Vídeo: Um Lugar Perigoso, de Luiz Alfredo Garcia-Roza

Vlog do Livrada! de volta no fim do ano para comentar o livro novo do grande Luiz Alfredo Garcia-Roza e, de quebra, falar um pouco sobre literatura policial e seus novos rumos por aqui. Aproveitem que é só hoje! Mentira, vai ficar aí pra sempre, pode aparecer quando quiser, mas não se esqueça de se inscrever no canal!

vlog

 

É uma imagem, queridão. Cê ainda não aprendeu?

Sándor Márai – As Brasas (A Gyertyák Csonkig Égnek)

sandor maraiLivrada! Diário de bordo: no arquivo de word gigantesco do Livrada!, estamos na página 270, o que é coisa pra dedéu. Impressionante como essa coisa chega longe por insistência do burro velho aqui e ainda não ganho dinheiro nenhum com esse troço. Vou começar a fazer chantagem emocional com vocês: o dia que acabar com essa joça, vocês vão chorar, hein? Mas vocês não vieram aqui para ouvir as minhas lamúrias financeiras, vieram aqui pra se regozijar com a boa e velha crítica literária rasa e gratuita que fazemos hebdomadariamente nesse espaço há quase meia década.

Peguei As Brasas pra ler porque literatura húngara é uma pedra no meu sapato. Não consigo gostar muito dos autores húngaros que me aventurei a ler até hoje (aliás, por que, afinal de contas, chamamos o país dos húngaros de Hungria mas o país dos búlgaros de Bulgária?), mas por indicação de um amigo, peguei pra ler e ainda por cima mato um item do Desafio Livrada! 2014, por que não?

Pois bem, meu primeiro comentário sobre esse livro, e talvez ele seja inédito na história da crítica literária mundial, é a sua proximidade com o livro do Hermann Broch, Pasenow ou o Romantismo, parte 1 da trilogia d’Os Sonâmbulos. A relação é mesmo muito estreita, veja: ambas as histórias tratam de militares que perdem o referencial de dever e de valores com a queda do império Austro-Húngaro. Enquanto o livro de Broch fala de um militar austríaco, Márai fala de um velho general húngaro que aguarda a visita de um amigo de infância que, assim como ele e como o melhor amigo de Pasenow, também fora militar, mas largara a farda para viajar o mundo e ser uma pessoa normal. Ainda por cima há um triângulo amoroso a ser estabelecido e uma discussão sobre fatos, invenção e memória, valores e sentimentos, tudo aquilo que Broch se dignou a discutir em Pasenow. A semelhança entre os dois livros é tremenda, mas a condução deste é diferente, por óbvio.

Sandor MaraiNa história de Márai, o general, que nascera de uma família abastada, confronta o amigo de infância que não vê há 41 anos, depois de um incidente durante uma caçada que o deixara perplexamente com a pulga atrás da orelha. Parece que o amigo teria levantado a arma e feito mira no general para matá-lo, mas ele não tem certeza. Ainda precisa medir e avaliar qual foi a relação que teve com a mulher dele, morta oito anos depois da partida do amigo, e, como diz o Machadão, amarrar as duas pontas da vida. Ver como o amigo passou de amigo a ameaça, onde a confiança se perdeu, quais motivos, etc. De modo que As Brasas é, quase que inteiro, um diálogo. Aliás, um monólogo, praticamente. O que pode deixar o ritmo do livro um pouco lento pra você que tá acostumado com os Dan Brown da vida, mas seja menos preguicinha e encare um monólogo de 170 páginas que não tenha muitas frases de efeito como o De Profundis, vai.

O grande mérito de um livro de monólogo fica mesmo então, em dois elementos: 1- a construção dos personagens, da mais tenra infância a uma velhice amarga, os dois amigos são profundos em suas personalidades e as opiniões que cada um traça são claros frutos da criação que cada um teve. 2- a narrativa do autor, que é mesmo impressionante e muito bem feita. Sei lá, devia ter algo naquela água austro-húngara. E no fim, a crítica a respeito do conteúdo dá muito pra aproveitar do que escrevi sobre o Hermann Broch, e como sou um blogueiro relapso, vou deixar o link aqui de novo, rá.

Companhia das letras padrão, tem o Charles DeGaulle na capa e tudo mais. Não tô afim de falar do projeto gráfico hoje, quem manda sou eu e só de falar que eu era preguiçoso fiquei realmente com preguiça :P.

Comentário final: 182 páginas de papel pólen soft. Quando vocês chegarem no final, vão entender porque o livro chama As Brasas.

As Brasas cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

14- Um livro que algum amigo te enche o saco pra ler

Vídeo: Milan Kundera – A Festa da Insignificância (La Fête de L’insignifiance)

Você ainda gosta de ver vlogs? Espero que sim, porque o nosso está apenas começando e ó, tá ficando legal. Nesse, comentamos o best-seller tcheco Milan Kundera e colocamos alguns pontos simples de entender em um livro meio complicado de sacar. Mas, como dizem pra todo mundo que já fez uma cagada nessa vida, o que vale é a intenção.

Já falei pra se inscrever no canal? Vou falar de novo, porque precisa. Me ajudem a ficar rico, gente.

Já falei que isso é só uma imagem? Você tá tentando apertar o play até agora e achando que o que tá abrindo na outra aba é pop-up desgraçado. E tá errado.

livrada

Ryszard Kapuściński – O Xá dos Xás (Szachinszach)

jornalismo literarioE ainda dizem que o polonês é uma língua difícil. Xá dos Xás = Szachinszach. Xáxinxáx = Xá dos Xás. É só deixar a intuição fazer a sua parte e começar a ler Bruno Schulz, e entender o que você quiser entender, é claro. Mas bem, os senhores e as senhoras não vieram aqui para ter lições de polonês comigo, que no máximo improviso um versinho ou outro de ogórek ogórek ogórek zielony ma garniturek e não tô aqui para destilar mais do que isso dos meus conhecimentos filolololológicos. Estou aqui para falar desse livrorreportagem do grande mestre da arte Ryszard Kapuściński, esse polaco que deveria ter morrido antes do tempo umas 70 vezes e não morreu. Kapuściński cobriu guerras e escreveu sobre déspotas memoráveis, e ajudou a entender o lado feio e sujo do meio do século 20, lado esse que as pessoas até hoje não sabem pelo simples fato de não ligarem a mínima para o que acontece nesses países. Assim foi com o Irã e sua dinastia Pahlevi.

O livro, obviamente trata disso. Se você não sabe – e tudo bem, ninguém aqui está julgando o fato de você ter feito supletivo – xá é o título dado ao monarca no irã, e é esse o título porque quer dizer “rei”, em persa. Xeque-mate, o rei está morto, você já deve ter escutado isso em algum lugar ou lido em algum almanaque de cultura inútil. Pois bem, o Irã tem uma longa história de xás que massacraram o povo apenas para depois serem mortos ou exilados. É uma história cíclica, e a dos Xás Pahlevi tem muito a ver com o que está acontecendo hoje com o Estado Islâmico – de novo, se você não sabe o que é Estado Islâmico, a gente não julga, MAS…

O primeiro xá é o Reza Pahlevi, um homem de formação militar que ascendeu ao poder e que mais ou menos conseguiu manter tudo em ordem, se é que pode se chamar aquilo de ordem. O Irã não é essa potência cheia de petróleo e gente perigosa que é hoje, antigamente era só mato, deserto e pobre. Nem carroça tinha. Mas o filho, o xá Mohammed Reza Pahlevi, diferentemente do pai, não lidou tão bem com as coisas. Ele era, segundo o autor, um cara inseguro, que precisava ser bajulado, vaidoso e arrogante, e quando seu primeiro-ministro Mohammed Mossadegh resolveu nacionalizar o petróleo iraniano (e o império britânico sofreu uma queda porque até então eram eles quem mais ou menos mandavam por ali), a promessa de um país bilionário botou o Xá pra trabalhar. Assim, ele começou a querer industrializar o Irã, sem perceber que as coisas mais básicas ainda faltavam. E o povo ficou mais irado, e com o povo irado, o movimento nas mesquitas se intensifica, e eis que surge a voz incansável, serena e monocórdica do aiatolá Khomeini, que inspira a articulação do movimento contra o xá. Mas aí já tô contando demais sobre a história e pouco do livro.

Ryszard_KapuscinskiFalemos do livro. Não é à toa que Kapuściński foi o que foi. A escrita dele é um misto de crônica, relato jornalístico, remontagem histórica, ensaio e leves tons de escrita ficcional, tudo misturado num blend gostoso típico desses gênios da raça que surgiram naquele século (Norman Mailers da vida). De modo que ler O Xá dos Xás é algo que você tem que fazer nem que seja pra falar “mas que desgraçado esse sujeito que escreve tão bem e rodou o mundo e viu de perto a história acontecendo… que desgraçado mesmo”. E, claro, aprender um pouco sobre a história do Irã, como já disse, é entender também um pouco do que ocorre no Oriente Médio. Os governantes colocados no poder pelos interesses do ocidente, o descontentamento do povo com a falta de perspectiva e o levante capitaneado pela ideologia formada dentro das mesquistas torna a história cíclica como os espertinhos sempre falaram que era. De modo que O Xá dos Xás é uma aula de boa escrita, de história, de geopolítica e de como viajar pelo mundo (aprendam, seus fanboys da Disney).

O livro faz parte da coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras e é fiel ao padrão de quatro fotos e um textão, uma capa gráfica e um posfácio pra exaltar o autor e o livro em questão. O problema é que achei que nesse caso em específico, o livro carecia de mais fotos. Quem não queria relembrar a beldade de dona Soraya, mulher do Xá, e de ver o levante dos povos, e mesmo as fotografias de que o autor fala na segunda parte do livro – a maior delas, que centraliza o tríptico. Intitulada “Daguerreótipos”, ele conta a história através de fotografias antigas de que dispõe. Por que não podemos ver essas fotos também? Not cool, bro. Not cool.

Comentário final: 197 páginas em papel pólen. Xuxuxu Xaxaxau.

Juan Pablo Villalobos – Festa no Covil (Fiesta en la Madriguera)

festa-no-covil1

 

Surprise, motherfucker! O livro de hoje vai ser comentado em vídeo. Esse é o primeiro videolog do Livrada!, e nele dou uns pitacos sobre esse maravilhoso livro desse maravilhoso escritor mexicano. Espero que gostem!

O Livrada! agora é um site multicanais, e apesar de sermos antigos no WordPress, somos novos no YouTube, por isso qualquer tráfego por lá é bem vindo. De maneira que é extremamente importante que, para dar prosseguimento a esse troço (que dá mais trabalho do que escrever um texto, vai por mim), vocês se inscrevam no canal, curtam o vídeo e comentem por lá. Ou, sei lá, não precisa curtir, mas comentem, linkem, compartilhem. Como diria um certo banco falcatrua, vamos fazer juntos?

livradavlog

Isso é só uma imagem, amigo. Mas é só clicar nela que você vai direto pro vídeo.

Ian McEwan – Na Praia (On Chesil Beach)

on chesil beach

Bem-vindos ao post nº200 do Livrada! Tamo aí na atividade, contrariando as estatísticas.

Ian McEwan! Esse é o escritor que a garotada gosta de ler hoje em dia! E por quê, vocês me perguntariam. Por que um inglês metido a besta que escreve livros de títulos pomposos como Reparação (que no cinema vira Desejo e Reparação, uma vibe meio janeaustiana de fazer romances de saia frufru) e escreve esse romance curto de hoje faz tanto a cabeça da meninada? Vamos tentar responder a essa e a outras perguntas no post de hoje. E desde já, aviso: tem spoiler. Tem spoiler pra caralho, tem spoiler no teu cu, tem spoiler pra sempre.

Deixa eu ajeitar meu óculos aqui, botar minha cara de intelectual, e pronto. Bom, senhores, Na Praia poderia muito bem se chamar “Uma história sobre o casal mais travado do universo”, se os romances tivessem títulos explícitos assim. Mas não, o escritor sempre tem que colocar um título maneirinho, pra ser maneirinho e fazer maneirices enquanto escreve, de modo que você não sabe porque o livro chama Na Praia além do fato de se passar num balneário até mais ou menos o final dele, quando você mais ou menos saca porque ele chama Na Praia, mas também não tem muita certeza porque, por Deus, pro sujeito ter colocado um título enigmático desses, tem que ter mais de cinco significados pelo menos, não é? É mais ou menos assim que você pensa e aí está a parte do fascínio do autor, porque, tirando a parte do título, o resto do livro é bem fácil de entender, e você se sente lendo uma parada muito superior ao que você realmente acha que está lendo, mas acho que se eu explicitar a história um pouquinho vocês vão entender melhor do que eu tô falando.

Os dois personagens principais são Edward e Florence, um jovem casal que, no começo da década de 60, está em noite de núpcias e ambos são virgens. A partir daí, o escritor vai revelando o background dos dois, e quem lembra da minha última resenha, a do livro do Hemingway, pode trazer à baila aqui a questão da construção dos personagens. Pois bem, amigos, McEwan é um desses escritores que se empenham em construir personagens complexos pra caramba e partir deles, descrever uma única situação. Pois bem, ele é um underachiever sossegado na vida que tem muito pouca sorte com as mulheres em um momento de explosão de sexualidade e revoluções culturais a cada minuto. De modo que ele queria fazer parte da putaria, mas não pode porque não sabe chegar chegando. A mulher dele, por sua vez, Florence, é uma violinista esquisitona de uma família aristocrática. Ela é completamente assexuada e despreza a ideia de fazer sexo com alguém, mas hey, a sociedade bota pressão pra tanta coisa que vamo nessa, né? Só que a coisa dá tremendamente errado, o sujeito tem ejaculação precoce, a mina quase vomita de nojo de receber uma gozada na barriga e o que se segue é uma briga feia que bota em cheque tudo aquilo que eles deveriam gostar, mas não gostam. E aí aparece toda a questão de uma geração no meio do caminho da mudança, e o quanto esse negócio de mudança de paradigma e tradição faz uma bagunça na cabeça do peão quando os pilares vão caindo.

na praiaAcho que no final das contas, Na Praia é um livro que a galerinha curte porque 1- é curto. 2- fala de sexo. 3- é engraçado. 4- se pretende profundo e certeiro no recorte da geração. 5- tem personagens muito bem construídos e uma narrativa excelente. É impressionante a precisão da escolha de palavras dele para descrever as coisas mais complexas, é algo que eu gostaria de ter mas não tenho e todo mundo que lê esse site pode perceber isso sem maiores dificuldades.

Esse livro é da Companhia das Letras e tem uma capa linda assinada por um artista chamado Angelo Venosa, que na verdade é um escultor e tem um site legalzinho com as instalações dele, mas não tem essa pintura maneira (que eu espero que seja uma pintura, e não uma foto saturada), e por dentro é aquela coisa: fonte Electra (ainda adoro essa fonte, depois de todos esses anos) e pólen bold porque é isso o que você faz quando o livro é muito fino e o autor não é pouca merda. A tradução é do Bernardo Carvalho, que há de ser o que temos de melhor hoje em dia por essas bandas em termos de ficcionista, e se dão um texto pra um escritor consagrado traduzir é porque o sujeito não é pouca merda mesmo. Então fica aí a dica e a pressão que esse povo faz: leia McEwan.

Comentário final: 128 páginas em papel pólen bold. A propósito, li esse livro quando estava na minha terra natal: uma praia. Oh!

PS: ainda sinto falta dos comentários de vocês. Não apenas porque eu gosto de saber o que vocês pensam dos autores que eu resenho aqui, mas também porque isso ajuda a ranquear a página, então pense que o comentário é o riso pro palhaço 😀

George Orwell – Na Pior em Paris e Londres (Down and out in Paris and London)

Down and out in Paris and LondonAntes de começar um post de hoje, queria fazer uma DR aqui com vocês. Vem cá, eu fiz alguma coisa pra vocês não comentarem mais nos posts? Todo mundo continua lendo que eu sei, e o espaço pra fazer comentários fica lá no final do texto, junto com as tags, se é essa a desculpa que vocês vão usar. Agora, se alguém está se sentindo com a liberdade de expressão tolhida neste espaço democrático, fazer o favor de assinar três vias, passar no setor de timbragem e começar a criar vergonha na cara porque comentário pra blog é que nem risada pra palhaço – a gente sabe que é pelos motivos errados, mas aceita de bom grado todos eles como fruto de um bom trabalho. Então, por favor, não se acanhem. Fim da DR.

Comecemos aqui a tecer  a genialidade de George Orwell em seu relato mais vanguarda, genial, duro, chocante, lindo e fedorento, o livro de memórias Na Pior em Paris e Londres. Diferentemente de livros que sugerem que o sujeito ficou na pior, tipo Paris é um Festa, Orwell, esse gênio subestimado da literatura (vou passar o texto todo chamando ele de gênio que é pra ver se alguém me ouve, já que não me ouvir parece ser o maior mal desse país), realmente comeu o pão que o diabo amassou nessas duas belíssimas capitais e destino certo de jovens adolescentes idiotas que querem, meo, fazer uma trip pela Europa, tá ligado? Pegar umas gringas e ficar muito lokooo uuuhulll.

Orwell já perambulava pela Europa quando era jovenzinho, tendo estudado aqui e ali em Londres, mas foi pra Paris pela aura mágica da cidade-luz para ver se vinha a inspiração que veio para tantos antes dele. Só que aí ele começou a se ferrar, primeiro teve uma tuberculose em 1929, depois foi roubado e começou a trabalhar de plongeur num restaurante de um hotel chique em Paris. Aí começa a saga do nosso Dante moderno pelo sétimo círculo do inferno (não acham um saco quando um crítico literário começa a falar coisas como “O nosso Dante moderno”, “Esta Beatriz da periferia”, “a Capitu do terceiro milênio”. Como se esse povo já não fosse metido o bastante). Orwell realmente passou fome, viveu com menos de dez centavos por dia e empenhou tudo o que tinha para viver a base de uma dieta de pão e cigarro. E a vida de lavador de prato era das piores, trabalhando dezesseis horas por dia em condições análogas a de escravidão. Agora digam vocês quantos dos seus veneráveis escritores da torre de mármore teriam culhão pra fazer um lance desses? Veja, ele podia pedir penico, voltar pra Índia e tudo mais, mas aguentou a barra ali pela vivência e pela determinação. Como não se admirar com esse gênio, que, além de tudo, é humilde ao traçar suas claras e simples linhas sobre o luxo, a pobreza, a fetichização do trabalho braçal e a vida do plongeur?

George OrwellDepois de Paris, ele vai pra Londres, onde, aparentemente, a mendigagem é uma prática institucionalizada, com profissionais do ramo, rota de albergues e manuais de como conseguir dinheiro na rua. Só que ser mendigo na Inglaterra não é um troço tão fácil de se aceitar na cachola por causa do calvinismo e da sua relação direta entre salvação e trabalho. A galera inglesa é doutrinada no workaholismo, e por isso ser mendigo em Londres requer um esforço a mais. Mesmo assim, lá foi o nosso gênio, nascido no protetorado britânico, provar que também aguentava mais essa, enquanto a grana de uns escritos dele ainda não chegava. Passou de albergue em albergue sentindo catinga de inglês (dividi um albergue com um velho londrino em Amsterdã uma vez. Até hoje sinto vontade de vomitar quando lembro do cheiro daquele coroa, e ele nem era mendigo!), comendo sopa rala e vivendo na sujeira sugismunda mesmo. Mas aguentou e escreveu um dos livros mais geniais que tive o prazer de ler este ano. Recomendo pra todo mundo a obra desse gênio.

E por que recomendo a obra desse gênio? Primeiro, pelo relato. Segundo, pelos insights. Terceiro, pelo ineditismo e pelo vanguardismo da coisa. Quarto, pelo spotlight. Quinto, porque eu gosto de recomendar coisas pra vocês. Depois vocês levam minha recomendação a sério e eu me sinto importante. Sexto, porque veio na edição nova da Companhia das Letras da coleção do Orwell, e antes disso era parte da coleção de Jornalismo Literário, e acho que a Companhia das Letras precisa de muito incentivo pra reimprimir livros velhos e maravilhosos e não tão vendáveis, já que estamos entrando na era da imbecilidade e muita coisa boa tá esgotando e não sendo mais reimpressa (quero os Cormac McCarthy e os John Updike de volta, dona editora!). Sétimo, porque é aquele caso raro em que a literatura brota da vivência, e de uma vivência vivida não necessariamente nem exclusivamente para servir à literatura, mas para edificar o espírito humano de quem escreve, o que só deixa tudo mais perfeito e genial. E oitavo, porque Orwell é um gênio, e não foi com 1984 nem com A Revolução dos Bichos que percebi isso, mas com Na Pior em Paris e Londres, desde já meu livro favorito dele. Mesmo sem discorrer muito sobre o livro, acho que dá pra perceber o porque eu gosto dele. É um livro tr00, sincero, singelo e cheio de aventuras e sabores só experimentados na extrema pobreza. É assim que ele conta, por exemplo, como aprendeu o truque de comer pão com alho, porque o gosto do alho fica na boca depois de um bom tempo, e isso dá a impressão de que você comeu recentemente. Ou como ele parava na frente de uma vitrine para esbofetear o rosto antes de pedir emprego, porque ninguém dava emprego para gente de rosto pálido, morto de fome. Era preciso fingir que se estava melhor do que se realmente estava. Enfim, essas pequenas malandragens do miserê total. Fica a dica (stay the dick).

Comentário final: 256 páginas em papel pólen soft. Gênio! Orwell Gênio!

Allen Shawn – Bem que eu queria ir (Wish I could be there)

wish i could be thereLer não-ficção é sempre bom pra desopilar a mente de narrativas que sugam toda a sua atenção e sua capacidade de abstração pra uma história que pode se revelar muito pouco merecedora do esforço.  Dentre as não-ficções boas para isso, os ensaios livres, aqueles em que o cara usa muito pouca referência acadêmica ou, pior, ignora qualquer referência e escreve as ideias dele sobre o tema, são as melhores porque a coisa da arte ativa vai embora e dá lugar a uma conversa boa entre você e o autor, na qual você senta e escuta e ele fala. O livro do Allen Shawn, Bem que eu queria ir, é assim. Uma conversa leve e edificante sobre o mundo das fobias.

Shawn é um compositor nova-iorquino, autor de muitas peças eruditas e populares. O pai dele era editor da revista The New Yorker, que é, para muitos, a melhor revista de todos os tempos. Mas tanto ele quanto o pai cresceram me meio a muitas fobias. De lugares abertos, de lugares fechados, de avião, de elevador, enfim, aquela coisa toda. E, diante da sugestão de um amigo de escrever um livro sobre suas fobias e de como elas atrapalham sua vida, o músico resolveu basicamente pegar tudo o que estava ao seu alcance e escrever um pequeno compêndio misto de experiências pessoais e estudos sobre a questão das fobias.

Assim, existem capítulos que tratam de psicanálise, de neurologia, da percepção do medo no mundo da arte, de outras pessoas célebres e fóbicas como ele, de lembranças de sua primeira infância, das relações com seus familiares – dos quais, sua irmã gêmea Mary, deficiente mental, parece desempenhar um papel preponderante em sua personalidade –, enfim, tentou fazer uma compreensão macro da coisa, pra não deixar nenhuma aresta.

Esse caráter heterogêneo também dá ao livro um ar meio indefinido. Afinal, Bem Que eu Queria Ir é um livro sobre fobias, ok, mas a que ele se propõe? Explicar a vida do autor a partir de tudo o que já se estudou sobre o tema e a partir de experiências vividas? Ou, ao contrário, legitimar os estudos diante de suas vivências que, acreditem, não são nada demais aos olhos de qualquer pessoa não-fóbica.  Mas que, de alguma forma, te fazem pensar em como seus medos são definidos pelo meio e são um reflexo do medo dos pais. Tudo isso faz muito sentido se você fizer um paralelo inocente com a sua própria vida.

fobiaAlém de indefinido, porém, o livro é meio irregular. Existem capítulos que são extremamente monótonos e outros que são bacaninhas mas, no geral, não é uma leitura tão empolgante. A vida do cara não tem nada demais, como eu disse e, sinceramente, também não sei o que eu estava esperando quando resolvi ler esse livro. Talvez ler umas coisas engraçadas do tipo “rá rá! Olha o que esse bobão tem medo de fazer”, mas a coisa não vai por esse caminho – infelizmente, porque se fosse, seria um livro mais engraçado, embora menos informativo. Ainda assim, o caráter didático da explicação de Shawn coloca um lampejo de alegria nos olhos de estudantes amadores de psicologia, uma raça que parece se propagar sem maiores motivos além de entender porque, afinal, a gente é tão zoado assim.

Como leitura de ensaio, Bem que eu queria ir é minimamente divertido, mas não sacia a sua sede de ensaio nem sua curiosidade sobre o tema, já que ele trata apenas de coisas muito pontuais e já que nem a própria ciência consegue dar conta das fobias humanas por enquanto. E como os estudos psicanalíticos de Freud são bem recentes e não há uma narrativa que mostre a evolução do ramo e de sua preocupação (como há, por exemplo, no glorioso O Imperador de Todos os Males, do Sidharta Mukherjee), também ficamos a ver navios nessa. Mesmo assim, o livro entrega o que suas 300 páginas prometem. Só não se empolguem muito.

O projeto gráfico do livro sim, é uma beleza. Fonte Electra, papel polen, capa em papel cartonado e uma arte de fazer inveja nos designers da Cosac. No mais, é o padrão da Companhia das Letras. Chuchu beleza.

Bem que eu queria ir cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

5- Um livro que não foi te indicado por ninguém

12- Um livro de não-ficção

Comentário final: 311 páginas em papel pólen. Quem tem medo de Livrada?

Orhan Pamuk – Neve (Kar)

orhan pamukBom dia, amiguinhos, já estou aqui, emendando um prêmio Nobel no outro neste fim de ano maluco de black fridays e adjacentes. O livro de hoje é um calhamaço e, sinto dizer, é o último deste ano resenhado aqui. Não fiquem tristes, porque a razão do recesso não é outra senão a nobre construção de um banco de resenhas que me faz muita falta. É um pouco frustrante para um sujeito que escreve periodicamente sobre livros ter de escolher suas leituras pelo tempo que elas vão consumir, para termos material toda semana, e qualquer um que entenda um mínimo de literatura sabe que isso não pode e não deve ser critério para ninguém, muito menos para um cara como eu, que procuro boas leituras sempre. Ter um banco de resenhas vai me colocar um pouco à frente das minhas postagens do ano que vem (assim espero) e isso vai me possibilitar pegar um livraço vez ou outra sem medo de gastar mais de duas semanas na leitura dele. De modo que entendam e não fiquem tristes por eu não ser uma máquina de ler livros. Tenho meu trabalho, minhas bandas, minha musculação, minhas propagandas de cueca para fazer, então achar tempo para ler um romance aqui fica muito difícil. Eu consigo, mas não com a qualidade que gostaria. Por último, ninguém tem saco pra ficar lendo resenha no fim do ano, já que todo mundo só está pensando em alugar casa na praia, comprar carrinho pras crianças e fazer piada de fim de ano com suas famílias pelancudas. De modo que, no fim das contas, não vai fazer muita diferença mesmo.

Mas vamos falar de coisa boa, vamos falar de Neve. Neve é talvez o romance mais popular do turco Orhan Pamuk, e vocês logo vão sacar o porquê. Pamuk tem essa rara habilidade nos escritores de hoje de prender a atenção do leitor com um livro de qualidade, que não gire somente em torno de ação ou intriga e suspese, embora seja muito verdade que ele comumente se aproprie de elementos policialescos para jogar a primeira isca. Resumir o romance a isso — uma trama policial –, entretanto, é um pecado digno de fazer você queimar no mármore do inferno.

A verdade é que Pamuk escreve sobre as complexidades de ser turco. A dicotomia de ocidente e oriente, de religião e estado, de fundamentalismo e secularismo e o grande dilema — para onde vai a Turquia no mundo globalizado — não estão muito longe da gente, mas vamos por um momento parar de ser paternalista e tentar fazer vocês gostarem de algo só porque a coisa se aproxima da sua realidade. Não! Experimente também o exotismo, experimente se preocupar com questões que não têm nada a ver com você de vez em quando, experimente a compaixão distante. Você vai ver, vai ser legal.

Em Neve, essas questões estão mais presentes do que nunca. O mocinho é Ka, um poeta quase quarentão que, após morar um tempo na Alemanha, vai à diminuta, pobre e esquecida cidade de Kars investigar o suicídio de garotas novinhas que foram obrigadas a descobrir a cabeça para entrar na escola em nome do Estado secular. O suicídio é o pecado-mor do islã, embora você tenda a não acreditar nisso dada a quantidade de homem-bomba que tem por aí, mas acredite, é verdade. Pois bem, o manto, que representa o islã político, representa também a visão descompassada do país com os movimentos sociais que estouram pelo mundo, mas o suicídio continua misterioso justamente por ser um pecado que garotas tão religiosas a ponto de morrer por vergonha do secularismo não cometeriam.

Mas Kars também é a cidade de Ipek, sua paixão de escola, com quem pretende casar. Rá, tem que ter romance, nem só de política um livrão desse sobrevive, não é verdade? Mas é aí que entra a genialidade de Pamuk, que pega o papel passivo da mulher que só faz romance enquanto os homens fazem política e inverte a coisa: os homens são uns bobos apaixonados e as mulheres é que são as políticas por trás de todos os atos que antecedem um golpe de Estado que toma conta de Kars.

orhan pamukNo meio disso tudo, Kars cria poemas como há muito não criava, e tudo se cria a partir da neve, uma constante na narrativa que a cada hora representa uma coisa, mas que, ao fim e ao cabo, é a expressão máxima da existência de Deus tanto em sua perfeição quanto em sua paz serena que acalma e perturba ao mesmo tempo. A neve desperta poemas que parecem surgidos de outro plano, transforma ateus em religiosos, traz o isolamento e pontua a narrativa com a lembrança constante de que Neve é um romance sobre uma vida que busca sentido após quase 40 anos de existência.

Personagens memoráveis nesse livro, minha gente. Sendar bei, o jornalista que publica notícias que ainda vão acontecer e que não acredita no que escreve; Azul, o terrorista clandestino que tem verdadeiro amor por sua própria imagem de terrorista; e Fazil (i sem pingo aqui, não sei qual é o significado,mas acho maneiro), o estudante que às vezes acredita demais no etéreo, e às vezes não acredita em absolutamente nada.  Todos eles, de alguma forma, representam a personalidade esquizofrênica da Turquia, já comentada antes. O resto é história, e a história deve ser lida e não contada num blog mequetrefe que nem funciona direito em dezembro.

Ah, esqueci de dizer uma coisa. O narrador da história também é um escritor chamado Orhan, que também é escritor. É engraçado como o Orhan da história se mistura ao escritor Orhan Pamuk, que às vezes não sabe do que não viu e às vezes é onisciente o bastante para saber os detalhes mais íntimos de momentos insignificante da vida de Kars, de quem é amigo. Um bom joguinho é tentar descobrir qual Orhan narra qual capítulo, mas isso é só pros nerdões de plantão.

O livro é um livrão, em formato grande mesmo, da Companhia das Letras. Tem o selinho do Nobel que encarece tudo e uma foto maravilhosa na capa. Comprei esse pra digníssima num sebo em que entramos para escapar da chuva e ele estava praticamente intacto pela bagatela de 20 dilmas, mas ainda tem bastante desses nas lojas por aí, então não se preocupem. Fonte Electra e papel pólen pra dar aquela suavizada no material. Resumindo, o tipo de livro que é difícil largar.

Relaxa que ainda boto mais um post aqui de fim de ano falando de mais coisas. Semana que vem ainda tem mais!

Comentário final: 482 páginas de puro calibre turco. Maktub.

Don DeLillo – Homem em Queda (Falling Man)

Falling manAdivinha doutor, quem tá de volta na praça? Don Delillo, camaradagem, aquele escritor norte-americano que não deixa barato pra ninguém e faz de cada livro uma verdadeira obra de arte. Todo mundo que lê esse blog sabe que eu sou suspeito para falar do cara, mas saibam vocês que Homem em Queda, seu penúltimo lançamento (antecessor de Ponto Ômega, sua obra mais cabeçuda, na minha opinião), é, sim, um livraço como de costume, mas não prometo me estender no post de hoje por um motivo muito nobre: meu computador quebrou e tá difícil achar onde escrever. Felizmente fim de ano está chegando e quem sabe neste ano eu não dê presente para ninguém a não ser eu mesmo, afinal de contas, ó, mundo tão desigual.

Pois muito bem: se você olhar a capa de Homem em Queda (não olhou? Olhe agora que eu espero) não é difícil perceber que o livro trata dos ataques às torres gêmeas, naquele fatídico onze de setembro de 2001. Não sei por que todo mundo tem essa curiosidade mórbida de perguntar onde a gente estava durante os atentados, mas se alguém quiser saber, eu estava dormindo numa aula importantíssima de física. Pronto, passemos adiante. Dizia eu que Homem em Queda trata das torres, e tem como protagonista um homem chamado Keith, um sobrevivente do atentado que emerge do caos de poeira e destroços como um… eu ia dizer como uma fênix, mas aí pensei em algo menos gay pra falar e não achei, então vai fênix mesmo. Ele, ao invés de tomar qualquer providência racional, volta pra casa da ex-mulher, que mantém uma relação familiar passivo-conturbada com a mãe e seu padrasto, um sujeito misterioso que viaja o mundo e tem família em algum lugar da Europa, e revive o suicídio do próprio pai, que estourou os miolos com um rifle de caça certo dia. A chegada repentina de Keith transforma a relação do casal e cria um ambiente de reaproximação, o que pode ser muito bem visto como as mudanças inesperadas que condições extremas acarretam para a vida de pessoas simples. O filho do casal, Justin, entretanto, se torna obcecado com a figura de Bin Laden (ou Bill Lawton, como ele o chama por entender errado o nome). Ele fica noiado, patrulhando os céus à procura de novos aviões e obcecado com as características físicas e comportamentais do inimigo número 1 dos Estados Unidos.

Don DeLilloAo mesmo tempo, Keith entra de cabeça em uma existência vazia de encontros amorosos com a dona de uma bolsa que encontra em meio aos destroços e viagens a Las Vegas para jogar poker, numa retomada de um hábito pré-onze de setembro com amigos peculiares que desempenham papéis diversos após o atentado. Sua mulher, Lianne, também começa a presenciar os feitos artísticos de um louco performático chamado de Homem em Queda, que fica pendurado por um pé com um cinto de segurança de pontes, postes e outros locais altos, para depois cair e se esborrachar no chão. Por último, a narrativa contempla ainda a vida de dois dos terroristas responsáveis por sequestrar os aviões. Em resumo, Homem em Queda, oferece uma multiplicidade de narrativas que servem unicamente para tratar o que toda a literatura que se dedicou ao fenômeno tratou: as diferenças, em vidas diferentes, de um mesmo evento, divisor de águas, histérico e dramático.

Particularmente, o excesso de americanismo nesse livro me chateou um pouco, já que eu sempre vi a literatura do DeLillo como algo universal e sem localismos, mas não dá pra culpar o cara já que todo americano, em maior ou menor grau, acha que o onze de setembro é um troço que diz respeito ao mundo inteiro, e não só a ele (e os posteriores atentados na Europa trataram de reforçar esse discurso). Mesmo assim, acho que a grande sacada do romance, em sua estrutura, é a diversidade de significados do atentado. Uma nova chance para os casais, que não têm outra escolha senão sublimar suas dificuldades ante a catástrofe nacional, um novo monstro para as crianças, para moldar suas infâncias, entretendo-as e amedrontando-as, um novo conceito para a arte, que ganha novos assuntos e ares de ativismo em sua vertente performática (a favorita de DeLillo, visto Ponto Ômega e A Artista do Corpo, já resenhado aqui), e uma necessidade quase urgente de retomar a existência tal qual fora antes, num simulacro de normalidade que só pode iludir os que se propõem a ela em momentos de calma e concentração, já que os tempos são mesmo sensíveis (há uma passagem ótima em que Lianne fica irritada porque a vizinha fica ouvindo “música étnica”, não necessariamente árabe). Mas a prosa do autor é invariavelmente sagaz, aguda, e a rapidez dos diálogos torna algumas partes engraçadas. Fico meio bolado com o fato de todos os personagens dele serem extremamente inteligentes e sagazes. Até as crianças! Sempre fico com a impressão de que, se eu estivesse num universo de DeLillo, seria a pessoa mais burra da face da Terra, mas isso é outra coisa e fica entre eu e meu psicanalista. Vocês ficam com esse belo livro da Companhia das Letras com papel pólen soft, fonte Electra e todos os cuidados de sempre, com tradução do grande Paulo Henriques Britto.

Comentário Final: 256 páginas de pura sagacidade narrativa. Toma essa, Bill Lawton!