Michel Laub – Diário da Queda

Michel LaubQuem lê esse blog há tempos (e creio que esse número vem aumentando constantemente), sabe que eu sou um eterno amargurado com a nossa literatura brasileira contemporânea e saio errantemente procurando algum livro que me faça mudar de ideia ou que me dê a cetelha de esperança de que preciso pra não ir na do sujeito lá que deu entrevista pro Globo falando que o Rubem Fonseca não faria sucesso nos dias de hoje. A sorte é que volta e meia esbarro com um desses exemplares. O Diário da Queda é um deles. De longe o melhor e mais maduro livro do Michel Laub. Vamos a ele que atrás vem gente. (putz, acho que não era assim o ditado, tenho que parar de tomar tanto chá de fita).

Num resumo bem simplista, o livro é narrado em primeira pessoa em pequenos fragmentos (como em O Gato Diz Adeus) por um judeu, neto de um sobrevivente de Auschwitz, que estuda num colégio só pra judeus, onde ele e seus amiguinhos fazem um bullying pesado com o único gói do pedaço. Porém, como esse é um romance de formação, a coisa não pára por aí e vai até a vida adulta do protagonista, que se transforma em um escritor e sai de Porto Alegre para morar em São Paulo. Como o próprio Michel Laub, que, aliás, também é judeu. Para usar aqui uma palavra apropriada, tai um escritor que deve ter sido judiado até não poder mais com perguntas do tipo “Qual o teor autobiográfico de Diário da Queda?” e “Você tem um avô que é sobrevivente de Auschwitz?”, etc, etc. Sinceramnete, se você não tem o que perguntar para um autor que escreve um livro desses, só lamento, porque aqui há muito mais questões propostas do que a eterna ponderação sobre invenção e memória.

O acontecimento principal em O Diário da Queda é quando o menino Bruno (acho que é esse o nome, que preguiça, o livro tá a dois passos de mim, mas levantar a bunda gorda dessa cadeira pra pegar que é bom, nada) (agora levantei e vi que o nome do menino é João), quer dizer, quando o menino João, o gói da parada e eterna bola da vez da judeuzada cruel resolve fazer uma festa de aniversário de 13 anos, o que corresponderia ao Bar-Mitzvah dos colegas. Incorporando alguns elementos da festa judaica (êta, João antropofágico da gota serena!), os meninos fazem aquele lance de jogar o aniversariante pra cima com um pano gigante esticado por todas as mãos possíveis. Só que na última vez que jogam o menino pra cima, deixam ele se esborrachar no chão de propósito, só pra ver qualé. O João fica seriamente ferido e isso coloca a vida do protagonista em uma direção diferente da de seus colegas. Ele muda então de escola junto com o João e vai para uma escola não-judaica, onde agora quem sofre bullying é ele. Bom, essa é a primeira discussão do livro, então: a inconsciência da crueldade coletiva, o empoderamento da maioria e outras coisas tais que os judeus gostam de jogar nas costas da alemãozada. E principalmente a inversão dos papéis, algo que é comumente descartado pela suposta índole cândida dos judeus.

Mas aí também tem a questão do pai dele, que vive à sombra do avô, sobrevivente de Auschwitz e autor de cadernos completamente insípidos sobre a chegada no Brasil. O pai é bitolado na questão judaica e bota a culpa de tudo o que pode acontecer em Auschwitz e no holocausto. O confronto com o pai e suas ideias é também o confronto com seus amigos e o confronto com Auschwitz. Quer dizer, ignorar o holocausto é, para ele, amenizar a pancada sem ter o direito para isso. Como argumentar contra Auschwitz, afinal? Esse é um dos aprendizados do protagonista enquanto descendente de judeus questionador. E ele vai jogando essas e outras ideias, embora não consiga dar conta de metade delas dada a curta extensão do livro e a escassez de ensaio do narrador.

diário da quedaAliás, tai uma coisa legal do Laub, que são essas ideias discutidas não sob a forma de ideias sendo discutidas, mas sob a forma de fluxo de consciência, memória e seletividade narrativa. É só dessa maneira que a gente consegue perceber um padrão hegeliano nas gerações tratadas no romance (o livro é dividido em capítulos como “Algumas coisas que sei sobre meu avô”, “Algumas coisas que sei sobre meu pai” e “Algumas coisas que sei sobre mim”). Sabe, aquela coisa: tese, antítese e síntese. Um exemplo da relação: O avô nunca escreveu uma palavra sobre Auschwitz, o pai, por outro lado, sobrepesou a coisa e se tornou um obcecado. O filho, então, precisa balancear a vida e sair da sombra e da forma do holocausto para viver seus próprios dramas, filtrar as duas pontas de uma formação literária e concreta sobre o caso e avaliar o que pesa mais na sua vida: o legado do holocausto ou o próprio pai obcecado com o holocausto. Entre outras coisas.

Como vocês podem ver, esse é um livro complexo, maduro e relativamente bem resolvido, dado sua limitação de páginas e a extensa bibliografia, ficcional e não-ficcional, sobre o assunto. Acho que o cara conseguiu o que queria e foi bem sucedido nessa árdua missão do escritor brasileiro de fazer um livro que não seja só mais um livro. E acho que boa parte da minha simpatia foi ganha na linguagem. Sinceramente, ando cansado dessa onda de escritor nacional escrever que nem adolescente em absolutamente todos os livros. Ninguém se trata como adulto, e isso é chatão. O pessoal pode argumentar que geralmente são livros mais voltados para adolescentes, mas eu digo que a psicologia já provou que se você quer ser respeitado pela mocadinha, não fique falando Gugu-dadá pra sempre. E se alguém contra-argumentar dizendo que Gugu-dadá é exatamente isso o que este querido blog balbucia, eu digo que isso só vale para as coisas sérias, não para blogueiros literários absurdamente lindos e maravilhosos como eu.

O projeto gráfico da Companhia das Letras é um dos mais bonitos que já vi para livros nacionais. Fonte Electra, papel pólen de grande gramatura, e a foto de capa, meio prateada, é uma das melhores que já vi por aqui, na minha opinião.

Comentário final: 151 páginas de papel pólen soft. Ia contar uma piada de judeu aqui, mas são tempos perigosos de dedos apontados para todos os lados, então vou deixar quieto.

Anthony Bourdain – Cozinha Confidencial (Kitchen Confidential)

Kitchen ConfidentialAntes de começar o post de hoje, gostaria de pedir a todos que toparam fazer o Desafio Livrada! 2013 que me contassem o progresso para as metas estabelecidas. Meu palpite é que ninguém se lembra, brasileiro não tem memória de compromisso que assume, blá blá blá, em quem você votou pra deputado blá blá blá, vocês já conhecem o papo. Enfim, pode ser por comentário e pode ser também pelo e-mail bloglivrada@gmail.com, combinado?

Bom, o livro de hoje, parece bem óbvio, é uma não ficção. É um livro de memórias do cozinheiro nova iorquino Anthony Bourdain. E fazer resenha de livro de memórias é a coisa mais fácil pra acabar escrevendo um release involuntário (se bem que a maioria do povo que anda comentando livros na grande mídia já anda flertando com esse lance de release requentado). Mas vou tentar dar umas pinceladas gerais antes do comentário para ver se escapamos dessa cilada.

A ideia básica de Cozinha Confidencial é: cozinheiro é tudo porra-louca, a vida na cozinha é pior que a vida de boia-fria no sertão de Pernambuco e manter um restaurante, como diz a Barbie sobre a matemática, é “difííííícil”. É assim que o autor resume suas experiências. Ele começa contando como despertou seu paladar em uma viagem à França em que comeu sopa fria e mariscos crus. Eu sou meio fresco pra maioria das coisas e já teria parado por aí, mas bem, esse não é um livro sobre as minhas aventuras gastronômicas (até porque se fosse, teria umas dez páginas apenas). E a partir daí, desgarrou-se de sua família para ser um jovem cocainômano, maconheiro e alcóolatra numa cidade do litoral, onde arrumou um emprego de lavador de pratos para se manter. E seguem capítulos sobre a sua formação, os restaurantes em que trabalhou, seu envolvimento com a máfia e as grandes lições da cozinha que tirou da própria experiência.

Mas o cara é mais cozinheiro do que escritor. Prova disso é que ele não faz ideia de quem seja o seu leitor ideal, uma coisa que teria resolvido se desse uma lida nuns caras teóricos aí tipo Umberto Eco e Walter Benjamin que, olha, tão fazendo falta pra essa galera beletrista, viu. Ao mesmo tempo em que ele usa um linguajar cheio de jargão, o que dá a entender que o livro é feito para quem manja das putaria, intercala capítulos para totais iniciantes no assunto, do tipo “então você cozinha e quer impressionar as visitas num jantar? Olha aqui a lista de materiais que você precisa comprar”, “eis aqui a divisão dos trabalhos na cozinha” e “veja bem o que acontece por causa da difícil manutenção de um restaurante”. O palpite que extraio disso tudo é que Bourdain escreveu esse livro pra algum tipo de fooder hardcore que leu muito livro sobre o assunto mas não faz ideia de como a coisa se resolve na prática. Mas vai saber, às vezes o cara só queria abranger o maior público possível, e se você já sabe de alguma coisa que ele está falando, é só pular o capítulo.

Cozinha ConfidencialE embora o estilo de escrita dele seja meio cheio de coisas chulas e linguagem informal (parecido com esses malditos blogs literários da internet, hãn, hãn?), as histórias que ele conta são bem legais! E ele não idolatra a comida fazendo você salivar por cada coisa que ele descreve, mas antes de tudo, traz tudo para o plano terreno. É uma pegada bem realista e desglamurizada de tudo, eu acho, e isso é bom porque os cozinheiros mais midiáticos que eu conheço, tipo esse Jamie Oliver e a Nigella Lawson são muito entusiasmados com tudo. Entusiasmados demais, chega a cansar. Bom, não que ele não se empolgue em algumas partes, mas nada imperdoável também. Acho que se o cara não gostasse do que ele faz, não escreveria um livro sobre o assunto, principalmente um em que basicamente se resume a ele queimando o próprio filme com descrições insólitas de seus hábitos desregrados na cozinha.

Aliás, essa é outra coisa boa. Apesar dele ser o autor do livro, e, na sua condição de autor, mandar a real, Bourdain não se coloca como o detentor da verdade nem se pinta como o grande cozinheiro de nossa época. Pelo contrário, o cara fala “eu faço assim, mas se você for aprender com tal pessoa, esqueça tudo o que eu falei, porque ele manda melhor do que eu” com a maior tranquilidade. E acho que essa mínima falta de vaidade que seja é benéfica, principalmente em se tratando de profissionais vaidosos como cozinheiros e chefs de cozinha.

Eu acordei em um belo sábado querendo ler esse livro porque alguma amiga do Murilo certa vez me chamou de Anthony Bourdain dos hambúrgueres, em referência aos textos meio ensaísticos do meu outro blog, o Good Burger, que é basicamente igual a esse, só que mais afetado e sobre hambúrgueres. Li e não me arrependi, e me senti até meio lisonjeado. O projeto gráfico da Companhia das Letras é aquele pacote basicão de livros não tão importantes assim, mas que ainda assim, é uma beleza. Fonte Minion (a fonte usada para editora para a maioria dos livros de não-ficção), papel pólen e uma capa mutcho loka e psicodélica que deve querer passar uma ideia de cozinha e drogas, ou talvez apenas o movimento frenético dos cozinheiros. Essa capa aí da foto é o meu livro, que tive que escanear porque não tinha nenhuma foto em alta dessa capa na internet. Livrada! também é banco de imagens, rapá.

Comentário final: 376 páginas de papel pólen.  Dá pra tacar na cabeça do garçom quando ele traz um misto quente com queijo e presunto quando você pede um sem queijo, sem presunto, com ovo, salada e frio no lugar.

Philip Roth – Patrimônio (Patrimony)

patrimonyFala sério, vou deixar todo mundo mal acostumado com tantos livros resenhados no mesmo mês, não é? Sei que é assim, mas regozijai-vos, irmãos, pois este colunista agora retomou o gosto pelas leituras desenfreadas e pelos comentários rápidos e rasteiros, “como quem lê a bordo de um bonde desgovernado”, como me descreveu certa vez o jornalista Pedro Rocha, de Fortaleza (um abraço, Pedro Rocha e Fortaleza!). Sendo assim, mais uma semana, mais um livro nesse blog que está a alguns passos de se tornar uma espécie de Wikipedia parcial da alta-literatura. Sim, porque diferentemente de quase todos os outros blogs literários do Brasil, aqui você não vai encontrar best-sellers (perdão pelo 50 Tons de Cinza), fast-pace, coisas que você encontra esquecidas em bolsões de aviões velhos da Gol. Aqui o bagulho é doido, jão, só figura aqui quem é bom de verdade ou, pelo menos, tarimbado no certame. Por isso as livrarias não gostam de mim, mas quem gosta de livro bão gosta do Livrada!, e é por isso que você deveria anunciar nesse espaço. Sério, me deem dinheiro, já tá na hora de eu começar a ficar rico com isso aqui.

E hoje, veja só, mais um Philip Roth. Confesso que não sei quantos livros do sujeito já figuraram por aqui, mas vou chutar que esse seja o terceiro ou quarto. Bom, Philip Roth tem aquela coisa, é uma espécie de Marcelo Camelo da literatura: as pessoas que gostam defendem com unhas e dentes, mas pouca gente sabe dizer com precisão o que há na literatura deste priáprico judeu neurótico que tanto os agrada. Eu tenho, entretanto, um palpite que serve bem a boa parte de seus fãs, crentes do tão desacreditado hype: Roth é um dos sujeitos de respeito da literatura mais fáceis de ser lido, principalmente se você pegar seus livros mais recentes, que ainda por cima são curtos. Não há a densidade de um Don DeLillo, não há a complexidade da trama de um Pynchon, não há o rebuscamento linguístico de um Cormac McCarthy, não há sequer a tradição literária resgatada de um Ian McEwan. É tudo leve, rápido e curto. É claro, há toda a formação de uma literatura formadora da imagem de um país a partir de um microcosmos, há a justaposição de invenção e memória, há a educação sentimental do macho pau mole, mas isso são coisas circunspectas a academia, que nada diz ao leitor comum, interessado somente em ler algo de qualidade e com algum conteúdo, coisas que abundam na literatura do nosso velhote. Temos que dar o crédito pela escolha precisa de palavras na voz inconfundível de sua extensa e qualitativamente constante obra. Todo mundo que pega um livro do Roth para ler já sabe o que esperar, não há nenhuma imprevisibilidade, e as pessoas bem gostam disso que eu sei.

Pegue este livro, Patrimônio, por exemplo. Apenas lendo a sinopse da orelha, em que descobrimos se tratar de uma história real sobre os últimos dias de seu velho pai, diagnosticado com um tremendo tumor no cérebro, já sabemos que 1- vai ser triste, com alguns momentos de alívio cômico 2- vai ter todo tipo de referência a judeus, comunidades judaicas, objetos judaicos e outras porcarias judaicas 3- vai ter longos momentos de solilóquio alucinado, com uma vida interior mais paranoica e arredia do que o necessário 4- vai ter discretas porém incisivas menções ao ufanista sentimento de ser americano, ser judeu-americano, ‘Merica, enfim. O resto fica por conta de cada história.

Philip RothPois bem, veja o que é o drama de seu pai, Herman Roth. Não, não é o tumor no cérebro, é ser filho de um canalha que começa a escrever um livro a partir do momento que descobre que você está com câncer. Porque é exatamente isso o que ele confessa no final (ops, spoilers!). Percebe-se que o sujeito começa a passar mais tempo com o pai para ter material para o livro – premiadíssimo, aliás, pelo Círculo de críticos americanos. Há uma cena emblemática no livro, de onde é tirada o título. O pai passa por um período longo de prisão de ventre após um procedimento médico, e sem querer caga o banheiro inteiro quando ele e o filho recebem visitas. Tem merda fora do vaso, na parede, na toalha, nas escovas de dente, a coisa não fica muito distante de uma cena escatológica do Trainspotting. O Philip Roth aparece lá, ajuda o pai a se limpar e a limpar o banheiro, e o pai envergonhadíssimo pede para que o filho não conte para ninguém o que aconteceu. “Não vou contar”, escreve o sujeito em um livro que vendeu milhares de cópias após a morte do velho. Filhão nota dez, esse, hein? Não sei se vocês sabem, mas muitos escritores têm filhos, e é frequente escrever livros sobre esses filhos, mas você vai ter dificuldade em achar um em que o escritor narra as vezes em que o filho cagou nas calças, mijou na cama ou fez qualquer coisa muito embaraçosa, e não é porque eles estão fugindo da verdade enquanto Roth está indo de encontro a uma crueza objetiva do cotidiano, mas porque existem diversas maneiras de prestar homenagem a pessoas em um livro, e manter segredo de acontecimentos em que é pedido sigilo é uma delas. Philip Roth oportunista e canalha? Nãããooo, diriam seus asseclas. Trata-se da realidade que serve de matéria-prima para um dos maiores ficcionistas vivos. Não é, nem de longe, um romance autodepreciativo, isso é óbvio, até porque o drama está na figura do pai. E repare no subtítulo: “Patrimony – A true story”. “True story”? Sério mesmo? Então tudo o que o senhor resolveu botar nesse livro é a mais pura e simples “truth”? Bom saber, senhor ficcionista premiado. Bom para o senhor.

Gosto muitíssimo do Philip Roth. Ora, e qual homem não gosta? E gostei de Patrimônio, porque mostra que a literatura justifica a filhadaputice no olhar desse cara. Mas, sinceramente, acho que ele ainda se dá melhor com as aventuras do velho priáprico xarope, seja ele qual for. E, senhor Herman Roth, sinto muito que seus últimos e sofridos dias tenham servido para colocar mais um desnecessário tijolinho na belíssima e longeva carreira do seu filho, mas como foi o senhor que o educou, por outro lado, o problema é seu.

Comentário Final: 190 páginas. Livroterapia no cérebro!

Yu Hua – Irmãos (Xiōng Dì兄弟)

Xiong diLivraded!, your personal high-literature website is back, oh yeah! Ainda estamos em janeiro, e qualquer resolução de ano novo que seja abandonada ainda em janeiro não é digna de nota, digo eu. Pois bem, prometi a mim mesmo dedicar mais miolos a encher esse recôndito culto da internet de abobrinhas criadas a partir de leituras cada vez menos esporádicas, e é isso que pretendo fazer nessa bela segunda-feira de sol (na verdade, como estou escrevendo isso no domingo, não sei se vai ter sol, mas espero que em algum lugar do mundo em que haja um leitor, isso seja verdade).

E hoje, por que não, um daqueles livros grandes o bastante para validar o apodo deste humilde blog que, por força das circunstâncias, mergulhou em um período de fast-pace mais relacionado às poucas páginas de seus títulos do que propriamente a fugacidade de seu conteúdo. Irmãos, de Yu Hua, é a bola da vez. Sim, meus amigos, esse chinês com vocação para escrever as piores desgraças infligidas a humanos por humanos é a minha grande descoberta literária do ano passado. Descobri sozinho, sem ler uma resenha, receber uma indicação ou saber qualquer coisa a seu respeito. Um desses livros que a gente pega por força da curiosidade, o Crônicas de um Vendedor de Sangue foi o primeiro, e agora já posso dizer que conheço toda a obra do sujeito publicada em português. Infelizmente, isso não é um título muito impressionante se levarmos em consideração que se tratam de apenas três livros traduzidos até o momento, mas há um agravante na pancada amortecida se considerarmos que Irmãos é gigantesco: nada menos do que 630 páginas. Qualquer livro com mais de 400 páginas para mim é considerado grande, e qualquer um com mais de 550 é considerado muito grande. E para você, o que é um livro grande para você?

Mas falemos do Irmãos. Bom, a tara do tal Yu Hua, que já comentamos por aqui antes no tristíssimo Viver, são os romances de formação. Os três livros publicados no Brasil tratam da vida de sujeitos fadados ao miserê desde o nascimento até a sepultura. Que ele consiga fazer isso em duzentas e tantas páginas como no livro supracitado é admirável, mas que ele consiga estender para um mega romance como esse é fodástico, principalmente se a gente se lembrar que o estilo dele é calcado majoritariamente em ação. Ação, ação, ação, com pouquíssimo tempo para analisar, cheirar as rosas, contemplar as belezas ou se lançar a qualquer lampejo poético entre atos. A imaginação dele é invejável, digo isso do alto de quem sempre desprezou justamente essa qualidade em romances fantasiosos como As Crônicas de Gelo e Fogo. Há uma diferença clara de quando se faz isso num mundo em que não se conhece de quando se faz isso num mundo em que se conhece demais. Enquanto o primeiro é brecha para glitches mal-feitos, o segundo é o claro objetivo de se descrever aquele universo por meio de seus personagens.

E é exatamente a isso que Irmãos se propõe. Os irmãos do título são Li Carequinha e Song Gang, na verdade meio irmãos. Enquanto o primeiro é filho da sofrida Li Lan, o segundo é filho do bonitão e basqueteiro Song Fanping, que se casam depois que seus respectivos cônjuges morrem – algo escandaloso para a época pré- Revolução Cultural, diga-se de passagem. Li Carequinha é safadão, gaiato e arrogante, enquanto Song Fanping é subserviente, nobre e correto em todos os sentidos. E basicamente é isso o que se precisa saber sobre os dois personagens principais da história. Isso porque Irmãos não é a história de Song Gang e Li Carequinha, mas a história da China, da Revolução Cultural à abertura econômica, e nada melhor para detalhar a saga de tão grandioso e complexo país quanto personagens voláteis com espíritos rígidos à sua própria forma. A China de Mao, que se escandaliza quando Li Carequinha é pego espiando bundas no banheiro público na pequena e ficcional cidade de Liu, é diferente da China de Jiang Zemin, que realiza as Olimpíadas do Hímen, ou Concurso Nacional da Beleza Virginal. A China das bugigangas falsificadas, dos acordos com o Japão, das novelas coreanas, da indústria das cirurgias plásticas, é um universo completamente diferente daquela outra, comunista, que massacrou pessoas em sessões de crítica e autocrítica. Basicamente é essa a passagem que o livro conta, e como as personalidades de Li Carequinha e Song Gang encontram seus lugares em cada uma delas.

Yu HuaNão há, aqui, um resumo que eu possa dar sem que incorra nos tais spoilers que resultam em uma enxurrada de hatemail que recebo, e nem que comporte a magnitude das ações que se desenrolam ao longo das centenas de páginas de Irmãos. O que podemos dizer é que, órfãos desde que Song Fanping é espancado até a morte na rodoviária da cidade, a primeira metade da vida dos irmãos é de uma tristeza sem fim, compartilhada com outros personagens recorrentes no livro e, tais como eles, desprovidos de qualquer profundidade. Tanto é que o nome deles já denota tudo o que podem ser na história: Zhang Alfaiate, Yu Boticão, o dentista, Wang Picolé, o sorveteiro, Tong Torquesão, o ferreiro, e Guan Tesourão, o amolador de tesouras. Somam-se a eles Su Mamãe e Su Mocinha, donas da lanchonete, e Lin Hong, a beldade do vilarejo a quem Li Carequinha espia, o que lhe garante pratos de macarrão especial em troca da descrição da bunda mais bonita da cidade, para fazer menção a uma infame banda da minha cidade. E, claro, uma trupe de personagens não estaria completa sem os dois panacas Liu Escritor e Zhao Poeta, os chamados Talentos Promissores da Cidade de Liu. Pronto, está montado o palco para a comédia da miséria humana.

Estranhamente, a segunda parte do livro revela uma veia cômica de Yu Hua pouco explorada em seus outros romances. A coisa fica realmente engraçada, embora, de certa forma, nunca deixe de ser triste. Piadas de humor negro com retardados mentais, aleijados, mudos, cegos e surdos, charlatões, falsas virgens, pensamentos tacanhos e outras ignorâncias de um país que se viu obrigado a espertar-se diante de um mundo que se abriu de uma hora para outra tornam o livro muito mais leve, coisa que não imaginaria depois de uma avalanches de socos na boca do estômago que esse livro te dá nas primeiras duzentas páginas. Pensando bem, poucos aguentariam uma dose dessas por mais 400 páginas…

Ainda sobre os apelidos, é engraçado pensar que apenas Song Gang e Song Fanping são os personagens sem apelidos em Irmãos. Eles e as mulheres Li Lan e Lin Hong. Acho que o china quis atestar a nobreza de seus dois personagens mais queridos, que não se dobram ante piadas e apelidos, apenas quando seus destinos mudam a coisa também muda de figura. Pensem nisso se um dia estiverem com esse livro em mãos, tal informação pode ser crucial para o entendimento dele, mas sobre esse assunto nem mais uma palavra sob o risco de jogar mais spoilers sobre essa casca dura de leitores impiedosos de internet.

No final, a gente vê que não é só porque um livro não é cheio das floreações poéticas, análises psicológicas e vida interior rica que ele é ruim. Pelo contrário, o fato de Irmãos ser recheado só de ações o aproxima da tradição teatral das grandes tragédias e dá substância ao material de que a vida é composta sem oferecer o substrato mastigadinho pro leitor preguiçosão. Certeza que esse é um dos livros mais legais que já li, e é difícil que alguém não sinta a mesma coisa depois de se envolver tão intensamente com uma longa história como essa. Tirem a prova e me digam: o que há para se não gostar nesse livro? Até a superficialidade dos personagens é adoravelmente cômica, o sujeito não deixa margem pra você criticar sem parecer um metidinho rancoroso que não come ninguém. Recomendo.

Por último, uma ressalva a essa edição da Companhia das Letras: por mais que o livro seja muito bonito e tudo mais, é um absurdo fazer uma edição que pesa um quilo com uma capa de papel cartão, que corre o risco de quebrar a qualquer hora com o peso das páginas seguradas. Cuidado com isso quando lê-lo.

Comentário final: 630 páginas. A saudosa fratura exposa e afundamento de crânio estão de volta, dessa vez para ficar!

Chester Brown – Pagando por Sexo (Paying for It)

Pagando por SexoEis que chegamos ao nosso ultimo post do ano. É, amigos, foram, como diria Roberto Carlos, muitas emoções, mas blogueiros, ao contrário do que a opinião pública propaga, também têm vida social e também aproveitam o fim de ano com a família e coisas assim. Isso não quer dizer que devemos ser desleixados e entrar no recesso com um post apenas para cumprir tabela. Não! Escolhi o livro de hoje para lembrar da razão pela qual muitos de vocês entram aqui sempre e continuam voltando, fazendo a minha alegria e a alegria de futuros patrocinadores que estão perdendo um tempo valioso de seus produtos investindo em classificados no jornal e banners no Não Salvo ou um desses replicadores de informação: a capacidade de oferecer a vocês leituras edificantes e pouco comentadas – literatura da boa, a saber, artigo de luxo em livrarias e mais escasso ainda na grande mídia. É exatamente o que este livro de Chester Brown é, e talvez seja difícil encontrar outra menção a ele por aí, pouca coisa saiu na época de seu lançamento, embora alguns dos bons jornais (o jornal em que eu trabalho, incluso) não o deixaram de fora.

Chester Brown é um influente cartunista canadense, amigo dos outros dois cartunistas canadenses que são os únicos cartunistas canadenses que devem existir em todo o Canadá. Neste livro, ele conta como terminou com sua última namorada. Foi assim: um belo dia ela começou a namorar outro cara e trouxe ele para morar na mesma casa em que os dois moravam. É, e você achando que “tô fazendo amor com outra pessoa mas meu coração vai ser pra sempre seu” era uma forma ruim de ser canalha. A canalhice não conhece limites, meus amigos! Mas aí tudo bem, o sujeito sabe bem vestir a pecha dele de artista blasé que não dá a mínima pro mundo real e leva a situação numa boa. Quer dizer, não exatamente numa boa, porque a partir daí ele resolve que namorar é um saco, que as pessoas precisam namorar porque são mesquinhas e inferiores, e que ele precisa arranjar um jeito de ficar bem sozinho, o que pareceria muito fácil não fosse pela consequente falta de sexo. Pra contornar essa situação, ele resolve começar a pagar por prostitutas regularmente, fazendo cálculos de quanto precisaria gastar para se saciar em um mês.

Obviamente, seus dois amigos cartunistas canadenses começaram a ficar preocupados com Brown prescindindo do amor romântico assim tão facilmente. É aí que entra a parte realmente interessante da história: relatar os encontros com as prostitutas pode ser uma coisa nova e até resvala no lado jornalístico-investigativo – tanto é que o subtítulo do original em inglês é “a comic strip memoir about being a john”, algo como “memórias em quadrinhos de um John” que é como as prostitutas chamam seus clientes – mas o que torna Pagando por Sexo instigante são os debates acerca de nossas necessidades físicas e emocionais. Brown parece ter pensado muito a sério no assunto, pois não há argumento racional capaz de derrubá-lo ou demovê-lo da ideia de que pagar por sexo é a melhor maneira de se relacionar com uma pessoa, e que não há necessidade em ser amado. Mas isso não é o foco do livro na visão do editor – não! –, é claro que o diferente que interessa aqui para o mercado é o lado do submundo, da vida mundana a que os cidadãos de bem não veem.

chesterNão que esse lado não seja interessante também. O cartunista, quando resolve ingressar nessa vida, vem carregado com os medos e preconceitos de uma típica criação cristã ocidental, do sexo como coisa suja, da mulher como santa, da prostituição como intrinsecamente ligada ao mundo do crime, esse tipo de coisa que afasta a maioria das pessoas desse tipo de serviço. Relatando quase como um diário mesmo seus encontros com os mais diferentes tipos de mulher, e descrevendo suas performances sem, contudo, expor suas identidades, o cartunista dá uma boa ideia do que é viver pagando por sexo. Coisa de perdedor? Talvez, mas se pra ele serve…

No final das contas, Pagando por Sexo é um livro sobre o amor. Poderia ser um quadrinho escrito por um desses filósofos pessimistas que as miguxas adoram citar, mas sem descambar para a vulgaridade e sem tampouco ser politicamente correto, esse sujeitinho esquisito consegue sua dose de realidade e consegue expor suas ideias de maneira muito lúcida. Tão lúcida que faz parecer que você é o maluco. Não há muito o que discutir sobre esse livro no momento, ele é quase um relato, mas tudo o que há para ser comentado sobre ele está no extenso apêndice, onde o autor explica melhor suas ideias e fala porque é contrário à legalização da prostituição. E vale a leitura, mais do que seu nanotraço quase cibernético, mais do que seu humor distorcido, vale a leitura elucidativa de questões éticas que afetam a todos.

Sei que esse não foi o post mais engraçado que já fiz nesse blog, de fato deve ter sido o menos engraçado de todos, e o mais perto de uma resenha normal de jornal: formal, vazia e chata, basicamente um resumo e nada mais. Mas o livro é bom, e se você vem aqui para pegar recomendações de livros, pegue este que foi um dos melhores quadrinhos que eu li este ano. Não é muito engraçado porque estou em uma fase negra de leituras, ou não leituras, estou travado, por assim dizer, e isso me chateia, mas é exatamente para isso que serve ano novo. O champagne estoura e nossa força de vontade volta. Então aguardem que 2013 deve ser ainda melhor do que foi este ano. Tenham todos um feliz natal e um próspero ano novo.

Comentário final: 284 páginas de papel jornal. Machuca mais que bolada no queixo, menos do que coração partido.

Daniel Galera – Mãos de Cavalo

Confesso para vocês que escrever esse post tem para mim uma sensação análoga a do menino que não gosta de jiló e de repente se vê diante da ameaça: se não comer todo o jiló do prato, não sai da mesa. E sabe que viver para o resto da vida à mesa, como um personagem de um Italo Calvino sem imaginação, não é exatamente uma alternativa. Isso porque acreditei ser possível passar ao largo da literatura do Daniel Galera. Dele havia lido apenas algumas páginas aleatórias do Até o Dia em Que o Cão Morreu e Cachalote, o quadrinho feito em parceria com o grande Rafael Coutinho, e odiei os dois. O primeiro achei beat demais, gaúcho demais, jovem adulto demais. O segundo achei pretensioso, incompreensível e desnecessariamente grandiloquente, tipo quando jornalista faz pós-graduação em filosofia, aprende uns jargões e disfarça o pouco conteúdo com um monte de abobrinha hermética pra criar uma ilusão de profundidade. Enfim, era um autor que poderia ser deixado para seus fãs, um autor que sobreviveria naturalmente à revelia da atenção midiática, como tantos outros figurados naquela infame coletânea da geração subzero.

Mas a verdade é que, afora minha péssima experiência com leituras prévias de sua obra, o que nutria meu afastamento do autor era um preconceito sadio, que me impedia ver o quanto o Daniel Galera é parecido comigo. Pelo pouco que sei dele (e sei pouco mesmo), sei que temos gostos musicais e experiências parecidas. E lendo Mãos de Cavalo, que foi me recomendado como o seu melhor livro, vi que temos ideias muito parecidas também. É claro, assim como Jesus Cristo, Raul Seixas, Los Hermanos, Ayrton Senna e Wes Anderson, são os fãs pentelhos que me tiram do sério, mais do que o artista (bom, acho que o Wes Anderson e seu cinema infantil para adultos não muito adultos é igualmente insuportável). Mas resolvi deixar tudo isso de lado, meus preconceitos, meu medo, minha birra com os fãs adolescentes e ler Mãos de Cavalo, porque, afinal de contas, não dá pra dizer que o cara não faz sucesso e tô por aqui também desse papo que ninguém aqui pode ser bem sucedido sem que geral comece a espinafrar.

Bom, Mãos de Cavalo, para quem não sabe, é um romance que alterna dois fluxos narrativos após uma introdução que tem lá sua importância. A história começa com o que o narrador chama de Ciclista Urbano, assim com letras maiúsculas. Sei lá, deve ser pra você já começar odiando o protagonista ao automaticamente associá-lo com esses ecochatos urbanóides que falam em sustentabilidade sem abrir mão da sociedade de consumo e acham que o único problema do mundo é falta de ciclovia e excesso de sacolinha plástica (e esse é um assunto pelo qual guardo um rancor particular, afinal de contas, este blog perdeu um prêmio alemão para um site dessa corja). A descrição do percurso de bicicleta e os mecanismos que mantém o ciclista pedalando são até boas, mas é só quando o sujeito cai que o narrador revela que o ciclista é um garoto de dez anos. Esta parte foi brilhante, a destituição de poder do personagem é total, e a saída da bicicleta o tira do anonimato e lhe devolve a humanidade. Aí temos a primeira pista do livro: o garoto sai sangrando e passa a curtir o gosto do sangue e o fato de estar ferido. O personagem do livro passa o romance inteiro buscando resolver seus problemas se estrepando da pior forma possível, sem o menor zelo pelo corpo. É claro, isso não existe na vida real, é um fetiche de piá de prédio superprotegido que assiste ao Clube da Luta e passa a achar que virou macho porque acha que aguenta se machucar inteiro. Mas para esses garotos da cidade, isso serve muito bem às fantasias criadas em torno da questão: “o que é viver a vida?”. Cair de bicicleta, ralar os joelhos? Comprar um skate depois dos 20 e quebrar o braço? Acampar com os amigos e comer miojo no copo? Lutar Muay Thai na academia? Jogar PS3 é que não é, né? A diversão e a experiência precisam ser legitimadas pelo corpo, porque uma viagem da mente não é mais que do que isso. É claro, todo mundo lê, todo mundo escreve, mas querem menos Almeidas Garrets e mais Hemingways.

Aí temos a história de Mãos de Cavalo, apelido de Hermano, um garoto de 13 ou 14 anos morador de um condomínio em Porto Alegre (condomínio? ahá!) que tem vários amigos de apelidos tão esdrúxulos quanto o dele. Tem um Wagner Montes, tem um Nego Cromado, um Morsa e um Pedreiro. Mas também tem um Bonobo, que é um garoto de estatura normal, mas com uma força descomunal, como um Hulk em forma de guri. E chamam ele de Bonobo porque ele caminha com os braços pesados, como um bonobo. O que é uma furada, na verdade, porque o bonobo é um macaquinho do bem, se organiza em sociedade matriarcal e resolve os problemas com orgias ao invés de porradas. O Hermano é, obviamente, o garoto do começo da história, e tem uma vida interior e diferente dos outros da turma. Tem umas passagens em que ele se parece tanto comigo que chegou a me arrepiar as coincidências com a minha vida, mas isso é muito pessoal. O que importa é que, assim como eu, o Hermano não curtia muito jogar futebol, mas joga pra fazer social, e numa dividida com o Bonobo, provoca uma falta maldosa que desperta a ira do sujeito. O que ele faz pra se redimir depois? Toma um estabaco na bicicleta, descendo umas escadarias. Esse é o começo de uma história de adolescência marcada por isso: a autoflagelação juvenil. Vai entender…

E aí temos a história do Hermano adulto, que, como todo adulto oriundo de um adolescente antissocial, tem apenas um amigo e chato pra caramba, ainda por cima. Hermano fez medicina, é casado e tem uma filha, e gosta de escalar montanhas. Afinal, pra ele agora a resposta de “O que é viver?” é escalar montanhas, como um garoto propaganda almofadinha de comercial de SUV, que estaciona a caranga na beira do penhasco e contempla a paisagem com um senso de autorrealização que respinga na gente. E aí o amigo chatão propõe escalar um vulcão na fronteira da Bolívia com a Argentina que ninguém nunca escalou antes. Sei lá, não sou alpinista, mas isso me parece bem o tipo de tara que alpinista tem. Só que aí o rapazote joga tudo pro alto, e pra quê? Pra se estrepar voluntariamente – agora que ele é adulto, tem a certeza de que dessa vez a parada tá certa. Não queria dar muito spoiler, mas é inevitável.

E aí fechamos a história do menino que acreditava que seu sangue lavaria, inicialmente, sua falta de hombridade, depois sua falta de honra e por último, sua falta de coragem. O menino que exige demais de si mesmo, que tem sensatez demais para seu próprio bem, e que não larga essa ideia de que a vida adulta serve para redimir, de alguma forma, os erros da adolescência, como se nenhum adolescente fizesse merda. Então repare: o protagonista de Mãos de Cavalo é incrivelmente coerente em sua construção. Exagerado, é verdade, histriônico, é verdade, inverossímil até, mas coerente. Sua turma, o núcleo de sua vida após a formatura, tudo faz muitíssimo sentido, e esse é um mérito do escritor.

O estilo literário do autor, por outro lado, é um problema. Ainda que faça brilhantes digressões e arrisque um ou outro discurso indireto livre, falha miseravelmente na construção de uma linguagem oral, sob a qual grande parte do livro é narrada. Basicamente, a coisa se resume na falta de concordância de algumas palavras e uma gíria aqui e outra acolá, e isso bem de vez em quando. O resultado é estranhíssimo, tipo Gilberto Braga escrevendo fala de bandido da novela das oito. É claro, intelectualmente o livro tem seus pontos altos, e a clareza com que consegue articular uma ideia é invejável. Se queria criar uma surpresa sobre o personagem das três histórias serem os mesmos, também não funcionou. Mas acho que tudo bem porque não parece ter sido essa a intenção.

No final das contas, Mãos de Cavalo é um livro divertido e rápido. Para mim, serviu como um autoconhecimento interior, e literariamente, é melhor do que muita coisa que vêm sendo vendida por aí como a última Coca-Cola gelada do deserto. Mesmo assim, não é o tipo de leitura de que gosto e ao qual estou acostumado. O que não tira dele seus charmes e suas ideias interessantes. Então, fãs de Daniel Galera, não se preocupem, vocês estão bem acompanhados.

Comentário final: 190 páginas. Não sacia a sede de sangue dos masoquistas.

Craig Thompson – Retalhos (Blankets)

BlanketsO tempo se estreita, a pós-modernidade líquida escorre pelos dedos e daqui a pouco eu tenho que dormir e vou escrever isso o mais rápido possível. Pra galera que acompanha o blog de fora do Brasil, estamos em época de eleições municipais, e amanhã é dia de seguir os queridos candidatos pela cidade para saber que confusões esses diabinhos vão aprontar. E quando eu penso nos candidatos da minha cidade, a única coisa que me consola é lembrar-me de que eu não moro em São Paulo. Paulistanos, me desculpem, mas vocês tem um gosto pra política similar ao seu gosto musical.

Mas não estamos aqui para falar de política, não é verdade? Estamos aqui para falar de coisas agradáveis e edificantes como literatura. Ou, mais especificamente, no caso de hoje, de quadrinhos. Eu só falo de quadrinhos em duas situações limítrofes: a primeira é quando a graphic novel (para usar um outro termo, mais afrescalhado) em questão é muito boa; a segunda, quando tô sem livro pra comentar. Felizmente hoje é o primeiro caso, então regozijem-se (regozijar é um verbo que só dá pra escrever, jamais pronunciar sem enrolar a língua) com as maravilhas da HQ estadunidense Retalhos, do Craig Thompson, um dos livros mais hypados tanto pelos críticos da linguagem quanto pelos meninos que tocam músicas do Charlie Brown Jr no violão, sentados na rampa de skate de seu bairro com uma camiseta suada de três dias.

E quem é Craig Thompson, vocês me perguntariam com a avidez e a curiosidade de quem chega cá por essas paragens cibernéticas para embriagar-se com o doce suco do conhecimento. E o mais bonito da resposta é que ela está contida na própria obra. Thompson fez um quadrinho autobiográfico em que conta trechos da sua infância e episódios da sua adolescência que culminam na descoberta do primeiro amor adolescente. Toda aquela parada de “quinta-série-o-primeiro-beijo-a-primeira-sacanagem”, só que pra ele aconteceu muito mais tarde porque — aí é que tá! — o cara foi criado num ambiente ultra-religioso em que Jesus era quem dava a palavra final nas decisões da família. Pecado original, toda aquela culpa, o rapazote não podia nem desenhar direito e a professorinha da escola dominical dizendo que ele não ia poder nem desenhar no céu, era óbvio que sairia dali uma mente brilhante, já que todo artista tem uma alma torturada (é o boato que corre à boca pequena). Só quando ele já fica maiorzinho, quase terminando a escola, é que conhece Raina, uma menina cristã que frequentava um desses Jesus Camps para os quais ele ia no verão (ou no inverno, sei lá), e que dá pra ele de presente uma colcha de Retalhos, símbolo da devoção e da paciência do primeiro amor.

Nesse amor adolescente reside a beleza e a pureza das respostas das crianças. É num diálogo sincero com o eu do passado que Craig junta as pontas da vida até o momento para chegar à magnífica conclusão de que é justamente quando o amor se mostra em seu estado mais selvagem e arrebatador é que ele é igualmente impotente e castrador. As relações sistólicas e diastólicas de quem, ao mesmo tempo em que sofre com o ameaçador e desconhecido futuro que implica o clássico chute pra fora do ninho, quer drástica e irremediavelmente já ter encontrado uma resposta para endireitar a vida amorosa. Condicionar os primeiros anos da vida adulta a esse amor, mudar-se para um trailer, viver de música, ir morar no Hawaii e tocar guitarra às três da manhã com a vizinhança de cabelo em pé, é esse o tipo de aniquilação da ambição que o amor juvenil causa. Nada mais lindo do que ver um homem sem qualquer projeto de vida a não ser encontrar um cantinho para cutucar o pudim da amada em paz, sem ser incomodado pelas chatices do estilo de vida yuppie.

Tudo separa Raina de Craig Thompson. A distância geográfica (a mocinha mora em outra cidade, muito longe dele), a abstinência sexual (católicos do meu Brasil: saiba que esse não é um termo negociável do cristianismo. Ou você espera ou você não tem direito de comemorar o natal, foi o que uma autoridade do baixo clero certa vez me falou), a necessidade de instruir-se profissionalmente para trabalhar de sol a sol numa cidade sem sol, tantas outras prioridades de sobrevivência a serem cumpridas antes de gozar do conforto para fornicar, amar, casar. Ai ai, não é fácil ser um jovenzinho. Pra piorar, o autor-protagonista precisava ainda acertar as contas com seu criador, com aquela perda sistemática da fé que acarreta a tomada de consciência das agruras da vida adulta. Os catequistas têm se empenhado agora em não levantar muito as expectativas do pessoal, dizendo que Deus é só amor porque já viram que não dá certo, mas naquela época a coisa era um pouco diferente e o bichinho acuado caiu em si e renegou secretamente sua religião.

Tudo isso me lembra esse vídeo:

Então é basicamente isso, o Retalhos: uma história sobre a descoberta da própria sexualidade, das próprias opiniões, e da tristeza que é envelhecer. O mais legal do livro é a linguagem bíblica com que ele embasa todas as pequenas revelações da sua vida, a narrativa não linear que vai e volta à sua infância (o rapaz foi abusado pelo baby-sitter quando era criança de verdade? Acho muito absurdo como ele cita isso no livro como a maior das trivialidades). Mas é na sinceridade da história que ele ganha o leitor. É incrível como as pessoas querem reinventar a roda em obras autobiográficas quando é um dos poucos gêneros em que existe uma fórmula clara do sucesso: sê sincero e receberás o céu. Foi isso o que o cara fez. Um retrato sincero sobre sua infância, sua juventude, seus medos e seus tesões, tudo, obviamente, num desenho maravilhosamente bem feito, engraçado e comovente ao mesmo tempo. Não é, nem de longe, o quadrinho genial que todos dizem encontrar, mas é uma singela história de vida que pode ganhar um cantinho no coração da galera.

O projeto da Companhia das letras é simples como o desenho de Craig Thompson,  preto no branco sem tons de cinza (graças a Deus, ninguém aguenta mais tom de cinza nenhum por essas bandas). A tradução sempre precisa do Érico Assis ajuda na boa leitura da coisa, mas é nas splash pages e nos quadrinhos mudos que a gente percebe a riqueza do traço e dos enquadramentos, da direção artística do autor, se a gente pode dizer assim.

E é isso. Não tenho muito mais a acrescentar. E também não posso, como disse, estou mais em cima da hora que aquele coelho da Alice. Desculpem pela sinceridade e pela brevidade de hoje, espero que não seja um impeditivo para apreciarem a leitura. E a propósito, perdoem e desconsiderem quaisquer erros ortográficos ou de digitação. Ando sem tempo para uma revisão detalhada. Fui!

Comentário final: 592 páginas em papel offset. Finalmente um afundador de crânio de volta a esse site.

Alejandro Zambra – Bonsai

Sejam bem vindos, queridos leitores, a última resenha do mês do Livrada! Estou entrando em um recesso para dar umas bandas pela Europa. No próximo domingo eu estarei perdido pelas ruas de Lisboa e este será só o começo de um belo e merecido descanso, afinal, não é fácil ler um livro para vocês e dois livros para o meu trabalho toda semana, mas eu sou Brahmeiro! Quer dizer, eu não bebo nada alcoólico, mas ouvi dizer que isso é uma expressão para designar uma pessoa que mesmo fazendo algo imprestável e absurdo, não desiste de forçar a barra para as pessoas curtirem, como o Carlinhos Brown. Então, espero que compreendam, aproveitem esse tempo para, sei lá, aprenderem a fazer ikebana, ou, se estiverem com saudade do blog, ler alguns posts antigos – tenho certeza de que este blog ainda não foi desbravado em sua totalidade por vocês, tamanha sua extensão oceânica! Acredito que no dia 15 de julho estarei de volta. Se sentirem saudades, escrevam no bloglivrada@gmail.com.

Mas vamos mudar de assunto porque esse papo de despedida é chatão. Vamos falar de coisa boa, vamos falar da nova tekpix! Hohohohoho, mentira, vamos falar desse pequeno grande livro publicado pela Cosacnaify, o Bonsai. Então, logo logo julho tá aí, vai começar a FLIP, e como vocês sabem, eu sou de Paraty e quando vejo a cidade tomada por aquele povo, apenas uma música me vem na cabeça. E o pior de tudo é que enquanto neguinho vai estar se acotovelando para conseguir fungar no cangote do Le Clézio, passar a mão na bunda do Franzen e de outras estrelas da vez, um tal de Alejandro Zambra deve passar despercebido por, como Flavor Flav, não acreditar no hype. Pois este Alejandro Zambra, sujeito novo no auge de seus 30 e tantos, teve uma das melhores estreias literárias como romancista que alguém pode querer almejar hoje em dia. Foi este livro, que publicou em 2005, após publicar uns dois livros de poesia.

Falemos do interior, mas antes, deixe-me dizer algo sobre a extensão do livro, porque Bonsai é ridiculamente pequeno. É tão pequeno que se fosse um pênis, o autor só ia fazer xixi na cabine. Sério, é um desses livros que você lê numa sentada (“numa sentada”, longe de ter alguma conotação homoafetiva, é uma medida de tempo que só os bibliófilos entendem), pode pegar uma tarde preguiçosa, o recreio do colégio, pode ler na missa enquanto o padre fala, pode ler enquanto espera o ônibus que vai para o Cabral, pode ler enquanto assa uma pizza, enfim, é muito curto. E ainda assim, é muito complicado. Não complicado de ler, pelo contrário, é uma historinha singela e bonita que o cara fez aqui. O problema é a leitura mais densa do livro, que se faz por baixo de camadas e mais camadas de metatexto.

Bom, vamos lá, vejamos o que eu consigo me lembrar dele agora nesse estágio de torpor da madrugada. Bonsai conta a história de dois amantes, Julio e Emilia, dois estudantes de literatura que se conhecem, se amam, e leem livros enquanto se amam. Pra falar bem a verdade, eu estava com esse livro muito vivo na minha cabeça, mas agora estou lendo o livro novo do Eugenides e o universo é muito parecido, então temo dar uma de Pedro Camacho e começar a trocar as bolas. Perdoem-me por qualquer imprecisão, a cabeça desse velho não é mais a mesma.

De qualquer forma, rola que o casal curte ler uns livros entre uma bimbada e outra. E acontece de lerem um conto do Macedónio Fernandez chamado Tantalia, que é a história de um casal que compra uma plantinha para simbolizar o amor deles e logo percebem que se a tal da plantinha morresse eles iam ficar muito abalados, então colocam essa plantinha no meio de várias outras plantinhas para não saberem qual plantinha é qual e logo depois se arrependem de terem perdido a plantinha no meio das outras. Eu sei, eu sei, a gente se sente bem normal depois de testemunhar uma jaguarice dessas, mas veja que boa metáfora do que forçar a barra para zelar pelo amor. Enfim, reflitam sobre isso.

Fato é que esse episódio abala muito a vida do casal, eles terminam e a partir daí a história se desmembra em alguns raminhos, como de uma árvore pequena. É, como um bonsai, sabichão, mas não é por isso que o livro tem esse nome. Voltando: a mocinha sai de Santiago e vai morar na Espanha, antes dividia o apartamento com uma amiga gorda que casa com um gordo que dá em cima dela, enquanto isso o rapazote começa se tornar copista de um tal de Gazmuri, que escreve o livro na mão, e a partir disso ele começa a mudar o livro do cara a tal ponto de estar escrevendo sobre um bonsai e sobre a relação que tinha com Emilia. A escrever o conto de Macedónio Fernandez, enfim. Quer dizer: um cara escreveu um livro sobre um livro que um cara escreveu que foi lido por outro cara que reescreveu esse livro baseado na história desse livro que você está lendo. Holy macarroni.

Primeiro que é muito interessante saber que o Alejandro Zambra realmente curte fazer bonsai. Talvez tenha sido daí que ele pegou a técnica de podar o texto. Não podar para tirar as digressões, as palavras a mais como Dalton Trevisan (beijo, Dalton!) ou algo assim, mas no sentido de podar para colocar uma objetividade na narrativa não-linear de maneira que a seja possível obter uma única camada mais densa de leitura, e a partir dela, uma infinidade de interpretações que ficam por sua conta e risco. Mesmo assim, é muito fácil perder-se nessas interpretações e saber distinguir qual camada foi ele que construiu e quais foram você e sua cabecinha neurótica. O texto é lindo, é gostoso de ler, tem uma leve gagueira mental à lá Gertrude Stein, mas nada nem de longe irritante como ela. E nessa simplicidade, você mal consegue acreditar que há um gênio da linguagem te jogando para dentro de um labirinto circular de livros dentro de livros, mezzo Italo Calvino, mezzo Borges. Uma combinação explosiva, eu diria.

E é excelente que o Zambra faça isso em tão pouco espaço, é um daqueles livros que dá para ser discutido em clube do livro, sala de aula, o que for. É simples, prático, quem for burrinho não vai se sentir menosprezado porque é uma leitura tão democrática que todos conseguem apreciar um pouco, e nem pesa na bolsa. O poder de síntese hoje é facilmente confundido com preguiça, falta de obstinação, morte do grande romance, autorezinhos de bosta sem fôlego, mas não tenho dúvidas que nesse caso é puro talento. Aliás, acho que é uma coisa própria de quem faz poesia. O sujeito fica pensando muito em texturas e camadas que não desata a escrever catataus como os instintivos pouco intelectualizados (sem generalizar aqui). Ponto pro cara, acho que o fato dele vir é uma prova de que a FLIP não é só feita de rockstars afinal de contas. Ainda estão de olho em quem é bom independente de hype ou de momento. Boa, seu Zambra.

Esse projeto da Cosacnaify faz o livro parecer menor do que já é, com uma margem estratosfericamente grande e uma fonte miudinha, tipologia arnhem (alguém já ouviu falar dessa fonte?). O resto é aquela coisa da Cosacnaify, né? Designer que fica se coçando pra querer reinventar a roda e etc. Um livro lindinho como sempre, mas muitíssimo melhor no conteúdo.

Ah, sim, para quem estava esperando encontrar outra coisa aqui hoje: resolvi fazer o post dos autógrafos na volta. Por quê? Porque deu preguiça e tô pilhado com essa viagem, então vamos fazer com mais tempo. E se você ainda não mandou, pode mandar seus autógrafos favoritos para bloglivrada@gmail.com, contando a historinha de como ganhou ele do seu escritor ÍDOLO. Aproveite, gente!

Comentário final: 96 páginas pólen soft. Nem deixa marca!

Sérgio Sant’Anna – O Livro de Praga

Hoje é domingo, pé de cachimbo, dia das mães, todo mundo enchendo a pança em família e fazendo as mesmas piadas de “é pavê ou pá cumê” e “afinal, avó é mãe duas vezes”, enquanto têm-se a ligeira impressão de que mais um domingo acaba, mais um final de semana chega a seu ocaso e mais uma vez, os objetivos alcançados foram mínimos. Suspira conformado e vai para a cama esperar o começo de mais uma melancólica semana. Mas não tema, homem moderno e exemplo patético da herança orgânica da Terra, cá está o livrada para colocar mais miolos nos seus miolos e mais tutano no seu tutano. Sente-se, relaxe e aproveite mais esse livro do dia, quem sabe quando você chegar ao final você se anime a visitar uma livraria e comprar algo bonito para a sua estante e seu cérebro.

Bom, este é o penúltimo post antes das minhas tão merecidas férias, e fala logo sobre Praga, cidade que estarei visitando daqui a exatamente um mês. Por isso achei conveniente e vamos lá, é livro nacional, sempre uma boa pedida!

O Livro de Praga é obra do escritor Sérgio Sant’Anna, que obviamente já viu dias melhores na hora de bolar um título criativo. Sant’Anna fez parte do time da coleção Amores Expressos, do almighty Rodrigo Teixeira, da RT Features, produtora paulistana de qualquer coisa. Pra quem tá de bobeira, vou explicar: dezesseis autores viajaram bancados pela empresa para passar um mês em alguma cidade do mundo com a missão de voltar e escrever uma história de amor situada nessa cidade. Primeira consideração: vida chata, hein galera? Fala sério, ser chegado do Teixeirão aí é a maior jogada (me liga, cara, vamos jogar uma bola qualquer hora!) E isso prova que eu não teria o menor tino pra coisa, o santo aqui ia desconfiar dessa esmolada toda e não ia arredar o pé com medo de ter a alma roubada depois. Sério, gente, não me ofereçam dinheiro, morro de medo… Bom, de qualquer jeito, até o momento, sete livros já saíram pela Companhia das Letras: esse, o Cordilheira do Daniel Galera (Buenos Aires), , Estive em Lisboa e Lembrei de Você do Luiz Ruffato (Lisboa… dã), Do Fundo do Poço se Vê a Lua, do Joca Reiners Terron (Cairo), O Único Final Feliz Para Uma História de Amor é um Acidente, do João Paulo Cuenca (a vírgula se faz necessária aqui… Tóquio), Nunca Vai Embora, do Chico Matoso (idem… Cuba) e O Filho da Mãe, do Bernardo Carvalho (ibidem… São Petesburgo). A coleção prevê ainda livros do Lourenço Mutarelli sobre Nova York e um livro rejeitado de um gaiato de Goiânia que foi para São Paulo (o azarento da turma, provavelmente), entre outros. Olha, já vi ideias melhores para coleções literárias, e essa me parece a Paris Hilton das coleções literárias: perdulária, superficial e altamente desejada por fashionistas antenados nas tendências. Isso enquanto coleção, o que não quer dizer que, individualmente, a parada não guarde boas surpresas, como é o caso desse livro. Vamos a ele.

Sérgio Sant’Anna teve muito culhão pra fazer o que fez no Livro de Praga: pegou a grana que lhe foi dado, passou um mês usufruindo sabe-se lá de quais serviços do Leste Europeu e voltou não com um romance, mas com um livro de contos mascarado de romance e com um roteiro de filme pornô mascarado de história de amor, usando como pano de fundo a maior parte dos clichês da capital checa – coisa que uma semana na cidade ou duas semanas na Wikipedia resolveriam de forma igualmente eficaz.

O protagonista é um sujeito chamado Antônio Fernandes, um cara que guarda grandes semelhanças com o autor do livro à exceção do excesso de swag que lhe permite passar o rodo em Praga. Fernandes – olha só! – também está passando um mês em Praga a pedido de um ricasso para uma coleção literária. É, a imaginação do cara voou longe pra bolar essa história… O “romance” é dividido em vários contos e em cada um deles o herói Antônio Fernandes (que também poderia ter sido batizado Dirk Diggler) se envolve com alguma peripécia artística e sexual: numa hora é precisa desenbolsar uma bolada para ver e trepar com uma pianista reclusa e seleta, noutra descobre que um sujeito cafetina a irmã que tem tatuado um manuscrito inédito de Kafka no corpo, noutro compra uma boneca no teatro que ganha vida na cabeça dele, noutro ainda transa com uma santa fictícia num altar. Tudo no maior delírio, na maior loucuragem, na maior psicodelia libertina. O sujeito está em alfa, em nirvana, pra lá de Bagdá, viajando na maionese enquanto essas coisas acontecem nos seus sonhos diurnos. Cada uma das aventuras é um tipo de tara e um tipo de arte: felação e música, penetração e escultura, literatura e donkey show, sei lá, o cara vai misturando as taras da cabeça dele com as artes que vai encontrando.

E aí vai aquela coisa, aquela ambiguidade onírica gostosa: é sonho ou é realidade? É sexo ou é amor? É romance ou é conto? É arte ou charlatanismo? Você decide, você julga e você escolhe, porque a minha opinião está guardada na minha cabeça e se eu intercedesse nesse ponto eu interferirira da pior maneira na sua leitura: limando a sua imaginação e sua capacidade de julgamento e discernimento. Como eu não tenho cara de televisão, jogo pra galera.

Esse projeto gráfico é uma maravilha, faz todo mundo querer fazer a coleçãozinha, porque vem com um carimbinho e o público gosta disso: gotta catch ‘em all, mr. Pokémon. Essa capa é mais bonita que as outras, na minha modesta opinião, por ser menos pop, menos teen e menos hype. Papél pólen, fonte Electra e todo mundo fica feliz. Alright!

Eis os meus recados:

1-    Essa é a última quinzena para mandar seus autógrafos. Tô querendo fazer uma parada massa aqui e a galera não colabora. Não adianta nada ter dez mil acessos no mês e receber quatro e-mails, sejam participativos, colaborativos, sejam mais Che Guevara e menos “com 5 mil ‘curtir’ o médico vai fazer um transplante de rim pro labrador dessa garotinha com câncer”. Vamos lá, vai ser legal: envie fotos ou imagens scaneadas de seus autógrafos favoritos para bloglivrada@gmail.com

2-    Não sei se já viram, mas agora além de criticar livros, também critico hambúrgueres – um trabalho bem mais gostoso, vá lá. Se não conhece ainda, passa lá no Good Burger a qualquer hora e procure os meus textos, mas leia também os do Murilo, meu camarada que tampouco foge à luta.

3-    Já que nunca é pedir demais: curtam o Livrada! no Facebook e sigam @bloglivrada for more.

Comentário final: 144 páginas pólen soft. Voando daqui até Praga, uma porrada no orelhão do Kafka.

Yu Hua – Viver (活着)

Primeiro de abril. O dia da mentira. Por que diabos a mentira tem um dia? Não fui correr atrás da história, que tenho certeza ser embasada em inocentes ou boas intenções, mas o fato é que mentira, para os que dividem o mundo em dois pólos, faz parte do lado negro da força. E talvez seja o único lobo em pele de cordeiro que abraçamos no nosso calendário e ainda permitimo-nos com isso velejar pelas águas maléficas daquela que tem a perna curta. Ora, por que não inventar um dia do estupro e estuprar a torto e a direito? Um dia da inveja para cometermos o pecado capital mais capital que existe? Um dia da calúnia para denegrirmos o próximo? Um dia do D.U.I. para matarmos pedestres como filhos de celebridade? Não? A mentira é uma coisinha boba de nada? A mentira de Orson Welles lendo H.G. Wells no rádio não foi coisa boba, a mentira de Judas criou uma religião e a mentira de George W. Bush colocou um país em guerra. Lembrem-se disso, abracem a culpa. Cilício na coxa de todo mundo hoje à noite!

Ok ok, vamos parar com a brincadeira e mandar o recado sério: tem em casa algum livro autografado de uma maneira especial, ou com uma história boa por trás do autógrafo? Mande uma foto para bloglivrada@gmail.com contando um pouquinho da saga dele, que vai ser legal. Os primeiros e-mails já chegaram. E você? Vai ficar de fora? (tosqueira publicitária que se infesta no nosso piloto automático).

E vamos ao livro de hoje, porque hoje tem livro que presta. Yu Hua, esse chinês maluco, é a minha mais nova grande descoberta literária. Onde eu estava quando seus livros saíram? São tristes, maravilhosos, viciantes e acachapantes! No começo do ano havia lido Crônica de um Vendedor de Sangue e, impressionado com a leitura, resolvi correr atrás desse que disseram ser um dos grandes clássicos dele: Viver, que foi adaptado para o cinema em 1994 sob os cuidados de ninguém menos do que Yimou Zhang – que ficou mais conhecido por dirigir filmes de espadachins voadores do tipo Herói e O Clã das Adagas Voadoras.

Sabe aqueles elogios rasgados que as editoras colocam na capa na vã esperança de que alguém olhe e pense: “Nossa, se a Nesweek falou que é surpreendente, brilhante e arrebatador, então deve ser bom mesmo. Vou comprar”? Pois bem, o desse livro, assinado misteriosamente pelo Washington Post (o autor pouco importa, né? Pode ter sido o comentarista esportivo) diz “Nesta história de luta e sobrevivência, Yu Hua cria imagens inesquecíveis”. Pois o sr. Washington Post não poderia ser mais certeiro em seu comentário. Viver é sobre isso, sobre imagens inesquecíveis que vão te dar um aperto na boca do estômago a cada vez que você se lembrar delas.

A história é a seguinte: um sujeito passa pela zona rural da China coletando causos, músicas populares, enfim, um desses carimbós com os dois pés enterrados na lama do regionalismo querendo resgatar a memória sertaneja, coisa e tal. Nessas, encontra um velhinho tomando conta de um búfalo igualmente velho, e o velho resolve contar a história da vida dele. E aí senta que lá vem estória: está no ar um clássico romance de formação, da infância até a terceira idade.

O velho em questão é Fugui, o filho perdulário de um próspero, mas igualmente perdulário latifundiário (ários, ários, ários). Fugui não quer saber de estudar e quando cresce, só sabe perder dinheiro na jogatina e maltratar a esposa, até que perde toda a propriedade do pai na mesa de dados, e aí precisa virar um homem da roça. O pai do rapaz, coitado, morre de desgosto e a mulher vai pra labuta diária, mesmo grávida. Até que um dia a mãe de Fugui cai doente e ele precisa ir à cidade buscar remédios pra ela. Pois não é que quando ele chega lá, é “recrutado” à força pelas tropas do general Chiang Kai-shek e levado ao campo de batalha. A partir daí, filhão, é ladeira abaixo nas tristezas da vida. Manja aquele bordão que diz que nada é tão ruim que não possa piorar? Esse livro comprova essa máxima ao máximo! Contar mais do que isso é muito spoiler, mas digamos que Fugui e sua família enfrentam a partir daí todos aqueles anos críticos da história da China do século 20: o grande passo adiante, a revolução cultural, e etc. Exatamente, o mesmo período de tempo de todos os romances de Yu Hua.

É tão legal quando um escritor se obceca com algum período ou algum tema e não se torna um panfletário chatão (como meu querido Spike Lee chega a ser algumas vezes). Gosto de pensar que em algum momento, todos os personagens de Yu Hua se encontraram ou se viram na rua em algum momento. Todos compartilharam os mesmos perrengues, só que em situações diferentes. E eu acho que a principal mensagem que o autor passa com essas histórias é que na China a vida é difícil, mas aí vem o governo e torna ela dez vezes pior. Tomemos como exemplo o episódio conhecido como O Grande Salto Adiante, quando a China resolveu industrializar as cidades e socializar o campo, e as pessoas tiveram que doar seus woks (aqueles panelões de fazer yakisoba) para fundir o metal e construir material bélico e fábricas e vinte milhões de chinas morreram de fome no final dessa brincadeira. A China, antes de ser comunista, é liberal porca (liberal no sentido brasileiro da palavra), trabalhando às custas da população e tudo mais, mas o episódio dos woks marcou mesmo Yu Hua, porque ele fala disso sempre que pode. A mensagem é clara: mesmo tirar a ferramenta que produz o alimento de uma família é algo a que o governo não se furta quando o assunto é passar a frente.

Ao mesmo tempo, a vida tem seus percalços e seus mistérios. Uma doença, uma falha no caráter, um alinhamento errado dos planetas que faz pequenas cagadinhas se juntarem numa cagadona, quem nunca passou por isso? Uma análise matemática do livro vai mostrar que exatamente a metade dele é arruinada pelo governo e a outra metade é arruinada pela falha de caráter das pessoas e problemas de saúde/casualidades. Quando eu digo que o livro é arruinado eu quero dizer que a trama, que teria tudo para ser bela e redentora e acaba sendo uma desgraceira que só. Sério, galera, Viver é a parada mais triste que eu já li em anos, e olha que eu leio livro tiste quase todo mês. Acho que em mateira de sofrimento e desespero, nem Kafka chega perto desse chinês aí da foto (na verdade posso ter pego a foto de outro chinês, não saberia dizer, todos se parecem pra mim). Não posso contar o porquê porque estragaria o livro, mas dá vontade de levar esse cara pra dar uma volta na roda-gigante pra ver se ele fica mais numa nice. Eu estava esperando algo mais na linha Morte e Vida Severina, Vida e Época de Michael K, mas Viver ultrapassa a barreira do suportável para qualquer personagem de qualquer livro.

Esse projeto gráfico da Companhia das Letras destoa dos outros dois livros do autor publicado por ela. Mas, por outro lado, esse foi lançado primeiro, e acho válido pensar em novas formas para o livro quando se pretende lançar mais títulos. Mesmo assim, fonte Electra, papel pólen e uma linda foto de capa, mascarado pelo Azul Incomodante #3. Diferentemente do Crônicas de um Vendedor de Sangue, esse livro foi traduzido diretamente do chinês pela nossa heroína do dia, Márcia Schmaltz. Todos os respeitos prestados à sra. Schmaltz! E ficamos por aqui. Perdoem-me se a resenha não estava tão boa como de costume, mas a vida tem dessas. Às vezes somos felizes, às vezes não.

Comentário final: 210 páginas em papel pólen soft. Alimenta um urso Panda por algumas horas.