Anna Funder – Stasilândia (Stasiland)

Oeoeoeoeoeoeoe bumbabumbabumbaê (bumbabumbabumbaê). Rá, te peguei, não estamos na banheira do Gugu, estamos no Livrada! o seu espaço quinzenal de crítica literária rasa, rasteira e desprezível. Olha que legal: hoje todo mundo acordou com seus comentários devidamente respondidos (parece que deu problemas em alguns, mas vou esperar pra ver se entra ainda. Caso contrário, respondo de novo). Juro que dessa vez vou tentar manter todo mundo com minha abalizada tréplica, mas vai ter que ser a partir da semana que vem, porque nessa semana estarei em Passo Fundo, tchê, para ver a Flip gaúcha (uma pérola do Cone Sul, pelo que ouvi). Fiquei sabendo que no Rio Grande não se diz o nome de algumas cidades sem seguir de um tchê, então: Passo Fundo, tchê, aí vamos nós.

Antes da resenha, duas coisitchas: a primeira: mandem-me e-mails ou comentem na página do facebook do Livrada os blogs que tem o Livrada! linkado, por caridade.

A segunda é a história do valter hugo mãe ter lido a minha resenha, já que fui assediado e coagido a contar a história. É o seguinte: pra fazer isso vou precisar da autorização de uma certa leitora, responsável pelo caso, já que contar a história com meus dotes humorísticos poderia incorrer no crime de difamação. E Deus sabe que não quero difamar ninguém, apenas ser feliz e andar tranquilamente na favela onde eu nasci. Então, dona leitora, que me diz: depois do imbróglio, aceita a brincadeira? (Aceita! Aceita! Aceita! Todos gritam em coro).

Bem, vamos lá: Stasilândia, essa maravilha de livro que ganhei da Carlinha, essa maravilha de pessoa, no começo do ano. Parte da coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras, Stasilândia não é um clássico do gênero, como a coleção geralmente demanda, mas um livro relativamente novo, ousado na sua forma e de uma autora pouco conhecida.

A australiana Anna Funder, essa pantera de meia-idade (essa foto peguei do Feice dela, a gente é amiguinho, tá?) é uma jornalista e advogada que tem uma relação muito próxima com a Alemanha, mas que não me atrevo a contar porque já é altas horas da madrugada e temo confundir a história da Anna com a história da Alison Entrekin, outra australiana, tradutora do português para o inglês. É, amigos, eu não bebo, mas também não raciocino direito num sábado à noite. Melhor assim, essa vibe Bukowski tomando Kronenbier reina nesse blog faz tempo, e não se mexe em time que está ganhando.

De qualquer jeito, a Anna queria explorar uma história pouco conhecida para o mundo até então: como funcionava a Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental que vigiava tudo e todos com um sistema maluco de vigilância (olha eu aí repetindo palavra… que soninho). Ela se deu conta disso quando um telespectador escreveu para um programa de TV em que ela trabalhava na Alemanha, reclamando que o mal da história é a demora para que o assunto comece a ser falado e discutido, como foi o caso do nazismo. Pra piorar, o assunto era de pouco interesse mesmo entre os próprios alemães: primeiro porque, por alguma razão explicável apenas com ratinhos de laboratório, os alemães do ocidente não têm lá muito respeito pelos do outro lado, os ossies, e isso não vem do lance deles não trabalharem depois que o muro caiu. A pendenga parece que começou cedo. Enfim, vai entender. A segunda razão é que alemão sofre desse mal que é esconder as merdas feitas do mundo, como se ninguém visse. Sabe quando a Angelina Jolie deu uns amassos no próprio irmão e depois foi pra África adotar crianças, achando que fugindo do continente ela poderia fugir também da verdade? É mais ou menos por aí, a Alemanha é uma Angelina Jolie que foi flagrada passando a mão na bunda do John Voight. Então esqueçam o nazismo, a Stasi, a silésia, a Alsácia-Lorena, o Gengis Khan (a banda, mongol, não o mongol), o Lou Bega, o Sig Sig Sputnik, esqueçam todas essas coisas escrotas e vejam aqui o Schuma, a Oktober, os carrões, as lindas tirolesas, o Günther Grass, o Marx, o Nietzsche, o Einstein, o Beethoven, etc. É assim que o país opera. O que mais explicaria uma gatinha tão incompetente no poder quanto a Angela Merkel?

Foi aí que Anna Funder começou a buscar histórias de fulanos que foram perseguidos pela Stasi, presos, torturados, mortos. Mas não só isso: ela também achou ex-agentes, militantes, enfim, todo mundo que já teve alguma coisa com a farofada entrou no balaio das fontes. O resultado é esse livraço, pouco conhecido, mas unanimidade entre quem leu. Contando tudo de uma maneira pessoal, narrado em primeira pessoa, Anna faz a reportagem e o making of ao mesmo tempo. É como ver o Profissão Repórter, só que muito melhor por razões óbvias (tá, nem tão óbvias assim, mas tô com sono e meu braço direito começou a doer. Espero que não seja infarto, mas se for, vou botar a culpa em vocês, seus lindos).

O livro revela detalhes interessantes sobre os métodos de vigilância e interrogatório da Stasi, como o banco de cheiro, coletado a partir do assento do banco em que os interrogados se aboletavam, e eram obrigados a permanecer com a mão embaixo da bunda, pra suar no paninho (é, também me pergunto o que passa na cabeça dos alemães, esse povo não pode ser muito normal). Também mostra o como o sistema era absurdamente grande: 1 agente da Stasi para cada 63 habitantes. Pra quê Big Brother, amigo? Entrou no elevador, tem um Stasi ali. Chegou no Bob’s (porque comunista não come Mc Donald’s, então deve comer no Bob’s porque Giraffas ninguém agüenta), tem um Stasi lá fritando batatinha pra você. Isso sem falar nos grampos e escutas em residência, tudo montado com a conivência dos habitantes, que eram uma espécie de fiscal do Sarney só que com alguma coisa na cabeça: tirar o próprio da reta. Sabe aquele capítulo do Chapolin que ele procura microfones em cascas de banana e abajur? É mais ou menos por aí.

Mais tarde, o assunto de Stasilândia virou o premiado filme A Vida dos Outros, que ganhou o Oscar (ganhou, né?) de melhor filme estrangeiro, com o maravilhoso ator Ülrich Muhe como o agente da Stasi bonzinho – uma contradição, segundo Anna, que fez essa e outras críticas ao filme. Mesmo assim, vale a pena ver, mas é mais legal de vê-lo depois de ler o livro. É um choque ver aquilo que está escrito sendo encenado, dá um gosto da realidade que chega a ser palpável. Na época, inclusive, interessei-me demais pela cultura alemã e devorei os filmes que achei pela frente. Até hoje, Michael Haneke é o meu diretor favorito (embora seja tecnicamente austríaco. Mas é igual falar que paraguaio e uruguaio são povos diferentes).

Essa coleção é boa, é bonita, o livro é legal, bla bla blá, não vou mentir. Tô com sono e quero cama. Rá, aposto que o crítico literário da Veja não tem essas liberdades. Não é só um dinossauro que seu dinheiro não pode comprar, Sr. Todo Prosa cujo nome eu esqueci mas cujo rosto aparece-me nos pesadelos.

A propósito: minha gloriosa banda fez uma música em homenagem à Stasi e em homenagem à Intolerância à Lactose, uma condição séria que acomete muitos brasileiros e brasileiras, tudo isso na mesma música. Laktostasi, a Stasi da Lactose, é uma música tipicamente alemã cuja letra é uma lista de coisas que não se pode comer com esse problema. Você pode vê-la em sua primeira versão tosca, quando ainda se chamava Laktonazi, aqui:

Comentário final: 375 páginas de papel pólen soft. Leiam e só me acordem quando terminarem de ler.

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Rubem Fonseca – José

Antes de qualquer coisa, deixa eu dizer que sou um grande fã da obra de Rubem Fonseca como um todo.

O que não quer dizer que eu não sei reconhecer um livro ruim de um autor que eu gosto muito. Pelo contrário, a discrepância salta aos olhos. E é sobre isso que vamos falar hoje. Vencendo na Vida com Yuri: Quando um autor te desaponta – uma palestra motivacional por Yuri Raposão.

Vá, não é como se o Rubem Fonseca tivesse a obrigação de nos entreter e atender às nossas expectativas. Também não é assim. Mas acho que o mínimo que o gajo poderia fazer é manter um padrão ISO 9000 com sua própria obra. Ninguém se preocupa em manter um padrão de qualidade mais? Onde está a Kylie Minogue hoje em dia? Onde está o Gabo? Onde está Kevin Smith? Onde está Tim Schafer? Onde está a United Colors of Beneton? A Reebok? O futebol brasileiro? O cinema iraniano? O circo do Marcos Frota? Gente, a lei de mercado é simples: se a qualidade cai, é cartão vermelho e chuveiro mais cedo. Vira passado, kaputt, finito, ostracismo, obliteração, mansão Foster, SBT, CNT, geladeira do Projac, balaio de livros por 9,90! Tô falando grego?

E foi isso. Quando Rubem Fonseca saiu da Companhia das Letras por conta daquele rolo da escritora na caixa de vidro, a gente levantou uma sobrancelha. Quando ele lançou O Seminarista, a gente levantou a outra. Aliás, alguém me explica essa parada de lançar livro com título de clássicos, tipo esse ou o Aleph do Paulo Coelho? Qualé, posso colocar o nome do disco da minha banda de Dark Side of The Moon agora? Agora vale tudo, é oba-oba, casa da mãe Joana isso? Reverência sobre as coisas sagradas, irmãos, uma valiosa lição ensinada pelos cavaleiros Templários para esse mundo. Resumindo: arrume outro título!

Onde parei? Ah sim, nas duas sobrancelhas levantadas. Aí, quando a gente já tava meio bolado com esse papo todo, surge o quê? José, essa novela autobiográfica que, arrisco dizer, talvez seja o livro de memórias mais chato que eu li desde Minha Luta Pela Rússia, do Boris Yeltsin (não me julguem e não julguem a minha estante!). Papo sério, molecadinha, o que esse grande escritor fez nesse livro o vírus do parasita do cocô do cavalo do bandido desenhado na areia dura por um bebê etíope com bosta de vaca anêmica também seria capaz de fazer. E vamos dizer o porquê.

José, que é o primeiro nome de Rubem Fonseca para quem não lê a Wikipedia todo dia, narra os primeiros anos do autor. Da infância aos vinte poucos anos. E bem, o que há de interessante nas primeiras três décadas de qualquer vida, exceto a do Michael Jackson e da Anne Frank? Pouquíssima coisa, caro, pouquíssima coisa. E é esse pouquíssimo que ele explora.

Com um estilo de escrita sofrível, digno de um autor que manda imprimir 3 mil cópias na gráfica de seu próprio livro de contos que fala dos encontros e desencontros do cenário urbano em situações rotineiras,Rubão fala da sua formação de leitor, de seus anos de moleque no Rio de Janeiro da época pré-garota de Ipanema, enfim, uma porção de assuntos que não empolgam ninguém a não ser quem também viveu a época ou, sei lá, está preparando um E! True Hollywood Story para ele. Sério gente, mais critério na hora de escrever um livro de memórias. “Ah, eu tive um cachorro uma vez…” Não! Chega de história cachorro! “Ah, eu mudei muito de cidade…”, “Eu fui o primeiro atleta a…”, “Eu fui menudo e assumi minha pegada homoafetiva…”, “Eu tive um blog de crítica literária…” Não, não, não e não! Critérios! Critérios, por favor! Escreva só se a história for boa, e não tente florear porque a gente vai saber. No máximo, se você acredita que rende, negocia o projeto com o Ruy Castro. Ele sabe contar.

Falando em Ruy Castro, parte do livro (a maior parte, eu diria) é permeada de ensaios históricos sobre o Rio de Janeiro e outras histórias do Brasil. A maioria delas já foi contada pelo Ruy Castro no Carnaval no Fogo, um livrinho que é um livrasso e quem não leu pode começar lendo a resenha que fiz dele há mais de um ano atrás. Que boa maneira de enrolar umas páginas, hein? A história propriamente dita só começa quando o livro já tá acabando. É como assistir Matrix: uma hora e meia de explicação e 30 minutos de porradaria. Com a diferença que toca Rage Against The Machine no final do Matrix, então você sai feliz. No caso do livro, foi um mal negócio.

Agora, andei lendo por aí, graças a um link que nosso camarada e leitor Raphael Pousa me enviou, que classificava o livro como uma “autobiografia não-autorizada”, que seria um gênero novo e que isso valeria o livro. Não-autorizada é algum órgão do meu corpo de óculos. É autorizada até demais. Céus, que bicho travado para falar de si próprio. Omite várias coisas dizendo que “não quer falar sobre isso no momento” ou “melhor não citar o nome verdadeiro do fulaninho”. E o que é pior: narra em terceira pessoa. “José prefere não falar disso agora”. Quem é esse José que não prefere falar isso? É algum amigo do espírito Lucius? Esse lance de falar de si na terceira pessoa só funciona com o Tezza e com o Pelé, amigo. Nesse livro o malabarismo de personas parece psicografia das brabas, feita com muita vela preta e Pirassununga 51. Vergonhoso, moço.

E a escrita! “O único luxo da família era devido à saúde da sua mãe. Ela tinha que comer frutas, peras e maçãs, e estas eram importadas, já que não havia nacionais e se havia eram intragáveis. Como a sua mãe não podia comer as cascas, estas eram dadas aos filhos, um verdadeiro regalo, que era brindado com equanimidade para os três filhos” Vamos lá, jogo dos sete erros estilísticos nessa frase. Começo dando duas dicas: regência e repetição de palavras. Mais duas? Redundância ambígua e zeugma mais mal construído do que o Palace II. Até a cobrinha verde do Word aponta erro aqui, não tô mentindo!

 Serião, se você achasse esse livro sem capa, a quem você atribuiria uma frase assim? A Rubem Fonseca, gigante da literatura brasileira, autor de livros foderosos como Agosto e Buffo//Spalanzani, ou a Zé-das-Couves, o simpático vendedor de hortifruti que vende chuchu pra sua avó e que quer ser o novo Gabriel Chalita em um projeto literário diletante e desesperançoso? Pensa aí.

E esse projeto da Nova Fronteira vai ser analisado outra hora. Primeiro quero saber: por que diabos a coleção do Rubão passou da Agir para a Nova Fronteira? E segundo: quem foi o estagiário que deixou esse livro passar? Na minha época, editor dava uns toques, corrigia algumas coisas, sugeria umas alterações, tudo para o escritor não se queimar e para a editora não levar o descrédito de publicar um livro ruim. Mas acho que como para o Rubem Fonseca, para mim também passou a época de ouro, onde tudo era mais bonito e digno.

Rubem Fonseca, se o senhor ler isso algum dia, espero que me perdoe por alguma ofensa ou exagero que possa ter cometido. Mas também espero que entenda que esse livro, em sua qualidade, é um tapa na cara de todos os seus fãs. Grato. (Ando esperto com isso desde que o valter hugo mãe leu minha resenha).

Comentário Final: Sem comentários hoje. Comentem vocês.

valter hugo mãe – a máquina de fazer espanhóis

E aí? Quem foi na Flip? Ó, eu sou de lá e posso dizer: Paraty para quando rola essa festa. E Paraty só para quando tem Flip, Festa do Divino, Festa da Pinga, Festival de Blues, do ano novo ao Carnaval, Corpus Christi, na festa da Nossa Senhora dos Remédios – padroeira da cidade – em feriado nacional porque ninguém é de ferro, em gravação de filme ou de novela que rola pelo menos uma vez por ano, em show grande, que rola uma vez por semestre e durante as férias de verão européias. Só. Então a gente pode ver por aí que o festival é mesmo grande. Agora, a última vez que fui na Flip foi em 2004, e já tava meio circense a parada. A presença mais marcante é a das madamas, que só se aventuravam por outros festivais. Imagine vocês uma matrona barrense, racista, laqueada, pelancuda, de colar de pérolas, lendo um autor como Michel Houellebecq? Tudo bem que ele é uma versão masculina desse tipo de madama, mas mesmo assim, catzo, na minha época elas só liam A Profecia Celestina, Dan Brown se não fossem muito católicas, Fernando Morais e, arriscando, um Gabriel García Marquez ou outro, de leve.

Enfim, pra quem foi nesse ano, viu que uma das atrações era um cara chamado valter hugo mãe (“tudo em minúsculas, assim mesmo”, como os jornais colocaram em parênteses em 500 matérias desse ano). Pra quem tava lá meio que a passeio, era um sujeito careca que era sempre visto do lado da Pola Oloixarac, vulgo “a gostosa da festa”. A presença da Pola e seu livro fétido é prova de que a Flip tá num ôba-ôba que só vendo, mas enfim, falemos do mãe (do valter hugo mãe, não tô fazendo agora a minha tradicional imitação do Wilmutt).

valter hugo mãe é um angolaaaaaaaaaaaaano (que saudade desse quadro do Zorra Total) radicado em Portugal que, como todo bom escritor português, quer dar uma estuprada na língua materna. Um incesto gramatical, se preferir. Na boa, essa apropriação do português que fazem Saramago, Lobo Antunes, ele e o resto da patota tá levando a literatura além da nossa bundamolice nacional. Ficamos aqui com nossos bukowskis-wanna-bes e ficamos pra trás bonito nessa disputinha entre nações irmãs, mas tudo bem. Bola pra frente que no futebol a gente é melh… no basquete a gente ainda é melhor. O abuso desse autor em específico com o português, além de só escrever em minúsculas, passa também por criar uma oralidade diferente da que a gente (ou os portugueses tão acostumados). É que nem ler Guimarães Rosa, saca? Você sabe que ninguém fala assim na vida real, mas pareceria muito plausível se alguém falasse. Criar uma linguagem oral verossímil é tarefa das mais árduas, você que assiste cinema nacional e vai ao teatro sabe disso. Então ele sabe criar algo novo a partir do zero, e é isso que ele faz nesta máquina de fazer espanhóis.

O livro conta a história do seu silva (olha só, não faz nem um mês que li o livro e já esqueci o primeiro nome dele… esse alemão me deixa louco! ui!), um velhinho de 84 anos que, após perder a sua esposa, vai para um asilo de velhinhos, a última casa, as últimas amizades e inimizades, as últimas últimas. Lá ele debate sobre o rancor dos portugueses de terem se emancipado da Espanha (o quê? Não sabia disso? 20 anos de cadeia!!), e terem ficado pra trás no avanço econômico e tudo mais. Fala também uma visão pessimista demais sobre a velhice, que nenhuma propaganda de previdência deveria ver, além de conhecer o famoso Esteves sem metafísica, aquele do poema do Álvaro de Campos, o primo gaiato do Fernando Pessoa que escreveu aquele poema Tabacaria, que diz “e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante,onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações. Eu sei, eu sei, é um movimento que o Saramago já tinha feito no Ano da Morte de Ricardo Reis, criar vida a partir de um poema ou um poeta de Pessoa, mas, gente, olha que legal, é o Esteves sem metafísica! Que outra oportunidade você teria de vê-lo fora daquela tabacaria? Não é a mesma coisa de filmarem um Eduardo e Mônica, um Faroeste Caboclo ou As Meninas, ou criarem um desenho animado só pro Cleveland do Family Guy, é um spin off completamente diferente. O Esteves aqui é coadjuvante de novo! É mais ou menos o que o Kevin Smith faz com seu próprio personagem em quase todo filme dele, e ninguém deu a devida atenção. Prestenção, cambada, coerência nesta joça! Ah sim, também tem uma fantasia a respeito de uns corvos e uma tal máquina de fazer espanhóis, mas isso aí cabe você descobrir senão eu estrago a surpresa (1- viu como é que você disfarça o fato de ter esquecido detalhes de um livro? 2- adoro fazer esses parágrafos com quase dois mil caracteres!).

O autor diz no pós-fácil que escreveu essa história como a história da terceira idade de seu pai, que morreu de câncer na segunda. Pela história que ele criou, vou dizer que o fulano não devia gostar muito do velho, ou gostava mas só é bom de contar história triste. Diz também, não no posfácio, em outro lugar, que não mandou o livro de presente pro Saramago – eles eram amigos, jogavam War juntos, coisa e tal – com medo do velho achar a velhice uma droga. Sei lá, o personagem do livro tem 84, o Saramago tinha 87, acho que o máximo que ia rolar seria ele falar “ih, já passei por essa fase, rapaz.” Mas tudo bem, fato é que Saramago leu mesmo assim o livro antes de abotoar o paletó. Bom pra ele, porque é um livro imperdível mesmo. Faça igual o Saramago e leia nem que seja a última coisa que você faça na vida.

O valter hugo é um desses autores que tem de tudo pra ir plantando a sementinha do Nobel no Farmville dele. Fala de política ibérica (coisa que até então nunca tinha visto), revoluciona na linguagem, tem uma voz inconfundível e só falta mesmo começar a adotar uns africaninhos. Fiquem de olho no gajo, acompanhem o que ele escreve e acessem o EGO para saber o que ele tem feito, que um dia ele vai estar lá em Estocolmo em frente aos babacas suecos (repito: que nome de banda isso daria!) representando nosotros lusófonos. Peguei essa foto aí dele pra vocês verem como ele é simpático e como ele revoluciona até na hora de tirar foto de escritor. Mão no queixo é coisa do passado. Guarda-chuva aberto no brejo com buquê de flores is the new melancia na cabeça. Aliás, além de ser escritor, o sujeito também é vocalista de uma banda chamada Governo, que consegue a façanha de ser uma banda pior do que a minha! Aê!!! Além disso é artista plástico e DJ, mas não sei se é DJ DJ ou DJ que só ataca de DJ, então não vou falar nada sobre isso.

E esse projetão da Cosac, hein? Mermão, só a capa vale o preço do livro! Só a capa! Lourenço Mutarelli assina a arte e a orelha. Aliás, foi mal, Mutarelli, gosto muito do senhor, mas essa orelha ficou mais burocrática e monocórdica do que a Ilze Scamparini narrando o carnaval de Salvador. Enfim, o projeto gráfico do livro puxa tudo para a esquerda, do título dos capítulos, que começam nas páginas pares (que inusitado!), ao alinhamento dos parágrafos e a paginação, que não alterna lados como em qualquer livro normal. Até a orelha é escrita do lado de dentro, pra ficar o mais à esquerda possível. Papel pólen e fontes Nassau e Conduit (que é mais bonita do que qualquer conduíte).

Galera, o Livrada! precisa do seu apoio. Não vou abrir um 0800 estilo criança esperança, mas considerem anunciar aqui a preços módicos.

Comentário final: 250 páginas mais ou menos com a PURA LAVA DO VESÚVIO, tipo as bolinhas de queijo mussarela crocantes lá do Cospe Grosso!

Herta Müller – Tudo o que Tenho Levo Comigo (Atemschaukel)

AtemschaukelBem amigos da rrrrrrrrrrrede bobo, estamos aqui hoje na gélida, sombria e bucólica Curitiba para mais uma crítica de ponta. O livro de hoje? Nada mais nada menos do que Tudo que Tenho Levo Comigo, da prêmio Nobel de literatura mais esquisita dos últimos cinco anos: Herta Müller!

Não é frustrante? A gente fica esperando o ano inteiro para saber quem vai ganhar o Nobel e sai uma sujeita lá da terra do conde Drácula que a gente nunca viu mais gorda e, como o homem é a medida das coisas e como as coisas em volta do homem são a medida de todos os homens, só nos resta tentar imaginar a injustiça que cometeram com os autores que a gente conhece em preterir uma (para nós) ilustre desconhecida a um João Ubaldo, a um Mia Couto, a um Vargas Llosa (vingado no ano seguinte, rá!). E mais, digo mais! É frustrante em saber que o nosso mercado de editoração brasileiro não conseguiu vislumbrar um excelente escritor na frente daqueles putos de Estocolmo, os babacas suecos (daria um bom nome de banda, mas alguém preferiu “garotas suecas”. Por quê? É, beats me too). Na época em que a Herta Müller ganhou o galardão, só tinha um livro dela publicado aqui no Brasil, pela editora Globo que, por tradição, não costuma publicar vanguardas. Daí você acorda de manhã, ouve na rádio que o Nobel foi pra Herta Müller, faz a sua cara de “What the fuck?”, procura algum livro dela publicado em português e, tchanam!, lá na livraria empoeirada do chinês tem um exemplar empoeirado perdido ali entre os Júlio Verne, os Steinbeck, os Somerset Maugham, os Blake e tudo aquilo que os jovens hoje não leem mais, que alguém jogou ali por acreditar ser um autor muito, muito velho. Afinal, foi publicado pela editora Globo.

Mas pera lá que essa história tem um final feliz. Publicaram outro livro da Herta no Brasil. Agora são dois! Aê! Isquindolelê, é carnaval! É carnaval duas vezes (2x)! E é deste livro que vamos falar hoje.

Tudo o que Tenho Levo Comigo dá uma boa ideia de porquê Herta Müller ganhou um Nobel. A história é a seguinte: um garoto meio mocinha que mora na Romênia (terra da autora), mas de minoria alemã (ao contrário dela, que é romena mas mora na Alemanha), é colocado num trem pra servir nos campos de trabalho que os russos instituíram para os alemães pagarem as dívidas de guerra. Mandaram o governo da Romênia despachar qualquer chucrute pra esse gulag hardcore. E lá foi o nosso herói, Leo Auberg que até então estava começando a descobrir os pecados da carne com uns romenos, considerados ralé ante os arianos.

Pois bem, o livro é, então, a narração de Auberg nesses campos, desde que foi, até quando voltou. “Grandes bosta, cara, já li um porrilhão de livros assim”, vocês, meus leitores espertos que se dignam a aparecer aqui todo domingo para se decepcionar com mais uma crítica abalizada, diriam com ares de um arqui-inimigo de filme do Woody Allen. Pera lá então que eu não terminei. O grande barato de Tudo o que Eu Tenho Levo Comigo é a construção da forma com que o diário é narrado. Sem lenço nem documento congelando o rabo na Rússia, Auberg se apega às palavras, e apropria-se delas para enfeitar o seu mundo cinza de clipe do Radiohead. E aí, como diz o Tim Maia, vale tudo. Vale construção cíclica, vale gagueira mental, vale prosopopéia, vale concretização de abstrato, vale usar maiúscula pra tudo no melhor estilo germânico, vale transformar a dor em personagem, a fome em personagem, tua mãe com as pregas soltas em personagem, enfim, é uma verdadeira babilônia lingüística esse livro, meus irmãozinhos.

É bem engraçado, na verdade, de ver como a autora junta essa prosa fluida, desavergonhada e adjetivada, típica dos latinos (já que ela, como Romênia, é latina), a uma narrativa que parece rígida, que chega a ser redundante para ser clara e, de alguns aspectos, limitadas pela gramática típica dos saxônicos. É realmente um estilo bem único, pelo menos pra mim, que nunca vi nada parecido. E para ela, as palavras valem não só pelo significado, mas pela sonoridade. É assim por exemplo, que ela inventa uma palavra, como Hasoweh, uma contração inventada de Hase (coelhinho) e Weh (dor). Hasoweh é TUDO nesse livro: é o som do trem, é o gás que aquece a galera, é a fome, é a dor do trabalho no campo, enfim, é onomatopeia, é substantivo, é adjetivo, é um amiguinho do protagonista. É esse o verdadeiro poder da palavra, não acredite no seu Pastor!

E, claro, uma obra portentosa dessas não chegar a nossas estantes sem o trabalho dedicado de um tradutor. No caso, de uma tradutora, a escritora Carola Saavedra. Isso aqui, meus amigos, é o Hyeronimus Bosch da tradução. Que trabalho! Aposto que a moça se desgastou mais do que o baterista do Dragonforce pra parir essa tradução, porque, olha, não é fácil. Até hoje só babei nessa e na tradução do Nicolau Sevcenko de Alice no País das Maravilhas. Eu reconheço trabalho difícil quando eu vejo um, e vi o empenho da Saavedra em achar palavras, caminhos, atalhos, escadinha de casa na árvore pra escapar das ciladas lingüísticas que em que a Herta Müller joga seus tradutores. Deviam fazer um Jogos Mortais em que ela era o Jigsaw e os tradutores é que tem que desvendar um jeito de sair daquela frase. Mwhuahuahua!

Essa edição da Companhia das Letras é bonitinha mas nada demais. Papel Pólen, fonte Electra, essa foto mei-azul-mei-arroxeada que é pra dar a impressão de que você tá pegando uma gripe enquanto olha pra esse trem e o selinho de Prêmio Nobel, a bandeira 2 das editoras. Agora, que o conteúdo é bom, ah isso é!

Comentário final: 298 páginas. Hasoweh!

Lourenço Mutarelli – A Arte de Produzir Efeito Sem Causa

Tô me sentindo uma daquelas gatinhas de Hollywood que se envolvem com drogas e tempos depois saem da rehab com um aspecto cadavérico, peito caído e muita entrevista pra dar na Oprah. Tô melhorando, galera. Olha só, minha última postagem foi há duas semanas e já respondi todos os comentários pendentes de antes. Tô me regenerando, Risoflora! Não vou dar mais bobeira dentro de um caritó, agora é só pimba na gorduchinha e vamo que vamo que o som não pode parar.

Vamos combinar que uma postagem a cada quinze dias tá valendo, ok?

O livro de hoje vem para reafirmar uma tecla que venho batendo há algum tempo: Lourenço Mutarelli é uma das vozes mais originais e instigantes da literatura brasileira em muito tempo. Mas ô escritorzinho subestimado, meu Deus. Abram os olhos pra esse cara de uma vez por todas que ele merece ser lido não só pela galera nerds que acompanhava os Transubstanciação e Dobro de Cinco da vida. Ele é bom como romancista também, e não tem nada a ver com o que ele fez antes. O bicho é bom e subestimado, é Captain Beefheart da literatura nacional.

A Arte de Produzir Efeito Sem Causa é, se não me engano, o primeiro livro dele lançado pela Companhia das Letras. Acho que quando o cidadão vai pra essa editora, os olhos se voltam mais pra ele, mas peguem o Cheiro do Ralo pra ler e comprovem o que eu digo. Fico feliz que Mutarelli não seja mais tão pop quanto era há uns dois anos atrás, quando escrevia peça de teatro pra Mariana Ximenes e o escambau, daqui a pouco ele tava indo no programa da Hebe dar selinho naquela múmia e pegar a herpes de Amenófis IV. Escritor tem que ser low-profile mesmo, senão essa vida hypada (vem de hype, Juvenal) vira a cabeça do cara. A Globo é uma máquina de fazer Paulos Coelhos. Aí, valter hugo mãe, aproveita o tema e faz mais um livro. (sobre o valter hugo mãe: que nominho, vamos combinar. Não basta o cara chamar valter, o sobrenome dele ainda é mãe!).

Bom, tergiversei como manda o figurino, agora vamos ao que interessa. Esse livro é um dos grandes livros do Mutarelli. Conta a história de Junior, um cara que trabalhava numa revendedora de auto-peças e se divorcia da mulher, que deu em cima  do amiguinho do filho, e resolve ir morar com o pai dele. Lá conhece uma mocinha que eu já esqueci o nome e que tô tão sonolento pra procurar no Google que nem tô arriscando fechar essa janela do Word pra não começar a babar com o queixo no peito nem to dando ponto final olha só to embalando legal essa frase uuu to doidão de sono. Brrr, me dei uns tapas e acordei, voltando ao assunto. Lá ele conhece uma mocinha por quem sente uma leve pontada no zíper da calça, mas é só isso que vou falar sobre o assunto.

O que interessa para a história é esse movimento de voltar a morar com o pai, a simbologia para a derrota da vida sobre o homem, como o próprio Mutarelli me disse em uma simpática entrevista que fiz com ele por telefone. Derrotadão e cansado de apanhar da vida, devendo as cuecas pros outros, Junior começa a receber correspondências estranhas pelo correio, que ele crê que sejam peças de um quebra-cabeça que cabe a ele montar (essa frase me lembrou dessa música, sempre uma boa pedida). Já dizia alguém – Chico Xavier, talvez – que a mente vazia é a Yoguland do diabo. O sujeito começa a pirar nas encomendas e, mais noiado do que o Capitão Ahab visitando o Sea World, afunda no suposto quebra-cabeça enquanto tenta segurar as pontas de sua vida, que já tá mais capenga do que pé-de-meia de grego.

Se tem uma coisa que Mutarelli entende nessa vida de meu Deus é de loucura. O cara é PhD em doidice pela Universidade Pinel Senor Abravanel, ocupante da cadeira número 22 da Academia Brasileira de Loucura (ABL, essa mesma), cujo patrono é Giordano Bruno. Em A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, o autor mostra direitinho o processo de endoidamento da pessoa, e é assustador, é quase como ver um parente-problema (problema na família, quem não tem?) com quem você tem que lidar porque você não tem escolha e porque qualquer família tem uma cota pra maluco (geralmente de dois terços).

Essa edição da Companhia das Letras valorizou o enredo, e não é todo dia que o projeto gráfico de um livro ajuda na experiência imersiva do leitor. Com desenhos (doodles) feitos pelo próprio Mutarelli, o livro tem um formato assim meio de Moleskine falsificado e tem um miolo cheio de rabiscos atribuídos a Junior. Mas entre os escritos também há intervenções do projeto gráfico, que complementa a história com letras escritas à mão (simulando, né, animal, não colocaram ninguém pra trabalhar no ano novo escrevendo letrinhas em 3 mil livros) e outros rabiscos e desenhos que têm como objetivo entender o raciocínio de Junior no mistério. Aliás, não espere muita solução nos livros do autor, é melhor prestar atenção nesses elementos que eu to falando. Tenho essa ideia de que saber o que olhar antes mesmo de começar a ler o livro é importante pra você não sair odiando o autor pelas razões erradas. Fonte janson e papel pólen velho de guerra irmão camarada. Quer mais o quê? Enfeita sua estante e o seu cérebro.

Comentário final: Semana passada não postei sabe por quê? Estava na junket do Transformers 3, que estreia na semana que vem. Rá, vi o filme antes de todo mundo, e o Michael Bay sentou bem na minha frente. Acho que passei uma gripe pra ele, espirrei bem na nuca do infeliz.

John Steinbeck e Robert Capa – Um Diário Russo (A Russian Journal)

A Russian JournalVê só como você tira um blog da miguxice, mas não tira a miguxice de um blog. Fico três semanas sem postar e já me vejo a dar satisfação para vocês no melhor estilo Marimoon da época do fotolog GOLD. Pra quem não era vivo nessa época, eu explico: ela pegava uma foto em que parecia que ela acidentalmente pagava peitinho mas não chegava de fato a pagar (o que só deixava a bagaça mais patética), depois metia um porrilhão de efeito de photoshop, uns arabescos, uma assinatura na foto e voilà: material masturbatório para tarados por moderninhas na era pré banda larga. E a legenda era a cereja do bolo: “Ai gente, tô tão sem foto, vou postar essa daqui só pra vocês não dizerem que não atualizo :**** ==^^==” ou sei lá que outros emoticons bizarros eram criados por essas mentes insanas. Graças ao bom Deus passei alheio a todo esse bafafá, dedicava meus dias e minhas noites a tocar guitarra, e nada mais.

Pois bem, cá estou eu como uma Marimoon sem vergonha, postando qualquer livrinho pra não dizer que não ligo mais pra vocês *smack* fofuras. Rá, mentira! Um Diário Russo, de John Steinbeck e Robert Capa é um livraço, e uma leitura agradabilíssima. Vamos a ele, pois bem.

Antes que certas *cof cof* pessoas (é, você mesmo) queiram desistir de ler por achar que Um Diário Russo é um livro reportagem, já digo que não é nada disso. Ainda que Steinbeck e Capa tenham lá seus pezinhos metidos no jornalismo (hey, naquela época, quem é que não tinha?), há de se distinguir um livro reportagem de um diário de viagem e, mesmo que o diário tenha uma certa linguagem jornalística e termine por desvendar certas verdades a olhos não acostumados com a realidade soviética, nunca foi a intenção dos autores fazer “um retrato DEFINITIVO da união soviética no começo da guerra fria” ou qualquer outra etiqueta que tentem colocar na capa desse livro em edições futuras para tentar vendê-lo para os war freaks, esse povo tarado num uniforme nazista, num panzer division, num operação Valquíria, num Lili Marlene, enfim, esse povo que, se tivesse pacote da NET só com o History Channel, fazia o favor ao próprio orçamento de cortar todos os outros canais.

Um Diário Russo nasceu principalmente de uma curiosidade discutida num balcão de bar, esse antro místico que as pessoas têm em alta consideração, como um berçário de boas ideias, um mangue da criatividade. Capa e Steinbeck estavam no bar e comentaram com o barman, esse fast-food da psiquiatria, que as notícias que chegavam da Rússia diziam respeito aos planos de Stálin e suas relações com as amadas bombas atômicas, e que nunca as pessoas ficavam sabendo como tavam vinvendo os russos, aquele povo exportador de belas tenistas e políticos engraçados. Decidiram então começar a se mexer para ir para lá registrar tudo e fazer, de acordo com eles, não o retrato russo, mas um dos possíveis retratos.

Partem então para a terra proto-inimiga, aquela que tava ainda dentro dos conformes de Yalta, ninguém tava ligando muito, ainda não tinha rolado aquela não-eleição que emputeceu os norte-americanos (e se tem uma coisa que deixa esse povo tiririca da silva é não fazer eleição). A realidade é cruel: a narrativa de Steinbeck sobre o avião caindo aos pedaços que pegaram na escala na Dinamarca (ou Suécia, Noruega, não lembro… algum desses países com sexo explícito em filme de Sessão da Tarde) faz você se sentir um lorde por viajar de Webjet e um fresco por achar que vai morrer a cada pane mecânica que o avião dá. A situação sempre foi precária na Rússia, e em épocas comunistas, imagine só! Se em Cuba, onde não há dinheiro pra nada, a vida já é ruim, imagine num lugar onde há dinheiro mas todo dinheiro precisa ser direcionado pra construir bomba. Antes que a última árvore fosse cortada e o último urânio fosse enriquecido e o homem branco percebesse que as bombas não podem ser comidas (a não ser as bombas de chocolate), essa insensatez começou a tomar outro rumo, ainda bem. Mas até então, era o jeitinho brasileiro dominando tudo. Pior, era o jeitinho russo, o jeitinho desse povo que não dá jeitinho nem pra construir uns carros mais decentes.

Não foi só na Rússia, porém, que os autores ficaram. Visitaram a Ucrânia, que revelou ser um nascedouro de gente trabalhadora, e a Geórgia, onde disseram que os georgianos eram todos poetas, cantores, amantes insaciáveis e etc. Sei não, hein, acho que rolou um jabá lá na Geórgia… Enfim, imagine que o livro foi legal para diferenciar essa gente diferenciada, pros americanos burros, que acham que soviético é tudo a mesma lata um do outro.

A escrita de Steinbeck é primorosa, e quem conhece sabe. Ele escreve de um jeito muito fluído e altamente informativo. Tem um estilo mais denso que o de Capa, por exemplo, que se preocupa mais em fazer uma graça pro leitor. Nesse livro, aliás, Capa só escreve em um capítulo, se justificando pelo fato de passar duas horas trancado no banheiro, para o desespero da bexiga de seu companheiro, entre outras coisas de que Steinbeck reclama sobre ele ao longo do livro.

Talvez seja esse um dos pontos não-intencionais do livro dos mais interessantes: a figura de Capa sob o filtro do olhar de seu camarada John Steinbeck. É difícil obter esse tipo de coisa, e é como uma corrente: no livro de Steinbeck você sabe de Capa, nos de Capa você sabe um pouco mais sobre Hemingway, e assim por diante. Bom, eu tenho uma grande admiração pela vida e obra do Robert Capa, então esse livro me pegou por causa disso também.

Um Diário Russo é, claro, todo recheado com as fotos do fotógrafo húngaro (aliás, por que a Bulgária chama Bulgária e a Hungria não chama Hungária?), que são todas matadoras. Isso faz com que a leitura do livro, que parece grande, se torne mais rápida do que se pensa. Eu terminei ele em dois ou três dias, então é porque o lance é bom.

Essa edição da Cosacnaify é primorosa! Queria ter comprado esse livro antes, mas na edição antiga custava uns 90 reais. Ainda bem que fizeram essa versão nova, com papel offset (dessa vez nem reclamo, se é pra abaixar o preço…), e uma capa diferente, com uma foto do Capa. O que faz muito mais sentido do que uma versão estilizada de uma das votos, vetorizada e impressa numa parada meio Matisse encontra Picasso da fase escrota em azul e preto. Serviu também pra ornar com o livro do Capa que estavam lançando na época, ficou legal na estante. Fonte Freight e capa dura, pra fazer maldade mesmo! Como diria Clint Eastwood em boa parte do Gran Torino: Grrrrrr….

Comentário Final: 330 páginas em offset e capa dura. Mais duro que a cara dura do Palocci.

Ps: Feliz dia dos namorados para todos. Não importa se você é hetero, gay, bissexual, namora dois ao mesmo tempo, é zoófilo, todo mundo tem o direito de, hoje, levar o ser amado pra churrascaria e comer até cair.

 

Franz Kafka – O Veredicto/Na Colônia Penal (Das Urteil/In der Strafkolonie)

Das Urteil/ In der StrafkolonieÉ gente, eu avisei. A coisa tá corridona. Vamos fazer assim? Deixemos as resenhas apenas para os domingos, alright?

E pra quem não viu, temos um patrocinador. O Sr. Victor Almeida está divulgando seu novo livro, que saiu na forma de e-book para kindle também. Cliquem ali no banner de seu Juntos no Paraíso para saber mais e comprá-lo, pra ele ver que é boa ideia anunciar aqui.

Olha só, um ano se passou e nem me toquei que não tinha falado ainda de Franz Kafka (não confundir com Franz Café, aquele Coffee Shop que fica aberto 24 horas ali na Praça da Espanha que só dá um povo bem esquisito que nasceu em Arapongas, mora no Cotolengo, usa cachecol em fevereiro e acha que é britânico). Já li essa coleçãozinha inteira dele, à exceção de O Processo, livro que não engulo nem misturado na sopinha. Restava falar de um de seus inúmeros livros de contos, incluindo o belíssimo Um Médico Rural, ou então falar do óbvio A Metamorfose, cuja resenha você pode ler em qualquer outro blog miguxesco por aí (aqui, ora pois, tratamos de literatura não-óbvia), ou então os inomináveis Carta ao Pai ou O Castelo (que raiva que eu tenho desse livro O Castelo, depois dele nunca mais li livro póstumo nenhum, só O Mestre e a Margarida por razões óbvias). Pensei então que poderia falar de O Veredicto e o insuperável Na Colônia Penal, dois contos/livrinhos surpreendentes e dignos de tudo o que se fala de bom do Kafka. Porque convenhamos, o sujeito escreveu muita porcaria também. Sério, tem um conto naquele A Contemplação, que foi o primeiro livro de contos dele, que quase me deu vontade de tacar o livro na testa do desinfeliz que deixou eu comprá-lo.

Pois muito bem. O Veredicto (Veredicto não tem mais esse c mudo, ou tem? Taí algo que faz a gente se sentir velho. “No meu tempo, netinho… cof…cof… Veredito se escrevia com c antes do t… agora passa esse balão de oxigênio aí… cof…”) é um livro curtinho cuja história, de longe, pode não impressionar muito. Um carinha que tem um amigo que mora longe, e com quem tenta se comunicar por cartas (os estadunidenses chamam isso de “pen-pal”, ô palavrinha feia da gota!) embora não tenha resposta dele há muito tempo, fica preocupado se comunica ou não que está noivo de uma gatinha. Ele está tomando conta de seu velho pai, assumindo os negócios da família, aquela coisa de homenzinho que acha que virou homenzinho. Até que o pai sobe nas tamancas, fala umas verdades, revela umas revelações e condena o filho à morte por afogamento, ao que ele responde com uma saída abrupta de casa para se afogar pulando de uma ponte. É isso aí, contei Spoiler e nem avisei que ia spoilar a bagaça toda. Deal with it. Como diz o Boça, eu também sei ser maloqueiro e quando eu quero zoar, sai de baixo, meo!

Nesse livro é legal a gente observar, em primeiro lugar, a relação do filho com o autoritarismo do pai. Falei que é legal observar isso porque qualquer crítico Mané vai te fazer enxergar esse fator e ai de você se desconsiderar o paralelo entre o pai de O Veredicto e o pai de Kafka. Assim são os críticos. Sabe quando você pede uma porção de batata frita pra todo mundo e sempre tem um babaca que joga ketchup na batata inteirinha, desconsiderando o gosto dos demais por ketchup? Pois esse é o crítico. É o cara que obriga você a degustar as coisas do jeito dele, e que se dane sua própria experiência. Quer dizer, não é todo o crítico que é assim. Só o são os críticos do cânone, os críticos do óbvio, os críticos do “ó-meu-deus-eu-sou-tão-esperto-que-se-eu-fosse-mulher-eu-me-traçava”. Aqui eu estou fazendo esse papel ingrato porque tem um povo que tá entrando aqui e falando que as minhas leituras são muito superficiais, então taí uma leitura que você pode ler no posfácio do livro e que, mesmo assim, todo mundo alardeia. Satisfeito?

Pode ver nesse livro também o absurdo do mote de Kafka, que vem de um certo estoicismo ao qual ninguém se acostumou direito depois da febre da Profecia Celestina. Veja só o que é o pai mandar o filho se afogar e ele ir, contra a vontade, morrer afogado? É uma forma de passivo-agressividade fora de controle (o que é ótimo porque eu acho que o gene da passivo-agressividade tem que ser extinto), uma rebeldia adolescente que a gente vê muito hoje em dia. Já viram a cena: o moleque, de preto dos pés à cabeça, com uma camiseta do Good Charlotte, muita maquiagem no olho, dizendo “eu queria nunca ter nascido!”, os pais fazem aquele drama de “és base, é protetooooooooooooor” e o moleque sai de casa batendo porta pra fumar Carlton Red na porta do Shopping Center com os amiguinhos de cabelo ensebado dele. É mais ou menos isso, só que no começo do século, e com morte de verdade, não apenas a morte da rebeldia verdadeira.

Falemos agora de Na Colônia Penal, o conto/livro mais sinistro já inventado por uma mente humana meio doente. Lembro que na época do Orkut tinha uma comunidade chamada “Kafka, fica de boa…” e realmente, ele precisava mesmo dar uma relaxada. Acho que o carinhômetro dele estava sempre em baixa. Deve ser por causa dessa cara feia que ele tem. Inclusive peguei essa foto aqui pro post de hoje porque tinha um porteiro no meu antigo prédio que era a cara do Kafka.

Divaguei, desculpem. Comecemos de novo. Na Colônia Penal é doente, já disse isso, né? Então, a história é isso aí, um cara vem de outro país para visitar uma colônia penal no país da história, e eles estão para executar um coitado com um método muito do sinistro. Consiste numa geringonça que deixa o infeliz penduradão e vai matando ele aos poucos enquanto várias faquinhas vão escrevendo uma frase de pára-choque de caminhão nas costas dele, uma lição de moral ou algo assim, até que ele morre esvaído na própria papa de sangue. É mais ou menos como aqueles “shows” em que os hã… malucos ficam pendurados por ganchos nas costas achando tudo o máximo. Acho que essa modalidade tem nome, mas tô com preguiça de procurar no Google e vou chamá-la de falta de enxada e meio lote pra carpir.

A crueldade da execução choca o estrangeiro (espero não estar confundindo com um conto do Italo Calvino) e pro executor, tá tudo numa naice. E aqui lá vamos nós jogar ketchup na sua batatinha de novo. A ideia do sofrimento sem uma sensação de que ele logo terá fim é uma constante nos livros do Kafka que falam do assunto. Você bem sabe que quando você se prepara para fazer algo sofrido, parte do sofrimento é amenizado pela sensação de fim iminente. Como por exemplo fazer uma tatuagem, tirar sangue, tratamento de canal, exame de próstata, andar de Cabral/Portão, etc. Agora, e se o sofrimento não tiver um fim visível na linha do horizonte? E não só isso, pensem também na engenhosidade de uma máquina projetada para te fazer sofrer. Eu sei que vendem máquinas assim pela televisão no Shoptime, que dá pra dobrar e guardar embaixo da cama, mas essa é projetada para o mal extremo, a morte e uma lição de moral ainda por cima. É doente ou não é, meu povo?

Chega que a resenha tá longa. A saudade é um prego, o coração é um martelo, por isso me estendi. Esse projeto gráfico da Companhia das Letras é sensacional. Livros branquinhos que já vem encardidos da livraria porque ninguém compra tanto Kafka quanto deveria, posfácios mais que elogiosos do tradutor Modesto Carone, o homem-Kafka (equivalente ao Elidio Lopes para o vinho), fonte Garamond e imagens da capa de Amilcar de Castro (embora tenha quase certeza de que um dos desenhos é uma fraude feita por outra pessoa, mas teria que verificar e já tá tarde pra isso). É uma beleza. Faltou mesmo pra minha coleção O Processo, edição esgotada há muito tempo, só acho de bolso. Uma vez vi um cara com esse livro num ônibus e pensei seriamente iniciar ali minha carreira de assaltante. E aí, quem topa fazer uma campanha para me doar essa edição d’O Processo pra eu completar a coleçãozinha?

Comentário final: Kafka, fica de boua, meo…

Jouralbo e Allan Sieber – Ninguém me convidou

Quando entrevistei Allan Sieber em 2009, ele me contou que um de seus últimos projetos (entre as milhares de coisas que ele faz ao mesmo tempo) era escrever um livro de memórias de seu pai, que trabalhou como desenhista na década de 50, a partir de entrevistas que estava fazendo com ele desde então. Disse-me que já havia não sei quantas cacetadas de horas de entrevistas, mas o que ele não me disse (ou se disse não lembro. Dois anos se passaram e eu, ultimamente, não ando nem lembrando o que eu comi no almoço. E olha que eu só almoço dois tipos de comida) é que o livro seria desenhado pelo pai dele, o Sr. Jouralbo Sieber.

Pois bem, cá estou eu aqui, suave na nave, de leve na neve, susse no musse, quando de repente me chega a notícia de que o tal livro saiu mesmo. Tão legal isso, né? Hoje em dia o que tem de cabra metido a artista que diz que vai fazer e acontecer, acaba não fazendo lhufas e vive, como diz o slogan de um certo banco que vai perder um cliente dentro de muito pouco tempo, no “valor das ideias”, olha, não tá no gibi. O Sieber, ao que me consta, fez tudo o que disse que ia fazer com relação a seus projetos audiovisuais, gráficos, etc. Menos o documentário Pereio eu Te Odeio, mas este, ao que parece, agora tá saindo. Veremos. Bom, botei as mãos num exemplar graças à Mitie da Itiban Comic Shop — que se você mora nessa cidade bucólica e gosta de quadrinhos, acho difícil não conhecer (propaganda para os amigos é de graça, hein?), e comecei a ler. E agora vos falo sobre esta peça.

Em primeiro lugar, vamos combinar que pelo menos eu nunca vi um livro de memórias que seja roteirizado pelo filho e desenhado pelo pai (tem o Maus, mas nesse o Spiegelman faz tudo). Mas a coisa deu certo. Jouralbo conta o início de sua vida como artista publicitário nas agências e editoras de Porto Alegre na época do Guaraná de rolha, e o que mais fosse interessante compartilhar. Allan faz o filtro, roteiriza a história e faz um storyboard que repassa para seu Jouralbo fazer a arte. Voilà (nem é chique ficar falando francês, hein? Pode parar com a palhaçada), temos aí um livro interessante em sua forma e processo.

E o conteúdo? Olha cara, se você tá esperando por um quadrinho com o humor do Allan Sieber, esquece. A vida dos outros não serve pra você sentar aí e ficar dando risada com os perrengues alheios. Mas é, sim, um livro divertido e curioso, principalmente pra você que não sabe o que é um mundo sem internet. Claro que, como Allan organizou as informações, deu mais relevância para essa estória do que aquela, passa muito para as páginas de Ninguém me Convidou uma misantropia branda, que não se sabe ao certo se veio do filho ou se é de família mesmo, além de outros elementos mais sutis que permeiam a obra do quadrinista. Mas vamos combinar também que é complicado fazer quadrinho com a palavra dos outros (mesmo que a arte final seja do Jouralbo), ainda mais quando as palavras em questão são do próprio pai. Veja só o que o Crumb fez com o Gênesis, por exemplo (o livro, não a banda horrível). Por isso, é bem admirável o trabalho dos dois nesse sentido, e o resultado está a contento.

Allan também já estava pegando raça nesse lance de quadrinho de não-ficção graças às reportagens que fez para a Playboy e sei lá quantos outros veículos mais. Seus relatos sobre o passeio turístico na favela e sobre a aula de sedução que teve com um instrutor profissionalizado da arte que, como tudo o que é bizarro, veio daqui de Curitiba (z. B. Oil Man, Maior Trapézio de Curitiba, Francine de Curitiba, etc, etc. e falar alemão também é coisa de mané) são dignos de um Joe Sacco brasileiro. Belo sobrenome, aliás. Além disso, advoga a seu favor uma discreta carreira como documentarista audiovisual que desenvolveu com sua produtora. Quer dizer, o cara não era exatamente um novato na meia-cancha quando começou essa empreitada.

Esse projeto gráfico da editora Conrad (falando em Conrad, por onde será que anda o Conrado, que derretia corações na época em que eu comia cola?) tá bonito também, e o traço do Jouralbo colaborou. O desenho dele é o desenho-arte, o desenho-maroto, o traço profissa feito, ao que parece, quase no piloto automático. Atalhos de quem já desenhou até o dedo cair. A capa do livro tem um autorretrato do Sr. Jouralbo num fundo azul coberto de curvas francesas em cor de burro quando foge. O conteúdo segue com várias histórias em quadrinhos e uma última seção de histórias meramente ilustradas. Por último, uma pequena amostra de todo o vasto trabalho do pai nesses anos todos trabalhando nessa indústria vital, além de algumas fotos. Enfim, é um livro de memórias, tem que ter foto mesmo que tenha quadrinho a dar com pau. Nas fotos we trust. Vish, a madrugada tá batendo, já não to falando coisa com coisa. Vou embora.

Ps: Meu blog estava concorrendo com o do Sieber ao The Bob’s. Esperei a votação terminar para falar desse livro, sendo assim, um bom perdedor que sabe partilhar a derrota. Xi, não tô fazendo sentido mesmo.

Comentário final: Tô dormindo há três dias sem cortina. Os primeiros raios de sol da manhã me despertam, o que mostra que tudo o que parece romântico e poético é, na maioria das vezes, uma aporrinhação sem fim. Ah, eu quero minha cortina de volta.

Enrique Vila-Matas – História Abreviada da Literatura Portátil (Historia Abreviada de la Literatura Portátil)

historia abreviada de la literatura portátilDe volta ao nosso expediente normal então. Perdemos no The Bobs, acho que todo mundo já estava esperando isso. Como sempre, em meio a chacina de criancinhas, tsunamis, vulcões, vazamentos nucleares e terremotos, o mundo continua dedicando a maior parte de sua atenção à falta de ciclovias. Ora, vou parar de falar isso porque senão vai parecer discurso de mau perdedor. E eu sou mau perdedor e sei que ser mau perdedor ainda não é muito bem aceito na sociedade, então bola pra frente.

O livro de hoje é curtinho. Qualquer um pode lê-lo em uma sentada (o equivalente a três vírgula sete cagadinhas, não sei qual unidade de velocidade de leitura vocês usam aí), o problema maior é desembolsar uma graninha para comprá-lo porque, veja bem, ainda se pensa muito na quantidade de páginas que um livro tem e costuma-se avaliar o preço dele baseado nisso. Gente, o livro novo da Maryan Keyes tem 800 páginas de pura abobrinha, vocês decidem onde investir vosso rico dinheirinho.

Bom, Historia abreviada da literatura portátil é um livrinho publicado originalmente em 1985 e que dá o starte a esse jeito maluco que o autor tem de passar as ideias dele pra gente, usando principalmente a) uma escrita extremamente cerebral b) referências históricas e geográficas das cidades da Europa c) alguns escritores e outros artistas pouco mais desconhecidos do grande público d) apócrifos e muitas, muitas mentirinhas, dessas do estilo pega-troxa. É isso, a literatura do Vila-Matas serve principalmente pra você que acredita em tudo o que lê começar a ficar mais esperto um pouco.

Bom, a história é a seguinte: um narrador, que não é o autor, embora ele dê a entender isso durante o livro inteiro, mas se você ler com cuidadinho você percebe que não é, está escrevendo um ensaio sobre a sociedade secreta shandy, um grupo de artistas mutcho lokos que batizaram sua seita com o nome do personagem Tristram Shandy, do Laurence Sterne, sabe aquele? A sociedade é composta por tipos do tipo do Marcel Duchamp, Aleister Crowley, Robert Walser (robard valzaaaa), entre outros, e todos eles pregam coisas como só fazer arte que não seja importante, só escrever livros pequenos e obras de arte que possam ser miniaturizadas para se carregar numa maleta, à moda da maleta de Duchamp, que cotinha suas obras. E também serem solteiros, estarem perto de pelo menos uma mulher fatal e beber uma bebida chamada Shandy, que, pelo que eu entendi, é cerveja misturada com limonada. Pra quê Activia, né?

Aí que Vila-Matas vai conduzindo a gente por esse universo de mentiradas e o leitor bobão vai caindo em todas, e depois lê a porcaria do livro e sai por aí esbanjando conhecimento. Até que toma um chega pra lá e passa o resto da festa de mau humor, chorando as pitangas de que não teve tanta chance na infância, desperdiçou sabedoria decorando nome de Pokémon e jogando Tazo no recreio, etc. Por isso, é um excelente livro que todo mundo deve ler! É meio estranho que o autor queira divertir a gente com um ensaio, não é? É que nem, sei lá, defender uma tese de doutorado em forma de espetáculo circense. Enfim, por enquanto tá dando certo, espero não enjoar dessa escrita dele, é ainda agradável e, aos meus olhos, pouco pedante se não contarmos a intenção.

Essa edição da Cosacnaify me pegou de surpresa. Achava que vinha um livro do tamanho dos outros do autor, mas veio um que é um quarto dos livros normais, e com menos de 150 páginas ainda por cima. É do tamanho de um livro de bolso, e o boboca aqui nem se ligando que o cara queria fazer uma literatura portátil. Dã. Fora isso, a edição é chique que nem as outras, e a foto da capa é, na minha modesta opinião, uma das melhores da coleção. Rosa e amarelo? Sim, tudo bem, é uma escolha heterodoxa mas, hey, se eles não fizerem, ninguém faz, a não ser talvez uma daquelas gráficas de fundo de quintal que lança uma edição do autor chamada “Mistério na fazenda” com Sandy e Junior na capa, jurando que vai ser o maior sucesso de público e de crítica, entrar pro Guiness e o escambau. Papel pólen e fonte Garamond, a belezura. É isso. Livro curtinho, resenha curtinha, mas acho que deu pra entender como é, né?

Comentário final: Toda pessoa alta é meio maluca porque vivem batendo a cabeça nos lugares. Já repararam nisso?

 

Rodolfo Walsh – Operação Massacre (Operación Masacre)

Operación Massacre“Não, Yuri, por favor, mais um livro-reportagem não! Eu prefiro cortar meu saco fora do que ter que ler outra resenha sobre esses jornalistas sebosos que se acham donos da verdade!” Calma lá meu povo, eu não coloco vocês em roubada, já disse, e ó, digo mais: se vocês tiverem que ler um livro reportagem que seja, unzinho na sua vida, pra depois passar 50 anos lendo Bruna Surfistinha e Diário de uma ex-BBB (“já fui lésbica sim e não tenho medo de falar o que penso!”), leia Operação Massacre de Rodolfo Walsh. Quero explicar hoje, tim-tim por tim-tim, porque eu considero esse um dos melhores livros do gênero já escritos.

Tudo bem que não sou nenhum expert em literatura jornalística, mas já li algumas dúzias desse tipo de livro e nenhum bateu tão forte no fundo do coração como esse (Agora que falei em bater no coração, lembrei daquela música: “A saudade é um prego, o coração é um martelo”. Uma das metáforas mais sinistras da música brasileira, sem sacanagem. Zeca Baleiro, Paulinho Moska e Cia., aprendam com esses caras). Primeiro porque a história é grandiosa em todos os âmbitos. Não é algo microscópico como o assassinato de A Sangue Frio, embora pareça, e não é algo que seja, por outro lado, grandiloqüente, que tenta dialogar com todas as esferas em que está metida a coisa, como, sei lá, Hiroshima (que é bom também). É uma história coesa com seu tempo e com seu espaço, momento e lugar, tudo nela tá complicado e perfeitinho. Depois que é um livro super bem escrito, um trabalho jornalístico nota dez e estilístico nota mil. Tem muito romancista hoje em dia que não tem uma voz tão forte como a de Walsh. Tenho a impressão, depois dessa, que vou saber reconhecer qualquer texto que ele tenha escrito. E por último, vale o livro pela experiência forte que mudou a vida do autor. E, como diz Eliane Brum (que não vamos chamar de a mãe do jornalismo cojonudo brasileiro porque ela não é velha, vamos dizer que seja aquela prima independente que desde cedo se mostrou muito safa do jornalismo cojonudo brasileiro), se a história não transforma o jornalista, é porque tem algo de errado. E mudou, amigo, mudou. Vou dizer o porquê.

Operação Massacre fala de uma história que se passa na Argentina da década de 50, época em que Chuck Berry estourava com Johnny Be Good. Coitado do Chuck Berry. Tem gente que acha ruim que o Lobão só tenha feito sucesso por causa daquela musiquinha chata pra diabo que eu já nem lembro o nome e não faço questão de que me lembrem, e desconsideram que o Chuck Berry está a CINQUENTA anos tocando a mesma música no show (sim, eu sei que ele tem outras, Mané, mas pra ouvir Route 66 ninguém paga ingresso). Imagine como deve ser a vida desse cara! Sabe quando você ouve “dança da manivelaaaaaaaaa” e fica com a música na cabeça durante uma tarde inteira? Então, amigo, Chuck Berry está com Johnny Be Good grudada no cérebro há cinquenta anos. Ele acorda com essa música na cabeça e dorme com ela na cabeça, e ninguém garanta que ele não sonhe com ela também. Que terror, meu deus, que terror!

Divaguei porque me compadeci do pobre velho Chuck Berry. Mas dizia eu que, na Argentina dos anos 50, quando a junta militar tomou o poder e o peronismo começava a ser formar como um movimento sólido (e clandestino, o nome Perón foi proibido de ser falado), os militares tavam naquela caça às bruxas que é típica deles, e é típica também do cara mau amado que não faz ideia do que as pessoas estão falando dele e começa a ficar paranóico (façam as analogias necessárias e tirem suas conclusões). Eis que, numa noite de 56, minutos antes de baixar a lei marcial que autorizava fuzilar os terráqueos que fossem presos pelos milicos, a puliçada baixou numa casinha onde uma galera estava reunida pra chogar uma caxeta (Wilmutt), ouvir uma luta de boxe no rádio, etc. Como todos bons agentes da lei, nego chegou lá não querendo saber de nada, não tinha desculpinha, não tinha nervosinho, não tinha fortinho, não tinha necas. Chegaram descendo o cacete e mandaram o teje preso pra geral. Todos foram levados pra uma estrada longínqua, onde desceram do caminhão, fizeram fileiras e amorteceram inúmeras rajadas de balas dos gambé. Entretanto, a parada foi tão mal feita que metade escapou com vida pra contar a história (não lembro do número exato agora, mas acho que tinham doze e sobraram cinco, seis ou sete).

Aí que entra Rodolfo Walsh. O cara tava na dele, escrevendo seus livrinhos policiais (se Dan Brown é o McDonald’s da literatura, romance policial é o Subway: mais saudável, mas ainda assim é fast-food. Ah, e livro do André Vianco é o Bobs), e a oportunidade de escrever essa história cai na mão dele. Ele busca os sobreviventes, entrevista cada um 486 vezes, cruza as informações, monta uma cronologia, ataca a rinite revirando papel velho, passa noites em claro, almoça miojo todo dia, e no final obtém um puta dossiê. Sei que quando a gente fala de dossiê aqui no Brasil, nego logo pensa que é um monte de documento forjado que serve pra tentar derrubar o inimigo político, mas esse dossiê não, esse é dossiê de verdade. Com ele, escreve esse belo livro, com muita perspicácia na narrativa (tem passagens que me deixaram com dor no peito por dias) e, desnecessário dizer e com o perdão da palavra, joga merda no ventilador dos milicos, água no chope do governo, pimenta no cu da Argentina. A parada ia feder pra todo mundo, ele vira o autor da acusação contra o regime. Sim, o autor mete a colher, o bedelho, mete tudo no meio, toma o lado da briga dos caras e entra com um processo. E vocês aí achando que jornalista ainda quer ser imparcial. Tolinhos.

Pois bem, quando a parada tá quase ganha, o tribunal passa a batata pro tribunal militar e lá tá tudo entre amigos, o juiz alivia a barra dos manolos e fica elas por elas. Rodolfo Walsh sobe nas tamancas com essa palhaçada toda, escreve uma carta, fulo da vida, endereçado ao governo, entrega lá na porta, e um dia depois toma chá de sumiço. Suspeita-se que tenham largado o prego nele em alguma esquina, fato é que o serviço foi rápido.

Essa edição da Companhia das letras contém, além do livro, a carta de Rodolfo Walsh que lhe custou a vida, explicações sobre a versão cinematográfica do livro, prólogo para a primeira edição, introdução, apêndice obrigatório, epílogo provisório, outro epílogo, enfim, uma cacetada de textos curtinhos que até são importantes para entender a obra, mas a maioria não tem lá muito valor literário. De qualquer jeito, tá tudo ali, pro leitor conferir que não é caô, um trabalho aí que se deve ao Matinas Suzuki, organizador da coleção Jornalismo Literário. O livro segue o padrão da coleção. Papel pólen, fonte minion, três fotos que dizem muito pouco, quase nada, sobre a história (também, né? Três fotos pra um livro inteiro é sacanagem!). Tradução do Hugo Mader e o resto é ler pra crer. Consegui falar da importância do livro. Espero que sim, porque ele é importante pra mim. E se não consegui, melhor, vou dar uma de indie e guardar meus gostos só pra eu mesmo, e reclamar se virar best-seller. Pô, esse Coetzee tá um vendido, todo mundo tá lendo. Nem gosto mais desse cara *ar de blasé*.

Comentário final: Pior do que tocar a mesma música por cinquenta anos é ter essa música arranjada pelo Cidade Negra num acústico. Obrigado, Chuck Berry, por não estourar os miolos depois dessa, você é um bravo.