Thomas Pynchon – Vício inerente (Inherent Vice)

Inherent viceHoje é um dia triste. Acabou o horário de verão aqui no sul. Meus leitores nordestinos não imaginam o quanto esse período me faz feliz. Anoitecer mais cedo era muito legal quando eu era adolescente das trevas, tipo leitor de crepúsculo, mas agora que sou uma pessoa normal gosto de sair do trabalho e ser dia. Ainda mais nessa cidade em que você vê o sol quase três vezes por ano. Por isso, Bernarda Alba pede que a gente faça um luto até o advento do próximo horário de verão. Falta muito pra outubro?

Aqui no Livrada! é o único lugar onde você encontra esse tipo de nariz-de-cera moleque, esse nariz-de-cera arte, nariz-de-cera maroto, clássico em seu propósito de enrolar e te convidar pro texto (not). Enfim, livro de hoje. Thomas Pynchon, quem é ele? Um dos maiores escritores dos Estados Unidos. Ô paiszinho ingrato esse pra ter uma atividade intelectual. Deve ser que nem ser mestre churrasqueiro no meio da verdurada vegan: um bando de chato que não tá nem aí pro seu talento (brincadeira, galera vegan, aprecio vossas bandeiras. Mesmo porque a carne do mundo tá acabando e farinha pouca, meu pirão primeiro, ou, no caso, meu filé primeiro). Bom, voltando ao Pynchon, grande escritor estadunidense cuja identidade a maioria das pessoas no mundo desconhece. Vamos combinar: onde Dalton Trevisan falhou, Pynchon triunfa eterno nessa brasila. Ninguém sabe como é o cara, ele não dá entrevista, não aparece em público e as fotos que a gente tem dele são da época em que o Niemeyer tava projetando as curvas da Sophia Loren. E eis que ele lança um livro mutcho loko ano passado. Falemos dele entonces.

Vício Inerente é um livro um pouco diferente dos livros do autor, pelo menos quanto ao enredo. O que é uma coisa muito perigosa, porque quem me garante que foi ele mesmo quem escreveu isso, e não se trata de um fanfiction bem sucedido? Complicado, galera. Tenha em mente que a constância na obra é importantíssima quando não você não tá disposto a dar a cara a tapa. Enfim, o livro é, a grosso modo, um policialzão bem montado e, por isso mesmo, confuso as hell. Fala de um detetive chamado Doc Sportello, que não é bem um detetive — muito mais um drogadão que trabalha de detetive quando algum louco dá um trabalho pra ele. Era o auge do movimento hippie, começo da década de 70, e naquela época ser drogadão era muito mais do que fumar uma erva com seus amiguinhos, ouvir Manu Chao, brincar com malabaris, fazer Bob Marley de durepoxi, tomar um Santo Daime “só pra ver qual é a da parada” e fazer mochilão pela América do Sul: era um VERDADEIRO estilo de vida. Não faltavam drogas e misturebas sinistras pra derrubar qualquer elefante junkie que aparecesse. Bom, Sportello estava à toa na vida vendo a banda passar quando chega uma mocinha ex-peguete dele, dizendo que o atual, um Piccolo Tigre do ramo imobiliário desapareceu misteriosamente. E, mergulhando na investigação, o detetive — que, vamos admitir, faz um bom trabalho pra um drogadão — descobre ligação entre bandas de surf music e um saxofonista dado como morto, sociedades arianas de motociclistas e uma parada chamada Canino Dourado, que, basicamente, é tudo nesse livro: um iate, uma máfia de dentistas, uma barra de ouro que vale mais do que dinheiro em formato de dente, o dedo da sua mãe Total Flex, enfim, uma maçaroca de informações que vão sendo jogadas na sua cara como uma tortada violenta do Passa ou Repassa.

Todas essas informações exigem que você leia o livro atentamente, porque, caso contrário, você vai se sentir um desses drogadões do livro: viajando na maionese enquanto descobertas importantes estão sendo feitas. A grande sacada desse livro são os personagens secundários: o policial Pé Grande, um tira durão, para usar seguidamente duas terminologias de Tela Quente, e desculpe pela rima. Pé Grande não gosta de hippies e faz aquela linha de parceiro-meio-inimigo do protagonista. Também tem o Sauncho, o advogado de Sportello que, fazendo jus ao seu nome (de Sancho Pança, muito provavelmente) é o fiel escudeiro do protagonista. E o que é um advogado senão um escudeiro? Um crápula, um infeliz, um pulha, um biltre, um safado, um sem-vergonha, um yuppie nojentinho aspirador de pó do caraças? Sim, tudo isso, mas principalmente um escudeiro.

Agora, vamos lá, meu puxão de orelha na crítica literária desse Brasil varonil: a orelha do livro diz que Pynchon, com esse livro, “destila seu conhecimento divertidamente enciclopédico acerca de tudo”. Essa ideia de que o autor é um sabe-tudo foi amplamente alardeada pelos veículos, porque o Pynchon sabe falar de penteados afro e a importância do saxofone na evolução do surf music. Não é por nada não, mas não tem nada de extraordinário no conhecimento do autor nesse livro. Primeiro porque hoje em dia qualquer Zé Mané tem acesso à Wikipedia, segundo porque eu sei falar de literatura, jogos de videogame desde seus primórdios, armas de fogo dos mais variados calibres, a história da charge e do punk rock e astronomia, e ninguém fica por aí dizendo que eu tenho conhecimento enciclopédico. Eu só sei das coisas que estudei por fora, e tenho 24 anos. Imagina o leque de conhecimento que um cara velhaco como o Pynchon deve ter. Isso é normal minha gente, nessa época de internet principalmente, e Isaac Asimov estava certo. Normal, se você não for uma besta alienada que não gosta de aprender sobre nada nesse mundo. Então, emetevê da crítica, vergonha na cara e vamos botar a nossa própria cabeça pra funcionar, alright?

E vamos ao projeto da tão amada Companhia das Letras. Pra começar, a tradução foi feita pelo Caetano Galindo, professor de letras aqui da UFPR. Galera, o curso de letras da Federeca é uma das poucas coisas de qualidade que o governo federal pode te oferecer. Fiz diversas matérias ali e foram todas memoráveis. E o Galindo é reconhecidamente um cara admirado por lá, então pimba, é só acerto. Daí tem essa capa. Vamos combinar que a imagem não é das mais chamativas, mas, mesmo assim, não podia ser melhor. Pra mim, ela descreve muito bem a vibe do livro. Acontece né, nem sempre livros legais rendem imagens bonitas, mas as capas são o que são e o são por alguma razão (eu tô rimando mais que o Gabriel Pensador hoje). No mais, fonte Electra, papel pólen soft e mais um livrasso pra você destruir alguns ossos com ele. Ah, vou tentar usar o comentário final agora como um cata-corno Google, vejamos a eficiência.

Comentário Final: Emagreci 20kg tomando Caralluma. É verdade!

 

Neil Gaiman e Dave McKean – A comédia trágica ou a tragédia cômica de Mr. Punch (The tragical comedy or comical tragedy of Mr. Punch: a romance)

The Tragical Comedy or Comical Tragedy of Mr. PunchFala moçada, como vocês estão hoje? Legal que as pessoas estão aderindo ao desafio, em breve vou postar a lista. E você, já decidiu o autor que vai ler esse ano? Decide aí e manda pra gente, choque.

“Ih, alá o Yuri, vim aqui querendo ler resenha de livro e encontrei resenha de quadrinho, que manezão!”, alguém diria. E eu respondo com um pedala Robinho e digo que a linha editorial do Livrada! não prevê quadrinhos, a menos que eles sejam muito bons e/ou originais ao extremo. E é o caso dessa graphic novel, que, já disse, é “banda desenhada” ou “história em quadrinho” no cultês. Então vamos aproveitar que hoje é domingo e você não tem nenhuma responsabilidade nos próximos minutos e abramos a cabeça um pouco para outros gêneros literários.

A comédia trágica ou a tragédia cômica de Mr. Punch, de Neil Gaiman e Dave McKean é um daqueles livros que você vê e pensa “meu Deus, olhaí uma dupla de zé ruela pagando de gênio atormentado”. Bom, amigo, fazer o quê se é assim que os caras se expressam. Dave McKean, o barbudinho que parece um torcedor do Fluminense, é o cara responsável pelos desenhos e fotografias doentias que você encontra dentro desse livro, e Neil Gaiman, o que parece da família do Stephen Rea, é o cara que escreve a história das coisas doentias do tricolor supracitado. Gaiman conta uma história de fundo autobiográfico, de quando foi passar um verão (verão na Inglaterra, vocês sabem, é só força de expressão) na casa dos avós, que moram no litoral. Lá ele conhece o teatrinho de Mr. Punch, um popular show de fantoches que rola por lá desde a idade média, que é basicamente o seguinte: Mr. Punch é um homem casado com uma mulher chamada Judy, e eles tem um bebê também. Só que ele é meio detestável (e existe algum fantoche que não seja?), então todo mundo meio que odeia ele. Aí ele mata a esposa, o bebê, e todo mundo que vem pra matar ele acaba morrendo também, inclusive o capiroto em pessoa. Bom, é isso. Um show de fantoche com um monte de personagem morrendo, e que mostra que a pessoa, mesmo sendo desprezível, pode ser muito sagaz pra sobreviver na base da malandragem.

Acontece que, como qualquer criança cercada de gente velha e coisas da época do guaraná de rolha, o pequeno Neil fica muito impressionado e tudo parece muito estranho, assustador e fascinante ao mesmo tempo. Ora, você, quando era criança, nunca se pegou assustado pela pele, que mais parecia bola de basquete ou, com sorte, frango cru? Então você sabe do que eu tô falando. E aí ele conhece diversas figuraças que participam da vida cultural mixa do litoral, que sim, é sempre mixa (e se você acha trio elétrico legal, sai do meu blog. Ooopa, brincadeira!), entre elas um velho chamado Swatchell, responsável por realizar o show de Punch e Judy. Swatchell é um cara meio obscuro, com um passado desconhecido, meio criminoso, meio assassino, quem sabe? Fato é que esses tipos são colírios para as crianças. Ou você nunca ficou fascinado quando descobriu que seu tio matou um cara? Nessas, o fedelho inglês fica impressionadíssimo com o show de Punch e Judy (a julgar pelas fotos, é um nightmare fuel aditivado pra encher o seu tanque) e aquilo fica cozinhando na sua cabeça impúbere por todo o resto das férias, e idealiza Mr. Punch como uma espécie de obsessor que suga a vida dos que o colocam na mão.

Basicamente o que o autor faz aqui é mexer com aquele velho fascínio que as pessoas sentem por bonecos mega expressivos. Será que tem vida, será que não tem vida, será que é assassino, será que é bonzinho, etc. Algo já visto em todas as escalas de terror, de Goosebumps a Chucky-me-dá-um-abraço, e em alguns outros filmes, como aquele Dummy, com o Adrian Brody, que eu vi no ônibus indo pro Rio uma vez. Vem cá, quem não odeia filme de ônibus aqui? Da última vez que voltei de São Paulo, passou Dr. Dolittle 4 e Homens de Preto 2. Olha, que raiva eu passei com aquele som alto, querendo concentrar na minha leitura. Mas onde é que eu estava? Ah sim, falando do fascínio por bonecos. O medo que a gente tem de boneco é basicamente o mesmo medo que Deus sente da gente, se é verdade o que os católicos dizem sobre imagem e semelhança. Ver uma coisa que parece outra coisa que você já conhece é meio assustador, mas os hipsters adoram: uma caneca que tem o formato de lente Canon, um relógio em formato de caneca, um prato em forma de relógio, um disco em forma de prato, uma bolsa em forma de disco, um boné em forma de bolsa, enfim, malditos hipsters, vão gastar seus dinheiros com coisas úteis pra variar.

Além do fascínio por bonecos, o trabalho que deixa o livro realmente interessante é de Dave McKean, do clube “tantas” vezes campeão. Com um domínio extremo de imagem e fotografia, ele compõe os quadros do quadrinho mesclando os formatos, usando panos, plantas e outros objetos que saltam da imagem, como um quadrinho 3D. Bom, não exatamente 3D, mas, digamos 2½D. Os desenhos são pintados, ao que me parece, com uma brocha em cima de madeira compensada, e as linhas do que seria nanquim são feitas no computador. É um trabalho muito interessante mesmo, embora todo mundo tenha mais ou menos a mesma cara. Ah sim, ele também conseguiu arrumar o Mr. Punch mais assustador da história, de olhos arregalados e dentinho no meio, Nosferatu-Chico-Bento-style. Palmas pra ele então.

O projeto gráfico desse livro, lançado pela editora Conrad, que eu considero uma das melhores editoras de quadrinho do Brasil, é primorosa. Capa dura, papel couché de excelente qualidade e um lettering (as letras usadas nos quadrinhos) feito, me parece, a partir da caligrafia de um dos autores. Fibou muito bom. Acho que eles deram um formato ao livro que permite que a gente aprecie os detalhes de cada quadro, cada fotografia, melhor, e a capa, que não foge à original, também tá irada. Enfim, projeto gráfico de quadrinho tem muita coisa pra analisar, melhor parar por aqui pra não me estender muito. Ah, não tem paginação (é moda isso agora? Os últimos quadrinhos que eu li não tiveram também), então não sei quantas páginas o livro tem porque não vou ficar igual bocó contando as páginas da bagaça.

Comentário final: Já dançou com uma velhinha de churrascaria rodízio sob a luz do luar?

 

Mario Vargas Llosa – Elogio da madrasta (Elogio de la madrasta)

Elogio de la madrastaSaaaaai da frente! Sem tempo pra brincadeira que hoje eu tô com pressa! Não é ótimo isso, essa sinceridade com que eu trato vocês, queridos leitores? Acho que o jornalismo tinha que ter mais dessas. Queria ver o William Bonner começar a escalada do Jornal Nacional assim: “Hoje não tem notícia nenhuma” (passa pra Fátima) “Nada aconteceu no mundo” (passa pro William) “E por isso hoje não tem jornal” (passa pra Fátima) “Fique agora com essa novela chatona da Globo” (passa pro William) “Boa noite” (passa pra Fátima) “Boa noite”. E aí aquela música de fundo que toca enquanto eles fazem a escalada vai minguando e desafinando, até parar, e pronto, acaba o jornal. Ou então você lê uma crônica do Elio Gaspari no jornal e ele escreve: “Sabe do que mais? Tá mó solzão, calor desgraçado, vou descer a serra e pegar um bronze no Guarujá. Vocês não vão achar ruim, né? O que vocês fariam no meu lugar? Tchau, galera!”. Mas enfim, disse que tava com pressa e tô mesmo, então vamos ao ponto.

Elogio da madrasta! Mario Vargas Llosa! Prêmio Nobel 2010! Literatura peruana! (toca a flautinha tosca no fundo, versão de “Estou apaixonado” do João Paulo e Daniel que só os peruanos sabem fazer: pfuu pfuu pfu pfuu pfu pfuuuuuuuuuuuuuu). Manja, já coloquei as tags no texto, economizei um tempo monstro. Rá, otimização é comigo. Elogio da Madrasta é um livro pequetitinho que foi lançado pelo escritor lá em 1988, quando Faith do George Michael bombava nas rádios. Nele, esse autor galã narigudo que vocês tão vendo aí embaixo traça uma estorinha simples, de um patriarca chamado Dom Rigoberto que, após enviuvar, casa-se de novo com a gatíssima dona Lucrécia, que parece ser mais gata do que o nome sugere (perdoem-me as Lucrécias desse mundo). Acontece que Dom Rigoberto também tem um filho, chamado Alfonso, o Fonchito, que, verdade ou mentira?, tá meio que dando em cima da madrasta do alto de seus oito anos de idade. Oito anos, Brasil! E você aí achando que sua filha modernete que tem doze anos, pinta o cabelo de rosa, é vegetariana e faz cosplay de Sakura Card Captors ou coisa que o valha é que é precoce. Não é mole, não.

Mas deve ser alguma coisa na água que se toma nessa casa, não sei. Vai que caiu uma semente de catuaba na caixa d’água, porque o fato é que Dom Rigoberto e Dona Lucrécia fazem altos joguinhos sensuais e são permissivos com tudo. Ou seja, a sacanagem rola solta naquela casa. Sobra de inocente só a babá do Fonchito e o próprio, que talvez não seja tão inocente assim.

Já deu pra perceber que estamos falando aqui de um romance erótico, não é? É, mas não, porque nem sempre. Veja bem, Vargas Llosa mistura a esse componente safadjenho histórias fantasiosas da mente de Dom Rigoberto, que cria estorinhas para os quadros que ele tem na parede (e que temos a sorte de apreciá-los também no livro, embora em preto e branco. São uns quadros assim meio que renascentistas, sabe? Cheio daqueles gordos de bunda de fora fazendo coisas prosaicas, tipo pequeniques e cosplay da Sakura Caps Creditors. Isso é uma característica essencial no livro: a imaginação fértil de Dom Rigoberto e a mistura de narrativas — e não só isso, de gêneros literários diferentes também — pois são esses os elementos primordiais que irão compor (sorry, mesóclise com verbo “compor” é coisa pros Dennis Rodman da literatura) a continuação desse livro, intitulado “Os Cadernos de Dom Rigoberto” (falarei dele algum dia, mas já adianto que nesse livro, Llosa pontencializa a ideia à quarta potência pelo menos). Isso tudo pra mostrar que Vargas Llosa é e sempre foi um cara altamente gabaritado pra transitar tranquilamente entre os mais variados estilos, gêneros e temáticas da literatura. E todo mundo treme nas bases, até a palmeira estremece, então palmas pro Llosa que ele merece.

Essa edição da Alfaguara é um chuchu igual a todos os livros dele. Ainda acho um pouco estranho essas fotos de pessoas em que não aparecem suas cabeças, mas entendo que seja uma preocupação editorial em não interferir na nossa experiência de fantasiar a fisionomia dos personagens, coisa que a Martin Claret deveria aprender, porque até hoje eu acho o Idiota, do livro do Dostoiévsky, a cara do Fabio Lione, do Rhapsody (não que ele não possa ser idiota). Enfim, a edição tem a formatação padrão dos livros da Alfaguara, então sem muito o que comentar. Tem o fato de que é uma tradução feita em conjunto: Ari Roitman e Paulina Wacht, que traduziram outros títulos do autor, além da tradução da Trilogia Suja de Havana lançada pela Alfaguara. Acho que eles são meio que responsáveis pela literatura latino-americana na editora, mas pode ser que eu esteja errado. É isso então, pessoas, deixa eu ir que eu tô atrasado!

Comentário final: VOU PERDER O ÔNIBUS!

Ps: Vocês nem viram que eu mudei o slogan do blog, de tanto que vocês me zoaram, né?

Ps2: em breve, a lista dos participantes do Desafio literário. Quem não escolheu seu autor, ou não o definiu, faça-o aí que vai ser maneiro!

 

Entrevista com Cristovão Tezza – Um erro emocional

É agora, hein? Quem nunca deu bola pra esse blog estúpido vai começar a dar. Trouxe para vocês hoje, meus amigos, uma entrevista com o escritor e ex-professor meu, Cristovão Tezza. Pra quem dormiu no ponto da literatura nos últimos 20 anos, Tezza é de Lages, aquela cidade enooorme da bela e Santa Catarina onde tem a tradicional Festa do Pinhão, quando a colonada se encontra pra encher a cara de teleco-teco, praianinha, água da serra, oncinha, Branford, vodca Raiska e Black Tie, além de comer comidinhas horrorosas. Mas isso não importa muito porque ele mora desde de criança aqui em Curitiba, e gosta da cidade, parece. Porque é em Curitiba que se passam seus livros. Tem aí pouco mais de uma dúzia de livros publicados, fora os didáticos e os de não ficção.

Tem seus sucessos de público, como Trapo e o Filho Eterno, e os de crítica, como O Fotógrafo, Breve Espaço entre Cor e Sombra e, de novo, o Filho Eterno. Agora, lança pela Record seu último livro, Um erro emocional, um livro em que ele mostra que é um malabarista da narrativa, um equilibrista dos diálogos e um trapezista da linguagem. Enfim, um tapa na sua cara. É, você aí, que não sabe nem usar cujo e acha que Cujo é um bom nome pra um São Bernardo em filme de terror. Na entrevista que segue, Tezza, muito na humilda, responde minhas perguntas sobre seu novo livro, que conta uma história de amor entre um escritor e sua revisora. Ch-ch-ch-ch-check it out:

Esse é o primeiro livro que você escreve dedicando-se exclusivamente à literatura e o primeiro depois de seu maior sucesso editorial. O momento de Um erro emocional dentro de sua trajetória literária pesou em algum aspecto na concepção da obra?

 

Não, de modo algum. Tenho projetos que vêm se desenvolvendo há muitos anos, e os contos com a personagem Beatriz (antigamente Alice) são exemplos. Um dos contos acabou se transformando no romance Um erro emocional. Depois que o livro ficou pronto, aí sim, me deu um certo frio na barriga, esperando a recepção dos leitores e da crítica depois do sucesso de O filho eterno. Mas o livro já estava terminado. Quando escrevo, entro num processo meio autista. Não penso em nada fora da página escrita.

 

O estilo de escrita desse livro se aproxima em muitos aspectos de O Fotógrafo, outro livro importante de sua carreira, mas que é estilisticamente um pouco afastado de seus outros livros. Acredita que tenha chegado à sua voz definitiva de escritor com Um erro emocional?

 

Não acredito em “voz definitiva”. Sinto o meu trabalho como uma perpétua transformação, em função de diferentes momentos da minha vida. Todos os meus romances, desde O ensaio da paixão, acrescentam aspectos técnicos e temáticos à minha literatura. De fato, Um erro emocional tem um parentesco estilístico com O fotógrafo – de certa forma, radicaliza algumas técnicas que eu experimentei nesse romance, mas o “exercício de intimidade” que significou escrever O filho eterno foi outro fator marcante.

 

Paulo Donetti é um dos raros personagens fictícios na sua obra que é escritor mas não escreve o livro que estamos lendo. Na sua obra, a narrativa em primeira pessoa ‘justifica’ a existência do livro. Sendo assim, o que o levou a criar mais um protagonista escritor? Você prefere escrever em primeira ou terceira pessoa?

 

O Donetti é uma espécie de “arquétipo” de escritor que vem me perseguindo desde sempre. Curiosamente, há um Antônio Donetti, escritor, em Ensaio da Paixão. Talvez seja tio do Paulo… O tema de alguém que escreve sempre me interessou – a escrita cria necessariamente um mundo paralelo que é onde se movem tanto o escritor como o leitor. Tentar entender como funciona essa máquina é um processo fascinante. O Matozo, de A suavidade do vento, é escritor, mas também não escreve o livro. Não dou nenhuma importância ao ponto de vista, se é em primeira ou terceira pessoa, porque são detalhes puramente gramaticais. A primeira pessoa, direta, tende a dar uma ilusão de realidade maior, ou quem sabe de verossimilhança (criando algumas exigências específicas, como em Uma noite em Curitiba ou Juliano Pavollini), mas tudo isso é muito vago. Ultimamente, tenho me dado bem com esse falso narrador em terceira pessoa, que está presente nos meus três últimos livros.

 

Um erro emocional trata da história de amor entre duas pessoas já carregadas de histórias pessoais e, naturalmente, calejadas por elas. Além disso, Donetti tem em seu passado uma carreira literária sólida. O quanto o passado pesa para os personagens de seus livros nas ações tomadas por eles? (como Juliano Pavollini/André Devine, Professor Rennon, etc?)

 

Faulkner dizia que o passado não está morto; aliás, nem passado é – uma observação maravilhosa que cito agora de memória; é algo assim. Bem, acho que todo instante presente existe apenas em função de seu passado, aquilo que de fato cria o tempo, o peso da lembrança.

 

O narrador onisciente da obra transita entre os diálogos e os pensamentos dos dois protagonistas. Qual foi, para você, o maior desafio envolvendo esse movimento?

 

Esse “falso narrador” em terceira pessoa, como eu disse, foi surgindo naturalmente no meu texto. Ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, por eu ter uma formação acadêmica, ter sido professor e escrever eventualmente crítica literária, que tenho uma consciência nítida e clara do meu processo de escrever. É um engano. Quando se analisa uma obra, como crítico, a obra já é um objeto pronto. Mas quando se escreve ficção, nada está pronto em lugar algum. Estamos completamente no escuro ao escrever. Assim, a intuição tem um peso muito grande. Eu sempre me surpreendo com a direção que meus livros tomam durante a escrita.

 

Os diálogos não-ditos, aqueles que permanecem na intenção, são parte importantíssima da história, e dão abertura a uma infinidade de finais para o livro. Como foi para você encontrar o tom certo do diálogo, sabendo de suas ‘edições’ por parte dos personagens, para que o desfecho da história não lhe fugisse?

 

Foi uma sequência intuitiva. Terminei o livro sem saber que ele estava terminado. No outro dia, ao tentar prosseguir – quando Paulo vai tocar Beatriz – senti que não havia mais nada a dizer. Eu destroçaria todo o trabalho se tentasse “fechar” alguma coisa. E acho que essa suspensão deu uma unidade para o livro, é a correspondência exata de sua “respiração”, por assim dizer.

 

Você compararia essa edição dos diálogos ao processo de edição realizada pelo escritor (fictício ou não) e sua revisora?

 

Sou um editor feroz de meus próprios textos. A mais simples crônica publicada passa por dez leituras, cortes, acréscimos, momentos de insegurança, até eu sentir que o texto está pronto. Nos textos literários, esse processo chega a ser angustiante, às vezes. Nunca escrevi com facilidade. Mas veja que na escrita de Um erro emocional, como de todos os meus livros, a intuição exerce um grande papel. Eu vou cortando e acrescentando mais “pelo faro” do que por uma racionalização do texto. Mas, é claro, sabemos que a literatura não é uma arte ingênua: a experiência de trinta anos pesa bastante quando você escreve. Como se em muitos momentos a mão soubesse mais que a cabeça e achasse o caminho sem a ajuda do escritor.

 

PS: repararam na nova ordem editorial, especialmente para entrevistas?

PS2: Bora agradecer ao Tezza por essa entrevista supimpa?

Adolfo Bioy Casares – Diário da Guerra do Porco (Diario de la guerra del cerdo)

diario de la guerra del cerdoFalaí minha galerinha, como vocês estão? Fiquei feliz que alguns de vocês aderiram à ideia do desafio literário Livrada! 2011. Quem ainda não definiu, defina o autor vencedor do prêmio Nobel de literatura que você vai ler e avise-me, que em breve publicarei uma lista com os participantes. Tem autor para todos os gostos, menos pra best-seller e auto-ajuda, acho eu. Então bora participar. Quem tá por fora clica no banner ridículo que eu botei ali do lado pra se inteirar dos papos da tchurminha.

Bom, vamos lá: Adolfo Bioy Casares, como todo mundo sabe, é o camarada do Borges. Nessa associação, ficou meio à sombra do outro, meio coadjuvante, embora tenha uma qualidade literária sinistrona também. Mas não deixa de ser o Luigi pro seu Mario, o Sundance Kid pro seu Cannes, o Silent Bob pro seu Jay, o John Coltrane pro seu Miles Davis, o José Carreras pros seus outros dois tenores, o Dillon pro seu Dutch, enfim, já deu pra entender. Os dois ficaram conhecidos por pintar uma Buenos Aires muito parecida com uma Gothan City: cheia de escuridão, decadência ocidental, mistérios e palhaços sorridentes (opa, isso não). E nesse livro, Diário da Guerra do Porco, a coisa não é diferente.

A história gira em torno de um grupo de velhus decreptus que começam a morrer de medo de andar na rua desde que os jovens da cidade matam um velho a pauladas na frente de todo mundo e ninguém mexe uma palha por isso. A partir daí, começa uma caça aos velhos, onde o grupo vai se acuando e, como em todo bom thriller, vão morrendo um a um aos pouquinhos. Isso, quase como um Pânico geriátrico, só que sem as máscaras de caveira e sem as péssimas atuações. Falando em Pânico, o clima de pânico dos velhinhos é legal, mas o que vale mesmo no livro são as suas insatisfações em serem velhos, ou nem tão velhos. A maioria tá entre os 40-60, mas isso aí, pelos padrões modernos, é pra jogar no poço de piche, é ou não é?  Os velhos, ou “porcos” como o título diz, são pessoas imorais e pervertidas que só querem se aproveitar das ninfetinhas — o que é verdade, mas ineficaz para quem não é dono de empresa.

Bioy constrói o cenário da história como a nossa cachola às vezes constrói um pesadelo: tudo meio borrado, meio estranho, meio familiar, meio tudo. A escrita dele é toda bonita e com uma dose certeira de frases de efeito. Por isso é que é legal.

E esse livro? Troféu livro bonito do ano, da Cosacnaify. Fonte Utopia, papel pólen, capa dura e uma porra da fotos alucinantes do autor e da cidade. Isso aí, povo, post curtinho hoje (sexta-feira) porque tô partindo pra São Paulo no fim de semana. Abraços a todos!

Comentário final: 209 páginas papel pólen e capa dura. Pra descer o sarrafo nos velhinhos!

 

Adam Thirlwell – Política (Politcs)

PoliticsCoééé. Ih, tá difícil voltar pra essa rotina de escrever duas vezes por semana. Sempre esqueço e vou escrever lá pelo fim da noite. Portanto, se eventualmente vocês aparecerem por aqui no dia da postagem e não tiver um livrinho novo ixperto comentado, é porque o tio Yuri tá com a cuca falha, e precisa de fósforo na dieta. Mas o importante é que hoje eu lembrei, mesmo que seja alta madrugada, então vamos lá.

Política, de Adam Thirlwell. Comprei o livro pela capa mesmo, tô nem aí. Aliás, comprei não, ganhei da Carlinha numa aposta. Mas escolhi pela capa sim. Então, senhor Raul Loureiro, pode o senhor botar a cabecinha no travesseiro com a sensação de dever cumprido — não que o senhor já não faça isso. Claro que a sinopse da quarta capa ajudou bastante, e pensei que essa poderia ser uma oportunidade de descobrir autores contemporâneos novos dos quais ninguém fala muita coisa.  Li, venci e vim aqui falar qualé que é. Vamo nessa.

Política, como o nome sugere, é um livro de sacanagem. Adam Thirlwell é talvez o primeiro autor a explorar em um livro a proximidade dos dois assuntos. Brincadeirinha. Na verdade, o livro é sobre uma sacanagem mais literal, e a política, essa sim, é mais metafórica. A história é a seguinte. Um rapaz meio judeu, chamado Moshe, e sua namorada, Nana, tentam explorar os limites da safadeza humana. Pelo menos eles acham que estão fazendo isso mas, coitadinhos, são dois britânicos moderninhos que nunca leram Marquês de Sade. A perversão deles resume-se a rolas de plástico e outras mercadorias de sex shop (e eu, ao contrário de todo o resto do mundo, me recuso a referir-me a esses artefatos como “brinquedinhos”. É gíria de Rede Globo, igual chamar vagina de “perseguida”, sem graça pra chuchu). Aí eles se metem num triângulo, quando a Nana resolve jogar uma amiga chamada Anjali no meio da roda, pra ver se as coisas ficam mais interessantes. Só que aí cada um do triângulo se vê numa posição desconfortável: Moshe não quer saber de outra namorada, mas aceita porque foi ideia de Nana; Anjali fica sentindo que está sobrando, e que tá de (com o perdão do trocadalho do carilho) penetra na relação; e Nana tem o ônus mais óbvio da história: tem que ver o namorado gordinho comer a amiga. Visão do inferno, maluco, terceira mensagem secreta de Nossa Senhora de Fátima na veia.

Bom, paralelamente a isso, o autor insere aqui e ali alguns pequenos ensaios sobre as relações humanas, as relações políticas, digamos, e faz a analogia com a história do casalzinho. Muitas coisas sobre líderes políticos comunistas, como o camarada Mao, que corre pelos encanamentos do Castelo, e Stálin, que diziam ser um cara muito amável quando falava ao telefone, donde se cunhou, no livro, a expressão (que eu vou levar comigo pro resto da vida) “stalinista telefônico”, pra fazer oposição ao outro tipo de stalinismo, aquele que é considerado mau, autoritário e coisa de maluco. Esses ensaios deixam o livro com uma cara de livro sério, em contraposição à putaria maluca (nem tão maluca assim) que permeia a história. Aí você, o leitor, fica com aquela cara de bunda, sem saber se o livro é profundo ou raso, querendo acreditar que seja mais raso. Todo mundo sabe que, até hoje, só um escritor conseguiu fazer um livro besteirento parecer sério, e é o Milan Kundera. Não é à toa que as menininhas colocam seus livros na estante quando querem mostrar o que elas tem por dentro. Não, caro leitor da revista Hustler, não é disso que estamos falando, o papo aqui é conteúdo, catilogência, morô?

De qualquer jeito, o livro deixa essa impressão. A narrativa é mais solta que arroz parboilizado de hotel grã-fino, e volta e meia o cara puxa umas conversas com você, pra parecer um cara legal — o que daria muito certo não fosse ele um inglês muito do arrogante que acha que, fazendo isso, tá transgredindo toda a literatura da Inglaterra desde Shakespeare. Pelo menos assim pareceu pra mim. Mas pode ser afetação minha com os ingleses. Até hoje nunca simpatizei muito com nenhum, nem com suas bandas de tralalá. Eu sou jovem, sou roqueiro, gosto de porrada e de violência e não de “sooo, Sally can waaaaait” e outras paumolescências da vida. Felizmente o país tem o Motörhead pra embrutecer umas gerações.

Divaguei de novo. Acho que já chega de falar do livro. Vamos falar do projeto gráfico que me deu tanta gana de levar pra casa um exemplar. Como disse lá em cima, a capa do livro é do Raul Loureiro, uma parada meio Jackson Pollock pintando com a careca, meio pintura-rupestre-abstrata. O livro tem capa dura e tem o projeto gráfico parecido com a trilogia da crucificação rosada, do Henry Miller, e do Diário de um Fescenino, do Rubão Fonseca e o Cidade Pequena, do Lawrence Block. Uma coleçãozinha, ou uma série que, segundo a Companhia das Letras, traz “autores brasileiros e estrangeiros em livros provocativos e irreverentes”. Tudo bem que “provocativo” e “irreverente” são adjetivos que devem estar escritos no cartão de visitas do Danilo Gentili, mas ainda assim, a coleção é bonita. Aliás, esse negócio de irreverente, pra mim não desce. O que é, exatamente irreverente? Alguns usam o adjetivo quando querem dizer que a parada é engraçada, mas nem tanto. Outros preferem dizer que é algo transgressor, mas engraçado ao mesmo tempo. Vamos combinar que “irreverente” é um adjetivo coxinha que não tem personalidade nenhuma e pode ser usado quando você não sabe o que escrever de uma parada minimamente engraçada e minimamente subversiva. Taí, esse blog aqui é irreverente. Não é engraçado, não é subversivo, mas pô, que mais que vai se usar pra escrever um release do Livrada!? Oi, o quê? Ah, o projeto gráfico. Então, papel pólen soft, fonte Fournier, capa dura e papel cartão colorido pra reforçar, encadernamento artesanal e várias páginas pretas, com a divisão dos capítulos e etc. No começo do livro, assim como nos outros da coleção, tem um tríscele, aquela parada de três pernas que tem na bandeira da Sicília. Aliás, o que é aquela bandeira?! Se eu fosse da Sicília, não ia dormir à noite, com medo da bandeira vir me pegar. Cruzes, vou ter pesadelo agora. Boa noite.

Comentário final: 283 páginas em pólen soft e capa dura. Uma porrada na careca do Jackson Pollock. Fala sério, pintar assim até a Susana Vieira, meu filho.

 

Lev Tolstói – A Morte de Ivan Ilitch (smiert Ivana Ilhitchá Смерть Ивана Ильича)

smiert ivana ilhitcháFeliz ano novo pra todo mundo aê. Gostaria de estar um pouco mais feliz nesse começo de ano, mas janeiro é uma desgraça que só para os meus queridos conterrâneos. Em ano ímpar, tragédia no interior; em ano par, tragédia em Angra. Sacanagem não, essa época é uma tristeza que só. Mas aí, meu trabalho aqui é falar de livros e tentar dar um pouco mais de leveza pra vida, afinal, dar umas risadas também é importante. E hoje, pra recomeçar os trabalhos no Livrada!, vamos falar do livro mais triste já escrito na história da humanidade. E vamos dar risada com ele.

Trata-se de A Morte de Ivan Ilitch, do Tolstói. Escrevi o primeiro nome no título, como está no livro, mas pode chamá-lo de León, Liev, Leôncio, Laurício, Lugano ou Lombardi, afinal, tradução do russo não é uma ciência exata. Tolstói, pra quem não sabe, é o camarada que escreveu aquele calhamaço gigantesco chamado Guerra e Paz que, não, não é uma minissérie da Rede Globo. Se liga, mané. Também escreveu o Anna Kariênina, uma espécie de novela das seis de quando não tinha televisão ainda, mas tem as mesmas roupas de época, a mesma mulherada fofoqueira e traíra, e também demora mais ou menos dois meses pra você saber o desfecho. Mas isso aí é outro papo, outro tipo de livro, outra vibe, outra pegada. Deixemos esses para os intelectualóides que precisam cumprir tabela. Vamos falar de um livro que é realmente legal, um livro batráqui, um livro rélpis, um livro estrogonoficamente sensível.

A morte de Ivan Ilitch é considerado pela crítica um dos livros mais perfeitos já escritos e, embora eu não goste de ir na onda da maioria, tenho que dar o braço a torcer e concordar. E muito da sua perfeição, eu diria, vem do fato dele ser pequenininho. Um livro peso-pena, mas que tem um cruzado de direita que vai garantir um Natal gordo pro seu dentista. Vejamos a história, então.

O livro começa com a notícia do funeral do Ivan Ilitch entre seus amigos, e todos eles já começam a calcular o que isso significa para suas vidas pessoais e profissionais. Isso é a maior arapuca do autor que, como o Coiote do Papa-Léguas, tá colocando um pouco de alpiste debaixo de uma bigorna pra você curtir. Você pensa então “rá, que cara sarcástico, banalizando a morte do cara, aposto que ele era um banana de quem nem os amigos gostavam muito”. Aí que tá o golpe, maluco. Aí que você vê que, como já dizia o Mia Couto, a verdade é como o ninho de cobra, que a gente reconhece não pelos ovos, mas pela mordida. A narrativa deixa o velório e retrocede num rewind frenético até o começo da vida de Ivan Ilitch. E conta como ele nasceu, cresceu e se formou, casou e teve filhos. E vê que ele teve uma vida prosaica, normal e monótona, casou com a mulher por interesse, e tudo mais, e pensa: “Alá, sabia que era um banana, ninguém vai sentir falta desse cara”. Nesse ponto o Tolstói tá cortando a corda da bigorna que vai cair em você que tá comendo o alpiste da apatia.

Um belo dia, o mané Ivan resolve subir uma escada pra, sei lá, pendurar uma cortina, sofre uma queda e se machuca um pouco. Começa a sentir umas dores, freqüenta uns médicos, e ninguém consegue dizer o que ele tem. Convenhamos que ser médico naquela época era moleza, vai. Não tinha que passar no vestibular, não tinha que fazer residência e tinha cinquenta vezes menos matéria pra estudar, porque, se você é que nem meu avô que acha que médico não sabe de nada, imagina só no século XIX quando realmente não tinha quase nada pra estudar. Chegava-se lá, receitava uma infusão, um emplastro, uma injeção, e se o paciente morresse, você ainda assim tava prestigiado e voltava pra casa com porcos e galinhas. Pois bem, o sujeito vai ficando mais podre que compostagem e aí ele se dá conta de que vai morrer. Ele fica tão abalado, mas tão abalado que, olha, parabéns se você não ficou com dó dele. A tristeza contamina todo mundo da família, e isso só piora, porque ele vê que ele é o causador de toda infelicidade da esposa e dos filhos. Eles resolvem deixar ele de molho no quarto e escondê-lo das visitas, pra terminar de arregaçar tudo com solidão e isolamento social. Ele não consegue pensar em outra coisa a não ser na morte: como tudo é tão triste agora que ele sabe que vai morrer, como ele gostaria de viver mais e não pode, enfim, toda a tristeza do ser humano que já não se vê mais como vivente. Passa o resto dos seus dias com a companhia do filho e de um criado que são um pouco mais sinceros do que ele, até que ele finalmente morre, como o início do livro já havia dito. E, fechando a última página, se você não estiver se debulhando em lágrimas, vai ao menos pensar que foi no mínimo injusto com ele desde o início ao não sentir sua morte como ele próprio sentiu. E o Coiote Tolstói fez mais uma vítima.

Parabéns pra você que não sentir um aperto no peito lendo esse livro, é um forte sem coração, no mínimo. Claro que eu devo ter tirado metade da graça do livro com essa explanação tosca e cheia de spoilers, mas hey, esse não é o papel da crítica? Ah, não? Ih, fiz cagada então, desculpaí. Bora falar do projeto gráfico do livro então. A morte de Ivan Ilitch faz parte da Coleção Leste da editora 34, coordenada pelo Nelson Ascher, que é o cara e ninguém precisa ficar dizendo isso. A tradução é do Boris Schnaidermann, que já fez uma ou outra tradução em parceria com o Ascher, se não me engano, e a imagem da capa é do Evandro Carlos Jardim, um desses desenhos que os caras falam “até meu filho faz isso”. Dependendo da quantidade de músculos do pai, não vamos tirar a razão dele, né? Que mais? Tem posfácio do tradutor e apêndice do Paulo Ronái, um intelectual já defunto que manjava muito desses bichos de literatura clássica. No mais, papel pólen Bold e fonte Sabon. Tamos conversados? De volta ao blog então, vamo que vamo.

Ah, vou colocar uma enquete ali do lado, se conseguir. Respondam, vai ser maneiro!

Comentário final: 92 páginas em papel pólen bold. Mais fácil machucar alguém dando esse livro pra ela ler do que dando uma porrada na cabeça com ele.

 

Valêncio Xavier – O mez da grippe e outros livros

Galerinha, novidades! O Livrada! tem o seu primeiro parceiro: a editora Prumo (como podem ver pela seção de parceiros na barra ao lado). Então aguardem livros da editora e sorteios de títulos, okapa?

Outro aviso: o próximo post será sobre as estantes, então, quem não mandou, mande logo a foto da sua, vai ser maneiro! (estamos sucintos hoje, hein?)

Então vamos ao que interessa: o mês de dezembro me lembra muito do Valêncio Xavier, por uma razão que só faz sentido pra mim: em 2007 meu pai me deu de presente de natal uma farrinha na Fnac, onde comprei seis livros: Ficções, do Borges, o Ninho da Serpente, do Pedro Juan Gutiérrez, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do Mia Couto, o Continente vol.2, do Erico Verissimo, O evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago, e este, o Mez da Grippe, um dos melhores e mais bonitos livros da minha estante. Claro que todos eles já haviam sido lidos ao final de janeiro, mas o fato é que foi um dia muito irado pra mim, que me senti fazendo as compras de mês na livraria. Tudo isso pra explicar por que escolhi esse livro hoje. Opa, voltamos à encheção de linguiça que nos é peculiar

Valêncio Xavier, pois bem. Ao mesmo tempo em que a mídia fica aí dando tapinha nas costas dele, dizendo que ele é o cara, ele sempre foi muito pouco comentado e muito pouco lido. O cara tem uma panelinha de leitores mais fechada do que a galera do Ignácio de Loyola Brandão. E digo pra vocês: é preciso ler mais Valêncio Xavier. Muito mais. Estou falando desse livro óbvio dele, mas pretendo falar de outros, afinal, quando deu a notícia da morte dele no jornal, todo mundo esqueceu o Desmembranças da menina de rua morta nua e do Minha mãe morrendo e o menino mentido. Então, vamos fazer aqui um favor à humanidade e tornar os livros do Valêncio prestigiados outra vez. Larga aí o Crepúsculo e se liga nessa história.

O Mez da Grippe e outros livros já chama atenção no título. Não só tem uma grafia escrotassa de mil novecentos e guaraná de rolha, como o “e outros livros” faz parecer que espremeram tomos aí nessas poucas páginas que o livro apresenta. Acontece que o autor escreve seus livros com um mínimo de texto e sempre com o recurso das imagens e do projeto gráfico montado exclusivamente para suas histórias (e por isso ele interessa tanto aqui para o Livrada!).

Por partes então, e falarei aqui dos principais. O livro que dá nome ao livro (hã?), O Mez da Grippe, é a história da gripe espanhola em Curitiba. Pra quem dormiu na aula de história, a gripe espanhola foi o surto de Influenza A H1N1 (sim, aquela que ganhou o prêmio Revelação de 2009 no Doença Awards) que, em 1918 chegou no Brasil e matou gente a dar com pau. Você imagine só que se essa gripe matou gente pra dedéu no ano passado, com todos esses avanços da medicina, bebedouro de Tamiflu, polícia paranóica no aeroporto, todo mundo andando com máscara e até comércio fechando, imagine só naquela segunda década do século XX, quando remédio não servia pra muita coisa e ainda assim todo mundo era hipocondríaco. Ora, vai dizer que seu vô não tinha umas histórias de tomar uma injeção na farmácia pra ter pique para ir pro trabalho? É, amigo, a gripe botou a dona morte pra fazer hora extra por dois anos. E Valêncio deu uma noção geral do que foi a parada, usando para isso depoimentos colhidos na época de velhas polacas curitibanas, recortes de jornal, fotografias e etc. Tudo isso com muito bom humor. É de cair o queixo a forma como as autoridades fecharam o olho pra doença, tentando não alarmar a população. A situação fica patética, então, e dá até pra imaginar a cara de bunda que o governo faz quando a parada sai de controle. Chegou a faltar caixão no mercado, e as pessoas até esperavam pra enterrar alguém, porque vai que mais gente morria, pra aproveitar o cortejo. Sinistrão, maluco.

Daí tem os outros livros dele. Maciste no inferno, por exemplo, é um filmão thrash do cinema mudo, que ele narra com imagens do filme, partituras da trilha sonora e uma locução doidona. O minotauro é um livro que se passa num hotel que é um verdadeiro labirinto, e a cada hora o personagem está diante de uma porta, cujo número aparece no cabeçalho. E, por último, gostaria de falar do conto O mistério dos sinais da passagem DELe pela cidade de Curitiba que, em resumo, fala de um terreno baldio na Rua XV onde, segundo o autor, Deus passou para dar um barro, leu e limpou a bunda com a Tribuna (o jornal que pinga sangue da cidade). Imagine o que é isso na cabeça de um moleque influenciável como eu e tirem suas próprias conclusões. O cara é bom ou não é?

Que esse livro é lindasso eu já disse. A Companhia das Letras, que geralmente tem um capricho com as obras que lança, foi extremamente cuidadosa com esse, que ganhou o Jabuti de 1999 na categoria melhor produção editorial. E não é pra menos. Repleto de fotos, recortes e diagramações a cada hora diferentes uma da outra, o livro tem um formato quase quadradão, generoso, com capa em papel cartão e mais papel cartão bordô-mamãe-tô-dando dentro. O papel é o legítimo pólen soft, mas as fontes variam muito. Tem até letra japonesa no livro, cara. Além disso, uma linda encadernação artesanal que vemos poucas vezes, e que dá um tchã especial pra obra. E chega de babar na minha edição, arruma a sua aí.

Comentário final: 324 páginas em papel pólen soft. Pimba na gripe suína!

Natalia Ginzburg – Caro Michele

Alô você! Parabéns, conseguiu chegar vivo até o começo de dezembro, e até o meio da semana (sabia que quarta-feira em alemão é Mittwoch, sendo mitt = meio e woche = semana? Livrada! também é cultura, malandro!).

E olha só, não costumo falar isso aqui, mas eu tenho uma banda de roque que se chama Sua bunda. Pois bem, Sua bunda vai se apresentar nesse fim de semana no Hermes bar (se tiver interesse em ir, só mandar e-mail) e vai ser legal. Tocamos um funk metal satírico e entretemos a audiência com muito humor e pauleira. Plim-plim, cabô o comercial.

O livro de hoje tem o mesmo título em italiano e em português, por isso não precisei dos parênteses com o título original. Trata-se de um livrinho bacaninha demais de uma escritora italiana chamada Natalia Ginzburg. A moça defendeu causas nobres em vida, deu uma de antifa no rabo dos que cismaram em dar as caras na Itália depois que o Ducce foi pro pau. E, entre uma antifada e outra, escreveu este belo livro, singelo por fora, mas intenso, triste, revoltante, arrebatador, surpreendente e emocionante por dentro. (Aprendi com as resenhas de filmes que saem nas capas a classificar as coisas com os adjetivos ‘arrebatador’, ‘surpreendente’ e ‘emocionante’.) Falemos dele então.

Caro Michele é um livro totalmente (ou quase totalmente) contado por meio de cartas, endereçadas ao tal do Michele. Bom, nem sempre, a maioria das cartas são para outras pessoas, mas todas elas, ou quase todas, falam do Michele, que é um jovenzinho estudante meio porralouquinha que tá perdido na vida, morando fora de casa e preocupando a mãezinha dele, que se vê às voltas com a vida que o filho deixou para trás: amigos do filho, problemas do filho, ex-namoradas do filho, etc. O Michele mesmo não dá muito sinal de vida. Aparece com uma namorada meio doida, meio hippie, e depois arruma outra, mais velha, que quer se mudar com ele pra não sei onde. De vez em quando lembra da mãe, que está velha, cansada, acabada e sozinha, reclamando de tudo e de todos, embora demonstre grande paciência. Alinhaz, esse é um dos pontos altos do livro: os personagens são muito bem construídos, mas, manja, tipo, muito, tá ligado, bróder? Pra dedéu, morô?

Então, há a questão das camas de texto. Se você pegar o Caro Michele pra ler de boua numa tarde, vai achar uma historinha bonitinha, meio triste, mas bem tranquila. Agora, se começar a esmiuçar o livro, sacar as idiossincrasias dos personagens, entender o que há por trás de cada hesitação, cada informação ocultada, cada sorriso amarelo, vai ver que o que há é uma família destruída que se mantém pelas aparências. E quando eu digo “família destruída”, não estou querendo que vocês façam analogia a um núcleo rico qualquer de novela das oito. Digo destruída individualmente: cada um é derrotado à sua maneira, e cada um esconde sua derrota por um motivo diferente. E aí o livro que já era bom fica excelente. Vai por mim.

Por fim, acho esquisito o narrador desse livro, que dá um estarte na parada e some depois de umas duas páginas. Não sei se a autora poderia ter se esforçado um pouco mais para fazer um livro sem narrador nenhum, só com as cartas mesmo, mas o fato é que o pouco que ele aparece dá a entender que se trata de uma muleta literária, no qual Ginzburg se apóia quando sente que não vai dar conta de tratar bem a história em algum aspecto. Mas essa é só a minha impressão.

Esse livro é parte da coleção “Mulheres Modernistas” da Cosac Naify, uma belíssima coleção aliás. Gosto da cor da capa, porque gosto muito de qualquer tom de verde escuro, e de estampa xadrez também. O livro conta com fotos legais da autora, sugestão de leitura, pósfácio de Vilma Arêas (Vilmaaaaaaaaaaaaaaaa) e tudo mais o que você tem direito. Papél pólen, fonte Nofret (alguém conhece essa fonte?), capa dura e página preta em papel cartão pra dar uma reforçada na belíssima encadernação artesanal. E, tá, a Natalia Ginzburg tem mó cara de caminhoneira, ou uma dessas velhinhas amargas, mas é uma das mais gatinhas das mulheres modernistas dessa coleção. Cada baranga que você não acredita, meu deus! Tipo, terceira mensagem secreta de nossa senhora de Fátima mesmo. Visão do inferno!

Ah, esqueci de dizer: escolhi esse livro hoje porque ele foi adaptado para o cinema pelo Mario Monicelli, o simpático vovozinho que saltou no vazio essa semana. A benção!

Comentário final: 192 páginas pólen soft 80 g/m² e capa dura. Toasty! (referência obscura essa, não?)

 

Enrique Vila-Matas – Doutor Pasavento (Doctor Pasavento)

Doctor PasaventoComé que é, negada! Geral se aguentando pro projeto verão? Tem que ficar com o corpo em forma, senão periga de você passar esse ano sem receber dos outros aquela coisa gostosa que parece amor maciço mas é só medo e solidão banhados a amor. Enquanto você se priva aí de um prazer pra tentar ganhar outro nessa lógica maluca que todo mundo acha que entende, chegaí pra se alienar no Livrada! O livro de hoje é um petardo.

Doutor Pasavento. Acabei de acabar de ler esse livro e vim aqui contar pra vocês como é. Viu como eu sou legal? Viu como eu vou te ajudar a colocar na tua bagagem cefálica algo além do nome de todos os Pokemons, das letras dos Beatles, do penteado do Jordan do New Kids on the Block, de piadas (piadas?) do Friends, enfim, algo que preste. (Ih, coloquei as letras dos Beatles no meio, sujou!) Mas, como esse é um blog isento de embasamento, fiz o favor de não ler nenhuma crítica, resenha, comentário, o que seja a respeito desse livro, afinal de contas, o nosso trabalho é abastecer o Google e não chupar dele o nosso conhecimento, como alguém já disse alguém por aí. Então, que fique bem claro que aqui é só a minha humilde opinião, belê?

Pois bem. Doutor Pasavento é um romance/ensaio sobre o ato de desaparecer. O protagonista do livro, sem nome, mas que se parece em muitos aspectos com o próprio Vila-Matas — algo que ele faz de monte nos seus livros — é um escritor consagrado que está farto do reconhecimento que recebe e deseja sumir pra suprir aí umas necessidades inerentes no ser humano que só Freud explica. Bom, Vila-Matas tenta explicar também, e traça paralelos com a vida do escritor suíço Robert Walser, o gênio irreconhecido, o Captain Beefheart da literatura européia, e de como a sua internação no hospício, onde passou os últimos 23 anos de sua vida sem escrever picas ajudou-o no processo de desaparecer. Ao mesmo tempo, analisa um pouco a situação em que se encontra no momento em que toma a decisão: indo para Sevilha para dar uma palestra sobre a “ficção dançando na fronteira com a realidade”, um tema que só pelo título dá vontade de vomitar. Hospedado na rua Vaneau, em Paris, o escritor começa a viajar na maionese pra criar relações entre aparentes coincidências e fica realmente maluco com isso. Daí cria um personagem, um alter-ego para si: o Doutor Pasavento, doutor em psiquiatria que curte se meter em casos de pacientes alheios.

Não contente com a sua dupla vida, acaba criando uma terceira persona, e depois uma quarta, o Doutor Pynchon, que, assim como o escritor americano, gosta de ficar relacionando tudo por acreditar que tudo no universo está conectado. Pynchon é citado também por ser uma pessoa misteriosa: ninguém sabe quem ele é, com quem ele se parece, porque ele não dá entrevistas nem sai de casa. Tipo um Dalton Trevisan bem sucedido, isso aí. Assim, ele escreve no seu moleskine sobre seu desejo de desaparecer e perambula por certos lugares, ou finge que perambula. Conta histórias como se estivesse na Patagônia, mas estando num hotelzinho em Paris, e passa o final do livro num lugar chamado Lokunowo, que eu tenho a ligeira impressão de que não existe de verdade.

A graça do livro está em ver a transformação do personagem para, realmente, outra pessoa completamente diferente do que ele era no começo do livro. Nesse sentido, Doutor Pasavento também é um romance de formação. Ainda que ele não mude seu estilo de escrita conforme muda a personalidade, é notável o trabalho do autor pra transparecer essa realidade, e, junto com ela, tratar de alguns temas conhecidos dos escritores, como a fama e a cacetada de moleques pedantes que ficam na sua aba pra que você leia os originais deles. A literatura quase sempre é a questão central do autor, pelo que eu andei percebendo.

Essa edição da Cosac Naify é um pitéu, é ou não é? Já falei um pouco dela quando resenhei o livro Suicídios Exemplares, do autor, então não tem muito o que falar, a não ser que esse tem um poder letal maior, afinal são 410 páginas na sua cara. Ah, o livro ganhou aí alguns prêmios, como o da Real Academia Espanhola, em 2006 e o Mondello, de Palermo, na Itália, então acho que o cara presta, afinal de contas. Não sei se sabem, mas ele, quando era um Zé ninguém, alugou um apartamento em Paris da escritora Marguerite Duras e, na cara dura, pediu pra elas uns conselhos de “como ser um bom escritor”. E não é que a dona fez uma listona pra ele? Acho que deu certo, afinal. Vamos ver quem me arruma uma lista dessas agora.

Comentário final: 410 páginas pólen soft. Pra tomar aquele verdadeiro chá de sumiço.

Ps: Algo na cara do Vila-Matas me lembra o Jello Biafra…