem acento? Ajudem aí, linguistas, tô sem a gramática por perto). Pérolas do tipo: A raposa queria comer uma galinha. Aí o leão disse: ‘vai lá e se finge de galinha’. Aí vem um cara e mata o leão. Inevitável aquela cara de “what the fuck?” nessas horas.

E vamos ao projeto gráfico do livro. Olha, pra uma editora mais lado B como essa Landy Editora, esse livro está bem decente. Tem um prefácio do Alberto da Costa e Silva, que eu não conheço e já não gosto (nada pessoal, Sr. Costa e Silva, mas, além do seu sobrenome nada amigável, o senhor é imortal da ABL e, até vocês me chamarem pro grupinho, tô torcendo contra, hein?) Apesar do maldito papel offset, a fonte não é das piores e o cabeço é, pelo menos criativos. Ah, e não faltam ilustrações bonitas e toscas, feitas por uma tal de Kate Marr, funcionária do Forschungsinstitut für Kulturmorphologie in Frankfurt-am-Main (quer saber o que é isso? Faça como eu e comece a frequentar as aulas de alemão). Além disso, alguns retratos desenhados durante as expedições, feitos para você saber que seu senso de beleza e estética está completamente engessado por modelos magrelas, branquelas, que são só titela (pra rimar). Uma capa bacaninha, como vocês podem ver, e folhas de respiro no começo e no final do livro todas pretas e em papel cartão, pra ficar mais tchananã. Ah, e por incrível que pareça, não é difícil achar esse livro. Só não lembro ainda por que foi que eu o li. Tinha uns 16 ou 17 anos na primeira lida. Bom, nem Deus sabe o que passa na cabeça da gente quando a gente é adolescente, né verdade?

Comentário final: 238 páginas compridas em offset. SHHHHPAW!!!

Rosa Montero – História do Rei Transparente (Historia del Rey Transparente)

E começou as postagens do meio da semana. Agora é assim. Tá cansado de ter que esperar o domingão, o único dia que você tem pra passar longe de um livro, ou o único dia que você tem pra LER um livro, pra ler uma resenha ixperta aqui nesse blog horroroso (esteticamente falando)? Tudo bem, agora tem postagem quarta feira também, maluco!

Vixe, demorou pra esse livro ser a bola da vez aqui, hein? Rosa Montero é a minha escritora espanhola favorita (até porque nem sei se eu conheço mais escritores espanhóis — e Cervantes não vale né, porra?), e a Historia do Rei Transparente foi o primeiro livro dela que eu li. E digo mais: li no original, em ER-PA-NIOL. Éééééé cumpádi, tá pensando o quê? Aqui não tem filho de pai assustado não! E que satisfação ler um livro tão bom no original. Dá a sensação de que, se alguma coisa se perdeu na tradução, você não deixou passar.

Bom, esse livro é também, de longe, o maior sucesso editorial da Rosa. Ela tem uma santíssima trindade dos seus livros: pra quem curte uma história mais fantasiosa, a História do Rei Transparente não tem pra ninguém. Pra quem curte algo um pouco mais pé no chão e ainda assim, igualmente boladão, o livro certo é a Filha do Canibal. E, finalmente, pros cabeçudos e pseudo-cabeçudos que curtem um ensaiozinho assim, de leve, mel na chupeta, A Louca da Casa é o que há. Espero falar de todos, mas hoje, nos interessa aqui o primeiro, o fantasioso bolado, LESKE (ih, quem não é do Rio boiou agora).

A História do Rei Transparente é o resultado de uma grande pesquisa da autora sobre o período medieval — as cruzadas, mais especificamente. Se passa na frança rural e conta a história de Leola, uma mocinha roceira daquelas de dênti pôdi que dá na festa junina que, um belo dia, se vê órfã no mundo por causa dos cavaleiros que passaram ali e mataram todo mundo. Como não bastasse, o namoradinho, Jacques, se manda pra lutar pela causa, arrastado contra sua vontade. Sem ter muito o que fazer, ela se veste com a armadura de um homem morto e se passa por homem para sobreviver em um mundo de homens. E não é isso que a mulherada (não todas, só as que tem juízo) anda fazendo nos dias de hoje?

Aventurando-se pelo mundo, ela conhece Dhuoda (gente, desculpa se os nomes são outros na versão traduzida, ok?), uma bruxa que não é bruxa mas sim, antes de tudo, uma mulher de razão e conhecimento, a bruxaria da época (deixa só eles saberem que ser bruxa hoje é ser gordinha de batom preto, cabelo bom e escutar Tristania). Juntas, as duas vão, aos poucos, arrebanhando um exército de desajustados, ou melhor, de desqualificados para a época. Anão, gente com síndrome de down, enfim, tudo com o que o Todd Solondz poderia fazer uma piada só está ali, é a sua trupe.

A História do Rei Transparente é, antes de tudo, um romance sobre a intolerância e sobre a inadequação ao mundo — algo que todos nós (não todos, só os que têm juízo) já experimentamos uma vez ou outra. Sabe aquelas merdas que falam sobre os clássicos da literatura que é um livro que, embora se passe em outra época, é atual e blá blá blá whiskas sachê? Mentira, amigo. Tô lendo Anna Kariênina e nunca aquilo ali vai ser algo atual depois dos anos 60. Tá ali um livro que cheira a museu, rapaziada (tá certo, alguns podem ser de fato atuaizassos, mas a grande maioria vai só na aba dessa mesma justificativa que, acredite, não se encaixa em todos os clássicos). Esse livro sim é atual. Tá certo, foi escrito em 2005, mas é atual na alegoria de algo antigo que se faz atual (Ah, não vem não, que você entendeu). Por isso, é um clássico da literatura. Como que eu sei? Tá com a tag “clássico da literatura”. Tá ali, pode ver, é clássico sim.

E que personagens memoráveis, amigos. Que narrativa fluída (mesmo em erpaniol), que sagas emocionantes, que história cativante. Fico boladão como a galera não tá tão ligada nesse livro quanto deveria estar. Candidato a ser livro favorito de muita gente. Quero ver engolir o choro lendo esse livro, quero ver! Quem não leu tem que ler e quem já leu tá ligado na missão. Ó, tô recomendando, hein? Não é todo dia que eu recomendo livro aqui, só limito-me a comentá-los, mas tô recomendando esse.

Boa notícia pra quem gosta de erpaniol: Dá pra achar esse livro no original, numa belíssima edição da Alfaguara. Talvez na Fnac. Senão, o jeito é ler a versão em português, da Ediouro, numa edição bonita também, mas não tão bonita quanto essa da Alfaguara. Por isso, as duas editoras levam as tags de hoje. No começo do livro ainda tem, como é peculiar dos livros medievais, um mapinha, inclusive com a suposta indicação da ilha de Avalon. Isso, aquela mesma que aparece na revista dos famosos… Animal!

Ah, e o que é a História do Rei Transparente? Por que esse livro tem esse título? Eu é que não vou contar, tenho amor à vida.

Comentário final: 574 páginas pólen soft. Sabe aquela cena do extintor de incêndio em Irreversível? Dá pra trocar o extintor por esse livro.

J.M. Coetzee – Verão (Summertime)

Que semana! O Saramago morreu, e ao mesmo tempo, a copa do mundo está rolando. Foda isso, tem que parar de morrer gente legal em copa do mundo. Vez passada foi o Bussunda (cuja biografia saiu agora) e dessa vez, foi o portuga. Fiquei com peninha dele, é claro, mas vou confessar que fiquei com pena mesmo foi do João Marques Lopes, o biógrafo mais azarado do universo que lança uma biografia de gente viva uns seis meses antes do biografado morrer. Ô zica! Por essa o senhor não esperava, hein? Aliás, deveria esperar. Que pressa é essa de lançar biografia de velhinhos com um pé na cova, afinal? Faz igual o Fernando Morais. Aposto que já já ele lança uma biografia do ACM.

E aí a gente fica naquela: puxamos a sardinha pra copa do mundo e falamos de algum livro relacionado ao assuntou ou damos destaque ao Saramago, se aproveitando da necessidade das pessoas em tomar conhecimento de novos defuntos. Já viu? Pronto, de um dia pro outro, todo mundo é especialista em Saramago. Sandy, Luciano Huck, Ana Maria Braga, ninguém fala em outra coisa, como se passasse a vida inteira lendo o gajo ao invés de serem os bucetões que a gente sabe que são. Bom, pra ir na contramão desse pessoal, numa vibe mais publicitária, que sabe aproveitar bem o momento (é, publicitário, se você passou incólume à Copa do Mundo e não fez um anúncio colocando futebol no meio ou zoando argentino, tem algo de errado com você), vamos meter aqui o sul africano all-mighty Coetzee, que, afinal, é um dos dois escritores do país que ganharam o prêmio Nobel (a outra é a Nadime Gordimer). E, pra aproveitar mais o momento, de seu novíssimo livro: Verão.

Ia falar de Verão aqui muito antes, mas fui deixando, deixando, e ele foi perdendo o charme da novidade pras pessoas. Agora é só um livro lançado a dois meses atrás: tempo demais para ser considerado novidade e tempo de menos pra ser considerado objeto de lembrança e estudos. Mas aí, na moral? Foda-se, tô afim de falar desse livro hoje.

Verão é a terceira parte da trilogia Cenas da Vida na Província, que retrata alguns períodos da vida do autor. Vou contar que, embora o livro seja fodasso, esperava outra coisa, sei lá, algo no estilo dos outros dois mas falando da vida de escritor badalado, etc. Bom, quem sabe ele não lança ainda, né? O caso é que em Verão ele resolveu arregaçar a bagaça de vez. Sente só: no livro, que cronologicamente se passa a uns dois ou três anos atrás, Coetzee está morto e um biógrafo coleta entrevistas de pessoas próximas a ele para uma biografia póstuma (aprende aí, João Marques Lopes). Os entrevistados são: um colega de faculdade e quatro mulheres com quem rolou uma tensãozinha sexual (entre elas uma brasileira), ou algo mais até. Não dá pra chamar de namoradas, ainda assim. E o que elas fazem? Simplesmente destroem a imagem do escritor, colocam ele como um tipo esquisito, magrelo, feio, ruim de jogo e ruim de cama. Por um momento, até dá pra esquecer que foi o próprio Coetzee, que está vivinho, quem escreveu aquelas duras críticas a si próprio.

A grande sacada da série Cenas da Vida na Província é esse lance dele referir a si próprio na terceira pessoa. Além de agradar a crítica pelo recurso estilístico pouco comum, guarda aí uma grande vantagem para o escritor: a possibilidade de meter o malho em si. Ora, faça aí você uma experiência. Tente se autoesculachar num texto em primeira pessoa e num em terceira pessoa, como se fosse outra pessoa e não você. Mais fácil do segundo jeito, né? Quero ver quem é que vai ser macho o bastante pra se autodepreciar em primeira pessoa. Ah, e não vale ser judeu!

Verão é um livro que é difícil largar de lado, de tão cativante. Tá certo que eu sou suspeito pra falar do autor, mas, excepcionalmente este está demais, demais. Apesar de ser um livro de língua inglesa, é extremamente prazeroso lê-lo, não como é prazeroso ler outros livros do mesmo idioma, com o consumo desenfreado de informação e o deleite da escrita sem floreios, que, acredite, às vezes é necessário. Ler Verão é legal porque te dá a nítida sensação de conhecer Coetzee como a um primo seu, ou mesmo um amigo de longa data. Parece mesmo que ele não deixou passar nada sobre suas ideias e seu estilo de vida durante o período em que viveu na África. E aí a gente vê o que é um sujeito com vergonha de sua origem, e a vontade que ele tem de viver em um lugar como o Brasil, onde o racismo não chega a níveis absurdos como lá, a ponto de uma pessoa branca não poder dar bom dia pra uma negra. É, amigo, e você achando que jogador de futebol chamando o outro de macaco é pesado. Aliás, ninguém prendeu o cara que colocou o apelido no Grafite? Ou deram esse apelido porque ele sempre gostou mais de lapiseira do que de lápis?

Esse projeto da Companhia das Letras pra esse livro é o que há. Embora tenha ficado um pouco triste por eles não resolverem manter o padrão da arte em todos os livros, já não tinha mais esperança de que voltassem a fazê-lo depois do Diário de um ano ruim. De qualquer jeito, essa capa é bem, mas bem melhor do que a do supracitado último livro lançado. A foto não deixa perceber muito, mas essa fita vermelha realmente é uma cinta que colocaram sobre a capa do livro, que não possui nome do autor nem nada. Minha única ressalva é essa lateral branca, porque já tenho muito livro dessa cor aí nas bandas. De qualquer jeito, é demais. Tradução do mestre José Rubens Siqueira (sério, nunca vi esse cara na vida, mas o sujeito é bom, dá pra perceber claramente pelo inglês que eu domino), papel pólen soft, fonte Electra e tudo nos conformes pra mais um livro desse monstro da literatura.

Tenho ainda muitas considerações a fazer sobre esse livro, mas como post grande ninguém lê, vamos parando por aqui antes que alguém desista e vá ver vídeo de gatinho no Youtube.

Sobre a promoção: Ainda está de pé. O comentário de número 500 leva o Plataforma do Michel Houellebecq.

Um Ps: A partir dessa semana, vou começar a postar também nas quartas-feiras. Enquanto a de Domingo é a postagem lado A, na quarta eu faço uma postagem lado B, espaço que também posso abrir para críticos de plantão, ok?

Comentário final: 275 páginas em pólen soft. JAAAABULLAAAAAAAANI!!!

Post Extraordinário – Saramago está morto (e vai ficar assim)

(musiquinha do plantão da Globo) Tan tan tan tan-tantantantan Tan tan tan tan-tantantantan tan tan tantan tan TAAAAAAAAAAAAAAAN Blrrrrrrrup (isso é a virada dos tímpanos no final) Povo da terra! Saramago, o último português inteligente da face da Terra (como disse o Foba) morreu hoje, aos 87. Isso foi pela manhã, mas só agora a noite fiquei sabendo que foi de complicações pulmonares. Na verdade, foi de velhice mesmo. Nessa idade, qualquer morte é velhice. Bronquite é velhice, infarto é velhice, sífilis é velhice, uma combinação de pneumonia e uma machadada na cabeça é velhice, não importa. 87 anos de vida é coisa PRA CARALHO.

E, apesar desse tom bobagento, a verdade é que a morte do Saramago é sentida por todo mundo que gosta de boa literatura. E até mesmo por quem não gosta. Ora, o Lula não escreveu uma carta de pesar a Portugal? Já viu o Lula lendo Saramago? Se alguém vir, por favor tire foto que eu posto aqui! E quantas pessoas conheceram a obra dele por meio do filme Ensaio Sobre a Cegueira, do Meirelles, o diretor mais esforçado do Brasil? E o que é o filme Ensaio Sobre a Cegueira senão um O Fim dos Tempos que deu certo? Divaguei, foi mal.

Estava dizendo que a perda de Saramago é irreparável para o mundo da literatura, embora, sejamos francos, o velhus não tava escrevendo mais tãããoooo bem quanto antigamente. Claro que, ainda assim, seus livros eram muito mais fodas do que muita coisa que tem por aí, e não me refiro aos best-sellers.

A galera da mídia que cobriu a morte dele falou muito na Pilar, a esposa 30 anos mais nova que ele conheceu aos 63 anos. Nada dá mais alegria a um velho do que, depois de muito tempo, voltar a meter. Olhaí o Ferreira Gullar que não deixa a gente mentir. E eu acredito com certeza que aquelas dedicatórias que ele coloca pra Pilar em todos os livros são a mais pura verdade. Devemos muito a ela, não esqueçamos, meu povo.

Por fim, gostaria de dizer que espero que agora que o Saramago morreu, o senhor Luiz Scharcz, editor da Companhia das Letras (ô moço, deixa eu trabalhar aí com o senhor?) resolva reimprimir algumas obras inestimáveis do escritor, como A Jangada de Pedra e o primeiro volume dos Cadernos de Lanzarote (por que o povo da Globo ficou falando Lanzarotê, igual curitibano? É assim que tem que falar?).

É isso aí. Valeu, Saramago, você é o avô que eu nunca tive.

Nelson Rodrigues – A vida como ela é…

Nelson Rodrigues! Essa pessoa amabilíssima, agradável, que quase nunca fala merda, que ama e dá aos pobres, que não faz ideia errada da gente, esse moço, pobre moço, que teve o azar de morrer no dia em que ganhou na loteria. Nelson Rodrigues era dessa época em que jornalista não era gente, salário não era dinheiro e dignidade não era poder (tá, isso não faz o menor sentido). O que eu quis dizer é que ele era daquele time de escritores enfurecidos que batiam as teclas até gastar as falanges. E como escrevia, este velhus decreptus. Como a época exigia quantidade em detrimento da qualidade, Nelson padronizou sua escrita.

Manja aqueles desenhos da Hanna-Barbera? Cenários que rolam ao fundo, cabeças que mexem enquanto o corpo fica parado pra não gastar com animação (isso, aliás, gerou toda a sorte de bizarrices como dinossauro de gravata, crocodilo de gravata, leão de gravata… Êta bicharada escrava do colarinho!) e eteceteras malandronas que colocaram a beleza dos desenhos da MGM numa situação inviável. Bom, Nelson Rodrigues fez algo parecido com seus textos. Elementos que sempre retornam, ideias que são marteladas, personagens frequentemente visitados, tudo isso fazia o ofício de sentar ali e escrever qualquer merda por dia uma coisa mais fácil.

Variações sobre mesmo tema. Eis o segredo do escritor em A vida como ela é… e outros textos. Assim como as letras de axé, as novelas do Manoel Carlos e os acordes dos Ramones, tudo em Nelson Rodrigues parece ser gerado por um software especializado. Mas pera lá, camarada! Isso não quer dizer que a obra do velhaco não tenha seu valor, muito menos que seja uma obra ruim. Nelson Rodrigues era foda, acho bom ninguém discutir nesse ponto. E A vida como ela é… taí pra martelar o dedo de quem discordar.

Historietas sobre os recalques da classe média e alta, tabus mil, tudo o que há de podre no reino da Dinamarca esse corno escreveu. Fica difícil criar alguma coisa depois disso. No livro, cem, eu disse CEM continhos estão publicados, e olha que não foram todos.

Ler esse livro de cabo a rabo (quem curte expressões de livro como “ler de cabo a rabo”, “ler numa sentada”, etc? Levanta a mão aí!) pode te causar náusea, e até mesmo odiar o autor. Vai dizer “porra, tudo a mesma coisa!”. Mas isso é pra você (e claro, pra mim. Eu só pareço velho), que não lia toda semana o seu espacinho no jornal. Por isso meu conselho é deixar esse livro na cabeceira e de vez em quando, ler algum.

E que coisas estranhas essas historinhas guardam! Meninas que morrem subitamente, com um golpe de ar — sério, que povo fraco é esse do meu Brasil?; mulheres que tratam seus maridos de “meu filho” como hein “Ih, meu filho, sua batata tá assando”. Gente que responde taxativamente “É batata!” pra tudo. “E ela morreu assim, subitamente, com um golpe de ar?” “Batata, meu filho!”. E tem mais, tem mais: gente que fica repetindo a mesma frase pra dar ênfase como em “E tem mais, tem mais!”; sujeitos com leves tendências pedófilas que chamam as gostosas de “pequena”; gente que fala “Tu és de morte”; motoristas de ônibus que atropelam os outros sem dó; garçonières em Copacabana, de amigos alcoviteiros (talvez naquela época Copacabana não fosse o lugar onde as pessoas mais eram vistas na face da terra); cartinhas anônimas pro corno lerdo, enfim, todo um universo que se repete e se rearranja de todas as maneiras possíveis. Isso, meus queridos, é Nelson Rodrigues em A vida como ela é… E nem me fale daquela versão televisiva que passava no Fantástico e era narrada pelo Zé Wilker, que aquilo me dá nojo. Melhor ler o livro mesmo.

O motivo principal pra preferir a história no livro do que na boca mole do Zé Wilker é essa edição da editora Agir. A editora Agir não era nada antes de ser comprada pela Ediouro. Deu uns cinco minutos nessa editora em 2004 em que tudo mudou! A cada dia me surpreendo mais com os projetos gráficos dela, e com a escolha de autores também. Fizeram esse livro gigantesco, lindo para o ano em que ele foi lançado (tem que ver que há uns dois anos fazer livro virou coisa séria pras editoras), apesar do MALDITO papel offset, de gramatura baixa ainda. De qualquer jeito, vale pela capa e pela falta de economia nas páginas. Mas não tente carregar ele por aí, você só vai se fuder, e seu massagista vai ficar rico.

SOBRE A PROMOÇÃO: Tô gostando de ver a galera comentando aí. O comentário de número 500 vai ganhar o livro Plataforma, do francês boiolinha Michel Houellebecq. Literatura de primeira para os meus leitores de primeira (sentiu a puxada de saco? Então comenta aí, cacete!).

Comentário final: 605 páginas em offset. O livro que extinguiu os dinossauros.