João Ubaldo Ribeiro – Viva o Povo Brasileiro

Viva o Povo BrasileiroNão costumo ficar aqui falando de vários autores nacionais em seguida, mas já vi que tinha falado do Luiz Alfredo Garcia-Roza e do Cristóvão Tezza nos últimos posts e pensei “que se dane, vamos emendar mais um”. Até pouco tempo atrás, achava que a literatura nacional era a melhor do mundo, riquíssima em tudo o que produzia. Até que comecei a ver umas cacas sendo publicadas e caí na dura e triste realidade: o Brasil anda mal das pernas de escritores vivos. Sim, temos um aqui, um acolá, mas compare você a meia dúzia de gatos pingados de hoje e a escrete de quarenta ou cinquenta anos atrás e poderá constatar que a morte fez muito mal à arte literária do nosso país. Vocês podem não concordar comigo, mas sei de uma pessoa que concorda: o senhor Paulo Venturelli, expert no campo dos livros, disse mesmo que o que resta hoje é uma repetição de edições que tratam da estética da cidade: “acendi um cigarro, olhei pra ela nua na cama, aí achei uma garrafa de vodca perto do meu tênis e fui pra cozinha” blé, se você já passou da sua adolescência, esse tipo de coisa não vai fazer sua cabeça.

Enfim, já deu pra perceber que eu to enrolando para falar do livro de hoje, e tenho uma razão muito forte para isso: não lembro de muita coisa do Viva o Povo Brasileiro, embora seja uma obra que passei muito tempo lendo (são 700 páginas, afinal). Acho que isso aconteceu porque o li logo antes de ler A República dos Bugres, que é um livro mais desconhecido, porém muito melhor. Mesmo assim, não queria deixar de falar sobre ele. Primeiro que o João Ubaldo é um dos únicos imortais que realmente merecem ser imortalizados. Segundo que esse livro é mega importante, papo de ser leitura obrigatória para trainees dos mais diversos. Terceiro que é um tijolaço, e tava cansado de falar de livro de 200 páginas. Quarto que é uma ficção histórica, um dos meus gêneros literários favoritos, que peguei gosto por causa da queridíssima professora Marilene Weinhardt, assumidade no assunto. Quinto porque estou procurando resenhar livros mais conhecidos, visto que quando resolvo falar de umas coisas que só eu li, vocês se acabrunham e não comentam (aliás, conto com vocês para complementarem essa resenha). Sexto porque gosto daquele poema homônimo do Patativa do Assaré, até foi usado naquela música “Brasileiro” do The Funk Fuckers. Então chega de razões.

Viva o Povo Brasileiro é, como eu havia dito, uma ficção histórica. Ou não é (Cléber Machado style). Na verdade, há o contexto histórico, mas não há personagens migrantes — pelo que eu consigo me lembrar. (personagem migrante é o personagem que existiu de verdade e tá sendo ficcionalizado ali no livro. Tá pensando o quê, rapá? Livrada! também é cultura!). O livro cobre quase toda a história da formação do Brasil, bote aí uns quatrocentos anos, e, por causa disso, são vários os personagens, episódios e lugares que o livro traz. E tudo isso para mostrar o seguinte: o Povo Brasileiro, essa entidade anônima, porém definível, é um traste.

Logo no começo da história, há a descrição da morte de um tal de Alferes Galvão, um pescador adolescente que era chamado de alferes pelos amigos. A descrição do rapazote, tido como um mártir, quando na verdade era um Zé ruela qualquer já demonstra a ideia principal do livro: a de que os episódios que passam para a história são muito diferentes e muito menos gloriosos do que os fatos que realmente aconteceram. Se não acredita, lê lá a epígrafe: “O segredo da Verdade é a seguinte: não existem fatos, só existem histórias”.

Vou falar só de dois personagens bem legais do livro, e ambos aparecem no comecinho dela: um deles é Cabôco Capiroba, um canibal baiano que só gosta de comer holandês (nome que o amigo Cássio tomou para si e assina tudo que tange a sua persona virtual). Logo depois, um general chamado Perilo Ambrósio (tive que dar uma folheada aqui pra lembrar o nome do gajo, confesso), um covardão que não gosta de entrar pro pau nas guerras, mas faz um teatrão pro general: coloca uma tipóia ensangüentada com o sangue de um escravo e fala que brigou demais, pra mostrar que tem aquilo roxo. O sacana ainda corta a língua do escravo fora, silenciando a tistimunha. E vai dizer, essa não é a história eterna do Brasil? O rico sacaneando o pobre pra ficar bem na foto?

A primeira impressão que tive quando comecei a ler esse livro é que subestimei a escrita de João Ubaldo. Só havia lido dele A Casa dos Budas Ditosos, há muito tempo, quando era um moleque ainda, e não achei muito difícil. Mas esse livro não. É erudito e rebuscado no úrtimo. Na maioria das vezes esse tipo de coisa afasta o caboclo do livro, mas nesse caso, pelo menos pra mim, provou o valor da escrita desse baiano (aliás, acho que o povo da Bahia precisa se orgulhar muito de ter o João Ubaldo e o Milton Santos, porque nos últimos anos é só Parangolé e o diabo a quatro). E claro, tá cheio de escritor mané por aí, mas nenhum deles vai escrever uma ficção histórica. Escrever um livro do gênero é botar o pau na mesa mesmo. Assinar atestado de fodão. Estudar para fazer uma coisa que qualquer um pode fazer só imaginando é coisa de gente boa da melhor qualidade, por isso, deem valor. Aliás, o cara cujo nome é passível de constar horizontalmente na lombada de um livro tá com tudo e não tá prosa.

Sobre o projeto gráfico: Na época em que ganhei esse livro do meu pai (querido pai, sempre incentivando a leitura da prole), existiam pelo menos três ou quatro edições diferentes do livro, incluindo a versão de estudante e a edição novíssima da editora Alfaguara. Mas eu queria mesmo essa edição, da Nova Fronteira, por causa do projeto gráfico mesmo. Não tem jeito, e-book nenhum substitui uma parada bonita e bem feita como um livro desses. Uma capa bonita, colorida, papel cartão vermelho pra revestir a parte de dentro da capa, com encadernação artesanal, papel pólen soft, fonte minion e uma diagramação bem confortável, com cabeço bonito e tudo mais. Se bem que cabeço é uma coisa cada vez mais rara. Vai ver decidiram que é brega, ou se tornou uma coisa dispensável agora que as pessoas tratam melhor o livro e não arrebentam ele até começarem a soltar páginas por aí. Aliás, a Nova Fronteira é uma das únicas editoras que ainda usam cabeço em seus livros. Sei lá por que.

E essa foi a resenha de hoje, rapeize. Tão afim de ver o meu lado A da crítica? Vão visitar a revista Paradoxo. Nessa semana tem um artigo sobre o livro Ironweed, do William Kennedy.

Comentário final: 700 páginas grandes pólen soft. O livro que extinguiu os dinossauros.

Cristóvão Tezza – O Fantasma da Infância

Fanstasma da InfânciaEis que chegamos à incrível marca de cinquenta livros comentados por aqui. Cinquenta, mermão, eu disse cinquenta. Quem diria… Meus amigos, a vida não anda fácil, ando cantando por aí aquela música do jumento, dos Saltimbancos (e o pior é que não é essa virtude do jumento — que vocês estão pensando — que eu tenho), mas enquanto esta comunidade de leitores continuar crescendo, vamos em frente. Por isso, divulguem sempre, seja no twitter, no facebook, no orkut, na cantina, na verdurada, no churrasco, na igreja ou na casa de suíngue. Aliás, tá na hora disso aqui ficar famoso. Quem é que sugere esse blog como pauta para os veículos alternativos e descolados, galera? Amigos jornalistas, quantas vezes vocês me pediram ilustração e eu fiz na moral (esqueça as vezes em que eu não fiz, ok?) Vamos lá, vamos agitar, porque ficar parado é coisa de Fiat 147.

Pois vamos ao que interessa: Cristóvão Tezza, esse bonachão, um dos únicos orgulhos desta cidade cheia de Francine de Curitiba, Maior trapézio de Curitiba, Copacabana Club, Bonde do Rolê, e outros escritores meia-boca que não cito nomes para não perder os amigos. Tezza estava indo por uma viela discreta rumo ao estrelato na literatura nacional, mas aí lançou o Filho Eterno (excelente livro, já leram?) e caiu no gosto das velhinhas ricas e amantes dos livros da Sextante. Aí já viu, ficou no top cinco da terceira idade, logo ali entre o Código Da Vinci e o Caçador de Pipas. A gente nunca sabe onde um livro vai parar, não é verdade? E palmas pra ele por esse feito, jogar um livro bom no colo dessas bruxas é tarefa hercúlea, Gabriel García Marquez que o diga.

Mas, antes do Filho Eterno, bem antes, no longínquo ano de 94, enquanto o Tag Team disparava nas rádios com Whoop! (There it is), o popular Uh Tererê, e Celine Dion aterrorizava o mundo com The Power of Love, saía discretamente pela editora Rocco um livro do autor chamado O Fantasma da Infância. O livro, embora independente, teria uma ligação com um livro anterior de Tezza, Juliano Pavolini, que, ao que parece, poderia se chamar O Apanhador no Campo de Leitê Quentê. O Fantasma da Infância tem uma história muito interessante: André Devinne é um escritor em plena queda livre, rumo ao balaio de R$9,90, se acotovelando para ganhar oxigênio entre o “Manual de Programação Cobol” e o “Piadas de Sogra do Tonho dos Couros Vol. 8”. Ganha a vida fazendo bicos, digitando classificados no jornal (na época da máquina de escrever, provavelmente). Eis que cai numa cilada e é sequestrado por um bandidão ricasso, que o obriga, em cativeiro, a escrever um romance. E aí começa outra história: nessa, André Devinne é um sujeito com a vida boa, até que um dia encontra com um velho conhecido que guarda um segredo do passado. E aí, as duas histórias vão caminhando paralelamente, no melhor estilo realidade paralela de 6ª temporada de LOST, no melhor estilo GAMER, o filme onde o poder de sugestão salva o dia.

Cristóvão TezzaÉ uma pena que esse livro do Tezza seja tão pouco conhecido, mesmo entre os seus leitores. Porque é nele que o autor se mostra em melhor forma para brincar com bichos metalingüísticos, estilos diferentes, suspense de trama amarrada, uma escrita dentro da escrita (Yo, dawg, i heard you like…). É sim, sensacional. Para se ter uma ideia: a história que André Devinne escreve é sobre ele mesma, mas narrada na terceira pessoa (o que Tezza faria tempos depois, no Filho Eterno), ao passo que a história de seu sequestro, sobre a qual não tem controle nenhum, é narrada em primeira pessoa. É ou não é para derrubar o colono da ceifa, como diz todo mundo que eu conheço lá de Pinhalzinho (alô, Pinhalzinho!)? Um livro com muita consciência do que está sendo feito, pode crer.

Esse livro foi um dos que entraram na ciranda da republicação da Record quando o Tezza migrou de editora, junto com Trapo e Aventuras Provisórias. É uma coleção linda, com a brochura precisa e serradinha que já virou marca registrada da editora, capas coloridas (com cores metálicas e meio gritantes, mas tudo bem), nome do autor em alto relevo brilhante e o título do livro com uma fonte que parece um pouco inspirada na caligrafia de médico-bebum-que-passou-duas-horas-pulando-na-cama-elástica que é peculiar do Tezza (o senhor não fica chateado não, né?), mas desconfio muito, porque tá legível demais. Se bem que a ideia é muito boa e deveria ser aproveitada. De qualquer jeito, é uma coleção preciosa, uma honra para pouquíssimos autores brasileiros vivos. Acho que é só ele e a Lygia Fagundes Telles que tem livros tão bonitos sendo publicados atualmente. Ah, e o Rubem Fonseca também, uma coleção da Agir que tá uma teteia (sem acento, nova ortografia). Beleza de papel pólen soft e fonte Slimbach, que eu não gosto muito particularmente (parece fonte de livro infanto juvenil), mas que estou disposto a aprender a gostar por causa do grande Cristóvão. Aliás, quando será que sai o livro novo dele? Aguardaremos.

Comentário final: 239 páginas pólen soft. Catapimba!

Luiz Alfredo Garcia-Roza – Vento Sudoeste

Mais um mês de existência, moçada! Já disse, o Livrada! não é mano, mas também tá aí, contrariando as estatísticas, morô? Neste último mês, o número de visitas não parou de subir e os comentários também. A promoção está de pé, e, agora, muito perto do fim também. Sei que anunciei essa porra lá atrás e até agora não saiu um ganhador. Isso é explicado em parte pela minha falta de tino para números de promoções e em parte porque muita gente lê, mas não comenta. Se bem que a surpresa de descobrir que tenho leitores é legal. Outro dia mesmo…

Mas enfim, agradeço bastante a todos vocês que leem, comentam ou não comentam, divulgam, apóiam e tudo mais. Espanto-me de ver a popularidade deste humilde espaço crescer, e faço votos e empenho para que continue assim.

Também tenho novidades. Como disse ali na parte “Sobre Livrada”, isso aqui é só uma brincadeira, um lado B da minha crítica. Pois agora, é com orgulho que digo que estou desempenhando o lado A também (quem sabe um dia o lado A vire lado B e vice-versa, né?). Minhas críticas sérias podem ser vistas na Revista Paradoxo, na parte de literatura, e quem quiser me visitar lá, pode ler um artigo sobre o all-mighty Coetzee e uma crítica sobre O Dia da Coruja, do Leonardo Sciascia.

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Vento SudoesteSem mais, vamos à resenha de hoje. Claro, um livro especial para uma comemoração especial (sim, eu tô ligado que hoje é dia dos pais, parabéns a todos os pais do mundo, mas a comemoração aqui é mais forte). Resolvi escolher o Luiz Alfredo Garcia-Roza, esse velhinho com vozeirão que tem uma trajetória literária espetacular: começou a escrever depois de velho. E quando eu digo “depois de velho”, quis dizer depois de bem velho. Acho que a estreia do cara na literatura foi aos 63 anos. Eu ia falar bem do primeiro romance dele, O Silêncio da Chuva, que é super original, mas não o bastante: todas as pessoas para quem eu indicava a leitura não retornavam dela tão impressionadas assim. Então, escolhi o Vento Sudoeste, um romance policial com um mote dos mais inusitados.

Vento Sudoeste é um livro da série do Detetive Espinosa (posteriormente Delegado Espinosa), um policial da Civil amante da literatura e detentor de uma ética impecável (daí o nome inspirado no holandês magrelo). Falemos dele mais tarde, vamos tratar do mote do livro. Em Vento Sudoeste, um sujeito entra na delegacia para falar com Espinosa a respeito de um crime que ainda não foi cometido. Desconhece-se a vítima e o motivo, mas sabe-se que o assassino será o próprio delator da contravenção. E resta a Espinosa, que poderia ficar vendo Fórmula 1 em casa, levar a história do moço à sério e arregaçar as mangas para entender a maluquice. E aí, no resto, é aquela fórmula dos romances policiais que o cinema holywoodiano tão bem soube estragar: suspeitos, pessoas que vão morrendo, mocinhas, sexo às vezes, etc. Dentro do que é possível se esperar de um policial propriamente dito, a história é original, vai vendo.

Vamos lá: tirando Rubem Fonseca, quem mais é o fodão no policial brasileiro? Jô Soares, amigo? Não mete essa. Patricia Melo? Pra cima de moi? Não tem ninguém, e a razão é muito simples: como é que alguém vai fazer uma história aqui no Brasil em que o herói é puliça? Me diz? Me diz, quero ver? Aliás, se alguém fosse escrever um policial do jeito que as coisas são, arrisco a dizer que o livro, caso o poder de síntese do autor não seja muito bom, teria pelo menos umas 2000 páginas só de enrolação. Prevejo: “Capítulo 52 – o caso muda de jurisdição (pela oitava vez)”, “Capítulo 89 – o processo emperra na papelada” ou algo do tipo. E, no fim das contas, o livro ia acabar por falta de saco do escritor, porque ninguém ia ser preso nem condenado. E, diante desse senso-comum, Garcia-Roza se meteu a fazer um policial honesto e corretíssimo em tudo o que faz, na dificílima missão de reverter um pouco desse quadro. Mesmo que ele não consiga, palmas para ele pelo intento. Clap clap clap.

Luiz Afredo Garcia-RozaPor fim, o Espinosa tem algo que todo mundo comenta: a tal da estante sem estante, que consiste em empilhar os livros de uma maneira que pareça uma estante, até o teto. Vou dar meu parecer sobre isso: Garcia-Roza, meu velho, isso até seria possível se o protagonista fosse frequentador de livrarias. Mas não, Espinosa alimenta a estante com esculhambados exemplares de sebo. Gente, quem conhece sabe que livro de sebo mal para em pé, o que dirá sustentar colunas e mais colunas de livros. Então, pensem nisso.

Essa coleção policial da Companhia das Letras é bem legal, mas o papel offset denuncia que o gênero é fast-paste mesmo. Nada contra, quem é que não gosta de um policial de vez em quando? Quem é que não curte ver um filme bobo, ou pior, assistir um seriado, quem é que não curte comer um Mc Donald’s, ou pior, uma coxinha de buteco, quem é que não curte… enfim, deu pra entender. Acho legal isso da lateral das páginas ser pintada, cada uma de uma cor diferente, mas não curto muito livros estreitos. E por último, gosto bastante dessas fotos da capa, mas reconheço que é um gosto duvidoso. A propósito, pela primeira vez, o livro retratado ali em cima não é a mesma edição que eu tenho. Isso porque ficou difícil achar uma foto da versão original.

Comentário final: 210 páginas offset. Ah…

Enrique Vila-Matas – Suicídios Exemplares (Suicidios ejemplares)

Suicídios exemplaresEis que, no fim do mês passado, bem naquele período de apertar o cinto, quando sobra mês pro salário, a Cosacnaify, editora que adoro e admiro, resolveu fazer uma vileza com todos nós: colocou em sua loja virtual uma promoção de 24 horas com livros caríssimos pela metade do preço. Era Moby Dick saindo a 55 reais, trilogia do Górki a um galo, ensaio do Levi-Strauss saindo mais barato que cd do Calipso. Enfim, bate aquela sensação de que o mundo inteiro está se divertindo e você aí, na pior. Eis que minha mãe surge para livrar-me da dor de ver e não ter e disse “escolhe dois aí de presente de dia do amigo”! Gente, que mãe legal! Sem pestanejar, escolhi dois livros do espanhol Enrique Vila-Matas. Li um deles e agora estou aqui para comentar com vocês, queridos leitores, a genialidade desse rapazote no livro Suicidios Exemplares.

Deus sabe que não gosto de livro de contos. Dos contos sim, gosto muito, e leio com prazer. Mas livros de contos — vai vendo — são cansativos a dar com pau: o desgaste de entrar no clima de uma história para logo sair dela é um ônus do costume de ler romances. Quando eu lia só contos, achava tranquilo. Mas aí é que tá, camaradinhas: não experimentei esse cansaço nos contos do barcelonês. Talvez, por todos eles serem permeados pelo mesmo tema: o suicídio.

A ideia de um suicídio exemplar é doidona, tá ligado. Aliás, suicídio é um conceito com muitas limitações de caracterização: não pode ser ideal, não pode ser exemplar, e por aí vai. Mas o que Vila-Matas fez, de maneira diabólica (e Vila-Matas ao contrário é Satam Alive, né?) foi explorar o tema e quase esgotá-lo em narrativas eletrizantes. Nelas, o suicídio não só o desfecho lógico como também a justificativa para a própria literatura. Já diziam esses sujeitos emos tipo Cioran, que o suicídio é um ato de afirmação. A morte é a verdade do amor e o amor é a verdade da morte, diz o espanhol lá em dado momento. E a afirmação de Vila-Matas na literatura é justamente a do sumiço, é ou não é? De Bartleby e Companhia, que trata do ofício de desistir de escrever, passando por Doutor Pasavento, que aborda o desejo de desaparecer, o suicídio também pode ser essa saída à francesa, quando não é aquele escarcéu de pobre de “aaaaaargh, eu vô pulááááá”. Talvez seja esse o exemplo dos suicídios do livro afinal: não incomodam ninguém, e são sabidos apenas dias depois.

Enrique Vila-MatasEntre os contos, dois são excepcionais: “As noites da íris negra”, um conto que desafia sua capacidade de largar a leitura no meio da história. Fala do mistério que envolve a morte do pai de uma gatinha que o narrador tava a fim de carcar, e falar mais do que isso é um crime ao conto. E “Pedem que eu diga quem eu sou”, onde o autor vira personagem e trava um diálogo sensacional com um pintor metido a sabichão, considerado o último dos realistas por pintar placidamente um povo “verdadeiramente diabólico”. Esses dois contos — trocadilho prego — dão conta de exemplificar o poder da narrativa de Vila-Matas, seja qual for o aspecto principal da narração, o diálogo ou a descrição. Em descrição, aliás, o penúltimo conto, “O colecionador de tempestades” descreve um ambiente tão sombrio quanto engraçado, e fecha o livro com uma ideia: todo suicídio acaba sendo um espetáculo. Digo penúltimo porque o último mesmo é um trecho de uma carta do gordinho Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa antes de seu suicídio, lhe informando da chegada da estricnina. O título, que abre o excerto da carta, “Mas não façamos literatura”, é um capítulo a parte, uma resenha a parte, que nem eu nem você iremos fazer.

Acho que comentar o projeto gráfico da Cosacnaify é dispensável, né? Os livros são todos sensacionais. Essa coleção do Vila-Matas principalmente. Com essas fotos da Corbis e essa preparação da capa, a gente tem a certeza de que fez um negócio da China por comprar o livro pela metade do preço. Aliás, sugiro entrar ali no blog da editora para ver as capas alternativas a esse livro. Acham que ficaria melhor? Eu, particularmente, não acho. Essa foto matou a pau.

Ô velho, esse cara é a cara do Ney Latorraca ou não é?

Comentário final: 205 páginas em papel pólen soft. Pouca coisa, seu fresco! Toma mais!

Philip Roth – O Complexo de Portnoy (Portnoy’s Complex)

O Complexo de Portnoy

O Complexo de Portnoy

Último fim de semana do mês, amigos. Também conhecido como “fim de semana seminarista” pelo voto involuntário de pobreza que a gente faz pra esperar o advento do salário, que morreu por nossos pecados consumistas e retornará mais uma vez para salvar nossa barriga da miséria, amém. E aí, vamos encarar um programa financeiramente isento neste domingo e ler a resenha do Livrada! É ou não é? Aproveitem que, por enquanto, vocês não pagam nada para ler minhas nada brilhantes resenhas.

E sinta só o drama do ardil: graças às estatísticas do wordpress, pude constatar que o autor mais pesquisado no Google que traz leitores para cá é o nosso querido vovô Philip Roth (tem alguma coisa nele que realmente lembra meu avô, não sei o quê). Então pensei, “que diabos (esse negócio de pensar “que diabos” é um trauma da opressão cultural norte-americana que nem vinte anos de análise curam), vou resenhar mais um livro dele”(dá um tapa na própria coxa). Se bem que, ao que parece, estou fazendo um grande desserviço, porque nunca consigo fazer as pessoas se interessarem pelos livros dele. Vejamos se a gente consegue reverter isso, escolhi um livro beeeem legal dessa vez.

O Complexo de Portnoy é um livro velhão, maluco. Foi publicado em 67 pela primeira vez, e ganhou muitas edições até essa versão lindona que eu tenho em mãos. Foi o segundo livro dele que eu li, e que boa impressão me deu sobre o autor! Em primeiro lugar, por ser um livro muito bem escrito, como são as obras do cara. Em segundo lugar, por ser um livro de comédia, algo muito, mas muito raro hoje em dia (e a raridade se dá, é claro, ao equilíbrio entre humor e boa literatura. Não estamos falando aqui de livros apenas engraçados). Escrever comédia é um troço muito difícil, porque a piada tem que ser lida, interpretada, imaginada na sua cabeça e aí, só depois, se for boa, você dá uma risada. Por isso o humor, além de sutil, tem que ser muito bem trabalhado, senão vai ser só uma parada vergonhosa de ler.

Mas bem, do que trata o Complexo? Alexander Portnoy, o protagonista do livro, é um sujeito balzaco tomado de complexos formados em sua infância, que conta suas histórias para um analista. Pelo menos pra mim, a cultura judia é uma parada muito distante que só começou a ganhar forma no meu imaginário a partir desse tipo de literatura, e dos filmes do Woody Allen e dos Irmãos Coen. Não sei como funciona direito, portanto, mas o Alexander do livro é atormentado pelo famoso estereótipo da mãe judia: grudenta e opressora até o último, e atormenta a todos — ele, sua irmã e seu pai, que é um vendedor de seguros falidão. Claro que não é privilégio apenas dos judeus ter uma “mãe judia”, mas a religião exige uma porção de privações e regras que, como diria aquela música do Patife Band, deixa qualquer um malucooooooooo. E entre as um zilhão de coisas que ele não pode fazer, começa a desenvolver uma tara e um vício por masturbação como válvula de escape. Com toda a rebordosa que lhe bate após todas as vezes que ele bate (caham), ele começa a entrar em umas neuras de remorso e paranóia com a justiça divina, o que seria muito triste não fosse tão engraçado pra gente, que tá lendo.

Philip Roth

Philip Roth

De uma maneira que eu não sei precisar direito, o tragicômico do livro vai se tornando cada vez mais trágico rumo ao seu final. Possivelmente por causa das consequências desastrosas de alguns episódios e os desdobramentos de outros na vida adulta de Portnoy, e isso meio que mata o ritmo nas últimas páginas, o que não quer dizer que fique desinteressante. Mas a nata da obra mesmo tá na primeira metade dela. E quem leu tá ligado.

Essa tradução do Paulo Henrique Britto é bem legal por conservar os termos que a judeuzada usa e anexar um glossário no final. Algumas palavras a gente sempre ouve nos filmes e nem se dá conta que é termo dos judeus, tipo “schmuck”, usado pra xingar alguém, que literalmente quer dizer “pênis”, entre outros. A reimpressão da Companhia das Letras deu uma capa que é uma das mais bonitas da coleção dele (junto com a de Indignação), e o projeto gráfico do interior é muito parecido — senão idêntico — com os livros do Coetzee: fonte Electra, papel pólen, e a diagramação interna que lhe é peculiar. Obviamente que um livro como esse, sobre um moleque judeu punheteiro, causa muito mais frenesi na década de 60, quando foi lançado, do que hoje em dia. Mas é legal ver que, mesmo após 40 anos, ele segue firme e forte como um dos clássicos da literatura (tá na tag!)

Putz, agora que me dei conta que usei as expressões “masturbação” e “punheteiro” nessa resenha. Eu tava querendo satisfazer melhor os leitores que são trazidos pelo Google e acabei de arrebanhar uma multidão de cornos anônimos depravados. Fazer o quê?

Comentário final: 261 páginas pólen soft. Pimba na cabeça do corno anônimo depravado que chegou aqui pelos termos errados!

Saul Bellow – Henderson, o rei da chuva (Henderson, the rain king)

Henderson, o rei da chuvaE aí, meu povo. Olha, antes de mais nada, queria agradecer de coração ao pessoal que divulgou o blog no twitter, no orkut, em seus blogs pessoais, verbalmente, enfim, a galera que se esforçou para dividir com os outros esse gostinho amargo de ler esse blog zoadão. Reforço o pedido: continuem divulgando e aumentando a comunidade de leitores aqui desta bagacinha. Quem sabe um dia a parada cresce mesmo, e aí vocês vão dizer “eu *cof cof* era leitor desse blog há muuuito tempo, meu netinho… na época esse Yuri era um sujeito legal, não era esse esnobe metido a besta que é hoje…”.

Mas, vamos aos trabalhos. Henderson, o rei da chuva! Fala sério, o sujeito que não fica um tiquinho curioso para ler um livro com esse título é um frio desalmado do caraças. A genialidade do escritor canadense radicado nos Estados Unidos filho de judeus russos (depois brasileiro que é tudo mexido) começa no título, e foi pelo título que esse cara me fisgou. Ganhei esse livro de dia dos namorados (que foi? Não me diga que ganhou uma Jabulani!?) da Carlinha e li ele durante esse mês inteiro, só me arrastando na leitura. É amigos, não tenho mais o viço de ler trocentos livros, mas tudo bem.

E aqui vou contar um pouco do livro. Não é spoiler, mas conto algumas coisas do livro, portanto, se quiser passar, te vejo no próximo parágrafo. Pois bem. A história fala de um tal Eugene Henderson, milionário, fanfarrão, sexagenário, veterano de guerra que, após uma vida conturbada quase que unicamente pelo seu temperamento instável, resolve se mandar para o… eu ia dizer coração da áfrica, mas o lugar pra onde ele foi tá mais perto de ser o cu do continente. Ele se mete num buraco esquecido pelo mundo e conhece duas tribos: os Arnewi, amistosos e simpáticos, porém muito coitadinhos, e os Wariri, arredios e excêntricos, porém com um rei extremamente cativante. Os Wariri tem um ritual muito interessante: o rei Dahfu, com dezenas de esposas, deve sempre dar no couro, caso contrário suas donas-encrenca denunciam ele para uma figura chamada bunam, que o leva para a floresta e o estrangula. O ritual de passagem para o próximo rei é que é interessante, e envolve a captura de um leão. Os Wariris são bastante crentes nos poderes do leão, e aí só lendo mesmo pra saber do que eu estou falando, porque estragar as surpresas mais do que eu já estou estragando aqui é muita sacanagem.

Nesse universo esquisitão, Henderson tenta preencher o vazio de sua alma, seu sentimento de inadequação em relação à vida, o seu “grun-tu-molani”, expressão Arnewi do livro dificílima de explicar (vale um mestrado aí, filósofos de plantão), a grosso modo quer dizer “homem quer viver”, o sujeito do eterno vir a ser. Com o rei dos Wariri, Henderson discute essa sua condição em diálogos profundos porém não maçantes. Esse é outro ponto forte do livro: ele é denso sem ser chato. Muito pelo contrário. Com doses certas de ação e suspense, o livro é extremamente emocionante, daqueles que você custa a largar. Sem sacanagem, um dos melhores que eu já li.

Saul BellowEventualmente a gente se depara, na literatura, com personagens tão perfeitos, tão bem construídos, que você custa a acreditar que é tudo inventado. É assim com o tragicômico Henderson, o rei da chuva. Eugene é nível 9 na escala Rodrigo Terra-Cambará de perfeição em caráter de personagem, mas, pensando bem, assim é o livro inteiro. Eu não sei se Saul Bellow viajou mesmo pra esses lugares, ou estudou alguma coisa sobre esses povos, mas a descrição que ele faz das tribos, da áfrica, do comportamento de seus líderes e dos rituais, é algo pra fazer cair o queixo no dedão do pé. Talvez seja isso que fascina a gente na literatura afinal. Se não, é com certeza algo que faz alguém ganhar o prêmio Nobel de literatura, como Saul Bellow ganhou em 1976.

Essa edição da Companhia das Letras tá no padrão da editora, com papel e capa que lhe são peculiares. Mas tenho uma crítica: a revisão do livro não foi das melhores mesmo. Várias palavras erradas, um jogo de palavras que foi traduzido de duas maneiras diferentes (ammargruha e bittahcidade, aparecem as duas formas no livro), e conte só quantas vezes a condecoração militar Purple Heart foi escrita como Purple Haze (será que tinha alguém doidão ouvindo Hendrix por lá?). Mau, muito mau, esse tipo de coisa dá um baque na leitura que a gente nem imagina.

Por fim, eu não sou muito de fazer isso, mas vou transcrever um trechinho de um diálogo do rei Dahfu que me impressionou muito, para dar o gostinho da leitura para vocês. Sem aspas iniciais porque esse texto já vai ficar cheio de aspas naturalmente:

“Dizem”, prosseguiu, “que o mal pode facilmente ser espetacular, que com seu ímpeto e fanfarronice impressiona o espírito mais facilmente do que o bem. Oh, isso a meu ver é um engano. Talvez seja verdade no que se refere ao bem corriqueiro. Muitas e muitas pessoas ótimas. Oh sim. Sua vontade lhes ordena praticar o bem, e elas o praticam. Como isso é comum! Mera aritmética. ‘Deixei de fazer os etceteras que deveria ter feito, e fiz os etceteras que não devia’. Isso não chega a valer uma vida. Oh, como é sórdido manter um registro de custo-benefício. Minha visão é totalmente oposta: o bem não pode significar oposto ou conflito. Quando ele é grande e elevado, é também superior. Oh, Sr. Henderson, é muito mais espetacular. Tem a ver com inspiração, não com conflito, pois ali onde o homem entra em conflito, ele cai, e quem empunha a espada também morre pela espada. Uma vontade estúpida produz um bem muito estúpido, desprovido de interesse. Onde o homem traça uma linha de frente numa guerra, é ali que ele tem tudo para ser encontrado, morto, um atestado de grande força e sacrifício, mas só de sacrifício”. (página 205)

Comentário final: 413 páginas pólen soft. Afunda o esterno do camarada.

Lourenço Mutarelli – O Cheiro do Ralo

O Cheiro do RaloE aí galera, belezinha? Estamos chegando ao final de mais um mês, daqui a pouco o Livrada! completa quatro meses, como o tempo se arrasta…

Gente, vamos ajudar a divulgar o blog. Linkem, mostre para a sua avó, sugiram como pauta para os seus veículos de comunicação, comentem com os amigos na rodinha do café, pixem a URL nos muros da cidade (mentira, não façam isso que é contra a lei!), enfim, vamos expandir essa pequena comunidade de leitores, hã, que tal? Assim todo mundo se anima a inventar coisas novas…

O post de domingo é aquele post garoto, aquele post malandro, oportunista que só ele, pegando carona no hype da galera, surfando no tsunami da modinha. Eis que, sexta feira, Lourenço Mutarelli, autor de hoje, esteve na Itiban para bater um papo com seus fãs e leitores em geral. E pensei: “Ora, por que não fazer um post sobre o gajo?” E, para escolher a obra a ser tratada aqui primeiro (pois tenho essa ambição louca de resenhar todos os livros que já li), resolvi escolher O Cheiro do Ralo, não só porque foi o primeiro livro dele que eu li, segundo porque o filme, baseado na obra, tem aquele significado especial pra mim e quem sabe tá ligado.

Lourenço Mutarelli disse lá na Itiban que a ideia para o livro veio de um pensamento trivial, que é o seguinte: seu ateliê de literatura e desenho fica no quartinho da empregada, que tem um banheirinho (é chique pacaceta isso: a única suíte do apartamento quase sempre é da empregada) do qual saía um cheiro horroroso. E ele pensou que, um dia, esse cheiro ia acabar queimando os miolos dele. A partir daí, compôs uma maravilhosa história sobre a loucura e as possessões, protagonizada por um personagem que ele diz ser o oposto dele em termos comerciais. Mutarelli afirmou sempre ser muito mal tratado pelo comércio por sua mal-trajância (aí, galera do dicionário, chega mais) e resolveu que seu herói cuzão seria alguém que sempre levasse vantagem nas negociações, sempre lucrasse. Daí nasceu Lourenço, dono de uma lojinha de objetos usados que é atormentado pelo cheiro do ralo do banheiro. Impetuoso e cruel com seus clientes, só possui duas fraquezas: o cheiro do ralo, que não quer que ninguém pense que é dele, e a bunda de uma garçonete de um botecão.

Lourenço MutarelliA história é um pouco indescritível por ser formada de vários acontecimentos sem muita conexão entre si. Basicamente é o retrato das obsessões do personagem em busca da famigerada bunda. Diria que o filme é recomendável para conhecer o universo de Mutarelli, não fosse o livro ser tão mais esclarecedor nesse sentido. Primeiro que muitas das histórias escritas não foram transpostas para a tela (entre elas, a do sujeito que gostava de rasgar dinheiro, um dos pontos altos da trama), segundo porque o estilo do autor, extremamente econômico nas palavras, dá a história um pouco do distanciamento necessário para a noção do desconhecido, mesmo que se trate de uma narrativa interior, com fluxos de pensamentos e tudo mais (herança beatnik, né? Ele deve ser o único cara da face da terra que fez algo de bom com essa influência beat). Mas sim, assistam o filme também, afinal, tem o Selton Mello, esse sujeito engraçado que só faz papel de si mesmo e transformou uma história extremamente down em algo, no mínimo, tragicômico.

Mutarelli escreveu o livro em 2001, durante cinco dias, e publicou pela Devir esse livro. Eu realmente espero que algum dia ele consiga que esse livro seja republicado por outra casa editorial. Vamos combinar que a Devir pode manjar de quadrinhos, mas puta merda, tem muito o que aprender na editoração de literatura. Se eu disser pra vocês que a ficha técnica do livro tá escrita em Comic Sans, vocês vão dizer “esse Yuri diz cada besteira…”. Mas é sério. Pior de tudo é que é sério. E não é tudo. Papel offset horroroso, capa mole sem orelha podrassa e, depois que o filme foi lançado, uma dessas capas de papel que cobrem a capa original pra levar o livro no sucesso da telona, só que é um papel tão vagabundo que ele raspa e perde a impressão, parece aquele papel de bobina de cartão de débito, de tão podre que é. Um desrespeito tamanho com a obra do cara. Se fosse comigo, eu ficaria puto.

Há pontos positivos também. Na quarta capa antiga, uma carta do músico (?) Arnaldo Antunes muito elogiosa, e na quarta capa nova, o depoimento de Selton sobre como ele se tornou o Lourenço na adaptação cinematográfica. O prefácio (econômico que só ele) é assinado por ninguém menos que Valêncio Xavier (hum, preciso falar de algum livro dele por aqui, não acham?) e os capítulos são permeados de ilustrações do próprio autor, uma prática que se mostrou constante em suas publicações literárias futuras. E claro, o principal ponto forte dele é a grande história. Mas, no resto, parece livro pirateado.

A resenha de hoje está curtinha, eu sei. Voltaremos na quarta com mais livros bons.

Comentário final: 142 páginas de offset. A vida é dura.

Erico Verissimo – O Continente (O tempo e o vento parte 1)

Já começo avisando: não vou ajudar ninguém com trabalho de colégio, valeu? Toda vez que resolvo escrever sobre um clássico da literatura nacional, atraio que nem imã (“fucking magnets, how do they work?”) uma cambada de estudante desesperado por resumos e detalhes sobre a obra. Galerinha: vamos largar o Playstation, vamos desligar o World of Warcraft, vamos parar de ver filme de mulher pelada, vamos parar de ficar olhando para o teto por algumas horas e vamos dar mais valor para a ínfima parte da cultura nacional que de fato, tem algum valor.

O tempo e vento, meus amigos, o tempo e o vento! El tiempo y el viento, the temptation and the ventation, le tempé et le venté, der tempschlaschtung und die ventaschtwaft, pra gastar aqui toda minha eloquência em línguas estrangeiras. Essa maravilhosa saga familiar escrita por Erico Verissimo (aprendam: o nome do cara não tem acento em parte alguma). Para quem chegou agora no assunto da boa literatura, a obra é dividida em três partes: O Continente, O Retrato e O Arquipélago, e conta a história da família Terra-Cambará, a família mais pé fria pra política da história da humanidade. Incrível! A única vez que eles apoiaram os situacionistas, logo quem? Getúlio Vargas! Mas bom, não sou de dar spoilers, então leia quem não leu ainda.

O Continente, muito provavelmente, vai ser o livro mais emocionante que você vai ler em toda sua vidinha. De emoção mesmo, da parada pegar você de jeito e você não largar mais do livro. Nem Harry Potter faz isso, cumpadi. O livro traça uma narrativa não-linear a partir daquela revolução federalista de 1893, pendenga da gauchada dividida entre os pica-paus e os maragatos (adivinha de que lado a família estava?). São várias histórias, das quais se destacaram a de Ana Terra, mocinha pioneira que se f*** (meu pai falou pra eu parar de falar palavrão aqui) mais que a Dawn no Bem Vindo à Casa de Bonecas, do Todd Solondz, e a do Capitão Rodrigo, uma versão gauchesca de um careca: só quer saber de farra, mulher e porrada (oi! oi! oi!). Fizeram-me ler o livro “Um Certo Capitão Rodrigo” na escola, e foi uma das poucas leituras boas que a escola me mandou fazer, mas dentro do contexto fica muito melhor.

Engraçado que essas duas histórias mais famosas são todas do primeiro volume d’O Continente. Mas isso não quer dizer que o segundo volume seja menos legal. Como esquecer da Luzia, a Teiniaguá, mocinha encantadora que dá aquele legítimo chá de buça no rapazote Bolívar, só para depois colocar as mangas de fora? E o Dr. Carl Winter, médico gringo que, por alguma razão, se parece muito com o Visconde de Sabugosa na minha cabeça? Enfim, são muitos personagens e muitas histórias pra tentar resumir numa sinopse porca como a minha. Digamos apenas que, enquanto o primeiro livro é mais cru e violento, como toda boa fase de pioneirismo que se preze, o segundo volume é mais brando e começa a entrar no tema das pinimbas familiares que interessam.

Uma coisa bacana de se perceber n’O tempo e o vento é que cada parte da saga foca um aspecto muito específico da história. O forte do continente é a narrativa. Erico mostrou nesse livro (dividido em dois pra ficar mais fácil pra você carregar) que sabe contar uma história, sabe dar emoção pras paradas que ele escreve, sabe ser pintudo quando o assunto é construir acontecimentos; em O Retrato, como o próprio nome já sugere (embora o retrato do título seja mais concreto), o peso da história é na descrição do personagem, ou seja, do Rodrigo Terra-Cambará. Invocando a entidade do nosso querido presidente, nunca na história desse país um personagem foi tão bem construído como Rodrigo. Nem mesmo aquele sujeito sonhado nas Ruínas Circulares do Borges poderia ser mais bem feito. A complexidade do sujeito é realmente de cair o queixo, e quem leu tá ligado; por fim, em O Arquipélago, Verissimo bota o pau na mesa pra falar da política de seu tempo, provando que o cabra tem envergadura pra detalhar as ideias e o momento que viveu. Aí, ó, descobri um padrão. Primeiro livro, narração; segundo livro, descrição; terceiro livro, dissertação. Os três gêneros que a tia maroca tenta ensinar pra você nas aulinhas de redação. E você se perguntando por que diabos esse livro cai no vestibular.

Pra completar aqui o comentário, vamos falar desse projeto gráfico da Companhia das Letras. Deus sabe (sério, ele sabe tudo) que eu não gosto de livro de capa mole sem orelha, mas essa coleção do Erico Verissimo é a única exceção. Livros sensacionais. Capa dividida entre uma cor para cada obra (e são mais de quarenta que o gaúcho escreveu) e uma foto que, se eu for acrescentar um adjetivo pra elas, meu pai vai ficar chateado. E a foto da capa não é a única que é maravilhosa. No verso da quarta capa, uma foto diferente do autor para cada obra, uma mais bonita que a outra. Todas as fotos do projeto são de autoria do premiadíssimo Leonid Streliaev, que inclusive fez o livro “Erico por Leonid – fotos que ninguém viu”. Ele tem um site bacana com o trabalho dele que eu recomendo que vocês conheçam, clicando aqui. Bah, tchê, e não para por aí. Uma boa notícia para os maus leitores do meu Brasil: tem figura nesse livro também! Êêêê! E que figuras: ilustrações do traço livre de Paulo Von Poser, sempre em consonância com a foto da capa e a história do livro. A editora, carinhosa como sempre, fez a gentileza de colocar a árvore genealógica de toda a família (é nego pra caceta!) e uma cronologia que associa fatos históricos com acontecimentos narrados n’O tempo e o vento e também na vida de Erico Verissimo, além da crônica biográfica do próprio (não escrita por ele), que conta um pouco dos bastidores da produção do livro. Que mais? Ah sim, também tem um mapinha muito simpático do estado do Rio Grande, com a suposta localização de Santa Fé, a cidade fictícia onde se desenrola a trama. E para os cabeçudos da academia, surpresa: Prefácio de nada mais nada menos que Regina Zilberman, a Sra. Sabe-tudo do Verissimo, a Sra. Ficção histórica, a Maria Callas dos estudiosos do gênero (não somos dignos! Não somos dignos!). No mais, fonte Janson e papel pólen soft. Enfim, cambada: tá completíssimo, só falta esse livro aprender a fazer café. E não, ninguém me pagou pra eu babar esse ovo pra edição (mas estamos abertos pra negócio, aê, aê!).

Um dia volto para falar das outras partes da saga, mas na sequencia não, senão fica chato.

Comentário final: 413 + 430 páginas pólen soft. Já que são dois, faz um telefone sem fio que ninguém nunca mais mexe contigo.

Albert Camus – O estrangeiro (L’étranger)

Já vi que os leitores deste blog reagem de maneiras diferentes quando um clássico da literatura (tá na tag, sempre digo) é massacrado. Quando meti o malho n’O vermelho e o negro, ninguém fez furor. Talvez concordem, talvez não tenham dado tanta importância ao livro assim. Em compensação, quando falei mal do Som e a Fúria, do Faulkner, recebi o meu primeiro feedback negativo a respeito da proposta do blog. E isso foi só na semana passada. Pois bem, resolvi comentar hoje mais um do time dos canonizados que eu, particularmente, não gostei (e vou dizer o porquê, não se preocupem). E que tarefa difícil essa, principalmente com o Estrangeiro, do Camus, a obra mais pop do sujeito. Provavelmente não vai haver viva alma que concorde comigo. Mas nem por isso vamos ficar nessa espiral de silêncio, não é?

Pois bem, meus queridos: O Estrangeiro, a Xuxa da literatura canonizada: Todo mundo idolatra e, ao mesmo tempo, lá no fundo, a gente sabe que já passou da hora da aposentadoria. Olha, não me faltou gente pra me recomendar esse livro. E gente boa mesmo, que entende da coisa, que não lê qualquer merda. Resolvi testar meu francês e ler no original. Pensei: “Não é possível, tem alguma coisa errada com esse livro”, e aí resolvi relê-lo em português pra saber que diabos tinha de excepcional nessa obrinha que mal para em pé na estante. Ah, tenho ao todo cinco edições desse livro em casa, inclusive uma estranhíssima com um desenho de um cara que parece muito o Ringo Starr na capa (usei posteriormente essa edição como alvo, num sábado à tarde em que eu e meu camarada Pedro Pimentel saímos para dar uns tiros).

Refrescando a memória: O Estrangeiro é um romance de tese, o que, por si só, já é uma ideia tonta. Escrever um romance pra tentar provar alguma coisa já mostra que você tá numa vibe muito errada.  Mersault (esse nome deve ser o equivalente a Glêdson Rodrigues na Argélia) é um argeliano blasé que não se impressiona com nada. Um dia, o sol tá incomodando ele e aí ele resolve matar um árabe que tava na praia. Ele é condenado a morte, por ser considerado um cara frio e calculista (tipo um BBB), porque não chorou quando a mãe dele morreu. E aí ele morre. Fim da história. Narrei essa sinopse com essa emoção toda porque é justamente desse jeito que o livro é escrito. O Estrangeiro é a prova de que um excelente enredo pode ser arruinado pela falta de estilo (mesmo que proposital). E estilo, meus amigos, é uma coisa que Camus não viu nem quando visitou a fábrica da Fiat. Na ânsia de tentar passar um clima de poucas emoções na vida do cara (que narra em primeira pessoa), o autor quase mata a gente de sono. Se liga no primeiro parágrafo, que é bem famosinho, por sinal:

“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.’ Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”

Tudo bem que o objetivo do autor era mostrar um cara que não demonstra maiores sentimentos pela mãe ou pela vida, mas isso significava não ter sentimento pela escrita? Pouco provável, afinal, fosse assim e ele estaria escrevendo para quê, se não tem ninguém obrigando? “Eu fui na casa da minha amiga. Eu comi bolo. Eu bebi guaraná. Ela comeu também.” Na moral, minhas redações de segunda série eram mais ou menos assim. A tia da aula de redação insiste pra gente articular as frases, usar vírgulas, adversativas e o escambau, e esse cara me faz um livro que mais parece uma lista de supermercado que vende palavras (cinema nacional, pati patapá). Isso é revolta escolar reprimida?

E a tese? Meursault não foi condenado por matar o árabe, por colocar a culpa no sol ou por ter um nome feio de dar dó, mas sim por não ter chorado no enterro da mãe, provando através de tais circunstâncias que o luto é preciso, o blasé não tá com nada e, por conseguinte, todo francês metido a besta merece a morte. Com efeito, não fosse o sujeito preso e morto ao final, seria preciso que me escrevessem na história pra encher ele de sopapo de tanta raiva que dá o jeito como ele fala as coisas. Meursault fica lá paradão na dele analisando e julgando todo mundo e se achando o gostoso por não ser afetado por nada que o rodeia. Do tipo: “Aí a moça veio. Ela me beijou. Eu senti mais ou menos. Ela começou a chupar meu pinto. Eu meio que gostei. Ela tava com uma cara estranha.” Por aí vai. Pra não dizer que o livro é inteiramente ruim, ele começa a ficar bom nas últimas duas páginas quando, à beira da morte, Mersault resolve acordar pra vida e ficar revoltado. Nas últimas duas, veja bem. Ou seja: o livro só não é mais chato porque não é maior.

Meu palpite do porquê as pessoas gostarem tanto do Estrangeiro são: a) o livro tem um estilo tão simplório que qualquer animal consegue ler sem maiores dificuldades e acrescentar à estante um livro que não seja Harry Potter, Bukowski, ou a biografia da Bruna Surfistinha. b) O The Cure fez uma música — horrível como o livro, por sinal — sobre a história de Mersault, e neguinho não consegue assimilar cultura nenhuma a não ser que um popstar diga que é bom (Frida Kahlo está aí graças à Madonna, afinal de contas). c) Jean-Paul Sartre falou que o livro é bom e o mundo inteiro fez “béééééééé”, porque se você discorda do Sartre, coitado de você. d) Camus é um prêmio Nobel, e, como tal, tem aquela aura de vaca sagrada em seu entorno. E tudo bem, os outros livros dele podem ser muito diferentes deste, e ele pode escrever bem, afinal de contas. Mas nesse aí ele cagou no pau. Todo bom escritor tem a sua mancha: Saramago tem o Ensaio Sobre a Lucidez, Kafka tem O Castelo, Ítalo Calvino tem o Dia de um Escrutinador, etc. Não é nenhum crime.

A edição da Folio é tão tosca que é melhor comentar a edição da Record. Bom, a Record fez um projeto gráfico xoxo igual ao livro: fonte De Vinnes (sério, nunca usem essa fonte em um livro. É a mesma coisa que escrever a Bíblia em Comic Sans), papel offset e uma foto que ocupa um quarto da capa. E não adianta a Fnac fazer um Box com três livros dele que essa capa não vai ficar mais bonita enquanto você não tiver torado umas quatro serranas.

PS: Desculpem aí, meus amigos fãs de Camus. Vocês não são obrigados a concordar comigo. Pensando melhor agora, vocês são os mesmos que me disseram que Los Hermanos é legal, que disseram pra eu assistir Grey’s Anatomy e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Aí, qual é a de vocês?

Comentário final: 126 páginas de papel offset. Não serve pra nada, a não ser pra servir de alvo no estande de tiro improvisado no terreno baldio.

Abbie Hoffman – Steal This Book

E aí, meus queridos! Antes da gente começar os trabalhos de hoje, uma rápida pesquisa de opinião: o que vocês acham de abrir o espaço aqui para vocês, leitores, resenharem alguns livros ocasionalmente? Afinal, isso aqui é uma brincadeira e, até que se prove o contrário, todo mundo pode brincar. Digam aí o que vocês acham…

Pois muito bem. O livro de hoje é um clássico da literatura (tá na tag), mas não pelo valor literário (e manual tem lá valor literário?), mas pela geração e pelo movimento que ele representou. Sim, chegou a vez de Steal This Book, do lendário Abbie Hoffman! Pra quem não sabe, Abbie era um militante político e um dos criadores do chamado movimento Yippie, que é mais ou menos como o movimento hippie, só que com propensão a fazer paradas radicais, como coquetéis molotovs e envenenamento das fontes de água. A verdade é que ele era loução. Diagnosticado como bipolar, a doença da moda e queridinha das novelas e do mundo da música norte-americana, ele participou ativamente nos protestos e atentados da década de 70, em especial durante a guerra do Vietnã, o Brasil X Itália de 82 lá dos Estados Unidos. Morreu em 89, enchendo a cara de boleta, suicida safado. Antes disso, porém, escreveu este livro, um manual da resistência Yippie.

Steal this book é, basicamente, um guia da malandragem americana — o que, como deve ser fácil de supor, não é nada malandra. Gringo não manja de falcatruas e pequenos golpes. É por isso que o nome da parada não é “jeitinho americano”. O livro é dividido em três partes, após um breve e incrivelmente coeso manifesto, ainda que pouco pé-no-chão.

“Survive!”, a primeira parte, dá dicas de como conseguir dinheiro, móveis, roupas, comidas, transporte e outras coisas de graça, e até como comprar, vender e plantar sua própria maconha (com ilustrações ensinando a enrolar o cigarrinho do capeta e tudo!). Claro que tudo ali é adaptado à realidade estadunidense da década de 70. Então dicas como “ofereça seu corpo para estudos médicos após a sua morte e você receberá 25 dólares após fazerem uma pequena tatuagem no seu dedão do pé” e “pegue carona nesses pontos aqui” hoje em dia não valem de mais nada. Ainda bem, eu acho.

“Fight!”, logo em seguida, ensina técnicas básicas de luta corporal (inclusive o invencível chute no saco), luta com armas brancas, fabricação de todo tipo de bombas e timers, imprensas clandestinas, rádios piratas (com ilustrações), roubo de lojas (a chamada mão leve), primeiros socorros para os amigos que caem e algumas pílulas de direito estadunidense pra você, cabeludo maluco, poder berrar “Eu conheço meus direitos!” quando o sargento Peçanha te meter o big stick. Alguns tópicos descritos nessa parte são ainda válidos para a sociedade de hoje, e inspiraram outros livros semelhantes, como o Anarchist Cookbook, talvez o primeiro e-book de todos os tempos. Fala sério hein, se você tinha acesso a internet com 16 anos, você leu esse livro.

A última parte, intitulada “Liberate!”, é a menor de todas, e seus quatro capítulos, Fuck New York, Fuck Chicago, Fuck Los Angeles e Fuck San Francisco, dão dicas específicas sobre os tópicos de “Survive!” em cada uma dessas cidades, além da programação cultural, os buracos quentes de música e poesia underground. Meio sem graça se você não conhece os Estados Unidos, como eu. E nada é aproveitável hoje em dia. “Tem um poeta chamado fulano de tal nessa esquina”. Vai nessa, amigo, você vai encontrar no mínimo um McDonald’s.

As ilustrações e fotos do livro são um capítulo a parte. Cartuns e quadrinhos do Gilbert Shelton, pai dos Fabulous Furry Freak Brothers, que de repente TODO MUNDO conhece, só porque o cara vai estar na Flip, ora essa (aliás,  e o Lou Reed na Flip, hein? Precedente perigoso pra transformar a bagaça numa espécie de bienal do livro. Zero de literatura); fotos do próprio Abbie Hoffman e sua gangue, simulando algumas de suas dicas; e ilustrações para ensinar algumas das coisas mais complicadas no livro. Não se pode esquecer que ele foi escrito para este povo inteligente que é o norte-americano, em especial, o norte-americano adolescente hippie e drogado até as orelhas. Pensando bem, me admira que o livro tenha letras.

Encomendei esse livro da amiga Manuela que foi visitar os esteites, e já esperava algo meio thrash. Publicação de livro nos Estados Unidos é de chorar mesmo. Pólen Soft? Chamois Fine? Mesmo o horroroso Offset você vai ter dificuldade em encontrar. Lá, amigão, ou é papel de bíblia ou é papel de jornal, você escolhe. Nesse caso, papel jornal, aquele que começa a apresentar manchas após cinco meses na estante e te dá uma rinite gostosa pra ficar espirrando o resto do dia. Uma tal de editora Thunder’s Mouth Press publicou a obra. Aliás, chamar de editora é elogio. Nem a própria Martin Claret teria a sagacidade de fazer algo tão capenga. E impresso no Canadá, ainda por cima. Na certa, uma sweatshop de livros, se é que existe uma. Uma fonte horrorosa que eu não sei qual é e uma capa minimalista que a gente não sabe se é um projeto gráfico elaboradíssimo ou preguicite aguda. Ainda assim, vale pelo registro de ter um livro importante como esse na estante. Acho que aqui no Brasil ele não existe pra vender, então, se quiserem passar os olhos por um, já sabem.

Comentário final: 318 páginas de jornal. O som que faz quando você bate em alguém com ele é “Puf!”.