Sándor Márai – As Brasas (A Gyertyák Csonkig Égnek)

sandor maraiLivrada! Diário de bordo: no arquivo de word gigantesco do Livrada!, estamos na página 270, o que é coisa pra dedéu. Impressionante como essa coisa chega longe por insistência do burro velho aqui e ainda não ganho dinheiro nenhum com esse troço. Vou começar a fazer chantagem emocional com vocês: o dia que acabar com essa joça, vocês vão chorar, hein? Mas vocês não vieram aqui para ouvir as minhas lamúrias financeiras, vieram aqui pra se regozijar com a boa e velha crítica literária rasa e gratuita que fazemos hebdomadariamente nesse espaço há quase meia década.

Peguei As Brasas pra ler porque literatura húngara é uma pedra no meu sapato. Não consigo gostar muito dos autores húngaros que me aventurei a ler até hoje (aliás, por que, afinal de contas, chamamos o país dos húngaros de Hungria mas o país dos búlgaros de Bulgária?), mas por indicação de um amigo, peguei pra ler e ainda por cima mato um item do Desafio Livrada! 2014, por que não?

Pois bem, meu primeiro comentário sobre esse livro, e talvez ele seja inédito na história da crítica literária mundial, é a sua proximidade com o livro do Hermann Broch, Pasenow ou o Romantismo, parte 1 da trilogia d’Os Sonâmbulos. A relação é mesmo muito estreita, veja: ambas as histórias tratam de militares que perdem o referencial de dever e de valores com a queda do império Austro-Húngaro. Enquanto o livro de Broch fala de um militar austríaco, Márai fala de um velho general húngaro que aguarda a visita de um amigo de infância que, assim como ele e como o melhor amigo de Pasenow, também fora militar, mas largara a farda para viajar o mundo e ser uma pessoa normal. Ainda por cima há um triângulo amoroso a ser estabelecido e uma discussão sobre fatos, invenção e memória, valores e sentimentos, tudo aquilo que Broch se dignou a discutir em Pasenow. A semelhança entre os dois livros é tremenda, mas a condução deste é diferente, por óbvio.

Sandor MaraiNa história de Márai, o general, que nascera de uma família abastada, confronta o amigo de infância que não vê há 41 anos, depois de um incidente durante uma caçada que o deixara perplexamente com a pulga atrás da orelha. Parece que o amigo teria levantado a arma e feito mira no general para matá-lo, mas ele não tem certeza. Ainda precisa medir e avaliar qual foi a relação que teve com a mulher dele, morta oito anos depois da partida do amigo, e, como diz o Machadão, amarrar as duas pontas da vida. Ver como o amigo passou de amigo a ameaça, onde a confiança se perdeu, quais motivos, etc. De modo que As Brasas é, quase que inteiro, um diálogo. Aliás, um monólogo, praticamente. O que pode deixar o ritmo do livro um pouco lento pra você que tá acostumado com os Dan Brown da vida, mas seja menos preguicinha e encare um monólogo de 170 páginas que não tenha muitas frases de efeito como o De Profundis, vai.

O grande mérito de um livro de monólogo fica mesmo então, em dois elementos: 1- a construção dos personagens, da mais tenra infância a uma velhice amarga, os dois amigos são profundos em suas personalidades e as opiniões que cada um traça são claros frutos da criação que cada um teve. 2- a narrativa do autor, que é mesmo impressionante e muito bem feita. Sei lá, devia ter algo naquela água austro-húngara. E no fim, a crítica a respeito do conteúdo dá muito pra aproveitar do que escrevi sobre o Hermann Broch, e como sou um blogueiro relapso, vou deixar o link aqui de novo, rá.

Companhia das letras padrão, tem o Charles DeGaulle na capa e tudo mais. Não tô afim de falar do projeto gráfico hoje, quem manda sou eu e só de falar que eu era preguiçoso fiquei realmente com preguiça :P.

Comentário final: 182 páginas de papel pólen soft. Quando vocês chegarem no final, vão entender porque o livro chama As Brasas.

As Brasas cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

14- Um livro que algum amigo te enche o saco pra ler

Vídeo: Milan Kundera – A Festa da Insignificância (La Fête de L’insignifiance)

Você ainda gosta de ver vlogs? Espero que sim, porque o nosso está apenas começando e ó, tá ficando legal. Nesse, comentamos o best-seller tcheco Milan Kundera e colocamos alguns pontos simples de entender em um livro meio complicado de sacar. Mas, como dizem pra todo mundo que já fez uma cagada nessa vida, o que vale é a intenção.

Já falei pra se inscrever no canal? Vou falar de novo, porque precisa. Me ajudem a ficar rico, gente.

Já falei que isso é só uma imagem? Você tá tentando apertar o play até agora e achando que o que tá abrindo na outra aba é pop-up desgraçado. E tá errado.

livrada

Ryszard Kapuściński – O Xá dos Xás (Szachinszach)

jornalismo literarioE ainda dizem que o polonês é uma língua difícil. Xá dos Xás = Szachinszach. Xáxinxáx = Xá dos Xás. É só deixar a intuição fazer a sua parte e começar a ler Bruno Schulz, e entender o que você quiser entender, é claro. Mas bem, os senhores e as senhoras não vieram aqui para ter lições de polonês comigo, que no máximo improviso um versinho ou outro de ogórek ogórek ogórek zielony ma garniturek e não tô aqui para destilar mais do que isso dos meus conhecimentos filolololológicos. Estou aqui para falar desse livrorreportagem do grande mestre da arte Ryszard Kapuściński, esse polaco que deveria ter morrido antes do tempo umas 70 vezes e não morreu. Kapuściński cobriu guerras e escreveu sobre déspotas memoráveis, e ajudou a entender o lado feio e sujo do meio do século 20, lado esse que as pessoas até hoje não sabem pelo simples fato de não ligarem a mínima para o que acontece nesses países. Assim foi com o Irã e sua dinastia Pahlevi.

O livro, obviamente trata disso. Se você não sabe – e tudo bem, ninguém aqui está julgando o fato de você ter feito supletivo – xá é o título dado ao monarca no irã, e é esse o título porque quer dizer “rei”, em persa. Xeque-mate, o rei está morto, você já deve ter escutado isso em algum lugar ou lido em algum almanaque de cultura inútil. Pois bem, o Irã tem uma longa história de xás que massacraram o povo apenas para depois serem mortos ou exilados. É uma história cíclica, e a dos Xás Pahlevi tem muito a ver com o que está acontecendo hoje com o Estado Islâmico – de novo, se você não sabe o que é Estado Islâmico, a gente não julga, MAS…

O primeiro xá é o Reza Pahlevi, um homem de formação militar que ascendeu ao poder e que mais ou menos conseguiu manter tudo em ordem, se é que pode se chamar aquilo de ordem. O Irã não é essa potência cheia de petróleo e gente perigosa que é hoje, antigamente era só mato, deserto e pobre. Nem carroça tinha. Mas o filho, o xá Mohammed Reza Pahlevi, diferentemente do pai, não lidou tão bem com as coisas. Ele era, segundo o autor, um cara inseguro, que precisava ser bajulado, vaidoso e arrogante, e quando seu primeiro-ministro Mohammed Mossadegh resolveu nacionalizar o petróleo iraniano (e o império britânico sofreu uma queda porque até então eram eles quem mais ou menos mandavam por ali), a promessa de um país bilionário botou o Xá pra trabalhar. Assim, ele começou a querer industrializar o Irã, sem perceber que as coisas mais básicas ainda faltavam. E o povo ficou mais irado, e com o povo irado, o movimento nas mesquitas se intensifica, e eis que surge a voz incansável, serena e monocórdica do aiatolá Khomeini, que inspira a articulação do movimento contra o xá. Mas aí já tô contando demais sobre a história e pouco do livro.

Ryszard_KapuscinskiFalemos do livro. Não é à toa que Kapuściński foi o que foi. A escrita dele é um misto de crônica, relato jornalístico, remontagem histórica, ensaio e leves tons de escrita ficcional, tudo misturado num blend gostoso típico desses gênios da raça que surgiram naquele século (Norman Mailers da vida). De modo que ler O Xá dos Xás é algo que você tem que fazer nem que seja pra falar “mas que desgraçado esse sujeito que escreve tão bem e rodou o mundo e viu de perto a história acontecendo… que desgraçado mesmo”. E, claro, aprender um pouco sobre a história do Irã, como já disse, é entender também um pouco do que ocorre no Oriente Médio. Os governantes colocados no poder pelos interesses do ocidente, o descontentamento do povo com a falta de perspectiva e o levante capitaneado pela ideologia formada dentro das mesquistas torna a história cíclica como os espertinhos sempre falaram que era. De modo que O Xá dos Xás é uma aula de boa escrita, de história, de geopolítica e de como viajar pelo mundo (aprendam, seus fanboys da Disney).

O livro faz parte da coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras e é fiel ao padrão de quatro fotos e um textão, uma capa gráfica e um posfácio pra exaltar o autor e o livro em questão. O problema é que achei que nesse caso em específico, o livro carecia de mais fotos. Quem não queria relembrar a beldade de dona Soraya, mulher do Xá, e de ver o levante dos povos, e mesmo as fotografias de que o autor fala na segunda parte do livro – a maior delas, que centraliza o tríptico. Intitulada “Daguerreótipos”, ele conta a história através de fotografias antigas de que dispõe. Por que não podemos ver essas fotos também? Not cool, bro. Not cool.

Comentário final: 197 páginas em papel pólen. Xuxuxu Xaxaxau.

Vídeo: Cristóvão Tezza – O Professor

 

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Querem me calar, mas olha eu aqui de novo com um vídeo sobre esse escritor supimpa que nós temos e tanto já comentamos neste humilde espaço! Tem maçã, tem xiboquinha, tem Akira, tem moletom da Santa Cruz e tem muita alegria e descontração nesse vídeo sobre o último livro do Cristóvão Tezza: O Professor. Vai dar mole ou vai assistir e se inscrever no canal de uma vez? Tá bombando, gente, vem!
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Clica na imagem, filé. Tá difícil? Clica aqui então.

 

 O Professor cumpre as seguintes modalidades do Desafio Livrada 2014:

3- Um livro do seu autor favorito

11- Um livro publicado pela primeira vez neste ano

 

Comentário final: 240 páginas de puro calibre!

Vídeo: Edward Bunker – Educação de um Bandido (Education of a Felon)

Fala, macacada! Hoje a resenha é em vídeo também, e desde já gostaria de agradecer imensamente ao feedback recebido e a todos vocês que se inscreveram no canal. Com um vídeo, já estamos beirando as 150 assinaturas, mas precisamos continuar pro Google e seu filhote YouTube levarem a gente a sério. Então, por favor se inscrevam no canal do Livrada! É super fácil, ó: primeiro, você clica na imagem aí embaixo, depois, logado com a sua conta do Google, você clica no retângulo vermelho embaixo do vídeo onde diz “Inscrever-se”, e pronto! Não custa nada pra você, mas é uma mão na roda pra gente!

Estão gostando do nosso humilde vlog filmado na minha humilde residência? Acho que vou tirar o meu wheyzinho do fundo nos próximos vídeos, alguns de vocês ficaram muito chocados com ele. Whey é vida, galera! Deixem de manha. Peço desculpas por eventuais falhas técnicas, estamos todos aprendendo a fazer isso ainda, e a ideia é melhorar sempre.

Mas enfim, não era isso que vocês vieram ler aqui. Vocês querem saber sobre o Ed Bunker (o Mr. Blue do Cães de Aluguel) nessa deliciosa dica literária que vos deixo para essa semana. De resto, já sabem: curtam o vídeo, compartilhem, discutam na caixa de comentários, se quiser eu até respondo por lá!

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Clica na imagem, abestado.

Juan Pablo Villalobos – Festa no Covil (Fiesta en la Madriguera)

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Surprise, motherfucker! O livro de hoje vai ser comentado em vídeo. Esse é o primeiro videolog do Livrada!, e nele dou uns pitacos sobre esse maravilhoso livro desse maravilhoso escritor mexicano. Espero que gostem!

O Livrada! agora é um site multicanais, e apesar de sermos antigos no WordPress, somos novos no YouTube, por isso qualquer tráfego por lá é bem vindo. De maneira que é extremamente importante que, para dar prosseguimento a esse troço (que dá mais trabalho do que escrever um texto, vai por mim), vocês se inscrevam no canal, curtam o vídeo e comentem por lá. Ou, sei lá, não precisa curtir, mas comentem, linkem, compartilhem. Como diria um certo banco falcatrua, vamos fazer juntos?

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Isso é só uma imagem, amigo. Mas é só clicar nela que você vai direto pro vídeo.

Nikolai Gógol – A Briga dos Dois Ivans (Повесть о том, как поссорился Иван Иванович с Иваном Никифоровичем)

nikolai gogolDeutschland übber alles. Copa do Mundo no Brasil hoje já é parte do passado. Bora se concentrar no assunto que interessa? Obviamente que estou falando dos nossos queridos livrinhos a quem nós, nerdões, recorremos quando o mundo parece demasiadamente douchebag, o que é quase sempre. Antes de falar do livro de hoje, porém, gostaria de começar comentando a coleção que ele integra. Trata-se da Arte da Novela, um projetinho originalmente criado pela Melville House Publishing com enfoque em novelas! Sim, novelas! Novelas, novelas, novelas! Basicamente é uma coleção como a da Penguin, mas ainda mais minimalista e ainda mais bem selecionada. Aqui no Brasil foi publicada pela Grua, essa editora tão simpática que já lançou gente do naipe de Hansjörg Schertenleib (já resenhado aqui), e eles mantiveram o projeto gráfico da coleção original, então é as real as it gets. Eu, que não vim nesse mundo a passeio, pedi pros simpáticos editores me enviarem uns exemplares dessa coleção quando vi que ela saiu porque queria dar uma olhada nessa beleza e olha, vou dizer que não me arrependi.

O livrinho é pequeno, bonitinho, extremamente gráfico, com cabeço e paginação lateral, boa fonte e bom papel. Mandaram pra mim quatro deles: Freya das Sete Ilhas, do Joseph Conrad, A Lição do Mestre, do Henry James, Bartleby, o Escrevente (já resenhado aqui), do Melville, e este A Briga dos Dois Ivans, do Gogol, que foi o que eu escolhi pra ler primeiro por razões óbvias, né, galera? Aqui no Livrada! russo, gordinha, idoso e gestante têm assento preferencial sempre, e olha, quer me deixar feliz, me dá um livro do Gogol de presente. Desde que eu li o Tarás Bulba (já resenhado aqui), conheci um dos meus grandes novos autores favoritos, por uma série de razões que dizem mais respeito ao meu coração do que necessariamente a seus méritos literários, embora esses também sejam bem válidos pra todos os efeitos. Mas deles já falei em outros posts. Neste, vou falar porque Gógol é um autor também divertido.

A Briga dos Dois Ivans é uma novela, gente, já falei isso? Pois é. É uma história curtinha que não se pretende nada além do que está contando. É claro que a gente pode encarar a coisa toda como uma parábola moral ou uma metáfora pra outras coisas, mas pra quê? Vamos pelo menos uma vez na vida aproveitar o livro pelo que ele é, e no caso, é uma história divertidíssima sobre dois vizinhos que se chamam Ivan. Um chama Ivan Ivanovitch (pra vocês que não tão familiarizados com a língua russa, esse segundo nome, que é sempre o segundo nome dos russos, chama patronímico, e é dado a partir do nome do seu pai. Tipo, se você chama Euzébio e seu pai chama Jacinto seu nome vai ser Euzébio Jacintovitch, ou algo assim. Tá explicado, continuemos), e o outro chama Ivan Nikíforovich. O primeiro é falastrão e gosta de causar boa impressão, o segundo é calado, curto e grosso. A briga a que o título se refere acontece quando o Ivanovitch vai na casa do amigo interessado numa arma velha que ele viu a empregada pendurar no varal (é isso mesmo, não me pergunte por que essas coisas acontecem), e o sujeito falastrão acaba insistindo mais do que deve em comprar a tal arma que acaba emputecendo o outro, que manda uma grosseria que o desestabiliza emocionalmente ao ponto de cortarem relações de décadas. A partir daí começa uma disputa judicial e um joguinho de sabotagem estilo Pica-Pau e Zeca Urubu, até que a cidade inteira se envolve na parada e as pessoas se mobilizam para tentar reconciliar os amigos.

Микола ГогольViu só? Simples. Temos aí dois personagens, com um único traço marcante da personalidade de cada um, e a partir daí é possível desenvolver uma novela completa. Uma novela de menos de 100 páginas, mas uma novela. E o que é uma novela senão isso? Um conto de mais fôlego, uma coisa que se resolve em si, mas tem começo, meio e fim muito bem definidos, divididos em capítulos se for possível, e que não guarda maiores ambições do que ser uma boa história, via de regra. Assim é A Briga dos Dois Ivans, uma historia singela e engraçadinha. E Gógol, nessa levada, aproveita para esmiuçar aspectos da vida no interior – no caso, Mírgorod, a ciadade onde se passa a história. Lembram que comentei sobre Mírgorod quando resenhei Avenida Nievski? Mírgorod não só é a coletânea de histórias que ele escreveu (das quais Avenida Nievski e essa Briga dos Dois Ivans fazem parte, sendo esta a última história da coletânea) mas também uma cidade na Ucrânia, e sempre é mencionado nas novelas dele como a típica cidadezinha ucraniana, em oposição a Poltava, que é uma espécie de metrópole em eterna ascensão no imaginário das histórias, ou, sei lá, uma cidade maior a qual as pessoas do interior recorrem, tipo a relação entre Videira e Chapecó.

Peguem A Briga dos Dois Ivans e leiam numa sentada quando quiserem dar uma desopilada na cabeça. Afinal de contas, Gógol é um dos russos, e não é todo dia que você pode dar uma desopilada na cabeça lendo um russo. Primeiro que as pessoas fazem tudo menos ler quando querem dar uma desopilada, e segundo que, quando leem, preferem coisas estúpidas e muito mais levianas, e isso aqui é um Gógol. Isso é o equivalente a sofrer com o fim do relacionamento na Ilha de Caras. É coisa fina, pra gente fina. Pra quem pode, digamos. Faça como os famosos da Ilha de Caras e refresque a cuca com coisas finas. Falei, tá falado.

A Briga dos Dois Ivans cumpre a seguinte modalidade do Desafio Livrada 2014:

9- Um livro escrito em um alfabeto diferente do seu.

Comentário final: 91 páginas em papel pólen. Skavurska!

Bernardo Kucinski – K. – Relato de uma busca

Bernardo KucinskiNão sei quanto tempo faz que a gente não comenta um romance nacional aqui, e isso tem mais a ver com a minha pré-disposição para ler brasileiros contemporâneos do que propriamente com a qualidade da produção atual, embora saibamos desde já que nem um nem outro andam despontando exatamente pela excelência. Aí que uma leitora comentou aqui ainda ontem que tava sentindo falta desse tipo de livro por aqui e pensei, ora, por que não? Vamos ao que interessa, mas aviso desde já que tenho opiniões muito parciais sobre esse livro, e explico o porquê.

K. – Relato de uma Busca, o romance de estreia do jornalista Bernardo Kucinski, junta duas temáticas que eu, particularmente, odeio: história da ditadura militar e história de judeu. E odeio ambas não por uma falta de empatia com os protagonistas, pelo contrário, gosto deles, mas por uma overdose do gênero, já que são dois casos em que os sobreviventes são, hoje, o poder estabelecido no mundo. De qualquer forma, é meio complicado pra mim falar disso porque preciso ser sensível ao fato de que o romance de Kucisnki é, em grande parte, real, já que sua irmã desapareceu durante o período do regime burocrático-autoritário que vigorou neste país durante duas décadas, de modo que me perdoem desde já por ser insensível e analisar o livro como criação ficcional. Porque é a partir deste caso que o autor cria uma ficção que tem como protagonista seu próprio pai, que sai em busca da filha desaparecida e é enganado até se perder no labirinto engendrado da guerra psicológica militar contra os familiares dos subversivos.

É assim que ele sai e começa a receber pistas falsas de que sua filha está presa e depois não está mais presa, e ninguém nunca ouviu falar dela, e quem se propõe a ajudar na verdade é informante dos militares, e as notícias de que sua filha está na verdade em outro país ou em outra cidade começam a chegar pelo correio e todo mundo que se propõe a ajudar não consegue ou não quer mesmo ajudar e ele fica maluco tipo um personagem do Kafka – acho que é inclusive por isso que o protagonista do romance chama K., como os Kas do Kafka, perdidos em uma engenhoca burocrática kafkiana sem nenhuma esperança de sair dela algum dia. Ao mesmo tempo, lida com os sentimentos de culpa por ser um escritor meia-boca que escreve em íidiche, a decadente língua dos judeus pré-Estado de Israel e que por conta disso se afastou da família e não viu os filhos crescerem direito. O espanto de saber que a filha se envolvera com a luta armada e o desgosto por ser estigmatizado como parente de uma subversiva – até mesmo pelo rabino, que o impede de comprar um túmulo simbólico pra ela, e o pessoal da gráfica que não o deixa imprimir um livrinho em memória a ela.

Crédito: Carolina Ribeiro

Crédito: Carolina Ribeiro

Embora interessante, o livro traz muito pouca coisa nova na literatura da ditadura militar – bom lembrar que esse não é a primeira narrativa que parte do ponto de vista do familiar que busca o parente desaparecido. Além disso, há de se desconsiderar pensamentos extremados do autor, que em dados momentos insinua que a ditadura militar é pior do que o holocausto porque pelo menos os nazistas faziam registro de seus mortos, e dosar boa parte do maniqueísmo dos personagens, que são ou pobres vítimas do sistema dos militares ou sádicos que trabalham nessa por pura vocação e vontade imensa de fazer mal aos outros. Cada capítulo apresenta uma parte da engrenagem ou um tipo de personagem, e não posso dizer que a grande maioria deles é natural é bem construída.

Ainda assim, o livro se salva pela vida interna do protagonista e pela naturalidade com que expressa a angústia do pai que não sabe onde a filha está, e como a coisa é muito mais complicada do que parece. E pela coragem do autor em transformar um caso real e sofrido de sua história familiar em uma ficção.

A edição desse livro é uma beleza que só. Tem capa gráfica em papel cartão, umas fontes chamas Leitura e Tungsten, que não até que são boas à exceção dos itálicos, que deixam tudo muito ruim de ler, e um papel pólen soft de baixa gramatura pro miolo não ficar mais duro que a capa. O romance é cheio de notas de rodapé que explicam bastante o que não está ao alcance do leitor leigo, ou do leitor não-judeu, e de maneira geral, o texto é bem preparado. Ê!

Comentário final: 185 páginas em papel pólen soft. Ks do mundo, uni-vos!

Ian McEwan – Na Praia (On Chesil Beach)

on chesil beach

Bem-vindos ao post nº200 do Livrada! Tamo aí na atividade, contrariando as estatísticas.

Ian McEwan! Esse é o escritor que a garotada gosta de ler hoje em dia! E por quê, vocês me perguntariam. Por que um inglês metido a besta que escreve livros de títulos pomposos como Reparação (que no cinema vira Desejo e Reparação, uma vibe meio janeaustiana de fazer romances de saia frufru) e escreve esse romance curto de hoje faz tanto a cabeça da meninada? Vamos tentar responder a essa e a outras perguntas no post de hoje. E desde já, aviso: tem spoiler. Tem spoiler pra caralho, tem spoiler no teu cu, tem spoiler pra sempre.

Deixa eu ajeitar meu óculos aqui, botar minha cara de intelectual, e pronto. Bom, senhores, Na Praia poderia muito bem se chamar “Uma história sobre o casal mais travado do universo”, se os romances tivessem títulos explícitos assim. Mas não, o escritor sempre tem que colocar um título maneirinho, pra ser maneirinho e fazer maneirices enquanto escreve, de modo que você não sabe porque o livro chama Na Praia além do fato de se passar num balneário até mais ou menos o final dele, quando você mais ou menos saca porque ele chama Na Praia, mas também não tem muita certeza porque, por Deus, pro sujeito ter colocado um título enigmático desses, tem que ter mais de cinco significados pelo menos, não é? É mais ou menos assim que você pensa e aí está a parte do fascínio do autor, porque, tirando a parte do título, o resto do livro é bem fácil de entender, e você se sente lendo uma parada muito superior ao que você realmente acha que está lendo, mas acho que se eu explicitar a história um pouquinho vocês vão entender melhor do que eu tô falando.

Os dois personagens principais são Edward e Florence, um jovem casal que, no começo da década de 60, está em noite de núpcias e ambos são virgens. A partir daí, o escritor vai revelando o background dos dois, e quem lembra da minha última resenha, a do livro do Hemingway, pode trazer à baila aqui a questão da construção dos personagens. Pois bem, amigos, McEwan é um desses escritores que se empenham em construir personagens complexos pra caramba e partir deles, descrever uma única situação. Pois bem, ele é um underachiever sossegado na vida que tem muito pouca sorte com as mulheres em um momento de explosão de sexualidade e revoluções culturais a cada minuto. De modo que ele queria fazer parte da putaria, mas não pode porque não sabe chegar chegando. A mulher dele, por sua vez, Florence, é uma violinista esquisitona de uma família aristocrática. Ela é completamente assexuada e despreza a ideia de fazer sexo com alguém, mas hey, a sociedade bota pressão pra tanta coisa que vamo nessa, né? Só que a coisa dá tremendamente errado, o sujeito tem ejaculação precoce, a mina quase vomita de nojo de receber uma gozada na barriga e o que se segue é uma briga feia que bota em cheque tudo aquilo que eles deveriam gostar, mas não gostam. E aí aparece toda a questão de uma geração no meio do caminho da mudança, e o quanto esse negócio de mudança de paradigma e tradição faz uma bagunça na cabeça do peão quando os pilares vão caindo.

na praiaAcho que no final das contas, Na Praia é um livro que a galerinha curte porque 1- é curto. 2- fala de sexo. 3- é engraçado. 4- se pretende profundo e certeiro no recorte da geração. 5- tem personagens muito bem construídos e uma narrativa excelente. É impressionante a precisão da escolha de palavras dele para descrever as coisas mais complexas, é algo que eu gostaria de ter mas não tenho e todo mundo que lê esse site pode perceber isso sem maiores dificuldades.

Esse livro é da Companhia das Letras e tem uma capa linda assinada por um artista chamado Angelo Venosa, que na verdade é um escultor e tem um site legalzinho com as instalações dele, mas não tem essa pintura maneira (que eu espero que seja uma pintura, e não uma foto saturada), e por dentro é aquela coisa: fonte Electra (ainda adoro essa fonte, depois de todos esses anos) e pólen bold porque é isso o que você faz quando o livro é muito fino e o autor não é pouca merda. A tradução é do Bernardo Carvalho, que há de ser o que temos de melhor hoje em dia por essas bandas em termos de ficcionista, e se dão um texto pra um escritor consagrado traduzir é porque o sujeito não é pouca merda mesmo. Então fica aí a dica e a pressão que esse povo faz: leia McEwan.

Comentário final: 128 páginas em papel pólen bold. A propósito, li esse livro quando estava na minha terra natal: uma praia. Oh!

PS: ainda sinto falta dos comentários de vocês. Não apenas porque eu gosto de saber o que vocês pensam dos autores que eu resenho aqui, mas também porque isso ajuda a ranquear a página, então pense que o comentário é o riso pro palhaço 😀

Ernest Hemingway – Adeus às Armas (A Farewell to Arms)

farewell to armsSei que todo mundo vibra de emoção por aqui quando eu começo a falar de um clássico moderno da literatura. Quer dizer, saber, eu não sei. Eu suponho, já que geralmente são os comentários mais alardeados sobre o assunto, e não vejo ninguém vibrando por livros mais desconhecidos ou clássicos clássicos, desses que na grafia do português original é cheio de acento onde não deve. Bom, clássicos modernos são esses livros que todo mundo gosta de ler mas não necessariamente são tão bons assim. Alguns gostam mais e enchem de porrada quem fala mal e outros gostam menos e passam a vida esgueirando-se pelos cantos para não ser apontado e escurraçado na rua como “o sujeito que falou mal de Camus” ou “aquele cara que não curte Cortázar” e por aí vai. Fato é que é muito difícil identificar um clássico moderno como tal porque não há outro parâmetro a não ser o gosto popular e o quanto ele discutido em sala de aula por crianças que não têm idade para lê-lo. Mas, acredito eu, que Hemingway seja um desses autores clássicos modernos que alimentam a alma de pessoas intelectualmente díspares e frequentemente pelas mesmas razões.

Senão vejamos: Adeus às Armas foi publicado em 1929 e, salvo engano, foi um dos primeiros livros ambientados na Primeira Guerra Mundial, o que já mostra um delay grande da literatura em relação a outras artes representativas, porque o que surgiu de filme sobre o onze de setembro uns dois ou três anos depois não tá no gibi. Mas onde é que eu estava? Ah sim. Bom, Hemingway, no fim da Primeira Guerra, era um jovem mancebo de 17 anos, mas isso não o impediu de se alistar como motorista de ambulância na Itália. Coincidentemente, olha só, o protagonista do livro também é um americano motorista de ambulância na Itália a serviço dos italianos. Frederic Henry é um cara jovem e inacreditavelmente neutro para um protagonista. Não dá pra saber porcaria nenhuma sobre a personalidade dele pelas atitudes que ele tem, e isso não necessariamente quer dizer que ele seja imprevisível ou apático, apenas que o autor não teve muita preocupação com isso. Os personagens do Hemingway, de uma maneira geral, são muito rasos e levados pelos acontecimentos. Quase sempre têm um único traço de personalidade que é repetido ao extremo, mas não dá pra culpar o cara por isso porque primeiro que construir um bom personagem é uma tarefa tão difícil que tem escritor por aí que fica famoso só por causa disso sendo que a história em si é uma porcaria, e segundo que ele se interessa mesmo é em contar história.

Ernest HemingwayE essa história, que se passa na Primeira Guerra Mundial e tem como protagonista um motorista de ambulância americano a serviço do exército italiano chamado Frederic Henry, fala de um caso de amor entre esse cara em específico e uma enfermeira escocesa louca de pedra chamada Catherine Barkley depois que ele é ferido em campo de batalha. É basicamente isso, não tem muito pra contar da história além desse resumo básico. O que podemos dizer é que eles tentam viver juntos mas esse é um mundo enlouquecido pela guerra em que as pessoas fuzilam traidores que recuam e todos estão obcecados pelo poder e a Itália tá numa pior nessa guerra aí e precisando desesperadamente de ajuda e pra eles só resta a fuga para Suíça. E aí nesse parágrafo já coloquei mais spoiler do que vocês gostariam e não avisei que tem spoiler porque senão vocês ficam mal acostumados. Cresçam.

Bom, Adeus às Armas tem aquela coisa hemingwayniana de macho que também chora, macho que só quer ser feliz mas o mundo é mais macho que ele, macho machucado, macho derrotado porque não foi tão macho, macho que não tem medo de nada a não ser de outros machos mais machos e etc. Mas também é uma história singela e bonita, escrita naquele naturalismo maroto, sem qualquer retoque na narrativa, um troço meio jornalísitico que salta aos olhos e agrada a maioria das pessoas porque é muito fácil vencer 400 páginas assim. Eu mesmo que não ando dos leitores mais ágeis do mundo, li em uns três dias. Acho massa inclusive que o tom do livro é muito leve e meio que se antecipa à censura dos filmes americanos, já que o autor não menciona o sexo entre os personagens, mas apenas sugere com eufemismos e imediatamente corta pra cena seguinte. As cenas de morte, entretanto, são descritas muito bem. É, parece mesmo cinema americano. Inacreditável como os caras não têm problema nenhum com violência, mas não podem ver uma mulher pelada que saem gritando em nome da família e do bom comportamento. Mas isso é assunto pra outra hora.

A edição da Bertrand Brasil tá muito bonita, e finalmente faz jus ao autor. Fonte grande, capas gráficas, papel jornal amarelado e bonito, cabeço e paginação juntas no topo da página e a assinatura do mestre no lugar do nome dele. Achei bem melhor do que a coleção antiga, e parece que tá saindo mais. Vamos ficar de olho.

Comentário final: 402 páginas em papel jornal (ou tipo papel jornal, sei lá). Macho não vacila, macho arrasa, macho não leva desaforo pra casa.