Hernán Rivera Letelier – A Contadora de Filmes (La Contadora de Películas)

A contadora de FilmesPor essa você não esperava, hein? Livrada.com.br na fuça da rapaziada. É a modernização, galera. Visual novo, domínio novo, tudo pra deixar a sua experiência de leitor mais agradável. Deem aí o feedback necessário das novidades pra saber se estou no caminho certo, ok? No more delongas.

Olha, você que é leitor assíduo do Livrada! deve estar me achando meio amargo por esses dias, com os comentários que teci a respeito dos últimos livros, e com os comentários que estou prestes a tecer sobre o livro de hoje. Bom, talvez eu tenha culpa, talvez eu esteja cansado de ver tanta crítica vaselina por aí, talvez eu esteja querendo ser surpreendido novamente por um bom romance e a frustração só aumenta a cada um que não me satisfaz, mas, por outro lado, as obras lidas também têm sua parcela de culpa. E se um prêmio Nobel de literatura, um clássico austríaco e um badalado escritor brasileiro não têm muito a que se agarrar para salvar as próprias obras, este senhor chileno e seu livreto de 110 páginas não vai ser a obra máxima que vai quebrar o combo.

Eu até tentei, e eu li até o final (até porque não demora mais do que um dia), mas esse A Contadora de Filmes é um dos livros mais deploráveis que li esse ano. Existem várias razões para isso, mas a principal é a pieguisse desenfreada desse escritor que queria fazer uma dessas histórias de singeleza na vida dos pobres que fazem você chorar pela diversão tosca dos menos afortunados enquanto aprecia seu exemplar caprichadíssimo da Cosacnaify (uma grande casa editorial cujos autores nem sempre ficam à altura).

Deixe-me dar as linhas gerais. A história se passa numa vila de mineiros, no meio do deserto do Atacama. A protagonista é Maria Margarita, a caçula de uma família de cinco filhos. O pai é um mineiro aposentado por invalidez que ficou paraplégico durante o trabalho, o que causou o abandono da esposa. A família é de cinéfilos, mas como o pai não consegue andar e se recusa a usar cadeira de rodas, a filha vai ao cinema com o dinheirinho contado que mal dá pra comer e volta pra casa para contar a história pro pai e pros irmãos. Ela conta então como ela conseguiu esse cargo e como se tornou a contadora de filmes oficiais de um povoado pobre e mais inclinado para a narrativa oral do que para a experiência audiovisual, ao que parece.

Se alguém por acaso achar que tanto melodrama não seria encontrado em lugar nenhum fora de um filme do Walter Salles, pode confirmar silenciosamente com a cabeça o que você já sabia. O cineasta-banqueiro que adora contar histórias de pobreza na infância já está mexendo os pauzinhos para fazer um filme a partir do romance. Is it too soon to whisper Oscar?

Bom, não estamos aqui para falar de cinema, então vamos nos ater à obra. A Contadora de Filmes, de uma maneira bem escancarada, coloca em debate uma questão pertinente: a passividade do audiovisual, com todos seus atrativos hã… audiovisuais, não seriam tão atraentes quanto à narrativa sem imagens, essa que depende da capacidade do leitor de introjetar (calafrios com essa palavra) a informação. Ou seja, nenhum David Lean chegaria aos pés do Gedankenbild de um Jeca Tatu com boa disposição para abstrações imagéticas. Estendendo o conceito para fora da tela cinza, a própria experiência humana não seria capaz de fazer frente ao ideário coletivo, inerentemente desprovido das imperfeições que os olhos veriam. Em outras palavras: enquanto os olhos procuram os defeitos, a mente se esbalda na perfeição abstrata. Talvez essa seja a razão de dar dois meses depois de você ter chutado seu namorado e você entrar numas de que era tudo bonito e maravilhoso com ele. Só tô dizendo…

Hernan Rivera LetelierMas não é porque um livro levanta uma bola pertinente desses que ele vale a pena ser salvo. A escrita é tosca, os personagens são chapados e nem sob a espada de Tandera esse cara consegue passar a impressão de que é uma menina que narra a história. Mas não é só isso. Desde que eu assisti O Fabuloso Destino de Amélie Poulain entrei em uma cruzada pessoal contra toda e qualquer obra que, por meio de singeleza, pieguice e imagens belas, não te deixa a opção de não gostar dela sem parecer um velho rancoroso, ou um recalcado, para usar aqui uma palavra do momento, bastante usada para se referir a mim na semana passada. You gotta fight for your right to hate, e isso vale cada vez mais nessa sociedade passivo-agressiva que quer a qualquer custo impor uma cultura de benevolência e altruísmo, sob pena de dedos apontados e gritos de “reaça”, “recalcado” e “preconceituoso”, só para listar os adjetivos mais gerais. Essa sociedade em rede que potencializa a exposição pessoal tá deixando todo mundo maluco pra pagar de bom samaritano. Então, na moral, leva esse dramalhão pra lá e me deixa em paz com meus livros que eu não quero nada que ver com essa história piegas e mal escrita, que tem a audácia de contemplar trechos como:

“Uma vez li uma frase – com certeza de algum autor famoso – que dizia algo assim como a vida está feita da mesma matéria dos senhos. Eu digo que a vida pode perfeitamente estar feita da mesma matéria dos filmes.

Contar um filme é como contar um sonho.

Contar a vida é como contar um sonho ou contar um filme”.

 Ou :

“Quando ela [a mãe da personagem] nos abandonou, do mesmo jeito que meu irmão começou a gaguejar eu me cobri de piolhos brancos. As vizinhas diziam que esse tipo de piolho aparecia quando a gente tinha alguma dor na alma. E coo a dor era pela minha mãe, comecei a comer os piolhos de amor por ela.

Tanto assim eu amava minha mãe.

Tanto assim eu sentia falta dela.”

Se o seu estômago não revirou ao ler esses trechos, parabéns, você é um forte. Eu, por outro lado, não tenho mais pique pra esse tipo de coisa.

Mas aí vem a Cosacnaify e desbanca a obra do autor com um projeto gráfico que é melhor do que a história. Os capítulos cortados com tarjas pretas, como as tarjas de uma tela widescreen, os capítulos curtos e fontes Andralis e Knockout, com papel pólen bold, e pra arrematar chamam o Eric Nepomuceno, que é um dos mais gabaritados tradutores do espanhol para fechar o trabalho. O livro fica uma belezinha, com uma capa que contrasta o preto e branco da fotografia com o amarelo (talvez a cor das legendas) do título. É um livro bonito, mas não pela história.

Comentário final: 110 páginas de papel pólen bold. Machuca menos que piolho branco de dor na alma…

(Sério mesmo que vocês gostam do que eu escrevo aqui nesse comentário final? Não é possível, meu Deus, isso aqui é MUITO sem graça)

Daniel Pellizzari – Digam a Satã que o Recado Foi Entendido

Daniel PellizzariDeixe me começar dizendo que eu nunca havia lido nada do Daniel Pellizzari e que também não acho que esse livro seja parâmetro para julgar a obra dele. Por quê, vocês me perguntariam, se basicamente tudo o que a gente faz aqui é essa crítica metonímica de quem tá com pressa e não vai perder tempo com quem seja minimamente medíocre? Ora, porque Digam a Satã que o Recado Foi Entendido faz parte da coleção Amores Expressos. Aquela em que os escritores vão todos para um canto do mundo passar um mês com a missão de voltar com um romance que fale de amor e que seja ambientado nessa cidade. Deixe-me dizer que não acredito nem um minuto nessa premissa, e não acredito que algo de bom possa sair disso. Afinal, pode a expressão ser encomendada? Pode um sujeito receber uma missão limitadora como essas e voltar com algo genuinamente relevante? Eu duvido muito, até porque já li outros livros dessa coleção e ainda não vi nada que fosse realmente digno de nota. E isso não tem, objetivamente, a ver com a qualidade dos escritores, pelo contrário, gente respeitadíssima deu com os burros n’água nessa aí. A diferença da coleção Amores Expressos para outras coleções que deram certo, como a Plenos Pecados, por exemplo (bom, é bem verdade que só uns quatro livros daqueles prestam, mas são quatro de sete, então a média é boa), é que enquanto ele é geograficamente limitado, é tematicamente genérico. Pensar cada um dos pecados capitais, ou mesmo algo aparentemente mais leviano, sobre os dedos da mão (como na coleção Cinco Dedos de Prosa), é algo infinitamente mais produtivo do que pensar em histórias de amor situadas em diferentes partes do mundo. A boa coisa é que a pancada é amortecida, em boa parte, pelo fato de metade dos escritores incumbidos da missão desrespeitarem essa lei e acabarem trazendo uma história sobre absolutamente qualquer coisa. Senão a coisa ia ser pior ainda, imaginem vocês!

De modo que estamos entendidos que este é um livro conceitualmente único na carreira desse senhor Pelizzari, segundo que o livro encomendado é o livro do escritor profissional, aquele que escreve pra ganhar o cheque, não necessariamente para dar vazão à sua expressão literária (embora isso seja até possível). Mas vamos lá: Digam a Satã que o Recado Foi Entendido se passa em Dublin, capital da Irlanda, e cruza algumas histórias de alguns personagens, todos ou quase todos imigrantes no país de Joyce: a história de um sujeito com o inacreditável nome de Magnus Factor (sério mesmo?), que trabalha numa agência de turismo especializada em roteiros mal assombrados pela cidade, e que se apaixona por uma eslovena vida loka, uma garota de 12 anos que quer fazer uma peregrinação suicida, uma modalidade cada vez mais em voga nos dias atuais, e uma seita que louva deuses celtas para os quais ninguém a não ser a Enya dá a mínima. Isso e outros personagens tão bidimensionais quanto as folhas de papel nos quais estão inseridos. A história do livro é a história do cruzamento desses personagens, não havendo um eixo central da história, nem algo relevante para ser usado como fio condutor. O amor exigido pelas regras da coleção? Meramente protocolar, esqueçam. A Irlanda em si? Talvez, mas essa é uma abordagem muito da superficial para um livro tão curto e tão despretensioso. Os fatos relacionados a Dublin, sua mitologia, sua história e seus elementos são meramente citados com conhecimento enciclopédico. Sério, essa viagem a Dublin poderia muito bem ser substituída pela leitura extensa e excessiva de um almanaque sobre a cidade. Esse conhecimento enciclopédico, irreflexivo e meramente descritivo é a tônica do romance, e é amplamente utilizado pelos personagens, como um polonês, coadjuvante na história, obsessivo por listar epidemias. A coisa em si não serve à história e serve poquíssimo ao personagem – quando muito dá um traço da personalidade dele.

Renato ParadaTalvez o ponto central da história aconteça nas páginas finais. É como aquele caseiro do Iluminado que passa o filme inteiro viajando até o hotel onde um pai de família está despirocando e atrás da família e quando finalmente chega, toma uma machadada nas costas e morre. Tudo converge pro final, mas não necessariamente é o final que você esperaria. E tudo então é muito rápido, abrupto, como se o autor estivesse já meio de saco cheio da história e quisesse colocar o ponto final logo.

Falei até aqui da trama, que tem todos os elementos que você aprende numa oficina literária: múltiplos personagens, coadjuvantes minimamente interessantes, digressões sobre temas populares, conhecimento de almanaque e final convergente. O estilo também segue a fórmula: uso excessivo de oralidade, gírias, neologismos se necessário e uma fórmula bem característica de pequeno ensaio temperado na crônica. A linguagem parece muito a da tradução do Trainspotting, do escocês Irvine Welsh, que foi traduzido justamente pelo autor e pelo Daniel Galera, então, sei lá, deve ter ficado essa influência do que seria uma escrita britânica traduzida na cabeça do Pellizzari, essa que ele ajudou a criar. Quem lê esse blog há muito tempo sabe que eu não sou muito de ficar pinçando trechos pra provar meus pontos de vista, porque trechos servem justamente pra isso: provar pontos específicos, e isso é extremamente tendencioso. Essa opinião é a ideia geral do romance, que o permeia do começo ao fim. Particularmente, não é dos meus estilos literários favoritos, mas parece que a garotada gosta muito hoje em dia. Aliás, suspeito que essa coleção Amores Expressos tenha definido um público que fica entre os 17 e os, sei lá, 22, 23 anos. Pra essa galera os romances têm um apelo de descoberta de mundo e de frescor literário, então sempre é uma coisa boa.

Aliás, deixe-me dizer aqui uma coisa que parece que vai contrariar tudo o que eu já disse: ler esse livro não é uma experiência ruim. É uma leitura rápida e não é irritante, de maneira que se torna uma boa opção de fast-pace, pra ler no aeroporto, no hospital enquanto um parente querido é operado, pra quem visita o Detran regularmente, ou simplesmente pra quem tem com livro aquela atitude de frequentador das extintas locadoras de filmes, que pedem “um filme pra não pensar muito”. É um livro que discute alguma coisa? Não. É um livro que vai mudar a sua vida? Provavelmente não. Mas como a produção atual anda nivelando por baixo, esse Digam a Satã que o Recado Foi Entendido pode servir como o gengibre em conserva, o gari da comida japonesa: tira o gosto da boca entre uma comida e outra.

O projeto gráfico da Companhia das Letras, como sempre, é bem impressionante, e o estilo pop e chapado da capa passa bem essa ideia de uma leitura rápida e para jovens. Por dentro, papel pólen, fonte Electra e uma gramatura boa pra fazer o livro parar de pé. Para se ler em um ou dois dias.

Comentário Final: 184 páginas de papel pólen e gramatura alta. Tá ficando cada vez mais difícil fazer um comentário final. Acho que vou parar com essa ideia.

Wole Soyinka – O Leão e a Joia (The Lion and the Jewel)

the lion and the jewelLiteratura africana, pois sim! O povão vira a cara, fala que não gosta, mas tem que ler, cara, tem que ler literatura da África porque enquanto seu escritor germânico favorito precisa suar a camisa pra encontrar temática substancial capaz de preencher um livro (geralmente com histórias de desagregação familiar), o africano caminha pelas ruas e os dilemas e a vida complexa brota do chão para que ele colha e faça literatura de qualidade com ela. Wole Soyinka, nigeriano prêmio Nobel de literatura de 1986, sabe fazer isso, mas a gente não sabe que ele sabe porque até a Geração Editorial lançar O Leão e a Joia, a gente não tinha absolutamente porcaria nenhuma dele traduzida.

O Leão e a Joia, entretanto, é uma peça de teatro, e embora o sujeito tenha escrito toneladas de peças, também escreveu toneladas de romances e ensaios, então não dá muito pra saber qual é a vertente principal dele, se é que ele tem uma. De qualquer forma o livro dá uma boa ideia das questões que lhe preocupam, já que é uma peça estritamente alegórica, sendo bem pobre de valor literário, na verdade.

Basicamente, é um triângulo amoroso entre a jovem Sidi, que é a gostosinha da tribo yorubá de Ilujinle, ou a joia de Ilujinle, Baroka, que é o velho bale da tribo (bale é tipo um vassalo do Obá, que é o rei da nação), também chamado de Leão, e Lakunle, o professor da tribo. Aí você já consegue perceber os contornos das alegorias: Baroka representa a África hardcore, a parada tribal, ritualística, tradicional, de faca no bucho e tripas na frigideira, e Lakunle é a cultura europeia assimilada, a caricatura pós-colonizatória do africano pseudo-intelectual. E Sidi, ela mesma, é a África dividida entre abraçar o novo ou aferrar-se às raízes. Contudo, sua personalidade egocêntrica é a própria razão da sua ruína. Cabe que ela fica se achando a gostosa depois que um rapaz de Lagos, que está para Ilujinle assim como São Paulo está para Curitiba, tira fotos dela, o que automaticamente alça a garota a um patamar superior ao do próprio bale.

Wole SoyinkaMas Sidi não está necessariamente inclinada a um ou a outro. Ela acha Baroka velho demais para ela, e como o cara já é cheio de esposas, ela acha que isso é um futuro pouco digno pra preciosidade que ela é. Por outro lado, Lakunle é bundão, não quer pagar o “preço” da noiva, e é cheio de ideia de zé ruela, tipo achar que as mulheres são mais burras que os homens e que isso é um fato cientificamente comprovado. Fazendo uma leitura rápida, dá pra sacar que se por um lado, optar por permanecer no que os europeus consideram primitivo, somente à guisa de automatismo, é por demais pobre e simplista para um continente tão rico e poderoso. Por outro lado, o povo africano não se sente completamente pronto para abarcar uma opção civilizatória feita nas coxas, sem qualquer estrutura maior do que a apresentação dos elementos. A coisa parece falsa, e mais do que isso, parece forçada e caricata. E isso não sou eu quem estou dizendo, é tudo o que os personagens dizem sobre os papeis que representam com gestos, falas e atitudes.

Acho que falar mais do que isso sobre a trama seria estragar muito a diversão, já que essa é uma das maiores qualidades do livro: seu desfecho razoavelmente imprevisível. O que posso acrescentar a essa breve explanação, e não pretendo me estender muito no post de hoje, é que, como parte de todo espetáculo africano, a coisa é construída muito mais do que com palavras. Danças, pequenas peças dentro da própria peça (peçaception?), e gestos muito caricatos por parte dos personagens não deixam muita margem para sutilezas. Tudo em O Leão e a Joia é muito escancarado, o que é uma coisa boa se você não tem muita paciência pra teatro, mas uma coisa ruim se você esperava um pouco mais de profundidade dos personagens. No fim das contas, é uma peça extremamente didática, dessas pra ser debatidas na sala de aula mesmo (atenção, professores que ainda não foram rendidos pelo sistema!), mas dificilmente seria um material literário mais rico do que isso. Tenho certeza, contudo, de que essa peça montada deve ser um show.

Aliás, essa edição da Geração Editoral, embora tenha uma capa que não é muito do meu agrado, é bem completa com fotos de montagem da peça, diversas notas para explicar as coisas africanas que a gente não entende e um prefácio razoavelmente esclarecedor para os mais ávidos por subtextos. Papel pólen, fonte grande e uma gramatura boa para fazer um livro de dramaturgia parar em pé e ainda por cima, machucar alguém, caso arremessado com força suficiente. Vou parando por aqui.

Pra quem quiser ler um pouco mais sobre literatura nigeriana, deixo aqui outras duas resenhas que eu fiz. Meio Sol Amarelo, da Chimamanda Ngozi Adichie, e O Mundo se Despedaça, do Chinua Achebe. E para quem quer mais África geral, fica esse aqui.

PS: Seu blogueiro atencioso agendou o post de hoje para sair ontem, de modo que ele já está a 24 horas no ar e isso não é justo com o assinante do Livrada! De maneira que vou fazer uma promoção relâmpago no dia de hoje. Quer ganhar esse livro? Seja o último a comentar nesse post até a meia-noite de hoje. Vale comentar quantas vezes quiser. Vai.

Comentário final: 150 páginas em papel pólen. Epa epa Ê!

Cormac McCarthy – Todos os Belos Cavalos (All The Pretty Horses)

All the pretty horsesTodo mundo que me lê aqui sabe que eu começo falando dos livros pra depois falar da edição. Mas vou inverter a pirâmide hoje (tá ligado em pirâmide invertida? É gíria de jornalista pra prexeca, só quem é malandro sabe) e começar falando da edição. Todos os Belos Cavalos foi lançado pela editora Planeta DeAgostini, que fez a coleção Grandes Escritores da Atualidade, uma dessas coleções de banca de jornal que você compra quinzenalmente pra dar a chance do jornaleiro de ter carne na ceia de natal dele. De modos que esse livro, caso você goste do que eu vou escrever aqui hoje, vai ser meio difícil de ser encontrado, porque a Companhia das Letras, que é quem o publica, deixou esgotar a edição e nem sequer se dignou a fazer uma reimpressão desse que é top 3 das minhas leituras desse ano.

Enfim, a coleção foi lançada em 2003/2004 e era vendida a R$16,90 cada exemplar. Só que os caras fizeram uma coleçãozinha matadora, com títulos como Reparação, Abril Despedaçado, Voragem, Pastoral Americana, Ruído Branco, Todos os Nomes, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Os Versos Satânicos, Santa Evita, Quando Éramos Jovens, Os Cadernos de Dom Rigoberto, Se Um Viajante de Uma Noite de Inverno, Os Mímicos, Coelho Corre.. ah, é demais, cara. Quando descobri isso fiquei meia hora batendo a cabeça na parede me perguntando onde diabos eu estava com a cabeça em 2003 que passei por várias bancas de jornal e não comprei nada disso. Enfim, passou e esse livro foi resgatado pela digníssima num sebo via Estante Virtual, anteriormente propriedade de um certo Ariel R. Pinheiro, que, vou dizer, deu mole ao vender essa joia provavelmente pelo valor de um maço de cigarros. A coleção é caprichada, com capa dura, uma foto boa pacas na capa e de resto, a mesmíssima tradução da editora original, que provavelmente fez com capricho. Recomendo, e agora que vocês já estão ávidos pela coleção, vamos ao livro em si.

Todos os Belos Cavalos é o primeiro volume de uma trilogia chamada “The Border Trilogy”, ou a Trilogia da Fronteira. São romances ambientados na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Seguem a esse o A Travessia (também esgotadão na editora, nem adianta chorar) e Cidades da Planície (talvez esse ainda tenha alguma coisa), os quais certamente estão entre as minhas próximas leituras, todos devidamente providenciados. Por hora, posso falar do primeiro. O livro conta a história de um sujeito chamado John Grady Cole, que veio de uma família de fazendeiros do Texas e cujo sonho maior é… tchanam! Ser fazendeiro. Mas justo quando chega a vez dele de assumir, o avô morre e o resto da família acha por bem vender a droga da fazenda que nunca deu dinheiro mesmo. Ele luta com isso o quanto pode, mas quando vê que não tá dando pé pra ele, resolve pegar um cavalo junto com o primo, de sobrenome Rawlins, e partir pro México, sem nenhum plano muito mais elaborado na cabeça. E aí ele chega numa fazenda mexicana, resolve domar os potros selvagens, se apaixona pela filha do hacendado e se mete em altas confusões, ao estilo faroeste cabôco do McCarthy. Seus personagens são todos sábios taciturnos, ninguém fica desfiando muitas teorias e ninguém vacila  com os sentimentos na frente de ninguém. Onde os fracos não tem vez.

The Border TrilogyA sacada é que tudo isso se passa no ano de 1949, se fiz as contas direito, ou seja, algum tempo depois da época das grandes diligências e da época em que as pessoas faziam viagens de cavalo. A guerra já tinha acabado, “Guerra Fria” era um conceito moderno, como “sustentabilidade” é pra gente hoje, o bebop tocando nas vanguardas e tudo mais, e o cara viajando a cavalo. É justamente essa a graça dos romances desse senhor. Sabe quando você vê essas propagandas patéticas do governo incentivando as pessoas a lerem dizendo “quando você lê, você se transporta para outro mundo”. Bom, isso é balela pra 90% dos livros que eu leio, mas não para os livros do Cormac McCarthy. A parada sempre vai numa vibe meio Red Dead Redemption, meio Sergio Leone, meio propaganda de cigarro (galera que é mais novinha que lê esse blog nem deve saber do que eu tô falando). Bate uma sensação de liberdade, um isolamento do tempo, um despreendimento dos problemas mundanos em favor de questões existenciais.

Porque essa é outra beleza da literatura de McCarthy. A ideia de que mesmo entre pessoas de vida mais simples, ainda há a inquietação cósmica, a vontade de entender o ininteligível, o desassossego da alma e o debate metafísico. Talvez até com mais propriedade, ante o contato maior com a vida do que nós, citadinos bunda-moles. E talvez por isso também o livro faça referência, em seu título, apenas aos cavalos, esses seres que são tratados com todo o carinho e veneração por seus donos. Os personagens de Todos os Belos Cavalos conhecem histórias de cavalos famosos, leem sobre cavalos, discutem sobre cavalos, comparam cavalos, matam e morrem por cavalos. E os cavalos continuam bichos, não são repletos de humanidade como em um certo filme do Spielberg que deveria inaugurar o Oscar de Melhor Cavalo, mas também nem por isso são desprovidos de profundidade ou vida. Entendem os homens, criam laços com eles, mas não se furtam a arroubos de susto e surpresa ante suas atitudes. Ainda são apenas cavalos, mas paradoxalmente são muito mais do que isso.

O que é estranho (e não deixa de ser uma qualidade) é o apelo comercial desse livro, que poderia muito bem virar um drama de faroeste moderno nas mãos de um charlatão de Hollywood. Acho que isso é uma técnica de sobrevivência dos escritores nos Estados Unidos. Nunca fazer um livro puramente contemplativo ou sisudo demais. Sempre tem que dar uma brecha pra, caso surja o desejo, adaptar a coisa pro cinema. Deve ser bem difícil conviver com esse povo ignorantão que mora nessa terra esquecida por Deus por causa disso, mas por outro, a coisa trabalha como um darwinismo literário: quem se sobressai, vira sucesso de crítica e público, e isso nunca vai ser algo ruim em tempos de Quentin Tarantino.

Por fim, Todos os Belos Cavalos pode ser o livro que vai te distrair durante um final de semana ou uma leitura que vai te marcar pela beleza, singeleza e profundidade. Assim como num finado programa da Globo, você decide.

Comentário final: 272 páginas do mundo de Marlboro. Oh yeah!

Milan Kundera – A Brincadeira (Zert)

zertEstavam com saudades? Puxa vida, hein, não dá pra ficar nem mais uma semana fora que esse povo me cobra! Brincadeira, seus queridos, vocês são até muito compreensivos, dado o fato de que não escrevi na semana passada porque fiquei jogando Skyrim. Bom, eu pago minhas contas e, por outro lado, não tem ninguém pagando pra eu fazer esse trabalho periódico de leitura e resenha, leitura e resenha, leitura e resenha, de maneira que não nutro maiores ilusões de que não posso desapontar os fãs. Mas a verdade também é que dei uma desacelerada boa no ritmo das minhas leituras esse ano, e já está ficando difícil ler um por semana para resenhar por aqui, especialmente porque preciso e quero ler uns calhamaços que sejam dignos de nota e… ah, mas vocês não vieram aqui pra ficar lendo minhas lamúrias de leitor preguiçoso e gamer proativo, então vamos ao livro de hoje.

Zert! Zert, ou A Brincadeira, esse que é o primeiro romance do tcheco Milan Kundera. Aquele da Insustentável Leveza do Ser e de A Ignorância, já resenhado por aqui. Vou dizer uma coisa sobre o Milan Kundera desde já, e que serve tanto para quem o leu quanto para quem nunca o leu: Milan Kundera é um excelente narrador e contador de histórias, mas quando ele quer mostrar que é inteligente ou quer pagar de putanheiro, sai de baixo. Ô bichinho chato. Sinceramente, não entendo porque ele faz isso, ele e um cara legal e não precisa ficar se exibindo desse jeito – mesmo porque acho que ninguém vai ler o cara por causa de sua falsa erudição. Por outro lado, talvez esteja aí o segredo do sucesso que o rapazote de 91 anos faz com a juventude. Ora, quem nunca leu A Insustentável Leveza do Ser com seus 15, 17 anos e se achou muito esperto por ler aqueles ensaios sobre a alma feminina e a união soviética? O problema é que o sujeito para de fazer a sua cabeça quando você faz a curva dos vinte e tantos (se não houve nenhum obstáculo no seu crescimento sadio), e foi por isso também que peguei esse livro para ler. Queria ver o que havia na literatura desse cara que me abalasse.

E a resposta é: pouca coisa. Mas a parte que me toca, que é a da diversão de se ler um livro gostoso, acessível e minimamente inteligente, compensa. Antes de falar do livro conteúdo, porém, um adendo sobre o livro forma: Essa capa que vocês estão vendo aí é de uma edição da Companhia das Letras que já pode ser considerada mais ou menos rara. Especificamente, essa imagem é a minha edição escaneada, porque eu mesmo não achei uma imagem boa para publicar aqui no Sr. Google imagens. Acontece que a editora tinha feito uma coleção caprichadinha com xilogravuras e outros rabiscos do Segall na capa, mas como só adolescente lê o Kundera e adolescente, no geral, é um bicho muito duro, praticamente todo o acervo do autor foi transferido para o selo de bolso. Não sou muito dado aos fetiches de colecionador, mas depois que eu compro três livros formatados na mesma edição, eu quero ter os outros da mesma forma. De maneira que, se alguém tiver Risíveis Amores ou A Identidade nessa edição, por favor entre em contato para fazermos negócio. Pois bem.

A brincadeiraO livro tem vários personagens principais, mas podemos restringi-los a três: Ludvik, um rapazote entusiasta do partido comunista que um dia, só de brincadeira, manda uma frase trotkista via cartão postal pra uma namoradinha e cai em desgraça eterna por causa disso; Helena, uma moçoila que recebe o pior dos castigos psicológicos vindo do mundo masculinizado e canastrão da literatura do Kundera; e Jaroslav, o último dos folcloristas morávios, que tenta com todas as forças resgatar as tradições ainda que nem todo mundo esteja na mesma pira. Nossa, esse resumo saiu muito mais conciso do que eu tinha imaginado. E resume bem até!

A coisa acontece mais ou menos assim: Ludvik é escrachado nas reuniões de crítica e autocrítica do partido, uma parada muito comum na época que servia pra todo mundo vigiar todo mundo e manter a humildade ao mesmo tempo. O principal carrasco de sua queda é um cara chamado Pavel Zamanek, que vem a ser o marido de Helena. Ludvik vai trabalhar numa mina de carvão junto com outros traidores do movimento e se envolve com uma menininha chamada Lucie, que o atormenta a vida toda por regular a mixaria pro rapaz sedento de sangue nozóio. Depois de muito tempo, quando Ludvik deixa a mina e se torna um carinha amargo, ele resolve tramar a vingança de sua vida, que é: tchanam: comer a mulher do seu carrasco. Sério, cara, é esse seu plano? Daí você entende porque os adolescentes gostam dele, olha que parada mais Malhação! Que revoltinha do pipoqueiro, hein, amigo. Só vivendo num mundinho de muita putaria sexista isso é considerado uma vingança. Mas tudo bem, prosseguimos. Jaroslav, enquanto isso, é um cara considerado por todos por resgatar a cultura Moravia, que é uma cultura da região de Ostrava da República Checa, onde o livro se passa. Ele faz umas procissões, toca música folclórica e nos enche o saco com mais de um capítulo explicando (com partituras até) porque a música morávia de raiz é complicada e única nesse mundo de meu Deus. Isso é legal se você é musicólogo, tá lendo Kundera e opa! Aparece uma referência rasa sobre um tipo de música a que você nunca deu muita atenção. Mas tirando isso, sério, pra quê? Pra mostrar que você manja das putarias? Você deve ser muito divertido em festas, hein, cara? Só que aí, em sua última brincadeira (outra brincadeira), ele vê que é tão sozinho quanto o rei sozinho do seu pequeno ato dramático.

E que podemos mais dizer sobre esse livro? Bom, ele é, primeiro, uma cutucada no comunismo, uma tara que qualquer leste-europeu tem vez ou outra nessa vida. A coisa do partido que se leva a sério demais e que se empenha mais em castigar seus adeptos do que discutir as ideias que podem levar a coisa pra frente, a linha tênue que o regime guarda com um tipo mundano de religiosidade, essas coisas, você sabe. Isso não é novo, só que ele também fez. Depois, é um livro em que o Kundera desfia – não com tanta maestria como na Insustentável Leveza do Ser – o seu medo de ser corno. A traição está em seus livros como a maior de todas as desgraças, e ele fala um pouco mais sobre ela aqui justapondo-a com outro de seus medos: o de parecer um liso que não come ninguém. Por isso, ele mostra, encarnando no personagem do Ludvik (sempre tem um personagem que é ele mesmo), que manja do que a mulherada quer, e sempre que pode solta algo do tipo “então, teve uma vez que comi uma mina assim, teve outra vez que veio uma cocota e aí… pãnz”, etc. Sinceramente, amigo, já passei da idade de achar isso uma parada legal. E, por último, é uma história bem contada sobre vidas na Chéquia, e isso é o que vale pra mim. Vocês podem gostar do que vocês quiserem no livro, mas pra mim, é só um livro bom que se esforça pra ser um livro ótimo e que não consegue e fica elas por elas. Finito.

Comentário final: 352 páginas em papel pólen. Machuca osso, cartilagem, ideologia política e faz uma boa sequela para o século vindouro.

 

Michel Laub – O Gato Diz Adeus

o-gato-diz-adeus-capaAh, os livros curtos! O paliativo dos críticos procrastinadores com metas a cumprir, sempre à mão e, graças à má vontade desse país pra ler as coisas, cada vez mais fácil de encontrar. Eis que estou aqui, enrolando-me com um livro há mais de um mês — algo imperdoável, sei bem eu, mas às vezes a vida é mais do que livros e pede atenção a outros assuntos, mas só às vezes — e chego ao fim de semana sem ter absolutamente o que resenhar. Minhas leituras do passado já estão num canto um tanto inacessível do meu cérebro, e temo comprometer o julgamento com algo que não esteja fresco em pelo menos dois meses. Mas aí vem esse O Gato diz Adeus, quarto romance do gaúcho Michel Laub, com suas 79 páginas, encarando-me num domingo à noite como quem diz “sério mesmo que você é preguiçoso a esse ponto?”. E eu provo pra esse safado que eu não sou, ora bolas. Aqui dentro bate um coração que anseia por mais atitude, e não posso continuar negando meu coração por muito mais tempo, porque uma hora ele cobra seu preço. Então cá estou com essa obra que talvez seja a mais curta já tratada nesse blog cujo nome evoca os grandes e volumosos clássicos capazes de injuriar uma fera ferida no corpo, na alma e no coração. E atenção, corja: tem spoiler.

O Gato Diz Adeus é um desses livros que você acha que entende até que descobre que não entende, se frustra, tenta voltar umas páginas, tenta nadar corrente acima ante o turbilhão de jogos metalinguísticos que o autor joga na sua cara, mas quando você vê, já está imerso em camadas e camadas de texto, tempos pretéritos mais-que-perfeitos, perfeitos, imperfeitos, complicados e perfeitinhos. A história é basicamente uma, que anda até o ponto em que você começa a lê-la, e depois anda de novo até o ponto em que o que você achava que era literatura despropositada é meta-literatura, escrita por um dos personagens. Pois bem, são três personagens, e cada um deles narra um pouquinho do livro. Um parágrafo ou mais, digamos: Sérgio, um escritor com mania de dominação e um pezinho no swing (não aquele swing que tem música, o swing de casa de swing), Márcia, a mulher coitadinha desse sujeito pintado em pinceladas grossas e esparsas como um ser asqueroso ao extremo, e Roberto, um professor universitário que se torna amante de Márcia depois que Sérgio arma o palco pra oferecer a mulher pra ele. E daí tem um gato, que Márcia oferece pro Sérgio numa tentativa de se reaproximar da vida dele uma vez que as coisas meio que acabam. Meio que acabam, esse período conturbado sem fronteiras definidas.

A história vai rodando assim, tipo um jogral: uma hora fala um, outra hora fala outro, e volta e meia alguém dá a entender que o que um disse foi ouvido ou lido pelos outros dois personagens, que comentam a mesma passagem, por assim dizer. No final do livro, Laub diz que o livro “deve algo”, em estrutura, temática e etc, à Caixa Preta, do Amós Oz, que também é um livro sobre separação e que também tem um personagem que é um escritor e é um escroto e que também tem taras sexuais variadas. Além desse, o Enquanto Agonizo, do Faulkner, e A Chave, do Tanizaki, esses dois sobre os quais nada sei porque não li e não cheguei perto ainda (difícil pra caramba achar A Chave, todos os bons escritores comentam esse livro, mas cadê na loja?). Mas enfim, só pra vocês saberem isso aí, porque achei honesto da parte do cara listar sua… hã… bibliografia inspiracional, e porque vai que vocês leram mais do que eu nisso aí e têm outras coisas a acrescentar, né? A Caixa Preta também é contada de forma epistolar e alternada. Ou esse seria o Meu Michel? Ou o Caro Michele, da Natalia Ginzburg? Gente, é muita coisa na cabeça do cidadão, me desculpem.

Michel Laub por Renato ParadaO mais legal do livro é uma personagem que aparece lá pelas bandas da segunda parte, intitulada “Um Grão, Uma Gota d’Água”, que é uma leitora do romance que o Sérgio escreveu, expondo sua história de devassidão e dominação. A mulher, uma estudante de letras na universidade onde o personagem dá aula, já vai esquentando os motores da crítica do livro, vai comentando as passagens e levanta os pontos altos do livro. E você pode pensar que o Laub talvez seja um desses caras realmente preocupados em fazer o leitor entender as minúcias da história, todas elas pensadas, talvez seja só uma brincadeira com esse fato, e talvez seja ainda a criação de um leitor ideal que dá suas pinceladas sobre a própria obra, mas aí a personagem vai aos poucos se sobrepondo à trama e se imbuindo de significado. Não vou dizer mais, mas sei que achei a parada bem inventiva, para o bem ou para o mal.

E no final, aquela pergunta que precisa ser respondida para as pessoas que vem aqui: Esse livro é sobre o quê? Bom, eu diria que é sobre isso: um cara devasso e cruel e o jogo que ele monta pros outros, e como cada um reage a tudo isso. É uma história de submissão, dominação, ciúmes, sentimentos complexos ligados ao voyeurismo e à troca de casais, tudo numa polifonia que, é preciso dizer, peca por não criar vozes próprias, diferentes umas das outras. Mas fora isso, é o que já comentei aqui, e quem gosta de corrida de fundo pode muito bem pegar esse livro num dia preguiçoso. E não precisa se incomodar em achar um marcador de páginas.

Essa capa modernética e neonzótica da Companhia das Letras me faz supor que o objetivo deles com o Laub é fazer uma parada completamente diferente da outra em cada um dos livros dele. Mas por dentro é aquele padrão: Electra em pólen bold pra ver se o livro para de pé com uma gramatura boa. Gosto de capas gráficas, elas dão uma certa aura de grandiosidade e de edição definitiva do livro, sem falar que parece que o cara não conseguiu traduzir em imagens a história, o que é sempre um ponto positivo pro autor.

Comentário final: 79 páginas em pólen bold. Faz machucadinho não, tio.

Ismail Kadaré – O Jantar Errado (Darka e gabuar)

darka e gabuarToda vez que eu faço um post sobre o Ismail Kadaré aqui nessa espelunca eu perco cinco fãs no Brasil e ganho vinte na Albânia. Até hoje tem gente de lá que entra aqui todo dia procurando pelos livros desse simpático sujeito triste que tem a responsabilidade moral de colocar seu diminuto país no mapa e na rota da literatura. O Jantar Errado é seu mais recente romance mas, veja bem, é de 2009. Contudo, não quero ninguém reclamando do delay de quatro anos. Primeiro, porque esse delay é bem menor que o delay do cinema da minha vila, que acredito estar exibindo Titanic por esses dias. Segundo, porque se o Brasil não tivesse Bernardo Joffily, vocês estariam chupando o dedo ou se contentando com traduções indiretas do francês. E tradução indireta é que nem usar duas camisinhas, vocês sabem. O nosso grande Joffily, que até onde sei, também é editor do portal Vermelho.org (a esquerda bem informada, diziam eles), talvez seja nosso único tradutor direto do albanês, mas a sorte dele é que a demanda também não é muita, porque a gente só conhece um escritor da Albânia. Então tá tudo certo.

Pois bem. De todos os livros que eu já li do Ismail Kadaré, O Jantar Errado foi o que eu menos gostei. E vejam que eu tenho a envergadura moral mesmo para espinafrar um auto que eu gosto e conheço muito. Quer dizer, para ser justo, li seis livros dele: Abril Despedaçado, Dossiê H, O Acidente, Uma Questão de Loucura e Vida, Jogo e Morte de Lul Mazrek. Então estou assim, no limiar entre conhecer pouco e conhecer muito da obra de um autor. Gosto de pensar que estou no caminho certo. Ok, então, se a gente pegar três desses livros – Dossiê H, o Acidente e O Jantar Errado – e colocá-los nessa ordem, cronológica (Abril Despedaçado é de antes desses, Uma Questão de Loucura não conta porque é autobiográfico e Lul Mazrek pode ser um ponto fora da curva, vai), dá pra perceber que o autor foi “evoluindo” numa linha de distanciamento do núcleo da narrativa em favor de um sobrevoo geral sobre toda a ambientação do romance. Esse livro é o ponto máximo desse movimento. A história começa falando de dois médicos, o Guramento Grande e o Guramento Pequeno. Os dois tem o mesmo sobrenome, e por causa disso os dois são alvo de comparação para qualquer coisa. Primeiro erro já tá aí. Que introduçãozinha sem vergonha, hein? Conheço gente que faz oficina de escrita criativa que bola coisa melhor do que isso. Bom, mas aí o Guramento Grande ganha mais destaque na história quando o exército nazista (ah tá, o livro se passa na segunda guerra, alright?) invade Girokastra, que é onde se passa o livro e também onde Kadaré nasceu (ele até cita uns parentes dele como figurantes no livro), e o general malvadão vai pra casa do Guramento pra um jantar, porque ele estudou na Alemanha e eles se conheceram lá. O exército prende uma porrada de gente logo de cara como represália por um levante de resistência contra os nazis na entrada da cidade e ele programa a execução de todos eles como forma de retaliação. E aí o Guramento pede pro general malvadão liberar os presos, e ele realmente libera. Só que ninguém sabe a custo de quê, e tampouco o que aconteceu nesse jantar misterioso.

Ismail Kadaré 4Pronto, a partir daí a história entra numa pira meio David Lynch de não explicar direito o que tá acontecendo e ainda conseguir a proeza de te deixar com cagaço da história. Porque aí tem chantagem, gente que não é gente, gente que já morreu e não sabe, enfim, toda a sorte de reviravoltas digna de um Revenge (vocês assistem a esse programa? Recomendo pra quem gosta de ver barraco e climão) que não necessariamente deixam o livro mais interessante de se ler. Isso porque existe algo na literatura do Kadaré que a torna extremamente dispersiva. Não ruim, apenas… dispersiva. Ela requer uma imersão maior na leitura, e ele cobra isso de você com passagens aparentemente insignificantes que se tornam maiores depois.

E agora vocês me perguntariam, “tá, Yuri, mas o que isso tem a ver com o lance do sobrevoo geral sobre o ambiente do romance?”. E eu respondo. Tem a ver que praticamente a primeira metade do livro é narrada de longe. O narrador onisciente passa pela vila fazendo um recorte dos melhores boatos que a população faz sobre a invasão, o jantar, os nazistas e tudo mais, e se constrói isso: um clima geral de vozes anônimas e aparentemente coletivas. Só que você, leitor esperto que lê o Livrada!, sabe que o recorte do narrador já é parcial por si só, e esse clima já está comprometido desde o começo, até porque não aparecem personagens com cara para confirmar esses boatos depois. O resultado, na minha modesta opinião, é porco, e, de novo, saberia encontrar gente em oficina de escrita criativa que bolaria um jeito melhor de retratar o clima da cidade.

Já pelo meio do livro você já flagra como ele vai acabar, se você é desses para quem o mistério é parte principal da experiência de ler um livro. E acho que pro Kadaré é mesmo parte principal, porque o cara discute muito pouca coisa além do romance. E isso é outra coisa que eu não gosto. Acho que ele já foi muito mais preocupado em mostrar as contradições e as idiossincrasias do povo e do país, e agora ele resolveu fazer um fast-pace mixuruca. Fast-pace mesmo, li em um ou dois dias. E o final em si, bem, não é lá essas coisas. É só mais um final triste de um livro do Kadaré que certamente não será sua obra mais lembrada.

Ainda assim, o livro, enquanto objeto, continua uma obra muito bonita graças a não-tão-caprichada-edição-da-Companhia-das-letras-que-ainda-assim-é-mais caprichada-que-qualquer-livro-que-você-acha-por-aí. Papel de boa gramatura, fonte Electra, a minha favorita e uma capa que ainda que não seja inteiramente do meu agrado, orna com a recente mudança no planejamento gráfico dos livros do autor e exatamente por isso me agrada.

Comentário final: 164 páginas de puuuuuuura boataria.

Lev Tolstói – A Sonata a Kreutzer (Крейцерова соната)

Крейцерова сонатаTolstói, galera! Esse russo maluco não deixa pedra sobre pedra quando resolve falar sobre as coisas que incomodam seu coraçãozinho. Mais especialmente, sobre suas ideias sobre casamento. O doido já havia escrito Anna Kariênina quando publicou esse tresloucado e surpreendentemente convicente A Sonata a Kreutzer que não, não é um livro sobre a pungente obra de Beethoven, outro malucão a seu modo, e igualmente brilhante. E só pra avisar os desavisados, esse aqui tem spoiler, e se você acha que isso é um impeditivo pra você, sai do meu blog e vai ler policial do Jô Soares, seu mané.

Falemos um pouco de Tolstói. Vejamos… Tolstói era como um Lobão russo, guardadas as devidas proporções. Ele era muito popular já em sua época, e tudo o que ele falava valia ouro, mas aí ele começou a pirar na batatinha e lá pelo fim da vida dele, só tinha ideia maluca que ninguém levava a sério, embora nunca deixassem de tê-lo na mais alta conta. Não, acho que ele não era bem um Lobão russo, ninguém nunca levou o Lobão muito a sério e ele nunca foi muito popular… Digamos, um Mario Vargas Llosa russo. Pronto, agora preciso ficar importando analogia do Peru… francamente. Esse, meus senhores, é o país que vai receber uma Copa do Mundo. Vão vendo.

Enfim, aqui nesse livro Tolstói expôs sua real ideia sobre o matrimônio. Diz ele, basicamente, que não há como manter um casamento por tanto tempo. É uma ideia arcaica, inventada por gente que não queria saber de dividir riquezas em tempos extremamente monótonos. A única forma de ser casado pro resto da vida é ou ser infiel, ou ser abstêmio ou matar a esposa. Ele coloca essa ideia por meio da história de Pozdnyshev, um sujeito intrometido que entreouve uma conversa e começa um monólogo que basicamente é o livro inteiro. Ele conta então como escapou da condenação pelo assassinato da própria esposa.

Ele conta como tudo começou muito bem entre eles até começarem as briguinhas de casal. Uma parada insignificante e o outro já está gritando, e cada palavra dita é mal-interpretada, pervertida em seu significado e jogada contra quem a proferiu – algo que todo mundo que já namorou uma pessoa maluca pode entender –, aquela paz de espírito que nunca chega e, se chega, dura só um pouquinho e vai embora, etc. Vida dura.

Liev TolstoiNo meio disso tudo, surge um violinista. O sujeito é suave e ligeiro, e chega de conversinha pedindo umas coisas para nosso protagonista, mas trava nas quatro quando vê a esposa. Aí surge um pretexto de tocarem juntos, já que ela toca piano também, e o resto dá pra imaginar. O Pozdnyshev até aproxima os dois só pra ver a reação da mulher, que dubiamente rechaça o violinista, não se sabe se por cinismo ou verdadeiramente. Mas ela vai se aproximando dele, com aquela cara de “mas não é minha culpa!”, e o marido vai se roendo de ódio. Até que inventam de se apresentarem juntos, e agora o cara descobre que o potencial Ricardão agora está visitando sua esposa quando ele não está em casa. A peça escolhida é justamente a Sonata a Kreutzer. Agora, sobre isso, é importante dizer duas coisas. A- Tolstói era um cara que levava a música muito a sério, do tipo que chorava todas as vezes que escutava uma música triste, e se irritava quando não entendia que tipo de sentimento a música em questão queria lhe transmitir. B- Tolstói odiava Beethoven, como odiava qualquer compositor clássico, mas talvez um pouco mais. Ele achava que a verdadeira música vinha do povo – os funks e arrochas eslavos, por assim dizer – e que esse povo metido a besta que faz música clássica quer mesmo é ficar mostrando virtuosismo e ganhar dinheiro com uma arte belíssima e pura. Junte A + B e você consegue imaginar o furacão de sentimentos para o qual um personagem tolstoiano é arremessado ao ouvir a Sonata a Kreutzer, um petardo das sonatas para piano e violino, quem já ouviu sabe. O primeiro movimento, em especial, tem uma grandiloquência que não combina com nenhum evento menor como o proposto pelo romance. Já não lembro qual era, acho que era o equivalente ao nosso churrascão de domingo. Imagine tocar Beethoven no churrascão de domingo, uma situação em que até um Caetano Veloso já soa demais. Isso tudo deu para o personagem a ideia de que a potência da música dizia respeito não ao evento, mas à relação velada desses dois. Pronto, agora os momentos finais eu deixo para o leitor se deleitar, porque eu mando spoiler na testa dos recalcados, mas também não fico entregando as paradas desnecessariamente. Viu como eu sou bonzinho.

Muito engraçado a forma como os críticos do livro – o tradutor, o grande Boris Schaiderman (somos todos gratos pelo seu trabalho, ó grande Boris) e o maluquete que fez a orelha – se empenham para falar que as ideias de Tolstoi sobre o casamento são todas furadas e que não dá pra levar a sério uma porcaria dessas. Mas a verdade é que Tolstói é muito convicente em sua argumentação, e suas ideias, longe de serem tresloucadas, são frutos de uma conexão íntima do homem moderno com seu passado evolutivo. O homem que se questiona onde o motor da história falhou e deu origem a esse projeto utópico de civilização, com sentimentos e valores maiores do que a própria humanidade em si, falha e abjeta como só ela. Coisas como o amor, a devoção matrimonial, todo esse pacote de cultura deísta que a prática já mostrou ser furada completa para 99% das pessoas, e agora o sujeito precisa conviver com isso, pois questionar esses valores, como Tolstói fez, é perigosíssimo, um atentado capaz de ruir a sociedade por dentro. Afinal, quase todo mundo sabe que ela se escora apenas em seus próprios dogmas. Aliás, dogma é uma parada que foi inventada para sustentar paradas insustentáveis, não acham? Se acharem, por favor, façam uma imagem com a minha foto e essa frase circularem no Facebook. “Dogma é uma parada que foi inventada para sustentar paradas insustentáveis” – Livrada! Conto com vocês.

Mas eu acho que a razão pela qual o livro é tão rechaçado é sua suposta misoginia. Tolstói esculacha a mulherada nesse livro com frases do tipo: “As mulheres procedem exatamente como os judeus, que se vingam por seu poderio financeiro da opressão que lhes é infligida”. BOOM! Ou: “”Assim como aquelas (as prostitutas) aplicam todos os seus recursos para atrair os homens, fazem estas também. Nenhuma diferença. Numa distinção rigorosa, deve-se apenas dizer que as prostitutas a curto prazo são geralmente desprezadas, e as mulheres a prazo longo, respeitadasBOOM BOOM BOOM BOOM. E nessa toada ele aproveita para, paradoxalmente, meter o pau no sexo, o verdadeiro motivo da ruína de nossa civilização, segundo ele. Claro, ninguém em sã consciência falaria mal do sexo ou das mulheres, mas é aí que está. Tolstói está se referindo ao sexo e às mulheres tal qual são apresentadas na sociedade. A primeira, um ser tratado como inferior que busca ardis para dar sentido a uma existência passiva; o segundo, como a extensão do domínio da luta, já dizia nosso querido Michel Houellebecq. Sim, diz Tolstói, do jeito que estão, as coisas estão podres, e ele não necessariamente propõe nada melhor do que a abstinência sexual, mas faz sua denúncia com categoria.

Enfim, cabe aí a crítica do grande Tolstói a nossos valores defasados. E temos mais uma história de ciúmes, traição, vingança e purgação, para se somar a tantas outras obras dessa flor de obsessão da literatura russa. Tudo isso vem embalado nesse projetinho maravilhoso da Editora 34, essa linda que gosta mesmo é de clássicos de qualidade e capricha na edição, quer você goste do livro ou não. Papel pólen, fonte Sabon, xilogravura de Emil Nolde (alemães também fazem xilogravura, qualé?), e tradutores competentíssimos que têm a maior paciência do mundo pra te explicar tudo o que você não entende sobre a Rússia e seus russos. Como não gostar?

Comentário final: 113 páginas de papel pólen soft. Dogma é uma parada que foi inventada para sustentar paradas insustentáveis.

3 anos!

Ô, ô, ô, o Livrada! voltou!, cantariam vocês, caso tivessem inclinações para rimas pobres e fossem educados musicalmente nas arquibancadas dos estádios. Mas como sei que meus leitores podem ser poucos (lentamente se tornando muitos), mas com a qualidade intelectual para apreciar boas piadas e críticas ácidas sobre livros outrora respeitados, sei que o que impera por aqui é uma casualidade mais comportada e menos musical. Não tem problema, o fato é que após pouco mais de um mês, estamos cá de volta para nossa árdua e inglória missão de propagar piadas e exegese literária aos quatro cantos da interweb brasileira e mundial.

E estou cada vez mais relapso com as efemérides, pois passou o aniversário do Livrada! e eu deixei por isso mesmo, sendo que não deveria ser assim. Afinal de contas, são três anos da minha vida dedicados a esse recôndito obscuro da deepweb. De novo, não ganhei dinheiro, mas ganhei amigos. Trocaria os amigos por dinheiro? Talvez, mas o fato é que consegui fazer desse lugar mais um dentre os milhões a discutir literatura de qualidade. E pode ser um pouco arrogante da minha parte, ou pode ser o timing, mas o fato é que na época em que comecei isso aqui, no começo de 2010, quase não havia blogs de literatura de qualidade e muito menos que tratassem o assunto de maneira leve e engraçada, ao passo que hoje tem um engraçadão em cada esquina. De maneira que o Livrada! pode ser considerado pioneiro em alguma coisa, e isso muito me orgulha.

De lá pra cá, muita coisa mudou no mundo da literatura, e destacaria, sobretudo, o crescimento absurdo do mercado editorial e a maneira como as editoras tratam hoje os blogs literários. A sensação é quase como a daquela galera de Seattle que fazia um som assim, meio pop, meio deprê, e de repente todos começaram a assinar contratos com grandes gravadoras. Ser percebido por quem tem interesse mercadológico no que você faz é bom, por que de repente você pelo menos não gasta mais dinheiro para alimentar isso com novidades, mas ser percebido por quem tem interesse cultural no que você escreve não tem preço. As mensagens de apoio e carinho que recebo aqui nesta caixa de comentários e da cada vez mais curtida página do Facebook por vezes me deram fôlego para escrever por mais uma semana, e por isso eu agradeço a todos.

Mas nada de ficar sentimentalóide por agora. Estamos em celebração pelos três anos do Livrada!, e não poderia deixar de falar dos escritores que também passaram por aqui. Cristóvão Tezza, Xico Sá, Elvira Vigna, Valter Hugo Mãe e Pedro Juan Gutierrez, obrigado pela leitura. E se deixei de agradecer a algum autor comentado, shame on you! Custa fazer a gente saber que você passou por aqui, ô, gostoso? Larga a mão de ser gostoso, ô, gostoso. Seja humilde, ô, gostoso. Nojento, tcham.

Eu tinha um livro para comentar por aqui nessa semana, mas resolvi dedicar esse post a nós mesmo e a tudo que construímos. E por nós quero dizer eu, você, leitor costumaz, você, leitor esporádico e você, adolescente chato que vem aqui pedir resumo de livro pra trabalho de escola. Obrigado pelas lembranças boas, pelos prêmios disputados e nunca conquistados, por todos os anunciantes que desapareceram depois de saber o preço de um banner simples aqui (eu acho que os caras tão achando que o Livrada! é bolinho ainda), por todas as editoras parceiras que me mandam livros sem pressão e por toda a atenção dedicada. Continuamos nos vendo por aqui até surgir a ordem de despejo.

Doem dinheiro para o Livrada! (é sério).

Nikolai Gogól – Tarás Bulba (Тара́с Бу́льба)

Тара́с Бу́льбаTalvez a personagem mais rasa de toda a história do Breaking Bad, a Marie, cunhada do Walter White é, ainda assim, mais profunda que boa parte dos protagonistas de seriados que a gente vê por aí – e olha que ela é uma secundária bem secundária. Seu bordão favorito diz: “Na dúvida… roxo”, referindo-se a sua cor favorita, uma tentativa desesperada da personagem de acrescentar mistério e complexidade a uma personalidade tão calcada na inveja e na ostentação.

A frase da Marie pode ser adaptada aqui para meus propósitos: “Na dúvida…russos”. Ora, eis aí você, entediado com a mesmice da estética urbana da literatura brasileira contemporânea. Russos. Você aí que reclama que a emergente literatura americana não fala ao seu coração. Russos. Você que reclama que o mérito literário é ofuscado pela especulação editorial. Russos. Você que não gosta de ler uma boa história que seja apenas uma boa história, desprovida de maiores significados. Russos.

A literatura russa, meus camaradinhas, é o elixir da vida literária, uma fonte quase inesgotável de bom paladar. Os russos são praticamente os Globetrotters da fina arte de colocar uma palavra na frente da outra até virar obra-prima. E Nikolai Gogól, que na verdade era ucraniano, mas como naquela época era tudo a mesma coisa, é fagocitado pelo dream team da literatura europeia do século 19. E essa pequena novelinha, intitulada Tarás Bulba, ilustra bem a potência da escrita desse cara. Vamos a ela.

Publicada em 1835, na época em que a Ucrânica morava na casinha de cachorro no quintal da Polônia, Tarás Bulba é um clássico folclórico-épico-powerviolence, uma dessas histórias bem fundamentadas no espírito cossaco, que é uma espécie de gaúcho mais macho e mais bêbado. E, aliás, essa é a coisa boa da literatura russa: todos os livros falam sobre a Rússia. Na dúvida sobre algum simbolismo de obra russa? Pode ter 90% de certeza de que o elemento que você está tentando decifrar simboliza a pátria-mãe de maneira geral.

Tarás Bulba é o nome do velhinho protagonista. Ele tem dois filhos, Óstap e Andrií, que regressam ao lar depois de terminar seus estudos. Ora, o Bulba é um cara das antigas, da época em que escola era coisa de grã-fino, e com medo dos filhos emboiolarem, resolve pegar os dois e se alistar junto com eles nas tropas zaporogas, que eram uns cabras machos que em tempos outros lutavam e matavam, mas que então só bebiam. Ele chega acelerado. “Vamo matá uns cabras aí!”, ele teria dito, mas seus superiores só suspiraram e disseram. “Mas a gente assinou contrato de paz com meio mundo, não tem com quem brigar”. Então eles vagueiam e vagueiam até descobrir uma pinimba mínima com os judeus poloneses que estariam extorquindo seus irmãos de pátria, e partem pra lá com toda fúria cristã junto com uns tártaros que por acaso estavam ali de bobeira. Só que aí o Andrií conhece uma polaca ajeitada e bandeia pro lado de lá no meio de um cerco. Pronto, está armado o grande livro de guerra que vocês vão ler se tiverem algum juízo.

Микола ГогольBom, a primeira coisa a se considerar é que Tarás Bulba foi um dos primeiros livros a enaltecer gente de baixo, gente do povão, gente que a Regina Casé entrevista pro Fantástico. Com isso, veio também o uso de expressões populares e uma certa aura de anjo tosco para dar digamos… cor local pra essa galera. Muito xingamento, bebedeira, porradaria e um ritual de coroação de general muito do escroto, com lama na cabeça e tals. Isso tudo faz com que os cossacos sejam uma galera muito cool, e muito valentona, tipo um Leões da Fabulosa eslava.

Agora, de uma maneira geral, é possível fazer uma leitura elitista da obra também. Dá pra ver, só pela cara, que o Gogól não é exatamente um cara que veio das streets, né? Bom, daí que a história toda tem, em seu desenvolvimento, um simbolismo global, razão pela qual, inclusive, Tarás Bulba faz parte de uma série de novelas chamada Mírgorod (algo como Cidade do Mundo, e fiquei orgulhoso porque consegui traduzir essa expressão sozinho). Cabe que a mãe dos moleques fica chorando em silêncio vendo os filhos letrados saindo pra guerra por causa do pai velho. É como se toda a terra russa, numa ânsia para se ocidentalizar e, antes de tudo, vestir a coleção outono-inverno da civilização, se atrasasse toda por conta da vibe ogra e ongonorante dos cossacos, uma verdadeira pedra no sapato da civilidade, ainda que amplamente adorados por suas histórias fantásticas de façanhas incríveis, capaz de arrastar até mesmo as novas gerações letradas e comportadas para os olhos franceses. Isso se traduz inclusive durante a primeira metade da história, quando os cossacos não acham com quem brigar e muitos pisam na bola feio com as tropas por conta das bebedeiras. Ou seja, nem pra porrada mais essa galera serve. Mas aí, da metade pro final, entra a celebração ucraniana, doa a quem doer, apesar dos pesares, grandes heróis e muito honrados sim senhor, mas ao mesmo tempo os diminui pelos vacilos constantes. Ou seja, não é nem a figura do herói nem a do completo anti-herói que temos aqui, mas o começo da decadência cossaca explorada em toda sua complexidade humana. Gogól é assim, um cara dividido entre o mundo ao qual pertence e que necessariamente é antagônico ao mundo da ogrisse, e o mundo da celebração folclórica. É tipo você gostar de Lampião pela seu banditismo por uma questão de classe, mas ficar puto quando uma moça é estuprada na sua cidade. Shame on you, aliás.

Esse livro faz parte da Coleção Leste, da editora 34, e tem tradução direta de Nivaldo dos Santos, que está para Paulo Bezerra, Rubens Figueiredo e Boris Schneiderman como Van Damme está para Stallone, Schwarzenegger e Chuck Norris. É um cara bom demais, mas subestimado ante seus pares, acredito. O sujeito trabalhou numa rádio em Moscou, galera, isso é muito tr00 pra tradutores. Pensem nisso. O livro conta com um pequeno posfácio dele, que contextualiza a obra na história, é impresso em papel pólen, fonte Sabon e uma belíssima ilustração de ninguém menos que Delacroix. Gente refinada é outra coisa.

PS: Daqui a uma semana tiro férias e o blog vai ficar parado por um mês e meio. Pode ser que esse seja o último post antes do recesso, porque tô na semana dos preparativos pra viagem. Mas se der tempo, faço outro pra próxima segunda.

Comentário final: 170 páginas em papel pólen. Cacete na cossacada!