Michel Houellebecq – Plataforma (Plateforme)

Quem começar a ler Michel Houellebecq por esse livro vai falar “Ôxe, que livro triste da porra!”. Mas isso é um erro. Plataforma é, na verdade, o livro mais alegrinho da carreira literária do escritor francês radicado na Irlanda. Não que ele tenha escrito muitos livros. O sujeito é um preguiçoso. Estamos desde 2004 sem um livro novo dele. Quer dizer, teve um, o Enemies Publiques, uma troca de cartas mais chata que disco do Los Hermanos entre ele e um outro escritor tristonho da França. Um fracasso editorial, diga-se de passagem. Porém, antes de seu último livro, A Possibilidade de uma Ilha, Houellebecq escreveu essa obra visionária.

O livro começa com um assassinato. O protagonista, que também se chama Michel, recebe a notícia de que seu pai, um velhinho inofensivo, foi assassinado pelo namorado da enfermeira que lhe cuidava, por um suposto assédio sexual do velho. Com a grana da herança, Michel resolve se bandear para uma ilha da Indonésia e praticar um pouco do abominado turismo sexual. Metido no meio de um grupo de excursionistas e lendo John Grisham (eca!), o personagem tem acesso às mais sensuais orientais do pedaço.

Durante sua viagem, conhece Valérie, uma alta executiva de uma famosa rede de hotéis (fictícia, mas extremamente parecida com a rede Accor). Engajados em um relacionamento aberto, com direito a casas de swing e outras coisas de safado, eles passam a bolar planos para a região: uma rede de hotéis destinada exclusivamente ao turismo sexual. Um ultraje óbvio para todos.

Bom, como todo mundo sabe, turismo é um curso frequente nas faculdades, mas não dá pra dizer que seja uma profissão com uma parte teórica que preste. Pois não é que Houellebecq leu uns turismólogos (com conteúdo ou sem, cabe ao leitor decidir) para escrever esse livro? As citações voam para fora das páginas como moedas pra fora da maquininha de caça níqueis. Os planos de Michel e Valérie percorrem páginas e páginas, permeadas por citações e muita sacanagem (quem curte literatura erótica tá feito com Houellebecq). Sem que nada de triste aconteça. Até o seu final, que eu não vou contar porque eu posso ser babaca, mas não sou esse tipo de babaca. Quem ler vai achar o livro visionário pra caralho, tenho certeza, e posso dizer apenas isso.

O estilo de Houellebecq é aquele francês rançoso, que fica fora da geladeira por um mês e azeda (e não estou falando do queijo). Fazer o quê, o cara nasceu naquele país, não pode esperar um sujeito livre das patinhas asquerosas de sujeitos como Barthes, Guy de Maupassant e até mesmo do argelino Camus. Paciência. Não dá pra dizer, contudo, que o livro é mal escrito. Dentro desse estilo, o sujeito emprega bem seu talento com as palavras, com uma fluidez rara entre aquele povo que gosta de uma putaria, como dizia o Nonato Canivete. Mas o domínio desses filósofos modernos franceses (viu como tô sendo amigo? Até chamei de filósofo!) vai além. Houellebecq ainda não aprendeu a escrever livros sem teses. E o pior de tudo é que ele talvez seja um dos únicos escritores que se sai bem com essa proposta. Disse uma vez e digo de novo. Paciência. Gostamos dele do jeito que ele é, esse feioso.

A edição da editora Record é excelente! Aliás, gosto muito do grupo editorial Record. Só gostaria que eles tivessem um time melhor de escritores. Sai cada merda de vez em quando… Bom, de qualquer jeito, esse livro tá no ponto de bala. Fonte Minion (já disse que essa fonte é foda) e papel Chamois Bulk 70g/m², uma gramatura que é perfeita para livros como esse. Nem muito molenga, nem muito dura, e dá volume às trezentas e poucas páginas dele. Só uma dica pra Record: a gente escreve se o livro é de romance ou conto, ou outra coisa, dentro do livro, ali na ficha técnica. Não precisa colocar na capa, certo? Não é um defeito, é só uma constatação. Não vão me ameaçar de morte igual àquele cara do RP2, hein?

Ah, aproveitem a promoção das Livrarias Curitiba, o Plataforma está saindo pela bagatela de R$9,90 pra fazer caridade, rapaz! Nós aqui já fizemos nosso estoque.

Um PS: escolhi uma foto engraçadona do Michel Houellebecq pra gente rir da cara dele. Então vamos rir: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Comentário Final: 383 páginas em Chamois Bulk. Graças a essa escolha feliz de gramatura e papel, um livro de médio porte pode deslocar uma junta.

Fiódor Dostoiévski – Crime e Castigo (Преступле́ние и наказа́ние)

O post de hoje é antigo. Escrevi para outro blog. É uma exceção criada pela falta de tempo. Perdoem-me por isso.

Comecei com o pé esquerdo com Dostoiévski, mas, coitado, não era nem culpa dele, mas das circunstâncias. Li O Idiota (um livro grande, de umas 700 páginas) numa edição de bolso daquela editora Martin Claret (que dá enjoo igual de ônibus quando eu leio), a poucos meses do vestibular e ainda fazendo auto-escola. Tá na cara que não consegui fazer nada direito (nem a leitura nem a auto escola, o vestibular eu consegui). Quatro anos depois, ganhei de dia dos namorados Crime e Castigo (azar o seu se você ganhou camisa) pela editora 34, a primeira tradução direta do russo e com notas de rodapé que valem MUITO a pena. Enfim, comecei a ler em um mês de leituras “de fôlego” (livros grandes de quebrar fêmur como diria Allan Sieber). Cá estou agora pra falar desta maravilha da literatura mundial.
Não é à toa que esse livro é um clássico. O sujeito tem que ter muita fibra pra fazer um livro de mais de quinhentas páginas não ficar chato, e mais ainda, escrever um troço catilogente o bastante pra passar da estante do vovô pra estante do netinho. Aliás, taí: Catilogente. Esse é o melhor adjetivo pra descrever Crime e Castigo (pronuncia-se Prestuplênie i Nakazánie, saia por aí gastando seu russo). Explicarei porquê.
Para quem não sabe a história, um resumo básico com spoilers: Raskolnikov, um ex-estudante (que legal essa ocupação né?) de direito, resolve matar uma velhinha usurária, a princípio para saqueá-la, mas acaba matando a irmã da velhinha também, e se convence que a justificativa para seu crime está em um artigo que ele mesmo escreveu onde divide as pessoas em ordinárias (que devem seguir a lei) e extraordinárias (o exemplo principal do livro é Napoleão, pessoas a quem as leis não se aplicam, pois tudo é permitido em prol de seus sucessos). O sujeito, entre diversas circunstâncias, não se aguenta mais de culpa e se entrega para enxugar gelo na Sibéria. Isso é o que todo mundo conta pra você sobre a história, né? Pois bem, a parada que eu mais achei foda no livro ninguém me contou: O Raskolnikov passa boa parte do livro podre de doente e inclusive comete seu crime torto de febre, e todo mundo alivia pro lado dele porque acha que ele fala merda por causa da doença. Só que aos poucos ele vai sarando e, conforme o Dostoiévski vai soltando uns traços da personalidade dele, você vai descobrindo que o maluco é um bipolar neurótico (e com outros diagnósticos que psicólogos competentes poderiam tentar descobrir). A construção psicológica do protagonista é a melhor de todas, não desmerecendo os outros personagens, mas não tem como não simpatizar com ele. O mais legal sobre o perfil de Raskolnikov é que ele é um vaidoso sem amor-próprio. Ao passo que todos seus “antagonistas”, como o inesquecível investigador Porfiri, o tiozão tarado Svidrigáilov e o pomposo Lujín são dotados de um imenso amor-próprio, que causa a ruína de dois deles, Raskolnikov defende antes suas idéias do que a si próprio, e isso é um troço manero pra caralho de ver. É o intelecto sobrepondo-se ao próprio suporte (chega de falar bonito agora), na verdade uma espécie de altruísmo com a própria cabeça. E é justamente esse altruísmo que encontra o altruísmo clássico de Sonietchka na história, que termina bem melosa. Aliás, o final do livro é um troço bonito de se ler. Hoje em dia as histórias terminam meio em aberto, com uma frase aleatória do tipo “comprei uma birita e olhei o sol”. O final de Crime e Castigo é lindo. Não tem o que argumentar.

Comentário Final: 554 páginas. Quem gosta de fratura exposta?

J.M. Coetzee – Juventude (Youth: Scenes from Provincial Life II)

O livro de hoje é especialíssimo, não só porque foi escrito por John Maxwell Coetzee, prêmio nobel de literatura em 2003 (e é meu escritor favorito no momento), como também porque o livro em questão é parte da trilogia cujas primeira e terceira partes estão sendo lançadas agora no fim de abril pela Companhia das Letras. Senhoras e senhores, eu lhes apresento: Juventude!

Juventude é o que chamamos de “romance de formação”: Uma ficção autobiográfica que mostra o desabrochar (ui!) do escritor, seja para a vida literária, seja para um caráter de sua personalidade que reconhecemos em sua obra. A trilogia em questão chama-se Cenas da Vida na Província, e é formada pelas obras Infância, Juventude e, no fim de abril, Verão. A primeira parte já havia sido publicada no Brasil sem muita expressão pela editora Best Seller. Como não li nenhum dos outros dois, ater-me-ei ao que vim.

Juventude narra — ora veja! — a juventude do sul africano John Maxwell Coetzee, do fim de suas faculdades na Cidade do Cabo (em Letras e Matemática), à sua fuga/migração (a coisa estava mal para os africâneres naquela época) para Londres, onde passou a trabalhar para a IBM. Isso em 1962, época em que quase ninguém havia visto um computador na vida. O livro, narrado em terceira pessoa sobre ele próprio, é melancólico e exprime uma sensação desagradável, como os seus demais livros. Me marcou por motivos pessoais a passagem em que ele diz que assinala um S nos dias do calendário em que passa em mais absoluto silêncio, sem conversar com ninguém, simplesmente porque não conhece viva alma em Londres e DDI naquela época era um luxo.

Curioso perceber nesse livro, já que foi o único autobiográfico que li sobre ele, como o autor não esconde sua incapacidade para lidar com as pessoas e como se sentia inferior aos colegas de faculdade que dominavam as leituras clássicas na palma da mão (parece que isso mudou e que Coetzee é agora um cara arrogante, embora continue inapto para relações interpessoais).

Li poucos romances de formação (em 2007 encarei a Trilogia da Crucificação Rosada, do Henry Miller), mas Juventude, por mais curtinho que seja, é tocante. Saber que esse sujeito grandioso que é J.M. Coetzee labutou igual nós, reles mortais, numa cidade fria e esquisita que nem Londres numa rotina massacrante, para depois se tornar o rockstar (ele é o mais próximo que eu tenho de um ídolo) que é hoje é realmente animador. Dá-nos a possibilidade de viajar na maionese e aspirar a um pouco mais.

O ruim desse livro, como no livro do Tezza, é achá-lo. Se tiverem sorte, a livraria do Chaim deve ter um ou dois exemplares sobrando dele. Fora isso, internet. A coleção dos livros do Coetzee depois que ele ganhou o Nobel é simplesmente foda. Fonte Electra (um viva pra essa fonte e um Chicabon pra quem me descolá-la) é sempre bem vinda. Telas do sensacional Fábio Miguez (Google já, seu ignorante!) estampam as capas dos oito livros lançados por essa coleção. Por alguma razão que me foge, a Companhia das Letras está reformulando as capas de seus livros. Diário de um Ano Ruim foi lançado com uma capa meio esquisita e até Desonra ganhou uma nova edição com uma capa parecida. Verão vai ter ainda um outro estilo, diferente de todos os outros. É bonito, mas preferiria ter algo mais harmônico na minha estante. É coisa de maluco, eu sei.

Ah, o Irinêo Netto, editor da Gazeta do Povo, escreveu uma excelente resenha de Verão. Recomendo. Leia aqui.

Comentário Final: 184 páginas pólen soft. Sortudo vai ser quem apanhar com esse livro!

Marquês de Sade – Os 120 dias de Sodoma (Les 120 journeés de Sodome)

Levante a mão quem já leu esse livro. Eu sou a única pessoa que eu conheço que, por enquanto, teve estômago para ler de cabo a rabo os 120 dias de Sodoma, de Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade. Escrito em 1785 em seu encarceramento na Bastilha (foi transferido pra lá depois que o Château de Vincennes foi fechado, em 1784). O Sade é um cara assim meio Edward Bunker, passou quase toda a vida preso, seja por perseguições políticas, seja pelas merdas que ele fez com suas prostitutas (reza uma lenda de que ele teria envenenado duas delas “sem querer” ao ter ministrado “pílulas para peidar”. Ele curtia umas coisas dessas).

Tenho uma “tioria” que atesta que quanto menor o tempo que o escritor leva para escrever sobre um assunto, mais presente o tal assunto está em sua vida. Pois bem: os 120 dias de Sodoma foram escritos em apenas trinta e sete dias. Bom, na verdade, a obra nunca chegou a ser completada, pois, dos cento e vinte dias do enredo, foram narrados apenas trinta. Para o resto ele fez apenas o roteiro e a descrição dos dias. Acontece que depois a Bastilha foi tomada, todo mundo picou a mula de lá e o manuscrito acabou sendo deixado para trás, apenas para ser recuperado anos depois. Foi então que essa hecatombe literária veio ao mundo.

Resumo da ópera: quatro ricaços muito pervertidos que comem as próprias filhas resolvem ir para um castelo na Suíça para passar quatro meses de pura sacanagem. Para isso contratam quatro putas velhas (chamadas “musas”) para narrar suas histórias e quatro amas. Seqüestram oito meninas e oito meninos virgens de idade entre 12 e 15 anos para serem arregaçados e ainda solicitam oito “fodedores”, sujeitos de pirocas enormes para enrabar os amigos (eles são chegados nisso também). A cada mês o nível de perversão aumenta. Começa leve: gente que come cocô, vômito, mija na cara, etc. No segundo mês, as “paixões duplas”: incestos mil e os water sports já mencionados. No terceiro, “paixões criminosas”: gente que sente tesão em furar um olho, arrancar um dente, cortar o dedo. Por último, “paixões assassinas”: galera que só se diverte se matar o parceiro sexual. Claro que quem sofre com isso são as criancinhas, que além de serem todas descabaçadas, ainda são lentamente mutiladas até a morte (vocês devem estar dizendo “Chega! Chega! Chega!”).

Há uma cena emblemática: Quando uma das musas narra um golden shower e os nobres mandam deitar uma das menininhas virgens na mesa para receber o mijo na cara, a menina diz algo como: “Pelo amor de Deus, senhor, não faça isso comigo senhor. Estou muito triste porque, na ocasião do meu sequestro, meus pais foram assassinados por seus capangas.” Aí um dos ricaços chega pra ela e fala: “Menina, não se atreva a falar de Deus aqui dentro. Se Deus existisse ele não deixaria a gente fazer isso com você.” Acho que essa cena resume o livro. É a crueldade desenfreada, a busca pelo prazer sem ética, tudo o que as pessoas fazem quando saem pro crime nas festinhas e não se preocupam com quem elas estão beijando, só que com uma lupa de aumento brutal que explicita o horror da coisa.

Ganhei esse livro de natal da querida tia Albinha (desconfio que se ela soubesse do que se trata esse livro, ela teria preferido me dar outra coisa) e o li enquanto pedalava bicicletas ergométricas numa masmorra chamada academia de ginástica. O livro é extremamente bem escrito, com uma prosa da era moderna fluída. Gostei mesmo da proposta do livro e recomendo para quem agüentar o rojão.

A edição da Iluminuras é linda pra caralho. Vem com um marcador personalizado preso à orelha (só destacar). Excelente diagramação e o melhor: um dos melhores desenhos de nada menos que Egon Schiele na capa. Acho que todo mundo que desenha curte, ou deveria curtir Schiele porque as poses que ele desenha não são para qualquer um. (falo mais dele se um dia for falar dos Cadernos de Dom Rigoberto). Papel pólen, pra agradar todo mundo e fonte Garamond, que eu acho meio apagada, mas estilosa demais.

Comentário final: 364 páginas em pólen soft. O pessoal do UDR usa esse livro pra estuprar marinheiros (Alcorão é coisa do passado).

Cristóvão Tezza – Uma Noite em Curitiba

É bem verdade que vou tratar agora de um livro do escritor Cristóvão Tezza que não é dos mais conhecidos de sua carreira. Uma Noite em Curitiba não é, pesando seu impacto na comunidade literária, nenhum O Fotógrafo, nenhum Trapo e certamente nenhum O Filho Eterno. Mas, dos livros de Tezza que eu conheço, ele é um dos mais originais e mais bem escritos de sua produção da década de 90.

Dizia eu no post anterior sobre o Mario Vargas Llosa que o gênero epistolar pode não ser dos mais agradáveis de se ler. E, como coloquei entre parênteses alguns livros de cartas que eu conhecia, fiquei depois pensando em quais obras mais se aventuraram por esse terreno estéril. E esse livro veio à mente. Resolvi então, escrever sobre ele para exemplificar mais um livro bem sucedido de troca de cartas.

Assim como Pantaleão, Uma Noite em Curitiba também é narrativa misturada. A história é escrita pelo filho de Frederico Rennon, um prestigiado historiador que desaparece após cair na infâmia por se envolver com uma renomada atriz que vem para Curitiba. Através das cartas trocadas entre o velado casal, o narrador tenta reconstituir os últimos passos de seu pai, e tentar entender a estranha e forte influência que sua figura paterna exerce sobre ele.

Esse livro é muito especial pra mim, por duas razões: a primeira, porque eu o ganhei do próprio Tezza, ao final da disciplina optativa que ministrava no curso de Letras da UFPR. A segunda, porque acho que Uma Noite em Curitiba tem a abertura mais emblemática de sua carreira: “Escrevo esse livro por dinheiro”. Logo na primeira frase, Tezza ataca, provavelmente sem perceber, a constante de seus livros: um motivo para escrever. À exceção de O Fotógrafo e outros livros escritos em primeira pessoa, todos, absolutamente todos os livros de sua carreira são justificados de alguma maneira por seus personagens. Pode procurar: Juliano Pavolini, o Fantasma da Infância, Aventuras Provisórias, Trapo, etc. Isso pode ser explicado por algumas hipóteses, como por exemplo, um sentimento de culpa inerente pela profissão de escritor, tema sobre o qual ele fala tanto em livros quanto em crônicas já publicadas. Mas talvez a resposta seja a mais simples: é estranho pra cacete escrever em primeira pessoa. Com o narrador onisciente, ninguém faz perguntas, ele escreve simplesmente porque pode. Mas uma pessoa que narra por um livro inteiro sua própria história, ou vivenciada por outrem, cedo ou tarde precisa de uma explicação. Afinal, o que leva alguém a fazer isso (respondam-me, blogueiros que fazem queridos diários de seus sites)? Essa consciência da narrativa justificada Tezza já possuía desde a década de 80 e vocês ainda procurando uma boa razão para ter um twitter, hein?

Apesar da constante troca de cartas (nas quais os pronomes de tratamento vão evoluindo constantemente em intimidade), Uma Noite em Curitiba é dinâmico pelo alto grau de narrativas, que mesmo as próprias epistolas contêm. E mesmo sendo um livro curto, a experiência proposta pelo autor é muito concreta para quem lê.

O grande problema desse livro é encontrá-lo. Desde que o escritor migrou para a editora Record, seus livros antigos publicados pela Rocco viraram artigos raros nas livrarias. Juliano Pavolini e o Fotógrafo ainda conseguem ser achados nas Livrarias Curitiba da vida. Quem sabe a Record também o republique, como fez com Trapo, Aventuras Provisórias e O Fantasma da Infância. Porque, venhamos e convenhamos, a Rocco é ótima pra encontrar novos escritores, mas peca no projeto editorial. Página de offset (não tem mais graça isso, galera!), uma fonte tenebrosa e um cabeço que EU poderia ter feito no microsoft word. E o que é essa capa? Mil desculpas ao Sr. Carlos Dala Stella, cujo mérito artístico não se discute, mas usar o quadro do senhor deste tamaninho nesse fundo branco gelo ficou uma vergonha. Porque não usaram o quadro inteiro na capa? Ficaria ótimo se fosse assim. A ficha técnica do livro também omite muita informação e está bem desorganizada, mas tem um trunfo: o nome de Elizabeth Lissovsky, a heroína que “preparou os originais” do livro (um eufemismo para “decifrou a escrita de Chico Xavier” do escritor. Brincadeirinha, Tezza, mas uma brincadeirinha com um fundo de verdade). Quase uma tradutora do árabe.

Comentário Final: 171 páginas de pesado offset. Se pegar no saco, dói.

Mario Vargas Llosa – Pantaleão e as Visitadoras (Pantaleón y las visitadoras)

Uma injustiça do cão: Mario Vargas Llosa nunca vai ganhar o Nobel de literatura por causa de sua visão política direitista. Às vezes desconfio seriamente que esse pessoal não sabe dar valor a bons escritores, independente de sua vida política (o mesmo vale pro Cèline, que como disse a Albana, quando exclamei dizendo que ele era fascista, “ele mantém seu fascismo a níveis muito saudáveis”). Porque, convenhamos, Vargas Llosa é, de longe, o melhor escritor de língua espanhola da atualidade (dorme com essa agora, García Marquez). O cara domina com maestria todos os gêneros e estilos da literatura: ensaio, romance, contos, até mesmo o gênero epistolar, pilar do livro Pantaleão e as Visitadoras, publicado em 1974.

Quem já leu alguns livros de troca de cartas (Cartas a Théo, a Caixa Preta, De Profundis, etc), sabe que ficar lendo carta dos outros não é a coisa mais divertida do mundo. Falta o dinamismo da narrativa, o livro pode se arrastar. Agora, quem conceberia um livro que é, em sua quase totalidade, um envio de correspondência — não de cartas normais, mas de ofícios militares — com um humor pastelão e escrachado? Vargas Llosa fez isso. Pantaleão e as Visitadoras é um livro absolutamente hilário que conta a história de Pantaleão Pantoja, um oficial do exército peruano incumbido de uma missão ultra-secreta por sua óbvia delicadeza: organizar um serviço de visitadora (prostitutas) em um posto do exército instalado no meio da selva amazônica. O motivo é palpável. Os soldados da tropa, metidos naquele fim de mundo sem civilização por perto, estavam estuprando as índias e mulheres de pescadores locais. O exército, pra não ficar difamado por seus soldados tarados, coloca Pantoja para levar de barquinho umas três ou quatro prostitutas até o posto.

Mas o protagonista é um militar altamente disciplinado. Começa a estudar o tempo de cada “serviço” e vendo que a quantidade de mulheres não é suficiente, logo começa a armar um esquema gigantesco de prostituição, com direito a uniforme, hino e bandeirinhas. Não demora muito a arrumar inimigos e problemas matrimoniais. Contar mais do que isso seria tirar boa parte da diversão desse livro.

A intenção de Vargas Llosa em Pantaleão é, mais uma vez, explorar as falhas e fraquezas das forças armadas. Firmou-se no mundo literário com seu romance A Cidade e os Cachorros, sobre a vida de estudantes do colégio militar, e muitos apontam A Festa do Bode, livro que narra ficcionalmente a vida de Rafael Trujillo, o temível ditador da República Dominicana. Mario, ele próprio, foi um cachorro, um aluno do colégio militar, e conheceu um serviço real de visitadoras quando visitou a selva amazônica em 1958, então escreve com conhecimento de causa cada um desses assuntos.

Falar de um projeto gráfico da editora Alfaguara é falar de todos. Os livros são padronizados numa mesma diagramação, mudando apenas a capa, ou, eventualmente o tamanho da fonte (aliás, alguém sabe a fonte que a Alfaguara usa?). Entretanto, a coleção de livros do Vargas Llosa está fenomenal. É foto da Getty Images? É, mas porra, são fotos muito bem escolhidas. Dos livros já lançados pela editora, me faltam a Guerra no Fim do Mundo e a Casa Verde. Meu aniversário tá longe, alguém aí não quer me dar?

Duas curiosidades: 1ª: Esta edição do livro foi traduzida a quatro mãos, por Paulina Wacht e Ari Roitman (ficou muito boa, por sinal). Inusitado, hein? 2ª O próprio Vargas Llosa co-dirigiu a versão cinematográfica do livro com José María Gutiérrez. Mas o filme não é nem de longe tão bom quanto o livro. Recomendado até os ossos.

Comentário Final: 246 páginas pólen soft de alta gramatura. Se pegar uns cinco desses e juntar em alguém, rola um sanguinho.

Yasunari Kawabata – A Dançarina de Izu (Izu no Odoriko, 伊豆の踊り子)

Deus sabe que não gosto de literaturas muito descritivas. Mas esse livro, A Dançarina de Izu, do japa Yasunari Kawabata, prêmio Nobel de literatura em 1968, bateu fundo no peito. O livro é curto — menos de 60 páginas — e é de uma singeleza que dói. Kawabata escreve o livro como um pintor que não tem dinheiro pra comprar tinta pinta uma tela — economizando em tudo. E como dizem algumas peruas que, quando saem na rua mais parecem árvore de natal, o menos acaba sendo mais.

O livro foi publicado em 1926, e escrito a partir de uma experiência autobiográfica de sua vida de estudante. O mauricinho, então com dezenove anos, faz uma viagem de férias à península de Izu, a oeste de Tóquio. Hospedado em alguns albergues familiares, conhece uma trupe de artistas mambembes de Oshima, uma das ilhas de Izu (procura no Google Earth que é bem bonito o lugar). Uma das integrantes dessa trupe é uma pequena dançarina chamada Kaoru, de treze anos. Ele se encanta com a graça da menina e faz amizade com os outros artistas da companhia, todos de sua idade ou mais jovens do que ele. E ao final de suas férias, ele volta para a cidade grande. Essa é toda a história do livro. Simples, não?

Não dá nem pra chamar isso de Spoiler. A graça de A Dançarina de Izu está na beleza das descrições de Kawabata, das cenas que ele coloca na sua cabeça de uma maneira tão universal que chega a ser difícil haver muitas diferenças nas diversas adaptações que o livro teve para o cinema.

E a gente fica pensando: Como um ser tão sofrido como Kawabata pode ter escrito uma obra tão bonita? Para quem não sabe, o escritor perdeu o pai com dois anos e a mãe com três. Seus avós maternos abrigaram ele e sua irmã mais velha em Tokoyama, Osaka. Com sete anos, sua avó morreu; com dez, sua irmã; finalmente com quinze, seu avô. Ao longo de sua vida, perdeu vários amigos que suicidaram. Até que em 1972, ele passou por uma operação de apendicite que debilitou sua saúde. No mês seguinte, se matou inalando gás de cozinha. O cara é praticamente um coelho sem patas da má sorte total.

A beleza da obra está, eu acredito, na aventura de conhecer um lugar novo com pessoas novas. A trupe, toda composta por jovens, independente em sua arte, itinerante permanentemente ao contrário dele próprio, que está só de passagem. A história velada que cada vida possui, um grupo só de adolescentes (quase uma turma de Garotos Perdidos). O deslumbramento pela menina e o amor impossível que sente por ela (já naquela época essas coisas davam cadeia), não carnal, mas etéreo e idealizado. E depois a volta à realidade.

A editora Estação Liberdade está de parabéns por publicar a obra completa de Kawabata com projetos de capas (para esta, Midori Hatanaka, acrílico sobre folha de ouro. Incrível, hein?) e fonte Gatineau, que eu nunca tinha ouvido falar até ler o livro. Gostei mais ou menos da fonte, acho que até combina com a diagramação que fizeram. O ensaio complementar ao livro, que tem quase o tamanho do romance, é um pitéu. A gente tem que agradecer a esses heróis que se dispõem a estudar esses caras. Meiko Shimon, um abraço pro senhor. E um abraço também para o tradutor Carlos Hiroshi Usirono, que decifrou aquela escrita maluca que é o japonês. Vou ficar devendo suco pra muita gente depois desse blog. A parte chata do livro é, de novo, a merda do papel off-set. Sério gente, parou com isso.

Comentário Final: 101 páginas, incluindo o ensaio, em gramatura alta. Se tacar igual estrelinha ninja, é capaz de decepar a cabeça de alguém.

Pedro Juan Gutierrez – Trilogia Suja de Havana (Trilogia sucia de la Habana)

Estenda sua mão, dê um pescotapa e diga “se liga, mané”  em quem disser que Pedro Juan Gutiérrez escreve de um jeito bem parecido ao de Charles Bukowski. Essa afirmação é de uma imbecilidade que deveríamos ignorar, mas, ao invés disso, vamos explicar direitinho, para encerrar qualquer discussão.

Embora o Realismo Sujo (gênero de Gutiérrez) tenha alguns elementos físicos da literatura beatnik (de Bukowski), a forma como esses elementos são tratados é bem diferente. A principal diferença é que no Realismo, os espaços urbanos não são concebidos para serem o que são, e o personagem realista transite por esse espaço como um estranho, ao passo que os beats (bear, beats, battlestar gallactica) são incorporados ao lugar e sua destruição (boemias, sarjetas, bàs-fonds, etc). É uma explicaçãozinha meio rápida e vazia, mas se você quer aprender alguma coisa a fundo, sugiro não tentar fazê-lo em blogs.

Dizem que o cubano Pedro Juan resolveu escrever esse livro depois de ver uma criança fuçando o lixo em busca de comida, em plena Havana. É uma imagem poética para uma realidade ainda mais dura. Cuba passava por uma grande crise na década de 90, nos anos que se seguiram ao fim da União Soviética, a única amiguinha daquela ilhota em mais de cinquenta anos. Não havia comida, dinheiro, remédios, energia, nada. A maioria dos veículos de comunicação havia sido fechada por intervenção do governo. Para piorar, a vida do autor ia de mal a pior. Tinha três filhos para sustentar (sendo um bastardo), ganhava três dólares por mês e sua mulher estava a ponto de deixá-lo quando descobriu que ele tinha pelo menos umas seis amantes. Ficou completamente abandonado. E então escreveu essa coletânea de contos duros, crueis e desencantados com a realidade do país.

Tem de tudo na Trilogia Suja. Estupro, tráfico de órgãos, de drogas, de comida, tráfico de tudo na verdade, assaltos, assassinatos, e muito sexo, sempre. A literatura de Pedro Juan recende a cecê de longe. Difícil ler este livro e não se sentir incomodado pelas situações ali descritas, em uma mistura de ficção e realidade.

Hoje em dia, a edição que se encontra é a da Alfaguara (por isso mesmo vou colocar a tag na editora), mas eu li a publicação da Companhia das Letras. Um livro menor em tamanho, com uma fotografia sensacional na capa. Em tons pastéis, o fotógrafo captou muito bem a essência da literatura e da  Cuba de Gutiérrez (aliás, as fotos dos outros livros do autor também são sensacionais). A edição da Alfaguara tem um acabamento característico da editora, que é de excelente qualidade. A capa porém, preferiu privilegiar essa pluralidade (cheio de palavra com pê, hein?) de elementos da cultura latino-americana, colorida e um pouco sombria no conjunto. É bem da cultura cubana, mas pouco tem a ver com a escrita do autor.

Fui apresentado à sua literatura pela amada Carla Cursino, e hoje digo a todos: Leiam Pedro Juan Gutiérrez e sua Trilogia Suja.

Comentário Final: 382 páginas pólen soft molengas. Se quiser fazer estrago mesmo, melhor bater com a edição da Alfaguara.

Ruy Tapioca – A República dos Bugres

Vamos botar a mão na consciência e admitir que, em se tratando de literatura brasileira contemporânea, não são muitos os autores novos que se destacam. Por isso mesmo, quando aparece um, é preciso arregaçar as mangas para fazer saber que ainda existe gente que presta na literatura desse país, mesmo que o escritor em questão não seja necessariamente novo. Ruy Tapioca já é um senhor, e iniciou sua carreira de escritor depois de sua aposentadoria. Desde 1999, tem quatro livros publicados. E pergunto: Você já leu ou ouviu falar do gajo?

Pois é justamente sobre A República dos Bugres, seu romance de estreia, que trataremos neste post. O livro foi agraciado com o Prêmio Guimarães Rosa de Literatura , entre outros prêmios igualmente importantes, e é um sucesso somente no meio acadêmico. Foi na faculdade de Letras que o conheci. A querida professora Marilene Weinhardt ministrou sua disciplina de Teoria Literária e Teoria da História baseada neste livro, que é uma ficção histórica de primeira que abrange quase todo o século XIX, e que tem como um de seus protagonistas um suposto filho bastardo de D. João VI que vem para o Brasil junto com a família real em 1808. A mistura entre personagens reais e inventados é perfeita pela escolha dos personagens reais (caricatos demais para terem existido) e pela profundidade de construção dos inventados. Se você ler o livro, tente descobrir quais existiram de verdade. Garanto que terá uma surpresa ou duas.

Não podemos ignorar também o domínio do autor sobre o estilo literário da época do império. A escrita de A República dos Bugres é um show à parte. Também pudera, teve aula de redação com Machado de Assis (Opa, que maldade! Brincadeira, Sr. Tapioca!), que aliás faz ponta no romance. Pra quem curte uma erudição literária, essa obra-prima promete molhar a roupa de baixo de muita gente.

E também há o humor. A República dos Bugres é um livro engraçadíssimo. De gargalhar mesmo, como poucos. Aliás, por se tratar de uma ficção histórica sobre o Brasil que aborda o tema com esse humor e estilo rebuscado, gosto de fazer um paralelo com a portentosa obra Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Mas, João Ubaldo que me perdoe, mas A República dos Bugres bate as 700 páginas de Viva o Povo Brasileiro em muitos aspectos.

Com tudo isso, você deve estar pensando: Por que um livro desses não tá na boca de toda livraria do Brasil? Pois é, amigo, também não sei. Publicado pela editora Rocco, que, vamos concordar que não fez um bom trabalho na divulgação desse autor, o livro tem um projeto gráfico meio tosco, embora tenha sido impresso em fonte Minion, que eu acho irada e cuja versão genérica pode ser encontrada para download na internet. Com um papel offset podrão (ô gente, vamos parar com o offset!) e uma capa com uma pintura realista, uma estética que já saiu de moda na publicação de livros há pelo menos 20 anos. Então, ponto positivo pra Rocco, que publicou este que talvez seja o último dos autores de novos clássicos (e quem escreve ficção com mais de 400 páginas hoje em dia?), mas ponto negativo por não caprichar na publicação desse belíssimo livro, um dos melhores, aqui no Brasil, dos últimos trinta anos.

Comentário Final: 532 páginas pesadas de offset podrão. Se tacar na cabeça dá traumatismo.

Chimamanda Ngozi Adichie – Meio Sol Amarelo (Half of a yellow sun)

Devo confessar que minhas expectativas sobre esse livro quase foram a sua ruína antes da hora. Foi preciso que eu parasse, refletisse sobre a intenção dele, para então começá-lo de novo e dessa vez, sim, entender a proposta da jovem escritora Chimamanda Adichie com Meio Sol Amarelo. A escritora foi minha porta de entrada para a literatura nigeriana (não posso fazer nada se resolveram publicar um livro do Chinua Achebe só no ano passado), e por isso, esperava que o livro não só me apresentasse o estilo da literatura do país, mas também a identidade nigeriana. E foi burrice minha, já deveria saber que literatura nenhuma tem obrigação a buscar esse tipo de coisa para o leitor.

Por outro lado, como J.M. Coetzee muito bem colocou na segunda palestra do romance Elizabeth Costello, o romance africano é escrito quase que exclusivamente para estrangeiros, visto que a população de leitores no continente é muito baixa. Sendo assim, o romancista africano deve construir, em todo livro, uma imagem da África que seja coerente com a idealização que nós, não-africamos, temos do continente, seja ela qual for. E não que Adichie não tenha feito isso. O problema (para mim, em um primeiro momento, pelo menos) era que esse não fosse o foco da obra.

Meio Sol Amarelo conta a história de um grupo de pessoas — mais especificamente duas irmãs, Olanna e Kainenne, que, no final da década de 60, separaram-se ideologicamente por conta da guerra civil que culminaria com a fundação de Biafra, o estado independente do povo ibo que existiu por três anos, até sua dissolução, em 1970. Enquanto o grupo, que é formado também por um jornalista inglês e um menino do interior do país, luta para sobreviver, rolam umas brigas familiares e um troca-troca de casais que eu achava que não tinha nada a ver com a história.

Acontece que justamente a briga familiar e o troca-troca de casais é a verdadeira história do livro. A guerra civil foi o momento histórico que costurou todo o enredo e foi responsável pelo desfecho de cada um dos personagens, mas não era a intenção da escritora entrar em muitos detalhes sobre o episódio (embora haja sim, algumas discussões políticas). Para fazer um comparativo de fácil compreensão, eu estava irritado como um alemão que pega o Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo, para ler, e espera tomar conhecimento de cem anos de política nacional. Foi aí que percebi o porquê de Meio Sol Amarelo ser um Best-seller da língua inglesa (mais de 320 mil exemplares, se não me engano). Quem lia esse livro, o lia como um romance de amor em tempos difíceis, como um desses dramas de guerra ou algo assim. Um evento histórico que muda a vida de algumas pessoas. Mas nunca como uma análise sobre o episódio.  E assim, entendida essa questão, preciso dizer que a leitura da moça não é capaz de pegar na veia.

Talvez esteja fazendo uma leitura muito simplória desse livro, mas acredite, já tentei fazer a leitura mais difícil dele também. Traduzido para 27 línguas, ganhador de alguns prêmios (entre eles o Orange Prize, que só dá prêmio pra esse tipo de livro, quase), uma belíssima publicação da Companhia das Letras que — pasmem vocês — não teve a capa feita pelo João Baptista da Costa Aguiar (foi uma artista chamada Mayumi Okuyama, que fez algumas outras capas, como o do livro A Outra Vida, do escritor Rodrigo Lacerda), tudo isso não fez a obra bater no coração. Mas tudo bem. Não deixa de ser uma boa leitura só porque não é especial.

Comentário final: Pesadas 502 páginas pólen soft. Quebra umas costelas facilmente.