Jouralbo e Allan Sieber – Ninguém me convidou

Quando entrevistei Allan Sieber em 2009, ele me contou que um de seus últimos projetos (entre as milhares de coisas que ele faz ao mesmo tempo) era escrever um livro de memórias de seu pai, que trabalhou como desenhista na década de 50, a partir de entrevistas que estava fazendo com ele desde então. Disse-me que já havia não sei quantas cacetadas de horas de entrevistas, mas o que ele não me disse (ou se disse não lembro. Dois anos se passaram e eu, ultimamente, não ando nem lembrando o que eu comi no almoço. E olha que eu só almoço dois tipos de comida) é que o livro seria desenhado pelo pai dele, o Sr. Jouralbo Sieber.

Pois bem, cá estou eu aqui, suave na nave, de leve na neve, susse no musse, quando de repente me chega a notícia de que o tal livro saiu mesmo. Tão legal isso, né? Hoje em dia o que tem de cabra metido a artista que diz que vai fazer e acontecer, acaba não fazendo lhufas e vive, como diz o slogan de um certo banco que vai perder um cliente dentro de muito pouco tempo, no “valor das ideias”, olha, não tá no gibi. O Sieber, ao que me consta, fez tudo o que disse que ia fazer com relação a seus projetos audiovisuais, gráficos, etc. Menos o documentário Pereio eu Te Odeio, mas este, ao que parece, agora tá saindo. Veremos. Bom, botei as mãos num exemplar graças à Mitie da Itiban Comic Shop — que se você mora nessa cidade bucólica e gosta de quadrinhos, acho difícil não conhecer (propaganda para os amigos é de graça, hein?), e comecei a ler. E agora vos falo sobre esta peça.

Em primeiro lugar, vamos combinar que pelo menos eu nunca vi um livro de memórias que seja roteirizado pelo filho e desenhado pelo pai (tem o Maus, mas nesse o Spiegelman faz tudo). Mas a coisa deu certo. Jouralbo conta o início de sua vida como artista publicitário nas agências e editoras de Porto Alegre na época do Guaraná de rolha, e o que mais fosse interessante compartilhar. Allan faz o filtro, roteiriza a história e faz um storyboard que repassa para seu Jouralbo fazer a arte. Voilà (nem é chique ficar falando francês, hein? Pode parar com a palhaçada), temos aí um livro interessante em sua forma e processo.

E o conteúdo? Olha cara, se você tá esperando por um quadrinho com o humor do Allan Sieber, esquece. A vida dos outros não serve pra você sentar aí e ficar dando risada com os perrengues alheios. Mas é, sim, um livro divertido e curioso, principalmente pra você que não sabe o que é um mundo sem internet. Claro que, como Allan organizou as informações, deu mais relevância para essa estória do que aquela, passa muito para as páginas de Ninguém me Convidou uma misantropia branda, que não se sabe ao certo se veio do filho ou se é de família mesmo, além de outros elementos mais sutis que permeiam a obra do quadrinista. Mas vamos combinar também que é complicado fazer quadrinho com a palavra dos outros (mesmo que a arte final seja do Jouralbo), ainda mais quando as palavras em questão são do próprio pai. Veja só o que o Crumb fez com o Gênesis, por exemplo (o livro, não a banda horrível). Por isso, é bem admirável o trabalho dos dois nesse sentido, e o resultado está a contento.

Allan também já estava pegando raça nesse lance de quadrinho de não-ficção graças às reportagens que fez para a Playboy e sei lá quantos outros veículos mais. Seus relatos sobre o passeio turístico na favela e sobre a aula de sedução que teve com um instrutor profissionalizado da arte que, como tudo o que é bizarro, veio daqui de Curitiba (z. B. Oil Man, Maior Trapézio de Curitiba, Francine de Curitiba, etc, etc. e falar alemão também é coisa de mané) são dignos de um Joe Sacco brasileiro. Belo sobrenome, aliás. Além disso, advoga a seu favor uma discreta carreira como documentarista audiovisual que desenvolveu com sua produtora. Quer dizer, o cara não era exatamente um novato na meia-cancha quando começou essa empreitada.

Esse projeto gráfico da editora Conrad (falando em Conrad, por onde será que anda o Conrado, que derretia corações na época em que eu comia cola?) tá bonito também, e o traço do Jouralbo colaborou. O desenho dele é o desenho-arte, o desenho-maroto, o traço profissa feito, ao que parece, quase no piloto automático. Atalhos de quem já desenhou até o dedo cair. A capa do livro tem um autorretrato do Sr. Jouralbo num fundo azul coberto de curvas francesas em cor de burro quando foge. O conteúdo segue com várias histórias em quadrinhos e uma última seção de histórias meramente ilustradas. Por último, uma pequena amostra de todo o vasto trabalho do pai nesses anos todos trabalhando nessa indústria vital, além de algumas fotos. Enfim, é um livro de memórias, tem que ter foto mesmo que tenha quadrinho a dar com pau. Nas fotos we trust. Vish, a madrugada tá batendo, já não to falando coisa com coisa. Vou embora.

Ps: Meu blog estava concorrendo com o do Sieber ao The Bob’s. Esperei a votação terminar para falar desse livro, sendo assim, um bom perdedor que sabe partilhar a derrota. Xi, não tô fazendo sentido mesmo.

Comentário final: Tô dormindo há três dias sem cortina. Os primeiros raios de sol da manhã me despertam, o que mostra que tudo o que parece romântico e poético é, na maioria das vezes, uma aporrinhação sem fim. Ah, eu quero minha cortina de volta.

Enrique Vila-Matas – História Abreviada da Literatura Portátil (Historia Abreviada de la Literatura Portátil)

historia abreviada de la literatura portátilDe volta ao nosso expediente normal então. Perdemos no The Bobs, acho que todo mundo já estava esperando isso. Como sempre, em meio a chacina de criancinhas, tsunamis, vulcões, vazamentos nucleares e terremotos, o mundo continua dedicando a maior parte de sua atenção à falta de ciclovias. Ora, vou parar de falar isso porque senão vai parecer discurso de mau perdedor. E eu sou mau perdedor e sei que ser mau perdedor ainda não é muito bem aceito na sociedade, então bola pra frente.

O livro de hoje é curtinho. Qualquer um pode lê-lo em uma sentada (o equivalente a três vírgula sete cagadinhas, não sei qual unidade de velocidade de leitura vocês usam aí), o problema maior é desembolsar uma graninha para comprá-lo porque, veja bem, ainda se pensa muito na quantidade de páginas que um livro tem e costuma-se avaliar o preço dele baseado nisso. Gente, o livro novo da Maryan Keyes tem 800 páginas de pura abobrinha, vocês decidem onde investir vosso rico dinheirinho.

Bom, Historia abreviada da literatura portátil é um livrinho publicado originalmente em 1985 e que dá o starte a esse jeito maluco que o autor tem de passar as ideias dele pra gente, usando principalmente a) uma escrita extremamente cerebral b) referências históricas e geográficas das cidades da Europa c) alguns escritores e outros artistas pouco mais desconhecidos do grande público d) apócrifos e muitas, muitas mentirinhas, dessas do estilo pega-troxa. É isso, a literatura do Vila-Matas serve principalmente pra você que acredita em tudo o que lê começar a ficar mais esperto um pouco.

Bom, a história é a seguinte: um narrador, que não é o autor, embora ele dê a entender isso durante o livro inteiro, mas se você ler com cuidadinho você percebe que não é, está escrevendo um ensaio sobre a sociedade secreta shandy, um grupo de artistas mutcho lokos que batizaram sua seita com o nome do personagem Tristram Shandy, do Laurence Sterne, sabe aquele? A sociedade é composta por tipos do tipo do Marcel Duchamp, Aleister Crowley, Robert Walser (robard valzaaaa), entre outros, e todos eles pregam coisas como só fazer arte que não seja importante, só escrever livros pequenos e obras de arte que possam ser miniaturizadas para se carregar numa maleta, à moda da maleta de Duchamp, que cotinha suas obras. E também serem solteiros, estarem perto de pelo menos uma mulher fatal e beber uma bebida chamada Shandy, que, pelo que eu entendi, é cerveja misturada com limonada. Pra quê Activia, né?

Aí que Vila-Matas vai conduzindo a gente por esse universo de mentiradas e o leitor bobão vai caindo em todas, e depois lê a porcaria do livro e sai por aí esbanjando conhecimento. Até que toma um chega pra lá e passa o resto da festa de mau humor, chorando as pitangas de que não teve tanta chance na infância, desperdiçou sabedoria decorando nome de Pokémon e jogando Tazo no recreio, etc. Por isso, é um excelente livro que todo mundo deve ler! É meio estranho que o autor queira divertir a gente com um ensaio, não é? É que nem, sei lá, defender uma tese de doutorado em forma de espetáculo circense. Enfim, por enquanto tá dando certo, espero não enjoar dessa escrita dele, é ainda agradável e, aos meus olhos, pouco pedante se não contarmos a intenção.

Essa edição da Cosacnaify me pegou de surpresa. Achava que vinha um livro do tamanho dos outros do autor, mas veio um que é um quarto dos livros normais, e com menos de 150 páginas ainda por cima. É do tamanho de um livro de bolso, e o boboca aqui nem se ligando que o cara queria fazer uma literatura portátil. Dã. Fora isso, a edição é chique que nem as outras, e a foto da capa é, na minha modesta opinião, uma das melhores da coleção. Rosa e amarelo? Sim, tudo bem, é uma escolha heterodoxa mas, hey, se eles não fizerem, ninguém faz, a não ser talvez uma daquelas gráficas de fundo de quintal que lança uma edição do autor chamada “Mistério na fazenda” com Sandy e Junior na capa, jurando que vai ser o maior sucesso de público e de crítica, entrar pro Guiness e o escambau. Papel pólen e fonte Garamond, a belezura. É isso. Livro curtinho, resenha curtinha, mas acho que deu pra entender como é, né?

Comentário final: Toda pessoa alta é meio maluca porque vivem batendo a cabeça nos lugares. Já repararam nisso?

 

Rodolfo Walsh – Operação Massacre (Operación Masacre)

Operación Massacre“Não, Yuri, por favor, mais um livro-reportagem não! Eu prefiro cortar meu saco fora do que ter que ler outra resenha sobre esses jornalistas sebosos que se acham donos da verdade!” Calma lá meu povo, eu não coloco vocês em roubada, já disse, e ó, digo mais: se vocês tiverem que ler um livro reportagem que seja, unzinho na sua vida, pra depois passar 50 anos lendo Bruna Surfistinha e Diário de uma ex-BBB (“já fui lésbica sim e não tenho medo de falar o que penso!”), leia Operação Massacre de Rodolfo Walsh. Quero explicar hoje, tim-tim por tim-tim, porque eu considero esse um dos melhores livros do gênero já escritos.

Tudo bem que não sou nenhum expert em literatura jornalística, mas já li algumas dúzias desse tipo de livro e nenhum bateu tão forte no fundo do coração como esse (Agora que falei em bater no coração, lembrei daquela música: “A saudade é um prego, o coração é um martelo”. Uma das metáforas mais sinistras da música brasileira, sem sacanagem. Zeca Baleiro, Paulinho Moska e Cia., aprendam com esses caras). Primeiro porque a história é grandiosa em todos os âmbitos. Não é algo microscópico como o assassinato de A Sangue Frio, embora pareça, e não é algo que seja, por outro lado, grandiloqüente, que tenta dialogar com todas as esferas em que está metida a coisa, como, sei lá, Hiroshima (que é bom também). É uma história coesa com seu tempo e com seu espaço, momento e lugar, tudo nela tá complicado e perfeitinho. Depois que é um livro super bem escrito, um trabalho jornalístico nota dez e estilístico nota mil. Tem muito romancista hoje em dia que não tem uma voz tão forte como a de Walsh. Tenho a impressão, depois dessa, que vou saber reconhecer qualquer texto que ele tenha escrito. E por último, vale o livro pela experiência forte que mudou a vida do autor. E, como diz Eliane Brum (que não vamos chamar de a mãe do jornalismo cojonudo brasileiro porque ela não é velha, vamos dizer que seja aquela prima independente que desde cedo se mostrou muito safa do jornalismo cojonudo brasileiro), se a história não transforma o jornalista, é porque tem algo de errado. E mudou, amigo, mudou. Vou dizer o porquê.

Operação Massacre fala de uma história que se passa na Argentina da década de 50, época em que Chuck Berry estourava com Johnny Be Good. Coitado do Chuck Berry. Tem gente que acha ruim que o Lobão só tenha feito sucesso por causa daquela musiquinha chata pra diabo que eu já nem lembro o nome e não faço questão de que me lembrem, e desconsideram que o Chuck Berry está a CINQUENTA anos tocando a mesma música no show (sim, eu sei que ele tem outras, Mané, mas pra ouvir Route 66 ninguém paga ingresso). Imagine como deve ser a vida desse cara! Sabe quando você ouve “dança da manivelaaaaaaaaa” e fica com a música na cabeça durante uma tarde inteira? Então, amigo, Chuck Berry está com Johnny Be Good grudada no cérebro há cinquenta anos. Ele acorda com essa música na cabeça e dorme com ela na cabeça, e ninguém garanta que ele não sonhe com ela também. Que terror, meu deus, que terror!

Divaguei porque me compadeci do pobre velho Chuck Berry. Mas dizia eu que, na Argentina dos anos 50, quando a junta militar tomou o poder e o peronismo começava a ser formar como um movimento sólido (e clandestino, o nome Perón foi proibido de ser falado), os militares tavam naquela caça às bruxas que é típica deles, e é típica também do cara mau amado que não faz ideia do que as pessoas estão falando dele e começa a ficar paranóico (façam as analogias necessárias e tirem suas conclusões). Eis que, numa noite de 56, minutos antes de baixar a lei marcial que autorizava fuzilar os terráqueos que fossem presos pelos milicos, a puliçada baixou numa casinha onde uma galera estava reunida pra chogar uma caxeta (Wilmutt), ouvir uma luta de boxe no rádio, etc. Como todos bons agentes da lei, nego chegou lá não querendo saber de nada, não tinha desculpinha, não tinha nervosinho, não tinha fortinho, não tinha necas. Chegaram descendo o cacete e mandaram o teje preso pra geral. Todos foram levados pra uma estrada longínqua, onde desceram do caminhão, fizeram fileiras e amorteceram inúmeras rajadas de balas dos gambé. Entretanto, a parada foi tão mal feita que metade escapou com vida pra contar a história (não lembro do número exato agora, mas acho que tinham doze e sobraram cinco, seis ou sete).

Aí que entra Rodolfo Walsh. O cara tava na dele, escrevendo seus livrinhos policiais (se Dan Brown é o McDonald’s da literatura, romance policial é o Subway: mais saudável, mas ainda assim é fast-food. Ah, e livro do André Vianco é o Bobs), e a oportunidade de escrever essa história cai na mão dele. Ele busca os sobreviventes, entrevista cada um 486 vezes, cruza as informações, monta uma cronologia, ataca a rinite revirando papel velho, passa noites em claro, almoça miojo todo dia, e no final obtém um puta dossiê. Sei que quando a gente fala de dossiê aqui no Brasil, nego logo pensa que é um monte de documento forjado que serve pra tentar derrubar o inimigo político, mas esse dossiê não, esse é dossiê de verdade. Com ele, escreve esse belo livro, com muita perspicácia na narrativa (tem passagens que me deixaram com dor no peito por dias) e, desnecessário dizer e com o perdão da palavra, joga merda no ventilador dos milicos, água no chope do governo, pimenta no cu da Argentina. A parada ia feder pra todo mundo, ele vira o autor da acusação contra o regime. Sim, o autor mete a colher, o bedelho, mete tudo no meio, toma o lado da briga dos caras e entra com um processo. E vocês aí achando que jornalista ainda quer ser imparcial. Tolinhos.

Pois bem, quando a parada tá quase ganha, o tribunal passa a batata pro tribunal militar e lá tá tudo entre amigos, o juiz alivia a barra dos manolos e fica elas por elas. Rodolfo Walsh sobe nas tamancas com essa palhaçada toda, escreve uma carta, fulo da vida, endereçado ao governo, entrega lá na porta, e um dia depois toma chá de sumiço. Suspeita-se que tenham largado o prego nele em alguma esquina, fato é que o serviço foi rápido.

Essa edição da Companhia das letras contém, além do livro, a carta de Rodolfo Walsh que lhe custou a vida, explicações sobre a versão cinematográfica do livro, prólogo para a primeira edição, introdução, apêndice obrigatório, epílogo provisório, outro epílogo, enfim, uma cacetada de textos curtinhos que até são importantes para entender a obra, mas a maioria não tem lá muito valor literário. De qualquer jeito, tá tudo ali, pro leitor conferir que não é caô, um trabalho aí que se deve ao Matinas Suzuki, organizador da coleção Jornalismo Literário. O livro segue o padrão da coleção. Papel pólen, fonte minion, três fotos que dizem muito pouco, quase nada, sobre a história (também, né? Três fotos pra um livro inteiro é sacanagem!). Tradução do Hugo Mader e o resto é ler pra crer. Consegui falar da importância do livro. Espero que sim, porque ele é importante pra mim. E se não consegui, melhor, vou dar uma de indie e guardar meus gostos só pra eu mesmo, e reclamar se virar best-seller. Pô, esse Coetzee tá um vendido, todo mundo tá lendo. Nem gosto mais desse cara *ar de blasé*.

Comentário final: Pior do que tocar a mesma música por cinquenta anos é ter essa música arranjada pelo Cidade Negra num acústico. Obrigado, Chuck Berry, por não estourar os miolos depois dessa, você é um bravo.

 

Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Les particules élémentaires)

Les particules élémentairesEsse ano o querido Michel Houellebecq vem para a Flip. Como brasileiro é um povo festivo com gringo mas ao mesmo tempo não manjam muito das celebridades que vem aqui, resolvi fazer esse serviço de utilidade pública e apresentá-los a vocês, queridos leitores e a vocês, queridos jornalistas que deixam tudo pra última hora. Ó, tô falando disso uns quatro meses antes da festa, dá tempo de se informar e ainda sobra pra ler um ou outro livro dele, se é isso mesmo que você tem que fazer. Pros preguiçosos, pega o resumão e comentário aqui e sai por aí esbanjando o conhecimento que você não tem.

Partículas Elementares é um dos primeiros livros (o segundo, acho eu) do grande escritor francês radicado na Irlanda Michel Houellebecq. Fala de dois meio irmãos: um chama Michel (atenção, jornalistas: os personagens dele geralmente chamam Michel) e o outro chama Bruno. Bruno é o típico moleque que foi gordinho quando criança, cresceu e virou gatão e, pra se vingar da humanidade, come geral pra tentar machucar o coração de alguém (tá, essa última parte eu presumi, mas deve ser). Michel é o típico moleque que foi bostão quando criança, cresceu e continuou bostão, sendo virgem aos não sei quantos anos. Ele trabalha com pesquisa em biologia e está fazendo alguma coisa relacionada a partículas elementares, algo que vai dar um boost na sua carreira e na medicina de uma maneira geral, mas agora não lembro exatamente o quê porque faz um tempasso que li esse livro, uns bons três anos. E o Bruno é professor, querendo comer as aluninhas (hum, igual a um certo professor que tive uma vez numa certa escola de jornalismo), mas frustrado porque a gatinha em que ele está de olho dá pra um negão avantajado — o pesadelo de todo cara branco que não se sente competitivo. Enfim, os dois meio-irmãos, filhos de uma biscatinha da década de 60, se encontram no funeral da mãe, e aí se conhecem e resolvem passar tempo juntos. Vão para um retiro, uma espécie de hotel/SPA numa praia paradisíaca, onde lá Bruno conhece uma gatinha e Michel descobre o paradeiro de sua amada de outros carnavais, Annabele não sei das quantas. Bom, como todo livro do Michel Houellebecq, tudo vai bem, tudo vai bem, até que vai mal. E com esse cara você sabe que, quando eu digo que vai mal, é porque vai mal MESMO.

Bom, nesse livro aqui não temos nada de muito diferente do que o autor veio a explorar melhor em seus livros subseqüentes, com a diferença que este foi o primeiro livro que virou filme, acho eu. O filme é uma produção alemã com atores alemães dos quais nada conheço, e o roteiro pesou muito mais nas partes cômicas, que são sim, pontos fortes do livro. O livro é mais triste, mas acho que o é por ser um livro, afinal, ler não é exatamente uma parada super engraçada que você fica com a barriga doendo de tanto ler. O livro em si é bem escrito mas tem um ritmo mais arrastado que o normal em um Houellebecq legítimo (and I ain’t no Houellebecq girl, I ain’t no Houellebecq girl, já dizia Gwen Stefani), e, como acontece n’A Possibilidade de Uma Ilha, tem um epílogo completamente desnecessário. Tem gente que não sabe a hora de parar de escrever e… opa, é comigo? Ok, ok, parei.

Essa edição da Editora Sulina, lá do Rio Grande Tchê, não é exatamente a edição que eu tenho. Essa capa do livro é a capa do filme também, e a capa do meu livro é um ventre de mulher com a mão na coisa e a coisa na mão. Logo eles perceberam que, por mais que a imagem seja bonita, é o tipo de coisa que impede que a pessoa tímida de criar coragem e levar isso no caixa da livraria, principalmente se a caixa for uma mulher, e principalmente se ela parecer meiguinha. A tradução é do Juremir Machado, um cara porreta, catilogente e sabido (já falamos aqui), mas meio inusitado pra escrever as orelhas. Ele descreve um felatio como “uma mulher de boca ousada”.  Ew, Juremir, deve tá ouvindo muito Lupcínio Rodrigues, fala a verdade! No mais, papel offset desgracido e fonte garamondo do coração dos manos do terminal de ônibus. A numeração dos capítulos tem uns arabescos que ficaram quase invisíveis, e a quarta capa lista uns elogios aqui e ali, além de um “traduzido em 21 línguas” que, pra mim, não quer dizer nada. O livro dos recordes é traduzido em quarenta mil línguas e eu continuo não lendo, afinal.

Comentário final: I ain’t no Houellebecq Girl!

 

Ismail Kadaré – Vida, jogo e morte de Lul Mazrek (Eta, Loja dhe vdekja e Lul Mazrekut)

ETA, LOJA DHE VDEKJA E LUL MAZREKUTQuase que a Copel deixa esse blog sem mais um post, mas não é a falta de luz que vai apagar o Livrada! Aê! Bom, como vocês viram no post anterior, a votação para o The Bobs está rolando e o Livrada! já está perdendo feio para blogs mais ambientalmente conscientes (e nós aqui, consumindo coisas feitas de árvores derrubadas, sem levar em consideração o esforço de heroínas como Dorothy Stang). Vamos continuar votando para fazer coro, alright? Não vamos ganhar, mas vamos nos divertir. Sim, o Livrada é o América do Rio, é o União da Ilha, é o L.A. Clippers, é o candidato à presidência do Psol, é a delegação olímpica da República Centro Africana, é o sujeito que sai vestido de Bob Esponja na São Silvestre. Vamos nessa.

Antes de mais nada, gostaria de fazer um comunicado importante. Pelos próximos dias, estarei trampando num trampo sinistro que exigirá muito do meu tempo, então não garanto postagens regulares, embora desde já prometa fazer o possível. A boa notícia de tudo isso é que eu vou ter dinheiro e não vou mais precisar mentir pros meus amigos, dizendo que estou indo almoçar com outros amigos quando na verdade estou indo para um lugar afastado comer um sanduíche que eu trouxe de casa. Resumindo: vou ter dinheiro, aê, que alegria! (sim, amigos, agora vocês já sabem). Adiante.

Ismail Kadaré de novo? Sim, de novo. Se você ainda não percebeu, o cara é um habitué do Livrada! por méritos conquistados na meritocracia que é este blog. Autor bom entra, autor ruim sai, e autor consagrado, quando necessário, recebe um leve esculacho pra ficar ligado. E quem gostou lê, quem não gostou, não faz nada. Fica peixe. Bom, o livro de hoje não é muito recente. Acho que tem lá uns bons dez anos. Mas é um dos melhores dele que eu já li, e terminei de lê-lo essa semana, então a memória está fresquinha (assim espero) para comentá-lo.

Vida, jogo e morte de Lul Mazrek é mais um livro sobre a Albânia comunista do ditador Enver Hohxa (dia desses eu e Chico fizemos uma lista de nomes legais de estadistas — não confundir com lista de nomes de estadistas legais — e Enver Hoxha ainda é meu preferido, junto com Kamehameha I, do Havaí). Nela, um jovem ator como Lul Mazrek, ao ser reprovado no vestibular de artes, se vê obrigado a servir o exército (quem pensou na história do Hitler — outro nome legal de estadista e NÃO de um estadista legal — tá certo, embora ele não tenha nada a ver com a história), mais especificamente em Saranda, uma espécie de Costão do Santinho Albanês, por onde os fugitivos do governo resolvem escapulir, direto pra Grécia, pela antiga cidade de Butrint, um lugar que, como tudo o que já foi cidade grega, é formada de parede velha e caída e mais coisas completamente destruídas. Pois bem, Lul Mazrek precisa estar ali pra meter bala em quem tentar fugir. O que também não tá certo, o governo não entra num consenso se mostra pra população os cadáveres abatidos ou ocultam, e fica nesse problema de logística de achar, transportar e exibir cadáver. Como diz a Avril Lavigne: complicated.

Ao mesmo tempo, temos essa deusa albanesa (uma incoerência, porque se você procurar ‘albanesas gatas’ no Google, ele vai perguntar se você não quis dizer ‘japonesas gatas’), chamada Violtsa Morina, contratada pelo governo para identificar, seduzir e caguetar os fujões, segundo tese do governo que fugitivo fica todo sensível antes da fuga e acaba por dar com a língua nos dentes. E o que acontece, rapaz? É claro, os dois se apaixonam. Aí rola todo aquele lance de amor proibido, não é o trabalho dela, o exército não deixa o cara sair pra namorar, os fujões vão fugir se ela baixar a guarda, quem está tomando conta do lojinha, etc.

Bom, esse livro serviu para o Kadaré explorar todo o tipo de história espelhada possível. Não vou contar mais pra não estragar a diversão de quem vai ler (sim, o Livrada! é legal, tem fita VHS roxa com selo da UBV e marca d’água), mas, se você reparar, são vários os paralelos que se pode traçar entre as vidas de Lul e Violtsa depois que se encontram, além da comparação explícita entre Violtsa e Andrômaca que, pra quem não sabe, além de ser uma personagem da mitologia, também é um capítulo muito serelepe do Kama Sutra. Sim, já que o papo é Grécia, sexo e exército, por que não falar de Andrômaca?

Mais uma vez, o autor mostra uma Albânia feita não se sabe para quem, com regras que agradam muito pouca gente, e pessoas que vivem seus dramas pessoais de pertencerem a um lugar que inibe todo o potencial delas. Foi assim no Abril Despedaçado, foi assim no Dossiê H, enfim, o cara fala disso mesmo, get over it. E, claro, é um livro com doses moderadas de literatura erótica e doses nada moderadas de realidade dura, tipo letra do Ndee Naldinho. Vale a pena? Vale a pena.

O projetinho da Companhia das Letras para o autor é bacana, vai dizer. Já falei sobre ele antes: fonte Electra, papel pólen e tradução do único, do inigualável, do insubstituível (insubstituível mesmo, gente,ou tem alguém aqui que fala albanês?) Bernardo Joffily. A capa não sei daonde é, que o livro tá longe, mas imagino que seja do CORBIS. Se não for, depois eu corrijo com o rabo entre as pernas.

Por último, preciso abrir meu coração: conversando com a colega Patricia, da minha turma de alemão, ela me solta essa: “o meu cunhado também gosta de literatura, e ele não é gay!”. Tá vendo, macharada iletrada? Mais uma virtude desejável vai parar na fama ilibada dos homossexuais. Já disse, vamos fazer os livros serem legais de novo. Reforço meu pedido, mulheres: se o gatinho te levar na casa dele, com vinho chileno e hortinha de manjericão na sacada, mas não tiver livros em casa, não transe! Simples assim.

PS1: Esqueci de dizer, mas agora o Livrada! tem uma página no Facebook. Entrem lá e fiquem por dentro das atualizações: http://www.facebook.com/pages/Livrada/209104299099609

PS2: Tô vendendo um PS2, tratar aqui.

PS3: Esqueci de dizer, mas estamos na mídia!

Comentário final: Se alguém me enviar pelo correio um exemplar novinho de “O Livro Verde”, do Kadafi, eu resenho, prometo!

 

Kyoichi Katayama – Um grito de amor do centro do mundo (Sekai No Chusshin De Ai Wo Sakedu 世界の中心で、愛をさけぶ)

SEKAI NO CHUSSHIN DE AI WO SAKEDUIh, são dez horas da noite, eu saí de casa pra ver a luta na televisão e esqueci de escrever pro blog de novo. Peraí, de novo não, da outra ocasião eu não escrevi porque a vida tá difícil mesmo, e eu espero que vocês me perdoem e me entendam. Bom, felizmente dessa vez o meu camarada Lucas Lazzaretti emprestou-me o seu laptop para que eu digite essas rápidas linhas enquanto tento encontrar um acento e outro nesse teclado maluco. Por isso hoje vou ser breve, cumpri tabela e fazer algo que eu não faço há muito tempo, que é meter o malho num livro.

Por isso, vamos lá. De cabeça falo hoje de Um grito de amor do centro do mundo, do Kyoichi Katayama, um livrim meia boca demais que eu quis ler pra saber que cara tinha um best-seller japonês. Achei que, por ser do Japão, esse povo tão sofrido que hoje estamos homenageando aqui, pudesse ser um best-seller melhor que os dos outros países. Como é o caso do Michel Houellebecq na França por exemplo (e não vamos falar de Marc Levy aqui, pelo amor dos meus bagos). Houellebecq vendeu meio milhão de cópias com seu penúltimo livro, A Possibilidade de uma Ilha, que um dia eu resenho. Isso se meus números estão atualizados. Bom, o Katayama vendeu nada mais nada menos do que 3,5 milhões de cópias no Japão. Isso num país que é uma tripinha menor que o Chile. Quero ver um livro vender isso aqui no Brasil. Nem Laurentino Gomes, amigo. Bom, daí que imaginei que o livro talvez fosse um desses petardos que teria a sorte de ser mais vendável do que rosa branca de iemanjá no ano novo. Mas, amigos, me enganei. Mea culpa, mea maxima culpa.

Um grito de amor no centro do mundo conta a história de Sakuratô e Aki, um menino e uma menina, repectivamente, que se apaixonam na escola ainda, mas tempos depois ela descobre que está com leucemia e morre (não se preocupe, não contei nenhum spoiler). Putz, me digam: quantos Chick Flicks vocês já viram com um roteiro como esse, com algumas váriáveis, como idade e qual dos dois tem câncer? O cara já começou mal, ou seja, explorando um tema mais batido que músculo antes de ir pra panela. Mas bom, quem ainda não está cansado de ler sobre isso, e quer achar um ticket fácil pra avenida do choro, o livro pode ser uma boa. Só que, se a história não é muito original, a forma não é muito inovadora também. Uma escrita beeeem mela cueca, cheia dos sentimentalismos baratos e formas muito usadas. Coisas como “a vida é triste, como as folhas das árvores caindo num outono frio” etc. Já falei que existem frases que me fazem levantar da cadeira e querer gritar “gol!”. Pois esse tipo de coisa me dá vontade de levantar e xingar a mãe do juiz.

Tá, exagerei um pouco, mas faz parte da crítica ser impiedoso com o livro pra depois dar uma levantada na moral do livro. Isso quando o crítico não é cruel, como eu não sou. Quando o cabra é cruel, ele faz o contrário: levanta um pouquinho a bola e depois enterra todo mundo. Bom, o livro não é desagradável de ler, a verdade é essa. E é curtinho, não atrapalha o cronograma de ninguém e pode ser uma boa leitura pra você levar pra praia e ler embaixo de um belo guarda-sol. São 155 páginas, afinal, não machuca ninguém. E vá lá, quem sabe você se emociona. Ah sim, o título do livro faz uma menção ao livro do Harlan Elisson “Crying out love in the center of the world”. O Murakami também faz menção no título do livro dele que eu resenhei, né? Que cambada de japa referente!

Esse projeto gráfico da editora Alfaguara é o bicho ou não é? Alguns me disseram que a japonesinha da capa matou o resto da foto que tem um fundo bacana, mas eu gosto da capa. A tradução foi feita diretamente do japonês por alguém que não vou saber citar de cabeça porque o livro está longe, e o papel tem uma gramatura grande pra parecer que tem mais livro do que na realidade tem. Bom, o projeto deles muda muito pouco. Ainda assim, valeu a intenção da editora de trazer um best-seller que não seja americano ou o nosso inominável Paulo Coelho. É um best-seller? É. Mas pode ser cult? Pode também. Tô parecendo o Kleber Machado? Um pouco. Vamos parar por aí? Sim.

Comentário final: Escrevi o último parágrafo já em casa. Que droga essa luta do Shogun…

V.S. Naipaul – Uma casa para o sr. Biswas (A House for Mr. Biswas)

A house for mr. biswasNão sei quanto a vocês, mas eu estou levando a sério o desafio literário livrada 2011. Já li o primeiro livro do meu autor escolhido. De fato, acabei de lê-lo agora e já resolvi escrever enquanto a coisa tá fresca na cabeça. Sem mais, vamos a ele.

Vidiadhar Surajprasad Naipaul, esse índio velho com cara de figurante de filme do Giuliano Gema, minha gente, é o autor que eu escolhi para conhecer esse ano. Nasceu de uma família indiana na década de 30 em Trinidad, aquela ilhazinha simpática que fica em cima da Venezuela, do ladinho de Tobago, e, após uma vida estudando entre os ingleses, ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2001, aos quase 70 anos. Povo de Estocolmo, vamos começar a reconhecer o mérito literário das pessoas mais cedo um pouquinho, vamos? O que o idoso vai fazer com o milhão de platas que ele vai colocar no bolso com o prêmio? Gastar tudo com remédio nas farmácias Minerva? Dá o vil metal na mão de um escritor mais garotão, pra ele gastar com Jet-skis, shows particulares do Yo-Yo-Ma, raves em Santorini, enfim, dá dinheiro pro cara viver a vida, né?

Enfim, voltando ao assunto, Naipaul escreveu, em 1961 esse mega romance de formação com traços de pós-colonialismo (é sério gente, existe uma corrente literária com esse nome, não iria enganá-los de graça) chamado Uma casa para o Sr. Biswas (na ficha técnica da Companhia das Letras, colocaram que o título original era “A house to Mr. Biswas, mas não é to, é for, mancada básica do inglês básico). O livro, parte drama, parte comédia, fala da história de Mohun Biswas, o sr. Biswas da história, um cara que cresceu numa família minimamente grande, como costumam ser as famílias hindus a julgar pela família do Apu, que é o único hindu que eu conheço, e ele é só um desenho animado, e, acho que por isso, sonha em ter um cantinho só pra ele. Tido como maldito por um pândita, um sacerdote que vem traçar a personalidade dele, cresce recebendo uma sutil hostilidade de sua família, e casa com uma mocinha chamada Shama, da terrível família dos Tulsi, uma família de comerciantes maior que o Polyphonic Spree inteirinho, cheio de gente autoritária e sem paciência pra nada. Mohun então começa a trabalhar de jornalista e a escrever pequenos contos enquanto tenta conquistar sua própria casa, sendo enganado por tudo e por todos a todo momento.

Contar mais do que isso é spoiler, então vamos às análises. Primeiro, considero que Naipaul escreveu esse livro com uma grande paixão, pois a história de Biswas está muito associada à história de seu pai e, por conseguinte, à sua infância em Trinidad. Assim como Biswas, Naipaul queria ser escritor, e também assim como Biswas, seu pai fora jornalista sem ter muitas leituras, e considerava os escritores os seres mais nobres do mundo. Acho que toda obra escrita com muita paixão por um determinado universo deve pelo menos ser considerada a ser lida com carinho, e ponto final.

Falando um pouco sobre o Sr. Biswas. A trajetória que o protagonista desenvolve ao longo de sua vida pode ser compreensível se levada em consideração o meio em que cresceu. Hostilizado por seus pais, pois o pândita havia dito que seu espirro causava azar, Mohun começou a se rebelar contra tudo aos poucos. O drama de não ser bem quisto e ainda assim ter de conviver com pessoas hostis — família, ainda por cima — é motivo bom pra querer chutar o pau da barraca, a meu ver. Depois, na adolescência, quando é forçado a casar com Shama, e a morar com uma família gigantesca, é mais um motivo para revolta. Uma vida que vai sendo arrastada para as situações, por assim dizer. Toca fundo no nosso senso de liberdade, a mulherada fica doida quando vê uma mulher de burca, é ou não é? O Biswas tem algo nele de bom, de nobre, mas isso não é despertado pelas frustrações perante a vida que lhe corroem com a força e a dor de uma lâmina profunda de agonia (achou bonito? É do Funk Fuckers!). Aí entramos em outra questão importante do livro: a rotina e as responsabilidades que oprimem a criatividade e a vontade do pobre proletário. Mohun não pode escrever e não pode exercitar todo seu fascínio pela cultura e pela literatura porque tem que cuidar do telhado que tá caindo, dos quatro filhos pra criar, da esposa que só reclama, etc. Então, ô-ô-ô-ô mai bróder,  é o rodo cotidiano.

Vidiadhar Surajprasad NaipaulUma última coisa que queria falar sobre o livro é uma passagem que me marcou muito. Vou tentar não contar muito do contexto para não estragar a leitura de quem, porventura se aventurar nesse livro. Bom, acontece que, em dado momento, Biswas consegue comprar uma casa, mas diante de um cenário completamente hostil. E aí ele se depara com uma realidade cruel do estado capitalista: quem tem posse tem medo. Ele começa a se sentir acuado em seu próprio terreno (opa! Mesma música do Funk Fuckers de novo) e experimentar um medo terrível de tudo e de todos, chegando a ter receio de sair lá fora. Aí está um traço do tal pós-colonialismo. O medo de quem tem posse num país completamente desestabilizado, sem seu poder executivo em pleno funcionamento, em épocas de guerra (segunda guerra), depois de colonizadores terem abandonado o país à sorte de suas divergências culturais e étnicas, do tipo “pulei fora, se virem vocês”, é terrível. A todo momento, no livro, vemos leis sendo mal-interpretadas, distorcidas, manipuladas para o interesse de alguém (não que isso não aconteça por aqui, mas no livro a coisa é muito mais visceral), algo muito típico do Estado sem Estado. Isso, aliado ao comportamento dos Tulsi e do próprio Biswas, enfim, os trejeitos da sociedade, me fazem perceber que a cultura de Trinidad e Tobago não é muito diferente da brasileira. Esse romance poderia ter sido “rodado” aqui na nossa terra, afinal. Todo mundo sendo enganado e vivendo na maior pobreza. Serião, fiquei com nojo de algumas paradas da história, como o “sorvete feito em casa”, que é guardado num freezer velho que fica soltando pedacinhos de ferrugem em cima do sorvete. Yuck!

Essa coleção do Naipaul da Companhia das Letras é bem bonita, vai dizer. Esse livro em questão é sinistro, porque são 522 páginas em letra miudinha, pra caber mais. Então é um livro que eu suei pra ler. Dica para vocês, crianças: evitem começar a ler um autor por seu maior livro, mesmo que seja um clássico. A exceção de Crime e Castigo, é claro, e também pro caso de você resolver ler Pamuk — o cara não faz muito livro pequeno, então não tem jeito. Bom, mas eu fui, demorou mas tô aqui falando dele pra vocês. Tradução do Paulo Henriques Britto, papel pólen e fonte Garamond. Tem prefácio do autor e na quarta capa, citações elogiosas de balangudos da literatura como Paul Theroux e Anthony Burgess. Ah, o livro também ganhou o prêmio Grinzane Cavour, da região de mesmo nome da Itália. Um prêmio importante, mas desconhecido, que já premiou e homenageou muita gente boa (inclusive o Cesare Pavese, Carlinha!). Tá demais, né?

E a propósito, como vão as leituras do desafio de vocês? Já leram algum autor a que se propuseram? Não quero controlar, só estou curioso mesmo. Se quiserem, escrevam aí embaixo!

Comentário final: 522 páginas pólen soft. Arranca o braço do James Franco em 127 horas.

 

Pedro Juan Gutiérrez – Nosso GG em Havana (Nuestro GG en la Habana)

Finalmente acabou o carnaval. Quer dizer, acaba hoje. A voz do cara que dá as notas para as escolas de samba na apuração de hoje tem mais ou menos o efeito da musiquinha do fantástico: bate aquela tristeza e você pensa que o fim de semana já está acabando e que amanhã começa a semana. Ou, nesse caso, que o ano útil está começando. É claro que isso não vale pra mim. Amanhã cedo estou na labuta de novo, tá pensando o quê? Aqui não tem corpo mole não.

Enfim, enquanto vocês dão seus últimos mergulhos na praia, tomam suas últimas caipirinhas na hora do almoço, fazem o último xixi na rua (assim espero!), pegam a última doença venérea do ano, vamos falar de literatura, ê! O livro de hoje é mais um livro excelente do nosso querido Pedro Juan Gutiérrez que eu recomendo para vocês. Um livro curtinho e divertido, que tem um pouco de tudo: ficção histórica, comédia, trama policial, perseguições de carro, espionagem e a vida de um grandessíssimo escritor: Graham Greene, o GG do título.

A história começa a partir de um fato real: a visita de Graham Greene à Havana, na década de 50. Isso era na época em que Fidel ainda não tinha metido um xeque-mate no Fulgêncio, e Cuba ainda vivia naquelas de todo mundo sendo vigiado, a suspeita do FBI agindo e tudo o mais que o submundo de Havana comportava, e ainda comporta até os dias de hoje, como Gutiérrez faz questão de nos mostrar. Bom, Greene, enquanto está em Cuba, descobre que seu nome está ligado a uma história de assassinato e espionagem, e que alguém está usando seu nome indevidamente, portanto. Aí se mete com o bàs-fond cubano, com putas e putos, ladrões, tarados, etc. Personagens que Pedro Juan já está acostumado a retratar — alguns deles, não me lembro quais agora, já foram retratados em outros livros dele.

Eis o que eu queria dizer sobre esse livro: Nosso GG em Havana é um livro muito diferente da obra de Pedro Juan. Parece que nesse ele resolveu escrever com a cabeça de cima e colocou uma porção de elementos da literatura policial, numa trama coerentemente sóbria. Claro, tem um pouco das safadezas de sempre, mas muito mais contidas, essas. Pesou no livro o raciocínio racional, o mercado do seu id. E Pedro Juan, com isso, provou ser um grande escritor do Cristal, conforme definição mutcho loka que o Italo Calvino fez uma vez, que não cabe explicar aqui agora.

O livro também é uma leve homenagem a Graham Greene, escritor que o autor adora. O título inclusive, vem de um livro de Greene, “Nosso homem em Havana”, também uma estória de espionagem, polícia e ladrão, etecetera. Não que Greene faça alguma vista na literatura de Gutiérrez. Nem sinal dele nas influências. Ainda assim, bom, uma homenagem. Você pode gostar do cabra e não tentar ser como ele, é ou não é? Mais do que isso, porém, é a homenagem à Cuba pré-Fidel. A Cuba moleque, a Cuba arte, a Cuba marota. É claro que eu, do alto da minha falta de verba, nunca fui para Cuba, ainda mais pra Cuba de Fulgêncio, mas tenho a nítida sensação de captar a aura do lugar lendo esse livro. E não é essa intenção de busca pela verdade disfarçada de busca pela verdade uma das coisas mais legais da literatura. É. Quem tá falando sou eu, então é.

Esse projeto da editora Alfaguara é classe bagarai. Esse estilo de capa cheia dos elementos foi o escolhido pras capas do Pedro Juan (a trilogia suja tem a capa poluída desse jeito), e vamos dizer que, pra esse livro, a coisa encaixa direitinho. Mérito de Tita Nigrí. Por dentro, quem já abriu um livro da Alfaguara, abriu todos. A fonte é um pouquinho maior nesse, pra preencher melhor as 125 páginas do romance. A tradução é dos já citados aqui Paulina Watch e Ari Roitman, e o livro tem citações de John Cheever e do próprio Greene. Vale aqui a citação do último, tirada da fala de um personagem de O Americano Tranquilo, seu livro mais badalado: “Pensar é um luxo. Você acha que o camponês se senta para pensar em Deus e na Democracia quando volta de noite para seu casebre de barro?”. Tá, claro que o exemplo é completamente forçado, e só pensa quem foi educado pra pensar, não importando as condições de existência. Aliás, que bela porcaria essa citação, não me convenceu de absolutamente nada. Sai fora, Greene, seu mané. Vem conhecer o profeta Gentileza e outros zés do mundo, vem. Ah, estressei-me agora, então eu vou.

Comentário final: Estação primeira de Mangueira… DEZ!!!

Moacyr Scliar – A mulher que escreveu a bíblia

Como vocês puderam ver, não publiquei niente na quarta-feira, e por uma boa razão: atolado de coisas para fazer. Que lhes interesse, escrevi uma matéria gigaaaante para a Gazeta sobre George Orwell, o mágico do romance panfletário, o rei da metáfora animal, o Gerson King Combo da…bom, já deu pra entender. Que não lhes interesse, eu e minha gloriosa banda Sua bunda fizemos um triunfante show no Blues Velvet bar na quarta-feira e a multidão foi à loucura. Sendo assim, de qualquer forma, parafraseando o título de um outro livro, os dias estavam completamente lotados. E, para citar Marcelo D2, “tá ruim pra você, também tá ruim pra mim, tá ruim pra todo mundo, o jogo é assim”. Alright, chega de citações. Vamos à homenagem.

Moacyr Scliar se foi, minha gente, provando que esse papo de imortal é, na verdade, fruto da imaginação de velhos loucos que têm amigos como Paulo Coelho e Ivo Pitanguy, místicos da alma e da carne. Ainda assim, Scliar era um dos poucos nomes que prestavam dentre os almofadinhas da ABL. Cito mais alguns: João Ubaldo, Ana Maria Machado, Nejar, Lygia Telles e sua chapa Nélida Piñon, Ledo Ivo (“b-ab-aaaaaaaaaca”, dizia ele na entrevista ao Globo News, hilário) e, em menor grau, Cony, o Van Damme entre Schwarzeneggers. Agora, esses os corvos: nem bem o Scliar esfriou e já elegeram um cara pra ficar na cadeira dele, o Marco Lucchesi. Um poeta! Um poeta! Pois eu discordo! Acho que a cadeira do Moacyr Scliar devia ser dada a um escritor frenético como ele. Um cara que lance cinco livros por ano, no mínimo! Brincadeiras à parte, eu quero um dia fazer parte da ABL pra ganhar 15 mil por mês + vida eterna + gato NET + duas mariolas por dia + roupa de Power ranger. E quem não quer? Esse país tem que tirar os escritores da miséria, minha gente. Tira o Paulo Coelho de lá, ele já é rico por seus próprios méritos! Coloque um cara bom, mas marginalizado tipo, sei lá, Marçal Aquino.

Bom, pra homenagear o Scliar, esse grande escritor gaúcho, resolvi resenhar o único livro que já li dele em toda minha vida. E ainda assim fiquei com o pé atrás, porque li emprestado da minha mãe e li em apenas um dia. E isso foi há uns dois anos. Ou seja, tô sem o livro, minha memória já não é mais a mesma, mas enfim, todo jornalista se mete a falar sobre o que não sabe pelo menos uma vez na vida. Se você é jornalista e só fala sobre o que sabe, ou você é chefe, ou você é frila, ou você é desempregado.

A mulher que escreveu a bíblia é um desses livros em que você lê numa sentada, sem nenhuma conotação homossexual aí (aliás, amigos homossexuais, tenho um filme homossexual aqui em casa que estou disposto a passar adiante, quem tiver interesse, contacte. E chega de usar a palavra homossexual que isso é coisa de boiola). É curto, tem punch, tem humor, tem sacanagem, tem contexto histórico, só faltava mesmo ter alienígenas, porrada e perseguição de carro para ser o livro perfeito. A história fala de uma mulher que, fazendo regressão, descobre que, em uma vida passada, foi a única esposa do Rei Salomão que sabia ler e escrever. O que justificava, porque ela era feia pra diabo. Salomão era como um desses pitboys que pegam vinte loiras peitudas pra depois pegar uma gordinha fã de Harry Potter que faz engenharia no CEFET e dizer que também valoriza a beleza interior. Enfim, tendo essa vantagem sobre as loiras peitudas, tem sua existência escalada pela máfia chinesa, quer dizer, pelo Salomão, pra coordenar um bando de escribas mais enrolados que sexo de cobra que estão escrevendo a história da humanidade, desde que o mundo é mundo. E assim ela começa, escrevendo o antigo testamento, enquanto narra sua história de mulher feia e mal-amada.

É bom dizer que essa história de mulher escrevendo a bíblia é uma tese do Harold Bloom, ó, Harold Bloom, velhus decreptus da crítica literária, aquele que tudo sabe e tudo lê, e que a ninguém come. Ele, no livro The Book of J., jogou uma ideia de que a primeira versão da bíblia teria sido escrita por uma mulher. Mas isso é óbvio pô. Olha só as coisas que tem lá: cobra falante, gente feita de costela, o assassino é o Coronel Caim, na biblioteca, com uma pedra mixuruca, enfim, fruto de uma imaginação muito fértil. O mesmo tipo de imaginação que se põe a conjecturar seus whereabouts quando você chega em casa meia noite e cinco ao invés de meia noite. Enfim, desse verde aí que o Bloom jogou, Scliar fez um livrinho mais hilariante do que gás hilariante (que não é tão hilariante assim, ao contrário do que o nome pode supor), e leve, muito leve. Ler a mulher que escreveu a bíblia é o equivalente a alugar um filme do Simon Pegg na locadora porque você já tá de saco cheio de ver Bergmans e Tarkovskys. Vale a pena também pelas sacadinhas que ele mete no meio, tendo em vista o contexto histórico da parada. Uma pena que não me lembro de nenhum agora pra exemplificar. Jornalismo verdade é isso. Eu não minto pra vocês e vocês não mentem pra mim.

Sobre o projeto gráfico, nada tenho a dizer. Já disse, tô sem o livro na mão aqui. Mas a capa reproduz um desenho típico da época, em que ninguém sabia desenhar. Eu seria uma espécie de Michelangelo nessa época. E com meu físico, seria mister universo. Nasci na época errada mesmo… Bom, não foi tanto uma resenha hoje, mais para não deixar a morte do Scliar passar em branco. Descanse em paz, nobre escritor.

Ah sim, esse livro ganhou o prêmio Jabuti em 2000, na época em que o Jabuti premiava bons escritores, e não ficava fazendo média com ninguém.

Comentário final: Você já comeu uma carne assada com uma cenoura no meio? Estranho, muito estranho…

 

Rubem Fonseca – O seminarista

“Gente, foi o Rubem Fonseca que escreveu o Seminarista? Esse gajo é velho, hein?” Não é nada disso, ó pá, manezão, esse seminarista não é o mesmo seminarista do Bernardo Guimarães, o manolo que escreveu Escrava Isaura. O seminarista em questão é o último livro do nosso querido Rubem Fonseca. Poderia dizer que é o mais novo livro dele, mas a verdade é que nem é tão novo assim: foi lançado em 2009.

Bom, alguma consideração sobre o livro antes de adentrarmos em sua história. O Seminarista foi o primeiro livro inédito do autor publicado pela editora Agir. Ele, que até então era publicado pela Companhia das Letras, migrou pra editora nova depois de um rolão envolvendo a publicação de uma autora meio estreante no ramo literário. Mas bom, isso são fofocas de bastidores que aqui não me cabe contar pra não sucitar a violência. Sou um cara da paz e já tô até imaginando as editoras trocando tiro no meio da rua, tal qual Counter Strike naquela fase do Rio de Janeiro. Deixemos isso pra lá. Fato é que Rubão agora é do time da Agir, que está republicando seus livros aos poucos, em edições muito graciosas que comentarei no final.

Vamos ao livro de hoje. O Seminarista conta aquela velha estória do matador profissional que decide largar o osso, e não vê que isso tá errado. Quer dizer, o cara mata um monte de gente durante a vida inteira dele e aí decide parar de matar? Não é justo que uma pessoa tão maldosa assim tenha esse direito, por isso o tenente Aldo Raine faz questão de tatuar uma suástica na testa dos nazistas safados. Enfim, como em qualquer outra estória dessas, aparece uma mocinha inocente e umas pessoas interessadas em assassinar o assassino. Mas José (esse é o nome dele) é um cara sensível: gosta de rock clássico, poesia, literatura, plantinhas, enfim, é uma flor que nasceu do lobo, sem falar que foi seminarista quando mais moço (daí o nome do livro, né, esperto?). Mas, por alguma razão que Rubão não conta pra gente, decidiu fazer o mal e colocar as pessoas pra comer capim pela raiz. “Por quê, tio?” Não interessa pra você, palhaço. Morre, diabo! É inconsistente, incoerente, inconstante, inconstitucionalíssimamente? É. Mas, fazer o que, o cara é consagrado.

Bom, daí que José fica nessas de ser atormentado, tentando cuidar de sua gatinha, encontrando uns camaradas dos tempos de seminário e matando para não ser morto. Resumindo, uma estória pra lá de original. Gente, o cara teve que pensar muito pra escrever esse livro, hein? Qual vai ser o próximo? Uma mulher que toma um pé na bunda e decide se mudar pra algum país romântico da Europa, onde conhece um europeu forte e musculoso? Bah, fala sério, Rubão, meu rapaz, desde que você achou aquela carteira recheada de dólar você não é mais o mesmo.

Melhor é falar do projeto gráfico do livro, porque esse sim é bonito. Margem bem grande, fonte Minion Pro, papel pólen e capas com a mesma disposição de título e nome do autor, e ainda a assinatura dele dentro do quadradinho com o nome da obra. As lombadas são todas brancas e a minha edição ainda veio com um exemplar do conto “A Arte de Andar pelas Ruas do Rio de Janeiro”, bem melhor do que o livro, um conto das antigas e recheados de fotografias iradas sobre a cidade. O livro também tem site, acesse clicando aqui, e veja que no site eles também vendem o livro em versão e-book, para Kindle. Agora, R$19,90 num e-book? Editoras do meu Brasil, não façam as cagadas que a indústria fonográfica fez com o CD. Depois neguinho começa a piratear os livros e vocês não vão gostar. Bora baixar esse preço, né?

Comentário final: Pretty bitch for fun, for fun, for fun.