George Orwell – Na Pior em Paris e Londres (Down and out in Paris and London)

Down and out in Paris and LondonAntes de começar um post de hoje, queria fazer uma DR aqui com vocês. Vem cá, eu fiz alguma coisa pra vocês não comentarem mais nos posts? Todo mundo continua lendo que eu sei, e o espaço pra fazer comentários fica lá no final do texto, junto com as tags, se é essa a desculpa que vocês vão usar. Agora, se alguém está se sentindo com a liberdade de expressão tolhida neste espaço democrático, fazer o favor de assinar três vias, passar no setor de timbragem e começar a criar vergonha na cara porque comentário pra blog é que nem risada pra palhaço – a gente sabe que é pelos motivos errados, mas aceita de bom grado todos eles como fruto de um bom trabalho. Então, por favor, não se acanhem. Fim da DR.

Comecemos aqui a tecer  a genialidade de George Orwell em seu relato mais vanguarda, genial, duro, chocante, lindo e fedorento, o livro de memórias Na Pior em Paris e Londres. Diferentemente de livros que sugerem que o sujeito ficou na pior, tipo Paris é um Festa, Orwell, esse gênio subestimado da literatura (vou passar o texto todo chamando ele de gênio que é pra ver se alguém me ouve, já que não me ouvir parece ser o maior mal desse país), realmente comeu o pão que o diabo amassou nessas duas belíssimas capitais e destino certo de jovens adolescentes idiotas que querem, meo, fazer uma trip pela Europa, tá ligado? Pegar umas gringas e ficar muito lokooo uuuhulll.

Orwell já perambulava pela Europa quando era jovenzinho, tendo estudado aqui e ali em Londres, mas foi pra Paris pela aura mágica da cidade-luz para ver se vinha a inspiração que veio para tantos antes dele. Só que aí ele começou a se ferrar, primeiro teve uma tuberculose em 1929, depois foi roubado e começou a trabalhar de plongeur num restaurante de um hotel chique em Paris. Aí começa a saga do nosso Dante moderno pelo sétimo círculo do inferno (não acham um saco quando um crítico literário começa a falar coisas como “O nosso Dante moderno”, “Esta Beatriz da periferia”, “a Capitu do terceiro milênio”. Como se esse povo já não fosse metido o bastante). Orwell realmente passou fome, viveu com menos de dez centavos por dia e empenhou tudo o que tinha para viver a base de uma dieta de pão e cigarro. E a vida de lavador de prato era das piores, trabalhando dezesseis horas por dia em condições análogas a de escravidão. Agora digam vocês quantos dos seus veneráveis escritores da torre de mármore teriam culhão pra fazer um lance desses? Veja, ele podia pedir penico, voltar pra Índia e tudo mais, mas aguentou a barra ali pela vivência e pela determinação. Como não se admirar com esse gênio, que, além de tudo, é humilde ao traçar suas claras e simples linhas sobre o luxo, a pobreza, a fetichização do trabalho braçal e a vida do plongeur?

George OrwellDepois de Paris, ele vai pra Londres, onde, aparentemente, a mendigagem é uma prática institucionalizada, com profissionais do ramo, rota de albergues e manuais de como conseguir dinheiro na rua. Só que ser mendigo na Inglaterra não é um troço tão fácil de se aceitar na cachola por causa do calvinismo e da sua relação direta entre salvação e trabalho. A galera inglesa é doutrinada no workaholismo, e por isso ser mendigo em Londres requer um esforço a mais. Mesmo assim, lá foi o nosso gênio, nascido no protetorado britânico, provar que também aguentava mais essa, enquanto a grana de uns escritos dele ainda não chegava. Passou de albergue em albergue sentindo catinga de inglês (dividi um albergue com um velho londrino em Amsterdã uma vez. Até hoje sinto vontade de vomitar quando lembro do cheiro daquele coroa, e ele nem era mendigo!), comendo sopa rala e vivendo na sujeira sugismunda mesmo. Mas aguentou e escreveu um dos livros mais geniais que tive o prazer de ler este ano. Recomendo pra todo mundo a obra desse gênio.

E por que recomendo a obra desse gênio? Primeiro, pelo relato. Segundo, pelos insights. Terceiro, pelo ineditismo e pelo vanguardismo da coisa. Quarto, pelo spotlight. Quinto, porque eu gosto de recomendar coisas pra vocês. Depois vocês levam minha recomendação a sério e eu me sinto importante. Sexto, porque veio na edição nova da Companhia das Letras da coleção do Orwell, e antes disso era parte da coleção de Jornalismo Literário, e acho que a Companhia das Letras precisa de muito incentivo pra reimprimir livros velhos e maravilhosos e não tão vendáveis, já que estamos entrando na era da imbecilidade e muita coisa boa tá esgotando e não sendo mais reimpressa (quero os Cormac McCarthy e os John Updike de volta, dona editora!). Sétimo, porque é aquele caso raro em que a literatura brota da vivência, e de uma vivência vivida não necessariamente nem exclusivamente para servir à literatura, mas para edificar o espírito humano de quem escreve, o que só deixa tudo mais perfeito e genial. E oitavo, porque Orwell é um gênio, e não foi com 1984 nem com A Revolução dos Bichos que percebi isso, mas com Na Pior em Paris e Londres, desde já meu livro favorito dele. Mesmo sem discorrer muito sobre o livro, acho que dá pra perceber o porque eu gosto dele. É um livro tr00, sincero, singelo e cheio de aventuras e sabores só experimentados na extrema pobreza. É assim que ele conta, por exemplo, como aprendeu o truque de comer pão com alho, porque o gosto do alho fica na boca depois de um bom tempo, e isso dá a impressão de que você comeu recentemente. Ou como ele parava na frente de uma vitrine para esbofetear o rosto antes de pedir emprego, porque ninguém dava emprego para gente de rosto pálido, morto de fome. Era preciso fingir que se estava melhor do que se realmente estava. Enfim, essas pequenas malandragens do miserê total. Fica a dica (stay the dick).

Comentário final: 256 páginas em papel pólen soft. Gênio! Orwell Gênio!

Allen Shawn – Bem que eu queria ir (Wish I could be there)

wish i could be thereLer não-ficção é sempre bom pra desopilar a mente de narrativas que sugam toda a sua atenção e sua capacidade de abstração pra uma história que pode se revelar muito pouco merecedora do esforço.  Dentre as não-ficções boas para isso, os ensaios livres, aqueles em que o cara usa muito pouca referência acadêmica ou, pior, ignora qualquer referência e escreve as ideias dele sobre o tema, são as melhores porque a coisa da arte ativa vai embora e dá lugar a uma conversa boa entre você e o autor, na qual você senta e escuta e ele fala. O livro do Allen Shawn, Bem que eu queria ir, é assim. Uma conversa leve e edificante sobre o mundo das fobias.

Shawn é um compositor nova-iorquino, autor de muitas peças eruditas e populares. O pai dele era editor da revista The New Yorker, que é, para muitos, a melhor revista de todos os tempos. Mas tanto ele quanto o pai cresceram me meio a muitas fobias. De lugares abertos, de lugares fechados, de avião, de elevador, enfim, aquela coisa toda. E, diante da sugestão de um amigo de escrever um livro sobre suas fobias e de como elas atrapalham sua vida, o músico resolveu basicamente pegar tudo o que estava ao seu alcance e escrever um pequeno compêndio misto de experiências pessoais e estudos sobre a questão das fobias.

Assim, existem capítulos que tratam de psicanálise, de neurologia, da percepção do medo no mundo da arte, de outras pessoas célebres e fóbicas como ele, de lembranças de sua primeira infância, das relações com seus familiares – dos quais, sua irmã gêmea Mary, deficiente mental, parece desempenhar um papel preponderante em sua personalidade –, enfim, tentou fazer uma compreensão macro da coisa, pra não deixar nenhuma aresta.

Esse caráter heterogêneo também dá ao livro um ar meio indefinido. Afinal, Bem Que eu Queria Ir é um livro sobre fobias, ok, mas a que ele se propõe? Explicar a vida do autor a partir de tudo o que já se estudou sobre o tema e a partir de experiências vividas? Ou, ao contrário, legitimar os estudos diante de suas vivências que, acreditem, não são nada demais aos olhos de qualquer pessoa não-fóbica.  Mas que, de alguma forma, te fazem pensar em como seus medos são definidos pelo meio e são um reflexo do medo dos pais. Tudo isso faz muito sentido se você fizer um paralelo inocente com a sua própria vida.

fobiaAlém de indefinido, porém, o livro é meio irregular. Existem capítulos que são extremamente monótonos e outros que são bacaninhas mas, no geral, não é uma leitura tão empolgante. A vida do cara não tem nada demais, como eu disse e, sinceramente, também não sei o que eu estava esperando quando resolvi ler esse livro. Talvez ler umas coisas engraçadas do tipo “rá rá! Olha o que esse bobão tem medo de fazer”, mas a coisa não vai por esse caminho – infelizmente, porque se fosse, seria um livro mais engraçado, embora menos informativo. Ainda assim, o caráter didático da explicação de Shawn coloca um lampejo de alegria nos olhos de estudantes amadores de psicologia, uma raça que parece se propagar sem maiores motivos além de entender porque, afinal, a gente é tão zoado assim.

Como leitura de ensaio, Bem que eu queria ir é minimamente divertido, mas não sacia a sua sede de ensaio nem sua curiosidade sobre o tema, já que ele trata apenas de coisas muito pontuais e já que nem a própria ciência consegue dar conta das fobias humanas por enquanto. E como os estudos psicanalíticos de Freud são bem recentes e não há uma narrativa que mostre a evolução do ramo e de sua preocupação (como há, por exemplo, no glorioso O Imperador de Todos os Males, do Sidharta Mukherjee), também ficamos a ver navios nessa. Mesmo assim, o livro entrega o que suas 300 páginas prometem. Só não se empolguem muito.

O projeto gráfico do livro sim, é uma beleza. Fonte Electra, papel polen, capa em papel cartonado e uma arte de fazer inveja nos designers da Cosac. No mais, é o padrão da Companhia das Letras. Chuchu beleza.

Bem que eu queria ir cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

5- Um livro que não foi te indicado por ninguém

12- Um livro de não-ficção

Comentário final: 311 páginas em papel pólen. Quem tem medo de Livrada?

Mo Yan – Mudança (Bian)

bianNo ano passado, este blog fez um bolão do Nobel para ver quem iria acertar o ganhador do prêmio literário máximo daquela vez. Muitos apostaram com o coração e outros tantos com a lógica, mas quem ganhou mesmo foi o Guilherme Sobota, que, muito malandro, foi conferir o nome mais cotado nas casas de aposta antes de emitir seu palpite. Como a coisa já faz mais ou menos um ano e como foi aniversário do nosso leitor ontem, vamos falar do até então único livro do prêmio Nobel Mo Yan traduzido para o Brasil.

Sempre acho que um nome mais ou menos obscuro aqui que é laureado com o Nobel, eu encaro a coisa como uma lança no peito da curadoria editorial das casas especializadas do país. É certo que a corrida começa imediatamente depois do anúncio, e poucos conseguem um contrato mais permanente porque a verdade é que os tempos de “O que é bom para os Estados Unidos (ou, o que é bom para Estocolmo), é bom para o Brasil” do senador Juraci Magalhães já se foram há muito, e a verdade é que, com nossa própria literatura nivelando por baixo, se o cara for sisudão, a coisa nem vinga por aqui. Por exemplo, a Elfriede Jelinek, vocês sabem. É claro que o Nobel não é exatamente um bom termômetro da qualidade literária de um autor, já que o prêmio é sempre dado pelo conjunto da obra e por razões outras que não a própria literatura.

Felizmente, Mo Yan é um autor fácil e divertido de ser lido, e confesso que fui parcial na minha pré-avaliação dele porque ainda estou embasbacado com a literatura do Yu Hua, seu conterrâneo que já passou pelo Livrada! em duas ocasiões: aqui e, principalmente, aqui. Mas Mudança, seu primeiro título cá nesta terra de pecadores, não é um romance, é um livro de relatos, o que deixa o primeiro encontro com a literatura dele um pouco imprevisível, porque não dá pra ter uma medida muito certa do tipo de escrita que o sujeito pratica, ainda mais que ele conta na apresentação que escreveu o livro meio contrariado e meio sem saber o que estava fazendo. A ideia era escrever um texto que resumisse as principais mudanças na China maoista até sua abertura. A megalomania do projeto é pra desanimar qualquer um mesmo, ainda mais se você não é exatamente um estudioso da coisa e só tem uma memória prática dos acontecimentos.

Mas é justamente aí que está a graça do negócio. Mo Yan escreveu um livro pequenininho, de tão pequeno que chega a ser uma afronta à proposta original, e escreveu sobre sua própria vida, de garoto apagado e pobre do interior à vida no exército e suas primeiras publicações. É por meio dele que você aprende que tipo de mudanças econômicas a morte do camarada Mao trouxe para a população mais pobre, que pôde sair dos buracos onde moravam para visitar a onipotente Pequim, ou como os caminhões soviéticos passaram de objetos de consumo para velharias imprestáveis, e como o sonho de ser caminhoneiro entre os pequenos chineses morreu com a abertura para novos negócios. Mo Yan mostra como as pessoas que não tinham nada puderam enriquecer muito rapidamente depois da abertura, e como algumas publicações em revistas já alçaram o autor a um patamar gigantesco. Então a gente entende que o título do livro, “Mudança” é uma só, a mudança da China, mas é contado a partir de mudanças, no plural, que são pequenas e entrevistas nos detalhes das vidas narradas, mas significativas no conjunto para a compreensão da conjuntura política e social do país dos amarelos.

MudançaE tudo isso é contado na maior despretensão, como um senhorzinho que conta as memórias da infância dele sem se preocupar em ser dramático ou prender o interlocutor, mas preocupado, antes de tudo, em fazer o leitor entender a lógica diferente daqueles dias diferentes e as preocupações de uma geração que se dividia entre o dever cívico e os sonhos materialistas, como andar de caminhão (a capa do livro é um desenho técnico de um desses caminhões russos) e visitar a capital.

No fim, Mudança é um livro singelo, mas honestíssimo na fidelização do ponto de vista do autor-narrador e que se sabe incapaz de dar conta de explicar todas as transformações da China no século 20, mas que dá sua contribuição empírica pra extensa bibliografia já publicada e a cada dia mais engrossada por tomos novos. E isso, para nós, leitores leigos que não nos pretendemos sábios entendedores da questão chinesa, nos contenta e nos satisfaz. De quebra, ainda conhecemos um autor Nobel novo, o que, por si, só, já torna a experiência da leitura mais reveladora.

O projeto gráfico da Cosacnaify é lindão como sempre e o livro, em seu tamanho, é quase um pocket. Um 19 x 12cm com fonte Milo Serif em cor roxa, papel pólen bold e um texto preparado e revisado por orientais (se isso não agrega valor ao cuidado da editora, eu não sei o que agregaria). E, claro, a famosa cinta promocional pra avisar o leitor desavisado de que sim, é esse o chinês laureado em 2012. Vida longa à literatura da China!

Comentário Final: 125 páginas de papel pólen bold. Não machuca, mas agrada a quem olhar.

Michel Laub – Diário da Queda

Michel LaubQuem lê esse blog há tempos (e creio que esse número vem aumentando constantemente), sabe que eu sou um eterno amargurado com a nossa literatura brasileira contemporânea e saio errantemente procurando algum livro que me faça mudar de ideia ou que me dê a cetelha de esperança de que preciso pra não ir na do sujeito lá que deu entrevista pro Globo falando que o Rubem Fonseca não faria sucesso nos dias de hoje. A sorte é que volta e meia esbarro com um desses exemplares. O Diário da Queda é um deles. De longe o melhor e mais maduro livro do Michel Laub. Vamos a ele que atrás vem gente. (putz, acho que não era assim o ditado, tenho que parar de tomar tanto chá de fita).

Num resumo bem simplista, o livro é narrado em primeira pessoa em pequenos fragmentos (como em O Gato Diz Adeus) por um judeu, neto de um sobrevivente de Auschwitz, que estuda num colégio só pra judeus, onde ele e seus amiguinhos fazem um bullying pesado com o único gói do pedaço. Porém, como esse é um romance de formação, a coisa não pára por aí e vai até a vida adulta do protagonista, que se transforma em um escritor e sai de Porto Alegre para morar em São Paulo. Como o próprio Michel Laub, que, aliás, também é judeu. Para usar aqui uma palavra apropriada, tai um escritor que deve ter sido judiado até não poder mais com perguntas do tipo “Qual o teor autobiográfico de Diário da Queda?” e “Você tem um avô que é sobrevivente de Auschwitz?”, etc, etc. Sinceramnete, se você não tem o que perguntar para um autor que escreve um livro desses, só lamento, porque aqui há muito mais questões propostas do que a eterna ponderação sobre invenção e memória.

O acontecimento principal em O Diário da Queda é quando o menino Bruno (acho que é esse o nome, que preguiça, o livro tá a dois passos de mim, mas levantar a bunda gorda dessa cadeira pra pegar que é bom, nada) (agora levantei e vi que o nome do menino é João), quer dizer, quando o menino João, o gói da parada e eterna bola da vez da judeuzada cruel resolve fazer uma festa de aniversário de 13 anos, o que corresponderia ao Bar-Mitzvah dos colegas. Incorporando alguns elementos da festa judaica (êta, João antropofágico da gota serena!), os meninos fazem aquele lance de jogar o aniversariante pra cima com um pano gigante esticado por todas as mãos possíveis. Só que na última vez que jogam o menino pra cima, deixam ele se esborrachar no chão de propósito, só pra ver qualé. O João fica seriamente ferido e isso coloca a vida do protagonista em uma direção diferente da de seus colegas. Ele muda então de escola junto com o João e vai para uma escola não-judaica, onde agora quem sofre bullying é ele. Bom, essa é a primeira discussão do livro, então: a inconsciência da crueldade coletiva, o empoderamento da maioria e outras coisas tais que os judeus gostam de jogar nas costas da alemãozada. E principalmente a inversão dos papéis, algo que é comumente descartado pela suposta índole cândida dos judeus.

Mas aí também tem a questão do pai dele, que vive à sombra do avô, sobrevivente de Auschwitz e autor de cadernos completamente insípidos sobre a chegada no Brasil. O pai é bitolado na questão judaica e bota a culpa de tudo o que pode acontecer em Auschwitz e no holocausto. O confronto com o pai e suas ideias é também o confronto com seus amigos e o confronto com Auschwitz. Quer dizer, ignorar o holocausto é, para ele, amenizar a pancada sem ter o direito para isso. Como argumentar contra Auschwitz, afinal? Esse é um dos aprendizados do protagonista enquanto descendente de judeus questionador. E ele vai jogando essas e outras ideias, embora não consiga dar conta de metade delas dada a curta extensão do livro e a escassez de ensaio do narrador.

diário da quedaAliás, tai uma coisa legal do Laub, que são essas ideias discutidas não sob a forma de ideias sendo discutidas, mas sob a forma de fluxo de consciência, memória e seletividade narrativa. É só dessa maneira que a gente consegue perceber um padrão hegeliano nas gerações tratadas no romance (o livro é dividido em capítulos como “Algumas coisas que sei sobre meu avô”, “Algumas coisas que sei sobre meu pai” e “Algumas coisas que sei sobre mim”). Sabe, aquela coisa: tese, antítese e síntese. Um exemplo da relação: O avô nunca escreveu uma palavra sobre Auschwitz, o pai, por outro lado, sobrepesou a coisa e se tornou um obcecado. O filho, então, precisa balancear a vida e sair da sombra e da forma do holocausto para viver seus próprios dramas, filtrar as duas pontas de uma formação literária e concreta sobre o caso e avaliar o que pesa mais na sua vida: o legado do holocausto ou o próprio pai obcecado com o holocausto. Entre outras coisas.

Como vocês podem ver, esse é um livro complexo, maduro e relativamente bem resolvido, dado sua limitação de páginas e a extensa bibliografia, ficcional e não-ficcional, sobre o assunto. Acho que o cara conseguiu o que queria e foi bem sucedido nessa árdua missão do escritor brasileiro de fazer um livro que não seja só mais um livro. E acho que boa parte da minha simpatia foi ganha na linguagem. Sinceramente, ando cansado dessa onda de escritor nacional escrever que nem adolescente em absolutamente todos os livros. Ninguém se trata como adulto, e isso é chatão. O pessoal pode argumentar que geralmente são livros mais voltados para adolescentes, mas eu digo que a psicologia já provou que se você quer ser respeitado pela mocadinha, não fique falando Gugu-dadá pra sempre. E se alguém contra-argumentar dizendo que Gugu-dadá é exatamente isso o que este querido blog balbucia, eu digo que isso só vale para as coisas sérias, não para blogueiros literários absurdamente lindos e maravilhosos como eu.

O projeto gráfico da Companhia das Letras é um dos mais bonitos que já vi para livros nacionais. Fonte Electra, papel pólen de grande gramatura, e a foto de capa, meio prateada, é uma das melhores que já vi por aqui, na minha opinião.

Comentário final: 151 páginas de papel pólen soft. Ia contar uma piada de judeu aqui, mas são tempos perigosos de dedos apontados para todos os lados, então vou deixar quieto.

Anthony Bourdain – Cozinha Confidencial (Kitchen Confidential)

Kitchen ConfidentialAntes de começar o post de hoje, gostaria de pedir a todos que toparam fazer o Desafio Livrada! 2013 que me contassem o progresso para as metas estabelecidas. Meu palpite é que ninguém se lembra, brasileiro não tem memória de compromisso que assume, blá blá blá, em quem você votou pra deputado blá blá blá, vocês já conhecem o papo. Enfim, pode ser por comentário e pode ser também pelo e-mail bloglivrada@gmail.com, combinado?

Bom, o livro de hoje, parece bem óbvio, é uma não ficção. É um livro de memórias do cozinheiro nova iorquino Anthony Bourdain. E fazer resenha de livro de memórias é a coisa mais fácil pra acabar escrevendo um release involuntário (se bem que a maioria do povo que anda comentando livros na grande mídia já anda flertando com esse lance de release requentado). Mas vou tentar dar umas pinceladas gerais antes do comentário para ver se escapamos dessa cilada.

A ideia básica de Cozinha Confidencial é: cozinheiro é tudo porra-louca, a vida na cozinha é pior que a vida de boia-fria no sertão de Pernambuco e manter um restaurante, como diz a Barbie sobre a matemática, é “difííííícil”. É assim que o autor resume suas experiências. Ele começa contando como despertou seu paladar em uma viagem à França em que comeu sopa fria e mariscos crus. Eu sou meio fresco pra maioria das coisas e já teria parado por aí, mas bem, esse não é um livro sobre as minhas aventuras gastronômicas (até porque se fosse, teria umas dez páginas apenas). E a partir daí, desgarrou-se de sua família para ser um jovem cocainômano, maconheiro e alcóolatra numa cidade do litoral, onde arrumou um emprego de lavador de pratos para se manter. E seguem capítulos sobre a sua formação, os restaurantes em que trabalhou, seu envolvimento com a máfia e as grandes lições da cozinha que tirou da própria experiência.

Mas o cara é mais cozinheiro do que escritor. Prova disso é que ele não faz ideia de quem seja o seu leitor ideal, uma coisa que teria resolvido se desse uma lida nuns caras teóricos aí tipo Umberto Eco e Walter Benjamin que, olha, tão fazendo falta pra essa galera beletrista, viu. Ao mesmo tempo em que ele usa um linguajar cheio de jargão, o que dá a entender que o livro é feito para quem manja das putaria, intercala capítulos para totais iniciantes no assunto, do tipo “então você cozinha e quer impressionar as visitas num jantar? Olha aqui a lista de materiais que você precisa comprar”, “eis aqui a divisão dos trabalhos na cozinha” e “veja bem o que acontece por causa da difícil manutenção de um restaurante”. O palpite que extraio disso tudo é que Bourdain escreveu esse livro pra algum tipo de fooder hardcore que leu muito livro sobre o assunto mas não faz ideia de como a coisa se resolve na prática. Mas vai saber, às vezes o cara só queria abranger o maior público possível, e se você já sabe de alguma coisa que ele está falando, é só pular o capítulo.

Cozinha ConfidencialE embora o estilo de escrita dele seja meio cheio de coisas chulas e linguagem informal (parecido com esses malditos blogs literários da internet, hãn, hãn?), as histórias que ele conta são bem legais! E ele não idolatra a comida fazendo você salivar por cada coisa que ele descreve, mas antes de tudo, traz tudo para o plano terreno. É uma pegada bem realista e desglamurizada de tudo, eu acho, e isso é bom porque os cozinheiros mais midiáticos que eu conheço, tipo esse Jamie Oliver e a Nigella Lawson são muito entusiasmados com tudo. Entusiasmados demais, chega a cansar. Bom, não que ele não se empolgue em algumas partes, mas nada imperdoável também. Acho que se o cara não gostasse do que ele faz, não escreveria um livro sobre o assunto, principalmente um em que basicamente se resume a ele queimando o próprio filme com descrições insólitas de seus hábitos desregrados na cozinha.

Aliás, essa é outra coisa boa. Apesar dele ser o autor do livro, e, na sua condição de autor, mandar a real, Bourdain não se coloca como o detentor da verdade nem se pinta como o grande cozinheiro de nossa época. Pelo contrário, o cara fala “eu faço assim, mas se você for aprender com tal pessoa, esqueça tudo o que eu falei, porque ele manda melhor do que eu” com a maior tranquilidade. E acho que essa mínima falta de vaidade que seja é benéfica, principalmente em se tratando de profissionais vaidosos como cozinheiros e chefs de cozinha.

Eu acordei em um belo sábado querendo ler esse livro porque alguma amiga do Murilo certa vez me chamou de Anthony Bourdain dos hambúrgueres, em referência aos textos meio ensaísticos do meu outro blog, o Good Burger, que é basicamente igual a esse, só que mais afetado e sobre hambúrgueres. Li e não me arrependi, e me senti até meio lisonjeado. O projeto gráfico da Companhia das Letras é aquele pacote basicão de livros não tão importantes assim, mas que ainda assim, é uma beleza. Fonte Minion (a fonte usada para editora para a maioria dos livros de não-ficção), papel pólen e uma capa mutcho loka e psicodélica que deve querer passar uma ideia de cozinha e drogas, ou talvez apenas o movimento frenético dos cozinheiros. Essa capa aí da foto é o meu livro, que tive que escanear porque não tinha nenhuma foto em alta dessa capa na internet. Livrada! também é banco de imagens, rapá.

Comentário final: 376 páginas de papel pólen.  Dá pra tacar na cabeça do garçom quando ele traz um misto quente com queijo e presunto quando você pede um sem queijo, sem presunto, com ovo, salada e frio no lugar.

Philip Roth – Patrimônio (Patrimony)

patrimonyFala sério, vou deixar todo mundo mal acostumado com tantos livros resenhados no mesmo mês, não é? Sei que é assim, mas regozijai-vos, irmãos, pois este colunista agora retomou o gosto pelas leituras desenfreadas e pelos comentários rápidos e rasteiros, “como quem lê a bordo de um bonde desgovernado”, como me descreveu certa vez o jornalista Pedro Rocha, de Fortaleza (um abraço, Pedro Rocha e Fortaleza!). Sendo assim, mais uma semana, mais um livro nesse blog que está a alguns passos de se tornar uma espécie de Wikipedia parcial da alta-literatura. Sim, porque diferentemente de quase todos os outros blogs literários do Brasil, aqui você não vai encontrar best-sellers (perdão pelo 50 Tons de Cinza), fast-pace, coisas que você encontra esquecidas em bolsões de aviões velhos da Gol. Aqui o bagulho é doido, jão, só figura aqui quem é bom de verdade ou, pelo menos, tarimbado no certame. Por isso as livrarias não gostam de mim, mas quem gosta de livro bão gosta do Livrada!, e é por isso que você deveria anunciar nesse espaço. Sério, me deem dinheiro, já tá na hora de eu começar a ficar rico com isso aqui.

E hoje, veja só, mais um Philip Roth. Confesso que não sei quantos livros do sujeito já figuraram por aqui, mas vou chutar que esse seja o terceiro ou quarto. Bom, Philip Roth tem aquela coisa, é uma espécie de Marcelo Camelo da literatura: as pessoas que gostam defendem com unhas e dentes, mas pouca gente sabe dizer com precisão o que há na literatura deste priáprico judeu neurótico que tanto os agrada. Eu tenho, entretanto, um palpite que serve bem a boa parte de seus fãs, crentes do tão desacreditado hype: Roth é um dos sujeitos de respeito da literatura mais fáceis de ser lido, principalmente se você pegar seus livros mais recentes, que ainda por cima são curtos. Não há a densidade de um Don DeLillo, não há a complexidade da trama de um Pynchon, não há o rebuscamento linguístico de um Cormac McCarthy, não há sequer a tradição literária resgatada de um Ian McEwan. É tudo leve, rápido e curto. É claro, há toda a formação de uma literatura formadora da imagem de um país a partir de um microcosmos, há a justaposição de invenção e memória, há a educação sentimental do macho pau mole, mas isso são coisas circunspectas a academia, que nada diz ao leitor comum, interessado somente em ler algo de qualidade e com algum conteúdo, coisas que abundam na literatura do nosso velhote. Temos que dar o crédito pela escolha precisa de palavras na voz inconfundível de sua extensa e qualitativamente constante obra. Todo mundo que pega um livro do Roth para ler já sabe o que esperar, não há nenhuma imprevisibilidade, e as pessoas bem gostam disso que eu sei.

Pegue este livro, Patrimônio, por exemplo. Apenas lendo a sinopse da orelha, em que descobrimos se tratar de uma história real sobre os últimos dias de seu velho pai, diagnosticado com um tremendo tumor no cérebro, já sabemos que 1- vai ser triste, com alguns momentos de alívio cômico 2- vai ter todo tipo de referência a judeus, comunidades judaicas, objetos judaicos e outras porcarias judaicas 3- vai ter longos momentos de solilóquio alucinado, com uma vida interior mais paranoica e arredia do que o necessário 4- vai ter discretas porém incisivas menções ao ufanista sentimento de ser americano, ser judeu-americano, ‘Merica, enfim. O resto fica por conta de cada história.

Philip RothPois bem, veja o que é o drama de seu pai, Herman Roth. Não, não é o tumor no cérebro, é ser filho de um canalha que começa a escrever um livro a partir do momento que descobre que você está com câncer. Porque é exatamente isso o que ele confessa no final (ops, spoilers!). Percebe-se que o sujeito começa a passar mais tempo com o pai para ter material para o livro – premiadíssimo, aliás, pelo Círculo de críticos americanos. Há uma cena emblemática no livro, de onde é tirada o título. O pai passa por um período longo de prisão de ventre após um procedimento médico, e sem querer caga o banheiro inteiro quando ele e o filho recebem visitas. Tem merda fora do vaso, na parede, na toalha, nas escovas de dente, a coisa não fica muito distante de uma cena escatológica do Trainspotting. O Philip Roth aparece lá, ajuda o pai a se limpar e a limpar o banheiro, e o pai envergonhadíssimo pede para que o filho não conte para ninguém o que aconteceu. “Não vou contar”, escreve o sujeito em um livro que vendeu milhares de cópias após a morte do velho. Filhão nota dez, esse, hein? Não sei se vocês sabem, mas muitos escritores têm filhos, e é frequente escrever livros sobre esses filhos, mas você vai ter dificuldade em achar um em que o escritor narra as vezes em que o filho cagou nas calças, mijou na cama ou fez qualquer coisa muito embaraçosa, e não é porque eles estão fugindo da verdade enquanto Roth está indo de encontro a uma crueza objetiva do cotidiano, mas porque existem diversas maneiras de prestar homenagem a pessoas em um livro, e manter segredo de acontecimentos em que é pedido sigilo é uma delas. Philip Roth oportunista e canalha? Nãããooo, diriam seus asseclas. Trata-se da realidade que serve de matéria-prima para um dos maiores ficcionistas vivos. Não é, nem de longe, um romance autodepreciativo, isso é óbvio, até porque o drama está na figura do pai. E repare no subtítulo: “Patrimony – A true story”. “True story”? Sério mesmo? Então tudo o que o senhor resolveu botar nesse livro é a mais pura e simples “truth”? Bom saber, senhor ficcionista premiado. Bom para o senhor.

Gosto muitíssimo do Philip Roth. Ora, e qual homem não gosta? E gostei de Patrimônio, porque mostra que a literatura justifica a filhadaputice no olhar desse cara. Mas, sinceramente, acho que ele ainda se dá melhor com as aventuras do velho priáprico xarope, seja ele qual for. E, senhor Herman Roth, sinto muito que seus últimos e sofridos dias tenham servido para colocar mais um desnecessário tijolinho na belíssima e longeva carreira do seu filho, mas como foi o senhor que o educou, por outro lado, o problema é seu.

Comentário Final: 190 páginas. Livroterapia no cérebro!

Yu Hua – Irmãos (Xiōng Dì兄弟)

Xiong diLivraded!, your personal high-literature website is back, oh yeah! Ainda estamos em janeiro, e qualquer resolução de ano novo que seja abandonada ainda em janeiro não é digna de nota, digo eu. Pois bem, prometi a mim mesmo dedicar mais miolos a encher esse recôndito culto da internet de abobrinhas criadas a partir de leituras cada vez menos esporádicas, e é isso que pretendo fazer nessa bela segunda-feira de sol (na verdade, como estou escrevendo isso no domingo, não sei se vai ter sol, mas espero que em algum lugar do mundo em que haja um leitor, isso seja verdade).

E hoje, por que não, um daqueles livros grandes o bastante para validar o apodo deste humilde blog que, por força das circunstâncias, mergulhou em um período de fast-pace mais relacionado às poucas páginas de seus títulos do que propriamente a fugacidade de seu conteúdo. Irmãos, de Yu Hua, é a bola da vez. Sim, meus amigos, esse chinês com vocação para escrever as piores desgraças infligidas a humanos por humanos é a minha grande descoberta literária do ano passado. Descobri sozinho, sem ler uma resenha, receber uma indicação ou saber qualquer coisa a seu respeito. Um desses livros que a gente pega por força da curiosidade, o Crônicas de um Vendedor de Sangue foi o primeiro, e agora já posso dizer que conheço toda a obra do sujeito publicada em português. Infelizmente, isso não é um título muito impressionante se levarmos em consideração que se tratam de apenas três livros traduzidos até o momento, mas há um agravante na pancada amortecida se considerarmos que Irmãos é gigantesco: nada menos do que 630 páginas. Qualquer livro com mais de 400 páginas para mim é considerado grande, e qualquer um com mais de 550 é considerado muito grande. E para você, o que é um livro grande para você?

Mas falemos do Irmãos. Bom, a tara do tal Yu Hua, que já comentamos por aqui antes no tristíssimo Viver, são os romances de formação. Os três livros publicados no Brasil tratam da vida de sujeitos fadados ao miserê desde o nascimento até a sepultura. Que ele consiga fazer isso em duzentas e tantas páginas como no livro supracitado é admirável, mas que ele consiga estender para um mega romance como esse é fodástico, principalmente se a gente se lembrar que o estilo dele é calcado majoritariamente em ação. Ação, ação, ação, com pouquíssimo tempo para analisar, cheirar as rosas, contemplar as belezas ou se lançar a qualquer lampejo poético entre atos. A imaginação dele é invejável, digo isso do alto de quem sempre desprezou justamente essa qualidade em romances fantasiosos como As Crônicas de Gelo e Fogo. Há uma diferença clara de quando se faz isso num mundo em que não se conhece de quando se faz isso num mundo em que se conhece demais. Enquanto o primeiro é brecha para glitches mal-feitos, o segundo é o claro objetivo de se descrever aquele universo por meio de seus personagens.

E é exatamente a isso que Irmãos se propõe. Os irmãos do título são Li Carequinha e Song Gang, na verdade meio irmãos. Enquanto o primeiro é filho da sofrida Li Lan, o segundo é filho do bonitão e basqueteiro Song Fanping, que se casam depois que seus respectivos cônjuges morrem – algo escandaloso para a época pré- Revolução Cultural, diga-se de passagem. Li Carequinha é safadão, gaiato e arrogante, enquanto Song Fanping é subserviente, nobre e correto em todos os sentidos. E basicamente é isso o que se precisa saber sobre os dois personagens principais da história. Isso porque Irmãos não é a história de Song Gang e Li Carequinha, mas a história da China, da Revolução Cultural à abertura econômica, e nada melhor para detalhar a saga de tão grandioso e complexo país quanto personagens voláteis com espíritos rígidos à sua própria forma. A China de Mao, que se escandaliza quando Li Carequinha é pego espiando bundas no banheiro público na pequena e ficcional cidade de Liu, é diferente da China de Jiang Zemin, que realiza as Olimpíadas do Hímen, ou Concurso Nacional da Beleza Virginal. A China das bugigangas falsificadas, dos acordos com o Japão, das novelas coreanas, da indústria das cirurgias plásticas, é um universo completamente diferente daquela outra, comunista, que massacrou pessoas em sessões de crítica e autocrítica. Basicamente é essa a passagem que o livro conta, e como as personalidades de Li Carequinha e Song Gang encontram seus lugares em cada uma delas.

Yu HuaNão há, aqui, um resumo que eu possa dar sem que incorra nos tais spoilers que resultam em uma enxurrada de hatemail que recebo, e nem que comporte a magnitude das ações que se desenrolam ao longo das centenas de páginas de Irmãos. O que podemos dizer é que, órfãos desde que Song Fanping é espancado até a morte na rodoviária da cidade, a primeira metade da vida dos irmãos é de uma tristeza sem fim, compartilhada com outros personagens recorrentes no livro e, tais como eles, desprovidos de qualquer profundidade. Tanto é que o nome deles já denota tudo o que podem ser na história: Zhang Alfaiate, Yu Boticão, o dentista, Wang Picolé, o sorveteiro, Tong Torquesão, o ferreiro, e Guan Tesourão, o amolador de tesouras. Somam-se a eles Su Mamãe e Su Mocinha, donas da lanchonete, e Lin Hong, a beldade do vilarejo a quem Li Carequinha espia, o que lhe garante pratos de macarrão especial em troca da descrição da bunda mais bonita da cidade, para fazer menção a uma infame banda da minha cidade. E, claro, uma trupe de personagens não estaria completa sem os dois panacas Liu Escritor e Zhao Poeta, os chamados Talentos Promissores da Cidade de Liu. Pronto, está montado o palco para a comédia da miséria humana.

Estranhamente, a segunda parte do livro revela uma veia cômica de Yu Hua pouco explorada em seus outros romances. A coisa fica realmente engraçada, embora, de certa forma, nunca deixe de ser triste. Piadas de humor negro com retardados mentais, aleijados, mudos, cegos e surdos, charlatões, falsas virgens, pensamentos tacanhos e outras ignorâncias de um país que se viu obrigado a espertar-se diante de um mundo que se abriu de uma hora para outra tornam o livro muito mais leve, coisa que não imaginaria depois de uma avalanches de socos na boca do estômago que esse livro te dá nas primeiras duzentas páginas. Pensando bem, poucos aguentariam uma dose dessas por mais 400 páginas…

Ainda sobre os apelidos, é engraçado pensar que apenas Song Gang e Song Fanping são os personagens sem apelidos em Irmãos. Eles e as mulheres Li Lan e Lin Hong. Acho que o china quis atestar a nobreza de seus dois personagens mais queridos, que não se dobram ante piadas e apelidos, apenas quando seus destinos mudam a coisa também muda de figura. Pensem nisso se um dia estiverem com esse livro em mãos, tal informação pode ser crucial para o entendimento dele, mas sobre esse assunto nem mais uma palavra sob o risco de jogar mais spoilers sobre essa casca dura de leitores impiedosos de internet.

No final, a gente vê que não é só porque um livro não é cheio das floreações poéticas, análises psicológicas e vida interior rica que ele é ruim. Pelo contrário, o fato de Irmãos ser recheado só de ações o aproxima da tradição teatral das grandes tragédias e dá substância ao material de que a vida é composta sem oferecer o substrato mastigadinho pro leitor preguiçosão. Certeza que esse é um dos livros mais legais que já li, e é difícil que alguém não sinta a mesma coisa depois de se envolver tão intensamente com uma longa história como essa. Tirem a prova e me digam: o que há para se não gostar nesse livro? Até a superficialidade dos personagens é adoravelmente cômica, o sujeito não deixa margem pra você criticar sem parecer um metidinho rancoroso que não come ninguém. Recomendo.

Por último, uma ressalva a essa edição da Companhia das Letras: por mais que o livro seja muito bonito e tudo mais, é um absurdo fazer uma edição que pesa um quilo com uma capa de papel cartão, que corre o risco de quebrar a qualquer hora com o peso das páginas seguradas. Cuidado com isso quando lê-lo.

Comentário final: 630 páginas. A saudosa fratura exposa e afundamento de crânio estão de volta, dessa vez para ficar!