Craig Thompson – Retalhos (Blankets)

BlanketsO tempo se estreita, a pós-modernidade líquida escorre pelos dedos e daqui a pouco eu tenho que dormir e vou escrever isso o mais rápido possível. Pra galera que acompanha o blog de fora do Brasil, estamos em época de eleições municipais, e amanhã é dia de seguir os queridos candidatos pela cidade para saber que confusões esses diabinhos vão aprontar. E quando eu penso nos candidatos da minha cidade, a única coisa que me consola é lembrar-me de que eu não moro em São Paulo. Paulistanos, me desculpem, mas vocês tem um gosto pra política similar ao seu gosto musical.

Mas não estamos aqui para falar de política, não é verdade? Estamos aqui para falar de coisas agradáveis e edificantes como literatura. Ou, mais especificamente, no caso de hoje, de quadrinhos. Eu só falo de quadrinhos em duas situações limítrofes: a primeira é quando a graphic novel (para usar um outro termo, mais afrescalhado) em questão é muito boa; a segunda, quando tô sem livro pra comentar. Felizmente hoje é o primeiro caso, então regozijem-se (regozijar é um verbo que só dá pra escrever, jamais pronunciar sem enrolar a língua) com as maravilhas da HQ estadunidense Retalhos, do Craig Thompson, um dos livros mais hypados tanto pelos críticos da linguagem quanto pelos meninos que tocam músicas do Charlie Brown Jr no violão, sentados na rampa de skate de seu bairro com uma camiseta suada de três dias.

E quem é Craig Thompson, vocês me perguntariam com a avidez e a curiosidade de quem chega cá por essas paragens cibernéticas para embriagar-se com o doce suco do conhecimento. E o mais bonito da resposta é que ela está contida na própria obra. Thompson fez um quadrinho autobiográfico em que conta trechos da sua infância e episódios da sua adolescência que culminam na descoberta do primeiro amor adolescente. Toda aquela parada de “quinta-série-o-primeiro-beijo-a-primeira-sacanagem”, só que pra ele aconteceu muito mais tarde porque — aí é que tá! — o cara foi criado num ambiente ultra-religioso em que Jesus era quem dava a palavra final nas decisões da família. Pecado original, toda aquela culpa, o rapazote não podia nem desenhar direito e a professorinha da escola dominical dizendo que ele não ia poder nem desenhar no céu, era óbvio que sairia dali uma mente brilhante, já que todo artista tem uma alma torturada (é o boato que corre à boca pequena). Só quando ele já fica maiorzinho, quase terminando a escola, é que conhece Raina, uma menina cristã que frequentava um desses Jesus Camps para os quais ele ia no verão (ou no inverno, sei lá), e que dá pra ele de presente uma colcha de Retalhos, símbolo da devoção e da paciência do primeiro amor.

Nesse amor adolescente reside a beleza e a pureza das respostas das crianças. É num diálogo sincero com o eu do passado que Craig junta as pontas da vida até o momento para chegar à magnífica conclusão de que é justamente quando o amor se mostra em seu estado mais selvagem e arrebatador é que ele é igualmente impotente e castrador. As relações sistólicas e diastólicas de quem, ao mesmo tempo em que sofre com o ameaçador e desconhecido futuro que implica o clássico chute pra fora do ninho, quer drástica e irremediavelmente já ter encontrado uma resposta para endireitar a vida amorosa. Condicionar os primeiros anos da vida adulta a esse amor, mudar-se para um trailer, viver de música, ir morar no Hawaii e tocar guitarra às três da manhã com a vizinhança de cabelo em pé, é esse o tipo de aniquilação da ambição que o amor juvenil causa. Nada mais lindo do que ver um homem sem qualquer projeto de vida a não ser encontrar um cantinho para cutucar o pudim da amada em paz, sem ser incomodado pelas chatices do estilo de vida yuppie.

Tudo separa Raina de Craig Thompson. A distância geográfica (a mocinha mora em outra cidade, muito longe dele), a abstinência sexual (católicos do meu Brasil: saiba que esse não é um termo negociável do cristianismo. Ou você espera ou você não tem direito de comemorar o natal, foi o que uma autoridade do baixo clero certa vez me falou), a necessidade de instruir-se profissionalmente para trabalhar de sol a sol numa cidade sem sol, tantas outras prioridades de sobrevivência a serem cumpridas antes de gozar do conforto para fornicar, amar, casar. Ai ai, não é fácil ser um jovenzinho. Pra piorar, o autor-protagonista precisava ainda acertar as contas com seu criador, com aquela perda sistemática da fé que acarreta a tomada de consciência das agruras da vida adulta. Os catequistas têm se empenhado agora em não levantar muito as expectativas do pessoal, dizendo que Deus é só amor porque já viram que não dá certo, mas naquela época a coisa era um pouco diferente e o bichinho acuado caiu em si e renegou secretamente sua religião.

Tudo isso me lembra esse vídeo:

Então é basicamente isso, o Retalhos: uma história sobre a descoberta da própria sexualidade, das próprias opiniões, e da tristeza que é envelhecer. O mais legal do livro é a linguagem bíblica com que ele embasa todas as pequenas revelações da sua vida, a narrativa não linear que vai e volta à sua infância (o rapaz foi abusado pelo baby-sitter quando era criança de verdade? Acho muito absurdo como ele cita isso no livro como a maior das trivialidades). Mas é na sinceridade da história que ele ganha o leitor. É incrível como as pessoas querem reinventar a roda em obras autobiográficas quando é um dos poucos gêneros em que existe uma fórmula clara do sucesso: sê sincero e receberás o céu. Foi isso o que o cara fez. Um retrato sincero sobre sua infância, sua juventude, seus medos e seus tesões, tudo, obviamente, num desenho maravilhosamente bem feito, engraçado e comovente ao mesmo tempo. Não é, nem de longe, o quadrinho genial que todos dizem encontrar, mas é uma singela história de vida que pode ganhar um cantinho no coração da galera.

O projeto da Companhia das letras é simples como o desenho de Craig Thompson,  preto no branco sem tons de cinza (graças a Deus, ninguém aguenta mais tom de cinza nenhum por essas bandas). A tradução sempre precisa do Érico Assis ajuda na boa leitura da coisa, mas é nas splash pages e nos quadrinhos mudos que a gente percebe a riqueza do traço e dos enquadramentos, da direção artística do autor, se a gente pode dizer assim.

E é isso. Não tenho muito mais a acrescentar. E também não posso, como disse, estou mais em cima da hora que aquele coelho da Alice. Desculpem pela sinceridade e pela brevidade de hoje, espero que não seja um impeditivo para apreciarem a leitura. E a propósito, perdoem e desconsiderem quaisquer erros ortográficos ou de digitação. Ando sem tempo para uma revisão detalhada. Fui!

Comentário final: 592 páginas em papel offset. Finalmente um afundador de crânio de volta a esse site.

Luiz Alfredo Garcia-Roza – Fantasma

Ufa, chega de polemizar com o best-seller alheio, vamos falar agora de outro tipo de livro: o best-seller pessoal, aquele que é sucesso grande entre um seleto grupo de pessoas que se interessa por literatura o suficiente para escolher best-sellers melhores do que os que as livrarias empurram em seus diabólicos mostruários patrocinados pelo vil metal das editoras que ganham vendendo papel por quilo. Literatura policial, por que não? Os recalcados dizem ser um gênero menor, os exigentes reclamam da repetitividade da fórmula, os puritanos acham que há excesso de violência e os lerdos acham que é livro que “tem que pensar”. Jorge Coli e eu, porém, defendemos que os bons leem policial. Há muito o que aprender nesses livrinhos descompromissados, amigos. A fina arte da mentira, os limites da maquinação humana, as reviravoltas pessoais e a habilidade de fazer conexões entre elementos que estão à espera da percepção humana são alguns tópicos, mas há também todo o engenho de quem deseja fazer uma boa história revelando-a por camadas, sem que a próxima seja menos interessante do que a anterior, e sem que uma passe por cima da outra. Eis aí a genialidade do gênero, e eis o gênio da genialidade do gênero: Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Sou da opinião de que se você gosta de um autor policial, deve ler todos os livros que ele já escreveu. Afinal, é por aí que se pega o vício e é por aí que se percebe a versatilidade do escritor em um tema que se reinventa a cada romance com fórmula fixa. Garcia-Roza é um desses: seus romances sempre tem aquele “Who done it?”, o “Quem foi o cagão?”, em bom português. A chave de seus romances é descobrir o assassino e a motivação. Ora, isso é entretenimento! Fantasma, que, pelos meus cálculos, é o décimo livro da carreira de romancista de Garcia-Roza, traz o bom e velho delegado Espinosa, que já conhecemos desde o romance vencedor do prêmio Jabuti, o Silêncio da Chuva (que, confesso, não faço ideia de porque se chama O Silêncio da Chuva. É tipo Bruxa de Blair 2 – O Livro das Sombras, que não há menção a um único livro no filme inteiro). Nesses dez livros, muita coisa aconteceu ao delegado Espinosa. Foi promovido a delegado, tomou tiros, escapou da morte várias vezes, comeu muita mulher, amigou-se com a Irene num relacionamento aberto, matou amigos de infância, recebeu a visita do filho que mora nos Estados Unidos, aumentou sua estante-sem-estante (construção bizarra de livros comprados em sebo que se empilham numa parede. Uma parada improvável, já que livros de sebo mal conseguem manter-se inteiros), entre outras coisas.

O caso deste livro começa de maneira peculiar. Um sujeito é assassinado e roubado, e o que chama mais atenção no corpo é ter anotado na mão os seis primeiros dígitos do telefone de Espinosa. Ora, se um sujeito aparecesse morto com um pedaço do meu celular anotado na mão, ia ficar no mínimo bolado e migrar para a Claro. Mas o Espinosa é intrépido, e começa a investigação, justamente pela possível única testemunha ocular presente. A Princesa, uma sem-teto morbidamente obesa e albinicamente branca que só fica lá sentadona encostada na parede com suas sacolinhas, uma espécie de Buda branco de Copacabana. O único amigo da princesa é um senhor Isaías, um sujeito do Amazonas que mora numa construção abandonada, pago por alguém para que a obra não seja invadida. E aí, já sabe, povo da rua já é naturalmente escaldado, pra falar com puliça então, meu filho, só com despacho.

E é aí que reside a genialidade de Garcia-Roza. O escritor não só criou um policial incorruptível nesse meu Brasil do mau exemplo, como também criou um malandro policial. O malandro é aquele que se dá bem com todo mundo, é respeitado por onde passa, não dá margem pra crocodilagem, mora? E Espinosa vai, com seu jeitão de senhor de cinquenta anos, falando com mendigo, vagabundo, quem puder ajudar no caso, que não tem absolutamente nada de óbvio.

O título? Fantasma, sim, pode se referir à invisibilidade dos moradores de rua, mas ganha outro contorno no que se refere a uma mala imaginária que supostamente foi roubada do morto. Mesmo sem ninguém ter atestado sua existência, Espinosa busca esse fantasma de bagagem como se não houvesse dúvidas de sua existência, e nessa busca está o centro da trama. Repare que no começo do livro Espinosa está lendo uma edição velha de Sobre a Teoria dos Objetos Inexistentes, de um filósofo chamado Alexius Meinong, que tem uma teoria de fato bem interessante sobre o assunto. Nada é por acaso na literatura do sujeito.

Minha conclusão é que Fantasma é um dos melhores livros de Garcia-Roza desde Vento Sudoeste, já resenhado aqui. E digo isso porque já li todos mesmo. A capacidade de juntar cacos e formar um caso em Espinosa é surpreendente, e isso não é porque a consciência do escritor é a consciência do protagonista não, filho. É porque requer uma imaginação forte e sagaz para fazer seu personagem dar passos mais lentos que os seus próprios, enveredá-lo por falsas pistas e retomar o caminho certo de novo com lógica sobre lógica. Bah, nem vou começar com isso. Apenas leiam o livro, divirtam-se com ele por um dia ou dois e não se esqueçam que Garcia-Roza é talvez o único escritor policial clássico do Brasil, com detetives sagazes e honestos, assassinos misteriosos e pistas que são seguidas com faro e lupa. Acho que falta apenas um arqui-inimigo, um Moriarty pro Espinosa. De resto, tá tudo aí.

Por último, gostaria de acrescentar que essa constante mudança de projeto gráfico da Companhia das Letras pra coleção policial tá deixando minha coleção do Garcia-Roza. Eles sempre pintam a lateral das páginas na cor da capa, mas nesse pintaram de preto. Ficou bacana até, mas sei lá, preferia do jeito como era antes, com a faixinha colorida com o nome do autor e uma foto muito escrota em preto-e-branco. A foto dessa capa parece que foi feita no computador, com renderização 3D no cenário. E ainda permanece o inexpurgável papel offset, que deve ser o único que gruda essa tinta de lateral de página. Que é feio, é. Pelo menos a fonte é Garamond, aquela fonte style, charmosa tipo um galã francês. A Garamond é o Vicent Cassel das fontes.

Comentário final: 210 páginas. Catuca, catuca lá no fundo.

E. L. James – Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey)

fifty shades of greyAVISO: Essa é a primeira e a última vez que um livro tão imbecil será comentado neste blog. Favor não insistir. Obrigado.

Eis que estava aqui sem ideias do que escrever hoje e pedi para que meus amigos leitores do Facebook indicarem qualquer porcaria que lhes viesse à cabeça. O pessoal se mostrou bem receptivo à ideia e sugeriu coisas interessantes, mas sempre tem um gaiato que quer ver o circo pegar fogo (sim, estou falando com o senhor, sr. Gabriel Ferreira) e que não tarda a jogar a merda no ventilador. “Cinquenta tons de cinza”, grita ele em meio à balbúrdia de gente sensata, o suficientemente alto para chegar a meus sensíveis ouvidos. Boa ideia, rapaz, vamos abrir mais um hectare de espaço ao latifúndio que esse lixo conseguiu na imprensa, mas vamos fazer o serviço direito, então. Vamos fazer essa concessão inédita para nunca mais, e depois podem pedir à vontade Harry Potter, Stephen King, Dan Brown, Marian Keyes, David Baldacci, Padre Marcelo Rossi, Nora Roberts e Nicholas Sparks que vou fazer ouvidos moucos até fazer bico.

Pois muito bem, vamos aos fatos: Cinquenta Tons de Cinza é chamado de mommy porn (pornô para mamães) por duas razões: 1- é pornográfico. 2- só tiazona curte. E por tiazona me refiro tanto à balzaca que ficou pra titia quanto aquela que já engatou a quarta marcha no motor da menopausa. Bom, o fato de só tiazona curtir, por sua vez, desmembra-se em mais três razões: 1- tiazona curte ler o livro da moda. 2- tiazona sempre está precisada (if you know what i mean). 3- tiazona não sabe usar o redtube. Ainda assim, as razões não justificam o bafafá em cima do livro, então vamos falar um pouco sobre ele para que vocês possam chegar a suas conclusões.

O (cof cof) romance conta a história de Anastasia Steele, uma menina virgem de 21 anos, sem nenhum atrativo físico visível que, como todo barro, tem uma amiga gata. Essa amiga, por sua vez, é estudante de jornalismo e está fazendo uma matéria para a faculdade com o magnata Christian Grey, de 28 anos que, por alguma razão que foge a qualquer lógica, é benemérito da faculdade onde elas estudam. A amiga pega uma gripe e pede então para que Anastasia vá entrevistar o sujeito em seu lugar. E ela vai, é claro, todo barro é pau mandado de alguma gata. Aqui já dá pra vocês adivinharem o resto: a vida dela muda por causa dessa coisinha, no melhor estilo Faroeste Caboclo, Indignação, e qualquer outra obra com paralelos identificáveis. Ela se encanta com o sujeito e ele, de quem a lógica já não é a melhor das amigas, parece se encantar com ela também. E os dois começam num flerte mais coxinha que álbum do Dave Matthews Band. Até que ela descobre tudo: Christian Grey é uma espécie de Eike Batista sadomasô, curte dar umas chicotadas e fazer um bondage pra estreitar as relações. E a menina, que nunca nem viu uma jeba na vida, se vê obrigada a escolher entre a velha vida de lisura em que vivia ou embarcar na vibe de um Adônis bilionário cujo único “defeito” é dar umas porradinhas na mulher (quem nunca, Goleiro Bruno…). A princípio ela fica balançada, mas aí chega um Macbook aqui, um carro novo ali, a inveja da amiga gata acolá e, por alguma razão inexplicável, ela topa. Que coisa, não?

E pronto, o resto do livro é putaria maluca até o final. Quer dizer, maluca mesmo é a do Marquês de Sade. É uma putaria, digamos, heterodoxa. Descrições pudicas de cenas de sexo que mostram que mesmo pra uma narradora de baixaria a mulher não serve. Não consegue nem entrar num consenso pra dar nome pro próprio órgão sexual, pô! “Eu o sentia ali”. Ali, aonde, filha? Ali virando a direita na entrada da Régis Bittencourt? Entra nos mínimos detalhes, mas nomenclatura anatômica é coisa de pervertido agora? Decida-se.

Desnecessário acrescentar, mas vai que tem algum desavisado que passou batido pela minha advertência inicial: o livro é irritantemente mal escrito. Vocabulário paupérrimo, estrutura mais simples do que fazer barquinho de papel, tentativas patéticas de digressão e menções deploráveis a uma “deusa interior”. Sério, cada vez que a mulher falava em “deusa interior” eu tinha vontade de bater a cabeça na parede.

Vou confessar uma coisa: até ler esse livro, eu era daquele time dos otimistas. Dizia que o importante era que o povo tava lendo, gastando dinheiro em livro, se dedicando a uma atividade minimamente intelectual, etc. Mas depois de Cinquenta Tons de Cinza, amarguei geral. Vão tomar vergonha na cara e ler coisa que preste, porque descer o intelecto de um adulto ao nível dessa joça é pedir pra tomar uns cascudos. Desculpa, gente, não costumo me alterar nem dar esses ataques de arrogância, mas essa leitura me tirou do sério. Claro, quem gosta de ler coisa boa e quiser pegar isso aí pra ver qual é, pode ficar à vontade, minha birra não é com vocês. Mas se você passa de Harry Potter pra Stephen King, de Stephen King pra Paulo Coelho, de Paulo Coelho pra, sei lá, Zibia Gasparetto, e ainda dá uma arrematada com Cinquenta Tons de Cinza, fica esperto pro cérebro não atrofiar.

Eu poderia me estender sobre esse livro por páginas e páginas da tão preciosa internet, mas receio comprometer ainda mais o bom senso, porque eu sou sempre da turma do deixa disso e ficar criando polêmica não é mais a minha área. Mas resta explicar uma coisa: como essa porcaria de livro fez sucesso? Afinal, não é nem uma história, é um pornô com aquelas tramas toscas de fundo, no estilo dos saudosos VHS tapados da locadora. Todos esses exemplares vendidos se devem a essa fantasia de meia-idade de ser subjugada por um bonitão ricaço? Christian Grey não fala como se tivesse 28 anos, fala como se fosse um senhor de 59 num corpitcho de mancebo, e a Anastasia fala como se fosse uma menina de dez anos num corpo de 27, então a distância de educação emocional aí aumenta uns três canyons. Junte os pontos, então: a protagonista é um barro infantilizado (barro, pra quem não sabe, é mulher feia, ou fraca. E por fraca quero dizer pobre de espírito), e tem a chance de, pela primeira vez na vida, fazer inveja na amiga gata e ser comida por um cara rico, bonitão, na flor da idade que, ao invés de ficar por aí de bauduco nocauteando as pistoleiras, prefere uma parada mais intimista e monogâmica, embore ainda goste de mandar. É nesse “me pega no colo, me deita na cama e me faz mulher” que reside o sucesso de Cinquenta Tons de Cinza? Vocês me dizem.

Comentário final: 450 páginas de pura baboseira. Já sabe em quem tacar, né?

Jeffrey Eugenides – A Trama do Casamento (The Marriage Plot)

The Marriage PlotAs Olimpíadas estão rolando, e obviamente o grau de interesse do brasileiro na cobertura é diretamente proporcional ao número de medalhas que os atletas conseguem para o Brasil. Pra quem não é deslumbrado com quem nada mais rápido, quem cospe um caroço mais longe, quem apanha a maçã voadoura de ouro, quem consegue achar o Bin Laden primeiro, enfim, essas aleatoriedades que usamos como qualificadora de caráter, vem com o Livrada! porque a literatura, para os poucos e bons, é perene e não é competitiva.

Quer dizer, é competitiva para uns loucos que descobri que ficam competindo pra ver quem lê mais livros no skoob, cadastrando tudo quanto é gibi, bula de remédio e livrinho infantil de cinco páginas (abram mão de vossas existências pela sanidade do mundo). E também é competitiva para o Jeffrey Eugenides, nosso objeto de estudo de hoje. Quer dizer, o cara é o nêmesis do Jonathan Franzen, e embora sejam amiguinhos e joguem kinect juntos, representam, cada um a sua maneira deturpada, duas vertentes da nova literatura americana – que, se você me perguntar, vou dizer honestamente que nem é tudo isso, prefiro o Cormac McCarthy e o Don DeLillo ainda.

Enfim, Eugenides, que escreveu o livro As Virgens Suicidas, que virou filme nas mãos da Sofia Coppolla — não devia ter deixado, Eugenides, isso é que nem construir um avião e deixar os amigos do Bin Laden pilotar – é um cara por cima da carne seca por esses dias. Isso porque ele não escreve muito e quando escreve lança A Trama do Casamento, um meta livro.A história, vejam vocês, gira em torno de uma mocinha chamada Madeleine Hanna, recém-formada em Letras e no frescor de sua juventude em plenos anos 80, época em que eu imagino sempre ao som de Don’t You Forget About Me, do Simple Minds (obrigado, John Huges, por tudo). O foco da pesquisa de Madeleine são os chamados “romances de Casamento”, aquele tipo de livro do século 19 em que uma mocinha tem dois pretendentes para escolher e a história inteira é isso, uma espécie de romance policial misturado com novela mexicana, tipo Orgulho e Preconceito e afins. A tioria da menina é que esses livros são o último resquício de machismo visível na literatura, que coloca a liberdade da mulher como o poder de escolha entre um ou outro, e que mulher gosta de ler isso porque é burra e alienada. Então a Mad aqui representa a entrada dos estudos feministas na universidade, algo novo para a época. Mas, surpresa! Madeleine tem, ela própria, dois pretendentes para escolher. De um lado, Leonard, um bad boy esquisito que estuda letras e biologia e sofre de bipolaridade – uma doença que eu nem sabia que existia na década de 80 – e faz todo mundo à sua volta sofrer enquanto ele acha que todo mundo tem que entender o lado dele, coitadinho. Do outro, Mitchell Grammaticus, um sujeito que também estuda letras e estudos religiosos e preprara uma virada em sua vida fazendo uma viagem pós-formatura para a Europa e depois Índia, trabalhando com os pobres com a Madre Teresa de Calcutá enquanto passa dias sem tomar banho.

(Só um parênteses: conheci em Paris uma menina que é a versão de saias do Grammaticus. Ela também estudava estudos religiosos, também não tomava banho e estava viajando após se formar e prestes a fazer o caminho de Santiago de Compostella. Perguntei se ela tinha lido esse livro e ela disse: “Não, sobre o que é?”. “Sobre você”, eu respondi)

E, pronto, aí está a genialidade de Jeffrey Eugenides em A Trama do Casamento. O resto são 500 páginas de discussões leves e agradáveis sobre literatura e uma história que vai e volta no tempo, e se o leitor quiser escolher pela rapariga, boa sorte, porque os dois são dois trastes na minha opinião – estando aí outra sacada do cara, habilidade para não pender um dos lados da balança.

Agora vocês me perguntariam: “Mas Yuri, A Trama do Casamento é um livro machista como os romances de casamento da Jane Austen que a Madeleine estuda?”. Bom, vocês podem achar que não, mas a resposta é sim. Primeiro porque, realmente, não resta nada à Madeleine a não ser escolher um dos dois e sofrer na mão de sua escolha pro resto da vida, e isso nem o “kit da jovem solteira” salva (vocês vão saber do que eu estou falando se lerem o livro). Segundo que ela nem é, propriamente falando, a protagonista do livro, já que o Eugenides dedica mais páginas aos dois pretendentes do que à própria Madeleine. Terceiro porque a moral do livro é essa: mesmo que você seja uma mulé super descolada e antenada à opressão feminina nesse mundo louco, você tá presa para sempre nessa vidinha e consciência nenhuma vai te libertar. Pelo menos foi isso que eu entendi. Eugenides, esse malévolo…

Esse projeto gráfico da Companhia das Letras valoriza na capa o apelo pop do livro, já que é um livro pop mesmo, pra garotadinha curtir numa boa, sem neurose, e porque afinal, que garotinha de 17 anos metida a alternativa não ama os filmes da Sofia Coppola a começar pelo Encontros e Desencontros e a terminar pelas Virgens Suicidas? Sério, é um livro bacanasso de ler, e eu li nas minhas férias e devo dizer que essa resma passou rápido. O formato do livro é grande e tem papel pólen de gramatura leve e fonte Electra. Um livro bem charmoso, resumindo. E a lombada não é dessa cor, mas é esse fúscia/púrpura da palavra “casamento”, dando a impressão, uma vez na estante, que você é fã de Rosamund Pilcher e Nora Roberts. Boa sorte, então!

Comentário final: 438 páginas grandes. Desloca o maxilar pra ficar falando engraçado pro resto da vida.

Cormac McCarthy – Meridiano de Sangue (Blood Meridian)

blood meridianBoemia Rhapsody, aqui me tens de regresso! Depois de um mês e bordoada longe da internet, longe dos blogs, longe de casa e longe do país, voltei para dar continuidade a esse bonde pesadão que não tem marcha lenta que é o Livrada! Sentiram saudades? Espero que sim, e prometo que hoje vou fazer valer a espera, mesmo porque não é de qualquer livro que vamos tratar hoje, e sim do estupendo, portentoso e calamitoso Meridiano de Sangue, do Sr. Cormac McCarthy. Não sabe que livro é esse? Não sabe quem é Cormac McCarthy? Não sabe que fim levou o Demóstenes? Não sabe como pegar mulher na marcha das vadias? Vem comigo então!

Cormac McCarthy ficou mais famoso no mundo depois que dois de seus livros foram adaptados para o cinema. Primeiro, o espetacular Onde os Fracos Não Tem Vez, dirigido pelos Irmãos Coen, talvez o melhor indicador do nível intelectual alheio já criado na história da humanidade. Pode perguntar para qualquer pessoa se ela gostou desse filme, e pode igualmente erguer uma sobrancelha e falar um psicanalítico “aham” ante qualquer negativa, principalmente se a justificativa for “odiei o final”. Sim, a gente sabe que quem gosta de sertanejo universitário é objetivamente involuído, mas esse filme separa melhor o joio do trigo. Depois foi A Estrada, dirigido por sei lá quem com sei lá queloutro no papel principal porque não assisti e não sei se quero porque vi a capa e já temo terem feito cagadinha em cima da obra do sujeito. O que importa é que jogaram o nome Cormac McCarthy pro mundo com o cinema – o que, convenhamos, é a única coisa pra qual o cinema de Hollywood presta hoje em dia – e imagino que alguém tenha se aventurado a ler o sujeito por causa disso. Eu sei que eu fui um deles. E, durante minhas tão merecidas férias, resolvi escolher exatamente este livro para ler nos Intercitys e TGVs da vida.

Antes de mais nada, o título já indica algo para você. Se não o “sangue” de Meridiano de Sangue, o título alternativo. Sim, é Meridiano de Sangue ou O Rubor Crepuscular do Oeste. A gente já foi doutrinado desde a aurora da nossa vida literária que quando um cabra da peste resolve colocar um título alternativo na obra é porque ele é inteligentão, mesmo que na maioria das vezes seja só um zé-mané. Agora, ninguém coloca um título como O Rubor Crepuscular do Oeste sem estar sujeito a julgamentos mil, dos pés a cabeça, da capacidade estilística de manter a pompa do título ao longo do romance inteiro. Isso é esperado. É como se auto apelidar de Tripé, as pessoas vão checar a pacoteira. Então, caros – e isso serve para vocês, jovens escritores – certifiquem-se que o título das coisas corresponde ao seu conteúdo em grandeza. McCarthy fez isso. Não aquele gordinho paranoico, mas o Cormac McCarthy, quando escreveu Meridiano de Sangue ou O Rubor Crepuscular do Oeste (Evening Redness in the West).

A história do livro gira em torno de um garoto sem nome, a quem o autor (e o tradutor) chama apenas de kid. O kid é forçado a deixar o lar ainda moleque e ingressa na brutal gangue do capitão John Glanton que tem a missão de coletar escalpos de índios no oeste, passando pelo deserto de Sonora e outras paisagens ermas que conhecemos através de filmes americanos. E por quê escalpos, vocês me perguntariam. Bom, é sabido que nessa época do desbravamento da América do Norte, qualquer ajuda pra matar os índios era bem-vinda, e o pagamento pra esses sanguinários era mediante apresentação de escalpos. Isso era muito bom pros ruins de nascença – uma classe de ser humano diante da qual os antropólogos e psicólogos se dividem – porque, né, junta a fome com a vontade de comer. Glanton é acompanhado por um tal juiz Holden, um personagem sobrenatural que fala trocentos idiomas e domina qualquer técnica existente, de caçar sapo na chuva a fazer cupcake, e cisma em escrever num caderninho tudo o que existe, uma espécie de enciclopédia megalomaníaca. E ele, Glanton e a patota são maus feito pica-paus. O lance é matar índio, negro, mulher, velho, criança, cavalo, cachorro, filhotinho de cachorro, tudo, tudo, na maldade mesmo, desnecessariamente, o que faz de Meridiano de Sangue um dos livros mais pesados que você vai ler em vida (a menos que você curta um Marquês de Sade ou algo assim).

E por que dessa violência toda? A partir daí você pode seguir seu próprio caminho e chegar as suas próprias conclusões, mas vou jogar meus dois centavos sobre o assunto (essa é uma expressão que não deu certo em português, mas vocês entenderam, né?). A violência a que o leitor e o kid, talvez a única tábula rasa desse circo, são obrigados a enfrentar confronta-os diretamente com seus desejos primitivos, e faz você se sentir um bosta de um animal por pertencer a essa raça. Tipo um tapa na cara dos cafas que mandam aquela de “o macho é feito para ter várias fêmeas, tá no nosso instinto”. Tá no instinto, malandro? Então olha aqui onde seu instinto vai te levar. Ao mesmo tempo, o autor não mede esforços para jogar na cara a fragilidade do corpo humano, em descrições vívidas e horripilantes de miolos espatifados, crânios dilacerados, carburador furado e o meu negão do lado (êpa, peraí, caceta). Como se ressaltasse o aspecto patético da coisa: bolhas de sangue e ossos que não aguentam 10 minutos de quebra-pau vivendo em pé-de-guerra. Ecce homo. É claro que a saga abriga questões bem mais profundas do que essa, e a isso serve bem a figura do juiz Holden, deus ex machina  que explica as piadas, mas essa é só um detalhe que me impressionou e quis compartilhar.

Mas e a escrita, meus amigos? Preciso confessar que até então só tinha visto uma prosa tão maravilhosamente bem escrita assim em português, nunca em língua inglesa. Não li no original, mas a julgar pelo trabalho do tradutor de encontrar as palavras mais precisas possíveis, sei que o cara não ficou nos the book is on the table nesse romance (mérito do tradutor também, meus parabéns, senhor Cássio de Arantes Leite, quem quer que seja o senhor, tornou minha leitura muito mais aprazível). A prosa do McCarthy é densa, bonita, cada frase do juiz Holden parece sair de um aforismo do Nietzsche e cada descrição parece um quadro do Turner, bonito mesmo quando se está tratando de algo meia-boca. E me assombra a capacidade do cara de falar de detalhes específicos sobre como o sangue seca numa ferida, como uma bala atravessa a cabeça de um cavalo ou como uma faca raspa um osso. Não sei muito sobre o passado do autor, à exceção de seu ingresso nas forças armadas, mas tirando isso não sei se quero descobrir também.

E por último, o mais chocante: Meridiano de Sangue é, em certa medida, uma ficção histórica. Glanton realmente existiu, e os fatos narrados no livro foram baseados no relato autobiográfico de um de seus cupinchas. O mesmo livro diz que existiu também o juiz Holden, mas não que seja uma prova concreta de sua existência, já que a obra foi considerada meio mentirosa. Ainda assim, pombas! Não vou nem falar mais nada, vou terminar essa resenha com outro pombas. Pombas!

Ps: já faz algum tempo que adotei essa prática, mas estou oficializando aqui: não respondo mais comentários deixados no blog. Acho que no final das contas fica meio intromissor da minha parte e perdi a paciência discutindo picuinha no passado. Quem quiser que eu responda, pode me mandar um e-mail para bloglivrada@gmail.com, belezura?

Comentário final: 350 páginas na formatação padrão da Alfaguara. Afunda o crânio, capitão Glanton!

Alejandro Zambra – Bonsai

Sejam bem vindos, queridos leitores, a última resenha do mês do Livrada! Estou entrando em um recesso para dar umas bandas pela Europa. No próximo domingo eu estarei perdido pelas ruas de Lisboa e este será só o começo de um belo e merecido descanso, afinal, não é fácil ler um livro para vocês e dois livros para o meu trabalho toda semana, mas eu sou Brahmeiro! Quer dizer, eu não bebo nada alcoólico, mas ouvi dizer que isso é uma expressão para designar uma pessoa que mesmo fazendo algo imprestável e absurdo, não desiste de forçar a barra para as pessoas curtirem, como o Carlinhos Brown. Então, espero que compreendam, aproveitem esse tempo para, sei lá, aprenderem a fazer ikebana, ou, se estiverem com saudade do blog, ler alguns posts antigos – tenho certeza de que este blog ainda não foi desbravado em sua totalidade por vocês, tamanha sua extensão oceânica! Acredito que no dia 15 de julho estarei de volta. Se sentirem saudades, escrevam no bloglivrada@gmail.com.

Mas vamos mudar de assunto porque esse papo de despedida é chatão. Vamos falar de coisa boa, vamos falar da nova tekpix! Hohohohoho, mentira, vamos falar desse pequeno grande livro publicado pela Cosacnaify, o Bonsai. Então, logo logo julho tá aí, vai começar a FLIP, e como vocês sabem, eu sou de Paraty e quando vejo a cidade tomada por aquele povo, apenas uma música me vem na cabeça. E o pior de tudo é que enquanto neguinho vai estar se acotovelando para conseguir fungar no cangote do Le Clézio, passar a mão na bunda do Franzen e de outras estrelas da vez, um tal de Alejandro Zambra deve passar despercebido por, como Flavor Flav, não acreditar no hype. Pois este Alejandro Zambra, sujeito novo no auge de seus 30 e tantos, teve uma das melhores estreias literárias como romancista que alguém pode querer almejar hoje em dia. Foi este livro, que publicou em 2005, após publicar uns dois livros de poesia.

Falemos do interior, mas antes, deixe-me dizer algo sobre a extensão do livro, porque Bonsai é ridiculamente pequeno. É tão pequeno que se fosse um pênis, o autor só ia fazer xixi na cabine. Sério, é um desses livros que você lê numa sentada (“numa sentada”, longe de ter alguma conotação homoafetiva, é uma medida de tempo que só os bibliófilos entendem), pode pegar uma tarde preguiçosa, o recreio do colégio, pode ler na missa enquanto o padre fala, pode ler enquanto espera o ônibus que vai para o Cabral, pode ler enquanto assa uma pizza, enfim, é muito curto. E ainda assim, é muito complicado. Não complicado de ler, pelo contrário, é uma historinha singela e bonita que o cara fez aqui. O problema é a leitura mais densa do livro, que se faz por baixo de camadas e mais camadas de metatexto.

Bom, vamos lá, vejamos o que eu consigo me lembrar dele agora nesse estágio de torpor da madrugada. Bonsai conta a história de dois amantes, Julio e Emilia, dois estudantes de literatura que se conhecem, se amam, e leem livros enquanto se amam. Pra falar bem a verdade, eu estava com esse livro muito vivo na minha cabeça, mas agora estou lendo o livro novo do Eugenides e o universo é muito parecido, então temo dar uma de Pedro Camacho e começar a trocar as bolas. Perdoem-me por qualquer imprecisão, a cabeça desse velho não é mais a mesma.

De qualquer forma, rola que o casal curte ler uns livros entre uma bimbada e outra. E acontece de lerem um conto do Macedónio Fernandez chamado Tantalia, que é a história de um casal que compra uma plantinha para simbolizar o amor deles e logo percebem que se a tal da plantinha morresse eles iam ficar muito abalados, então colocam essa plantinha no meio de várias outras plantinhas para não saberem qual plantinha é qual e logo depois se arrependem de terem perdido a plantinha no meio das outras. Eu sei, eu sei, a gente se sente bem normal depois de testemunhar uma jaguarice dessas, mas veja que boa metáfora do que forçar a barra para zelar pelo amor. Enfim, reflitam sobre isso.

Fato é que esse episódio abala muito a vida do casal, eles terminam e a partir daí a história se desmembra em alguns raminhos, como de uma árvore pequena. É, como um bonsai, sabichão, mas não é por isso que o livro tem esse nome. Voltando: a mocinha sai de Santiago e vai morar na Espanha, antes dividia o apartamento com uma amiga gorda que casa com um gordo que dá em cima dela, enquanto isso o rapazote começa se tornar copista de um tal de Gazmuri, que escreve o livro na mão, e a partir disso ele começa a mudar o livro do cara a tal ponto de estar escrevendo sobre um bonsai e sobre a relação que tinha com Emilia. A escrever o conto de Macedónio Fernandez, enfim. Quer dizer: um cara escreveu um livro sobre um livro que um cara escreveu que foi lido por outro cara que reescreveu esse livro baseado na história desse livro que você está lendo. Holy macarroni.

Primeiro que é muito interessante saber que o Alejandro Zambra realmente curte fazer bonsai. Talvez tenha sido daí que ele pegou a técnica de podar o texto. Não podar para tirar as digressões, as palavras a mais como Dalton Trevisan (beijo, Dalton!) ou algo assim, mas no sentido de podar para colocar uma objetividade na narrativa não-linear de maneira que a seja possível obter uma única camada mais densa de leitura, e a partir dela, uma infinidade de interpretações que ficam por sua conta e risco. Mesmo assim, é muito fácil perder-se nessas interpretações e saber distinguir qual camada foi ele que construiu e quais foram você e sua cabecinha neurótica. O texto é lindo, é gostoso de ler, tem uma leve gagueira mental à lá Gertrude Stein, mas nada nem de longe irritante como ela. E nessa simplicidade, você mal consegue acreditar que há um gênio da linguagem te jogando para dentro de um labirinto circular de livros dentro de livros, mezzo Italo Calvino, mezzo Borges. Uma combinação explosiva, eu diria.

E é excelente que o Zambra faça isso em tão pouco espaço, é um daqueles livros que dá para ser discutido em clube do livro, sala de aula, o que for. É simples, prático, quem for burrinho não vai se sentir menosprezado porque é uma leitura tão democrática que todos conseguem apreciar um pouco, e nem pesa na bolsa. O poder de síntese hoje é facilmente confundido com preguiça, falta de obstinação, morte do grande romance, autorezinhos de bosta sem fôlego, mas não tenho dúvidas que nesse caso é puro talento. Aliás, acho que é uma coisa própria de quem faz poesia. O sujeito fica pensando muito em texturas e camadas que não desata a escrever catataus como os instintivos pouco intelectualizados (sem generalizar aqui). Ponto pro cara, acho que o fato dele vir é uma prova de que a FLIP não é só feita de rockstars afinal de contas. Ainda estão de olho em quem é bom independente de hype ou de momento. Boa, seu Zambra.

Esse projeto da Cosacnaify faz o livro parecer menor do que já é, com uma margem estratosfericamente grande e uma fonte miudinha, tipologia arnhem (alguém já ouviu falar dessa fonte?). O resto é aquela coisa da Cosacnaify, né? Designer que fica se coçando pra querer reinventar a roda e etc. Um livro lindinho como sempre, mas muitíssimo melhor no conteúdo.

Ah, sim, para quem estava esperando encontrar outra coisa aqui hoje: resolvi fazer o post dos autógrafos na volta. Por quê? Porque deu preguiça e tô pilhado com essa viagem, então vamos fazer com mais tempo. E se você ainda não mandou, pode mandar seus autógrafos favoritos para bloglivrada@gmail.com, contando a historinha de como ganhou ele do seu escritor ÍDOLO. Aproveite, gente!

Comentário final: 96 páginas pólen soft. Nem deixa marca!

Sérgio Sant’Anna – O Livro de Praga

Hoje é domingo, pé de cachimbo, dia das mães, todo mundo enchendo a pança em família e fazendo as mesmas piadas de “é pavê ou pá cumê” e “afinal, avó é mãe duas vezes”, enquanto têm-se a ligeira impressão de que mais um domingo acaba, mais um final de semana chega a seu ocaso e mais uma vez, os objetivos alcançados foram mínimos. Suspira conformado e vai para a cama esperar o começo de mais uma melancólica semana. Mas não tema, homem moderno e exemplo patético da herança orgânica da Terra, cá está o livrada para colocar mais miolos nos seus miolos e mais tutano no seu tutano. Sente-se, relaxe e aproveite mais esse livro do dia, quem sabe quando você chegar ao final você se anime a visitar uma livraria e comprar algo bonito para a sua estante e seu cérebro.

Bom, este é o penúltimo post antes das minhas tão merecidas férias, e fala logo sobre Praga, cidade que estarei visitando daqui a exatamente um mês. Por isso achei conveniente e vamos lá, é livro nacional, sempre uma boa pedida!

O Livro de Praga é obra do escritor Sérgio Sant’Anna, que obviamente já viu dias melhores na hora de bolar um título criativo. Sant’Anna fez parte do time da coleção Amores Expressos, do almighty Rodrigo Teixeira, da RT Features, produtora paulistana de qualquer coisa. Pra quem tá de bobeira, vou explicar: dezesseis autores viajaram bancados pela empresa para passar um mês em alguma cidade do mundo com a missão de voltar e escrever uma história de amor situada nessa cidade. Primeira consideração: vida chata, hein galera? Fala sério, ser chegado do Teixeirão aí é a maior jogada (me liga, cara, vamos jogar uma bola qualquer hora!) E isso prova que eu não teria o menor tino pra coisa, o santo aqui ia desconfiar dessa esmolada toda e não ia arredar o pé com medo de ter a alma roubada depois. Sério, gente, não me ofereçam dinheiro, morro de medo… Bom, de qualquer jeito, até o momento, sete livros já saíram pela Companhia das Letras: esse, o Cordilheira do Daniel Galera (Buenos Aires), , Estive em Lisboa e Lembrei de Você do Luiz Ruffato (Lisboa… dã), Do Fundo do Poço se Vê a Lua, do Joca Reiners Terron (Cairo), O Único Final Feliz Para Uma História de Amor é um Acidente, do João Paulo Cuenca (a vírgula se faz necessária aqui… Tóquio), Nunca Vai Embora, do Chico Matoso (idem… Cuba) e O Filho da Mãe, do Bernardo Carvalho (ibidem… São Petesburgo). A coleção prevê ainda livros do Lourenço Mutarelli sobre Nova York e um livro rejeitado de um gaiato de Goiânia que foi para São Paulo (o azarento da turma, provavelmente), entre outros. Olha, já vi ideias melhores para coleções literárias, e essa me parece a Paris Hilton das coleções literárias: perdulária, superficial e altamente desejada por fashionistas antenados nas tendências. Isso enquanto coleção, o que não quer dizer que, individualmente, a parada não guarde boas surpresas, como é o caso desse livro. Vamos a ele.

Sérgio Sant’Anna teve muito culhão pra fazer o que fez no Livro de Praga: pegou a grana que lhe foi dado, passou um mês usufruindo sabe-se lá de quais serviços do Leste Europeu e voltou não com um romance, mas com um livro de contos mascarado de romance e com um roteiro de filme pornô mascarado de história de amor, usando como pano de fundo a maior parte dos clichês da capital checa – coisa que uma semana na cidade ou duas semanas na Wikipedia resolveriam de forma igualmente eficaz.

O protagonista é um sujeito chamado Antônio Fernandes, um cara que guarda grandes semelhanças com o autor do livro à exceção do excesso de swag que lhe permite passar o rodo em Praga. Fernandes – olha só! – também está passando um mês em Praga a pedido de um ricasso para uma coleção literária. É, a imaginação do cara voou longe pra bolar essa história… O “romance” é dividido em vários contos e em cada um deles o herói Antônio Fernandes (que também poderia ter sido batizado Dirk Diggler) se envolve com alguma peripécia artística e sexual: numa hora é precisa desenbolsar uma bolada para ver e trepar com uma pianista reclusa e seleta, noutra descobre que um sujeito cafetina a irmã que tem tatuado um manuscrito inédito de Kafka no corpo, noutro compra uma boneca no teatro que ganha vida na cabeça dele, noutro ainda transa com uma santa fictícia num altar. Tudo no maior delírio, na maior loucuragem, na maior psicodelia libertina. O sujeito está em alfa, em nirvana, pra lá de Bagdá, viajando na maionese enquanto essas coisas acontecem nos seus sonhos diurnos. Cada uma das aventuras é um tipo de tara e um tipo de arte: felação e música, penetração e escultura, literatura e donkey show, sei lá, o cara vai misturando as taras da cabeça dele com as artes que vai encontrando.

E aí vai aquela coisa, aquela ambiguidade onírica gostosa: é sonho ou é realidade? É sexo ou é amor? É romance ou é conto? É arte ou charlatanismo? Você decide, você julga e você escolhe, porque a minha opinião está guardada na minha cabeça e se eu intercedesse nesse ponto eu interferirira da pior maneira na sua leitura: limando a sua imaginação e sua capacidade de julgamento e discernimento. Como eu não tenho cara de televisão, jogo pra galera.

Esse projeto gráfico é uma maravilha, faz todo mundo querer fazer a coleçãozinha, porque vem com um carimbinho e o público gosta disso: gotta catch ‘em all, mr. Pokémon. Essa capa é mais bonita que as outras, na minha modesta opinião, por ser menos pop, menos teen e menos hype. Papél pólen, fonte Electra e todo mundo fica feliz. Alright!

Eis os meus recados:

1-    Essa é a última quinzena para mandar seus autógrafos. Tô querendo fazer uma parada massa aqui e a galera não colabora. Não adianta nada ter dez mil acessos no mês e receber quatro e-mails, sejam participativos, colaborativos, sejam mais Che Guevara e menos “com 5 mil ‘curtir’ o médico vai fazer um transplante de rim pro labrador dessa garotinha com câncer”. Vamos lá, vai ser legal: envie fotos ou imagens scaneadas de seus autógrafos favoritos para bloglivrada@gmail.com

2-    Não sei se já viram, mas agora além de criticar livros, também critico hambúrgueres – um trabalho bem mais gostoso, vá lá. Se não conhece ainda, passa lá no Good Burger a qualquer hora e procure os meus textos, mas leia também os do Murilo, meu camarada que tampouco foge à luta.

3-    Já que nunca é pedir demais: curtam o Livrada! no Facebook e sigam @bloglivrada for more.

Comentário final: 144 páginas pólen soft. Voando daqui até Praga, uma porrada no orelhão do Kafka.

Hansjörg Schertenleib – A Orquestra da Chuva (Das Regenorchester)

Das regenorchesterUma das coisas mais legais que o wordpress já fez por nós, mortais blogueiros, foi colocar o pais de onde vieram as visitas. A gente se sente poderosão, recebendo leitores do mundo inteiro, até de uns lugares que eu, do alto da minha ignorância, nem sabia que existiam, como as Ilhas Virgens Britânicas e Guam. E a maior surpresa: os albaneses veem em peso para cá, atrás apenas dos americanos, dos portugueses e dos brasileiros. Quem diria… A internet é mesmo essa comunidade global de leitores, é tudo tão bonito, me sinto dando as mãos com o mundo num gesto bem nojeto, tipo daquele filme O Albergue Espanhol (já viram esse lixo? Espero que não…).

Pois muito bem! Schertenleib, já que o Jarobas botou pressão do tipo “inacreditável! Nenhum livro do Schertenleib por aqui”, como se a presença ou ausência do autor definisse a qualidade da nossa seleção. Bom, pra falar a verdade, eu não tenho completa certeza de que não define, então por via das dúvidas, eis aqui o último livro do suíço maconheiro que saiu no Brasil: A Orquestra da Chuva.

Primeiramente, há de se dar um crédito por esse título meio bucólico, meio ecochato, meio grandiloquente. “Então, o que você está lendo?”, “Ah, tô lendo A Orquestra da Chuva, do Hansjörg Schertenleib…”. Repare como a junção do título do livro com o autor passa rapidamente a ideia de que você na verdade está lendo “O sentido da vida”, por Deus Todo Poderoso, porque na nossa cabeça, quanto mais germânico soa um nome, mais bacanudo o sujeito deve ser. Por exemplo, Günter Grass é um prêmio Nobel com um nome mnemônico, G.G., sonoro, fácil de lembrar. Agora, Friedrich Nietzsche já é outro nível. Veja como é complicado! Veja o encontro entre as consoantes tzsch, que embaralha a vista de primeira, veja como não dá pra falar Friedrich sem parecer um pedantão formado nas maiores escolas de livres pensantes do universo. A mesma coisa acontece com Hansjörg Schertenleib – efeito que se estragaria de primeira se ele escrevesse um livro de nome prosaico, como “Julia” ou “A Casa das Mil Janelas” ou “O Ônibus da Madrugada”. O nome A Orquestra da Chuva, longe de ser objetivo, é enigmático, grandioso, sugere grandes insights e grandes obras primas contidas dentro de si. Se escolher o livro pela capa é algo moralmente condenável, tente escolher pelo título, pois. A Orquestra da Chuva passa nesse critério e o resultado é aprazível.

O livro conta a história de um escritor – escritor gosta de escrever sobre escritor como se escritores fossem a raça mais abundante desse planeta de meu Deus – suíço que migra para a Irlanda com a esposa, de mala e cuia. E acontece o quê? O quê? A mulé deixa o cara, muito provavelmente troca ele por um gigante irlandês do naipe do vocalista do Matanza. Então não só ele é devastado pelo abandono como também está num país estranho onde pouca gente fala alemão (ele é da parte da Suíça onde as pessoas falam alemão… deve ser a parte mais nojentinha da Suíça), onde não conhece ninguém e por aí vai. É nessas que ele conhece a Niahm, uma moçoila velhinha e meio louca que na minha cabeça tem a cara daquela senhorinha dos pombos do Esqueçeram de Mim 2 – Perdido em Nova York. Ela começa a encher o saco dele para que ele escreva a história da vida dela, porque fica sabendo que ele é escritor, e ele, pra ver se matava o tempo e superava a dor de cotovelo, resolveu aceitar. E é aí que ele vê que a história dele é pito perto da história da Niahm. Não só ela também foi abandonada em um país estrangeiro como também foi largada sem dinheiro, grávida e cheia dos perrengues por um ricão que lhe prometeu juras infindadas de amor – o tipo do papo que toda gatinha já deve ter ouvido de um canalha que só queria dar uma comida em alguém, e até aceitado dependendo da carência ou da inocência.

Paralelo a esse processo – e aqui as duas narrativas se alternam ao longo do romance – o protagonista, cujo nomes já esqueci, tenta encontrar meios de superar a mulher. Veja, o cara não está mais naquela idade de que cura pé na bunda com night, balada, putaria, stronda, etc. Ele tá numa daquelas que já sabe que virou a curva da meia-idade e quer só encontrar alguém pra não morrer sozinho. Então começa a levantar a moral com positividade: volta a ouvir a música de Bob Marley e volta a fumar maconha – algo que pode basicamente ser enquadrado no complexo de sintomas comumente chamado de “a idade do lobo”. Mas também frequenta um grupo de solteiros abandonados para ver se supera a dor, enfim, só faltou mesmo fazer igual a um personagem do Houellebecq e se mandar para um acampamento espiritual.

Mas no final, o que importa mesmo é que ele supera a dor de ter sido deixado sozinho, sem a ajuda de nada disso. Uma parada do tipo don’t worry about a thing because every little thing is gonna be alright, man. E é isso que eu acho que é o ponto central do livro: como a vida da gente se resolve sozinho e como o que a gente tenta fazer para consertá-las não é nem de longe equiparável à força do tempo. Tão pequenos nós somos como humanos e tão impotentes, incapazes de lidar com nossos próprios problemas e incapazes de nos perceber incapazes. Tá, sei que essa não é a resenha mais engraçada que eu já fiz, mas o Livrada! é fiel ao estado de espírito do autor a cada dia, e nem sempre eu me sinto engraçadão, e acho que essa parada de superar o pé na bunda um assunto sério do qual muita gente já experimentou e buscou literatura especializada para tentar superar também. Então, taí, pra quem foi chutado, Schertenleib é o equivalente literário de se escutar Reginaldo Rossi (ou Leonard Cohen, se você gostar mais de sofrer em inglês).

A escrita do autor é o que a gente pode considerar “hum… normal”. O cara tem lá seus momentos esporádicos de genialidade, mas no mais, a voz é tão genérica quanto a próxima: uma prosa bonita e nada mais.  É difícil pra mim conseguir enxergar estilo em autores que escrevem em alemão, a menos que seja um Kafka da vida. Acho que passa muito pela tradução, mas quem sabe o cara tem uma escrita fenomenal e aqui não passa mais do que um “… meh…”

Esse livro foi editado pela Grua Livros, uma editora pequena e jovem, que já tinha publicado outro livro do Schertenleib, Os Inomináveis – que, ao que parece, é mais representativo da obra dele.  O projeto gráfico da editora é bem legal, papel pólen e uma fonte bem confortável de ler. Infelizmente, não vou poder acrescentar mais detalhes porque não tenho o livro aqui comigo, então acreditem apenas na minha palavra de que é legal e se quiserem, leiam o Schertenleib, que pelo menos tirar uma ondinha de ler autor de nome complicado vocês vão.

E já falei, já pedi e agora estou implorando: mandem suas fotinhas de seus autógrafos favoritos para bloglivrada@gmail.com, para a nossa próxima sessão de hábitos de leitura. Serião, gente, vai ser legal, manda aí.

Comentário final: 248 páginas em papel pólen soft. Uma catapimba no seu cocoruto, e um brinde às gírias idosas!

Ps: No post anterior, sobre os dois anos do blog, pedi que vocês divulgassem para quem pudessem o Livrada!. Gostaria de agradecer a todos pela gentileza, esta foi a semana mais visitada da história do blog! Continuem, se quiserem, é claro!

Yu Hua – Viver (活着)

Primeiro de abril. O dia da mentira. Por que diabos a mentira tem um dia? Não fui correr atrás da história, que tenho certeza ser embasada em inocentes ou boas intenções, mas o fato é que mentira, para os que dividem o mundo em dois pólos, faz parte do lado negro da força. E talvez seja o único lobo em pele de cordeiro que abraçamos no nosso calendário e ainda permitimo-nos com isso velejar pelas águas maléficas daquela que tem a perna curta. Ora, por que não inventar um dia do estupro e estuprar a torto e a direito? Um dia da inveja para cometermos o pecado capital mais capital que existe? Um dia da calúnia para denegrirmos o próximo? Um dia do D.U.I. para matarmos pedestres como filhos de celebridade? Não? A mentira é uma coisinha boba de nada? A mentira de Orson Welles lendo H.G. Wells no rádio não foi coisa boba, a mentira de Judas criou uma religião e a mentira de George W. Bush colocou um país em guerra. Lembrem-se disso, abracem a culpa. Cilício na coxa de todo mundo hoje à noite!

Ok ok, vamos parar com a brincadeira e mandar o recado sério: tem em casa algum livro autografado de uma maneira especial, ou com uma história boa por trás do autógrafo? Mande uma foto para bloglivrada@gmail.com contando um pouquinho da saga dele, que vai ser legal. Os primeiros e-mails já chegaram. E você? Vai ficar de fora? (tosqueira publicitária que se infesta no nosso piloto automático).

E vamos ao livro de hoje, porque hoje tem livro que presta. Yu Hua, esse chinês maluco, é a minha mais nova grande descoberta literária. Onde eu estava quando seus livros saíram? São tristes, maravilhosos, viciantes e acachapantes! No começo do ano havia lido Crônica de um Vendedor de Sangue e, impressionado com a leitura, resolvi correr atrás desse que disseram ser um dos grandes clássicos dele: Viver, que foi adaptado para o cinema em 1994 sob os cuidados de ninguém menos do que Yimou Zhang – que ficou mais conhecido por dirigir filmes de espadachins voadores do tipo Herói e O Clã das Adagas Voadoras.

Sabe aqueles elogios rasgados que as editoras colocam na capa na vã esperança de que alguém olhe e pense: “Nossa, se a Nesweek falou que é surpreendente, brilhante e arrebatador, então deve ser bom mesmo. Vou comprar”? Pois bem, o desse livro, assinado misteriosamente pelo Washington Post (o autor pouco importa, né? Pode ter sido o comentarista esportivo) diz “Nesta história de luta e sobrevivência, Yu Hua cria imagens inesquecíveis”. Pois o sr. Washington Post não poderia ser mais certeiro em seu comentário. Viver é sobre isso, sobre imagens inesquecíveis que vão te dar um aperto na boca do estômago a cada vez que você se lembrar delas.

A história é a seguinte: um sujeito passa pela zona rural da China coletando causos, músicas populares, enfim, um desses carimbós com os dois pés enterrados na lama do regionalismo querendo resgatar a memória sertaneja, coisa e tal. Nessas, encontra um velhinho tomando conta de um búfalo igualmente velho, e o velho resolve contar a história da vida dele. E aí senta que lá vem estória: está no ar um clássico romance de formação, da infância até a terceira idade.

O velho em questão é Fugui, o filho perdulário de um próspero, mas igualmente perdulário latifundiário (ários, ários, ários). Fugui não quer saber de estudar e quando cresce, só sabe perder dinheiro na jogatina e maltratar a esposa, até que perde toda a propriedade do pai na mesa de dados, e aí precisa virar um homem da roça. O pai do rapaz, coitado, morre de desgosto e a mulher vai pra labuta diária, mesmo grávida. Até que um dia a mãe de Fugui cai doente e ele precisa ir à cidade buscar remédios pra ela. Pois não é que quando ele chega lá, é “recrutado” à força pelas tropas do general Chiang Kai-shek e levado ao campo de batalha. A partir daí, filhão, é ladeira abaixo nas tristezas da vida. Manja aquele bordão que diz que nada é tão ruim que não possa piorar? Esse livro comprova essa máxima ao máximo! Contar mais do que isso é muito spoiler, mas digamos que Fugui e sua família enfrentam a partir daí todos aqueles anos críticos da história da China do século 20: o grande passo adiante, a revolução cultural, e etc. Exatamente, o mesmo período de tempo de todos os romances de Yu Hua.

É tão legal quando um escritor se obceca com algum período ou algum tema e não se torna um panfletário chatão (como meu querido Spike Lee chega a ser algumas vezes). Gosto de pensar que em algum momento, todos os personagens de Yu Hua se encontraram ou se viram na rua em algum momento. Todos compartilharam os mesmos perrengues, só que em situações diferentes. E eu acho que a principal mensagem que o autor passa com essas histórias é que na China a vida é difícil, mas aí vem o governo e torna ela dez vezes pior. Tomemos como exemplo o episódio conhecido como O Grande Salto Adiante, quando a China resolveu industrializar as cidades e socializar o campo, e as pessoas tiveram que doar seus woks (aqueles panelões de fazer yakisoba) para fundir o metal e construir material bélico e fábricas e vinte milhões de chinas morreram de fome no final dessa brincadeira. A China, antes de ser comunista, é liberal porca (liberal no sentido brasileiro da palavra), trabalhando às custas da população e tudo mais, mas o episódio dos woks marcou mesmo Yu Hua, porque ele fala disso sempre que pode. A mensagem é clara: mesmo tirar a ferramenta que produz o alimento de uma família é algo a que o governo não se furta quando o assunto é passar a frente.

Ao mesmo tempo, a vida tem seus percalços e seus mistérios. Uma doença, uma falha no caráter, um alinhamento errado dos planetas que faz pequenas cagadinhas se juntarem numa cagadona, quem nunca passou por isso? Uma análise matemática do livro vai mostrar que exatamente a metade dele é arruinada pelo governo e a outra metade é arruinada pela falha de caráter das pessoas e problemas de saúde/casualidades. Quando eu digo que o livro é arruinado eu quero dizer que a trama, que teria tudo para ser bela e redentora e acaba sendo uma desgraceira que só. Sério, galera, Viver é a parada mais triste que eu já li em anos, e olha que eu leio livro tiste quase todo mês. Acho que em mateira de sofrimento e desespero, nem Kafka chega perto desse chinês aí da foto (na verdade posso ter pego a foto de outro chinês, não saberia dizer, todos se parecem pra mim). Não posso contar o porquê porque estragaria o livro, mas dá vontade de levar esse cara pra dar uma volta na roda-gigante pra ver se ele fica mais numa nice. Eu estava esperando algo mais na linha Morte e Vida Severina, Vida e Época de Michael K, mas Viver ultrapassa a barreira do suportável para qualquer personagem de qualquer livro.

Esse projeto gráfico da Companhia das Letras destoa dos outros dois livros do autor publicado por ela. Mas, por outro lado, esse foi lançado primeiro, e acho válido pensar em novas formas para o livro quando se pretende lançar mais títulos. Mesmo assim, fonte Electra, papel pólen e uma linda foto de capa, mascarado pelo Azul Incomodante #3. Diferentemente do Crônicas de um Vendedor de Sangue, esse livro foi traduzido diretamente do chinês pela nossa heroína do dia, Márcia Schmaltz. Todos os respeitos prestados à sra. Schmaltz! E ficamos por aqui. Perdoem-me se a resenha não estava tão boa como de costume, mas a vida tem dessas. Às vezes somos felizes, às vezes não.

Comentário final: 210 páginas em papel pólen soft. Alimenta um urso Panda por algumas horas.

Don DeLillo – Cosmópolis

cosmopolisNunca vou me esquecer de que comecei a ler Don DeLillo graças a um leitor do meu blog que decidiu deixar a sugestão ali, como quem não quer nada (“Já leu Don DeLillo, Yuri? Acho que você vai gostar dele…”, dizia o sujeito que nunca mais se manifestou). Que acertada decisão a desse cara, mal sabia ele que pouco menos de dois anos depois, Don DeLillo seria um dos meus autores favoritos. E vou falar hoje de Cosmópolis ao mesmo tempo em que lhes digo o porquê desse meu bom gosto, que só é comparável ao gosto musical do dono desse computador… epa.

Bom, Cosmópolis é, como todo bom livro do Don DeLillo, uma historieta com tons assim meio de alegoria, meio de hipérbole, meio de crítica à pós-modernidade. Sabe, eu já curto uns caras que batem na mesma tecla de maneiras diferentes – dependendo da tecla, obviamente, porque seguidor o que tem de seguidor de Bukowski por aí já deu pra cabeça, né? O cara é obstinado em esfregar na nossa cara como esse mundo é ridículo e, cara, ele faz isso como ninguém. Sério, eu espero que nenhum Yuppie jamais leia Don DeLillo, deve ser uma porrada na cara muito grande. Por outro lado, não vejo por que algo assim aconteceria.

Antes de mais nada, talvez vocês já saibam disso, Cosmópolis vai virar filme, estrelado por ninguém menos do que o Vampiro Crepúsculo (sei lá o nome dele, acho que é Robert ou Edward, não sei, as pessoas chamam tanto ele pelo nome do filme quanto pelo nome real que já não sei mais qual é qual). E aí vocês podem dizer “mas, meu Deus, esse cara é uma porcaria de ator, é um babacão, um paspalho, um babanacho, etc”, e eu digo, calma porque tudo se explica.

O protagonista em questão é Eric Packer, um jovem de idade indefinida (acho que ele fala em algum momento que tem 28 anos, ou 38, mas não dá pra confiar em nada do que ele fala. Bom, a julgar pela minha precisão, não dá pra confiar em nada do que eu falo também, mas vem comigo que o babado é certo). O cara é nada menos do que um bilionário que ganha dinheiro só com especulação financeira. Ou seja, compra coisa ali, vende coisa acolá, mexe nuns números e faz fortuna. O que é a típica profissão pós-moderna, em que o acúmulo de capital é um fim em si mesmo e não consequência de qualquer trabalho ou contribuição social. Quer dizer, é o outro lado dessa geração da qual eu faço parte que faz o oposto: uma porrada de coisa de graça com nenhum propósito. É neguinho fazendo videolog, banda ruim, história em quadrinho, blog de crítica literária, tudo pra morrer pobre. De qualquer jeito, o cara é um babacão podre de rico, um paspalho, um babanacho e agora vocês já tão achando maldade da parte do Cronenberg em chamar o vampiro pro papel principal.

O livro se passa todo ao longo de um dia na vida de Packer, que mora em Nova York. E ele acorda querendo cortar o cabelo numa barbearia que fica do outro lado da cidade e, pra piorar, o presidente dos Estados Unidos tá na cidade. Pra quem não sabe (e isso o livro não conta e você só aprende aqui no Livrada!), há uma política de restrição trafegaria nos Estados Unidos – cujo nome me escapa completamente, se alguém souber, por favor, me tire desse estado de curiosidade – que diz que quando o presidente está visitando alguma cidade e ele passa de um lugar para o outro, o trânsito inteiro naquela rota é paralizado. Nem preciso dizer o inconveniente que isso causa para o trânsito da cidade inteira, mas o playboyzão não tá acostumado a ouvir muitos nãos e parte para um dia inteiro de engarrafamento.

Para sorte dele, a limusine estendida do rapazote é blindada e equipada com tudo que ele precisa para trabalhar. Computador com internet, sofás, celulares, até um pequeno centro médico que ele usa para fazer seu check-up diário com um médico que vem encontrá-lo assim mesmo, no meio do engarrafamento. E aqui temos já a segunda grande sacada do autor: ora, que tipo de idiota instala uma porrada de utilidades e facilidades num carro espaçoso e desajeitado que fica a maior parte do dia no engarrafamento? Já viram algo assim antes, tipo, em qualquer lugar do mundo? Sério, como diria o Fábio Jr no Bye Bye Brazil, “como nóis era ignorante!”. Rapaz, bota um homem da renascença pra ver o que a gente vê todo dia e ele vai dizer sem pestanejar que esse é um mundo de loucos. A nossa vontade de ganhar tempo supera nossa vontade de não perder tempo de maneiras que nossa imaginação não é nem capaz de assimilar! Assustador sim, mas real.

E não só o médico dele aparece e entra no carro, estende uma maca e faz um exame proctológico no cara como se fosse a coisa mais normal do mundo, mas também seus outros asceclas aparecem para dar um alô e atualizá-lo sobre os negócios. O plano do dia é comprar iene, a moeda japonesa, até que ela comece a baixar. Faz sentido? Não fez pra mim, mas também que sei eu dessas porras? Soubesse e não tava aqui escrevendo esse texto, estaria no camarote da Brahma ao lado de Bruno Gagliasso, Bruno de Lucca, Bruna Lombardi e Bruno Chateaubriand cantando “E vai rolar a festa”, ou qualquer outra coisa que os ricos fazem para se divertirem. O problema da história é que o momento que todos esperam, o momento do iene começar a baixar, está se demorando, e já tem gente suando frio pela testa. Entre a visita de um consultor financeiro, um aspone qualquer e um técnico não sei das quantas, você já percebe uma outra parada: TODO mundo que trabalha para o sujeito tem nome estrangeiro. Um japa ali, um checo aqui, um indiano acolá, o quão típico da cultura americana é isso? Importar mão de obra competente para manter o sistema criado por incompetentes no próprio país, do tipo “tá, construímos isso aqui sem a menor ideia do que estávamos fazendo, vamos agora chamar quem sabe pra manter isso de pé”. Ai ai, Don DeLillo, o sr. é um fanfarrão mesmo.

E aí vemos as coisas como elas realmente são: Packer está casado com uma moçoila a poucos dias, uma poeta igualmente milionária que é enjoadinha na cama, mas que de alguma maneira amarra o inamarrável ali. Além de ter que lidar com a esposa que regula mixaria e o iene que não baixa (sem nenhum duplo sentido), o bilionário descobre ainda por cima que sua próstata está irregular. O que isso quer dizer? Ninguém sabe, mas não importa, está irregular, e irregularidade na vida perfeitinha e controlada desse cara é um furo na muralha da represa. O corpo humano é o calcanhar de Aquiles de um poderoso desse naipe, rendido às fraquezas fisiológicas, arruinado pela perecibilidade do próprio corpo, etc. O cara tem aí um pré-câncer ou sei lá o quê, fato que é o bastante para finalmente jogar luz sobre a maneira que ele leva a própria vida. O problema é que um cara desses não tá nada acostumado a pensar nada sobre esse assunto, e aí, catástrofes acontecem. CATÁSTROFES, sério. Vai por mim.

Cosmópolis é um livro exagerado e genial, como todo livro do Don DeLillo, e mesmo as partes mais idiotas guardam discussões profundas e frases de efeito engraçadas, tipo uma mulher falando “eu comecei a fumar com 15 anos. É isso que meninas magras e bonitas fazem nessa idade, para mostrar que existe algum drama em nossa vida”, putz dorme com essa, Brasil! Poderia citar outras coisas assim de memória, mas temo que isso só tiraria a graça da leitura desse livro que eu, sinceramente, espero que vocês leiam.

E esse projeto da Companhia das Letras? A capa é esquisita? É. Parece que foi feita em 1991? Sim, mas o conteúdo é o que vale. Papel pólen e fonte Electra pá deixá as quiança feliz e, pelo menos o meu exemplar veio com uma brochura muito bem feita. Não tem muito mais o que falar, a não ser uma última coisa, que já está virando tradição aqui, mas como em time que está ganhando não se mexe, vou repetir: Gente, curtam a página do Livrada! no Facebook! Desde o último post, uma cambada de gente se juntou a nós, vem também!

Ah sim, uma última coisa: vocês têm dedicatórias (autógrafos) de autores que sejam legais? Manda pra mim, no bloglivrada@gmail.com, vamos fazer um post sobre isso!

Ah, pra deixar oficial: agora, além de crítica de livros, também faço crítica de hamburguer. Passa lá no Goodburger qualquer hora!

Comentário final: 197 páginas pólen soft. Melhor ler do que tacar em alguém, mas se a oportunidade surge, é preciso aproveitar.