Anton Tchekhov – A Gaivota (Чайка)

Daniel PereiraOlha só, eu não coloquei uma peça de teatro na lista do Desafio Livrada! 2014 (aliás, como vocês estão indo nele?) mas deveria, e por várias razões. A primeira é que livros de peças de teatro são mais legais do que peças de teatro em si (e isso é a minha opinião. Meu blog, minha opinião, sorry periferia); segundo que vocês não andam lendo tanto teatro quanto deveriam – e deveriam, porque o teatro ensina muitas coisas sobre como montar um ambiente e como explicar coisas só com diálogos, o que é importante pra todo mundo deixar de ser prolixo; terceiro, porque livros de teatro são o contrário dos best-sellers na relação quantidade x qualidade. Se eu pedisse pra vocês lerem um, a chance de algo realmente bom cair em vossas mãozinhas seria muito grande.

Pois o fato é que não está na lista, mas vamos ver essas coisas aqui, e desde já peço desculpas pelo excesso de literatura russa aqui, mas é porque eu realmente tô numa vibe que… peraí! Eu não vou pedir desculpas pelo excesso de literatura russa e vocês tão malucos se acham que eu vou. Literatura russa é vida, literatura russa é o que faz essa máquina de editoração de livros rodar, porque se não fosse a literatura russa, se não fosse essa coisa tão legal consagrada há cento e porrada anos atrás, não ia ter tanta gente querendo fazer algo tão legal quanto hoje em dia. Então, vamos ao objeto de hoje.

Eu li A Gaivota quando tinha meus 20 anos em uma edição antiga do amigo Cássio que vinha junto com Tio Vânia, do mesmo Tchekhov, e achei tanto uma quanto a outra uma porcaria enfadonha, confusa e sem nada de maneiro pra acrescentar à minha ignorante cabecinha de jovem. Mal sabia eu que minha opinião estava em consonância com a do povo russo à época da estreia da peça e inclusive com a opinião do grande Tolstói, que disse, não com essas palavras, que A Gaivota era um belo de um sonífero. Parece que só quando ela caiu nas mãos de Stanislavski e Cia. Que a coisa deslanchou mesmo, e o porquê disso não sei, mas também não estou muito interessado. Vou falar aqui por que A Gaivota tem seus deméritos aos olhos dos outros e o que ela tem de legal.

A peça tem quatro atos, uma porrada de personagens – alguns meio inúteis —, uma peça de teatro dentro dela e se passa numa propriedade rural do tio de um aspirante a escritor, filho de uma atriz famosa e já meio esquecida. O sujeito chama Trepliov e no primeiro ato o vemos se preparando para ver a montagem de uma peça que ele escreveu, mas sua mãe fica de palhaçada, todo mundo perde o foco e a vibe, o troço vira um desastre e ele fica arrasado. Essa percepção é mais agravada pela presença de Trigorín, um escritor famoso que rouba as atenções, inclusive a de sua grande paixão, Nina. O caso aqui é uma quadrilha das brabas: Miedviediênko (ah, que delícia a sonoridade do russo explanada na transcrição do tradutor, praticamente um baby talk), o professor, amava Macha, a filha do tenente Chamraiev. Macha, amava Trepliov, o escritor. Trepliov amava Nina, a mocinha atriz de sua peça. E Nina acha que ama Trigorín, mas na verdade só tá mesmo muito entediada e precisando de um Nintendo Wii. Acrescente-se aqui que Arkádina, a mãe de Trepliov, é apaixonada por Trigorín também, e temos aí a macarronada que é A Gaivota.

Pois bem, coisas acontecem na peça, mas não muitas: Trepliov mata uma gaivota e oferece de presente pra Nina, ela e Trigorín trocam juras, Trepliov desafia Trigorín para um duelo e ele foge da raia, e no final das contas Trigorín casa com Nina, vão morar em Moscou e depois ele abandona ela por Arkádina. Nina reaparece, fala com Trepliov, ele pede pra ela ficar, ela não fica e ele se mata.  Oh, meu Deus, Yuri, que cara sem coração é você, jogando esse monte de spoiler na nossa cara. Pois é, get over it. A gente é a maloqueiragem da crítica literária, e se você não aguenta os caras maus, vá ler blog de miguxa parceira de editora e de marca de esmalte.

Anton_Pavlovich_ChekhovDe tudo isso que eu já contei, já deu pra sacar por que A Gaivota não foi um grande sucesso. Quatro atos disso aí só passam rápido se o cara tiver muito na pira de ver um Tchekhov boladão. Se não tivesse o sobrenome, dificilmente sairia do circuito do teatro sério dentro do teatro experimental universitário. Mas isso não quer dizer que não valha a leitura, e é claro que vamos dizer o porquê.

Primeiro, pela angústia do personagem principal. Trepliov é um escritorzinho que precisa competir com Trigorín, que é um escritorzão, e os dois precisam competir com Tolstói e Turguêniev e todos os clássicos. Está aí um dos pontos chaves do livro: o embate do novo com o velho e já consagrado. Não é à tôa que Nina se apaixona por Trigorín, escritor já consagrado e não por Trepliov, e não é à tôa que Trigorín se apaixona por Nina, uma jovem atriz, mas troca ela por Arkádina, a atriz mais velha e já consagrada. E você achando que o Larry Clark era revolucionário por fazer um filme como Ken Park. Rá! A coisa é tão fora de propósito que o sujeito novo não sabe o que fazer e mata uma gaivota pra dar de presente pra mulher. Se a gaivota é uma metáfora para alguma coisa nessa peça, e eu acho que é, é a metáfora para a falta de sentido em pirar errado e na destruição do belo em função de ficar pirando errado.

E isso tem a ver com a segunda coisa legal desse livro, e isso você pode ler no belo texto que o tradutor Rubens Figueiredo (falemos dele mais tarde) preparou para a edição (falemos dela mais tarde também). A Gaivota é uma “comédia em quatro atos”, segundo o autor. Mas não tem nada de engraçado nisso. Mas aí o Rubens lembra a gente que comédia aqui tem o sentido de expressar sentimentos menores, menos nobres, em oposição à tragédia, que é elevada. É uma comédia porque todo mundo é meio patético em suas vidinhas miseráveis e ninguém se entende, ninguém corresponde o amor um do outro e as pessoas fazem coisas estúpidas por causa disso, tipo matar uma gaivota e se matar. A comédia é a vida comum, a comédia somos nozes.

Já falei que o livro da Cosacnaify é da coleção portátil? Não? Pois é. Bela coleçãozinha essa, com suas escalas pantone na capa, suas fontes esquisitas de nome esquisito e sua encadernação artesanal com cordinhas bonitas. E já falei que o livro é traduzido pelo Rubens Figueiredo? Ah, isso já, né? Porque o Rubens é demais e não há porque se cansar de falar dele aqui, principalmente retribuindo a gentileza da vez em que ele disse que eu era parecido com o Tchekhov em pessoa. Ah, como eu sou gatão, foi mal aí, galera! Meninas, façam fila que o papai chegou. Hue hue hue br br. Gosto das traduções do Rubens, principalmente nos nomes, em que ele tenta preservar a sonoridade do russo, e não poupa acentos em lugares desconfortáveis para nossos padrões de leitura em língua portuguesa. Viva!

Um último pedido: se inscrevam no canal do Livrada! no Youtube! É super fácil, é só entrar no Youtube logado com sua conta do google e clicar no botão vermelho embaixo do vídeo onde diz “Inscrever-se”. É a minha chance de fazer isso aqui ir além e render um trocado pra pagar a hospedagem do site, então me ajudem, amigos!

Comentário final:127 páginas portátil e em papel pólen. Russos, ê!

Bernardo Kucinski – K. – Relato de uma busca

Bernardo KucinskiNão sei quanto tempo faz que a gente não comenta um romance nacional aqui, e isso tem mais a ver com a minha pré-disposição para ler brasileiros contemporâneos do que propriamente com a qualidade da produção atual, embora saibamos desde já que nem um nem outro andam despontando exatamente pela excelência. Aí que uma leitora comentou aqui ainda ontem que tava sentindo falta desse tipo de livro por aqui e pensei, ora, por que não? Vamos ao que interessa, mas aviso desde já que tenho opiniões muito parciais sobre esse livro, e explico o porquê.

K. – Relato de uma Busca, o romance de estreia do jornalista Bernardo Kucinski, junta duas temáticas que eu, particularmente, odeio: história da ditadura militar e história de judeu. E odeio ambas não por uma falta de empatia com os protagonistas, pelo contrário, gosto deles, mas por uma overdose do gênero, já que são dois casos em que os sobreviventes são, hoje, o poder estabelecido no mundo. De qualquer forma, é meio complicado pra mim falar disso porque preciso ser sensível ao fato de que o romance de Kucisnki é, em grande parte, real, já que sua irmã desapareceu durante o período do regime burocrático-autoritário que vigorou neste país durante duas décadas, de modo que me perdoem desde já por ser insensível e analisar o livro como criação ficcional. Porque é a partir deste caso que o autor cria uma ficção que tem como protagonista seu próprio pai, que sai em busca da filha desaparecida e é enganado até se perder no labirinto engendrado da guerra psicológica militar contra os familiares dos subversivos.

É assim que ele sai e começa a receber pistas falsas de que sua filha está presa e depois não está mais presa, e ninguém nunca ouviu falar dela, e quem se propõe a ajudar na verdade é informante dos militares, e as notícias de que sua filha está na verdade em outro país ou em outra cidade começam a chegar pelo correio e todo mundo que se propõe a ajudar não consegue ou não quer mesmo ajudar e ele fica maluco tipo um personagem do Kafka – acho que é inclusive por isso que o protagonista do romance chama K., como os Kas do Kafka, perdidos em uma engenhoca burocrática kafkiana sem nenhuma esperança de sair dela algum dia. Ao mesmo tempo, lida com os sentimentos de culpa por ser um escritor meia-boca que escreve em íidiche, a decadente língua dos judeus pré-Estado de Israel e que por conta disso se afastou da família e não viu os filhos crescerem direito. O espanto de saber que a filha se envolvera com a luta armada e o desgosto por ser estigmatizado como parente de uma subversiva – até mesmo pelo rabino, que o impede de comprar um túmulo simbólico pra ela, e o pessoal da gráfica que não o deixa imprimir um livrinho em memória a ela.

Crédito: Carolina Ribeiro

Crédito: Carolina Ribeiro

Embora interessante, o livro traz muito pouca coisa nova na literatura da ditadura militar – bom lembrar que esse não é a primeira narrativa que parte do ponto de vista do familiar que busca o parente desaparecido. Além disso, há de se desconsiderar pensamentos extremados do autor, que em dados momentos insinua que a ditadura militar é pior do que o holocausto porque pelo menos os nazistas faziam registro de seus mortos, e dosar boa parte do maniqueísmo dos personagens, que são ou pobres vítimas do sistema dos militares ou sádicos que trabalham nessa por pura vocação e vontade imensa de fazer mal aos outros. Cada capítulo apresenta uma parte da engrenagem ou um tipo de personagem, e não posso dizer que a grande maioria deles é natural é bem construída.

Ainda assim, o livro se salva pela vida interna do protagonista e pela naturalidade com que expressa a angústia do pai que não sabe onde a filha está, e como a coisa é muito mais complicada do que parece. E pela coragem do autor em transformar um caso real e sofrido de sua história familiar em uma ficção.

A edição desse livro é uma beleza que só. Tem capa gráfica em papel cartão, umas fontes chamas Leitura e Tungsten, que não até que são boas à exceção dos itálicos, que deixam tudo muito ruim de ler, e um papel pólen soft de baixa gramatura pro miolo não ficar mais duro que a capa. O romance é cheio de notas de rodapé que explicam bastante o que não está ao alcance do leitor leigo, ou do leitor não-judeu, e de maneira geral, o texto é bem preparado. Ê!

Comentário final: 185 páginas em papel pólen soft. Ks do mundo, uni-vos!

Ivan Turguêniev – Rúdin (Рудин)

TurguênievEu ia começar esse texto fazendo uma menção ao fato de estar de volta ao Livrada! e tudo mais, mas aí me toquei que tenho começado muitos texto assim ultimamente, e isso porque passei por um período negro em que quase não estava mais lendo, e muito menos escrevendo, e que pular semanas tinha virado uma constante nesse site. Mas agora é, de fato, uma volta, já que é a minha volta das férias, e dessa vez eu li durante as férias (em meio a uma porção de loucuragens que eu fiz) e vou contar pra vocês sobre as minhas leituras, e só sobre elas. De maneira que esse nariz de cera não é o mais encerado da história da humanidade, mas quebra lá seu galho.

Russos, mais uma vez eles e dessa vez, cá estou preenchendo uma lacuna literária importante pra minha vida de leitor (nunca é tarde, não é o que dizem?): Turguêniev, amigos, essa é a bola da vez e é sobre isso que viemos falar hoje aqui. Não tem os cofres e as paredes pintadas de Pais e Filhos, mas tem sagacidade no ar e novelinha das seis de Rúdin, o primeiro romance publicado pelo sujeito, em 1856. Mas veja bem, não vá falar pras pessoas que Rúdin é estilo novelinha das seis porque isso pega mal e os intelectuais não vão te respeitar. Tem que falar termos como “romance de costumes” e coisas assim, mas do quê eu estava falando mesmo? Ah sim, 1856. Na época, Turguêniev já agradava a massa funkeira com os contos que publicava, e Rúdin veio pra coroar o cara como o escritor brilhante que ele não precisa provar muito que é. Mas vamos resumir um pouco a história pra depois falar dela.

Primeiro, a gente precisa analisar bem o título do livro. Rúdin tem esse título porque conta a história de um sujeito chamado Rúdin, que é quem chega botando banca numa sociedade rual nos cu do judas do Império Russo, em um núcleo rico de novela das seis que inclui uma senhora de terras toda poderosa, uma filha mocinha e sentimental, um puxa-saco criado por ela, um dono de terras supostamente rival e um séquito de gente sem muita importância mas que deixa a história mais engraçada. Rúdin chega aí no lugar de um Barão que todos estão esperando, e que deveria trazer algum tipo de texto sobre agronomia ou economia ou algo assim, não lembro. Sei que o sujeito chega lá com toda a eloquência dele e abala o pequeno mundinho de geral, inclusive desbanca o então intelectual do lugar, o patético e misógino Afrikan Pígassov, que tem a única função de dar alívio cômico pra coisa toda.

TurguenievMas Rúdin é um sujeito que é mais de falar do que de fazer. Ele é, na visão do autor, a personificação do homem da década de 40, um homem cosmopolita e sem força de vontade que é condenado pelas circunstâncias que o cercam. No caso, a circunstância é o atraso do povo que não concebe uma formação intelectual cosmopolita, sem uma raiz cultural ou etnológica. Isso mais ou menos representava a imagem dos eslavófilos à europeização da Rússia porque, veja bem, mesmo antes de qualquer União Europeia, os russos meio que já sabiam que europeu é tudo igual, só gosta de fingir que é diferente pra poder fazer guerra com os vizinhos.

A surpresa, entretanto, é que não é esse o pensamento do autor. Ele confessa que escreveu o personagem inspirado por Bakunin (aquele do anarquismo), então no fundo é uma pena que Rúdin seja tão fraco de caráter e que seja condenado por seu tempo. Mas isso tudo tá fora do livro. Por dentro, sempre fica boa a mensagem de que o sujeito que muito fala pouco faz, mas ah… como falar mais sem estragar a diversão dos próximos capítulos? Acho isso cada vez mais difícil, mas sempre tento o meu melhor.

O que gostaria de dizer sobre Rúdin, além de tudo isso que eu já disse, é que é uma prosa extremamente afiada, uma das mais afiadas que eu já vi, com palavras precisas e diálogos super inteligentes e engraçados. Li esse livro com muito gosto como um estimulante para o cérebro, e recomendo a leitura para todos (embora vocês podem ver que eu não tô nos meus momentos mais intelectualmente estimulados, mas veja, é meu último dia em Zagreb e preciso escrever esse texto porque vou deixar o livro emprestado). Discussões pertinentes sobre a vontade, a moral e provocações bestas sobre as mulheres (porque Turguêniev já sabia naquela época que todo machista é meio bestão) fazem de Rúdin o grande livro que é. E agora vou ler mais Turguêniev, e ia fazer aqui uma piadinha de que aceitava o Pais e Filhos de presente porque já tinha tentado fazer um financiamento da Caixa pra poder comprá-lo, mas nesse meio tempo minha querida mãezinha me deu ele de presente então não preciso de mais nada além do meu surf, minhas bongadas, meu dinheiro, meu fileto, meu skank, minhas gatas e meu Turguêniev de luxo.

Rúdin é um dos últimos lançamentos da Coleção Leste da Editora 34, que tem essa brilhante missão de trazer à baila os nossos queridos russos e adjacentes, e a formatação é padrão para todos eles, então nem vou comentar. A capa é que é legal, tem uma pintura à óleo do Vassíli Poliénov retratando o Ilia Repin, enfim, um pintor pintando o outro. Tem um quê de arte flamenga que é maneiro mas de resto são umas pinceladas meio brutas. O que também é legal.

Comentário final: 208 páginas em papel pólen. Grande garouto, tamo de volta na praça pra abalar os seus quintais!

Nikolai Gógol – Avenida Niévski (Niesvki Prospiekt Невский проспект)

GógolE você veio aqui todo feliz em pleno feriado de Tiradentes e não achou nenhuma novidade, gritou “Ó senhor Nego Dito, por que nos abandonastes?”, e eu, calmamente, vos respondo: tava descansando. Também sou filho de Deus e também tenho direito a relaxar e eu não preciso de mais nada além do meu surf, minhas bongadas, meu dinheiro, meu fileto, meu skank e a minha gata, pra citar aqui o falecido Gabriel García Marquez. Mas vim aqui correndo no dia seguinte entregar um novo comentário, ou resenha, ou crítica, ou do que quer que você queira chamar essa conversa solitária que travo aqui com um livro na mão toda semana.

E o da semana é curtinho, mas instigante. Avenida Niévski, do Gógol, esse cara porreta que não nega fogo. A gente sabe que tá cheio de blog aí comentando nicholas sparks e meg cabot (em minúsculas) e adjacentes porque as pessoas têm medo de falar desses livros de gente grande. Mas aqui a gente não tem medo dessas coisas e, ainda que quebre a cara aqui falando merda, vou tecer um comentário de substância sobre esse conto que faz parte da série petersburguesa que Gógol escreveu entre 1832 e 1842.

Bom, a Avenida Niévski, para quem não sabe, é a Rambla, a Rua XV, a Champs Elyseés, a Unter den Linden de São Petersburgo, a cidade quente da Rússia e então, à época da escrita, em 1835, capital do império Russo do czar Nicolau I, aquele que fez miséria no Cáucaso e na Anatólia pra mostrar que não tava de brincadeira. São Petersburgo já havia sido capital do império Russo antes, e apenas por um breve período de quatro anos, entre 1928 e 1932, perdeu o posto pra Moscou, por conta de um certo Pedro II que não é o nosso, mas que também fez lá suas merdinhas por aí. Fato é que foi durante capital durante duzentos anos não consecutivos, de 1713 a 1918 – um ano em que a única coisa que continuou de pé naquelas bandas foi o idioma e a birita. De modo que, quando Gógol escreveu sobre sua principal via, São Petersburgo já era o point do império, que inspirava modernidade agitação e artificialismos, enquanto Moscou ficava com aquela aura do Rio de Janeiro, dominando a cultura mas ressentido da importância perdida. Essa edição, aliás, vem com um caderninho chamado Notas de Petersburgo de 1836, em que Gógol mais ou menos ilustra isso. Mas falemos disso depois.

Mesmo assim, o autor faz o elogio à Avenida Niévski como um lugar falso, rápido, místico e cosmopolita. Começa narrando o que se observa na via desde suas primeiras horas até o final da noite e, quando você menos espera, aparece um personagem aí, um pintor que morre de amor por uma mulher mimada e rica que não quer saber dele, a quem encontra por acaso na Avenida Niévski. A partir dessa história, emenda-se outra, sobre o policial que se apaixona pela esposa de um ferreiro alemão. E a coisa fica por aí, e termina com mais uma crônica pedrobialesca (não é pra ficar se achando não, Bial, tô só tirando uma com a sua cara) sobre o aspecto ilusório da rua. Isso é o que posso adiantar sem estragar parte da diversão pra vocês, e talvez seja o suficiente para comentarmos.

Микола ГогольBom, em primeiro lugar, qual é a do Gógol em descrever esse lugar que todo mundo já conhece há tempos como sendo tão especial assim? Bom, podemos parar aqui e traçar um paralelo com um dos grandes livros do autor, Tarás Bulba, que resenhamos aqui em algum dia do ano passado (provavelmente nessa mesma época, aliás). Acho que consegui entrever um elo de ligação entre essas duas histórias e isso pode fazer sentido pro comentário. Bom, em Tarás Bulba, temos um velho inconformado com a bunda-molice das novas gerações e resolve pegar os filhos recém-formados na universidade, montar uma milícia e começar uma guerra santa aí porque sim. Não é preciso nem ler o livro pra saber que uma ideia dessa só pode terminar em merda, e Gógol conta isso de uma maneira a ilustrar que o que fez o império russo não se sustenta mais na modernidade por razões civilizatórias altamente necessárias para o bom funcionamento de um império grande como aquele. Em Avenida Niévski, a própria avenida é um personagem (aí, me amarro quando a galera intelectual fala que o cenário é um personagem pela insistência do autor em descrever o lugar. Parece algo tão profundo e misterioso dizer que um lugar é um personagem, aposto que os críticos e os mediadores que falam isso comem muita mulher depois), e é uma avenida que promove encontros aleatórios entre pessoas diferentes, cria problemas e resolve problemas também. A Avenida é então símbolo do caos dos grandes centros e isso é assustador para o narrador. Mas, ao mesmo tempo, ele se mostra algo como compreensivo com as loucuras da Avenida, um lugar maravilhoso. Gógol se mostra então um cara que gosta dos tempos antigos, mas sabe que eles acabaram e que devem ficar no passado. Ele é um tipo nostálgico pé no chão, que não quer desenterrar as coisas, mas que também não deixa de ter medo dos novos tempos.

Os desencontros da Avenida Niévski estão representados nas duas histórias malfadadas de amor que o conto traz. A beleza e sabedoria do lugar é descrita no final da segunda história. O cosmopolitismo, no começo da narrativa. E, por fim, o medo que a cidade deixa na impressão do narrador, em seu comentário final. É bem impressionante esse caráter híbrido do livro, que é meio crônica, meio narrativa, principalmente porque é um livro bem curtinho. Por isso acho que ele capta bem o espírito que Gógol queria com seu tempo e com seu lugar. E acho que nessa descrição, ele conseguiu dar movimento pra um cenário estático para todos os efeitos. Bom, hein?

Agora, bom mesmo é o bagulho que os designers da Cosacnaify fumaram pra criar esse projeto gráfico. É uma das coisas mais ousadas que já vi em termos de livro, e olha que já li algumas coisas da Cosac bem diferentonas no formato. Bom, esse livro vem embrulhado em um jornal russo do ano em que o livro foi publicado (As notícias falam de um Duque da Áustria que quer viajar pra não sei onde e outras abobrinhas do tipo), e vem com a crônica anexa em um caderninho todo verde, em que Gógol fala sobre São Petersburgo em contraposição à Moscou, e mete o pau em umas coisas culturais da cidade. Não achei muito divertido de ler, mas talvez isso seja porque eu não conheço nenhuma das cidades, não sei. O livro em si tem o texto das páginas divididos em duas metades horizontais, uma laranja e outra azul, espelhada a essa primeira. A ideia é que você leia a metade de cima das páginas até o final, vire o livro de cabeça pra baixo e siga lendo a parte azul até o começo de novo, que é ilustrado com litogravuras dos dois lados da avenida em questão. Li no site da Cosac que isso é para ilustrar o fluxo de mão dupla da avenida, como se fosse uma caminhada até o seu final, ida e volta. Bom, eu é que não vou ficar azedando a trip dos outros, então vou falar que a ideia é maneira mesmo e achei divertido ler assim. O livro tem 134 meias páginas, ou seja, 67 páginas. Mas uma coisa me incomodou profundamente, que é a numeração invertida das páginas: as ímpares ficam na esquerda! Que mundo maluco é esse? Não gostei, não façam mais isso, por favor.

Ah, e o mais importante sobre o cuidado com o livro que a editora geralmente tem com suas obras é que ele tem tradução do Rubens Figueiredo, um cara de quem eu queria muito ser amigo pra poder conversar sobre essas coisas (quem sabe ele me ensinasse a não falar tanta besteira nesse blog). Por isso, queria começar aqui a campanha RUBENS FIGUEIREDO: SEJA AMIGO DO LIVRADA! Vou deixar uma imagem aqui embaixo pra vocês postarem nos seus respectivos Facebooks pra ver se a mensagem chega até ele. Quem sabe ele me escreve, me convida pra comer um pão de queijo da próxima vez em que eu estiver em Copacabana e é o começo de uma linda amizade? Só depende de vocês, gente, vamos lá!

Livrada

Avenia Niévski cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

9- Um livro escrito originalmente em um alfabeto diferente do seu

Comentário final: 134 meias páginas em papel munken pure rough. Espalhando papelzinho pela avenida, todo mundo, vai!

Alejandro Zambra – A Vida Privada das Árvores (La vida privada de los árboles)

Vida privada das árvoresVamos entrar aqui numa quinzena de livros curtinhos porque é comum recorrer a esse tipo de expediente em nome da periodicidade. Mas veja lá, porque também temos calhamaços ocasionais que justificam posts como esse. E também não tema, jovem, porque aqui temos outra vez o grande Alejandro Zambra, autor de Bonsai, em seu segundo e decepcionante romance. 😦

Zambra, coitado, foi uma vítima, como tantos outros artistas, da síndrome do segundo álbum, ou, no caso, do segundo romance. Porque Bonsai, estamos conversados, é um livrão! Quer dizer, é um livrinho em tamanho, mas é grandioso em seu propósito e por isso respeitamos ele a ponto de querer pegar um outro romance, que a Cosac lançou para nosso bel-prazer. Mas calma, não estou dizendo com isso que A Vida Privada das Árvores é objetivamente ruim, não. É um livro bacaninha, mas fraco se comparado à sua estreia literária. E a gente sabe que o sujeito tem é que crescer, e não decrescer de qualidade em sua carreira, por isso metemos o pau aqui, na esperança em que se tome jeito e que Zambra se torne um excelente escritor não-maneirista de si mesmo.

Vejamos aqui um pouco sobre o livro e do porque ele é “meh”. Julián é um sujeito feio que casa com Verónica, que já foi casada com Fernando, que é pai da menina Daniela, também filha de Verónica. Julián está cuidando de Daniela contando pra ela historietas que ele inventa, englobadas em um fabulário chamado A Vida Privada das Árvores, que são basicamente as piores histórias de dormir que alguém pode inventar. Duas árvores conversando entre si e falando sobre as vicissitudes de ser árvore. Fala sério, amigo, tu não entende nada de psicologia infantil, hein? Enfim, fato é que Julián se vira pra entreter a garota enquanto a mãe não chega. E o problema é que ela está demorando e o narrador aí já te coloca a questão: é possível que ela não volte mais até o final do livro. Agora, não me lembro muito bem se Zambra já tinha usado esse recurso em Bonsai, mas o fato é que em seu segundo romance ele todo o jogo psicológico que ele cria com o romance é por meio do narrador, que vai problematizando a narrativa de forma que, caso contrário, você nem perceberia. Francamente, não acho que isso seja dever do narrador. Acho que o escritor tem mesmo é que ser cabra bão e criar o clima para que você sinta qual é o problema, e não que tudo fique sendo entregado a você de bandeja. É claro, isso é um recurso válido ainda assim, e devo dizer que deixa a leitura mais fluída e interativa, mas eu sou um cara à moda antiga e gosto de certas coisas como elas são. Reacinha, né?

Alejandro zambraA partir daí, o livro suspende o momento presente e conta primeiro o passado de Julián e Verónica, e, posteriormente, o futuro hipotético de Daniela a partir da vontade de Julián de vê-la como adulta. Ou seja, o momento presente mesmo fica bem em segundo plano e no final, é indiferente se Verónica volta ou não porque não é disso que o livro trata. O livro trata da relação entre Julián e a enteada, e de como ele prepara um livro para que ela leia. O livro que Julián escreve, no caso, é justamente Bonsai, primeiro romance de Zambra, segundo a narrativa dá a entender. Então temos aí então a coisa do livro dentro do livro dentro do livro. A Vida Privada das Árvores é sobre um sujeito que cria um fabulário chamado A Vida Privada das Árvores e depois escreve Bonsai. Quer dizer, além do cara ser fã de plantinha, o que é bem esquisitão, ele ainda gosta de perambular nas ruínas circulares da literatura borgiana (porque obviamente não foi ele que inventou esse tipo de coisa), mas o fato dele repetir no segundo romance o que ele já havia feito em Bonsai faz de sua obra um caldo de falta de imaginação. Qualé, pô! Você consegue mais do que isso. Ainda tem aquela coisa das relações que se constroem, e depois de destroem, e os caminhos que se cruzam e descruzam, e tudo aquilo que a gente também já leu em Bonsai.

No fim das contas, A Vida Privada das Árvores podia ser bem melhor se de fato tivesse uma história mais consistente do que pequenos highlights biográficos de personagens que não são lá muito profundos. Então, sei lá, é um livro fraco, mas como ele tem só 92 páginas, dá pra ler ele durante um voo de uma hora entre Curitiba e Rio de Janeiro, como eu fiz, que você vai ter lido pelo menos alguém com menos de 40 anos. Mas tem que ler esse ano, hein?

Esse projeto gráfico da Cosacnaify segue os moldes do Bonsai em todos os detalhes, e tem até uma capa levemente mais bonita do que a outra, e sem a parada de você recortar o livrinho da capa como eles queriam que você fizesse com o primeiro romance dele, muito embora a ideia se aplique a esse aqui também. Fonte Arnhem, papel pólen e uma margem gigante, do tamanho de um campo de futebol de areia. Desconfortável de ler é que não é!

A Vida Privada das Árvores cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

8-      Um livro escrito por alguém com menos de 40 anos

Comentário final: 92 páginas em papel pólen soft. Ainda gosto de ti pra caramba, Zambra, mas vamos botar a cachola pra funcionar mais aí!

Mo Yan – Mudança (Bian)

bianNo ano passado, este blog fez um bolão do Nobel para ver quem iria acertar o ganhador do prêmio literário máximo daquela vez. Muitos apostaram com o coração e outros tantos com a lógica, mas quem ganhou mesmo foi o Guilherme Sobota, que, muito malandro, foi conferir o nome mais cotado nas casas de aposta antes de emitir seu palpite. Como a coisa já faz mais ou menos um ano e como foi aniversário do nosso leitor ontem, vamos falar do até então único livro do prêmio Nobel Mo Yan traduzido para o Brasil.

Sempre acho que um nome mais ou menos obscuro aqui que é laureado com o Nobel, eu encaro a coisa como uma lança no peito da curadoria editorial das casas especializadas do país. É certo que a corrida começa imediatamente depois do anúncio, e poucos conseguem um contrato mais permanente porque a verdade é que os tempos de “O que é bom para os Estados Unidos (ou, o que é bom para Estocolmo), é bom para o Brasil” do senador Juraci Magalhães já se foram há muito, e a verdade é que, com nossa própria literatura nivelando por baixo, se o cara for sisudão, a coisa nem vinga por aqui. Por exemplo, a Elfriede Jelinek, vocês sabem. É claro que o Nobel não é exatamente um bom termômetro da qualidade literária de um autor, já que o prêmio é sempre dado pelo conjunto da obra e por razões outras que não a própria literatura.

Felizmente, Mo Yan é um autor fácil e divertido de ser lido, e confesso que fui parcial na minha pré-avaliação dele porque ainda estou embasbacado com a literatura do Yu Hua, seu conterrâneo que já passou pelo Livrada! em duas ocasiões: aqui e, principalmente, aqui. Mas Mudança, seu primeiro título cá nesta terra de pecadores, não é um romance, é um livro de relatos, o que deixa o primeiro encontro com a literatura dele um pouco imprevisível, porque não dá pra ter uma medida muito certa do tipo de escrita que o sujeito pratica, ainda mais que ele conta na apresentação que escreveu o livro meio contrariado e meio sem saber o que estava fazendo. A ideia era escrever um texto que resumisse as principais mudanças na China maoista até sua abertura. A megalomania do projeto é pra desanimar qualquer um mesmo, ainda mais se você não é exatamente um estudioso da coisa e só tem uma memória prática dos acontecimentos.

Mas é justamente aí que está a graça do negócio. Mo Yan escreveu um livro pequenininho, de tão pequeno que chega a ser uma afronta à proposta original, e escreveu sobre sua própria vida, de garoto apagado e pobre do interior à vida no exército e suas primeiras publicações. É por meio dele que você aprende que tipo de mudanças econômicas a morte do camarada Mao trouxe para a população mais pobre, que pôde sair dos buracos onde moravam para visitar a onipotente Pequim, ou como os caminhões soviéticos passaram de objetos de consumo para velharias imprestáveis, e como o sonho de ser caminhoneiro entre os pequenos chineses morreu com a abertura para novos negócios. Mo Yan mostra como as pessoas que não tinham nada puderam enriquecer muito rapidamente depois da abertura, e como algumas publicações em revistas já alçaram o autor a um patamar gigantesco. Então a gente entende que o título do livro, “Mudança” é uma só, a mudança da China, mas é contado a partir de mudanças, no plural, que são pequenas e entrevistas nos detalhes das vidas narradas, mas significativas no conjunto para a compreensão da conjuntura política e social do país dos amarelos.

MudançaE tudo isso é contado na maior despretensão, como um senhorzinho que conta as memórias da infância dele sem se preocupar em ser dramático ou prender o interlocutor, mas preocupado, antes de tudo, em fazer o leitor entender a lógica diferente daqueles dias diferentes e as preocupações de uma geração que se dividia entre o dever cívico e os sonhos materialistas, como andar de caminhão (a capa do livro é um desenho técnico de um desses caminhões russos) e visitar a capital.

No fim, Mudança é um livro singelo, mas honestíssimo na fidelização do ponto de vista do autor-narrador e que se sabe incapaz de dar conta de explicar todas as transformações da China no século 20, mas que dá sua contribuição empírica pra extensa bibliografia já publicada e a cada dia mais engrossada por tomos novos. E isso, para nós, leitores leigos que não nos pretendemos sábios entendedores da questão chinesa, nos contenta e nos satisfaz. De quebra, ainda conhecemos um autor Nobel novo, o que, por si, só, já torna a experiência da leitura mais reveladora.

O projeto gráfico da Cosacnaify é lindão como sempre e o livro, em seu tamanho, é quase um pocket. Um 19 x 12cm com fonte Milo Serif em cor roxa, papel pólen bold e um texto preparado e revisado por orientais (se isso não agrega valor ao cuidado da editora, eu não sei o que agregaria). E, claro, a famosa cinta promocional pra avisar o leitor desavisado de que sim, é esse o chinês laureado em 2012. Vida longa à literatura da China!

Comentário Final: 125 páginas de papel pólen bold. Não machuca, mas agrada a quem olhar.

Hernán Rivera Letelier – A Contadora de Filmes (La Contadora de Películas)

A contadora de FilmesPor essa você não esperava, hein? Livrada.com.br na fuça da rapaziada. É a modernização, galera. Visual novo, domínio novo, tudo pra deixar a sua experiência de leitor mais agradável. Deem aí o feedback necessário das novidades pra saber se estou no caminho certo, ok? No more delongas.

Olha, você que é leitor assíduo do Livrada! deve estar me achando meio amargo por esses dias, com os comentários que teci a respeito dos últimos livros, e com os comentários que estou prestes a tecer sobre o livro de hoje. Bom, talvez eu tenha culpa, talvez eu esteja cansado de ver tanta crítica vaselina por aí, talvez eu esteja querendo ser surpreendido novamente por um bom romance e a frustração só aumenta a cada um que não me satisfaz, mas, por outro lado, as obras lidas também têm sua parcela de culpa. E se um prêmio Nobel de literatura, um clássico austríaco e um badalado escritor brasileiro não têm muito a que se agarrar para salvar as próprias obras, este senhor chileno e seu livreto de 110 páginas não vai ser a obra máxima que vai quebrar o combo.

Eu até tentei, e eu li até o final (até porque não demora mais do que um dia), mas esse A Contadora de Filmes é um dos livros mais deploráveis que li esse ano. Existem várias razões para isso, mas a principal é a pieguisse desenfreada desse escritor que queria fazer uma dessas histórias de singeleza na vida dos pobres que fazem você chorar pela diversão tosca dos menos afortunados enquanto aprecia seu exemplar caprichadíssimo da Cosacnaify (uma grande casa editorial cujos autores nem sempre ficam à altura).

Deixe-me dar as linhas gerais. A história se passa numa vila de mineiros, no meio do deserto do Atacama. A protagonista é Maria Margarita, a caçula de uma família de cinco filhos. O pai é um mineiro aposentado por invalidez que ficou paraplégico durante o trabalho, o que causou o abandono da esposa. A família é de cinéfilos, mas como o pai não consegue andar e se recusa a usar cadeira de rodas, a filha vai ao cinema com o dinheirinho contado que mal dá pra comer e volta pra casa para contar a história pro pai e pros irmãos. Ela conta então como ela conseguiu esse cargo e como se tornou a contadora de filmes oficiais de um povoado pobre e mais inclinado para a narrativa oral do que para a experiência audiovisual, ao que parece.

Se alguém por acaso achar que tanto melodrama não seria encontrado em lugar nenhum fora de um filme do Walter Salles, pode confirmar silenciosamente com a cabeça o que você já sabia. O cineasta-banqueiro que adora contar histórias de pobreza na infância já está mexendo os pauzinhos para fazer um filme a partir do romance. Is it too soon to whisper Oscar?

Bom, não estamos aqui para falar de cinema, então vamos nos ater à obra. A Contadora de Filmes, de uma maneira bem escancarada, coloca em debate uma questão pertinente: a passividade do audiovisual, com todos seus atrativos hã… audiovisuais, não seriam tão atraentes quanto à narrativa sem imagens, essa que depende da capacidade do leitor de introjetar (calafrios com essa palavra) a informação. Ou seja, nenhum David Lean chegaria aos pés do Gedankenbild de um Jeca Tatu com boa disposição para abstrações imagéticas. Estendendo o conceito para fora da tela cinza, a própria experiência humana não seria capaz de fazer frente ao ideário coletivo, inerentemente desprovido das imperfeições que os olhos veriam. Em outras palavras: enquanto os olhos procuram os defeitos, a mente se esbalda na perfeição abstrata. Talvez essa seja a razão de dar dois meses depois de você ter chutado seu namorado e você entrar numas de que era tudo bonito e maravilhoso com ele. Só tô dizendo…

Hernan Rivera LetelierMas não é porque um livro levanta uma bola pertinente desses que ele vale a pena ser salvo. A escrita é tosca, os personagens são chapados e nem sob a espada de Tandera esse cara consegue passar a impressão de que é uma menina que narra a história. Mas não é só isso. Desde que eu assisti O Fabuloso Destino de Amélie Poulain entrei em uma cruzada pessoal contra toda e qualquer obra que, por meio de singeleza, pieguice e imagens belas, não te deixa a opção de não gostar dela sem parecer um velho rancoroso, ou um recalcado, para usar aqui uma palavra do momento, bastante usada para se referir a mim na semana passada. You gotta fight for your right to hate, e isso vale cada vez mais nessa sociedade passivo-agressiva que quer a qualquer custo impor uma cultura de benevolência e altruísmo, sob pena de dedos apontados e gritos de “reaça”, “recalcado” e “preconceituoso”, só para listar os adjetivos mais gerais. Essa sociedade em rede que potencializa a exposição pessoal tá deixando todo mundo maluco pra pagar de bom samaritano. Então, na moral, leva esse dramalhão pra lá e me deixa em paz com meus livros que eu não quero nada que ver com essa história piegas e mal escrita, que tem a audácia de contemplar trechos como:

“Uma vez li uma frase – com certeza de algum autor famoso – que dizia algo assim como a vida está feita da mesma matéria dos senhos. Eu digo que a vida pode perfeitamente estar feita da mesma matéria dos filmes.

Contar um filme é como contar um sonho.

Contar a vida é como contar um sonho ou contar um filme”.

 Ou :

“Quando ela [a mãe da personagem] nos abandonou, do mesmo jeito que meu irmão começou a gaguejar eu me cobri de piolhos brancos. As vizinhas diziam que esse tipo de piolho aparecia quando a gente tinha alguma dor na alma. E coo a dor era pela minha mãe, comecei a comer os piolhos de amor por ela.

Tanto assim eu amava minha mãe.

Tanto assim eu sentia falta dela.”

Se o seu estômago não revirou ao ler esses trechos, parabéns, você é um forte. Eu, por outro lado, não tenho mais pique pra esse tipo de coisa.

Mas aí vem a Cosacnaify e desbanca a obra do autor com um projeto gráfico que é melhor do que a história. Os capítulos cortados com tarjas pretas, como as tarjas de uma tela widescreen, os capítulos curtos e fontes Andralis e Knockout, com papel pólen bold, e pra arrematar chamam o Eric Nepomuceno, que é um dos mais gabaritados tradutores do espanhol para fechar o trabalho. O livro fica uma belezinha, com uma capa que contrasta o preto e branco da fotografia com o amarelo (talvez a cor das legendas) do título. É um livro bonito, mas não pela história.

Comentário final: 110 páginas de papel pólen bold. Machuca menos que piolho branco de dor na alma…

(Sério mesmo que vocês gostam do que eu escrevo aqui nesse comentário final? Não é possível, meu Deus, isso aqui é MUITO sem graça)

valter hugo mãe – o apocalipse dos trabalhadores

valter hugo mãeNão vou mentir. Quando conheci a literatura de valter hugo mãe (novamente sem maiúsculas), fiquei abismado. Ali estava alguém que debulhava como poucos a tal prosa poética que muitos queriam conseguir, naquele então novo a máquina de fazer espanhóis. Para quem não lembra, a resenha está aqui. Logo depois veio o Filho de Mil Homens, dessa vez com maiúsculas, e, novamente, uma cacetada literária em quem tava de bobeira esperando a nova revelação literária vinda do Rio Grande do Sul (já foram praquele lugar? Como alguém bem disse, você levanta uma pedra e saem vinte contistas. Eu hein?). Por isso, não quis nem saber e peguei a nova edição da Cosac Naify de o apocalipse dos trabalhadores, que mais tarde descobri ser um livro anterior à máquina. Esse pequeno detalhe muda em muita coisa minha avaliação do livro, mas vejamos uma e depois a outra, com uma sinopse antes.

O romance do portuga tem dois núcleos, como compete à maioria de seus livros. O primeiro é o de Maria das Graças (vou colocar os maiúsculos aqui porque toda vez o Word quer me corrigir e é um saco ter que ficar voltando os espaços, tira a fluidez do texto. Valtão, se estiver me lendo, desculpa aí), uma doméstica que tem pesadelos recorrentes de que morre e precisa se justificar diante de São Pedro pra poder entrar no céu. Na ilusão dela, quem a mata é o Sr. Francisco, seu patrão, aquele tipo de homem que dá uns catos na empregada de vez em quando, sabe como é, uma coisa muito década de 80/90 aqui no Brasil, mas uma prática possivelmente ainda em voga em Portugal, já que o tempo do romance é posterior a entrada do país na zona do Euro. De qualquer forma, a relação entre a Maria e o Francisco é conflituosa, pois ela nutre uma relação de amor e ódio com o homem, por considerá-lo culto, mas por outro lado, por ser um velho asqueroso, ainda que fascinante, e por explorá-la como qualquer patrão pré-PEC das domésticas. O outro núcleo é conectado a esse pela confidente da Maria, a Quitéria, uma moçoila que também é doméstica e se envolve com o Andriy, um imigrante ucraniano novinho. A história dele é bem mais interessante do que a da doméstica. O sujeito tem um pai louco com mania de perseguição, e a mãe dele é uma senhorinha resignada, que tenta aplacar a loucura do marido e se conformar de ter o filho longe – ei, não é muito diferente da esposa do Tarás Bulba, hein? Será que houve uma inspiração Gogolística aí? Enfim, daí que ele chega com uma mão na frente e outra atrás a Bragança e vai aprender a fazer pizza, e se envolve com a Quitéria, que tem por ele ternura e admiração. Ah, e ela e a Maria fazem freela de carpideira, que é tipo palhaço de festa, só que pra enterro, e triste ao invés de feliz.

valter hugo mãeBom, esse é o núcleo da trama, e pra frente disso é spoiler e eu tô meio de saco cheio de ter que ficar avisando que tal coisa tem spoiler ou não e direcionar o que o leitor pode ler e o que não pode. Taí um texto que served pra todo mundo menos pra acadêmico que gosta de ficar dissecando palavra por palavra das coisas. Aqui vou fazer agora algo mais leve e solto, e relatar minhas impressões do livro e nada mais por hoje, porque análise a essa hora da noite é algo que foge à minha alçada. Bom, aqui temos os temas que o mãe usa pra maioria de seus romances: solidão, amor, morte e gente feia (na verdade, esse último é subjetivo, mas eu sempre imagino todos os personagens do vhm mais feios que a necessidade). E são temas que ele explorou bem melhor em seus últimos dois romances, o que me leva a inadiável verdade: não gostei desse livro. Nem de longe vemos aqui o lirismo e a acurácia poética que o autor mostrou ter em trabalhos futuros, e muito menos histórias instigantes. Temos é uma literatura morna e sem muitas jogadas além de adjetivações estranhas e comparações despropositadas. É claro que se entende que a questão toda gira em torno de pessoas que buscam uma vida melhor, seja o imigrante, seja o trabalhador explorado, e o sonho com a morte da Maria tem a ver com essa mudança de vida pra melhor. Mas o livro não se resolve tão bem quanto eu gostaria, e oferece poucas coisas surpreendentes, coisas surpreendentes com as quais nos acostumamos com facilidade lendo o valter hugo. Enfim, é um livro ruim se comparado com os outros, mas um livro bom se comparado com a média nacional. Acho que tudo seria melhor se ele colocasse mais umas viagens no meio, mas isso é só minha opinião. Enfim, a culpa é dele que elevou demais minhas expectativas com sua obra. Continue assim, champs.

Coisa boa é a edição da Cosacnaify que, como sempre, capricha na arte, embora seja bem verdade que ninguém até hoje conseguiu fazer frente à arte do glorioso Lourenço Mutarelli na edição brasileira da máquina de fazer espanhóis. Em todo caso, a colagem parece apropriada para dar o colorido triste que o romance sugere. Senti falta de uma orelha explicando o livro, gosto de ter uma pequena sinopse antes de começar a leitura. É, sou desses. Mas tudo bem.

Comentário final: 192 páginas em papel pólen. Porrada no trabalhador que se esforça com ardor, quando reclama é infrator, um dia de fome, um dia de dor. Suando pra ganhar mixaria, trabalha duro todo dia, trabalha como um condenado por um salário minguado, metralha o trabalhador sem hesitar um instante. “todo preto é safado, confundi com assaltante”. Metralha o trabalhador quando sai da favela, e seu corpo estatela num rápido instante sem dor.

Alejandro Zambra – Bonsai

Sejam bem vindos, queridos leitores, a última resenha do mês do Livrada! Estou entrando em um recesso para dar umas bandas pela Europa. No próximo domingo eu estarei perdido pelas ruas de Lisboa e este será só o começo de um belo e merecido descanso, afinal, não é fácil ler um livro para vocês e dois livros para o meu trabalho toda semana, mas eu sou Brahmeiro! Quer dizer, eu não bebo nada alcoólico, mas ouvi dizer que isso é uma expressão para designar uma pessoa que mesmo fazendo algo imprestável e absurdo, não desiste de forçar a barra para as pessoas curtirem, como o Carlinhos Brown. Então, espero que compreendam, aproveitem esse tempo para, sei lá, aprenderem a fazer ikebana, ou, se estiverem com saudade do blog, ler alguns posts antigos – tenho certeza de que este blog ainda não foi desbravado em sua totalidade por vocês, tamanha sua extensão oceânica! Acredito que no dia 15 de julho estarei de volta. Se sentirem saudades, escrevam no bloglivrada@gmail.com.

Mas vamos mudar de assunto porque esse papo de despedida é chatão. Vamos falar de coisa boa, vamos falar da nova tekpix! Hohohohoho, mentira, vamos falar desse pequeno grande livro publicado pela Cosacnaify, o Bonsai. Então, logo logo julho tá aí, vai começar a FLIP, e como vocês sabem, eu sou de Paraty e quando vejo a cidade tomada por aquele povo, apenas uma música me vem na cabeça. E o pior de tudo é que enquanto neguinho vai estar se acotovelando para conseguir fungar no cangote do Le Clézio, passar a mão na bunda do Franzen e de outras estrelas da vez, um tal de Alejandro Zambra deve passar despercebido por, como Flavor Flav, não acreditar no hype. Pois este Alejandro Zambra, sujeito novo no auge de seus 30 e tantos, teve uma das melhores estreias literárias como romancista que alguém pode querer almejar hoje em dia. Foi este livro, que publicou em 2005, após publicar uns dois livros de poesia.

Falemos do interior, mas antes, deixe-me dizer algo sobre a extensão do livro, porque Bonsai é ridiculamente pequeno. É tão pequeno que se fosse um pênis, o autor só ia fazer xixi na cabine. Sério, é um desses livros que você lê numa sentada (“numa sentada”, longe de ter alguma conotação homoafetiva, é uma medida de tempo que só os bibliófilos entendem), pode pegar uma tarde preguiçosa, o recreio do colégio, pode ler na missa enquanto o padre fala, pode ler enquanto espera o ônibus que vai para o Cabral, pode ler enquanto assa uma pizza, enfim, é muito curto. E ainda assim, é muito complicado. Não complicado de ler, pelo contrário, é uma historinha singela e bonita que o cara fez aqui. O problema é a leitura mais densa do livro, que se faz por baixo de camadas e mais camadas de metatexto.

Bom, vamos lá, vejamos o que eu consigo me lembrar dele agora nesse estágio de torpor da madrugada. Bonsai conta a história de dois amantes, Julio e Emilia, dois estudantes de literatura que se conhecem, se amam, e leem livros enquanto se amam. Pra falar bem a verdade, eu estava com esse livro muito vivo na minha cabeça, mas agora estou lendo o livro novo do Eugenides e o universo é muito parecido, então temo dar uma de Pedro Camacho e começar a trocar as bolas. Perdoem-me por qualquer imprecisão, a cabeça desse velho não é mais a mesma.

De qualquer forma, rola que o casal curte ler uns livros entre uma bimbada e outra. E acontece de lerem um conto do Macedónio Fernandez chamado Tantalia, que é a história de um casal que compra uma plantinha para simbolizar o amor deles e logo percebem que se a tal da plantinha morresse eles iam ficar muito abalados, então colocam essa plantinha no meio de várias outras plantinhas para não saberem qual plantinha é qual e logo depois se arrependem de terem perdido a plantinha no meio das outras. Eu sei, eu sei, a gente se sente bem normal depois de testemunhar uma jaguarice dessas, mas veja que boa metáfora do que forçar a barra para zelar pelo amor. Enfim, reflitam sobre isso.

Fato é que esse episódio abala muito a vida do casal, eles terminam e a partir daí a história se desmembra em alguns raminhos, como de uma árvore pequena. É, como um bonsai, sabichão, mas não é por isso que o livro tem esse nome. Voltando: a mocinha sai de Santiago e vai morar na Espanha, antes dividia o apartamento com uma amiga gorda que casa com um gordo que dá em cima dela, enquanto isso o rapazote começa se tornar copista de um tal de Gazmuri, que escreve o livro na mão, e a partir disso ele começa a mudar o livro do cara a tal ponto de estar escrevendo sobre um bonsai e sobre a relação que tinha com Emilia. A escrever o conto de Macedónio Fernandez, enfim. Quer dizer: um cara escreveu um livro sobre um livro que um cara escreveu que foi lido por outro cara que reescreveu esse livro baseado na história desse livro que você está lendo. Holy macarroni.

Primeiro que é muito interessante saber que o Alejandro Zambra realmente curte fazer bonsai. Talvez tenha sido daí que ele pegou a técnica de podar o texto. Não podar para tirar as digressões, as palavras a mais como Dalton Trevisan (beijo, Dalton!) ou algo assim, mas no sentido de podar para colocar uma objetividade na narrativa não-linear de maneira que a seja possível obter uma única camada mais densa de leitura, e a partir dela, uma infinidade de interpretações que ficam por sua conta e risco. Mesmo assim, é muito fácil perder-se nessas interpretações e saber distinguir qual camada foi ele que construiu e quais foram você e sua cabecinha neurótica. O texto é lindo, é gostoso de ler, tem uma leve gagueira mental à lá Gertrude Stein, mas nada nem de longe irritante como ela. E nessa simplicidade, você mal consegue acreditar que há um gênio da linguagem te jogando para dentro de um labirinto circular de livros dentro de livros, mezzo Italo Calvino, mezzo Borges. Uma combinação explosiva, eu diria.

E é excelente que o Zambra faça isso em tão pouco espaço, é um daqueles livros que dá para ser discutido em clube do livro, sala de aula, o que for. É simples, prático, quem for burrinho não vai se sentir menosprezado porque é uma leitura tão democrática que todos conseguem apreciar um pouco, e nem pesa na bolsa. O poder de síntese hoje é facilmente confundido com preguiça, falta de obstinação, morte do grande romance, autorezinhos de bosta sem fôlego, mas não tenho dúvidas que nesse caso é puro talento. Aliás, acho que é uma coisa própria de quem faz poesia. O sujeito fica pensando muito em texturas e camadas que não desata a escrever catataus como os instintivos pouco intelectualizados (sem generalizar aqui). Ponto pro cara, acho que o fato dele vir é uma prova de que a FLIP não é só feita de rockstars afinal de contas. Ainda estão de olho em quem é bom independente de hype ou de momento. Boa, seu Zambra.

Esse projeto da Cosacnaify faz o livro parecer menor do que já é, com uma margem estratosfericamente grande e uma fonte miudinha, tipologia arnhem (alguém já ouviu falar dessa fonte?). O resto é aquela coisa da Cosacnaify, né? Designer que fica se coçando pra querer reinventar a roda e etc. Um livro lindinho como sempre, mas muitíssimo melhor no conteúdo.

Ah, sim, para quem estava esperando encontrar outra coisa aqui hoje: resolvi fazer o post dos autógrafos na volta. Por quê? Porque deu preguiça e tô pilhado com essa viagem, então vamos fazer com mais tempo. E se você ainda não mandou, pode mandar seus autógrafos favoritos para bloglivrada@gmail.com, contando a historinha de como ganhou ele do seu escritor ÍDOLO. Aproveite, gente!

Comentário final: 96 páginas pólen soft. Nem deixa marca!

James Wood – Como Funciona a Ficção? (How Fiction Works)

How ficcion worksSalve, galera beletrista, os que vão morrer de tédio vos saúdam. Bem sei que aqui vocês encontram um texto leve sobre livros nem tão leves, e que gostam exatamente disso neste blog, por isso hoje vamos arriscar e falar de um livro mais cabeça ainda para quem tem disposição de ler depois. Porque, você sabe, né? Aqui eu dou o empurrão, mas na hora do Tete-à-tete, minhas piadjênhas não saem na nota do rodapé. Eu sou como o Morpheu, sou meio careca, só posso mostrar a porta para você atravessar e não paro de falar um minuto sequer.

James Wood é um dos mais respeitados críticos literários do mundo. O que isso quer dizer? Pouca coisa, na verdade. A gente tende a respeitar alguns críticos, mas a gente raramente respeita o maior de todos, o ultra-mega-chefão-que-muda-a-música-de-fundo-e-tem-uma-barra-de-energia-que-fica-verde-antes-de-ficar-amarela-antes-de-ficar-vermelha (e isso aqui só vai entender quem jogou Final Fight). Isso porque é natural do ser humano desconfiar das unanimidades e dos cânones. Pelo menos na literatura. No cinema, por exemplo, nenhum zé Mané em pleno estado de consciência vai falar que O Poderoso Chefão é um filme xexelento. Mas quando se trata de algo tão exigente e discutível quanto a literatura, o assunto é outro. Se você não gostou, é porque não entendeu a proposta do cabra. É isso que todo mundo te fala, não é? É aí então que entram os críticos literários. Os donos do polegar, que ora vai pra cima, ora vai pra baixo. E esse crítico em específico é o nosso objeto de estudo de hoje.

Sinceramente, acho que os melhores críticos literários são os brasileiros, e não é uma questão de puxar sardinha pro nosso lado não. É porque a gente está, na minha opinião, mais em contato com a literatura do mundo todo do que o resto dos países. James Wood, por exemplo, é um cara inglês, que, vá lá, até lê coisas da França, da Alemanha, dos Estados Unidos, Rússia e países nórdicos. Mas a gente não tem garantia de que ele conhece um Guimarães Rosa, um Mia Couto, um Vila-Matas, um Juan Rulfo, um Onetti, um Benedetti, um Canetti, um Spaghetti, um Piriguetti, enfim, vocês entenderam. Falta mundo pra esses caras. Pra gente não, hein? Tô falando sério. A gente liga tão pouco pra nossa própria literatura que a gente compra qualquer porcaria da terra onde Judas perdeu as botas.

De qualquer forma, Wood é um cara respeitado e, a julgar por esse livro, leu Henry James, Flaubert, Barthes e Proust além do limite considerado seguro pelos bibliotecários. Nesse livro ele basicamente explica porque os autores usam as palavras que eles usam nos livros e tenta mostrar a intenção de cada um deles. E aí explica algumas magiquinhas de quem trabalha com a pena, como o discurso indireto livre e a profundidade de um personagem (que a gente sabe que é só ilusão de ótica, né?). É isso, eis a sinopse do livro. Legal, né? O que você pensa em fazer com as informações contidas nesse livro? Ser uma pessoa melhor não dá, tenta outra coisa. Ser um leitor melhor? Aí sim, isso dá pra fazer. Eu acho, afinal, que a leitura é algo que exige atenção e cultura. A cultura você pega da vida e de outros livros, e a atenção você pega de livros como esse.

Supondo, é claro, que ninguém lê livro pra falar que leu, pra fazer vista na estante ou para pegar as gatinhas, é óbvio que todo mundo quer ler um livro de uma forma “melhor”. E esse papo de que não importa como você leia nem o quê, contanto que você leia só funciona e é bonitinho até os 20 anos. Depois é bom começar a tomar vergonha na cara e parar de achar que você está ficando mais inteligente por ler Cebolinha. Claro que não vamos menosprezar os Harry Potter, os Crepúsculos e os Dan Browns da vida, mas se os clássicos existem, estão lá no olimpo dos livrinhos por alguma razão. E é isso que o fulano James Wood te mostra: por que o livro é bom, por que merece ser lido e por que você merece dar mais atenção pra ele. Sendo assim, mais do que uma aulinha de crítica, é também uma possível porta de entrada para outros autores – pra quem tiver disposição, é claro.

Agora, o que não pode é achar que se o seu livro de cabeceira não tem as qualidades que o Wood exalta neste Como Funciona a Ficção? é porque ele não presta. O nosso autor de hoje é um cara que preza sobretudo pela forma, e eu sei, você sabe, o vizinho sabe, a porcaria do Paulo Coelho sabe que o conteúdo do livro também tem que ser interessante, né verdade? Por outro lado, a forma não é algo que possa ser desconsiderado tão facilmente, e pra isso tão lá os cânones de que ele fala. A forma pode proporcionar uma sensibilidade única ao livro, uma coisa linda de meu deus do céu. E pra isso serve Pra Que Serve a Ficção? que, vamos combinar, tem um puta nominho escroto no estilo Por que Os Homens Tem Mamilos? e Fuckin’ Magnets, How do They Work?

Ah sim, pra quem chegou atrasado na conversa, James Wood é um crítico inglês, não é o ator James Woods que fez aquele puta filme… aquele… aquele… sabe… É, ninguém sabe o nome dos filmes que o James Woods fez, assim como ninguém sabia os filmes que o John Malkovich fez antes de Quero Ser John Malkovich.

A Cosacnaify fez esse livro fininho, que faz parzinho com o meu A Máquina de Fazer Espanhóis, porque eu curto arrumar minha estante pelo tamanho dos livros, tanto em altura quanto em largura. Agora, por fora bela viola, por dentro, cagadas 100%. Escolheram para a cor da fonte algo perto de um IKB, ou perto de um azul/roxo de mimeógrafo. Isso no papel offset. Quer dizer, tentar ler esse livro sem se estressar com isso é um desafio. Boa sorte pra você.

PS1: O Nobel desse ano é o Tomas Transformer. Ninguém ganhou o bolão. Oh, não.

PS2: ANUNCIEM NO LIVRADA! O papai aqui precisa de um clarinete novo.

Comentário final: 230 páginas em papel ixcroto. Arriba, arriba!