J.D. Salinger – O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye)

Faça aí uma rápida pesquisa, seja no google, seja entre seus amigos. Você vai descobrir que muita, mas muita gente, tem uma opinião formada sobre esse livro. E a razão pela qual isso acontece é que, para muita gente, esse foi o único livro confessável já lido. Ninguém vai sair por aí falando abertamente que leu “Melancia” de Marian Keys ou “A Profecia Celestina”, de James Redfield porque é vergonhoso demais (se não é pra você, melhor rever seus conceitos). Mas O Apanhador no Campo de Centeio, esse sim todo mundo leu e bate no peito pra falar que leu. Se você tem mais de dezoito anos e ainda não leu esse livro, vou dizer que já passou da idade e talvez seja tão legal quanto assistir ao Rei Leão aos quarenta e três anos. O troço vai perder o sentido pra você. Por isso, corra e integre a massa que elevou essa obra à categoria de long-seller (é como alguns editores chamam os best-sellers clássicos).

O Apanhador no Campo de Centeio é um desses livros que criam uma ligação direta com o seu íntimo quando você está na adolescência. Em um primeiro momento isso é legal, porque você percebe que mais alguém te entende (e quando você é adolescente ninguém te entende, né?). Mas depois você percebe que todo mundo se identifica com o livro e que você, ao contrário do que você pensava, não era tão diferente assim de todo mundo. O livro conta a história de Holden Caulfield, um menino que deveria estar voltando para casa, pois foi expulso de seu colégio, mas resolve fugir. Nessa viagem acaba descobrindo coisas sobre si próprio e sobre a vida adulta. Nada de muito glamoroso nem sofitsticado. A palavra que melhor define o Apanhador é: singeleza.

Com uma história simples e um personagem cativante, o recém-defundo J.D. Salinger cativa leitores desde 1951 com sua principal obra. Acho que ele ficou tão feliz de ter feito algo assim que nunca mais escreveu nada que preste, e ainda assim manteve a admiração de seus fãs com outros livros, como Franny & Zooey e Nove Histórias,  mais fáceis de serem achados aqui no Brasil. “Que injustiça!”, os fãs dos outros dois títulos poderiam pensar, mas olha, é o efeito Kill Bill, não é? Quem gosta de Cães de Aluguel e Pulp Fiction não se importa.

Agora vamos combinar que, por mais unanimidade que seja, a edição brasileira é pra sentar e chorar. Primeiro que o preço simplesmente não condiz com o projeto gráfico. Uma tal de Editora do Autor, da qual nunca vi mais nenhum livro que não fosse os do Salinger. Um formato estranho de livro (quase quadrado), página offset e o pior: orelhas nas quais não há absolutamente nada escrito. Tava na hora de alguma editora catilogente comprar os direitos desse livro e fazer uma edição bacana. Depois, a própria Editora do Autor “repaginou” a edição, fazendo o quê? Deixando a capa do livro fosca. Uau, agora sim esse livro vale quarenta e cinco reais!

Esse foi um dos primeiros livros que eu comprei, e não me arrependo. A leitura foi importante e eu e o Chico até chegamos a filmar um curta experimental à la Glauber Rocha chamado O Apagador no Campo de Centeio, onde tinha um grampeador que fazia o papel de apagador, uma horta de cebolinhas que fazia o papel de campo de centeio e o próprio Chico que fazia o apanhador do apagador no campo de centeio. Pena que não foi pra frente.

Comentário final: 207 páginas offset quadradonas. É como ser atropelado por um fusca: pode não machucar tanto, mas a humilhação de ser atingido por tal porcaria…

Michel Houellebecq – Plataforma (Plateforme)

Quem começar a ler Michel Houellebecq por esse livro vai falar “Ôxe, que livro triste da porra!”. Mas isso é um erro. Plataforma é, na verdade, o livro mais alegrinho da carreira literária do escritor francês radicado na Irlanda. Não que ele tenha escrito muitos livros. O sujeito é um preguiçoso. Estamos desde 2004 sem um livro novo dele. Quer dizer, teve um, o Enemies Publiques, uma troca de cartas mais chata que disco do Los Hermanos entre ele e um outro escritor tristonho da França. Um fracasso editorial, diga-se de passagem. Porém, antes de seu último livro, A Possibilidade de uma Ilha, Houellebecq escreveu essa obra visionária.

O livro começa com um assassinato. O protagonista, que também se chama Michel, recebe a notícia de que seu pai, um velhinho inofensivo, foi assassinado pelo namorado da enfermeira que lhe cuidava, por um suposto assédio sexual do velho. Com a grana da herança, Michel resolve se bandear para uma ilha da Indonésia e praticar um pouco do abominado turismo sexual. Metido no meio de um grupo de excursionistas e lendo John Grisham (eca!), o personagem tem acesso às mais sensuais orientais do pedaço.

Durante sua viagem, conhece Valérie, uma alta executiva de uma famosa rede de hotéis (fictícia, mas extremamente parecida com a rede Accor). Engajados em um relacionamento aberto, com direito a casas de swing e outras coisas de safado, eles passam a bolar planos para a região: uma rede de hotéis destinada exclusivamente ao turismo sexual. Um ultraje óbvio para todos.

Bom, como todo mundo sabe, turismo é um curso frequente nas faculdades, mas não dá pra dizer que seja uma profissão com uma parte teórica que preste. Pois não é que Houellebecq leu uns turismólogos (com conteúdo ou sem, cabe ao leitor decidir) para escrever esse livro? As citações voam para fora das páginas como moedas pra fora da maquininha de caça níqueis. Os planos de Michel e Valérie percorrem páginas e páginas, permeadas por citações e muita sacanagem (quem curte literatura erótica tá feito com Houellebecq). Sem que nada de triste aconteça. Até o seu final, que eu não vou contar porque eu posso ser babaca, mas não sou esse tipo de babaca. Quem ler vai achar o livro visionário pra caralho, tenho certeza, e posso dizer apenas isso.

O estilo de Houellebecq é aquele francês rançoso, que fica fora da geladeira por um mês e azeda (e não estou falando do queijo). Fazer o quê, o cara nasceu naquele país, não pode esperar um sujeito livre das patinhas asquerosas de sujeitos como Barthes, Guy de Maupassant e até mesmo do argelino Camus. Paciência. Não dá pra dizer, contudo, que o livro é mal escrito. Dentro desse estilo, o sujeito emprega bem seu talento com as palavras, com uma fluidez rara entre aquele povo que gosta de uma putaria, como dizia o Nonato Canivete. Mas o domínio desses filósofos modernos franceses (viu como tô sendo amigo? Até chamei de filósofo!) vai além. Houellebecq ainda não aprendeu a escrever livros sem teses. E o pior de tudo é que ele talvez seja um dos únicos escritores que se sai bem com essa proposta. Disse uma vez e digo de novo. Paciência. Gostamos dele do jeito que ele é, esse feioso.

A edição da editora Record é excelente! Aliás, gosto muito do grupo editorial Record. Só gostaria que eles tivessem um time melhor de escritores. Sai cada merda de vez em quando… Bom, de qualquer jeito, esse livro tá no ponto de bala. Fonte Minion (já disse que essa fonte é foda) e papel Chamois Bulk 70g/m², uma gramatura que é perfeita para livros como esse. Nem muito molenga, nem muito dura, e dá volume às trezentas e poucas páginas dele. Só uma dica pra Record: a gente escreve se o livro é de romance ou conto, ou outra coisa, dentro do livro, ali na ficha técnica. Não precisa colocar na capa, certo? Não é um defeito, é só uma constatação. Não vão me ameaçar de morte igual àquele cara do RP2, hein?

Ah, aproveitem a promoção das Livrarias Curitiba, o Plataforma está saindo pela bagatela de R$9,90 pra fazer caridade, rapaz! Nós aqui já fizemos nosso estoque.

Um PS: escolhi uma foto engraçadona do Michel Houellebecq pra gente rir da cara dele. Então vamos rir: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Comentário Final: 383 páginas em Chamois Bulk. Graças a essa escolha feliz de gramatura e papel, um livro de médio porte pode deslocar uma junta.

Fiódor Dostoiévski – Crime e Castigo (Преступле́ние и наказа́ние)

O post de hoje é antigo. Escrevi para outro blog. É uma exceção criada pela falta de tempo. Perdoem-me por isso.

Comecei com o pé esquerdo com Dostoiévski, mas, coitado, não era nem culpa dele, mas das circunstâncias. Li O Idiota (um livro grande, de umas 700 páginas) numa edição de bolso daquela editora Martin Claret (que dá enjoo igual de ônibus quando eu leio), a poucos meses do vestibular e ainda fazendo auto-escola. Tá na cara que não consegui fazer nada direito (nem a leitura nem a auto escola, o vestibular eu consegui). Quatro anos depois, ganhei de dia dos namorados Crime e Castigo (azar o seu se você ganhou camisa) pela editora 34, a primeira tradução direta do russo e com notas de rodapé que valem MUITO a pena. Enfim, comecei a ler em um mês de leituras “de fôlego” (livros grandes de quebrar fêmur como diria Allan Sieber). Cá estou agora pra falar desta maravilha da literatura mundial.
Não é à toa que esse livro é um clássico. O sujeito tem que ter muita fibra pra fazer um livro de mais de quinhentas páginas não ficar chato, e mais ainda, escrever um troço catilogente o bastante pra passar da estante do vovô pra estante do netinho. Aliás, taí: Catilogente. Esse é o melhor adjetivo pra descrever Crime e Castigo (pronuncia-se Prestuplênie i Nakazánie, saia por aí gastando seu russo). Explicarei porquê.
Para quem não sabe a história, um resumo básico com spoilers: Raskolnikov, um ex-estudante (que legal essa ocupação né?) de direito, resolve matar uma velhinha usurária, a princípio para saqueá-la, mas acaba matando a irmã da velhinha também, e se convence que a justificativa para seu crime está em um artigo que ele mesmo escreveu onde divide as pessoas em ordinárias (que devem seguir a lei) e extraordinárias (o exemplo principal do livro é Napoleão, pessoas a quem as leis não se aplicam, pois tudo é permitido em prol de seus sucessos). O sujeito, entre diversas circunstâncias, não se aguenta mais de culpa e se entrega para enxugar gelo na Sibéria. Isso é o que todo mundo conta pra você sobre a história, né? Pois bem, a parada que eu mais achei foda no livro ninguém me contou: O Raskolnikov passa boa parte do livro podre de doente e inclusive comete seu crime torto de febre, e todo mundo alivia pro lado dele porque acha que ele fala merda por causa da doença. Só que aos poucos ele vai sarando e, conforme o Dostoiévski vai soltando uns traços da personalidade dele, você vai descobrindo que o maluco é um bipolar neurótico (e com outros diagnósticos que psicólogos competentes poderiam tentar descobrir). A construção psicológica do protagonista é a melhor de todas, não desmerecendo os outros personagens, mas não tem como não simpatizar com ele. O mais legal sobre o perfil de Raskolnikov é que ele é um vaidoso sem amor-próprio. Ao passo que todos seus “antagonistas”, como o inesquecível investigador Porfiri, o tiozão tarado Svidrigáilov e o pomposo Lujín são dotados de um imenso amor-próprio, que causa a ruína de dois deles, Raskolnikov defende antes suas idéias do que a si próprio, e isso é um troço manero pra caralho de ver. É o intelecto sobrepondo-se ao próprio suporte (chega de falar bonito agora), na verdade uma espécie de altruísmo com a própria cabeça. E é justamente esse altruísmo que encontra o altruísmo clássico de Sonietchka na história, que termina bem melosa. Aliás, o final do livro é um troço bonito de se ler. Hoje em dia as histórias terminam meio em aberto, com uma frase aleatória do tipo “comprei uma birita e olhei o sol”. O final de Crime e Castigo é lindo. Não tem o que argumentar.

Comentário Final: 554 páginas. Quem gosta de fratura exposta?

Marquês de Sade – Os 120 dias de Sodoma (Les 120 journeés de Sodome)

Levante a mão quem já leu esse livro. Eu sou a única pessoa que eu conheço que, por enquanto, teve estômago para ler de cabo a rabo os 120 dias de Sodoma, de Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade. Escrito em 1785 em seu encarceramento na Bastilha (foi transferido pra lá depois que o Château de Vincennes foi fechado, em 1784). O Sade é um cara assim meio Edward Bunker, passou quase toda a vida preso, seja por perseguições políticas, seja pelas merdas que ele fez com suas prostitutas (reza uma lenda de que ele teria envenenado duas delas “sem querer” ao ter ministrado “pílulas para peidar”. Ele curtia umas coisas dessas).

Tenho uma “tioria” que atesta que quanto menor o tempo que o escritor leva para escrever sobre um assunto, mais presente o tal assunto está em sua vida. Pois bem: os 120 dias de Sodoma foram escritos em apenas trinta e sete dias. Bom, na verdade, a obra nunca chegou a ser completada, pois, dos cento e vinte dias do enredo, foram narrados apenas trinta. Para o resto ele fez apenas o roteiro e a descrição dos dias. Acontece que depois a Bastilha foi tomada, todo mundo picou a mula de lá e o manuscrito acabou sendo deixado para trás, apenas para ser recuperado anos depois. Foi então que essa hecatombe literária veio ao mundo.

Resumo da ópera: quatro ricaços muito pervertidos que comem as próprias filhas resolvem ir para um castelo na Suíça para passar quatro meses de pura sacanagem. Para isso contratam quatro putas velhas (chamadas “musas”) para narrar suas histórias e quatro amas. Seqüestram oito meninas e oito meninos virgens de idade entre 12 e 15 anos para serem arregaçados e ainda solicitam oito “fodedores”, sujeitos de pirocas enormes para enrabar os amigos (eles são chegados nisso também). A cada mês o nível de perversão aumenta. Começa leve: gente que come cocô, vômito, mija na cara, etc. No segundo mês, as “paixões duplas”: incestos mil e os water sports já mencionados. No terceiro, “paixões criminosas”: gente que sente tesão em furar um olho, arrancar um dente, cortar o dedo. Por último, “paixões assassinas”: galera que só se diverte se matar o parceiro sexual. Claro que quem sofre com isso são as criancinhas, que além de serem todas descabaçadas, ainda são lentamente mutiladas até a morte (vocês devem estar dizendo “Chega! Chega! Chega!”).

Há uma cena emblemática: Quando uma das musas narra um golden shower e os nobres mandam deitar uma das menininhas virgens na mesa para receber o mijo na cara, a menina diz algo como: “Pelo amor de Deus, senhor, não faça isso comigo senhor. Estou muito triste porque, na ocasião do meu sequestro, meus pais foram assassinados por seus capangas.” Aí um dos ricaços chega pra ela e fala: “Menina, não se atreva a falar de Deus aqui dentro. Se Deus existisse ele não deixaria a gente fazer isso com você.” Acho que essa cena resume o livro. É a crueldade desenfreada, a busca pelo prazer sem ética, tudo o que as pessoas fazem quando saem pro crime nas festinhas e não se preocupam com quem elas estão beijando, só que com uma lupa de aumento brutal que explicita o horror da coisa.

Ganhei esse livro de natal da querida tia Albinha (desconfio que se ela soubesse do que se trata esse livro, ela teria preferido me dar outra coisa) e o li enquanto pedalava bicicletas ergométricas numa masmorra chamada academia de ginástica. O livro é extremamente bem escrito, com uma prosa da era moderna fluída. Gostei mesmo da proposta do livro e recomendo para quem agüentar o rojão.

A edição da Iluminuras é linda pra caralho. Vem com um marcador personalizado preso à orelha (só destacar). Excelente diagramação e o melhor: um dos melhores desenhos de nada menos que Egon Schiele na capa. Acho que todo mundo que desenha curte, ou deveria curtir Schiele porque as poses que ele desenha não são para qualquer um. (falo mais dele se um dia for falar dos Cadernos de Dom Rigoberto). Papel pólen, pra agradar todo mundo e fonte Garamond, que eu acho meio apagada, mas estilosa demais.

Comentário final: 364 páginas em pólen soft. O pessoal do UDR usa esse livro pra estuprar marinheiros (Alcorão é coisa do passado).

Cristóvão Tezza – Uma Noite em Curitiba

É bem verdade que vou tratar agora de um livro do escritor Cristóvão Tezza que não é dos mais conhecidos de sua carreira. Uma Noite em Curitiba não é, pesando seu impacto na comunidade literária, nenhum O Fotógrafo, nenhum Trapo e certamente nenhum O Filho Eterno. Mas, dos livros de Tezza que eu conheço, ele é um dos mais originais e mais bem escritos de sua produção da década de 90.

Dizia eu no post anterior sobre o Mario Vargas Llosa que o gênero epistolar pode não ser dos mais agradáveis de se ler. E, como coloquei entre parênteses alguns livros de cartas que eu conhecia, fiquei depois pensando em quais obras mais se aventuraram por esse terreno estéril. E esse livro veio à mente. Resolvi então, escrever sobre ele para exemplificar mais um livro bem sucedido de troca de cartas.

Assim como Pantaleão, Uma Noite em Curitiba também é narrativa misturada. A história é escrita pelo filho de Frederico Rennon, um prestigiado historiador que desaparece após cair na infâmia por se envolver com uma renomada atriz que vem para Curitiba. Através das cartas trocadas entre o velado casal, o narrador tenta reconstituir os últimos passos de seu pai, e tentar entender a estranha e forte influência que sua figura paterna exerce sobre ele.

Esse livro é muito especial pra mim, por duas razões: a primeira, porque eu o ganhei do próprio Tezza, ao final da disciplina optativa que ministrava no curso de Letras da UFPR. A segunda, porque acho que Uma Noite em Curitiba tem a abertura mais emblemática de sua carreira: “Escrevo esse livro por dinheiro”. Logo na primeira frase, Tezza ataca, provavelmente sem perceber, a constante de seus livros: um motivo para escrever. À exceção de O Fotógrafo e outros livros escritos em primeira pessoa, todos, absolutamente todos os livros de sua carreira são justificados de alguma maneira por seus personagens. Pode procurar: Juliano Pavolini, o Fantasma da Infância, Aventuras Provisórias, Trapo, etc. Isso pode ser explicado por algumas hipóteses, como por exemplo, um sentimento de culpa inerente pela profissão de escritor, tema sobre o qual ele fala tanto em livros quanto em crônicas já publicadas. Mas talvez a resposta seja a mais simples: é estranho pra cacete escrever em primeira pessoa. Com o narrador onisciente, ninguém faz perguntas, ele escreve simplesmente porque pode. Mas uma pessoa que narra por um livro inteiro sua própria história, ou vivenciada por outrem, cedo ou tarde precisa de uma explicação. Afinal, o que leva alguém a fazer isso (respondam-me, blogueiros que fazem queridos diários de seus sites)? Essa consciência da narrativa justificada Tezza já possuía desde a década de 80 e vocês ainda procurando uma boa razão para ter um twitter, hein?

Apesar da constante troca de cartas (nas quais os pronomes de tratamento vão evoluindo constantemente em intimidade), Uma Noite em Curitiba é dinâmico pelo alto grau de narrativas, que mesmo as próprias epistolas contêm. E mesmo sendo um livro curto, a experiência proposta pelo autor é muito concreta para quem lê.

O grande problema desse livro é encontrá-lo. Desde que o escritor migrou para a editora Record, seus livros antigos publicados pela Rocco viraram artigos raros nas livrarias. Juliano Pavolini e o Fotógrafo ainda conseguem ser achados nas Livrarias Curitiba da vida. Quem sabe a Record também o republique, como fez com Trapo, Aventuras Provisórias e O Fantasma da Infância. Porque, venhamos e convenhamos, a Rocco é ótima pra encontrar novos escritores, mas peca no projeto editorial. Página de offset (não tem mais graça isso, galera!), uma fonte tenebrosa e um cabeço que EU poderia ter feito no microsoft word. E o que é essa capa? Mil desculpas ao Sr. Carlos Dala Stella, cujo mérito artístico não se discute, mas usar o quadro do senhor deste tamaninho nesse fundo branco gelo ficou uma vergonha. Porque não usaram o quadro inteiro na capa? Ficaria ótimo se fosse assim. A ficha técnica do livro também omite muita informação e está bem desorganizada, mas tem um trunfo: o nome de Elizabeth Lissovsky, a heroína que “preparou os originais” do livro (um eufemismo para “decifrou a escrita de Chico Xavier” do escritor. Brincadeirinha, Tezza, mas uma brincadeirinha com um fundo de verdade). Quase uma tradutora do árabe.

Comentário Final: 171 páginas de pesado offset. Se pegar no saco, dói.

Pedro Juan Gutierrez – Trilogia Suja de Havana (Trilogia sucia de la Habana)

Estenda sua mão, dê um pescotapa e diga “se liga, mané”  em quem disser que Pedro Juan Gutiérrez escreve de um jeito bem parecido ao de Charles Bukowski. Essa afirmação é de uma imbecilidade que deveríamos ignorar, mas, ao invés disso, vamos explicar direitinho, para encerrar qualquer discussão.

Embora o Realismo Sujo (gênero de Gutiérrez) tenha alguns elementos físicos da literatura beatnik (de Bukowski), a forma como esses elementos são tratados é bem diferente. A principal diferença é que no Realismo, os espaços urbanos não são concebidos para serem o que são, e o personagem realista transite por esse espaço como um estranho, ao passo que os beats (bear, beats, battlestar gallactica) são incorporados ao lugar e sua destruição (boemias, sarjetas, bàs-fonds, etc). É uma explicaçãozinha meio rápida e vazia, mas se você quer aprender alguma coisa a fundo, sugiro não tentar fazê-lo em blogs.

Dizem que o cubano Pedro Juan resolveu escrever esse livro depois de ver uma criança fuçando o lixo em busca de comida, em plena Havana. É uma imagem poética para uma realidade ainda mais dura. Cuba passava por uma grande crise na década de 90, nos anos que se seguiram ao fim da União Soviética, a única amiguinha daquela ilhota em mais de cinquenta anos. Não havia comida, dinheiro, remédios, energia, nada. A maioria dos veículos de comunicação havia sido fechada por intervenção do governo. Para piorar, a vida do autor ia de mal a pior. Tinha três filhos para sustentar (sendo um bastardo), ganhava três dólares por mês e sua mulher estava a ponto de deixá-lo quando descobriu que ele tinha pelo menos umas seis amantes. Ficou completamente abandonado. E então escreveu essa coletânea de contos duros, crueis e desencantados com a realidade do país.

Tem de tudo na Trilogia Suja. Estupro, tráfico de órgãos, de drogas, de comida, tráfico de tudo na verdade, assaltos, assassinatos, e muito sexo, sempre. A literatura de Pedro Juan recende a cecê de longe. Difícil ler este livro e não se sentir incomodado pelas situações ali descritas, em uma mistura de ficção e realidade.

Hoje em dia, a edição que se encontra é a da Alfaguara (por isso mesmo vou colocar a tag na editora), mas eu li a publicação da Companhia das Letras. Um livro menor em tamanho, com uma fotografia sensacional na capa. Em tons pastéis, o fotógrafo captou muito bem a essência da literatura e da  Cuba de Gutiérrez (aliás, as fotos dos outros livros do autor também são sensacionais). A edição da Alfaguara tem um acabamento característico da editora, que é de excelente qualidade. A capa porém, preferiu privilegiar essa pluralidade (cheio de palavra com pê, hein?) de elementos da cultura latino-americana, colorida e um pouco sombria no conjunto. É bem da cultura cubana, mas pouco tem a ver com a escrita do autor.

Fui apresentado à sua literatura pela amada Carla Cursino, e hoje digo a todos: Leiam Pedro Juan Gutiérrez e sua Trilogia Suja.

Comentário Final: 382 páginas pólen soft molengas. Se quiser fazer estrago mesmo, melhor bater com a edição da Alfaguara.

Chimamanda Ngozi Adichie – Meio Sol Amarelo (Half of a yellow sun)

Devo confessar que minhas expectativas sobre esse livro quase foram a sua ruína antes da hora. Foi preciso que eu parasse, refletisse sobre a intenção dele, para então começá-lo de novo e dessa vez, sim, entender a proposta da jovem escritora Chimamanda Adichie com Meio Sol Amarelo. A escritora foi minha porta de entrada para a literatura nigeriana (não posso fazer nada se resolveram publicar um livro do Chinua Achebe só no ano passado), e por isso, esperava que o livro não só me apresentasse o estilo da literatura do país, mas também a identidade nigeriana. E foi burrice minha, já deveria saber que literatura nenhuma tem obrigação a buscar esse tipo de coisa para o leitor.

Por outro lado, como J.M. Coetzee muito bem colocou na segunda palestra do romance Elizabeth Costello, o romance africano é escrito quase que exclusivamente para estrangeiros, visto que a população de leitores no continente é muito baixa. Sendo assim, o romancista africano deve construir, em todo livro, uma imagem da África que seja coerente com a idealização que nós, não-africamos, temos do continente, seja ela qual for. E não que Adichie não tenha feito isso. O problema (para mim, em um primeiro momento, pelo menos) era que esse não fosse o foco da obra.

Meio Sol Amarelo conta a história de um grupo de pessoas — mais especificamente duas irmãs, Olanna e Kainenne, que, no final da década de 60, separaram-se ideologicamente por conta da guerra civil que culminaria com a fundação de Biafra, o estado independente do povo ibo que existiu por três anos, até sua dissolução, em 1970. Enquanto o grupo, que é formado também por um jornalista inglês e um menino do interior do país, luta para sobreviver, rolam umas brigas familiares e um troca-troca de casais que eu achava que não tinha nada a ver com a história.

Acontece que justamente a briga familiar e o troca-troca de casais é a verdadeira história do livro. A guerra civil foi o momento histórico que costurou todo o enredo e foi responsável pelo desfecho de cada um dos personagens, mas não era a intenção da escritora entrar em muitos detalhes sobre o episódio (embora haja sim, algumas discussões políticas). Para fazer um comparativo de fácil compreensão, eu estava irritado como um alemão que pega o Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo, para ler, e espera tomar conhecimento de cem anos de política nacional. Foi aí que percebi o porquê de Meio Sol Amarelo ser um Best-seller da língua inglesa (mais de 320 mil exemplares, se não me engano). Quem lia esse livro, o lia como um romance de amor em tempos difíceis, como um desses dramas de guerra ou algo assim. Um evento histórico que muda a vida de algumas pessoas. Mas nunca como uma análise sobre o episódio.  E assim, entendida essa questão, preciso dizer que a leitura da moça não é capaz de pegar na veia.

Talvez esteja fazendo uma leitura muito simplória desse livro, mas acredite, já tentei fazer a leitura mais difícil dele também. Traduzido para 27 línguas, ganhador de alguns prêmios (entre eles o Orange Prize, que só dá prêmio pra esse tipo de livro, quase), uma belíssima publicação da Companhia das Letras que — pasmem vocês — não teve a capa feita pelo João Baptista da Costa Aguiar (foi uma artista chamada Mayumi Okuyama, que fez algumas outras capas, como o do livro A Outra Vida, do escritor Rodrigo Lacerda), tudo isso não fez a obra bater no coração. Mas tudo bem. Não deixa de ser uma boa leitura só porque não é especial.

Comentário final: Pesadas 502 páginas pólen soft. Quebra umas costelas facilmente.

Ismail Kadaré – Dossiê H (Dosja H)

Vou confessar que não sei nada, ou quase nada, sobre a vida de Ismail Kadaré. Mas é só olhar pra cara de Droopy (“sabe de uma coisa? Eu estou tão feliz…”) dele e ler um ou dois livros de sua vasta obra para perceber que o sujeito é meio amargurado, pra não dizer totalmente amargurado. Não se pode culpá-lo, afinal. O leste europeu de uma maneira geral, e a Albânia mais especificamente, já que tratamos da literatura de seu país, é triste e escaldado como o cão de rua que apanhou a vida inteira. Até se você for dar amor, ele se assusta e sai correndo, ou te morde achando que é mais porrada. É mais ou menos essa a animosidade de Dossiê H, escrito em 1989 e publicado pela Companhia das Letras, nesta minha edição (presente de natal da minha mãe), em 2001, parte da bela coleção que a editora fez para um dos únicos escritores albaneses a ganhar o mundo. Belíssimas fotos na capa (a deste livro são colinas que se sobrepoem, não sei se da Albânia porque foi tirado do site CORBIS) do esloveno Arne Hodalic, fotógrafo da National Geographic. E cada edição tem uma cor diferente, uma moda que a Companhia das Letras faz muito, e fica bonito mesmo. O miolo também agrada: pólen soft basicão e fonte Electra (sou paradão nessa fonte, um chicabon pra quem me descolar ela). E o melhor é o conteúdo.

A intenção do livro, tenho quase certeza, é mostrar que albanês da roça é mais jeca do que curitibano no Batel Soho. Para isso, ele usa como o tema a poesia homérica, aquela que é cantada e nunca escrita, passada entre as gerações de cantadores. Dois pesquisadores irlandeses vão para um fim de mundo lá da Albânia que dizem ser o último reduto dessa prática. Eles trazem consigo um gravador de fita magnética, o que, na época em que se passa o romance, era a última palavra em tecnologia de mídia. E claro que na Albânia não tem nada disso, então o povo fica rebuliçado achando que tem caroço no angu. O governador do lugarejo coloca um espião na cola deles, que por sua vez, se desespera para zelar por seu nome. Já a primeira-dama fica idealizando um romance com um dos pesquisadores, numa tensão sexual veladíssima à la Stendhal em O Vermelho e o Negro. Com tudo isso, a chance dos irlandeses saírem impunemente de sua expedição diminui a cada página. E a intenção deles, assim como a do desavisado que vai afagar o cachorro de rua, é das melhores. Mas a mordida é profunda e cheia de ziquezira.

Eu tenho quase certeza também (as certezas não são certas quando você lê um autor pela primeira vez) que esse livro era para ser uma comédia. Afinal de contas, tem todos os elementos: O estranho que chega, a cidade em polvoroça, a paranóia com estrangeiros que vem fazer-nã0-sei-o-que-aqui-nesse-fim-de-mundo, a mulher casada com fogo na periquita, o espião em fim de carreira, enfim, um cenário propício para uma comédia do interior no melhor estilo  O Bem Amado. Mas como eu disse, o sujeito é tão amargurado que a comédia dele saiu super triste. E escrever um romance de comédia (uma comédia que seja inteligente, vá lá), requer do autor uma sutileza e uma relação muito íntima com o humor, porque, na forma de palavras, todo o texto parece triste. E com esse não foi diferente. Se é, de fato uma comédia, vou dizer que é a comédia mais triste que eu já li.

Um PS: É louvável o trabalho desses tradutores que fazem chegar ao português obras escritas em línguas bizarras sem fazer ponte com outro idioma. O tradutor Bernardo Joffily, poliglota que só ele, se deu ao trabalho de aprender albanês e traduzir a obra de Kadaré. É esse tipo de coisa que dá o verdadeiro acesso à cultura do mundo. Então, Bernardo Joffily, um abraço pro senhor. Se eu te encontrar algum dia, te pago um suco.

Comentário final: 166 páginas em polém soft de gramatura baixa. Deixa um hematomazinho, no máximo.

João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

Começo o blog com um livro que já havia comentado na malograda primeira tentativa de um espaço sobre livros. Não poderia começar de outra maneira, afinal de contas, Grande Sertão: Veredas é o meu livro favorito. Ganhei-o de aniversário, em 2008, do grande amigo Cássio Busetto, que tenho em alta conta e cujas indicações literárias sempre são acatadas. Li durante as férias do fim do ano e hoje digo com tranqüilidade que ler este livro é uma das poucas vantagens de ser brasileiro. É preciso ter as raízes bem fixadas na cultura do país.

Para quem sempre dormia na aula de literatura quando a professora entrava nesse assunto, o livro é um grande relato de um jagunço chamado Riobaldo “Tatarana” a um interlocutor oculto. Ele fala de suas aventuras no “sertão das gerais”, um território vasto que abrange parte dos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás, e de como conheceu e viveu com seu amigo Reinaldo “Diadorim”, um jagunço filho de Joca Ramiro, chefe do bando. Riobaldo, em sua ânsia por poder e sucesso, resolve fazer um pacto com o demônio, mas não sabe se o pacto foi consumado e passa a viver uma tortura psicológica enquanto tem de lidar com as reviravoltas de seu bando e a boiolagem latente que ronda sua amizade com Diadorim. Pronto, eis a sinopse. Se você não sabia do que esse livro falava, vergonha na sua cara, hein?

O problema de falar de um livro desses é que basicamente tudo já foi falado com muito mais categoria e conhecimento. A experiência lingüística é realmente o melhor da obra, e, somado à trama intensa, faz de Grande Sertão: Veredas o melhor livro que eu já li (até o momento, mas acho difícil achar algo melhor).

O leitor já deve ter lido de certos etílicos beatniks coisas como “eu escrevo com a alma, com o coração, com as bolas, com sangue, com porra, com merda” e bla bla blás semelhantes. É tudo mentira. O tal bebum escreve é com palavras e gramática, permeados por talvez algumas gírias e mau gosto. Porém, não seria nenhuma injustiça incorrer na suposição de que se algum autor realmente escreveu com a alma, esse autor foi o Guimarães Rosa. Ao contrário dos outros, Rosa conseguiu romper as correntes da sua escravidão à gramática e à semântica e, dando a volta por cima, tomou os elementos da escrita como seus escravos para conduzir sua literatura por veredas só imaginadas por ele e que nenhuma convenção linguística seria capaz de seguí-la. Não é a toa que o livro dá pano pra manga até os dias de hoje.

PROJETO GRÁFICO

A editora Nova Fronteira, que produziu a versão que eu li (vide imagem), cometeu o pecado de imprimir essa magnânima obra em um papel offset vagabundo. Em outras casas editoriais, o mais imprestável dos escritores é publicado no mínimo em um confortável pólen soft.

E isso não é pecado só com o Guimarães Rosa. As belíssimas ilustrações de nada menos que Poty Lazarotto mereciam ao menos uma capa dura. O número de vítimas aumenta se contarmos a excelente diagramação interna do cabeço (na vertical e alternando os cantos superiores e inferiores). O excelente projeto gráfico tem ainda o poema “Um Chamado João” escrito por Drummond sobre o amigo, com caligrafia do poeta. Tudo isso parcialmente arruinado pelo acabamento.  Não havia necessidade de se economizar tanto, afinal de contas, o livro por si só já é caro e a mesma editora Nova Fronteira possui uma versão “de estudante” que é menor e ainda mais desprovida de charme.

Claro que a versão chique do livro saiu, uma edição comemorativa de 50 anos (em 2006) que custava pelo menos cento e vinte reais e que durou uns três meses por aí (tiragem de dez mil exemplares). Quem viu sabe que era um pitéu, tinha o título bordado com fios soltos, capa dura, marcador de fita, isso sem falar no álbum de imagens e o DVD interativo (embora também tenha sido impressa também no maldito offset).

Pouco tempo depois, lançaram uma edição que era basicamente o mesmo projeto gráfico do meu exemplar mas com a capa que imitava a capa dura da edição de luxo. Também vinha em uma caixinha e acompanhava o álbum de imagens. Mas foi só. Um livro como esse merecia ser visualmente melhor representado, não acham?

Comentário Final: 624 páginas leves mas bem condensadas. Quebra alguns ossos.