George Orwell – Na Pior em Paris e Londres (Down and out in Paris and London)

Down and out in Paris and LondonAntes de começar um post de hoje, queria fazer uma DR aqui com vocês. Vem cá, eu fiz alguma coisa pra vocês não comentarem mais nos posts? Todo mundo continua lendo que eu sei, e o espaço pra fazer comentários fica lá no final do texto, junto com as tags, se é essa a desculpa que vocês vão usar. Agora, se alguém está se sentindo com a liberdade de expressão tolhida neste espaço democrático, fazer o favor de assinar três vias, passar no setor de timbragem e começar a criar vergonha na cara porque comentário pra blog é que nem risada pra palhaço – a gente sabe que é pelos motivos errados, mas aceita de bom grado todos eles como fruto de um bom trabalho. Então, por favor, não se acanhem. Fim da DR.

Comecemos aqui a tecer  a genialidade de George Orwell em seu relato mais vanguarda, genial, duro, chocante, lindo e fedorento, o livro de memórias Na Pior em Paris e Londres. Diferentemente de livros que sugerem que o sujeito ficou na pior, tipo Paris é um Festa, Orwell, esse gênio subestimado da literatura (vou passar o texto todo chamando ele de gênio que é pra ver se alguém me ouve, já que não me ouvir parece ser o maior mal desse país), realmente comeu o pão que o diabo amassou nessas duas belíssimas capitais e destino certo de jovens adolescentes idiotas que querem, meo, fazer uma trip pela Europa, tá ligado? Pegar umas gringas e ficar muito lokooo uuuhulll.

Orwell já perambulava pela Europa quando era jovenzinho, tendo estudado aqui e ali em Londres, mas foi pra Paris pela aura mágica da cidade-luz para ver se vinha a inspiração que veio para tantos antes dele. Só que aí ele começou a se ferrar, primeiro teve uma tuberculose em 1929, depois foi roubado e começou a trabalhar de plongeur num restaurante de um hotel chique em Paris. Aí começa a saga do nosso Dante moderno pelo sétimo círculo do inferno (não acham um saco quando um crítico literário começa a falar coisas como “O nosso Dante moderno”, “Esta Beatriz da periferia”, “a Capitu do terceiro milênio”. Como se esse povo já não fosse metido o bastante). Orwell realmente passou fome, viveu com menos de dez centavos por dia e empenhou tudo o que tinha para viver a base de uma dieta de pão e cigarro. E a vida de lavador de prato era das piores, trabalhando dezesseis horas por dia em condições análogas a de escravidão. Agora digam vocês quantos dos seus veneráveis escritores da torre de mármore teriam culhão pra fazer um lance desses? Veja, ele podia pedir penico, voltar pra Índia e tudo mais, mas aguentou a barra ali pela vivência e pela determinação. Como não se admirar com esse gênio, que, além de tudo, é humilde ao traçar suas claras e simples linhas sobre o luxo, a pobreza, a fetichização do trabalho braçal e a vida do plongeur?

George OrwellDepois de Paris, ele vai pra Londres, onde, aparentemente, a mendigagem é uma prática institucionalizada, com profissionais do ramo, rota de albergues e manuais de como conseguir dinheiro na rua. Só que ser mendigo na Inglaterra não é um troço tão fácil de se aceitar na cachola por causa do calvinismo e da sua relação direta entre salvação e trabalho. A galera inglesa é doutrinada no workaholismo, e por isso ser mendigo em Londres requer um esforço a mais. Mesmo assim, lá foi o nosso gênio, nascido no protetorado britânico, provar que também aguentava mais essa, enquanto a grana de uns escritos dele ainda não chegava. Passou de albergue em albergue sentindo catinga de inglês (dividi um albergue com um velho londrino em Amsterdã uma vez. Até hoje sinto vontade de vomitar quando lembro do cheiro daquele coroa, e ele nem era mendigo!), comendo sopa rala e vivendo na sujeira sugismunda mesmo. Mas aguentou e escreveu um dos livros mais geniais que tive o prazer de ler este ano. Recomendo pra todo mundo a obra desse gênio.

E por que recomendo a obra desse gênio? Primeiro, pelo relato. Segundo, pelos insights. Terceiro, pelo ineditismo e pelo vanguardismo da coisa. Quarto, pelo spotlight. Quinto, porque eu gosto de recomendar coisas pra vocês. Depois vocês levam minha recomendação a sério e eu me sinto importante. Sexto, porque veio na edição nova da Companhia das Letras da coleção do Orwell, e antes disso era parte da coleção de Jornalismo Literário, e acho que a Companhia das Letras precisa de muito incentivo pra reimprimir livros velhos e maravilhosos e não tão vendáveis, já que estamos entrando na era da imbecilidade e muita coisa boa tá esgotando e não sendo mais reimpressa (quero os Cormac McCarthy e os John Updike de volta, dona editora!). Sétimo, porque é aquele caso raro em que a literatura brota da vivência, e de uma vivência vivida não necessariamente nem exclusivamente para servir à literatura, mas para edificar o espírito humano de quem escreve, o que só deixa tudo mais perfeito e genial. E oitavo, porque Orwell é um gênio, e não foi com 1984 nem com A Revolução dos Bichos que percebi isso, mas com Na Pior em Paris e Londres, desde já meu livro favorito dele. Mesmo sem discorrer muito sobre o livro, acho que dá pra perceber o porque eu gosto dele. É um livro tr00, sincero, singelo e cheio de aventuras e sabores só experimentados na extrema pobreza. É assim que ele conta, por exemplo, como aprendeu o truque de comer pão com alho, porque o gosto do alho fica na boca depois de um bom tempo, e isso dá a impressão de que você comeu recentemente. Ou como ele parava na frente de uma vitrine para esbofetear o rosto antes de pedir emprego, porque ninguém dava emprego para gente de rosto pálido, morto de fome. Era preciso fingir que se estava melhor do que se realmente estava. Enfim, essas pequenas malandragens do miserê total. Fica a dica (stay the dick).

Comentário final: 256 páginas em papel pólen soft. Gênio! Orwell Gênio!

Hermann Broch – Pasenow ou o Romantismo (Pasenow oder die Romantik)

brochAh, o sabor dos clássicos esquecidos. É como escutar Beatles pela primeira vez: você acha que a descoberta é toda sua e que ela nunca foi feita por ninguém, mas não é bem assim. Aliás, no meu caso, que não gosto de Beatles, não é assim mesmo, de modo que não sei por que diabos abri o texto com essa analogia. Até porque não quero falar de Beatles, quero falar de Hermann Broch, um rapaz que, se pode ser resumido em uma palavra, é esta: gênio. Não me lembro de ter lido algo tão inteligente e afiado nos últimos tempos, e quem lê este nosso espaço com frequência sabe que qualidade é a linha editorial que eu sigo.

Falemos um pouco de Broch antes de falar de seu livro então. O sujeito jogou nas onze em vida. Tocou uma fábrica de fiação e tecelagem dos pais, estudou filosofia, matemática, psicologia e física em Viena, foi judeu e católico, austríaco e americano, perseguido pelos nazistas e festejado pelos modernistas, amigo de Thomas Mann e Albert Einstein, dramaturgo, poeta, ensaísta e ficcionista de primeira. O que mais se pode dizer de um cabra desses? Ah sim, teve uma belíssima estreia nos romances, com a trilogia Os Sonâmbulos, cujo primeiro volume, publicado em 1888, disseco aqui neste dia. Pasenow ou o Romantismo já começa a ser bom pelo título pomposo que traz o “ou”. Esse lance de dar título com “ou” é coisa de gente metida, todo mundo sabe disso. Diferentemente de se colocar um travessão seguido de um subtítulo, como Rambo II – A Missão ou Superbad – É Hoje, o “ou” dá a impressão de que o cara pensou demais no título e simplesmente não conseguiu decidir qual ilustrava melhor sua obra. É o que você pensaria se visse um “Superbad ou É Hoje” ou um “A Bruxa de Blair ou o Livro das Sombras”. Coisa de intelectual, não é? Melhor não meter o bedelho nisso.

Pasenow, o protagonista da história, é um bobalhão conservador que, como qualquer bom conservador que se preze, é militar. Ele acredita no poder do uniforme, acredita que existe uma ordem no mundo regida por suas convenções sentimentais, e ante a mudança dos tempos — a saber, a decadência do império Austro-Húngaro, sabidamente uma má ideia que até que durou demais —se agarra a elas para não ficar tonto com o mundo que não para de girar. Ele tem um coração dividido entre duas damas: a boêmia (boêmia aqui quer dizer que é da Boêmia, não que goste de uma vadiagem, embora nesse caso, excepcionalmente também sirva a segunda conotação) Ruzena, uma prostituta que ele conheceu num cassino alemão, que representa toda o desvio saudável da alma humana, que não foi fabricada sob esse manto de conservadorismo dele, afinal, e Elisabeth, a filha do barão, uma mulher pura, rica, socialmente equânime que representa a tradição como ela deva ser. Para fechar esse quadrângulo amoroso, temos ainda Bertrand, um ex-colega de farda que se tornou um homem de negócios e que atua na melhor tradição shakespeariana manipulando todo mundo por pura maldade como um bom falso amigo. Bertrand faz a caveira de Pasenow pra Ruzena e joga um caô pesado pra Elisabeth num dos diálogos mais brilhantes do livro. Puro ouro literário entre a página 149 e a 155, minha gente. E Pasenow fica lá, que nem um trouxa, balançando de um lado para o outro como manda a vontade do amigo, o qual ele sabe que não presta mas mesmo assim sempre vai lá chorar umas pitangas pra ele quando o bicho pega.

broch pasenowPois bem, vamos ver o que podemos adiantar desse livro sem estragar muito a diversão da leitura pra vocês. Por que a trilogia chama os Sonâmbulos e o título alternativo chama O Romantismo? Bom, identificar o sonâmbulo aí não é muito difícil. Pasenow perambula por um mundo completamente diferente do que acredita estar sem nem perceber. Isso é o básico. Mas ele não é qualquer alienado. Ele é um romântico, acredita na farda, na honra e nos valores, o que é algo bem contraditório se você parar para pensar que ele tenta a todo modo rechaçar o que seu coração manda, que é amar Ruzena. Mas os valores românticos de seu coração são os atavismos conservadores aos quais ele custa largar, uma coisa fugaz e insignificante na avaliação de Bertrand. Isso ajuda muito a entender o último capítulo do livro, que é simplesmente matador e, ao contrário do que diz o posfácio, não é um esgotamento do fôlego literário do autor, mas uma sacada genial que te coloca num desespero de botar a mão na cabeça e pensar exatamente o quê, em sua vida, está no piloto automático.

O lance do sentimento é resumido em uma frase genial de Bertrand, cuja página perdi, mas que diz algo como “o sentimento do homem é mais grandioso que a vida que o comporta”, e ilustra isso no fato de Voltaire ter convivido com massacres e etc. Em Pasenow, esse sentimento é, de fato, imensamente maior que o personagem, demasiado humano para o seu próprio bem. Mas era exatamente isso que Broch almejava, acho eu. Construir um quadro complexo de mudança de tempos para jogar ali personagens que sabem e que não sabem lidar com isso. Não é a toa que o sujeito ganhou elogios na contracapa de ninguém menos que Thomas Mann. O resto do livro são imputações filosóficas que pode fazer brilhar os olhinhos de quem estuda o lance, mas que pra nós, leigões, fica como uma sintonia fina com as ideias do livro.

A trilogia dos Sonâmbulos foi lançada aqui no Brasil pela Benvirá, em tradução inédita do Marcelo Backes. Ele faz um posfácio bacana sobre o livro e sobre o autor que vale a pena ler. Agora, a Benvirá, meus senhores, é uma editora que está ganhando cada vez mais meu coração pelo calibre dos autores que resolveu publicar. Broch, Faulkner, John dos Passos são alguns dos clássicos, mas tem policial do David Peace, Patricia Highsmith e outras coisas boas que não consigo me lembrar agora. Fiquei surpreso quando vi a Benvirá lançando a trilogia USA (que um dia, se o bom Deus permitir, comento aqui também) e corri atrás de outras preciosidades do catálogo, que também já conta com A Morte de Virgílio, considerada a obra-prima do autor de hoje. O projeto gráfico é ok, mas tem aquelas folhas de jornal, que são leves, secas e amarelam bem rápido, e a capa é uma xilogravura de alguém que não sei quem é porque estou longe do exemplar.

Pasenow ou o romantismo cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

2- Um clássico esquecido da literatura mundial

13- Um volume de alguma trilogia ou série

Comentário Final: 275 páginas em papel de jornal. Livrada no palermão!

Yasushi Inoue – O Fuzil de Caça (Ryōjū 猟銃)

RyojuJá ouviu falar de Yashushi Inoue, malandragem? Pois é, eu também não conhecia, mas o cara é ganhador de um Akutagawa, que, pra quem não sabe, é um Goncourt japonês, que dá dinheiro mesmo (e um relógio de bolso). Bom, ignorâncias ocidentais à parte, O Fuzil de Caça é o primeiro romance do Inoue, e ganhou muita visibilidade quando saiu, e dá pra ver o porquê.

O romance, curtinho, é escrito por meio da gloriosa e sempre relembrada tradição da narrativa epistolar. O sujeito que quer contar uma história por meio de cartas, quer primeiro que você conheça os personagens em suas próprias vozes, mas também quer descortinar a história aos poucos, cada hora sob a ótica de um deles, e, principalmente, quer contrapor um diálogo unilateral entre seus personagens, no qual ninguém responde ninguém a tempo. Pegar toda essa intenção e transformar em uma coisa legal é algo difícil e trabalhoso, e até hoje só vi isso bem feito nesse livro e no Caro Michele, da Natália Ginzburg, também já resenhado aqui. Vamos ver o que eu consigo lembrar da história para falar pra vocês.

O Fuzil de Caça tem sua premissa numa carta que o autor fictício/narrador real recebeu de um caçador, em quem o escriba, notadamente um poeta, teria se inspirado para escrever um poema sobre caça publicado numa revista de caça. O sujeito remete a quem conta a história uma série de cartas endereçadas a ele, donde se desenrola a verdadeira história. Temos aí então uma estrutura de tríptico narrativo, com prólogo, romance e epílogo.

A história em si gira em torno de um quadrângulo amoroso entre o caçador Josuke, Midori, sua esposa, Saiko, aparentemente irmã de Midori e o marido de Saiko, que passa de revesgueio na história. Bom, Saiko meio que roubou o marido de Midori como amante depois que ela se separou do marido, e manteve tudo num segredo mortal, que, uma vez revelado, culmina em sua própria morte. Nessas cinco linhas de sinopse já entreguei mais do que deveria do livro, seria melhor não falar nada sobre ele porque a cada nova descoberta a história muda diante de seus olhos. Mas aí, por outro lado, iria falar do quê exatamente, né? Vai ser a resenha mais curta da história desse blog. O que posso falar é que as três cartas pelas quais é possível conhecer a história de Josuke são cartas de Midori, Saiko e de Shoko, filha de Saiko, a primeira a ler o diário secreto da mãe, aquele em que a história de amor entre os dois é revelada. Vish, já to entregando mais do livro, é melhor parar por aqui.

fuzil de caçaVejamos aqui os pontos altos do livro. O Fuzil de Caça é um romance que já começa a explorar algumas imagens líricas típicas da literatura japonesa da segunda metade do século 20, e tem em seu centro uma singeleza apenas percebida pelo tom seco e ao mesmo tempo reflexivo dos personagens. Não sei se poderia dizer que Inoue soube fazer vozes diferentes para cada um, pra mim pareceram estilos muito iguais, mas isso pode ser da tradução também, então é melhor não apontar dedos nesse momento. O fuzil de caça mesmo, citado em certa parte da história, simboliza uma solidão absoluta do ser humano na experiência, o fato de que sempre se está sozinho em sua própria experimentação, e que mesmo pessoas muito próximas não se igualam em companhia ou em compaixão, o que é uma coisa bonita, acho eu. Mas posso não ter entendido o livro direito, veja bem, essa é uma possibilidade não muito impossível. Apesar de pequeno, o livro é denso e muito aberto em sua interpretação. Se é que foi feito para ser interpretado dessa forma.

 A história, que poderia ser mais um caso de amor e traição, fica mais legal nas circunstâncias de sua escrita (o pretexto do narrador poeta que recebe cartas) e certamente o fato de serem apenas três cartas que resumem tudo a um destinatário que não se manifesta diretamente no romance faz de O Fuzil de Caça um daqueles petardinhos que certamente vão animar o seu dia. É aquele livro que te faz pensar “vê só como tem muita coisa boa aí que a gente nem imagina que exista”.

O livro foi publicado pela sempre presente Estação Liberdade, quando o assunto é literatura japonesa, e como sempre a editora não desapontou – à exceção, talvez, do papel offset que representa tempos outros já enterrados por esta época de ouro da editoração de livros. Fonte Gatineau e uma das capas mais bonitas que já vi. E o lado bom de comprar os livros da estação liberdade é que você ganha um marcador de página largo e bonito com a foto da capa. Dá vontade de emoldurar todos, mas não vou fazer isso porque não sou fetichista feio uns e outros que leio por esses recônditos da internet literata. Lê quem quer, mas que vale a pena, vale. Mais um pra coleção dos livros de uma sentada só.

Comentário final: 102 páginas de papel offset.

Alejandro Zambra – A Vida Privada das Árvores (La vida privada de los árboles)

Vida privada das árvoresVamos entrar aqui numa quinzena de livros curtinhos porque é comum recorrer a esse tipo de expediente em nome da periodicidade. Mas veja lá, porque também temos calhamaços ocasionais que justificam posts como esse. E também não tema, jovem, porque aqui temos outra vez o grande Alejandro Zambra, autor de Bonsai, em seu segundo e decepcionante romance. 😦

Zambra, coitado, foi uma vítima, como tantos outros artistas, da síndrome do segundo álbum, ou, no caso, do segundo romance. Porque Bonsai, estamos conversados, é um livrão! Quer dizer, é um livrinho em tamanho, mas é grandioso em seu propósito e por isso respeitamos ele a ponto de querer pegar um outro romance, que a Cosac lançou para nosso bel-prazer. Mas calma, não estou dizendo com isso que A Vida Privada das Árvores é objetivamente ruim, não. É um livro bacaninha, mas fraco se comparado à sua estreia literária. E a gente sabe que o sujeito tem é que crescer, e não decrescer de qualidade em sua carreira, por isso metemos o pau aqui, na esperança em que se tome jeito e que Zambra se torne um excelente escritor não-maneirista de si mesmo.

Vejamos aqui um pouco sobre o livro e do porque ele é “meh”. Julián é um sujeito feio que casa com Verónica, que já foi casada com Fernando, que é pai da menina Daniela, também filha de Verónica. Julián está cuidando de Daniela contando pra ela historietas que ele inventa, englobadas em um fabulário chamado A Vida Privada das Árvores, que são basicamente as piores histórias de dormir que alguém pode inventar. Duas árvores conversando entre si e falando sobre as vicissitudes de ser árvore. Fala sério, amigo, tu não entende nada de psicologia infantil, hein? Enfim, fato é que Julián se vira pra entreter a garota enquanto a mãe não chega. E o problema é que ela está demorando e o narrador aí já te coloca a questão: é possível que ela não volte mais até o final do livro. Agora, não me lembro muito bem se Zambra já tinha usado esse recurso em Bonsai, mas o fato é que em seu segundo romance ele todo o jogo psicológico que ele cria com o romance é por meio do narrador, que vai problematizando a narrativa de forma que, caso contrário, você nem perceberia. Francamente, não acho que isso seja dever do narrador. Acho que o escritor tem mesmo é que ser cabra bão e criar o clima para que você sinta qual é o problema, e não que tudo fique sendo entregado a você de bandeja. É claro, isso é um recurso válido ainda assim, e devo dizer que deixa a leitura mais fluída e interativa, mas eu sou um cara à moda antiga e gosto de certas coisas como elas são. Reacinha, né?

Alejandro zambraA partir daí, o livro suspende o momento presente e conta primeiro o passado de Julián e Verónica, e, posteriormente, o futuro hipotético de Daniela a partir da vontade de Julián de vê-la como adulta. Ou seja, o momento presente mesmo fica bem em segundo plano e no final, é indiferente se Verónica volta ou não porque não é disso que o livro trata. O livro trata da relação entre Julián e a enteada, e de como ele prepara um livro para que ela leia. O livro que Julián escreve, no caso, é justamente Bonsai, primeiro romance de Zambra, segundo a narrativa dá a entender. Então temos aí então a coisa do livro dentro do livro dentro do livro. A Vida Privada das Árvores é sobre um sujeito que cria um fabulário chamado A Vida Privada das Árvores e depois escreve Bonsai. Quer dizer, além do cara ser fã de plantinha, o que é bem esquisitão, ele ainda gosta de perambular nas ruínas circulares da literatura borgiana (porque obviamente não foi ele que inventou esse tipo de coisa), mas o fato dele repetir no segundo romance o que ele já havia feito em Bonsai faz de sua obra um caldo de falta de imaginação. Qualé, pô! Você consegue mais do que isso. Ainda tem aquela coisa das relações que se constroem, e depois de destroem, e os caminhos que se cruzam e descruzam, e tudo aquilo que a gente também já leu em Bonsai.

No fim das contas, A Vida Privada das Árvores podia ser bem melhor se de fato tivesse uma história mais consistente do que pequenos highlights biográficos de personagens que não são lá muito profundos. Então, sei lá, é um livro fraco, mas como ele tem só 92 páginas, dá pra ler ele durante um voo de uma hora entre Curitiba e Rio de Janeiro, como eu fiz, que você vai ter lido pelo menos alguém com menos de 40 anos. Mas tem que ler esse ano, hein?

Esse projeto gráfico da Cosacnaify segue os moldes do Bonsai em todos os detalhes, e tem até uma capa levemente mais bonita do que a outra, e sem a parada de você recortar o livrinho da capa como eles queriam que você fizesse com o primeiro romance dele, muito embora a ideia se aplique a esse aqui também. Fonte Arnhem, papel pólen e uma margem gigante, do tamanho de um campo de futebol de areia. Desconfortável de ler é que não é!

A Vida Privada das Árvores cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

8-      Um livro escrito por alguém com menos de 40 anos

Comentário final: 92 páginas em papel pólen soft. Ainda gosto de ti pra caramba, Zambra, mas vamos botar a cachola pra funcionar mais aí!

Allen Shawn – Bem que eu queria ir (Wish I could be there)

wish i could be thereLer não-ficção é sempre bom pra desopilar a mente de narrativas que sugam toda a sua atenção e sua capacidade de abstração pra uma história que pode se revelar muito pouco merecedora do esforço.  Dentre as não-ficções boas para isso, os ensaios livres, aqueles em que o cara usa muito pouca referência acadêmica ou, pior, ignora qualquer referência e escreve as ideias dele sobre o tema, são as melhores porque a coisa da arte ativa vai embora e dá lugar a uma conversa boa entre você e o autor, na qual você senta e escuta e ele fala. O livro do Allen Shawn, Bem que eu queria ir, é assim. Uma conversa leve e edificante sobre o mundo das fobias.

Shawn é um compositor nova-iorquino, autor de muitas peças eruditas e populares. O pai dele era editor da revista The New Yorker, que é, para muitos, a melhor revista de todos os tempos. Mas tanto ele quanto o pai cresceram me meio a muitas fobias. De lugares abertos, de lugares fechados, de avião, de elevador, enfim, aquela coisa toda. E, diante da sugestão de um amigo de escrever um livro sobre suas fobias e de como elas atrapalham sua vida, o músico resolveu basicamente pegar tudo o que estava ao seu alcance e escrever um pequeno compêndio misto de experiências pessoais e estudos sobre a questão das fobias.

Assim, existem capítulos que tratam de psicanálise, de neurologia, da percepção do medo no mundo da arte, de outras pessoas célebres e fóbicas como ele, de lembranças de sua primeira infância, das relações com seus familiares – dos quais, sua irmã gêmea Mary, deficiente mental, parece desempenhar um papel preponderante em sua personalidade –, enfim, tentou fazer uma compreensão macro da coisa, pra não deixar nenhuma aresta.

Esse caráter heterogêneo também dá ao livro um ar meio indefinido. Afinal, Bem Que eu Queria Ir é um livro sobre fobias, ok, mas a que ele se propõe? Explicar a vida do autor a partir de tudo o que já se estudou sobre o tema e a partir de experiências vividas? Ou, ao contrário, legitimar os estudos diante de suas vivências que, acreditem, não são nada demais aos olhos de qualquer pessoa não-fóbica.  Mas que, de alguma forma, te fazem pensar em como seus medos são definidos pelo meio e são um reflexo do medo dos pais. Tudo isso faz muito sentido se você fizer um paralelo inocente com a sua própria vida.

fobiaAlém de indefinido, porém, o livro é meio irregular. Existem capítulos que são extremamente monótonos e outros que são bacaninhas mas, no geral, não é uma leitura tão empolgante. A vida do cara não tem nada demais, como eu disse e, sinceramente, também não sei o que eu estava esperando quando resolvi ler esse livro. Talvez ler umas coisas engraçadas do tipo “rá rá! Olha o que esse bobão tem medo de fazer”, mas a coisa não vai por esse caminho – infelizmente, porque se fosse, seria um livro mais engraçado, embora menos informativo. Ainda assim, o caráter didático da explicação de Shawn coloca um lampejo de alegria nos olhos de estudantes amadores de psicologia, uma raça que parece se propagar sem maiores motivos além de entender porque, afinal, a gente é tão zoado assim.

Como leitura de ensaio, Bem que eu queria ir é minimamente divertido, mas não sacia a sua sede de ensaio nem sua curiosidade sobre o tema, já que ele trata apenas de coisas muito pontuais e já que nem a própria ciência consegue dar conta das fobias humanas por enquanto. E como os estudos psicanalíticos de Freud são bem recentes e não há uma narrativa que mostre a evolução do ramo e de sua preocupação (como há, por exemplo, no glorioso O Imperador de Todos os Males, do Sidharta Mukherjee), também ficamos a ver navios nessa. Mesmo assim, o livro entrega o que suas 300 páginas prometem. Só não se empolguem muito.

O projeto gráfico do livro sim, é uma beleza. Fonte Electra, papel polen, capa em papel cartonado e uma arte de fazer inveja nos designers da Cosac. No mais, é o padrão da Companhia das Letras. Chuchu beleza.

Bem que eu queria ir cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

5- Um livro que não foi te indicado por ninguém

12- Um livro de não-ficção

Comentário final: 311 páginas em papel pólen. Quem tem medo de Livrada?

Manoel Carlos Karam – Pescoço Ladeado Por Parafusos

Manoel Carlos KaramAno novo, blog velho. Sejam bem-vindos ao Livrada – Ano V! Tecnicamente ainda não é o aniversário do seu querido blog de comentários literários, mas é quase. Vejam só, cinco anos falando se um livro é bom ou é ruim por meio de critérios altamente discutíveis, e ainda assim arrematando multidões. O segredo para o sucesso? Persistência diante das adversidades, seriedade diante dos haters, muito alface e muita água mineral. De mais, olho de lince e olho no lance, como diz um amigo meu.

O livro de hoje contempla a grande e desconhecida produção literária da cidade onde eu moro. Muito embora tenhamos o recente case de sucesso do livro de poesias do Paulo Leminski, que vendeu justamente por ser uma poesia baseada na estética da sacadinha, algo ao alcance de todos, e tenhamos alguns outros escritores premiados e reconhecidos internacionalmente, a literatura curitibana – fazendo aqui o recorte geográfico que todo mundo da cidade, e por que não dizer do estado, adora fazer – possui espécimes literárias para todos os gostos e cabeças. Mas o que talvez pouca gente saiba é que a inventividade e a literatura fantástica, subgêneros pouco representados no Brasil, tem um de seus maiores representantes nessa cidade. O escritor Manoel Carlos Karam (1947-2007).

Karam tem uma escrita dispersa, fragmentada. De certa maneira, todos os seus livros são coletâneas, já que as pastinhas em que guardava seus originais tinham planos para mil combinações de textos em livros diferentes. Pescoço Ladeado Por Parafusos, reeditado pela belíssima editora Arte e Letra, não foge à regra. O livro contempla trechos distintos de livros distintos. Alguns muito bons e outros, que não dá pra entender patavinas.

Entre os bons, cito aqui o “Jornal da Guerra Contra os Taedos”, uma verdadeira ode à literatura de humor e à inventividade narrativa. São comentários breves sobre uma guerra travada contra um povo imaginário que é inacreditavelmente idêntico ao povo que o combate. A guerra contra os taedos é cheia de absurdos humanísticos, de tréguas e de estratégias burras que de alguma forma fazem sentido no contexto do livro. A coisa é tão engraçada e absurda que Borges não teria escrito melhor, caso ele tivesse um senso de humor menos esquisito.

Também tem o “Divagações sobre números”, que é uma porrada de sacadinhas (uma constante entre a geração dele, ao que parece) sobre números. Coisas que caberiam num tuíte, e que não deixam de ter um fundo obsessivo pela coisa.

Manoel Carlos KaramMas aí tem o “Projeto de Bestiário”, que, ao que tudo indica, é um contraponto do Jornal da Guerra Contra os Taedos, mas é um texto tão solto e tão desconexo que demora até que alguma conclusão desse tipo possa ser tomada. Começa com alguém tentando bolar um nome e associando características a cada nome. Um troço meio despropositado, mas divertido durante os cinco primeiros minutos.

No fim, Pescoço Ladeado Por Parafusos é uma confusão que só, e é um desses livros que você lê para se perder em meio a tanta maluquice, como é com os livros do Valêncio Xavier e do manuscrito Voynich. Não dá pra dizer que eu apreciei cada página da leitura, mas também não dá pra dizer que poderia ter passado minha vida de leitor sem essa. Porque se ler é imaginar, então ler Karam é extrapolar os domínios da mente. Caraca, que frase bonita, espero que me citem em alguma orelha de livro com essa.

O projeto gráfico da Arte & Letra é demais. Sou um pouco suspeito pra falar, não só pela minha proximidade com a editora e livraria, mas também porque a capa é do ilustrador André Ducci, o melhor de Curitiba e, quiçá, um dos melhores do Brasil. A mesma editora publicou outro livro dele, Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca, num esforço louvável para resgatar a literatura desse cara das profundezas dos catálogos de editoras miudinhas – algumas já extintas – que ainda ganham dinheiro com copyright sem fazer nada pelo acervo. A diagramação do livro é boa, o papel é pólen de gramatura grande e o formato do livro é pequeno, quase quadrado. Enfim, um bom produto.

Comentário final: 192 páginas em papel pólen. Tente imaginar isso!

Desafio Livrada 2014

Desafio

1- Um clássico da literatura brasileira

2- Um clássico esquecido da literatura mundial

3- Um livro do seu autor favorito

4- Um livro de contos

5- Um livro que não foi te indicado por ninguém

6- Um livro com mais de 500 páginas

7- Um livro de poesia

8- Um livro escrito por alguém com menos de 40 anos

9- Um livro escrito originalmente em um alfabeto diferente do seu

10- Uma graphic novel

11- Um livro publicado pela primeira vez neste ano

12- Um livro de não-ficção

13- Um volume de alguma trilogia ou série

14- Um livro que algum amigo te enche o saco pra ler

15- Um livro escrito por uma autora

I’m back like I’m Rosa Parks fare on the same damn bus! Nada como começar o ano com um desafio literário novinho em folha, hein? Ah, obrigado à televisão, graças a você, meus narizes de cera agora parecem uma propaganda porcamente escrita. Mas nem todo mundo pode crescer ouvindo Ravel e bebendo Veuve Clicquot na mamadeira, né?

Sejam bem-vindos ao quinto ano do Livrada!, meu povo. Quem iria imaginar que chegaríamos tão longe, eu e os meus livrinhos, vocês e suas vontades de lerem coisas um pouco mais divertidas do que um crítico sisudo e mal humorado que acha que está fazendo a diferença no mundo. Estamos aqui, com nossa bíblia velha, nossa pistola automática e um sentimento de revolta, sobrevivendo no inferno, mano. E vamos ao que interessa porque vocês não vieram aqui pra ficar lendo abobrinha por muito tempo.

Basicamente o que nós temos aqui, neste nosso desafio Livrada de 2014, é uma espécie de bingo literário, inspirada no Readong Bingo da Retreat by Random Housei. A deia não é original, mas isso não impede que criemos nossa própria e original versão dela. Seu desafio, bravo guerreiro beletrista que vem a essas paragens com sangue nozóio, é ler livros que se encaixem nessas quinze categorias, que vamos destrinchar uma a uma agora:

Um clássico da literatura brasileira: livros que o sistema educacional brasileiro se esforçou muito para você odiar, mas que agora você vai ler para provar que é um mau aluno.

Um clássico esquecido da literatura mundial: vamos ver… Que tal um clássico da literatura mundial que não virou filme nas mãos de algum diretor engraçadinho?

Um livro do seu autor favorito: não importa quem seja o seu autor favorito, leia algum livro dele. Se você já leu a obra completa, releia. Ou arrume outro autor favorito, porque esse negócio de ficar endeusando quem você já conhece por completo não tem graça nenhuma.

Um livro de contos: o terror das editoras, mostre que nesse país tem gente que lê contos.

Um livro que não foi te indicado por ninguém: uma descoberta quase etérea, de algum passeio por livraria, em que você agarra um livro sem nenhum motivo aparente e fala “hoje você é meu, neném”.

Um livro com mais de 500 páginas: cheio de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia e quem lê livro longo hoje em dia, não é mesmo?

Um livro de poesia: “Porra, Yuri, tá de sacanagem comigo, né?”. Vamos vencer nossos preconceitos, amigo. Encare uma poesia, de boa qualidade de preferência.

Um livro escrito por alguém com menos de 40 anos: Será que existe vida inteligente antes dos 40? Vamos explorar e descobrir.

Um livro escrito originalmente em um alfabeto diferente do seu: pelo amor de Deus, não vá tentar ler kanji ou cirílico. É pra ler uma tradução de um livro escrito em russo, em grego, em chinês, em georgiano, em armênio, em etíope, em birmanês, sei lá, te vira, negão.

Uma graphic novel: Você é desses que não gosta de livro com figura? Vamos mudar isso esse ano.

Um livro publicado pela primeira vez neste ano: vamos se inteirar das novidades, porque a máquina não para e você não pode deixar de acompanhar o motor do tempo e depois ficar falando mal. Isso é coisa de vagabundo.

Um livro de não-ficção: Sair um pouco do mundo da imaginação e ler as coisas que estão acontecendo no mesmo universo em que você. Vai ser legal, vai por mim.

Um volume de alguma trilogia ou série: Nem só de Jogos Vorazes e Meg Cabot vivem as séries e trilogias. Tem muita coisa boa por aí e a sua missão é descobrir. Contamos com você.

Um livro que algum amigo te enche o saco para ler: salve uma amizade neste ano e dê ouvidos ao seu amigo bem intencionado que quer te apresentar a alguma coisa que ele acha que vai te dizer alguma coisa. Quem sabe sobre você mesmo!

Um livro escrito por uma autora: Who run this mother? (Girls)

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Bom, e o que eu quero que vocês façam com isso? Em primeiro lugar, abram suas cabeças com uma leitura diversificada neste ano. Em segundo, me contem! A cada livro lido dessa lista, comentem aqui, ou na página do Facebook, ou me mandem um e-mail, eu vou gostar de saber e até vou gostar de publicar aqui, se estiver tudo bem para vocês.

Por último, quero que vocês espalhem essa ideia por aí. Tem esse banner aqui, que não é muito bonito, eu sei, eu fiz no paint, mas eu gostaria que vocês coloquem em seus blogs, espalhassem por aí. Dessa maneira, vamos fazer as pessoas lerem o que elas quiserem, mas quem sabe conseguimos fazê-las ler algumas coisas que elas mesmo não leriam.

 

Eu, de minha parte, também estou nesse desafio e a cada nova resenha de livro que preencha algum desses requisitos, discrimino por aqui. Como diz aquele banco deplorável, vamos fazer juntos?

Nos vemos por aí. And let the games begin!

Livro dos Novos

livro dos novosQuem viu meu post da semana passada dizendo que não teríamos mais resenhas esse ano pode estranhar essa entrada de segunda-feira que trata de mais um livro. Mas veja, ceci n’est pas une resenha. É uma mistura de artigo e autopromoção. Aviso desde já porque quem não gosta desse tipo de coisa pode abandonar o barco nesse momento. E quem não gosta de eventuais erros de ortografia cometidos por quem posta no wordpress direto do tablet que insiste em autocorrigir qualquer palavra que você escreva, essa também é a sua deixa. Não que eu queira que essa seja a entrada menos lida do ano, mas a julgar pelo hatemail que recebo com uma certa frequência, passei a achar prudente avisar o leitor desavisado, que quase sempre são os que mandam hatemail.
Bom, o meu comentário sobre o Livro dos Novos não é uma resenha porque não o li. Mas sei do que se trata e li uma parte, que é a parte que eu escrevi. Trata-se de uma coletânea arranjada pela Travessa dos Editores para divulgar e, daquela maneira bem irregular e marota que só coletâneas literárias sabem fazer, pontuar um momento e um lugar de alguma literatura. Ao todo, são 16 autores com mais que 20 e menos que 30 anos, se li as biografias corretamente. A ideia é aquela: cada um joga um conto no rateio e de repente parece que a gente tá falando da vaquinha pra cachaça e não mais de um livro que procura entender o que se está escrevendo por aqui no Paraná (moro aqui no Paraná, gente!).
E não é disso de que toda coletânea literária trata, no final das contas? (Se eu fosse um blogueiro mais merda, escreveria “no final dos contos” e admitiria não sem certa parcela de vergonha a infamidade da piadinha, mas deixaria aí no ar pra mostrar que eu tenho um senso de humor, apesar de nerd, mesmo que seja um humor de tiozão do pavê). O recorte geográfico, sendo aqui os leitores “””paranaenses””” (muitas aspas se fazem necessárias) e o recorde, hã, etário da coisa é uma tentativa de unificar estilos diferentes ou mesmo tentar entender o que motiva essa gente novinha a fazer essas coisas chiques de escrever literatura. Mas, mais do que isso, esse caso serve também ao mercado, e muito! E não estou falando aqui de revelar novos talentos (mas aí, seu Rocco, seu Schwarcz, seu Naify e demais, tô pra jogo e tô facinho), mas antes, a possibilidade de antever o que venderá no futuro dando uma olhada na estética que a gente curte, nas referências que a gente pegou, é uma tentação quase incontrolável. Ora, você começa a vender muito Bukowski, muito Nick Hornby, muito Palahniuk, acende uma luzinha de atenção. Passa um tempo e surge uma galera tentando ser esses caras, e aí tudo faz sentido. Pode botar o cara na sua casa editorial que o bicho vai ser sucesso entre a molecada e periga até ganhar o Prêmio São Paulo de literatura, vejam só (Já falei da minha teoria de que os prêmios literários não premiam bons livros, mas boas apostas visionárias das editoras? Não? Então, é isso).
Mas serve também à academia! Oh! Quem não gosta de criar narrativas científicas para momentos da literatura brasileira, não é mesmo? Provavelmente enquanto você lê isso, umas 50 pessoas estejam tirando uma mesada da Dona Dilma pra jogar essa real aí pro mundo. O porquê não é importante, o lance é botar a produção acadêmica na roda e esperar que um maluco mais genial que ti cite seu trabalho e, com ele, agora sim, faça algo de mais útil do que pagar as contas de um sujeito virtualmente inadequado pra cadeia produtiva. Mas eu divaguei. Dizia eu que esse tipo de coletânea é mais um ponto no mapa e na linha do tempo do que se produziu desde Almeida Garret até Michel Laub, e avante, e que isso serve pra quem por ventura achar que pode resumir as preocupações, a linguagem e a estética de uma geração que é tão maluca que até agora ninguém entendeu (e não por falta de empenho). Win-Win situation.
Por fim, e por que não, serve para quem escreve e para quem publica. Para quem escreve, é currículo, pra quem publica, é um bom jeito de reunir material original gratuito (ou você acha que alguém paga direito autoral pra um pimpolho dos livros?) que provavelmente vai ser consumido rapidamente por parentes e amigos dos vários autores que obviamente se empenharão muito para divulgar o que pode ser no caso de muitos o primeiro trabalho publicado. Posso parecer cínico nesse comentário todo, mas juro que não há maldade alguma aqui. Inclusive estou divulgando e contando com vocês para me lerem e darem uma grana pros caras que acreditam no nosso talento. Ou seja, por quê não fazer algo assim sempre? A galera realmente está escrevendo, lendo e consumindo mais coisas de seus pares, um ciclo que se retroalimenta e que só pode ser ruim se isso implicar num alienamento de todo o resto da literatura (e aqui, um breve puxão de orelha em vocês que leram todos os Daniel Galera e nenhum Tolstói até o momento). Algo de bom deve sair disso tudo, e eu tenho fé que sairá.

Comentário final: não sei quantas páginas tem esse livro, mas ele vai sair nessa semana e o lançamento, para quem estiver em Curitiba, vai ser no dia 12/12, quinta-feira agora, na Livraria da Vila do Pátio Batel. Às 19h. Quem não sabe onde é esse lugar, clique aqui.

Orhan Pamuk – Neve (Kar)

orhan pamukBom dia, amiguinhos, já estou aqui, emendando um prêmio Nobel no outro neste fim de ano maluco de black fridays e adjacentes. O livro de hoje é um calhamaço e, sinto dizer, é o último deste ano resenhado aqui. Não fiquem tristes, porque a razão do recesso não é outra senão a nobre construção de um banco de resenhas que me faz muita falta. É um pouco frustrante para um sujeito que escreve periodicamente sobre livros ter de escolher suas leituras pelo tempo que elas vão consumir, para termos material toda semana, e qualquer um que entenda um mínimo de literatura sabe que isso não pode e não deve ser critério para ninguém, muito menos para um cara como eu, que procuro boas leituras sempre. Ter um banco de resenhas vai me colocar um pouco à frente das minhas postagens do ano que vem (assim espero) e isso vai me possibilitar pegar um livraço vez ou outra sem medo de gastar mais de duas semanas na leitura dele. De modo que entendam e não fiquem tristes por eu não ser uma máquina de ler livros. Tenho meu trabalho, minhas bandas, minha musculação, minhas propagandas de cueca para fazer, então achar tempo para ler um romance aqui fica muito difícil. Eu consigo, mas não com a qualidade que gostaria. Por último, ninguém tem saco pra ficar lendo resenha no fim do ano, já que todo mundo só está pensando em alugar casa na praia, comprar carrinho pras crianças e fazer piada de fim de ano com suas famílias pelancudas. De modo que, no fim das contas, não vai fazer muita diferença mesmo.

Mas vamos falar de coisa boa, vamos falar de Neve. Neve é talvez o romance mais popular do turco Orhan Pamuk, e vocês logo vão sacar o porquê. Pamuk tem essa rara habilidade nos escritores de hoje de prender a atenção do leitor com um livro de qualidade, que não gire somente em torno de ação ou intriga e suspese, embora seja muito verdade que ele comumente se aproprie de elementos policialescos para jogar a primeira isca. Resumir o romance a isso — uma trama policial –, entretanto, é um pecado digno de fazer você queimar no mármore do inferno.

A verdade é que Pamuk escreve sobre as complexidades de ser turco. A dicotomia de ocidente e oriente, de religião e estado, de fundamentalismo e secularismo e o grande dilema — para onde vai a Turquia no mundo globalizado — não estão muito longe da gente, mas vamos por um momento parar de ser paternalista e tentar fazer vocês gostarem de algo só porque a coisa se aproxima da sua realidade. Não! Experimente também o exotismo, experimente se preocupar com questões que não têm nada a ver com você de vez em quando, experimente a compaixão distante. Você vai ver, vai ser legal.

Em Neve, essas questões estão mais presentes do que nunca. O mocinho é Ka, um poeta quase quarentão que, após morar um tempo na Alemanha, vai à diminuta, pobre e esquecida cidade de Kars investigar o suicídio de garotas novinhas que foram obrigadas a descobrir a cabeça para entrar na escola em nome do Estado secular. O suicídio é o pecado-mor do islã, embora você tenda a não acreditar nisso dada a quantidade de homem-bomba que tem por aí, mas acredite, é verdade. Pois bem, o manto, que representa o islã político, representa também a visão descompassada do país com os movimentos sociais que estouram pelo mundo, mas o suicídio continua misterioso justamente por ser um pecado que garotas tão religiosas a ponto de morrer por vergonha do secularismo não cometeriam.

Mas Kars também é a cidade de Ipek, sua paixão de escola, com quem pretende casar. Rá, tem que ter romance, nem só de política um livrão desse sobrevive, não é verdade? Mas é aí que entra a genialidade de Pamuk, que pega o papel passivo da mulher que só faz romance enquanto os homens fazem política e inverte a coisa: os homens são uns bobos apaixonados e as mulheres é que são as políticas por trás de todos os atos que antecedem um golpe de Estado que toma conta de Kars.

orhan pamukNo meio disso tudo, Kars cria poemas como há muito não criava, e tudo se cria a partir da neve, uma constante na narrativa que a cada hora representa uma coisa, mas que, ao fim e ao cabo, é a expressão máxima da existência de Deus tanto em sua perfeição quanto em sua paz serena que acalma e perturba ao mesmo tempo. A neve desperta poemas que parecem surgidos de outro plano, transforma ateus em religiosos, traz o isolamento e pontua a narrativa com a lembrança constante de que Neve é um romance sobre uma vida que busca sentido após quase 40 anos de existência.

Personagens memoráveis nesse livro, minha gente. Sendar bei, o jornalista que publica notícias que ainda vão acontecer e que não acredita no que escreve; Azul, o terrorista clandestino que tem verdadeiro amor por sua própria imagem de terrorista; e Fazil (i sem pingo aqui, não sei qual é o significado,mas acho maneiro), o estudante que às vezes acredita demais no etéreo, e às vezes não acredita em absolutamente nada.  Todos eles, de alguma forma, representam a personalidade esquizofrênica da Turquia, já comentada antes. O resto é história, e a história deve ser lida e não contada num blog mequetrefe que nem funciona direito em dezembro.

Ah, esqueci de dizer uma coisa. O narrador da história também é um escritor chamado Orhan, que também é escritor. É engraçado como o Orhan da história se mistura ao escritor Orhan Pamuk, que às vezes não sabe do que não viu e às vezes é onisciente o bastante para saber os detalhes mais íntimos de momentos insignificante da vida de Kars, de quem é amigo. Um bom joguinho é tentar descobrir qual Orhan narra qual capítulo, mas isso é só pros nerdões de plantão.

O livro é um livrão, em formato grande mesmo, da Companhia das Letras. Tem o selinho do Nobel que encarece tudo e uma foto maravilhosa na capa. Comprei esse pra digníssima num sebo em que entramos para escapar da chuva e ele estava praticamente intacto pela bagatela de 20 dilmas, mas ainda tem bastante desses nas lojas por aí, então não se preocupem. Fonte Electra e papel pólen pra dar aquela suavizada no material. Resumindo, o tipo de livro que é difícil largar.

Relaxa que ainda boto mais um post aqui de fim de ano falando de mais coisas. Semana que vem ainda tem mais!

Comentário final: 482 páginas de puro calibre turco. Maktub.

Yasunari Kawabata – A Gangue Escarlate de Asakusa (Asakusa Kurenaidan 浅草紅團)

Asakusa KurenaidanKawabata para as massas! Kawabata, Kawabata, Kawabata! É o puro suco da literatura japonesa. Referências a Rodney-Dy à parte, vamos falar hoje mais uma vez desse grande mestre da literatura japonesa que raramente deixa a desejar no que se propõe a fazer. A Gangue Escarlate de Asakusa foi escrito entre 1929 e 1930 – quando o grande mestre tinha apenas 30 anos e estava empenhado em ser um nome moderno para a literatura do Japão. Se não me engano, até então ele só havia publicado A Dançarina de Izu, que era uma narrativa muito modesta, de modo que esse livro é o seu primeiro romance longo.

Pode ser impressão minha ou vontade inconsciente do autor, mas o fato é que Kawabata estava impregnado daquele espírito ocidental do flanêur, da peregrinação urbana de descoberta e estranhamento, descoberta e estranhamento. Pra falar a verdade, depois que descobri que A Gangue Escarlate de Asakusa tinha sido escrito mais ou menos na mesma época da Dançarina de Izu, fez sentido a minha impressão de achar o tom dos dois muito parecidos. Mas volto a isso mais tarde, vou falar um pouco sobre a história do romance para que vocês não fiquem perdidos.

Asakusa era um bairro de Tóquio, mas não qualquer bairro. Era o bairro da boemia, era a Lapa de Tóquio, o Largo da Ordem de Tóquio, a Boca do Lixo de Tóquio, o Kreuzberg de Tóquio, a Montmartre de Tóquio, a… enfim, deu pra entender. Era o lugar sujo com as prostitutas e os buracos de jazz e os freak shows e tudo mais. De certa maneira, o lugar representava a precoce decadência ocidental em um lugar há não muito tempo ocidentalizado como o Japão. Vê que os sujeitos assimilam tudo muito rápido, a começar pela nossa decadência. É lá que o autor-narrador (o próprio Kawabata, imagino), perambula com uma amiga, Yumiko enquanto descobre o lugar, seus atrativos e a tal Gangue Escarlate, também chamada de Companhia Escarlate. Basicamente, uma gangue de pequenos trambiqueiros, composta por jovens adultos e adolescentes imberbes que já saíram do seio da família e foram colocados na teta da maldade. Rodney Dy e Hermes e Renato no mesmo post sobre um prêmio Nobel de literatura, hein? Só aqui no Livrada! você encontra isso. Mas dizia eu, a tal gangue exerce uma espécie de fascínio temerário no narrador, que tenta conhecer um de seus membros enquanto passeia e descobre o bairro com seus olhos de flanêur. É lá que ele conhece uma mocinha de cabeça raspada que sonha em encontrar o homem pela qual sua irmã se apaixonou profundamente, assiste a um espetáculo de um homem que come através de uma boca aberta em sua barriga e assiste cenas cotidianas meio bizarras, como um homem que come comida de carpa e um show de pequenas prostitutas.

kawabata asakusaNeste livro, que a pessoa que fez a orelha (provavelmente a tradutora, a grandessíssima professora Meiko Shimon) descreve como um exemplo da progressão da arte de Kawabata rumo ao desenvolvimento total de sua corrente neo-sensorialista Shinkankaku-ha, por meio de experimentações com a linguagem e o uso MUITO estranho de expressões e analogias nunca antes usadas, como por exemplo “estava andando e de repente parei como se alguém tivesse empurrado um buquê de flores vermelhas contra o meu peito”.  Mas para mim, o maior espanto com essa leitura de Kawabata foi ver a completa ausência de hierarquia entre narração e descrição para o autor. O cenário não serve à narrativa nem à narrativa serve ao cenário exclusivamente, mas ora uma se torna mais importante que a outra, mas nunca a ponto de cidade ou história serem fixados como a linha condutora do romance. Isso não só deve ser difícil pra caramba de fazer como arriscaria dizer que a única forma de fazer isso com a perfeição de Kawabata é uma completa despreocupação sobre a própria força narrativa aliada a uma tradição descritiva milenar da literatura japonesa, digna de uma Sei Shônagon. E é exatamente por isso que achei o livro parecido com a Dançarina de Izu. Em ambos também, Kawabata traz os olhos ocidentais que se espantam com as cenas japonesas mais estranhas, e também com as mais clássicas. É um olhar completamente inocente e desprovido de preconceitos ou expectativas. Isso traz uma sensação para o leitor de estar descobrindo junto com ele as características de Asakusa, e, se lido com atenção, o livro pode trazer um mapa mental perfeito do bairro sem nunca ter ido lá. E essa não é a graça da literatura, afinal de contas?

A Gangue Escarlate de Asakusa é o mais novo lançamento de Kawabata pela Estação Liberdade, uma editora muito simpática e competente que, por alguma razão que me foge completamente a lógica, não está alçada ainda ao panteão das grandes casas editoriais brasileiras pela crítica mainstream, que solenemente a ignora. O que é uma pena, pois não só a editora tem um acervo caprichado de grandes autores, como também tem edições bonitas e bem trabalhadas. A própria tradução desse livro, que sempre é comentada, é exemplo disso. Tudo bem que ela podia ser mais comentada, porque muita coisa sobre o Japão é subentendido como de conhecimento do leitor, o que não é verdade na grande maioria das vezes, mas acho que isso é reflexo dessa falta de interesse de nós, ocidentais de olhos redondos, pelas belezas que se escondem na boa e velha literatura japa. As páginas brancas offset estão sendo substituídas aos poucos pelo confiável pólen soft em alguns livros e a fonte Gatineau dá um charme às páginas internas, completas com cabeço superior e ilustrações originais de Ota Saburo (que fez as ilustrações para a primeira edição do livro) no começo e no final das páginas. Um pitéu.

Comentário final: 216 páginas offset com fonte Gatineau. Sayonara, compadres!